REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511052002
Lana Miranda Farias
Iziane Lima De Souza
Patricia Santos De Souza Moreira
Orientadora: Gabrielle Sales de Medeiros
RESUMO
Este trabalho analisa o papel do biomédico no enfrentamento do vírus da imunodeficiência humana (HIV) com ênfase nas técnicas laboratoriais aplicadas ao diagnóstico, controle e monitoramento da infecção. Destacam-se métodos como a quantificação da carga viral, contagem de linfócitos CD4+, testes sorológicos e moleculares, além do acompanhamento de usuários das profilaxias pré e pós-exposição (PrEP e PEP). A atuação biomédica é abordada como essencial não apenas no aspecto técnico, mas também na orientação e aconselhamento dos pacientes, contribuindo para a prevenção da infecção e a promoção da qualidade de vida. O trabalho também discute os avanços recentes no desenvolvimento de vacinas experimentais e terapias profiláticas de longa duração, como os injetáveis de ação estendida, ressaltando a importância do biomédico na avaliação da eficácia e segurança dessas novas abordagens. Por fim, apresenta dados epidemiológicos atualizados, com foco na realidade brasileira, evidenciando a relevância da atuação laboratorial para o controle da epidemia.
Palavras-chave: HIV, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, Diagnóstico laboratorial, Prevenção, Carga Viral, AIDS, Biomédico.
ABSTRACT
This study analyzes the role of biomedical professionals in tackling Human Immunodeficiency Virus (HIV), with emphasis on laboratory techniques used for diagnosis, control, and infection monitoring. Key methods include viral load quantification, CD4+ T lymphocyte counting, serological and molecular testing, and monitoring of users of pre- and post-exposure prophylaxis (PrEP and PEP). The biomedical professional plays a vital role not only in technical procedures but also in patient guidance and counseling, contributing to infection prevention and the promotion of quality of life. The research also discusse recent advances in experimental vaccine development and long-acting prophylactic therapies, such as extended-release injectables, highlighting the biomedical scientist’s role in evaluating the effectiveness and safety of these innovations. Finally, updated epidemiological data from Brazil are presented, reinforcing the importance of laboratory work in controlling the HIV epidemic.
Keywords: HIV, Acquired Immunodeficiency Syndrome, Laboratory Diagnosis, Prevention, Viral Load, AIDS, Biomedical Scientist.
RESUMEN
Este trabajo analiza el papel del biomédico en el enfrentamiento del Virus de la Inmunodeficiencia Humana (VIH), con énfasis en las técnicas de laboratorio utilizadas para el diagnóstico, control y monitoreo de la infección. Se destacan métodos como la cuantificación de la carga viral, el conteo de linfocitos CD4+, las pruebas serológicas y moleculares, así como el seguimiento de los usuarios de las profilaxis pre y post-exposición (PrEP y PEP). La actuación del biomédico se considera fundamental tanto en el aspecto técnico como en la orientación y consejería de los pacientes, contribuyendo a la prevención del virus y a la promoción de la calidad de vida. Además, se abordan los avances recientes en el desarrollo de vacunas experimentales y terapias profilácticas de acción prolongada, como los inyectables de liberación extendida, destacando el papel del biomédico en la evaluación de la eficacia y seguridad de estas nuevas tecnologías. Finalmente, se presentan datos epidemiológicos actualizados de Brasil, resaltando la relevancia del trabajo de laboratorio en el control de la epidemia.
Palabras clave: VIH. Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida. Diagnóstico de laboratorio. Prevención. Carga viral. SIDA. Biomédico.
1 INTRODUÇÃO
1.1 Contextualização e Problematização
A infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), agente etiológico da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS ), permanece como um dos principais desafios globais de saúde pública, com cerca de 38 milhões de pessoas vivendo com o vírus em 2022 (UNAIDS, 2023). Apesar dos significativos avanços no diagnóstico, tratamento e prevenção, a epidemia do HIV ainda apresenta alta incidência em diversas regiões do mundo, incluindo o Brasil, exigindo ações integradas de saúde pública, vigilância epidemiológica e educação em saúde. No país, especialmente no estado do Amazonas, persistem elevados índices de novos casos, impulsionados por desigualdades sociais, limitações no acesso aos serviços de saúde e dificuldades na adesão ao tratamento antirretroviral (BRASIL, 2023).
