DIAGNÓSTICO ELÉTRICO AUTOMOTIVO EM VEÍCULOS ELÉTRICOS: EVIDÊNCIAS DE OFICINA, MÉTRICAS DE DESEMPENHO E IMPLICAÇÕES PARA A QUALIDADE DO SERVIÇO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511170928


Jonathan Monteiro Kreski


Resumo

Este artigo propõe um arcabouço teórico para o diagnóstico elétrico em veículos elétricos puros (BEVs, battery electric vehicles), integrando conceitos de segurança em alta tensão, comunicação eletrônica e gestão térmica. Em vez de relatar resultados de oficina, organizamos a literatura técnica e as normas de referência (segurança do sistema elétrico do veículo, conexão e recarga, comunicação com a infraestrutura e serviços de diagnóstico) em um modelo em camadas que alinha três momentos do raciocínio técnico: (i) leitura estruturada de códigos de falha e parâmetros dos módulos (bateria/gerenciador, inversor, carregador e conversor de 12 V); (ii) verificação elétrica essencial em nível conceitual, que inclui isolamento entre bateria e carroceria, comportamento de contatores e pré-carga e integridade do intertravamento de alta tensão; e (iii) validação funcional e térmica também em nível conceitual, que explica por que reproduzir condições de uso e de recarga é parte do fechamento do diagnóstico. O artigo ainda descreve métricas conceituais — tempo de diagnóstico, acerto na primeira passagem e retrabalho — como constructos a serem medidos em estudos aplicados futuros. A principal contribuição é traduzir a linguagem normativa para uma sequência lógica e acessível, útil a currículos de formação, auditorias de qualidade e agendas de pesquisa sobre diagnóstico em BEVs.

Palavras-chave: veículos elétricos; diagnóstico elétrico automotivo; segurança em alta tensão; gerenciamento de baterias; inversores; recarga; normas técnicas.

Abstract

This article proposes a theoretical framework for electrical diagnostics in battery electric vehicles (BEVs), integrating concepts of high-voltage safety, electronic communication, and thermal management. Instead of reporting field or workshop results, we organize the technical literature and reference standards (vehicle electrical system safety, connection and charging, communication with the infrastructure, and diagnostic services) into a layered model that aligns three stages of technical reasoning: (i) structured reading of fault codes and module parameters (battery/management unit, inverter, charger, and 12 V converter); (ii) essential electrical verification at a conceptual level, which includes insulation between the battery and body, contactor and pre-charge behavior, and the integrity of the high-voltage interlock; and (iii) functional and thermal validation also at a conceptual level, which explains why reproducing use and charging conditions is part of completing the diagnostic process. The article further describes conceptual metrics—diagnostic time, first-pass success, and rework—as constructs to be measured in future applied studies. The main contribution is to translate normative language into a logical and accessible sequence, useful for training curricula, quality audits, and research agendas on BEV diagnostics.

Keywords: electric vehicles; automotive electrical diagnostics; high-voltage safety; battery management; inverters; charging; technical standards.

1. Introdução

A eletrificação do trem de força desloca o diagnóstico automotivo do universo da combustão para um campo dominado por eletrônica de potência, software e segurança elétrica. Nesse contexto, três eixos se tornam estruturantes: proteção em alta tensão (doravante HV), coordenação entre módulos eletrônicos e gestão térmica do conjunto bateria–inversor–motor. Em veículos elétricos puros (BEVs, battery electric vehicles), aquilo que o técnico observa como “falha” costuma nascer de encadeamentos sutis entre esses eixos: a bateria e seu sistema de gerenciamento (BMS, Battery Management System) modulam limites de corrente e temperatura; o inversor traduz estratégias de controle em acionamento do motor; o carregador a bordo (OBC, on-board charger) negocia a recarga com a infraestrutura; o conversor DC/DC sustenta o circuito auxiliar de 12 V; e o intertravamento de alta tensão (HVIL, high-voltage interlock loop) garante que o sistema não opere com tampas ou conectores abertos. Quando um desses componentes sai do esperado, o efeito raramente é local: ele reverbera nas leituras de sensores, nos modos de proteção e, por fim, na experiência do condutor.

Este artigo não descreve um experimento de oficina nem propõe números de desempenho. Ele parte de fontes técnicas e acadêmicas — normas, manuais de referência e revisões recentes — para organizar conceitos que sustentam o raciocínio diagnóstico em BEVs. O objetivo é oferecer uma base teórica clara e utilizável, que traduza a linguagem das normas para a prática profissional sem recorrer a jargões desnecessários. Ao longo do texto, quando um termo técnico é indispensável, sua primeira ocorrência vem acompanhada de uma explicação breve; quando uma sigla facilita a leitura (como BMS, OBC ou HVIL), ela é apresentada uma única vez e, depois, usada com parcimônia.

