EARLY DIAGNOSIS OF BIPOLAR DISORDER
DIAGNÓSTICO TEMPRANO DEL TRASTORNO BIPOLAR
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510171658
Lucas Eduardo Vicentini1
Antonio Cirilo de Almeida Neto1
Henrique Hicary Oliveira Morichita1
Erico Torrieri2
Resumo
Os avanços no conhecimento sobre o transtorno bipolar têm contribuído para melhorias no diagnóstico e no manejo clínico, incluindo o uso da quetiapina como recurso eficaz para controlar crises e estabilizar o humor. Apesar disso, persiste a dificuldade de assegurar um diagnóstico correto e uma conduta terapêutica adequada, especialmente em pacientes jovens. Além disso, verificou-se desorganização mental em 82% dos casos e sintomas psicóticos em 55% da amostra, sem variações relevantes entre adolescentes no início e no final dessa etapa de desenvolvimento. Observou-se ainda que a maioria já havia vivenciado episódios depressivos prévios, muitas vezes acompanhados de manifestações psicóticas marcantes. Esses dados indicam que, no transtorno bipolar de início na adolescência, tanto a desorganização mental quanto os sintomas psicóticos no primeiro episódio maníaco configuram sinais clínicos relevantes.
Embora o diagnóstico do transtorno bipolar (TB) seja, na maior parte dos casos, estabelecido na vida adulta, evidências científicas mostram que o início dos sintomas pode ocorrer ainda na infância ou adolescência, frequentemente com apresentações clínicas variadas e intensas. Além das manifestações clínicas, a predisposição genética desempenha papel relevante na evolução do TB.
Sintomas emocionais e comportamentais iniciais como irritabilidade, episódios mistos e traços psicóticos leves podem sinalizar estágios precoces do TB e justificar intervenções preventivas. Nesse contexto, frente à complexidade clínica e às barreiras diagnósticas, ferramentas de rastreamento e modelos preditivos emergem como recursos relevantes na psiquiatria de precisão.
Diante das evidências reunidas, observa-se a convergência para um modelo de risco integrado para o transtorno bipolar, que incorpora aspectos genéticos, ambientais, neurocognitivos, emocionais e estruturais. Essa visão enfatiza a importância de reconhecer precocemente sinais subclínicos em populações suscetíveis sobretudo descendentes de pessoas com TB e de utilizar ferramentas objetivas, como avaliações neuropsicológicas e algoritmos preditivos, para apoiar decisões clínicas.
Palavra chave: Diagnóstico precoce, Transtorno bipolar(TB), Manifestações clínicas.
Abstract
Advances in knowledge about bipolar disorder have contributed to improvements in diagnosis and clinical management, including the use of quetiapine as an effective tool for controlling crises and stabilizing mood. Despite this, ensuring a correct diagnosis and appropriate therapeutic approach remains difficult, especially in young patients. Furthermore, mental disorganization was observed in 82% of cases and psychotic symptoms in 55% of the sample, with no significant variations between adolescents at the beginning and end of this developmental stage. It was also observed that the majority had already experienced previous depressive episodes, often accompanied by marked psychotic manifestations. These data indicate that, in adolescent-onset bipolar disorder, both mental disorganization and psychotic symptoms in the first manic episode constitute relevant clinical signs.
Although the diagnosis of bipolar disorder (BD) is, in most cases, established in adulthood, scientific evidence shows that the onset of symptoms can occur in childhood or adolescence, often with varied and intense clinical presentations. In addition to clinical manifestations, genetic predisposition plays a significant role in the progression of BD.
Early emotional and behavioral symptoms such as irritability, mixed episodes, and mild psychotic traits may signal early stages of BD and warrant preventive interventions. In this context, given clinical complexity and diagnostic barriers, screening tools and predictive models are emerging as relevant resources in precision psychiatry.
Given the evidence gathered, there is a convergence toward an integrated risk model for bipolar disorder that incorporates genetic, environmental, neurocognitive, emotional, and structural aspects. This perspective emphasizes the importance of early recognition of subclinical signs in susceptible populations, especially descendants of people with BD, and of using objective tools, such as neuropsychological assessments and predictive algorithms, to support clinical decisions.