Nas últimas décadas, a infecção pelo HIV deixou de ser considerada uma condição fatal e passou a ser manejada como uma doença crônica tratável, graças aos avanços terapêuticos, especialmente com a introdução da terapia antirretroviral (TARV) e o fortalecimento do diagnóstico precoce (Fernandes & Bruns, 2021). Nesse contexto, o profissional biomédico tem desempenhado um papel cada vez mais estratégico, atuando na linha de frente das ações laboratoriais voltadas ao diagnóstico, controle e monitoramento da infecção, bem como no suporte à prevenção.
O biomédico exerce funções essenciais na quantificação da carga viral e na contagem de linfócitos CD4+ — parâmetros indispensáveis para o acompanhamento clínico —, além de participar diretamente da realização de testes rápidos, sorológicos e moleculares. Sua atuação também se estende à testagem, aconselhamento e ao monitoramento de usuários da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Pós-Exposição (PEP), estratégias fundamentais de prevenção combinada, cuja efetividade depende de uma abordagem laboratorial precisa e constante (BRASIL, 2022).
Adicionalmente, a atuação biomédica contribui de forma significativa para o fortalecimento das políticas públicas de enfrentamento ao HIV, integrando equipes multidisciplinares, promovendo ações de educação em saúde e atuando na vigilância epidemiológica, aspectos cruciais para o alcance das metas globais estabelecidas pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS, 2022). Estudos recentes, como os de Oliveira et al. (2024) e Bernardes, Bonani e Soares (s.d.), destacam a importância do trabalho biomédico tanto na esfera técnica quanto na humanização do cuidado às pessoas vivendo com HIV.
Dessa forma, compreender a atuação do biomédico diante da epidemia de HIV no Brasil é fundamental para ampliar a efetividade das estratégias de prevenção, melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reforçar o compromisso com a eliminação da AIDS como ameaça à saúde pública até 2030. Considerando o papel essencial do diagnóstico laboratorial na detecção precoce, monitoramento clínico e avaliação da resposta terapêutica em pessoas vivendo com HIV, torna-se indispensável o incentivo à produção científica voltada a essa área. A ampliação de estudos e publicações sobre o diagnóstico laboratorial contribui não apenas para o aprimoramento das técnicas e da atuação biomédica, mas também para o fortalecimento das políticas públicas de saúde e o alcance das metas globais de eliminação da AIDS até 2030. Assim, fomentar novos artigos e pesquisas sobre o tema é fundamental para consolidar o protagonismo do profissional biomédico e aprimorar as estratégias de enfrentamento à epidemia do HIV no Brasil.
2 JUSTIFICATIVA
O enfrentamento ao vírus da imunodeficiência humana (HIV) continua sendo um grande desafio para a saúde pública brasileira, especialmente nas regiões que enfrentam desigualdades sociais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde, como o estado do Amazonas. O aumento constante de novos casos nessa região demonstra a necessidade de fortalecer as ações de prevenção, diagnóstico e acompanhamento clínico, promovendo estratégias mais eficazes de controle da infecção.
A realidade amazônica apresenta características que agravam o cenário epidemiológico, como a limitação de recursos laboratoriais, a escassez de profissionais especializados e as barreiras geográficas que dificultam o acesso da população aos centros de diagnóstico e tratamento. Esses fatores contribuem para a subnotificação e para a continuidade da transmissão do HIV, reforçando a importância de um trabalho biomédico estruturado e comprometido com a ampliação da cobertura e da qualidade dos serviços.
A atuação do biomédico é essencial no contexto da infecção pelo HIV, uma vez que esse profissional participa de todas as etapas do processo diagnóstico e de monitoramento da doença. O uso de tecnologias laboratoriais modernas, como a quantificação da carga viral e a contagem de linfócitos CD4+, é indispensável para acompanhar a evolução clínica do paciente e orientar a eficácia do tratamento antirretroviral. Dessa forma, o trabalho biomédico contribui diretamente para a melhoria da qualidade de vida dos indivíduos soropositivos e para a redução da transmissão do vírus.
