DIAGNÓSTICO DE DISFUNÇÃO TEMPORO MANDIBULAR EM PACIENTES COM DIABETES, HIPERTENSÃO, ESTRESSE E ANSIEDADE ATENDIDOS EM UM HOSPITAL ESCOLA DO MUNICÍPIO DE MONTES CLAROS – MG

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311354


Ângelo Fonseca Silva1
Gabriela Antunes Neri2
Stephany Fiúza Guimarães3
Mycaella Ladeia Silva4
Cecília Rodrigues Franco5
Amanda Carvalho Silva6
Daniella Vieira Santos7


RESUMO

Introdução: a disfunção temporomandibular (DTM) representa um conjunto heterogêneo de distúrbios que afetam a articulação temporomandibular (ATM), os músculos da mastigação e estruturas associadas. Objetivo: o objetivo deste estudo foi avaliar a associação da DTM com a hipertensão, diabetes, ansiedade e estresse. Metodologia: trata-se de um estudo transversal, quantitativo, descritivo, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa das Faculdades Unidas do Norte de Minas – FUNORTE com o número 7.635.290, amostra por conivência foi composta por 100 pacientes adultos e idosos atendidos em um hospital escola do município de Montes Claros – MG, as análises dos dados foram realizadas no programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS®), versão 22.0, apresentando análises descritivas e bivariadas. Resultados: a análise dos dados constatou que a maior parte da amostra foi composta por indivíduos do sexo feminino (75,3%) e adultos (58%); 73,3% dos indivíduos relataram ter diabetes, 37.6% possuem diagnóstico de hipertensão, 54,4% relataram ansiedade, 51,5% afirmaram estar estressados e 92,1% relatou algum nível de disfunção temporo mandibular; a análise bivariada, apontou que há uma incidência maior de DTM em pacientes com hipertensão, estresse e ansiedade (p value < 0,05); já para os pacientes com diabetes, a associação demonstrou que indivíduos diabéticos possuem menos sintomas de DTM (p value < 0,05). Conclusão: pode-se concluir que existe uma associação positiva entre os quadros de DTM e as comorbidades hipertensão, estresse e ansiedade, para o desfecho diabetes, os dados apontaram uma associação negativa.

Palavras-chave: Disfunção temporomandibular, hipertensão, diabetes, estresse, ansiedade.

1. INTRODUÇÃO 

A disfunção temporomandibular (DTM) representa um conjunto heterogêneo de distúrbios que afetam a articulação temporomandibular (ATM), os músculos da mastigação e estruturas associadas. Esses distúrbios têm sido considerados uma das principais causas de dor orofacial de origem não dentária, afetando significativamente a qualidade de vida dos indivíduos acometidos (GONÇALVES et al., 2010). A complexidade anatômica e funcional da ATM, associada a fatores etiológicos multifatoriais, torna o diagnóstico e o manejo da DTM um desafio clínico constante.

A etiologia da DTM é considerada multifatorial e envolve uma complexa interação entre fatores biomecânicos, emocionais, posturais e neuromusculares. Entre os fatores de risco mais reconhecidos estão o bruxismo, o estresse psicológico, traumas na região orofacial, má oclusão, alterações posturais e disfunções cervicais (DE LEEUW; KLASSY, 2018). O modelo biopsicossocial tem sido amplamente adotado para explicar a gênese e manutenção dos sintomas da DTM, destacando a importância da abordagem interdisciplinar no diagnóstico e tratamento desses distúrbios (DOUGLAS; REBICH, 2020). Vale ressaltar ainda a relação da DTM com comorbidades sistêmicas como diabetes e hipertensão, sendo assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a associação da DTM com a hipertensão, diabetes, ansiedade e estresse.

A classificação das DTMs foi padronizada pelo Research Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (RDC/TMD) e, mais recentemente, pelo Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD), que propõem uma abordagem dual, englobando critérios clínicos (Eixo I) e aspectos psicossociais e comportamentais (Eixo II) (DWORKIN; LERSON, 1992; SCHIFFMAN et al., 2014). Esta padronização tem contribuído significativamente para a uniformização dos critérios diagnósticos e para a condução de estudos epidemiológicos e clínicos mais consistentes.