A contribuição principal é um arcabouço conceitual em camadas que articula três momentos do diagnóstico: uma leitura estruturada das informações que os módulos fornecem (códigos de falha e parâmetros em tempo real), uma verificação elétrica essencial que transforma hipóteses em evidências físicas (por exemplo, isolamento entre bateria e carroceria, comportamento de contatores e pré-carga, integridade do intertravamento) e, por fim, uma validação funcional e térmica em nível conceitual, que explica quando e por que reproduzir condições de uso e de recarga para confirmar a correção. O interesse aqui não está em medir o ganho de cada camada, mas em explicar a lógica que as conecta e em tornar explícitos os pressupostos de segurança e comunicação em que essa lógica se apoia.

Do ponto de vista de escopo, o texto concentra-se em BEVs e nos domínios que mais influenciam o raciocínio técnico contemporâneo: segurança HV e integridade de isolamento, recarga e comunicação com a infraestrutura, diagnóstico eletrônico de bateria/inversor/carregador/conversor 12 V e gestão térmica do conjunto eletromecânico. Híbridos não são abordados, exceto quando uma noção comum ajuda a esclarecer um conceito de BEV. Também não se discute desempenho comercial de modelos específicos nem se prescrevem procedimentos proprietários; a ênfase está em princípios verificáveis, capazes de sustentar formações profissionais, auditorias de qualidade e futuras pesquisas aplicadas.

Em síntese, propõe-se um mapa teórico para o diagnóstico em veículos elétricos: suficientemente rigoroso para dialogar com normas e literatura especializada, e suficientemente claro para orientar decisões técnicas no dia a dia. A seção seguinte descreve a abordagem metodológica de revisão e a forma como as fontes foram organizadas para dar origem a esse arcabouço.

2. Metodologia — abordagem teórica

2.1 Desenho do estudo

Este artigo adota uma abordagem teórico-conceitual, estruturada como revisão narrativa com escopo. O objetivo não é quantificar efeitos, mas mapear conceitos, normas e boas práticas que sustentam o diagnóstico elétrico em veículos elétricos puros — também chamados BEVs (battery electric vehicles). O recorte cobre cinco domínios centrais: segurança em alta tensão (HV) e integridade de isolamento; recarga e comunicação com a infraestrutura; diagnóstico eletrônico em módulos como bateria, inversor, carregador a bordo e conversor 12 V; integridade elétrica de contatores, pré-carga e intertravamentos; e gestão térmica do conjunto bateria–eletrônica de potência–motor. A revisão organiza a literatura em torno de três perguntas: o que é considerado falha típica e como ela se manifesta; como a literatura recomenda organizar o raciocínio diagnóstico; e quais métricas a própria literatura sugere para avaliar qualidade do processo em estudos futuros.

2.2 Fontes e critérios de inclusão

A base informacional privilegia normas internacionais e documentos de referência — por exemplo, ISO 6469-3 para proteção contra choque elétrico, ISO 17409 para conexão segura à rede, IEC 61851 e IEC 62196 para recarga e conectores, SAE J1772 para acoplador condutivo em corrente alternada, ISO 15118-20 para comunicação veículo-rede, ISO 14229-1 para serviços de diagnóstico e ISO 15765-2 para transporte de mensagens em redes automotivas, UNECE R100 para requisitos de segurança do trem de força elétrico, UL 2580 e SAE J2464 para segurança e ensaios de abuso de baterias, além da SAE J2990 para procedimentos de campo. Complementam essa base livros técnicos e revisões científicas sobre gerenciamento de baterias e topologias de carregadores. Foram incluídos documentos normativos vigentes e literatura técnico-científica publicada em inglês ou português entre 2010 e 2025, com foco explícito em BEVs. Foram excluídos materiais estritamente comerciais, manuais proprietários sem conteúdo verificável e estudos centrados apenas em híbridos.

2.3 Procedimento de coleta e síntese

A busca foi conduzida em catálogos de normas e bases acadêmicas, com seleção por relevância temática e atualidade. A leitura ocorreu em duas etapas: primeiro, triagem por título e resumo para verificar aderência ao escopo; depois, leitura integral para extração de conceitos. As informações foram organizadas em uma matriz que reuniu definições, pré-requisitos normativos, sinais e sintomas descritos na literatura e recomendações de verificação. A síntese empregou análise temática, agrupando evidências em eixos (segurança HV, recarga e comunicação, diagnóstico eletrônico, integridade elétrica e gestão térmica) e harmonizando terminologias. Quando termos técnicos eram imprescindíveis, a primeira ocorrência trouxe explicação breve (por exemplo, “pré-carga” como etapa de limitação de corrente ao energizar o barramento, e “intertravamento de alta tensão” como circuito de segurança que impede acionamento se tampas ou conectores estiverem abertos).

