DESIGUALDADES REGIONAIS NAS INTERNAÇÕES POR MELANOMA CUTÂNEO EM IDOSOS NO BRASIL: ANÁLISE ECOLÓGICA, 2015–2024

REGIONAL INEQUALITIES IN HOSPITALIZATIONS FOR CUTANEOUS MELANOMA AMONG OLDER ADULTS IN BRAZIL: AN ECOLOGICAL ANALYSIS, 2015–2024

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601081020


Bruna Zawacki El Ammar1
Isabela Goulart Peçanha Vieira2
Yana Lobo da Rosa Pallaoro3


Resumo 

O melanoma cutâneo é um câncer agressivo e letal, sendo um desafio para a saúde pública no Brasil, especialmente entre idosos. Ainda são escassos estudos nacionais que analisem sua distribuição regional e evolução temporal. Este estudo avaliou as tendências de internações por melanoma cutâneo em idosos (≥60 anos), entre 2015 e 2024, nas cinco macrorregiões brasileiras, levando em consideração as desigualdades regionais, o perfil demográfico e os fatores socioeconômicos. É um estudo ecológico de séries temporais, com dados do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), incluindo 46.527 internações. As taxas de hospitalização foram calculadas por região, sexo e raça/cor. As tendências temporais foram avaliadas por regressão linear, com estimativa da Variação Percentual Anual Média (AAPC). As associações entre as taxas de internação, a proporção de pacientes brancos e indicadores socioeconômicos foram analisadas por regressão linear e correlação de Pearson. Verificou redução significativa das internações na Região Sul (AAPC = −0,81 por 100.000 habitantes/ano; p=0,031) e aumento na região Nordeste (AAPC = +0,51 por 100.000 habitantes/ano; p=0,004), enquanto as demais regiões permaneceram estáveis. As internações foram mais frequentes em homens (razão de taxas = 1,58) e apresentaram associação com a proporção de pacientes brancos (R² ajustado = 0,945; p=0,003). Indicadores socioeconômicos também se correlacionaram às taxas de hospitalização. Conclui-se que persistem desigualdades regionais na carga do melanoma cutâneo em idosos no Brasil, demonstrando a necessidade de estratégias de saúde pública regionalizadas, com ênfase em prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce. 

Palavras-chave: Envelhecimento. Epidemiologia. Saúde pública. Disparidades regionais. Neoplasias de pele. 

1 INTRODUÇÃO 

O melanoma cutâneo é um dos tipos mais agressivos de câncer de pele e está associado a elevada morbimortalidade, principalmente em populações expostas de forma acentuada e cumulativa à radiação ultravioleta (GREEN & WHITEMAN & OLSEN, 2017; WHITEMAN & GREEN & OLSEN, 2016). O melanoma é responsável pela maior parte das mortes por câncer de pele, mesmo representando menor proporção entre as neoplasias cutâneas, caracterizando um elevado problema de saúde pública em diversos países, inclusive no Brasil (KARIMKHANI et al., 2017). No contexto nacional, o Instituto Nacional de Câncer estima que aproximadamente 8.400 casos novos anuais de melanoma no triênio 2023–2025, com distribuição heterogênea entre as regiões do país (INCA, 2023). 

No Brasil, observa-se maior incidência de melanoma nas regiões Sul e Sudeste, estando frequentemente associado à maior proporção de indivíduos de pele clara, a padrões históricos de ocupação territorial e a diferenças na exposição solar ao longo da vida (CORRÊA & BITTENCOURT & MIOT, 2020; FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019). A doença acomete principalmente indivíduos com 60 anos ou mais, grupo no qual a suscetibilidade é ampliada pela exposição solar acumulada, pela presença de múltiplas comorbidades e por alterações imunológicas relacionadas ao envelhecimento, como a imunossenescência (SCHMITT & MIOT, 2018; COSTA et al., 2017). O melanoma em idosos está associado a maior necessidade de internações hospitalares, além do risco aumentado de progressão para estágios avançados, e a custos altos para o Sistema Único de Saúde (SUS)  (NORONHA & SILVA & THULER, 2017). 