O diagnóstico da DTM deve ser baseado em uma anamnese detalhada, exame clínico criterioso e, quando necessário, exames complementares como imagens por ressonância magnética e tomografia computadorizada. A ressonância magnética é o método de escolha para avaliação de tecidos moles da ATM, como o disco articular e estruturas ligamentares, enquanto a tomografia computadorizada é útil na análise das estruturas ósseas (ABRAHÃO et al., 2009).

O tratamento da DTM pode variar desde intervenções conservadoras e reversíveis, como fisioterapia, uso de placas oclusais, farmacoterapia e terapias cognitivo-comportamentais, até procedimentos cirúrgicos em casos mais severos e refratários (FERREIRA et al., 2012). A preferência atual é por métodos minimamente invasivos, priorizando a restauração da função e a redução da dor com o menor risco possível. A atuação multidisciplinar envolvendo cirurgiões-dentistas, fisioterapeutas, psicólogos e fonoaudiólogos tem se mostrado eficaz no manejo desses pacientes, principalmente diante da influência significativa de fatores psicossociais nos quadros de dor crônica (GREGO et al., 2015).

2. DESENVOLVIMENTO

Nos últimos anos, o avanço nas pesquisas sobre dor orofacial e DTM tem proporcionado maior compreensão sobre os mecanismos fisiopatológicos envolvidos, como a sensibilização central, alterações na modulação da dor e influências do sistema nervoso autônomo. Esses avanços têm permitido o desenvolvimento de abordagens terapêuticas mais eficazes e individualizadas, baseadas em evidências científicas e na experiência clínica.

Diante da alta prevalência da DTM, da sua repercussão funcional e psicossocial e da complexidade envolvida em seu diagnóstico e tratamento, é essencial que profissionais da saúde estejam capacitados para reconhecer precocemente os sinais e sintomas da disfunção, aplicar protocolos diagnósticos adequados e implementar estratégias terapêuticas eficazes e humanizadas. Este artigo tem como objetivo revisar os principais aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos da disfunção temporomandibular, destacando a importância da abordagem multidisciplinar e da individualização no manejo dos pacientes.

A diabetes mellitus é uma doença metabólica crônica caracterizada por hiperglicemia persistente, decorrente de defeitos na secreção ou ação da insulina. Essa condição está associada a diversas complicações micro e macrovasculares, inflamação sistêmica, disfunções musculares e alterações articulares (AMERICAN DIABETES ASSOCIATION, 2024). A inflamação crônica de baixo grau e o estresse oxidativo gerados pela hiperglicemia crônica contribuem para alterações musculoesqueléticas que podem envolver a ATM, com impacto direto na função mastigatória e no aparecimento de sintomas dolorosos (ZUMMO et al., 2014).

Diversas evidências apontam para uma maior prevalência de DTM em indivíduos diabéticos, especialmente aqueles com diabetes tipo 2, possivelmente devido à neuropatia periférica, alterações microvasculares e maior suscetibilidade à dor crônica (TOMONARI et al., 2021). Além disso, a hiperglicemia pode comprometer a regeneração tecidual e o metabolismo ósseo, afetando diretamente as estruturas da articulação temporomandibular. Estudos histopatológicos demonstram que a exposição crônica à glicose elevada pode alterar a matriz extracelular da cartilagem articular, contribuindo para a degeneração da ATM (PATEL et al., 2017).

De forma paralela, a hipertensão arterial sistêmica – uma das principais doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no mundo – tem sido associada a alterações funcionais e estruturais em diversas articulações, inclusive na ATM. A HAS é caracterizada por aumento sustentado da pressão arterial, o que leva a um processo inflamatório crônico, aumento da rigidez vascular e comprometimento da microcirculação (BRASIL, 2021). A inflamação sistêmica e o estresse oxidativo presentes em pacientes hipertensos podem desempenhar um papel relevante na patogênese da DTM, especialmente em pacientes com formas mais avançadas ou mal controladas da doença.