2.4 Construção do arcabouço conceitual

A partir da síntese, foi construído um arcabouço em camadas para organizar o raciocínio diagnóstico. A camada de leitura estruturada reúne códigos de falha e dados ao vivo dos módulos eletrônicos e serve para situar o problema em um subsistema. A camada de verificação elétrica essencial traduz hipóteses em evidências físicas por meio de medição de isolamento, avaliação de contatores e pré-carga e checagem do intertravamento. A camada de validação funcional e térmica fecha o ciclo em nível conceitual, indicando quando e por que reproduzir condições de uso e de recarga para confirmar a correção antes da entrega. Este encadeamento não relata experimentos, mas sistematiza o que a literatura trata como sequência lógica de segurança, verificação e confirmação.

2.5 Métricas conceituais para estudos futuros

Embora o presente trabalho não execute mensurações, a literatura aponta três medidas úteis para pesquisas aplicadas: o tempo médio de diagnóstico como indicador de eficiência de processo; o acerto na primeira passagem como indicador de precisão clínica do raciocínio técnico; e o retrabalho em 30 dias como sinal de robustez da solução. Essas métricas são aqui tratadas como constructos teóricos, acompanhados de definições e condições de medição, para apoiar protocolos futuros sem sugerir que tenham sido aferidas neste estudo.

2.6 Limitações e garantias de qualidade

Por se tratar de revisão narrativa, não há cálculo de tamanho de efeito nem metanálise. O trabalho depende da qualidade intrínseca das normas e revisões consultadas e pode refletir viés de idioma. Para mitigar assimetrias, priorizou-se documentação primária (normas ISO/IEC/SAE/UNECE/UL) e sínteses revisadas por pares em temas críticos, com descrição transparente das escolhas conceituais. Como não há coleta de dados de campo, não se aplicam aprovações éticas envolvendo seres humanos; ainda assim, o manuscrito observa boas práticas de citação e consistência terminológica.

3. Síntese da literatura e modelo conceitual

Esta seção abandona a lógica empírica de “achados de campo” e organiza, em linguagem direta, o que a literatura técnica e as normas descrevem como padrões de falha e caminhos de raciocínio em veículos elétricos puros. O objetivo é oferecer um mapa conceitual que ajude o leitor a conectar sintomas, verificações e decisões, sem números ou estatísticas, mas com critérios claros de interpretação.

3.1 Padrões de falha e evidências primárias

Nos relatos técnicos e nas normas, certos padrões reaparecem com frequência. Os alertas de isolamento indicam que há fuga de corrente entre a bateria de tração e a carroceria; a evidência primeira costuma ser um aviso do sistema de gerenciamento da bateria, mas o fechamento conceitual do diagnóstico depende de medição de isolamento com instrumento apropriado e critérios definidos em norma. As falhas ou recusas de recarga em corrente alternada tendem a nascer de dois pontos: problemas físicos no conector (contato gasto, umidade, dano em cabo) e incompatibilidades na conversa entre veículo e estação (o chamado “sinal piloto” e a sequência de mensagens). A redução de potência por temperatura — o “derate” — é coerente com a lógica de autoproteção do conjunto bateria–eletrônica de potência–motor; aqui, leituras de temperatura, limites de corrente e atuação do sistema de arrefecimento formam o tripé de interpretação. As quedas do sistema de 12 volts confundem o técnico porque se espalham como “falsos sintomas” em outros módulos; a literatura recomenda verificar a saúde do conversor que alimenta o 12 V sob carga real, antes de condenar dispositivos a jusante. A recusa de fechamento dos contatores normalmente aponta para pré-carga incompleta ou componente degradado; entender o tempo de equalização e a queda de tensão nessa etapa é central. Por fim, ruído e trepidação em baixa carga podem refletir tanto o controle do motor quanto problemas de sensoriamento de posição (encoder); distinguir uma coisa da outra exige observar comportamento elétrico e comportamento mecânico de modo coordenado.