Keywords: Early diagnosis, Bipolar disorder (BD), Clinical manifestations.
RESUMEN
Los avances en el conocimiento del trastorno bipolar han contribuido a mejoras en el diagnóstico y el tratamiento clínico, incluyendo el uso de quetiapina como herramienta eficaz para controlar las crisis y estabilizar el estado de ánimo. A pesar de ello, garantizar un diagnóstico correcto y un enfoque terapéutico adecuado sigue siendo difícil, especialmente en pacientes jóvenes. Además, se observó desorganización mental en el 82% de los casos y síntomas psicóticos en el 55% de la muestra, sin variaciones significativas entre los adolescentes al inicio y al final de esta etapa del desarrollo. También se observó que la mayoría ya había experimentado episodios depresivos previos, a menudo acompañados de manifestaciones psicóticas marcadas. Estos datos indican que, en el trastorno bipolar de inicio en la adolescencia, tanto la desorganización mental como los síntomas psicóticos en el primer episodio maníaco constituyen signos clínicos relevantes.
Aunque el diagnóstico del trastorno bipolar (TB) se establece, en la mayoría de los casos, en la edad adulta, la evidencia científica demuestra que la aparición de los síntomas puede ocurrir en la infancia o la adolescencia, a menudo con presentaciones clínicas variadas e intensas. Además de las manifestaciones clínicas, la predisposición genética desempeña un papel importante en la progresión del TB. Los síntomas emocionales y conductuales tempranos, como la irritabilidad, los episodios mixtos y los rasgos psicóticos leves, pueden indicar las primeras etapas del trastorno bipolar y justificar intervenciones preventivas. En este contexto, dada la complejidad clínica y las barreras diagnósticas, las herramientas de cribado y los modelos predictivos se están convirtiendo en recursos relevantes en la psiquiatría de precisión.
Dada la evidencia recopilada, existe una convergencia hacia un modelo de riesgo integrado para el trastorno bipolar que incorpora aspectos genéticos, ambientales, neurocognitivos, emocionales y estructurales. Esta perspectiva enfatiza la importancia del reconocimiento temprano de signos subclínicos en poblaciones susceptibles, especialmente en los descendientes de personas con trastorno bipolar, y del uso de herramientas objetivas, como evaluaciones neuropsicológicas y algoritmos predictivos, para respaldar las decisiones clínicas.
Palabra clave: Diagnóstico precoz, Trastorno bipolar (TB), Manifestaciones clínicas.
Introdução
O Transtorno Bipolar (TB) é uma condição psiquiátrica marcada por oscilações intensas no estado de humor, alternando períodos de exaltação ou euforia com fases de depressão, intercaladas, por vezes, por intervalos de estabilidade. Distinguem-se dois subtipos principais: o tipo I, caracterizado pela presença de episódios maníacos, e o tipo II, no qual ocorrem episódios de hipomania — elevação do humor de menor intensidade e duração. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al). Os parâmetros diagnósticos atuais para o tipo I refletem o entendimento contemporâneo do que, no passado, era chamado de transtorno maníaco-depressivo ou psicose afetiva. É comum que indivíduos que vivenciam um episódio maníaco apresentem, em algum momento da vida, episódios de depressão maior. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al).
No tipo II, a definição inclui pelo menos um episódio de hipomania e um ou mais episódios de depressão maior. Essa forma deixou de ser vista como uma variante “mais branda” do tipo I, principalmente porque pacientes desse grupo tendem a permanecer longos períodos em estado depressivo e, frequentemente, enfrentam dificuldades significativas tanto na vida profissional quanto nas relações interpessoais. (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al).
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30 milhões de pessoas no mundo vivem com TB, tornando-o uma das condições mais incapacitantes. No Brasil, dados obtidos em São Paulo indicam que, ao considerar todos os subtipos, a prevalência ao longo da vida é de 1%, enquanto a taxa anual é de 0,5%. Além disso, há maior probabilidade de início da doença em adultos jovens, com pelo menos metade dos casos diagnosticados antes dos 25 anos. (Bosaipo et al., 2017).