Além do aspecto técnico, a atuação biomédica envolve dimensões sociais e educativas. O profissional desempenha papel importante nas ações de aconselhamento, educação em saúde e sensibilização da comunidade, buscando reduzir o estigma e promover o acesso equitativo aos serviços de saúde. A integração entre conhecimento científico, responsabilidade social e ética profissional torna-se, portanto, fundamental para o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao controle do HIV.
Diante desse contexto, o estudo justifica-se pela relevância de compreender e valorizar o papel do biomédico nas estratégias de enfrentamento ao HIV. Tal compreensão é essencial para aprimorar as práticas laboratoriais, fortalecer a prevenção combinada e contribuir para o alcance da meta global de eliminação da AIDS como ameaça à saúde pública nas próximas décadas.
3 OBJETIVOS
3.1 Objetivo Geral
Analisar o papel do biomédico no enfrentamento do vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), enfatizando as técnicas laboratoriais aplicadas no diagnóstico, controle e monitoramento da infecção, destacando sua contribuição para a prevenção e promoção da qualidade de vida dos pacientes, conforme apontam estudos recentes sobre o impacto da atuação laboratorial no manejo de infecções.
3.2 Objetivo Específicos
– Descrever a importância da quantificação da carga viral no diagnóstico e no acompanhamento clínico do HIV.
– Discutir estratégias de prevenção do HIV com ênfase na atuação do biomédico na testagem, aconselhamento e monitoramento laboratorial de usuários da PEP e da PrEP.
– Investigar a incidência e a prevalência do HIV no estado do Brasil, com base nos boletins epidemiológicos mais recentes
4 REFERENCIAL TEÓRICO
Estudos recentes com grupos de minorias sexuais no Brasil indicam que, embora exista elevado nível de conhecimento sobre as formas de transmissão do HIV, ainda há significativa variação na compreensão e aceitação do conceito “Indetectável = Intransmissível (U=U)”, especialmente entre pessoas que vivem com HIV e outras populações-chave. Essa lacuna evidencia a importância de estratégias educativas mais direcionadas, que reforcem o papel da supressão viral como forma eficaz de prevenção (Silva, Kayser Rogério Oliveira da).
4.1 Histórico do HIV e avanços terapêuticos
O HIV é um vírus que causa a imunodeficiência humana/síndrome da imunodeficiência adquirida (HIV/AIDS). Foi descoberto em 1983-1984 por pesquisadores liderados por Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier, posteriormente Robert Gallo. Trata-se de um retrovírus que ataca o sistema imunológico, especificamente os linfócitos T CD4+, comprometendo a capacidade do organismo de combater infecções e doenças. A transmissão ocorre principalmente por relações sexuais desprotegidas, contato com sangue contaminado, compartilhamento de agulhas e seringas, e de mãe para filho durante a gravidez, parto ou amamentação (Fernandes & Alves de Toledo Bruns, 2021). A meta da Organização das Nações Unidas (ONU) de eliminar o HIV como problema de saúde pública até 2030 é factível do ponto de vista teórico e científico. Diferentes estudos mostram que o binômio tratamento oportuno de pessoas vivendo com HIV e prevenção de novos casos, com as tecnologias de saúde disponíveis, é altamente eficaz para reduzir significativamente a incidência e mortalidade por HIV (Rev Saúde Pública, 2024).
Os avanços dos antirretrovirais (ARVs) contribuíram efetivamente para a redução da morbi-mortalidade de HIV/AIDS, alterando a natureza e a frequência das doenças oportunistas e aumentando significativamente a expectativa e qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV/AIDS. Entretanto, surgiram desafios como a adesão ao tratamento medicamentoso ((Rodrigues et al., 2021). A Terapia Antirretroviral (TARV) é o tratamento padrão para o HIV, com objetivos de suprimir a replicação viral, preservar a função imunológica, prevenir a progressão para AIDS e prolongar a sobrevida. As principais classes de medicamentos incluem inibidores de transcriptase reversa, inibidores de protease, inibidores de integrase e outros, atuando em diferentes estágios do ciclo de replicação viral (Oliveira et al., 2024).
