DESVIO DE SEPTO NASAL: ASPECTOS ANATÔMICOS, FUNCIONAIS E CIRÚRGICOS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202601091156


Maria Nogueira da Costa
Samyra Bertoli Petri
Sabrina Quadros Assad
⁠João Paulo Verissimo Sthel
Nalber Furtado Nalesso
⁠Alana Fidelis Mansur
⁠Ana Carolina Simões Dias
⁠Ramana Scardua Jonas
João Pedro Louzada Bonadiman


Resumo

Objetivo: Analisar, por meio de referências bibliográficas e artigos recentes, os aspectos anatômicos, funcionais e cirúrgicos do desvio de septo, juntamente com avaliação diagnóstica e condutas terapêuticas.Metodologia: Foi realizado um recorte temporal de 5 anos para uma revisão bibliográfica nas revistas: Pubmed e SciELO, com os seguintes descritores: “Septo nasal”, “desvio de septo”, “anatomia” e “funcionalidade”, assim como suas combinações, em artigos no idioma português e inglês. Após a análise foram selecionados 14 artigos relevantes que abordam aspectos anatômicos, funcionais e cirúrgicos.  Resultados: Após a revisão bibliográfica, definiu- se a ligação direta entre o DNS e distúrbios de sono, o que demonstra a necessidade de um diagnóstico preciso, através de anamnese e exame físico e, em alguns casos, o uso de exames complementares de imagem. Além disso, tomografias computadorizadas coronárias mostraram grande eficiência na classificação do DNS, fato que orienta o tipo de tratamento estabelecido.  Considerações finais: Destaca-se a necessidade de haver a suspeita clínica, confirmação diagnóstica e  terapêutica adequada para cada caso nos pacientes com desvio de septo. Ademais, os estudos demonstram a importância dos exames complementares no auxílio diagnóstico e orientam as possíveis condutas, juntamente com a análise individual de cada paciente. 

Palavras-chave: desvio de septo, obstrução nasal, rinossinusite.

INTRODUÇÃO

No Brasil, dados da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial indicam que o desvio de septo pode ser causado por anomalias congênitas, traumas e crescimento desigual de estruturas na infância e adolescência (MANIGLIA, et al, 2017). O septo nasal, uma fina barreira osteocartilaginosa, separa o nariz em duas cavidades. Um desvio de septo nasal (DNS) ocorre quando esse septo é deslocado para um lado do nariz. O diagnóstico é feito por meio de exame físico, e em alguns casos, com exame de imagem (ALGHAMDI, et al, 2022).

Estima-se que a prevalência do desvio de septo nasal (DNS) varie em torno de 90% da população geral, com diferentes graus de comprometimento (JANOVIC, et al., 2020). Em razão do deslocamento do septo nasal, os sintomas manifestam-se de acordo com a intensidade do desvio, sendo a obstrução nasal a principal queixa associada à condição. Essa obstrução resulta na redução do fluxo de ar pelas vias nasais, o que compromete a função respiratória normal. O impacto mais frequente na saúde respiratória é a congestão nasal, podendo também ocasionar dores de cabeça, ronco, sinusite, ansiedade e a necessidade de respiração bucal. Tais sintomas têm o potencial de gerar repercussões físicas e sociais significativas, prejudicando a qualidade de vida dos indivíduos afetados (YU, et al., 2024).

As variações anatômicas nos tecidos ósseo e cartilaginoso do septo nasal aumentam o risco de complicações associadas ao desvio septal nasal (DSN). A análise detalhada dessas variantes anatômicas é essencial para o planejamento cirúrgico, uma vez que permite a redução dos riscos durante a abordagem terapêutica. A septoplastia, técnica mais utilizada para corrigir a obstrução nasal causada pelo DSN, consiste na correção das deformidades do septo para ampliar as vias respiratórias e restabelecer um fluxo aéreo adequado. Embora eficaz, pode apresentar complicações graves e raras, como fístula dural e pneumoencéfalo (CHASTANET, et al., 2020).   Dessa forma, o avanço no uso de tecnologias de imagem, como a tomografia computadorizada, tem se mostrado uma ferramenta valiosa para uma avaliação mais precisa da anatomia do paciente, contribuindo para uma maior taxa de sucesso operatório e para recuperação mais rápida (ALGHAMDI, et al., 2022).