Estudos populacionais vêm apontando uma associação estatisticamente significativa entre HAS e sintomas de DTM, como dor muscular, estalidos articulares e limitação da abertura bucal (FONSECA et al., 2019). Uma das possíveis explicações é a presença de distúrbios autonômicos em pacientes hipertensos, que podem influenciar na regulação da dor e da função muscular. Além disso, a hipertensão pode ser fator de risco para distúrbios do sono, como a apneia obstrutiva do sono, que por sua vez tem sido correlacionada com o bruxismo do sono e com a DTM (GONÇALVES et al., 2020).

O componente inflamatório e psicossocial presente tanto na diabetes quanto na hipertensão parece ser um elo comum entre essas doenças sistêmicas e a DTM. O modelo biopsicossocial de dor crônica, amplamente aceito na literatura atual, destaca a interação entre fatores fisiológicos, psicológicos e sociais no desenvolvimento e manutenção da DTM (DWORKIN; LERSON, 1992). Nesse sentido, pacientes com doenças crônicas como diabetes e HAS apresentam frequentemente níveis elevados de ansiedade, depressão e estresse, que são reconhecidos como importantes moduladores da dor e da atividade muscular mastigatória (GARCIA et al., 2022).

A interação entre essas condições destaca a necessidade de uma abordagem multidisciplinar e integrada na avaliação e manejo do paciente com DTM. O cirurgião-dentista, o médico clínico, o endocrinologista, o cardiologista e o fisioterapeuta devem atuar de forma colaborativa, visando ao controle das condições sistêmicas e ao alívio da sintomatologia orofacial. Além disso, a compreensão das possíveis relações entre essas patologias pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes, baseadas na individualização do cuidado.

Nos últimos anos, a influência dos fatores emocionais sobre a DTM tem sido amplamente investigada. Entre esses fatores, a ansiedade e o estresse destacam-se como elementos importantes na etiopatogenia e na perpetuação dos sintomas da DTM (FERNANDES et al., 2022). A ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) durante situações de estresse resulta na liberação de cortisol e outras substâncias pró-inflamatórias que podem contribuir para a sensibilização central e periférica, agravando o quadro álgico e a tensão muscular (CARVALHO et al., 2020).

A ansiedade, por sua vez, pode levar ao aumento do tônus muscular e ao desenvolvimento de parafunções orais, como o bruxismo, que está intimamente relacionado à sobrecarga da ATM e ao desenvolvimento de DTM (LUZ et al., 2021). Além disso, indivíduos ansiosos frequentemente apresentam uma percepção aumentada da dor, o que pode intensificar os sintomas clínicos da disfunção (VARGAS et al., 2019).

Estudos epidemiológicos indicam uma elevada prevalência de sintomas de DTM em indivíduos com altos níveis de estresse e ansiedade, sugerindo uma relação bidirecional entre esses distúrbios. Enquanto o estresse e a ansiedade podem desencadear ou intensificar os sintomas da DTM, a dor e as limitações funcionais impostas por essa condição podem, por sua vez, aumentar o sofrimento emocional do paciente, criando um ciclo vicioso difícil de interromper (OLIVEIRA et al., 2021).

Diante disso, torna-se imprescindível uma abordagem multidisciplinar no diagnóstico e no tratamento da DTM, considerando não apenas os aspectos físicos, mas também os fatores emocionais e comportamentais envolvidos. A compreensão dessa associação entre DTM, ansiedade e estresse pode auxiliar na adoção de estratégias terapêuticas mais eficazes, como a terapia cognitivo-comportamental, o controle do estresse e o acompanhamento psicológico, além do tratamento odontológico convencional (MARTINS et al., 2023).

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi avaliar a associação da DTM com a hipertensão, diabetes, ansiedade e estresse.

3. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal, quantitativo, descritivo, aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa das Faculdades Unidas do Norte de Minas – FUNORTE com o número 7.635.290.

A amostra por conivência foi composta por 100 pacientes adultos e idosos atendidos em um hospital escola do município de Montes Claros – MG. Os dados foram coletados através de um questionário estruturado contendo as variáveis sexo, idade, diagnóstico de diabetes, diagnóstico de hipertensão, diagnóstico de estresse e ansiedade, diagnóstico de disfunção temporo mandibular. 