3.2 Trajetória diagnóstica em camadas

A literatura converge para uma progressão em três momentos. Primeiro, uma leitura estruturada do que os módulos informam — códigos de falha e parâmetros em tempo real — serve para localizar o subsistema provável e evitar tentativas aleatórias. Depois, vem a verificação elétrica essencial, que transforma hipóteses em evidências: medir isolamento, observar pré-carga e contatores com atenção ao tempo e à queda de tensão, e confirmar a integridade do intertravamento de alta tensão (circuito que impede operação se tampas ou conectores estiverem abertos). Por último, quando o fenômeno depende de uso ou ambiente, a validação funcional e térmica explica por que reproduzir a condição crítica — subida, calor, correntes distintas de recarga — faz parte do fechamento conceitual do diagnóstico. Esse encadeamento não é um “checklist”, mas uma linha de raciocínio: começa pelo que o veículo declara, confirma no que a eletricidade prova e conclui no que o uso real exige.

3.3 Expectativas para eficiência e qualidade

Sem apresentar números, a teoria permite antecipar tendências. Quando o diagnóstico fica restrito à leitura de códigos e parâmetros, a interpretação pode travar em descrições genéricas. Ao incorporar verificações elétricas, o processo tende a eliminar hipóteses frágeis e a encurtar o caminho até a causa. Quando, por sua vez, se reproduz a condição de falha antes de entregar o veículo, diminui-se a chance de retorno por problemas que só aparecem sob carga ou temperatura específicas. Em termos conceituais, isso se traduz em menor tempo de conclusão, maior acerto na primeira passagem e menor retrabalho quando a trajetória em camadas é seguida com consistência.

3.4 Exemplos explicativos

Um episódio de recarga intermitente pode começar com mensagens pouco informativas no sistema; o enquadramento conceitual pede inspecionar o conector e, se necessário, verificar a sequência de comunicação com a estação, já que pequenas instabilidades no “piloto” produzem grandes efeitos práticos. Um alerta de isolamento após chuva não se resolve em leitura de tela: o fechamento conceitual exige medir resistência de isolamento e investigar trechos do chicote sujeitos à umidade. Uma perda de potência em subida raramente aponta para um único culpado; o caminho mais sólido combina leitura dos limites aplicados pela bateria, checagem do circuito de arrefecimento e, se preciso, uma validação dirigida que mostre a temperatura sob esforço voltando ao regime normal depois da correção.

4. Discussão

4.1 Integração de métodos e qualidade do serviço

O diagnóstico em veículos elétricos ganha consistência quando é pensado em camadas. A leitura inicial de códigos de falha e parâmetros em tempo real — aquilo que o veículo declara — é indispensável, mas sozinha costuma ser insuficiente diante de problemas de base elétrica (como isolamento deficiente) ou termais (superaquecimento e redução de potência). A segunda camada, centrada em verificações elétricas objetivas, introduz a materialidade que falta à tela: medir isolamento entre bateria e carroceria, observar o comportamento da pré-carga (etapa que limita o pico de corrente ao energizar o barramento) e dos contatores (os “disjuntores” principais da bateria), e confirmar a integridade do intertravamento de alta tensão — HVIL (high-voltage interlock loop), o circuito que impede a operação se tampas ou conectores estiverem abertos. Quando necessário, a interpretação se beneficia de formas de onda de corrente e tensão observadas com instrumentos apropriados. A terceira camada, de validação funcional e térmica, não é um “teste de rua disfarçado”, e sim a parte final do raciocínio: reproduzir, de modo controlado, a condição em que a falha aparece (carga, temperatura, corrente de recarga) para verificar se a solução proposta se sustenta. Encadear essas três camadas tende a produzir decisões mais estáveis, com melhor previsibilidade de prazos e menor risco de retorno.

4.2 Práticas essenciais em EVs

Alguns princípios atravessam todas as camadas e moldam a qualidade do serviço. O primeiro é a segurança em alta tensão: adotar LOTO (lockout/tagout), utilizar EPI/EPC adequados e preparar a área de trabalho com isolamento e ferramentas corretas não é um adendo burocrático, é a condição para que qualquer verificação faça sentido. O segundo é tratar a medição de isolamento como porta de entrada do diagnóstico elétrico: sem uma referência clara de isolamento, conclusões sobre outros subsistemas tendem a ser frágeis. O terceiro é compreender a pré-carga e os contatores como uma “assinatura” do sistema: tempos de equalização e quedas de tensão informam, com precisão, quando há soldagem de contatos, resistores degradados ou comandos incoerentes. O quarto é assumir uma leitura eletrotérmica dos sintomas: falhas “elétricas” podem ser, na origem, problemas de arrefecimento; integrar temperatura, fluxo de calor e limites de corrente reduz falsos positivos. O quinto é reconhecer o papel estruturante do circuito de 12 volts: um conversor DC/DC no limite provoca alarmes em cascata e confunde a interpretação; verificar o 12 V sob carga deveria ser um passo obrigatório. Por fim, documentar evidências — capturas de parâmetros, resultados de medições e registros térmicos — não é apenas transparência para o cliente, é um insumo para aprendizado da equipe e auditoria de processos.