Embora haja avanços no diagnóstico e no tratamento do melanoma, ainda persistem desigualdades regionais significativas no acesso aos serviços especializados e nos desfechos da doença no Brasil (SILVA & GIRIANELLI, 2016). A maior parte dos estudos nacionais concentra-se em amostras clínicas ou análises transversais, limitando a compreensão da carga da doença em nível populacional e dificultando a identificação de tendências temporais e padrões regionais consistentes, especialmente entre a população idosa (FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019; OLIVEIRA & SANTOS & ARAÚJO, 2021). Além disso, as análises recentes apontam redução das taxas de melanoma em determinadas regiões e crescimento em outras, sugerindo dinâmicas regionais diferentes que ainda não foram suficientemente exploradas em estudos nacionais de abrangência temporal recente (ALBUQUERQUE et al., 2024). 

Nesse cenário, a análise das internações hospitalares por melanoma constitui relevante indicador indireto da gravidade da doença, do acesso aos serviços de saúde e das desigualdades regionais no cuidado oncológico, especialmente entre idosos, população mais vulnerável a desfechos desfavoráveis (NORONHA & SILVA & THULER, 2017; MIOT et al., 2021). Dados internacionais reforçam que as desigualdades socioeconômicas, as características demográficas e a distribuição étnica influenciam fortemente a carga do melanoma, como observado em países como Austrália e Nova Zelândia (QUEENSLAND CANCER REGISTRY, 2019; SNEYD & KENEALY & MCLEOD, 2018; OLSEN & GREEN & WHITEMAN, 2020). 

Nesse contexto, esse estudo tem como objetivo analisar as tendências das internações por melanoma cutâneo em idosos residentes nas cinco regiões do Brasil, no período de 2015 a 2024, com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. Busca-se identificar desigualdades regionais na carga da doença e fornecer subsídios para o planejamento de políticas públicas de prevenção, rastreamento e cuidado oncológico direcionadas à população idosa brasileira. 

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA 

2.1 Melanoma cutâneo: aspectos epidemiológicos e fatores de risco 

O melanoma cutâneo é uma neoplasia maligna originada dos melanócitos, caracterizando-se por um comportamento biológico agressivo, alto potencial metastático e elevada letalidade quando diagnosticado em estágios mais avançados (GREEN & WHITEMAN & OLSEN, 2017; WHITEMAN & GREEN & OLSEN, 2016). Mesmo que represente menor proporção entre os cânceres de pele, ele é responsável pela maior parte das mortes associadas a essas malignidades, representando um grande problema de saúde pública em âmbito global (KARIMKHANI et al., 2017). 

Diferentes fatores de risco estão associados ao desenvolvimento desse melanoma, entre eles estão a exposição solar intermitente e intensa, o histórico de queimaduras solares, os fototipos cutâneos claros, a presença de nevos melanocíticos e a predisposição genética (GREEN & WHITEMAN & OLSEN, 2017). Nas populações de descendência europeia, a combinação entre a alta radiação ultravioleta e as características fenotípicas claras contribui para maiores taxas de incidência da doença, conforme observado em países como Austrália e Nova Zelândia (QUEENSLAND CANCER REGISTRY, 2019; OLSEN & GREEN & WHITEMAN, 2020). 

No contexto brasileiro, estudos indicam que o melanoma apresenta distribuição heterogênea entre as regiões, com maiores taxas observadas nas regiões Sul e Sudeste, associadas à maior proporção de indivíduos de pele clara e a padrões históricos de ocupação e exposição solar (CORRÊA & BITTENCOURT & MIOT, 2020; FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019). Essa heterogeneidade regional reforça a necessidade de análises que considerem diferenças demográficas, ambientais e socioeconômicas no estudo da doença. 

2.2 Melanoma cutâneo em idosos e impacto do envelhecimento  

A incidência de melanoma cutâneo aumenta progressivamente com a idade, sendo mais frequente em indivíduos com 60 anos ou mais (SCHMITT & MIOT, 2018). Esse padrão está relacionado, em grande parte, à exposição solar acumulada ao longo da vida, bem como a alterações fisiológicas do envelhecimento que afetam os mecanismos de vigilância imunológica (COSTA et al., 2017). 

