REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511242242
Adilza Maria de Melo Ferreira Godoy
Arla Hayane Silva dos Santos
Orientador: Prof. MSc. Fábio Gonçalves Viana Neto
Coorientador: Nelbert Cavalcanti de Almeida
RESUMO
Este estudo tem como objetivo analisar o sucesso e insucesso da VNI em pacientes DPOC em fase de exacerbação, trata-se de uma revisão sistemática, realizada por meio de artigos científicos, documentos e livros para aumentar a precisão e consistência metodológica da busca, publicados entre 2015 e 2025 nas bases de dados da SciElo, MEDLINE, PubMed, Lilacs, OMS, BVS e ScienceDirect. Os estudos analisados na íntegra demonstraram que a VNI é padrão ouro no manejo da DPOC, tabagismo, fatores ambientais e determinantes sociais aumentam o risco de internações e mortalidade, o controle de infecções virais e bacterianas é muito importante para evitar agravos na doença, e reforçando o papel da fisioterapia no monitoramento diário.
Conclui-se que o sucesso do uso da VNI em pacientes com DPOC em fase de exacerbação depende de fatores clínicos e fisiológicos, se mostrou eficaz em casos de insuficiência respiratória, hipercapnia, reduzindo a necessidade de intubação e diminuindo o índice de mortalidade. No entanto, ainda existem as falhas em fases precoces e tardias do tratamento, nestes casos reforça-se a necessidade de avaliações individualizadas como a escala DECAF e acompanhamento da equipe multidisciplinar.
Palavras-chave: doença pulmonar obstrutiva crônica; ventilação não invasiva; exacerbação aguda; insuficiência respiratória; fisioterapia respiratória.
ABSTRACT
This study aims to analyze the success and failure of non-invasive ventilation (NIV) in patients with Chronic Obstructive Pulmonary Disease (COPD) during the exacerbation phase. It is a systematic review conducted through scientific articles, documents, and books to increase the methodological accuracy and consistency of the search, including studies published between 2015 and 2025 in the SciELO, MEDLINE, PubMed, LILACS, WHO, BVS, and ScienceDirect databases. The studies analyzed in full demonstrated that NIV is the gold standard in the management of COPD. Smoking, environmental factors, and social determinants increase the risk of hospitalizations and mortality. The control of viral and bacterial infections is essential to prevent disease aggravation, reinforcing the role of physiotherapy in daily monitoring. It is concluded that the success of NIV use in COPD patients during the exacerbation phase depends on clinical and physiological factors and has proven effective in cases of respiratory failure and hypercapnia, reducing the need for intubation and decreasing mortality rates. However, early and late treatment failures still occur, emphasizing the need for individualized assessments such as the DECAF scale and multidisciplinary team follow-up.
Keywords: chronic obstructive pulmonary disease; noninvasive ventilation; acute exacerbation; respiratory failure; respiratory physiotherapy.
1. INTRODUÇÃO
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é uma enfermidade comum e prevenível, mas frequentemente não diagnosticada ou tratada de forma adequada, segundo a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT, 2023/2024). Esta condição tem um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e de seus familiares, além de acarretar elevados custos para os sistemas de saúde e a sociedade em geral.
Durante as exacerbações agudas, há uma intensificação da inflamação e do aprisionamento aéreo, com aumento da hipoxemia e da retenção de CO₂. Esses episódios são geralmente desencadeados por infecções virais, bacterianas ou pela exposição a irritantes ambientais, e representam um marco importante na evolução da doença, estando associados a pior prognóstico e maior mortalidade hospitalar (Agarwal; Raja; Brown, 2023). Nessas situações, o suporte ventilatório torna-se frequentemente necessário para restaurar a ventilação alveolar e corrigir a acidose respiratória.
A ventilação não invasiva (VNI) destaca-se como a principal estratégia de suporte respiratório nesses casos. Caracteriza-se pela aplicação de pressão positiva nas vias aéreas por meio de máscara facial ou nasal, dispensando a necessidade de intubação orotraqueal. O uso da VNI melhora a ventilação alveolar, reduz o trabalho respiratório, otimiza a troca gasosa e diminui o risco de complicações associadas à ventilação invasiva (Criner et al., 2024). Além disso, estudos demonstram que o início precoce da VNI está relacionado à redução de mortalidade, menor tempo de internação e melhor recuperação funcional (Chawla et al., 2021; Chen et al., 2020).