O transtorno bipolar (TB/BD) é um distúrbio do humor de origem multifatorial, reconhecido por sua alta complexidade e gravidade clínica. Quando se manifesta precocemente, especialmente em jovens, tende a gerar repercussões severas, como elevação dos custos com cuidados em saúde, prejuízos psicossociais e maior probabilidade de comportamento suicida. (Gianotti & Nunes, 2019). Essa complexidade contribui para que o diagnóstico seja frequentemente postergado, resultando, em muitos casos, em um intervalo prolongado entre os primeiros sinais e o início de um tratamento adequado. Achados de pesquisas clínicas e experimentais reforçam a importância de promover a detecção antecipada e iniciar rapidamente as intervenções terapêuticas. (Taylor et al., 2011). Nesse cenário, tem aumentado o interesse em identificar indivíduos com maior risco de desenvolver o transtorno, de forma que o reconhecimento precoce de sinais iniciais ou pródromos possa permitir estratégias preventivas mais eficazes.
Na prática psiquiátrica, a demora para chegar a um diagnóstico preciso representa um dos maiores obstáculos, atrasando a adoção de condutas terapêuticas adequadas. Não é incomum que o TB seja confundido com esquizofrenia, especialmente quando há episódios psicóticos. Em outras situações, a apresentação clínica se restringe a sintomas depressivos, o que dificulta o reconhecimento do quadro — sobretudo quando manifestações como irritabilidade, impulsividade ou hiperatividade passam despercebidas. (Moreira et al., 2024). Como problema de saúde pública, o transtorno bipolar afeta cerca de 1% da população. Entretanto, ao incluir as formas mais brandas, classificadas como espectro bipolar, estudos indicam que a prevalência pode alcançar até 6% da população geral. (Moreira et al., 2024).
Apesar dos avanços no conhecimento sobre o transtorno bipolar, os erros diagnósticos ainda são frequentes, e, em média, podem se passar cerca de 10 anos até que o quadro seja corretamente identificado e o tratamento apropriado seja iniciado — situação mais evidente quando os sintomas surgem precocemente. Por isso, compreender com maior precisão as manifestações do TB na adolescência é essencial para favorecer tanto a identificação precoce quanto o diagnóstico diferencial em relação a outras condições psiquiátricas. Na rotina dos serviços de saúde, entretanto, o diagnóstico segue ocorrendo de forma tardia. Um levantamento internacional com pacientes ambulatoriais bem caracterizados revelou um atraso médio de 10 anos entre o início dos sintomas e a primeira intervenção terapêutica.
Dados de grupos de apoio norte-americanos apontam padrão semelhante: um terço dos participantes informou ter aguardado mais de uma década por um diagnóstico correto. Na Austrália, um estudo retrospectivo envolvendo mais de 200 indivíduos constatou que, embora os primeiros sintomas aparecessem em média aos 18 anos e o tratamento se iniciasse por volta dos 24 anos, a idade média do diagnóstico era de 30 anos. Em ambos os casos, a depressão unipolar foi o diagnóstico inicial mais frequente. (Moreira et al., 2024). Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), citados por Garcia, Melgaço e Trajano (2022), o TB afeta aproximadamente 30 milhões de pessoas no mundo, sendo classificado entre as doenças de maior impacto incapacitante. As estimativas indicam prevalência de 0,6% para o tipo I e 0,4% para o tipo II, alcançando 2,4% quando todo o espectro bipolar é considerado. No Brasil, a média estimada, considerando todos os subtipos, é de cerca de 1%. (Mundim Filho et al., 2023).
Objetivo
O propósito central deste estudo é analisar os recursos atualmente existentes para a detecção precoce do transtorno bipolar, enfatizando sua importância na prevenção de diagnósticos incorretos e terapias inadequadas. A identificação antecipada da condição favorece uma convivência social mais estável e contribui para minimizar prejuízos de natureza pessoal e profissional. Quanto mais cedo o transtorno é reconhecido, menores são as chances de danos significativos, tanto para o indivíduo acometido quanto para o contexto social em que está inserido.