O processo de imunossenescência, caracterizado pelo declínio da resposta imune adaptativa, contribui para maior suscetibilidade ao desenvolvimento e progressão de câncer em idosos, incluindo o melanoma cutâneo (COSTA et al., 2017). Além disso, o diagnóstico nessa faixa etária tende a ocorrer em estágios mais avançados, o que está associado a piores desfechos clínicos e maior necessidade de intervenções hospitalares (SCHMITT & MIOT, 2018; MIOT et al., 2021). 

Estudos nacionais apontam que o melanoma em idosos apresenta maior gravidade clínica, maior espessura tumoral no momento do diagnóstico e maior frequência de internações hospitalares, impactando diretamente os custos assistenciais e a organização dos serviços de saúde (NORONHA & SILVA & THULER, 2017; MIOT et al., 2021). Esses achados evidenciam a importância de investigar a carga hospitalar da doença nesse grupo etário. 

2.3 Desigualdades regionais, internações hospitalares e sistema de saúde 

As desigualdades regionais em saúde no Brasil refletem diferenças históricas, socioeconômicas e estruturais no acesso aos serviços de diagnóstico, tratamento e prevenção do câncer (SILVA & GIRIANELLI, 2016). No caso do melanoma cutâneo, essas diferenças se manifestam tanto na incidência quanto nos desfechos da doença, incluindo taxas de internação e mortalidade (FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019; OLIVEIRA & SANTOS & ARAÚJO, 2021). 

As internações hospitalares por melanoma formam um importante indicador indireto da gravidade da doença, do acesso ao cuidado oncológico especializado e da efetividade das estratégias de diagnóstico precoce (NORONHA & SILVA & THULER, 2017). Regiões com menor acesso a serviços dermatológicos e oncológicos costumam apresentar maior proporção de diagnósticos tardios, resultando em uma maior necessidade de internações e custos assistenciais mais elevados. 

Análises recentes indicam tendências diferentes nas regiões brasileiras, com redução das taxas de morbidade hospitalar por câncer cutâneo em determinadas regiões e aumento em outras, especialmente no Nordeste, sugerindo mudanças nos padrões epidemiológicos e possíveis lacunas nas políticas de prevenção e rastreamento (ALBUQUERQUE et al., 2024). Esses achados reforçam a relevância de estudos ecológicos e temporais que permitam identificar desigualdades regionais e subsidiar estratégias de saúde pública mais equitativas. Esses achados reforçam a importância de estudos ecológicos e temporais que permitam identificar desigualdades regionais e subsidiar estratégias de saúde pública mais equitativas. 

3 METODOLOGIA  

3.1 Delineamento do estudo 

É um estudo ecológico de múltiplos grupos, com análise de séries temporais, baseado em dados secundários de domínio público. O trabalho incluiu o Brasil e suas cinco macrorregiões geográficas (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste), no período de 2015 a 2024. As unidades de análise foram as macrorregiões brasileiras, para as quais foram avaliadas as taxas de morbidade hospitalar por melanoma cutâneo em idosos e sua associação com indicadores socioeconômicos. 

3.2 Fontes de dados e variáveis 

Os dados de morbidade hospitalar referentes às internações por melanoma cutâneo foram obtidos do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Incluiu todas as internações registradas com o código C43 da Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10), na população com 60 anos ou mais, no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2024. Os dados foram agregados por macrorregião, ano, sexo e raça/cor. 

As estimativas populacionais da população residente com 60 anos ou mais, foram estratificadas por macrorregião, ano e sexo, sendo obtidas a partir das projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e utilizadas como denominadores para o cálculo das taxas de hospitalização. 

Para a caracterização socioeconômica e de acesso aos serviços de saúde das macrorregiões, coletou-se indicadores secundários provenientes de bases oficiais. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) foi obtido a partir do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, utilizando-se o valor consolidado mais recente (2010). A média de anos de estudo da população idosa, a renda domiciliar per capita, o índice de Gini e a taxa de desemprego entre idosos foram obtidos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), disponibilizada pelo IBGE. A cobertura da Atenção Básica foi recolhida a partir da plataforma e-Gestor Atenção Básica, do Ministério da Saúde. 

Para o ano de 2024, os indicadores socioeconômicos corresponderam a estimativas baseadas nas tendências observadas nos anos anteriores da PNAD Contínua, em razão da indisponibilidade de dados consolidados para o período completo. 