O questionário foi elaborado baseado no índice anamnésico de FONSECA (1994) onde o diagnóstico da DTM é analisado em 4 escores: sem DTM (0-15), DTM leve (20-40), DTM moderada (45-65) e DTM severa (70-100), no presente trabalho os escores foram dicotomizados em “sem DTM” e “com DTM” incluindo neste DTM leve, DTM moderada e DTM severa. Para as demais variáveis usou-se o questionário utilizado por SILVA (2022) onde as respostas são “sim” ou “não” para hipertensão, diabetes, estresse e ansiedade; “masculino” e “feminino” para a variável sexo e a faixa etária dicotomizada de acordo com o IBGE em adultos de 20 a 59 anos e idosos acima de 60 anos. 

As análises dos dados foram realizadas no programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS®), versão 22.0, apresentando análises descritivas e bivariadas. Para a análise descritiva foram apresentadas a frequência simples e relativa das variáveis, já para a análise bivariada usou-se o teste Qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5% (p ≤ 0,05).

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS

Com a análise dos dados, pode-se constatar que a maior parte da amostra foi composta por indivíduos do sexo feminino (75,3%) e adultos (58%) (Tabela 1).

Quanto às comorbidades pesquisadas, 73,3% dos indivíduos relataram ter diabetes, 37.6% possuem diagnóstico de hipertensão, 54,4% relataram ansiedade, 51,5% afirmaram estar estressados e 92,1% da amostra relatou algum nível de disfunção temporomandibular (Tabela 2).

De acordo com a tabela 3 com a análise bivariada, pode-se constatar que há uma incidência maior de DTM em pacientes com hipertensão, estresse e ansiedade (p value < 0,05); já para os pacientes com diabetes, a associação demonstrou que indivíduos diabéticos possuem menos sintomas de DTM (p value < 0,05).

Tabela 1 – Análise descritiva das variáveis estudadas –  Sexo e faixa etária

Variáveis analisadasN%
SexoFeminino75  75,3
        Masculino25   24,7
IdadeAdultos (20 a 59 anos)58  58,0
Idosos (acima de 60 anos)42  42,0
                 
Total100  100%

Tabela 2 – Análise descritiva das variáveis estudadas – Diagnóstico de diabetes, hipertensão, estresse, ansiedade e DTM.

Variáveis analisadasN%
Sim7373,3
DiabetesNão2726,7
Sim3837,6
HipertensãoNão6262,4
Sim5554,4
AnsiedadeNão4545,6
Sim5351,5
EstresseNão4748,5
Com DTM9292,1
DTMSem DTM08  7,9
Total100

Tabela 3 – Análise bivariada das variáveis estudadas – Associação da DTM com diabetes, hipertensão, ansiedade e estresse.

Variáveis analisadas                 Com DTMSem DTMP value
Sim              88,9%11,1%
DiabetesNão              93,2%  6,8%0,020
Sim             97,4%  2,6%
HipertensãoNão            88,5%11,5%0,027
Sim            94,5%  5,5%
AnsiedadeNão            88,9%11,1%0,015
Sim           98,1%  1,9%
EstresseNão           85,1%14,9%0,008

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como demonstrado neste estudo, a maior prevalência de DTM entre indivíduos ansiosos e estressados pode ser explicada por mecanismos neurofisiológicos que ligam o sistema límbico às funções musculoesqueléticas. A ansiedade e o estresse crônico induzem um aumento da tensão muscular, favorecendo para funções como o bruxismo e o apertamento dentário, que, por sua vez, sobrecarrega a ATM e a musculatura mastigatória. Além disso, o estresse emocional está associado a alterações nos níveis de cortisol e em neurotransmissores como serotonina e dopamina, os quais podem modular a percepção da dor e intensificar sintomas dolorosos.

Estudos clínicos e epidemiológicos reforçam essa associação. Pesquisa de Winocur et al. (2011) demonstrou que pacientes com níveis elevados de estresse apresentaram maior incidência de sinais e sintomas de DTM. Do mesmo modo, Ferreira et al. (2018) apontaram que indivíduos com transtornos de ansiedade têm até três vezes mais chances de desenvolver DTM em comparação à população geral. Essa relação é ainda mais evidente em populações específicas, como estudantes universitários e profissionais expostos a altos níveis de exigência emocional.