Metodologia
Será realizada uma revisão bibliográfica integrativa com foco em publicações que tratem do diagnóstico precoce do transtorno bipolar. A pesquisa utilizará os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) “Transtorno bipolar” e “Diagnóstico precoce”, aplicados nas bases de dados SCIELO, BVS e PUBMED.
Figura 1: Fluxograma do processo de seleção dos estudos, estruturado de acordo com as orientações do PRIS.

Resultado e discussão



Os avanços no conhecimento sobre o transtorno bipolar têm contribuído para melhorias no diagnóstico e no manejo clínico, incluindo o uso da quetiapina como recurso eficaz para controlar crises e estabilizar o humor. Apesar disso, persiste a dificuldade de assegurar um diagnóstico correto e uma conduta terapêutica adequada, especialmente em pacientes jovens. No estudo de FU-I, Lee et al., adolescentes internados com diagnóstico de transtorno bipolar apresentaram, de forma recorrente, sintomas maníacos clássicos, como euforia, grandiosidade e agitação psicomotora.
Além disso, verificou-se desorganização mental em 82% dos casos e sintomas psicóticos em 55% da amostra, sem variações relevantes entre adolescentes no início e no final dessa etapa de desenvolvimento. Observou-se ainda que a maioria já havia vivenciado episódios depressivos prévios, muitas vezes acompanhados de manifestações psicóticas marcantes. Esses dados indicam que, no transtorno bipolar de início na adolescência, tanto a desorganização mental quanto os sintomas psicóticos no primeiro episódio maníaco configuram sinais clínicos relevantes.
Outro ponto observado foi que episódios depressivos com traços psicóticos podem anteceder a mania com sintomas psicóticos. Entretanto, em casos de primeiro episódio psicótico de início precoce, o diagnóstico diferencial com esquizofrenia deve ser cuidadosamente considerado. De acordo com ROCCA, Cristiana CA et al., todas as subescalas do Inventário de Hostilidade Infantil (CHI) que apresentaram diferenças significativas — exceto a de suspeita — evidenciaram maior comprometimento no grupo com transtorno bipolar pediátrico (PBD), caracterizado por dificuldade de autorregulação, hostilidade e comportamento agressivo mais acentuado em comparação ao grupo controle. Não foram identificadas diferenças significativas entre o grupo PBD e filhos saudáveis de pessoas com transtorno bipolar (HOBD).
Conforme descrito por ASkeland, Ragna Bugge et al., o transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica complexa que, na maioria das vezes, é diagnosticada no início da idade adulta. Essa enfermidade afeta o humor, o nível de energia, o padrão de atividade e a capacidade de concentração, sendo marcada por episódios de mania, hipomania e depressão severa. Apesar de apresentar um quadro clínico relativamente bem caracterizado, o diagnóstico incorreto ainda é frequente, resultando em condutas terapêuticas inadequadas ou iniciadas tardiamente, o que contribui para elevar a morbidade e a mortalidade relacionadas.
Pesquisas de natureza observacional indicam que a intervenção precoce pode influenciar positivamente a evolução da doença e melhorar seus desfechos, ao passo que o atraso no início do tratamento está vinculado a piores resultados. Assim, a identificação antecipada de sinais de risco e a adoção de estratégias de intervenção mais eficazes são medidas fundamentais. O componente genético associado ao transtorno bipolar pode se manifestar por alterações no neurodesenvolvimento ou por características emocionais e comportamentais, que podem se apresentar tanto de forma clínica quanto subclínica e estar presentes na população geral.
O momento e a forma como essas relações se estabelecem podem fornecer pistas importantes para o reconhecimento precoce do transtorno bipolar. Pesquisas prospectivas com indivíduos considerados de alto risco — como filhos de pessoas diagnosticadas com a condição — indicam que a prevalência é equivalente entre homens e mulheres. De acordo com Valencia-Echeverry, Johanna et al., quando comparados ao grupo controle de pais e filhos (CO), os descendentes de pacientes com transtorno bipolar (BO) apresentaram desempenho inferior em diferentes aspectos das funções executivas, especialmente em tarefas que exigem controle da atenção, flexibilidade cognitiva e memória operacional. Esses resultados se repetiram em todas as faixas etárias analisadas, sugerindo que tais déficits persistem desde a infância até a vida adulta e podem representar um endofenótipo associado ao transtorno.