Estima-se que, entre 2020 e 2050, a doença custará aproximadamente INT$ 4,3 trilhões, cerca de 0,11% do PIB mundial anual, sendo China e Estados Unidos os países mais afetados, com custos absolutos de INT$ 1,36 trilhão e INT$ 1,04 trilhão, respectivamente (Chen et al., 2023). Essa distribuição desigual reflete diferenças em capital humano, sistemas de saúde e gastos com tratamento, reforçando a necessidade de políticas de prevenção, diagnóstico precoce e manejo eficaz da doença.
A DPOC é a quarta principal causa de morte no mundo, responsável por 3,5 milhões de óbitos em 2021. Quase 90% das mortes em pessoas com menos de 70 anos ocorrem em países de baixa e média renda, onde a poluição do ar doméstico é um fator de risco predominante, o tabagismo permanece como a principal causa associada. (OMS, 2024).
De acordo com a Global Initiative for Obstructive Lung Disease (GOLD, 2024), a DPOC é uma doença pulmonar heterogênea, caracterizada por sintomas respiratórios crônicos, como dispneia, tosse, produção excessiva de muco e exacerbações. A doença resulta em alterações nas vias aéreas ou nos alvéolos, incluindo bronquite e enfisema, levando à obstrução persistente do fluxo de ar, que frequentemente progride ao longo do tempo (GOLD, 2024).
Modificações do sistema respiratório presentes na doença, como hiperinsuflação pulmonar, estreitamento das vias aéreas e perda do recolhimento elástico, comprometem a mecânica respiratória e aumentam o trabalho muscular. Essas alterações levam a limitações progressivas da capacidade física e intolerância ao esforço, afetando diretamente a autonomia e a qualidade de vida dos pacientes (Rodrigues-Machado, 2018, p. 1135–1138).
A progressão da doença está associada à redução do fluxo expiratório máximo, aumento de volumes pulmonares estáticos, diminuição da capacidade inspiratória e alterações na relação ventilação/perfusão, fatores que contribuem para hipercapnia crônica, fadiga muscular e restrições às atividades diárias (Rodrigues-Machado, 2018, p. 1141–1143).
Além disso, a disfunção dos músculos respiratórios, incluindo o diafragma e músculos acessórios, resulta em sobrecarga inspiratória, alterações geométricas do tórax e adaptação do perfil das fibras musculares, contribuindo para maior esforço durante a respiração, aumento da percepção de falta de ar e risco elevado de hospitalizações repetidas. Esses efeitos cumulativos reforçam o impacto negativo da DPOC na qualidade de vida e no prognóstico dos indivíduos acometidos (Rodrigues-Machado, 2018, p. 1147–1151).
As alterações estruturais e inflamatórias características da DPOC intensificam a gravidade das exacerbações. A destruição dos sacos alveolares e a inflamação das vias aéreas comprometem a ventilação e a troca gasosa, resultando em aprisionamento de ar, hiperinsuflação pulmonar e aumento dos níveis de dióxido de carbono. Durante episódios agudos, gatilhos como infecções ou irritantes ambientais intensificam essa resposta, agravando hipoxemia e hipercapnia, podendo exigir intervenção clínica imediata (Agarwal; Raja; Brown, 2023).
Pacientes com DPOC frequentemente apresentam exacerbações que provocam piora clínica aguda, podendo levar à hospitalização e à necessidade de suporte ventilatório. O uso de ventilação não invasiva nesses episódios tem mostrado melhorar os desfechos clínicos, embora a manutenção de hipercapnia após a exacerbação esteja associada a maior risco de mortalidade e readmissões precoces (Murphy et al., 2017).
A ventilação não invasiva (VNI) é um tipo de suporte ventilatório que não requer procedimentos invasivos, como a intubação orotraqueal (IOT). Ela utiliza pressão positiva por meio de máscara nasal ou facial, sendo indicada conforme as necessidades clínicas do paciente (Intens Care Med, 2001). Os principais tipos de interfaces utilizados na VNI podem ser observados na Figura 1.
Segundo a revista European Respiratory Journal, a VNI mantém a integridade das vias aéreas superiores, melhora o conforto e a conveniência do paciente, baixo custo comparado a intubação orotraqueal, reduz as chances de complicações, mortalidade, internações e a redução nas taxas de pneumonia (Criner et al., 2024).