A maior prevalência de DTM em indivíduos hipertensos apontada no presente trabalho pode ser explicada por múltiplos fatores fisiopatológicos e comportamentais. A hipertensão está frequentemente associada ao estresse crônico, à ansiedade e à hiperatividade do sistema nervoso simpático — elementos que também são amplamente reconhecidos como fatores contribuintes para a manifestação e manutenção da DTM (Silva et al., 2020). A ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), comum em pacientes hipertensos, leva à liberação excessiva de cortisol, que por sua vez altera a modulação da dor e favorece o aumento da tensão muscular, predispondo ao aparecimento de sintomas da DTM (Rodrigues & Bittencourt, 2018).

Além disso, a dor crônica associada à DTM pode desencadear ou agravar episódios hipertensivos, uma vez que a dor intensa estimula a liberação de catecolaminas, promovendo vasoconstrição e elevação da pressão arterial (Souza et al., 2019). Essa relação bidirecional entre DTM e hipertensão torna o diagnóstico clínico mais complexo e reforça a necessidade de abordagens interdisciplinares.

Outro aspecto a ser considerado é que alguns medicamentos utilizados no tratamento da hipertensão, como os diuréticos tiazídicos, podem causar efeitos colaterais como xerostomia e cãibras musculares, o que pode interferir negativamente na função mastigatória e no controle dos sintomas da DTM (Nascimento et al., 2021). Assim, o manejo clínico de pacientes hipertensos com DTM deve ser cuidadosamente planejado, considerando as particularidades sistêmicas e odontológicas de cada caso.

Os achados na literatura vão de encontro à associação demonstrada neste estudo. Segundo Silva et al. (2020), indivíduos hipertensos apresentam maior prevalência de dor miofascial e limitação de abertura bucal. Da mesma forma, estudos clínicos demonstraram que a prevalência de DTM em pacientes hipertensos pode ultrapassar 50%, especialmente entre aqueles com histórico de estresse ocupacional e hábitos parafuncionais, como o bruxismo (Carvalho et al., 2017).

Para o desfecho da diabetes, este estudo apontou que indivíduos com esta doença apresentam menos sinais de DTM. Dentro deste contexto, alguns estudos têm sugerido uma menor prevalência de DTM em indivíduos diabéticos, especialmente naqueles com controle glicêmico adequado. Um dos mecanismos propostos para essa relação é a neuropatia periférica diabética, que pode reduzir a percepção da dor e, consequentemente, a sintomatologia dolorosa típica das DTMs. Como apontado por Silva et al. (2015), “a presença de neuropatia diabética pode atuar como um fator protetor contra a percepção de dor musculoesquelética, incluindo a dor miofascial relacionada à DTM”.

Além disso, a hiperglicemia crônica pode levar a alterações estruturais em fibras colágenas e tecidos articulares, o que, paradoxalmente, pode promover uma menor mobilidade articular, reduzindo a sobrecarga da articulação temporomandibular. De acordo com Kellesarian et al. (2018), pacientes com DM apresentam menor movimentação mandibular e menor incidência de estalidos articulares em comparação com indivíduos não diabéticos.

Outro aspecto relevante é o perfil psicossocial dos pacientes diabéticos. Frequentemente acompanhados por equipes multiprofissionais, esses indivíduos podem desenvolver estratégias mais eficazes de enfrentamento de estresse, um dos principais fatores predisponentes à DTM. Conforme apontado por um estudo de Canales et al. (2019), a menor exposição a fatores psicossociais estressores pode contribuir para a menor prevalência de DTM em populações diabéticas.

De acordo com os dados e análises apresentadas pode-se concluir que existe uma associação positiva entre os quadros de DTM e as comorbidades: hipertensão, estresse e ansiedade. Já para o desfecho da diabetes, os dados apontaram uma associação negativa. Futuros estudos clínicos e epidemiológicos são necessários para aprofundar o entendimento sobre os mecanismos fisiopatológicos da DTM e seus fatores moduladores, contribuindo para o avanço do conhecimento científico e a melhoria dos protocolos de manejo clínico.

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