4.3 Implicações para oficinas e centros de formação

Quando a prática se organiza em camadas e princípios, protocolos padronizados deixam de ser um formulário e passam a funcionar como memória do raciocínio. Checklists concisos — segurança, leitura estruturada, verificações elétricas essenciais e, quando indicado, validação funcional — ajudam a manter o foco e a comparabilidade entre atendimentos. A capacitação precisa refletir essa ordem: primeiro, fundamentos de segurança e isolamento; depois, instrumentação e interpretação de sinais dos módulos eletrônicos; por fim, integração com gestão térmica e testes dirigidos. Do ponto de vista de estrutura, uma oficina EV-ready não exige um laboratório universitário, mas requer um megôhmetro apropriado, instrumentação segura para alta tensão, meios simples de sangria e teste do arrefecimento e um sistema de registro que preserve tempos, leituras e decisões. A consequência econômica aparece no cotidiano: menos retrabalho significa menos horas improdutivas e margem mais estável; relatórios técnicos claros elevam a percepção de valor e reduzem disputas sobre a eficácia do serviço.

4.4 Limitações e agenda de pesquisa

Este manuscrito apresenta um modelo teórico, não um ensaio de campo. Por isso, não se reivindica aqui qualquer estimativa de efeito ou taxa de acerto. O arcabouço proposto depende da qualidade das normas e revisões em que se baseia e pode refletir lacunas da literatura, inclusive de fabricantes que não publicam detalhes de implementação. Para avançar, são desejáveis estudos aplicados que operacionalizem as três camadas em cenários distintos, definindo previamente métricas como tempo de diagnóstico, acerto na primeira passagem e retorno por mesmo sintoma, e comparando protocolos em quase-experimentos. Também é oportuno investigar como diferentes arquiteturas de bateria e eletrônica de potência alteram a leitura dos sintomas, bem como medir o impacto de treinamentos focados e de protocolos padronizados na redução de inconsistências entre técnicos e turnos. Em paralelo, recomenda-se explicitar custos — de instrumentação, capacitação e tempo de atendimento — para que a discussão de qualidade venha acompanhada de viabilidade operacional.

5. Considerações Finais

Este artigo apresentou um modelo teórico em camadas para estruturar o pensamento diagnóstico em veículos elétricos puros, trocando a abordagem fragmentada — geralmente restrita à leitura de códigos de erro — por uma sequência lógica que começa com a leitura organizada de dados dos módulos, prossegue para a verificação elétrica fundamental e culmina na validação funcional e térmica em um nível conceitual. Ao ajustar essas camadas às diretrizes de segurança, recarga e comunicação, além do jargão técnico essencial, procuramos converter a linguagem normativa em um guia claro, que possa direcionar escolhas e minimizar a ambiguidade interpretativa na oficina e na formação profissional.

No âmbito conceitual, a implementação desse modelo busca aprimorar a previsibilidade do processo, diminuir suposições frágeis e tornar claros os critérios de liberação do veículo, especialmente quando o diagnóstico abrange isolamento elétrico, desempenho de contatores e pré-carga, integridade do intertravamento de alta tensão e impactos térmicos sobre bateria, eletrônica de potência e motor. A documentação das evidências — parâmetros significativos, resultados de verificações e justificativas técnicas — deixa de ser um simples anexo e se torna parte da própria qualidade do serviço, facilitando auditorias, aprendizado da equipe e comunicação clara com o cliente.

Como aplicação prática para a educação e administração, a estrutura propõe currículos e protocolos uniformes que seguem a sequência do raciocínio: primeiro segurança e isolamento, depois instrumentação e interpretação, e só então a validação em condições representativas de uso e recarga. Sob a perspectiva científica, ele também revela métricas conceituais — tempo de diagnóstico, acerto na primeira tentativa e retrabalho — que devem ser implementadas em estudos práticos que comparem variações do protocolo em diferentes contextos.

Em resumo, a eletrificação demanda não apenas novas ferramentas, mas também um novo jeito de conceber o diagnóstico. Estruturar o processo em níveis, com base em normativas robustas e utilizando uma linguagem técnica compreensível, é um passo necessário para elevar segurança, confiabilidade e qualidade no atendimento a veículos elétricos. Estudos futuros que testem empiricamente esse modelo, em diferentes arquiteturas e condições operacionais, poderão quantificar seus benefícios e orientar políticas de formação, padronização e certificação específicas para o setor.

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