Esse recurso pode ser administrado de diferentes modos e ajustado para atender às necessidades e demandas respiratórias específicas de cada paciente. Além disso, evita riscos associados à ventilação mecânica invasiva (VMI), proporciona maior conforto e preserva a mobilidade. A técnica se estende a diferentes condições respiratórias e contextos clínicos, utilizando variadas interfaces e sistemas de administração, sendo frequentemente utilizada em situações de emergência, como exacerbações de DPOC (Criner et al., 2024; Tallo; Vendrame; Lopes, 2014, v. 1, cap. 6, p. 44).
O suporte proporcionado pela VNI melhora a função respiratória por diferentes mecanismos. De forma simples, ela utiliza uma máscara conectada a um ventilador de pressão positiva, aplicada sobre a boca e o nariz do paciente. A pressão positiva intermitente facilita a entrada de ar nos pulmões, aumentando a pressão transpulmonar, promovendo melhor expansão pulmonar e ampliando o volume corrente. Como resultado, reduz-se o esforço dos músculos respiratórios, especialmente o diafragma (Criner et al., 2024).
Em pacientes com DPOC durante exacerbações, a VNI combina pressão expiratória positiva (PEEP) com suporte de pressão inspiratória, o que ajuda a neutralizar os efeitos da auto-PEEP. Isso diminui o esforço respiratório, reduz oscilações da pressão diafragmática, frequência respiratória, atividade muscular e a sensação de falta de ar. Além disso, contribui para a eliminação do CO₂ e aumenta a capacidade residual funcional dos pulmões, e auxilia no recrutamento alveolar, reduz áreas de shunt e melhora a ventilação-perfusão (Carrey et al., 2024).
Em estudo realizado na UTI do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, 80 pacientes utilizaram ventilação não invasiva (VNI) durante cinco meses. Desses, 60,9% apresentaram sucesso na intervenção, enquanto 39,1% evoluíram com insucesso, necessitando de intubação orotraqueal ou prolongamento do suporte ventilatório (Reis et al., 2019).
O insucesso da VNI esteve associado a fatores clínicos e ventilatórios específicos. Indivíduos do sexo masculino, com acidose metabólica, diagnóstico de infecção extrapulmonar e necessidade de parâmetros elevados de pressão positiva inspiratória (Ipap) e volume corrente (VC) apresentaram maior probabilidade de falha na VNI. Alterações na gasometria arterial, como pH mais baixo, bicarbonato e base excess reduzidos, também foram observadas no grupo que evoluiu com insucesso (Reis et al., 2019).
O estudo baseou-se em uma revisão da literatura realizada em bases nacionais e internacionais de relevância científica, como PubMed, ScienceDirect, SciELO, LILACS, Documentos, Livros entre outras. Foram selecionados artigos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, garantindo diversidade e abrangência das evidências. O foco esteve em pesquisas envolvendo pacientes adultos com DPOC em fase de exacerbação submetidos à ventilação não invasiva (VNI).
Esta revisão fornece dados importantes sobre determinantes de sucesso e insucesso da VNI em pacientes críticos, ele envolve uma população heterogênea e não permite conclusões específicas para pacientes com DPOC em fase de exacerbação. Dessa forma, torna-se necessária uma análise sistemática voltada a esta população, identificando os fatores clínicos, funcionais e técnicos que realmente influenciam os desfechos da intervenção. Assim, o objetivo deste estudo é analisar os determinantes clínicos, funcionais e técnicos que influenciam o sucesso ou insucesso da ventilação não invasiva em pacientes com DPOC em fase de exacerbação.
2. OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Analisar, com base na literatura científica, os fatores determinantes para o sucesso ou insucesso da ventilação não invasiva (VNI) em pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) em exacerbação aguda.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Identificar os critérios utilizados na literatura para caracterizar o sucesso e o insucesso da VNI em casos de exacerbação aguda da DPOC; Descrever os fatores clínicos, fisiológicos e funcionais associados à resposta à VNI neste contexto; Analisar os principais desfechos clínicos relatados em estudos sobre o uso da VNI na exacerbação da DPOC.
Palavras-chave: doença pulmonar obstrutiva crônica; ventilação não invasiva; episódio agudo.