3.3 Análise dos dados 

Primeiramente, realizou-se análise descritiva para caracterizar o perfil das internações por melanoma cutâneo em idosos, levando em consideração o total de internações e sua distribuição por sexo e raça/cor, além  dos indicadores socioeconômicos das macrorregiões. As estatísticas descritivas incluíram médias e desvios-padrão. 

A variável de desfecho principal foi a taxa de hospitalização por melanoma cutâneo em idosos, calculada pela razão entre o número de internações e a população idosa residente, multiplicada por 100.000 habitantes. Foram estimadas taxas médias anuais para o período total, com respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), bem com taxas específicas por sexo e por raça/cor. Para a avaliação das desigualdades de gênero, calculou-se a razão de taxas entre homens e mulheres. A significância estatística das desigualdades regionais foi avaliada por meio do teste do qui-quadrado de aderência (χ²), comparando-se os casos observados com os esperados segundo a distribuição proporcional da população idosa nas macrorregiões. 

A análise das tendências temporais das taxas de hospitalização entre 2015 e 2024 foi realizada através de regressão linear simples. O coeficiente de inclinação da reta (β) foi utilizado para estimar a variação anual média das taxas, expressa como Variação Percentual Anual Média (AAPC), e a significância estatística foi avaliada pelo valor de p, considerando-se nível de significância de 5% (p < 0,05). 

Para a análise ecológica da associação entre as taxas de hospitalização e os indicadores socioeconômicos, foram utilizados coeficientes de correlação de Pearson (r). As análises foram conduzidas tanto de forma agregada, considerando as taxas médias do período em relação aos valores médios dos indicadores, quanto em painéis anuais. 

Somado a isso, para investigar a associação entre o perfil racial das internações e as taxas de hospitalização por macrorregião, realizou-se regressão linear simples, tendo como variável dependente a taxa de hospitalização e como variável independente a proporção de pacientes brancos entre os casos internados. O coeficiente de determinação ajustado (R² ajustado) foi reportado para indicar a força da associação. 

Todas as análises estatísticas foram feitas com nível de significância de 5% (p < 0,05), utilizando o software Python, com as bibliotecas Pandas, SciPy e Statsmodels. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS 

4.1 Caracterização da morbidade hospitalar e desigualdades regionais 

Entre 2015 e 2024, registrou-se 46.527 internações por melanoma cutâneo em idosos no Brasil, correspondendo a uma taxa média anual de hospitalização de 14,35 por 100.000 habitantes. Notou-se expressiva heterogeneidade regional na carga hospitalar da doença. A Região Sul apresentou a maior taxa média do período (27,96 por 100.000), valor aproximadamente 1,8 vez superior ao observado na Região Sudeste (15,22 por 100.000) e cerca de cinco vezes maior que o da Região Norte (5,57 por 100.000), que apresentou o menor indicador. As regiões Centro-Oeste e Nordeste exibiram taxas intermediárias, de 10,75 e 9,14 por 100.000 idosos, respectivamente (Tabela 1). 

Tabela 1. Indicadores demográficos, socioeconômicos e de morbidade hospitalar por melanoma cutâneo em idosos, segundo a macrorregião do Brasil, 2015–2024.

Notas: 
*Taxa média anual por 100.000 idosos no período de 2015 a 2024. 
*Média dos indicadores socioeconômicos referente ao período de 2015 a 2023. 

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. 

A significância estatística dessas diferenças foi confirmada pelo teste do qui-quadrado de aderência, indicando que a distribuição das internações observadas difere significativamente daquela esperada com base na distribuição proporcional da população idosa regional (χ² = 18.366,88; p < 0,001). Esses achados são consistentes com estudos nacionais que demonstram maior carga do melanoma em regiões com maior proporção de indivíduos de pele clara e melhores indicadores socioeconômicos, especialmente no Sul do Brasil (CORRÊA & BITTENCOURT & MIOT, 2020; FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019). 

4.2 Diferenças segundo o sexo 

A análise estratificada por sexo revelou predomínio masculino nas internações por melanoma cutâneo, sendo 56,1% dos casos ocorrendo entre homens. A taxa média nacional foi consistentemente mais elevada no sexo masculino (18,65 por 100.000) quando comparada ao sexo feminino (11,81 por 100.000), resultando em uma razão de taxas de 1,58. Esse padrão foi observado em todas as macrorregiões analisadas. 