4.2 Métodos laboratoriais de diagnóstico
Ao longo da próxima década, a resposta global ao HIV enfrentará desafios significativos. Além de manter os avanços alcançados na prevenção e no tratamento, lacunas substanciais nos cuidados de saúde precisam ser preenchidas, especialmente para populações carentes. Os diagnósticos têm papel fundamental no controle e prevenção da infecção pelo HIV, com destaque para novas tecnologias, soluções digitais e inovações na prestação de serviços integrados, incluindo o ELISA, testes rápidos, Western blot/imunoblot e técnicas de biologia molecular, como a PCR (THE LANCET HIV, 2025).
Os testes de HIV mais amplamente utilizados detectam anticorpos produzidos como parte da resposta imunológica do organismo ao vírus. Na maioria dos casos, os indivíduos desenvolvem anticorpos para o HIV dentro de 28 dias após a infecção. Durante esse período, denominado “janela imunológica”, os níveis de anticorpos são baixos e podem não ser detectados por muitos testes, embora o indivíduo já possa transmitir o vírus (BEPA, 2023).
4.3 Carga viral e linfócitos CD4+
A contagem de linfócitos CD4+ é utilizada para avaliar o estado imunológico, definir estágios da infecção e estimar o risco de infecções oportunistas. A infecção pelo HIV é dividida em três períodos clínicos: infecção aguda, fase de latência e AIDS. No período de infecção aguda, que se inicia no primeiro contato com o vírus, ocorre redução significativa dos linfócitos T CD4+. Nesse período, o indivíduo infectado pode ser sintomático ou assintomático, apresentando sintomas inespecíficos. Além disso, observa-se intensa replicação viral, resultando no aumento da carga viral plasmática, o que eleva a possibilidade de transmissão (BERNARDES; BONANI; SOARES, 2021) .
O tratamento da infecção pelo HIV evoluiu significativamente desde a introdução da zidovudina (AZT) em 1987. Atualmente, a terapia antirretroviral (TARV) utiliza esquemas potentes e de alta barreira genética, capazes de promover supressão viral sustentada, restaurar a função imunológica e reduzir drasticamente a transmissão do vírus (OLIVEIRA et al., 2023).
4.4 Estratégias de prevenção: PEP, PrEP
A profilaxia pré-exposição (PrEP, do inglês pre-exposure prophylaxis ), atualment disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), consiste no uso oral de antirretrovirais em dose fixa combinada (tenofovir/entricitabina) para reduzir o risco de transmissão do vírus da imunodeficiência humana (HIV). No entanto, a adesão à PrEP continua aquém da meta da ONUSIDA de 2.000.000 de pessoas até 2025, a utilização da PEP permanece largamente limitada às exposições ocupacionais e o declínio da incidência do HIV atingiu um patamar insuficiente (UNAIDS, 2022).
A PEP é a única opção de prevenção para adultos que pode ser iniciada após uma exposição de alto risco. Com base em dados humanos e modelos animais, a PEP apresenta eficácia após exposições por picadas de agulha ou contato sexual e deve ser iniciada em até 72 horas. As exposições ao risco de HIV frequentemente não são planejadas nem previstas, sendo dinâmicas e variáveis ao longo do tempo para cada indivíduo (AYIEKO; PETERSEN; KAMYA; HAVLIR, 2021).
A PrEP de segunda geração, composta por agentes de ação mais prolongada que exigem doses menos frequentes, pode superar esses desafios. Produtos com eficácia comprovada em ensaios clínicos incluem anel vaginal mensal e injetáveis administrados a cada 8 semanas, enquanto produtos em desenvolvimento incluem injetáveis semestrais, terapia oral com comprimidos mensais, implantes e imunização passiva de ação prolongada (BEKKER; PIKE; HILLIER, 2021).
A/ PEP oral é uma estratégia emergencial de prevenção do HIV, baseada na administraço de antirretrovirais por 28 dias consecutivos. Seu início deve ocorrer preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição, sendo o limite máximo de 72 horas. O principal objetivo da PEP é evitar a progressão para infecção crônica, entretanto, um dos maiores desafios associados à sua efetividade é o manejo de efeitos adversos agudos, que podem comprometer a adesão ao tratamento (FROIS, 2020).