3. METODOLOGIA
A presente pesquisa trata-se de uma revisão sistemática da literatura, de caráter descritivo, cujo objetivo foi identificar os fatores clínicos, fisiológicos e assistenciais associados ao sucesso ou insucesso da ventilação não invasiva (VNI) em pacientes adultos com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) em fase de exacerbação aguda.
O levantamento bibliográfico foi realizado entre agosto e setembro de 2025, em bases de dados nacionais e internacionais de relevância científica, incluindo Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Organização Mundial da Saúde (OMS), MEDLINE/PubMed, SciELO e Science Direct.
Descritores controlados DeCS/MeSH e termos livres foram utilizados, combinados por operadores booleanos (AND/OR) e adaptados para cada base. As principais estratégias de busca incluíram: “Chronic Obstructive Pulmonary Disease” AND “Non-Invasive Ventilation”; “Chronic Obstructive Pulmonary Disease” AND “Exacerbation”; “Exacerbated” OR “COPD” AND “Non-Invasive Ventilation”; “COPD Exacerbation” AND “NIV”; “Noninvasive Ventilation” AND “Success” OR “Failure”.
Para aumentar a precisão e consistência metodológica da busca, aplicaram-se filtros de tipo de estudo (livros e documentos, revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e caso-controle), idioma (português, inglês e espanhol), faixa etária (adultos ≥19 anos) e período de publicação (últimos dez anos), priorizando evidências de maior robustez de acordo com a pirâmide de evidências científicas.
Os critérios de inclusão contemplaram artigos que abordassem pacientes adultos com DPOC em contexto de exacerbação aguda submetidos à VNI, analisando fatores clínicos, fisiológicos ou assistenciais relacionados ao sucesso ou insucesso do suporte ventilatório. Foram excluídos estudos que não tratassem especificamente da DPOC em exacerbação aguda, que não envolvessem VNI ou que incluíssem populações pediátricas. Também foram desconsiderados estudos sobre o uso crônico de VNI em condições como apneia obstrutiva do sono, síndrome da hipoventilação por obesidade, edema agudo de pulmão cardiogênico, asma, bronquite, COVID-19 ou doenças neuromusculares, exceto quando empregados em contexto de exacerbação aguda. Adicionalmente, foram excluídos artigos com metodologia inadequada, amostras insuficientes ou resultados inconclusivos.
A seleção dos estudos seguiu as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020). A triagem foi realizada em três etapas: leitura de títulos, leitura de resumos e leitura na íntegra dos artigos selecionados. Os estudos elegíveis foram analisados em profundidade e categorizados segundo os determinantes clínicos, fisiológicos e assistenciais associados ao sucesso ou insucesso da VNI. O fluxograma de seleção está apresentado na Figura 1 e a lista de verificação PRISMA-P foi incluída como material suplementar.
Figura 1– Fluxograma PRISMA

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram selecionados 13 estudos publicados entre 2015 e 2025 que atendessem os critérios de inclusão sobre os determinantes de sucesso e insucesso da ventilação não invasiva (VNI) em pacientes com DPOC em fase de exacerbação. Para melhor organização e compreensão dos achados, foi desenvolvido a Tabela 1 que resume os principais achados relacionados a fatores clínicos, fisiológicos e psicossociais que influenciam a eficácia da VNI.