A Região Sul apresentou as maiores taxas para ambos os sexos (32,84 em homens e 19,62 em mulheres), além da maior disparidade entre eles (RT = 1,67). A menor diferença foi observada na Região Nordeste (RT = 1,38). Esses resultados corroboram com as evidências nacionais e internacionais que indicam maior risco de melanoma em homens idosos, associado a fatores comportamentais, ocupacionais e menor adesão a práticas preventivas, como fotoproteção e vigilância de lesões cutâneas (SCHMITT & MIOT, 2018; GREEN & WHITEMAN & OLSEN, 2017). 

4.3 Tendências temporais das internações por melanoma cutâneo 

A análise das séries temporais mostrou comportamentos diferentes entre as macrorregiões ao longo do período estudado (Figura 1). A Região Sul, apesar de manter as taxas mais elevadas, apresentou tendência de queda estatisticamente significativa, com redução média anual de 0,81 casos por 100.000 habitantes (p = 0,031). Em contrapartida, a Região Nordeste evidenciou tendência de aumento estatisticamente significativa, com acréscimo médio anual de 0,51 casos por 100.000 habitantes (p = 0,004). As regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte apresentaram estabilidade ao longo do período, sem variações estatisticamente relevantes (Tabela 2). 

Figura 1. Evolução temporal das taxas de hospitalização por melanoma cutâneo em idosos, segundo a macrorregião do Brasil, 2015–2024.

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Tabela 2. Análise de tendência das taxas de hospitalização por melanoma cutâneo em idosos, segundo a macrorregião do Brasil, 2015–2024.

Nota: Taxas e variação anual média expressas em casos por 100.000 habitantes. 

Fonte: Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS); Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A redução observada no Sul pode refletir o impacto cumulativo de estratégias preventivas e de diagnóstico precoce, como campanhas de fotoproteção e rastreamento oportunístico, a exemplo das ações do “Dezembro Laranja”, além da maior disponibilidade de serviços dermatológicos e oncológicos na região (SBD, 2023; MIOT et al., 2021). Além disso, a maior capacidade assistencial pode ter favorecido o manejo ambulatorial de casos menos graves, reduzindo a necessidade de internações hospitalares (NORONHA & SILVA & THULER, 2017). 

Em contrapartida, o aumento observado no Nordeste sugere mais provavelmente uma ampliação do acesso aos serviços de saúde e da capacidade de detecção e registro de casos, do que um aumento abrupto da incidência biológica da doença. Estudos recentes indicam crescimento da morbidade hospitalar por neoplasias cutâneas em estados nordestinos, indicando que parte desse aumento reflete a redução da subnotificação histórica (ALBUQUERQUE et al., 2024). 

4.4 Fatores socioeconômicos e perfil racial associados às desigualdades 

A análise ecológica mostrou correlações significativas, positivas e estatisticamente relevantes entre as taxas de hospitalização e o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (r = 0,96; p = 0,008), a média de anos de estudo da população idosa (r = 0,94; p = 0,017) e a renda domiciliar per capita (r = 0,95; p = 0,014). Verificou-se, ainda, correlação negativa com o índice de Gini (r = −0,88; p = 0,048), indicando que regiões mais desenvolvidas e menos desiguais apresentaram taxas mais elevadas de hospitalização. 

Tais achados sugerem que maiores taxas hospitalares refletem, em grande medida, maior acesso aos serviços especializados de diagnóstico e tratamento, e não necessariamente maior risco biológico. Em regiões com maior desigualdade, barreiras estruturais de acesso podem ocultar a carga real da doença, levando à subestimação das taxas agregadas (SILVA & GIRIANELLI, 2016; FERREIRA & PORTELA & VASCONCELLOS, 2019). 

A associação positiva entre a proporção de pacientes brancos internados e as taxas de hospitalização reforça o papel do perfil fenotípico na distribuição regional do melanoma, em conformidade  com a literatura nacional (CORRÊA & BITTENCOURT & MIOT, 2020). 

Contudo, a interação entre fatores biológicos, socioeconômicos e assistenciais indica que as desigualdades observadas vão além da latitude e da exposição solar. 