METODOLOGIA

Um recorte temporal de 05 anos (2018-2023) foi estabelecido para realizar uma revisão bibliográfica sobre o desvio de Septo Nasal: Aspectos Anatômicos, Funcionais e Cirúrgico. A pergunta norteadora desta revisão foi: “quais são os aspectos anatômicos, funcionais e cirúrgicos do desvio de septo?”.

A busca foi realizada nas seguintes bases de dados: PubMed e SciELO. Para a pesquisa, foram utilizados os descritores “Septo nasal”, “desvio de septo”, “anatomia” e “funcionalidade”, assim como suas combinações, em artigos no idioma português e inglês. 

Foram incluídos nesta revisão artigos que abordavam mecanismos fisiopatológicos, marcadores biológicos, estudos epidemiológicos e intervenções terapêuticas relacionadas ao tema. Além disso, foram considerados critérios de relevância do conteúdo e qualidade metodológica dos estudos. 

Após a busca nas bases de dados, foram encontrados um total de 14 artigos relevantes para a montagem desta revisão sobre a relevância do conteúdo para a relação entre o desvio de septo e seus aspectos anatômicos, funcionais e cirúrgicos. Critérios rigorosos de inclusão e exclusão foram estabelecidos com base na pertinência do conteúdo para a temática, abrangendo mecanismos fisiopatológicos, marcadores biológicos, estudos epidemiológicos e intervenções terapêuticas. Foram excluídos estudos duplicados, de acesso restrito ou que não atendiam aos critérios estabelecidos.

Uma análise crítica dos estudos selecionados foi realizada, identificando lacunas de conhecimento e pontos convergentes e divergentes. A síntese das informações permitiu a elaboração de um resumo dos principais achados, com destaque para aspectos relevantes na abordagem e tratamento do desvio de septo, seus aspectos anatômicos e funcionais. 

Os resultados obtidos foram contextualizados com a literatura existente, promovendo uma discussão sobre as implicações clínicas e epidemiológicas, além dos mecanismos subjacentes, proporcionando uma visão abrangente da eficácia do protocolo. Ademais, foram sugeridas direções para futuras pesquisas, visando aprimorar ainda mais a compreensão e a prática clínica relacionadas a este tema crucial na medicina de emergência.

DISCUSSÃO

Segundo a literatura, Moore et al. 9. ed.2024, anatomicamente, o septo nasal divide a cavidade nasal em duas partes, abrangendo uma parte óssea e uma parte cartilaginosa móvel e flexível. Os seus principais componentes são a lâmina perpendicular do etmoide, o vômer e a cartilagem do septo. A fina lâmina perpendicular do etmoide, que forma a parte superior do septo nasal, desce a partir da lâmina cribriforme, superiormente a essa lâmina ela se estende como a crista etmoidal. O vômer, caracterizado por ser um osso fino e plano, forma a parte póstero inferior do septo nasal, com alguma contribuição das cristas nasais da maxila e do palatino. A cartilagem do septo tem uma articulação do tipo macho e fêmea com as margens do septo ósseo. Por conseguinte, a classificação de Mladina estabelece uma relação conforme as características do septo nasal visto horizontalmente e verticalmente na rinoscopia ou tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT). Este sistema classifica o desvio do septo nasal em sete tipos; o tipo I envolve a crista vertical sem atingir o dorso nasal; o tipo II envolve a crista vertical que atinge o dorso nasal; o tipo III envolve a crista vertical em uma área mais profunda; o tipo IV envolve as áreas anterior e mais profunda da crista vertical; o tipo V se manifesta como uma deformidade horizontal em um lado do nariz, sendo o outro plano; o tipo VI manifesta um envolvimento bilateral do septo com luxação de um lado e desvio do outro lado; o tipo VII representa uma combinação de dois ou mais tipos (Cureu. 1et al., 2022).