Tabela 1 – Principais estudos sobre DPOC e ventilação não invasiva (VNI)
| Ano | Autor | Objetivo do estudo | Principais achados | Conclusão |
| 2015 | Frat et al. | Comparar oxigenoterapia de alto fluxo e VNI em pacientes com insuficiência respiratória. | A VNI mostrou-se mais eficaz em exacerbações hipercápnica, reduzindo o risco de intubação. | A VNI é considerada o padrão-ouro no manejo ventilatório da DPOC aguda. |
| 2015 | Johnston et al. | Caracterizar causas de exacerbações da DPOC. | Infecções virais e bacterianas foram as principais causas de exacerbação. | Ressalta a importância do controle de infecções e fatores ambientais. |
| 2016 | Ko et al. | Avaliar fatores ambientais na exacerbação da DPOC. | Poluição e condições climáticas correlacionaram-se com aumento de exacerbações. | Destaca o impacto ambiental e econômico da DPOC. |
| 2019 | Cukier et al. | Analisar a variação diária dos sintomas de DPOC em pacientes brasileiros. | Dispneia matinal associada à pior qualidade de vida e maior risco de exacerbações. | Reforça o papel da fisioterapia e do monitoramento diário. |
| 2020 | Chen et al. | Investigar falhas precoces e tardias da VNI em DPOC aguda. | Falha tardia após 48h associada a maior mortalidade e complicações metabólicas. | Destaca a necessidade de monitorização contínua nas primeiras 48 horas. |
| 2020 | Vogelmeier et al. | Atualizar diretrizes GOLD para manejo da DPOC. | Recomenda abordagem individualizada com suporte ventilatório e farmacológico. | Base para protocolos clínicos padronizados. |
| 2021 | Chawla et al. | Avaliar eficácia da VNI em insuficiência respiratória hipercápnica. | Sucesso em 76% dos pacientes, com melhora gasométrica e menor taxa de intubação. | Confirma a eficácia da VNI quando aplicada precocemente. |
| 2021 | Macleod et al. | Avaliar terapias farmacológicas complementares à VNI. | A terapia tripla reduziu exacerbações em pacientes refratários com eosinofilia. | Indica os benefícios do tratamento combinado. |
| 2021 | Raveling et al. | Avaliar o impacto da VNI em ambiente domiciliar após exacerbação. | VNI prolongada melhorou sobrevida livre de readmissões e qualidade de vida. | Sugere benefício do uso domiciliar, apesar de incertezas sobre o momento ideal. |
| 2022 | Fernández-García et al. | Analisar hospitalizações por DPOC na Galiza. | Maior prevalência em homens >40 anos, associada a pneumonia e insuficiência cardíaca. | Reforça o caráter multifatorial da DPOC. |
| 2022 | Phillips et al. | Investigar fatores de risco e mortalidade na DPOC. | Tabagismo, poluição e determinantes sociais aumentam risco de internação e mortalidade. | Ressalta a necessidade de abordagem holística e preventiva. |
| 2022 | Moita et al. | Avaliar práticas clínicas e desfechos em hospitais portugueses. | Identificou falhas de adesão às diretrizes GOLD e variabilidade de manejo. | Sugere padronização e melhor educação profissional. |
| 2025 | Revista Respirar. | Validar a escala DECAF em pacientes hospitalizados por DPOC. | Escala eficaz para prever desfechos e direcionar condutas clínicas. | Ferramenta útil para personalizar o tratamento e reduzir falhas precoces. |
Fonte: Autor (2025).
Os achados reunidos nesta revisão sistemática permitiram uma análise crítica sobre os determinantes de sucesso e insucesso da ventilação não invasiva (VNI) em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) durante exacerbações agudas. De forma geral, as evidências apontam que a eficácia da VNI depende de múltiplos fatores clínicos, fisiológicos e assistenciais, reforçando a importância de avaliação individualizada no manejo desses pacientes.
4.1 Determinantes ambientais, comportamentais e sociais
Estudos analisados destacaram que fatores externos exercem influência direta sobre o curso da DPOC e a resposta à VNI. Johnston et al. (2015) e Ko et al. (2016) apontaram as infecções respiratórias virais e bacterianas como principais causas de exacerbações agudas, enquanto Phillips et al. (2022) associaram a poluição atmosférica, o tabagismo e determinantes sociais a piores desfechos e aumento da mortalidade.
No contexto europeu, pesquisas conduzidas em Portugal e na Galiza evidenciaram maior incidência de hospitalizações por DPOC em homens acima de 40 anos, sendo as comorbidades cardiovasculares e pneumonias as principais causas associadas às internações (Moita et al., 2022; Fernández-García et al., 2022). No Brasil, Cukier et al. (2019) observaram que a dispneia no período da manhã foi intensa assim impactando negativamente na qualidade de vida e está associada a maior risco de exacerbações, reforçando a importância do acompanhamento fisioterapêutico contínuo.
4.2 Estratégias complementares e abordagem multidisciplinar
A literatura revisada reforça que o manejo da DPOC durante a exacerbação deve ser abrangente e individualizado, conforme as diretrizes GOLD (Vogelmeier et al., 2020). Além da VNI, o tratamento deve integrar o uso de broncodilatadores de longa ação, terapia tripla em casos refratários e reabilitação pulmonar supervisionada. Essas medidas, combinadas ao suporte ventilatório, demonstraram reduzir a frequência de exacerbações e melhorar o prognóstico funcional dos pacientes (Macleod et al., 2021).