Esses resultados estão de acordo com evidências internacionais. Na Austrália, notaram-se gradientes regionais importantes, associados ao fenótipo cutâneo e à organização do sistema de saúde (QUEENSLAND CANCER REGISTRY, 2019; OLSEN & GREEN & 

WHITEMAN, 2020). Já na Nova Zelândia, diferenças entre grupos étnicos refletem barreiras de acesso ao diagnóstico precoce e ao cuidado oncológico especializado (SNEYD & KENEALY & MCLEOD, 2018). Tendências similares foram descritas em análises globais, que destacam o papel das desigualdades sociais na carga do melanoma (KARIMKHANI et al., 2017). 

4.5 Síntese interpretativa 

Os resultados demonstram que as desigualdades regionais e de gênero nas internações por melanoma cutâneo em idosos no Brasil derivam da interação entre fatores fenotípicos, exposição solar acumulada, condições socioeconômicas e acesso aos serviços de saúde. A redução das taxas no Sul sugere impacto positivo de políticas preventivas e de diagnóstico precoce, ao passo que o aumento no Nordeste evidencia a emergência de casos anteriormente subnotificados. Estratégias regionais diferenciadas, integrando prevenção, rastreamento e ampliação do acesso ao cuidado oncológico, são fundamentais para reduzir disparidades e melhorar os desfechos clínicos nessa população (INCA, 2023; OLIVEIRA & SANTOS & ARAÚJO, 2021). 

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Esse estudo evidenciou que existem desigualdades regionais relevantes na hospitalização por melanoma cutâneo em idosos no Brasil, no período de 2015 a 2024, confirmando que a carga da doença se distribui de forma heterogênea entre as macrorregiões. Os objetivos propostos foram atingidos ao evidenciar padrões regionais distintos, diferenças segundo o sexo e as associações com fatores demográficos e socioeconômicos. 

Os achados sugerem que a redução observada na Região Sul se associa à maior consolidação de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e acesso a serviços especializados, ao mesmo tempo em que o aumento identificado na Região Nordeste reflete, sobretudo, a ampliação do acesso aos serviços de saúde e a redução da subnotificação histórica. Somado a isso, a maior hospitalização entre homens idosos confirma a necessidade de ações preventivas específicas para esse grupo populacional. 

A análise socioeconômica evidencia que as desigualdades no acesso aos serviços de saúde exercem papel fundamental na distribuição regional das internações, evidenciando que maiores taxas hospitalares não representam, necessariamente, maior risco biológico, mas maior capacidade diagnóstica e assistencial. Esses resultados reforçam que fatores fenotípicos, exposição solar acumulada e determinantes sociais atuam de forma integrada na carga do melanoma cutâneo em idosos. 

Sob o prisma da saúde pública, o estudo aponta a necessidade de estratégias regionais diferenciadas. Recomenda-se a manutenção e o fortalecimento de ações de rastreamento e educação em fotoproteção nas regiões com maior carga da doença, além da expansão do acesso à atenção primária, da capacitação profissional e dos fluxos de referência para diagnóstico e tratamento especializado nas regiões em crescimento. 

Como limitações, destaca-se o uso de dados secundários e o delineamento ecológico, que impedem inferências causais em nível individual. Mesmo assim, o estudo oferece um panorama consistente da dinâmica regional do melanoma cutâneo em idosos no Brasil. Pesquisas futuras devem incorporar abordagens individuais e qualitativas para aprofundar a compreensão dos determinantes sociais e assistenciais envolvidos. Os resultados apresentados fornecem subsídios importantes para o planejamento de políticas públicas, a alocação de recursos e a organização de estratégias de prevenção e cuidado oncológico voltadas à população idosa. 

REFERÊNCIAS 

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BRASIL. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2024: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2023. 

CORRÊA, M. P.; BITTENCOURT, F. V.; MIOT, H. A. Epidemiologia do melanoma no Brasil: perfil regional e fatores associados. Anais Brasileiros de Dermatologia, Rio de Janeiro, v. 95, n. 4, p. 462–470, 2020. 

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1Médica pela Universidade Feevale. e-mail: brunaelammar96@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Centro Universitário Faminas.
e-mail:isabela.gpv@gmail.com
3Física Médica pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Mestre em Patologia (PPG Patologia/UFCSPA). e-mail: yanapallaoro@gmail.com