A PEP é indicada para situações de exposição recente ao HIV. Pessoas que repetidamente recorrem à PEP, ou que apresentam alto risco por exposições contínuas, devem ser avaliadas para uso diário de PrEP, após exclusão da infecção pelo HIV. Quando há indicação de PEP nas últimas 72 horas, o indivíduo deve iniciar a PEP imediatamente e, ao término do ciclo de 28 dias, iniciar a PrEP diária, evitando lacunas entre as profilaxias. É necessário realizar teste rápido ou sorologia para HIV e outros exames laboratoriais indicados no início da PrEP, caso ainda não tenham sido realizados durante a PEP (BRASIL, 2022).
As profilaxias pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP) constituem medidas essenciais nas políticas nacionais de prevenção do HIV. Seu sucesso depende de uma abordagem integrada, incluindo testagem antecipada, aconselhamento, adesão e monitoramento laboratorial para garantir eficácia e segurança. Nesse contexto, o biomédico desempenha papel decisivo na realização de exames laboratoriais, interpretação de resultados, educação em saúde e acompanhamento do uso dessas profilaxias (BRASIL, 2021).
4.5 Avanços recentes em vacinas experimentais
No ano de 2021, a agência reguladora americana FDA ( Food and Drug Administration ) aprovou o uso do primeiro antirretroviral injetável para profilaxia pré-exposição (PrEP), chamado cabotegravir. Este medicamento age por meio da ligação ao sítio ativo da integrase, bloqueando a integração do DNA viral ao da célula hospedeira. De forma rara, o cabotegravir pode gerar resistência ao inibidor da integrase. Atualmente, está sendo testado para uso como implante subdérmico ou adesivo de microagulhamento aplicado topicamente, com farmacocinética aprimorada e em nova formulação, ainda em fases iniciais do desenvolvimento clínico (SOBRAL; SILVA; LIMA FILHO, 2021).
O lenacapavir é um fármaco de uso profilático, desenvolvido nos Estados Unidos, considerado uma das ferramentas de prevenção mais promissoras na resposta ao HIV, oferecendo proteção com apenas duas injeções por ano (ALMEIDA, 2025). Ensaios clínicos de fase 1 demonstram avanços promissores no desenvolvimento de vacinas contra o HIV utilizando tecnologia de mRNA, com indução de anticorpos em alta proporção dos imunizados, embora ainda em estágios iniciais de pesquisa (Redação VivaBem, 2025).
As vacinas não-vivas testadas até o momento reduziram a carga viral, mas não impediram a infecção nem eliminaram o vírus do organismo. Modelos matemáticos indicam que a redução de até 1 log (uma cópia do vírus por mililitro de sangue) pode gerar benefícios substanciais, melhorar a qualidade de vida, controlar a doença e reduzir a transmissão. Entre os desafios para a criação e uso em larga escala do imunizante estão a variabilidade genética do vírus, considerando que o HIV-1, principal causador da AIDS, é subdividido em três grupos: M ( Major ), O ( Outlier ) e N ( non M/non O). O HIV-2 está associado a infecções na África Central e Ocidental e na Europa (CECCON; FLORES; PERONDI, 2025).
4.6 Epidemiologia do HIV/AIDS
O Boletim Epidemiológico HIV e Aids, do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (DATHI/SVSA/MS), é publicado anualmente (UNAIDS, 2023).
Entre 2007 e junho de 2024, foram notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) 541.759 casos de infecção pelo HIV no Brasil. A distribuição regional ocorreu da seguinte forma: Sudeste, 222.262 casos (41,0%); Nordeste, 118.431 (21,9%); Sul, 101.441 (18,7%); Norte, 56.229 (10,4%); e Centro-Oeste, 43.396 (8,0%). Em setembro de 2023 , foram notificados 46.495 casos de infecção pelo HIV no país (UNAIDS, 2024).
Mais de 770 mil pessoas vivendo com HIV estavam em tratamento antirretroviral – 5% a mais do que o registrado em 2022. Dessas, 49 mil iniciaram o tratamento em 2023. Atualmente, quase 200 mil pessoas sabem que têm HIV, mas não recebem tratamento. As diferenças regionais no padrão da epidemia podem ser explicadas por fatores como a evolução da epidemia, o grau de implementação das medidas de prevenção, o nível de conhecimento da população sobre a AIDS, o nível de escolaridade e outros fatores socioeconômicos.