Estudos recentes também exploram o papel da VNI domiciliar como extensão terapêutica após a alta hospitalar. Raveling et al. (2021) relataram que seu uso contínuo pode melhorar a sobrevida livre de readmissões e na qualidade de vida, embora ainda haja incertezas quanto ao momento ideal de início após uma exacerbação grave.
4.3 Fatores clínicos e fisiológicos associados ao sucesso da VNI
A maioria dos estudos incluídos demonstraram que o uso precoce da VNI em casos de insuficiência respiratória hipercápnica promove melhora significativa nos parâmetros clínicos e gasométricos, com redução da frequência respiratória, melhora do pH e da saturação de O₂, além de diminuição da PaCO₂ (Chawla et al., 2021; Chen et al., 2020). Chawla et al. (2021) observaram sucesso em 76% dos casos analisados, com rápida reversão da hipercapnia e menor taxa de intubação, reforçando a eficácia da técnica no manejo agudo. Estudos adicionais também destacaram que a VNI reduz a mortalidade hospitalar e o tempo de internação quando instituída de forma precoce e adequada (Frat et al., 2015; Raveling et al., 2021).
Além disso, a literatura destaca que o sucesso da VNI depende do estado clínico inicial, da adesão à interface ventilatória e da monitorização contínua durante as primeiras 48 horas, período crítico para ocorrência de falhas precoces. O suporte fisioterapêutico tem papel fundamental nesse processo, auxiliando na adaptação do paciente ao equipamento e na otimização da ventilação (Vogelmeier et al., 2020).
4.4 Fatores associados ao insucesso e às complicações da VNI
Apesar dos benefícios comprovados, a ocorrência de falhas precoces e tardias da VNI ainda representa um desafio clínico relevante. Chen et al. (2020) relataram que a falha tardia, geralmente observada após 48 horas de uso, está associada a piores desfechos, incluindo maior mortalidade, necessidade de intubação e complicações metabólicas. A presença de acidose grave, instabilidade hemodinâmica e comorbidades cardiovasculares foram descritas como fatores que aumentam o risco de insucesso (Ko et al., 2016; Phillips et al., 2022).
Ferramentas de estratificação clínica, como a escala DECAF (dispneia, eosinopenia, consolidação, acidose e fibrilação atrial), mostraram-se eficazes para prever desfechos desfavoráveis e melhor direcionar o manejo de forma mais segura e individualizada (Respirar, 2025). O uso dessa escala pode reduzir falhas precoces ao permitir identificação e intervenção antecipada em pacientes de alto risco.
4.5 Síntese crítica
De forma geral, os achados desta revisão sistemática demonstram que o sucesso da VNI em pacientes com DPOC durante exacerbações agudas depende de uma avaliação clínica criteriosa, intervenção precoce da terapia e acompanhamento multiprofissional contínuo. Fatores clínicos, fisiológicos, ambientais e sociais interagem de forma complexa, influenciando diretamente no desfecho e no risco de complicações.
Assim, a VNI deve ser compreendida não apenas como um suporte ventilatório de emergência, mas como parte de uma estratégia terapêutica integrada, que envolve o uso de ferramentas preditivas, reabilitação pulmonar e intervenções preventivas. Essa abordagem multifatorial se mostra essencial para reduzir hospitalizações, melhorar a qualidade de vida e otimizar o prognóstico a longo prazo dos pacientes com DPOC.
5. CONCLUSÃO
Esta revisão sistemática evidenciou que o sucesso da ventilação não invasiva (VNI) em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) em fase de exacerbação depende de múltiplos fatores clínicos, fisiológicos e assistenciais. A VNI mostrou-se eficaz na reversão da insuficiência respiratória hipercápnica, reduzindo a necessidade de intubação e a mortalidade. No entanto, as falhas precoces e tardias ainda representam um desafio, reforçando a importância de uma avaliação individualizada e do uso de ferramentas como a escala DECAF.
Por fim, o manejo da DPOC deve ser multidisciplinar e personalizado, visando melhor prognóstico e qualidade de vida ao paciente. O uso domiciliar da VNI surge como uma estratégia promissora, capaz de melhorar a qualidade de vida e reduzir complicações, embora ainda sejam necessários novos estudos para definir o momento ideal de aplicação e os critérios de indicação mais adequados.
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