Eraso-Osorio, Juan Jose et al. identificaram que, em comparação ao grupo Controle Comunitário de Descendentes (CCO), os descendentes de indivíduos bipolares (BO) apresentaram maior prevalência de transtornos afetivos, psicóticos, externalizantes e de uso de substâncias psicoativas em ambas as avaliações realizadas (momentos 1 e 2). Além disso, constatou-se que a diferença entre os grupos aumentou com o passar do tempo, reforçando a hipótese de maior vulnerabilidade clínica no grupo BO.
O grupo BO apresentou maior propensão ao surgimento de sintomas subliminares e ao desenvolvimento de transtornos psiquiátricos diagnosticados, como transtornos afetivos, psicóticos e externalizantes, além de iniciar o uso de substâncias psicoativas em idade mais jovem. Ao longo do acompanhamento, esse grupo manteve risco mais elevado de desenvolver condições mentais quando comparado ao CCO. Entre as manifestações que mais frequentemente antecederam o transtorno bipolar, destacaram-se episódios depressivos, transtornos bipolares não especificados, sintomas psicóticos e uso de substâncias.
Conforme descrito por Pouchon, A. et al., os fatores genéticos que contribuem para o risco de TB incluem histórico familiar da doença e determinados perfis de temperamento afetivo, como ciclotímico, depressivo, ansioso ou disfórico. No campo dos fatores ambientais pré-natais, ressaltam-se o estresse materno, o tabagismo, infecções virais e, no período periparto, eventos como parto prematuro e cesárea. Além disso, foram descritas manifestações clínicas específicas que auxiliam na estimativa de risco para TB em indivíduos com depressão, sendo comuns, no primeiro episódio maníaco, a irritabilidade, os sintomas mistos e a presença de características psicóticas.
Estudos indicam que filhos de pessoas com diagnóstico de transtorno bipolar possuem cerca de 50% de chance de desenvolver a condição, especialmente durante a adolescência ou no início da idade adulta. Além disso, indivíduos que apresentam outros fatores de risco — como sinais iniciais de psicose ou episódios depressivos — devem ser incluídos entre as populações prioritárias para triagem da doença. De acordo com Duarte, Juliana A. et al., pacientes com TB, independentemente do estágio clínico, exibiram diminuição significativa nos volumes do corpo caloso (CC) e da massa branca (MB) total quando comparados aos controles. Já o volume da massa cinzenta (MC) não apresentou alterações relevantes nas fases iniciais, mas mostrou-se consideravelmente reduzido em estágios mais avançados.
Essa redução da massa cinzenta nos estágios tardios está alinhada à teoria da neuroprogressão. Conforme Rabelo-da-Ponte, Francisco Diego et al., na coorte investigada, foram identificados 107 casos de TB tipo I, 26 de TB tipo II e 87 de TB não especificado. Entre os indivíduos com diagnóstico, 58,82% eram do sexo feminino, em contraste com 53,02% no grupo sem a doença. O estudo também desenvolveu uma calculadora de risco para TB, integrando dados clínicos e demográficos obtidos ao longo de 22 anos de acompanhamento de uma coorte de nascimentos.
Segundo Walsh, Colin G. et al., ao analisar a variação dos limites percentuais de risco — considerando múltiplos algoritmos e diferentes contextos institucionais — verificou-se que a especificidade estava fortemente relacionada a tais limites. Em contrapartida, a sensibilidade (recall) tendia a diminuir, enquanto o valor preditivo positivo (VPP) aumentava. Modelos preditivos para o transtorno bipolar com boa capacidade de generalização, treinados e validados em distintos sistemas de saúde, representam metas viáveis para iniciativas de medicina clínica e de precisão, mesmo sem total padronização dos dados entre as instituições. Tais abordagens possuem relevância estratégica, pois podem acelerar investigações sobre risco de TB, impulsionar estudos farmacoepidemiológicos e viabilizar o uso de modelos semelhantes como fenótipos probabilísticos em pesquisas na área de medicina de precisão.