Sob uma perspectiva dos aspectos funcionais, é necessário dissertar sobre a obstrução nasal, distúrbios do sono e hiposmia. Segundo a literatura OTORRINOLARINGOLOGIA, Associação Brasileira de Tratado de Otorrinolaringologia. 3. ed.2017, a obstrução nasal (ON) é um sintoma e não um diagnóstico. O indivíduo que sofre de obstrução nasal fica privado dos benefícios da respiração fisiológica promovida pelo nariz sadio, como aquecimento, umidificação e purificação do ar inspirado, a consequente respiração bucal causa alterações na mucosa da cavidade oral, da faringe e da laringe; e alterações estruturais no esqueleto da face. Portanto, é comum o paciente que sofre de obstrução nasal apresentar boca seca, sensação de ardor, língua saburrosa, gengivites, halitose, faringites, laringites, tosse, oclusão dentária deformada e outras alterações ósseas craniofaciais, além de hiposmia.

A obstrução nasal pode ter como causa uma doença de origem intranasal, paranasal ou retronasal. As ON de origens intranasais podem ser causadas por doenças exclusivas da mucosa nasal, por alterações anatômicas adquiridas ou congênitas das cavidades nasais e por crescimentos estruturais benignos e malignos. As ON de origens paranasais e retronasais são geralmente causadas por massas que comprometem a luz das fossas nasais, podendo ser de natureza benigna ou maligna.

Ademais, é válido destacar que o mecanismo pelo qual o desvio de septo interfere na qualidade do sono é multifatorial e abarca uma série de mudanças anatômicas e fisiológicas durante o sono.

De acordo com a literatura supracitada, a rinossinusite crônica (RSC) é a ocorrência de um processo inflamatório que acomete a mucosa do nariz e dos seios paranasais, com um tempo de evolução maior que 12 semanas. Além da temporalidade, a histopatologia evidenciou a destruição da mucosa nasossinusal que não se regenerou após o processo inflamatório e/ou infeccioso agudo. Assim sendo, é importante esclarecer a sua relação com o desvio de septo, pois conforme o artigo “Desvio de septo nasal é um fator de risco para a ocorrência de rinossinusite crônica. Cureus 14(10)”, as deformidades septais incluem esporão, desvio de septo nasal, espessamento e luxação. O desvio do septo nasal frequentemente levanta queixas como congestão nasal, dor de cabeça, anosmia, sinusite (por causa da obstrução dos óstios sinusais) e epistasia. Vários sintomas de rinossinusite crônica (RSC) incluem obstrução nasal, drenagem nasal ou pós-nasal, dor facial e distúrbios de pressão e olfato. Um em cada sete indivíduos com rinossinusite resultará em um diagnóstico anual de um mínimo de 50 milhões de novos casos de rinossinusite em todo o mundo. Além da rinossinusite crônica, outra condição associada ao desvio de septo é a apneia obstrutiva do sono. Segundo a Dra. Danielly Andrade, um desvio de septo pode contribuir para o desenvolvimento ou exacerbação da apneia obstrutiva do sono (OSA), causando obstrução nasal, o que aumenta a resistência das vias aéreas superiores e pode levar a eventos respiratórios com problemas de sono. 

O estudo de Yeom et al. descobriu que a prevalência de AOS foi 4,39 vezes maior em indivíduos com um grande desvio septal em comparação com um grupo controle sem desvio septal. Essa correlação foi mais pronunciada com o aumento do índice de massa corporal e diminuiu significativamente após a septoplastia, sugerindo que a correção do desvio septal pode mitigar o risco de AOS. 