Apesar dos avanços nas pesquisas voltadas para a cura da infecção pelo HIV, ainda há um longo caminho a percorrer. A prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz para evitar a exposição ao vírus (AZEVEDO et al., 2023).
4.7 Papel do biomédico no enfrentamento
O profissional biomédico habilitado em Análises Clínicas pode atuar em diversas etapas do diagnóstico laboratorial do HIV, desde a coleta de amostras biológicas até a execução de testes sorológicos e moleculares, incluindo a leitura de lâminas citológicas e a interpretação dos resultados. A atuação também se estende à contagem de linfócitos CD4+ e à quantificação da carga viral, essenciais para o acompanhamento clínico de pacientes vivendo com HIV. Essas competências estão respaldadas pela legislação profissional, garantindo diagnósticos precisos e confiáveis.
Além das atividades laboratoriais, o biomédico participa de pesquisas científicas, contribuindo para o desenvolvimento de novas metodologias diagnósticas e para o estudo da resistência viral do HIV, reforçando a importância dessa categoria profissional no controle da epidemia. Segundo a Resolução CFBM nº 391/2025, o biomédico pode atuar em análises moleculares e citopatológicas, exceto em procedimentos invasivos, como a punção aspirativa por agulha fina (CFBM, 2025).
O biomédico também desempenha papel estratégico na educação em saúde e na prevenção da transmissão do HIV, participando de palestras, campanhas de conscientização, ações comunitárias e treinamentos voltados a outros profissionais de saúde. Ele pode atuar em programas de vigilância epidemiológica, orientar sobre a profilaxia pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP), além de coordenar ou colaborar em campanhas de testagem comunitária e ações de promoção da saúde. Nessas atividades, o profissional contribui para o combate ao estigma, o incentivo à testagem precoce e à adesão ao tratamento antirretroviral, fortalecendo as políticas públicas de enfrentamento da infecção.
Dessa forma, a atuação do biomédico integra diagnóstico, pesquisa, educação e prevenção, ampliando significativamente o impacto de seu trabalho e reforçando seu papel como agente de saúde integral, fundamental para a melhoria da qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV e para o controle efetivo da epidemia.
5 METODOLOGIA
Este trabalho tratou-se de uma revisão sistemática da literatura, cujo objetivo foi identificar, reunir e analisar publicações científicas que abordam o papel do biomédico, as técnicas laboratoriais e as estratégias de prevenção no enfrentamento da infecção pelo HIV. A seleção dos estudos foi realizada conforme os princípios da metodologia PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses, 2024), que orienta revisões sistemáticas quanto à transparência e ao rigor no processo de triagem e elegibilidade das publicações, totalizando 30 estudos incluídos na revisão.
A estratégia de busca baseou-se no emprego de palavras-chave relacionadas ao HIV, como “HIV”, “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida”, “Diagnóstico laboratorial”, “Prevenção”, “Carga Viral” e “AIDS”, combinadas por meio dos operadores booleanos AND e OR para ampliar e refinar a pesquisa em bases de dados, tais como PubMed, SciELO, LILACS, Google Acadêmico, DataSUS, Organização Mundial da Saúde (OMS), Instituto Adolfo Lutz (IAL) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram utilizadas combinações como (“HIV” OR “AIDS”) AND (“Diagnóstico laboratorial” OR “Carga Viral”) AND (“Prevenção”). Em seguida, aplicaram-se filtros para tipo de estudo, idioma, período de publicação e população-alvo.
Inicialmente, realizou-se uma leitura exploratória dos resumos para selecionar os artigos que atendiam aos critérios estabelecidos. Posteriormente, os estudos foram avaliados de forma seletiva para verificar a relevância e a correlação com o tema proposto. Por fim, conduziu-se uma análise detalhada para organizar e sintetizar os resultados, garantindo que estes estivessem alinhados aos objetivos da revisão.
Os artigos selecionados evidenciaram a importância da atuação do biomédico na quantificação da carga viral, na contagem de linfócitos CD4+ e na participação em estratégias de prevenção, como a profilaxia pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP). Além disso, ressaltaram a relevância do diagnóstico precoce e do acompanhamento contínuo como pilares fundamentais para o controle da infecção pelo HIV.