A síntese dos artigos (1 a 5) mostra que indivíduos com transtorno bipolar apresentam, com frequência, sintomas psicóticos, comportamentos hostis e déficits cognitivos, reforçando que a detecção precoce é essencial para mitigar impactos sobre a saúde mental. Os artigos (6 e 8) indicam que descendentes de pessoas com TB possuem maior prevalência da doença, sendo que mulheres apresentam tendência aumentada para o subtipo tipo II. O artigo (7) demonstra que, independentemente do subtipo, há redução nos volumes do corpo caloso e da massa branca em comparação aos controles, sem alterações significativas na massa cinzenta. Já o artigo (9) destaca que o diagnóstico antecipado pode reduzir equívocos diagnósticos e favorecer intervenções mais direcionadas ao quadro do paciente.
Discussão
Embora o diagnóstico do transtorno bipolar (TB) seja, na maior parte dos casos, estabelecido na vida adulta, evidências científicas mostram que o início dos sintomas pode ocorrer ainda na infância ou adolescência, frequentemente com apresentações clínicas variadas e intensas. Fu-I, Lee et al. observaram que adolescentes hospitalizados com TB manifestavam, com frequência, sintomas maníacos acompanhados de sinais psicóticos — incluindo euforia, grandiosidade, agitação psicomotora e desorganização — e que a maioria já havia passado por episódios depressivos com sintomas psicóticos. Esses achados sustentam a possibilidade de que sintomas psicóticos antecedam ou surjam simultaneamente ao primeiro episódio maníaco, caracterizando um curso precoce e de maior gravidade, com considerável sobreposição a quadros psicóticos primários.
Além das manifestações clínicas, a predisposição genética desempenha papel relevante na evolução do TB. Pouchon et al. apontam que filhos de pessoas diagnosticadas com o transtorno apresentam até 50% de risco de desenvolvê-lo, sobretudo quando expostos a condições ambientais adversas no período perinatal, como estresse materno, infecções, prematuridade ou parto cesáreo. Essa combinação de vulnerabilidade genética e fatores ambientais reforça a importância do acompanhamento clínico em grupos de risco. Conforme Eraso-Osorio et al., descendentes de indivíduos com TB apresentam maior incidência de transtornos afetivos, psicóticos, externalizantes e início precoce no uso de substâncias, desde a infância até a fase adulta. Evidências provenientes de estudos neuropsicológicos e de neuroimagem corroboram a presença de marcadores precoces e possíveis endofenótipos ligados ao transtorno.
Valencia-Echeverry et al. verificaram que filhos de pessoas com diagnóstico de transtorno bipolar apresentam prejuízos em funções executivas — incluindo atenção, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva — independentemente da idade avaliada. Por se manterem estáveis e surgirem antes do início do quadro clínico, essas alterações podem representar importantes marcadores neurocognitivos para identificação precoce. Complementando esse panorama, Duarte et al. relataram alterações estruturais marcantes, como a redução do corpo caloso e da massa branca nas fases iniciais e a diminuição da massa cinzenta em estágios avançados, sustentando a hipótese da neuroprogressão, segundo a qual as mudanças cerebrais se intensificam com a evolução do transtorno.
No aspecto comportamental e emocional, Rocca et al. constataram que crianças com TB apresentam maior dificuldade de autorregulação, associada a níveis mais altos de hostilidade e agressividade em comparação a controles. Essas mesmas características foram identificadas em filhos de bipolares sem diagnóstico formal, sugerindo a presença de sinais subclínicos que requerem vigilância.
Sintomas emocionais e comportamentais iniciais — como irritabilidade, episódios mistos e traços psicóticos leves — podem sinalizar estágios precoces do TB e justificar intervenções preventivas. Nesse contexto, frente à complexidade clínica e às barreiras diagnósticas, ferramentas de rastreamento e modelos preditivos emergem como recursos relevantes na psiquiatria de precisão. Rabelo-da-Ponte et al. criaram uma calculadora de risco baseada em informações demográficas e clínicas coletadas de coortes de nascimento, enquanto Walsh et al. demonstraram que modelos preditivos generalizáveis para TB, treinados em diferentes sistemas de saúde e mesmo sem total uniformidade dos dados, alcançam bons resultados de sensibilidade e valor preditivo positivo, sendo úteis para triagens clínicas e estudos epidemiológicos em larga escala.