Ademais, em relação ao manejo cirúrgico do desvio de septo a obstrução nasal é um problema recorrente em pacientes com distúrbios respiratórios, ocorrendo em tanto em jovens e adultos, influenciando negativamente na qualidade de vida de tais indivíduos. Esses quadros devem ser cuidadosamente tratados pois quando há a presença de tais patologias na infância pode ocasionar sequelas no desenvolvimento físico sejam orais, faciais, nasais ou torácicas. Para solucionar a problemática deve-se investigar e buscar entender a sua etiologia antes de indicar algum procedimento cirúrgico, sendo a rinosseptoplastia um procedimento amplamente indicado. Deve haver indicação precisa e parcimoniosa para a septoplastia nasal, por conseguinte é necessário uma história clínica e exame físico se qualidade para haver o diagnóstico de desvio septal anterior, hipertrofia de conchas nasais ou rinopatia alérgica, devendo sempre questionar sobre a implicação da alteração anatômica para qualidade de vida do paciente para correlacionar os sintomas e as disfunções em virtude da necessidade de intervenção cirúrgica. (REAS | Vol.13(8)).

Segundo o artigo “Septoplasty: Basic and Advanced Techniques” é possível que a septoplastia nasal seja realizada com um farol e espéculo nasal ou endoscopicamente. Para cada técnica, seja moderna ou clássica, há vantagens e desvantagens, porém ambas apresentam um grande aproveitamento para corrigir o desvio de septo. Nos casos de desvio de septo médio ou posterior, de leve a moderado a abordagem rotineira tem um grande sucesso para a resolução do problema de obstrução nasal, porém quando há desvio de septo de maneira severa havendo desafios anatômicos e estruturais há a possibilidade de ressecção extra corpórea, tal técnica envolve a remoção total do septo nasal para sua correção sendo abordado normalmente por meio de uma rinoplastia externa porém tal técnica já foi descrita por meio  de um procedimento endoscópico. A reconstrução septal anterior é uma técnica semelhante a ressecção extracorpórea com diferença em que um suporte dorsal é preservado.

Na cirurgia de septoplastia como principais complicações é destacado as hemorragias nasais, infecções, persistência de algum grau de desvio devido a uma falha cirúrgica, perfuração septal, e riscos anestésicos. O pós operatório é bem tolerado, havendo certo grau de desconforto nos primeiros dias com a presença de secreção nasal e inflamação. Tal cirurgia tem um risco cirúrgico baixo é o grau de insatisfação em relação a obstrução nasal é de no máximo 15. O tempo de recuperação é de aproximadamente 1 semana havendo a necessidade de manter restrição para exercícios físicos, não se expor a calor, e higiene nasal com solução salina.

A abordagem cirúrgica deve ser personalizada em virtude da apresentação anatômica que o paciente possui, como nos casos de desvio septal médio ou posterior leve a moderado o modo a ser feito deve ser o padrão fornecendo um resultado satisfatório, em casos mais severos deve se buscar um método mais radical como ressecção extracorpórea ou reconstrução septal anterior.

É de grande importância salientar o desenvolvimento de tomografias computadorizadas coronárias que são usadas para observar o grau do desvio de septo e outras anormalidades que podem ser vistas no exame desde a alterações na mucosa até opacidade completa do seio maxilar que podem ser indícios de anormalidades (10.7759/cureus.30261)

CONCLUSÃO

Portanto, conforme a revisão bibliográfica estabelecida, onde os principais aspectos anatômicos, funcionais e intervenções do desvio de septo foram analisados, nota- se que o diagnóstico crucial ainda demanda uma anamnese e exame físico completos e de qualidade, que condizem com a anomalia e orientam o respectivo tratamento. 

Ademais, em alguns casos se faz necessário  a busca por exames de imagem como complementares ao diagnóstico. Dessa maneira, foi observado que os dados encontrados em tomografias computadorizadas coronárias podem se tornar cruciais para avaliar o comprometimento do septo nasal, auxiliando na classificação e condutas terapêuticas. 

Por fim, existe a ligação direta entre o DNS e distúrbios do sono, conforme observado nos estudos, que requerem correta suspeita clínica, diagnóstico e tratamento, a fim de proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente e diminuir as futuras complicações.

Referências bibliográficas

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