6 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Após a triagem com base nos critérios de inclusão e exclusão estabelecidos, foram escolhidos os artigos mais relevantes e recentes para compor a fundamentação deste estudo. Foram identificados 3.710 registros nas bases de dados. Após a triagem com base nos critérios de inclusão e exclusão e a remoção de duplicatas, 3.680 registros foram excluídos por não atenderem aos critérios definidos. Ao final, 30 estudos foram incluídos na revisão sistemática, compondo a fundamentação deste estudo.
Os estudos analisados afirmam que o diagnóstico laboratorial precoce é determinante para conter a disseminação do HIV e promover o início rápido da TARV. Porém, ainda ocorre de forma tardia, principalmente no Amazonas, onde 2019 e 2023 registraram-se 7.533 casos, com aumento anual de 8% e uma taxa de mortalidade de 6,9% (De Azevedo et al ., 2024). Conforme Santos et al . (2023), a determinação da carga viral e a contagem de CD4+ permitem identificar infecções recentes, embora, isoladamente, não suficientes para o controle da epidemia. A profilaxia pré-exposição (PrEP) e a pós-exposição (PEP) apresentam barreiras expressivas quanto à adesão e ao acesso.
Frois (2025) identificou que, das 41.477 pessoas elegíveis para PEP, somente 66,8% receberam prescrição adequada, indicando fragilidades na assistência em saúde. Pesquisas sobre a PrEP ressaltam seu potencial de impacto na diminuição da incidência do HIV entre adolescentes e grupos vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, travestis e mulheres trans. A TARV combinada tem alterado significativamente o prognóstico da infecção, tornando-a uma condição crônica controlável. No entanto, a resistência viral e as dificuldades de adesão ao tratamento continuam sendo desafios consideráveis (Sobral; Silva; Lima; Filho, 2025). Estudos clínicos recentes com vacinas baseadas em mRNA têm demonstrado a capacidade de induzir respostas imunológicas potentes de células B e T, oferecendo perspectivas promissoras na imunoprofilaxia e na prevenção do HIV.
A atuação do biomédico, regulamentada pela Resolução CFBM nº 391/2025, fortalece as práticas de diagnóstico laboratorial, citologia oncótica, histotecnologia e biologia molecular, desempenhando função estratégica nas ações de prevenção, vigilância e atenção integral à saúde dos pacientes. Sendo assim, a literatura aponta desafios, como o acesso desigual aos serviços laboratoriais, a necessidade de aprimoramento profissional e o estigma social que ainda constitui barreira à testagem voluntária. A articulação entre diagnóstico laboratorial e as políticas de prevenção combinada, juntamente com a ampliação da cobertura e da qualidade dos serviços de saúde, representa uma medida fundamental para o enfrentamento da epidemia no país.
7 CONCLUSÃO
Embora o estudo tenha evidenciado o papel essencial do biomédico no enfrentamento do HIV, especialmente no diagnóstico e monitoramento laboratorial, os resultados apontam para desafios significativos que ainda persistem. A quantificação da carga viral e a contagem de linfócitos CD4+, embora indispensáveis, não têm sido suficientes para controlar a epidemia em regiões críticas, como o Amazonas, onde os índices de infecção permanecem elevados.
Além disso, a testagem e o suporte laboratorial para PEP e PrEP ainda enfrentam limitações de acesso e adesão, comprometendo a eficácia dessas estratégias preventivas. Esses achados indicam que, apesar dos avanços, há lacunas importantes na vigilância e no diagnóstico que necessitam de maior atenção. Portanto, torna-se imprescindível a realização de estudos futuros que aprofundem o entendimento dessas barreiras e promovam inovações na atuação biomédica, buscando fortalecer as ações integradas de prevenção, diagnóstico e cuidado para enfrentar eficazmente a epidemia de HIV no Brasil.
8 REFERÊNCIAS
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9 ANEXO
ANEXO A: Quadro com todas publicações incluídas na revisão sistemática de acordo com o autor, ano, título, objetivo, critério de inclusão e resultados.