Diante das evidências reunidas, observa-se a convergência para um modelo de risco integrado para o transtorno bipolar, que incorpora aspectos genéticos, ambientais, neurocognitivos, emocionais e estruturais. Essa visão enfatiza a importância de reconhecer precocemente sinais subclínicos em populações suscetíveis — sobretudo descendentes de pessoas com TB — e de utilizar ferramentas objetivas, como avaliações neuropsicológicas e algoritmos preditivos, para apoiar decisões clínicas. A implementação de estratégias preventivas precoces e multifacetadas pode influenciar positivamente a trajetória da doença, atenuar a morbidade associada e possibilitar terapias mais eficazes e adaptadas às necessidades individuais ao longo da vida.
Conclusão
O transtorno bipolar configura-se como uma condição do humor de alta complexidade e gravidade, capaz de provocar impactos significativos, especialmente em indivíduos jovens. Entre as consequências, destacam-se o aumento dos custos para o sistema de saúde, prejuízos nas relações sociais e profissionais e maior risco de comportamento suicida. A natureza multifacetada da doença frequentemente retarda o diagnóstico, prolongando o tempo até o início de uma intervenção adequada. Estudos reforçam que identificar precocemente a condição, iniciar o tratamento rapidamente e mapear indivíduos com maior probabilidade de desenvolver o transtorno são medidas essenciais.
O aprofundamento das pesquisas sobre o TB em faixas etárias mais jovens tem contribuído para o refinamento dos critérios diagnósticos e para o avanço de abordagens terapêuticas mais efetivas. Ainda assim, a precisão diagnóstica e a escolha do manejo mais apropriado permanecem como desafios consideráveis, levando, não raramente, a interpretações equivocadas. No contexto pediátrico e adolescente, esses desafios se ampliam pela necessidade de critérios diagnósticos mais rigorosos e de opções terapêuticas que combinem eficácia e segurança. Entre as alternativas disponíveis, a quetiapina tem apresentado bons resultados no controle de crises e na estabilização do humor. Em resumo, o reconhecimento precoce e o tratamento direcionado do transtorno bipolar nessa população são fundamentais para promover um prognóstico mais favorável.
Referências:
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais [recurso eletrônico] : DSM-5 / [American Psychiatric Association ; tradução: Maria Inês Corrêa Nascimento … et al.] ; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli … [et al.]. – 5. ed. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2014.
BOSAIPO, Nayanne Beckmann; BORGES, Vinícius Ferreira; JURUENA, Mario Francisco. Transtorno bipolar: uma revisão dos aspectos conceituais e clínicos. Medicina (Ribeirão Preto), v. 50, n. 1, p. 72-84, 2017.
GIANOTTI, Fernanda Scelza; NUNES, Carlos Pereira. Diagnóstico precoce do transtorno bipolar. Revista de Medicina de Família e Saúde Mental, v. 1, n. 1, 2019.
TAYLOR, Matthew et al. Intervenção precoce no transtorno bipolar: necessidades atuais, rumos futuros. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 33, p. s197-s212, 2011.
MOREIRA, Caique Nunes; OLIVEIRA, Carla Resende Vaz; DE FIGUEIREDO JÚNIOR, Hélcio Serpa. O DIAGNÓSTICO PRECOCE EM PACIENTES PORTADORES DE TRANSTORNO BIPOLAR: UMA REVISÃO DE LITERATURA. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 10, n. 3, p. 565-576, 2024.
MUNDIM FILHO, Marco Tulio et al. Transtorno bipolar: uma análise abrangente dos aspectos clínicos e terapêuticos. Brazilian Journal of Health Review, v. 6, n. 5, p. 22973-22985, 2023.
1 Graduação em medicina da Faculdade de Dracena – UNIFADRA.
Fundação de Ensino, Desenvolvimento e Assistência Cultural – Dracena – SP, CEP: 17910-106 – Brasil.
2Autor Correspondente: Erico Torrieri.
