REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202601172026
Karine de Souza Teixeira1, Djelany Moté de Souza1, Ana Carolina Silva Lage1, Paula Fernanda Chaves Soares2, Dala Kezen Vieira Hardman Leite2, Daniela Mello Vianna Ferrer2, Marina Jorge de Lemos2, Thiago Ventura Scoralick Braga3, Victor Machado Mendes dos Santos4
RESUMO
O consumo da carne suína no Brasil é influenciado por mitos que circundam este sistema de criação tão importante, tanto no âmbito social quanto no âmbito econômico. Atualmente, mitos são criados sobre a carne suína baseados em situações antigas que não se aplicam ao sistema de criação atual. A qualidade da carne oferecida hoje é superior à que era oferecida há 30 anos, sendo um resultado positivo, que pode auxiliar na promoção da carne suína diante do menor consumo nacional. Baseado neste contexto, o acesso às informações acerca dos sistemas de produção, qualidade do produto e segurança alimentar pela população é essencial para que o pensamento seja modificado e a carne suína seja mais aceita. Portanto, o objetivo do presente trabalho foi desenvolver metodologias extensionistas para desmistificar o consumo de carne suína no Brasil. Neste intuito, a presente pesquisa foi do tipo experimento de campo, com levantamento de dados. O experimento foi realizado na Universidade Iguaçu – Campus Nova Iguaçu – RJ e com auxílio de plataformas digitais, além das redes sociais. Para o levantamento das informações referentes ao consumo de carne suína no Brasil, um questionário foi distribuído com auxílio das redes sociais e de plataformas como o google forms. Após este levantamento e a definição do perfil dos consumidores, os mesmos foram classificados em relação às respostas coletadas e metodologias extensionistas como palestras, material didático, vídeos esclarecedores e panfletos foram desenvolvidos e aplicados de forma a promover a carne suína brasileira. Estas metodologias foram aplicadas de forma online de forma a alcançar o maior número de pessoas possível e de forma presencial, utilizando como base o município de Nova Iguaçu. A análise estatística dos dados se baseou em uma análise descritiva, com cálculo da frequência de cada não conformidade, por meio de média aritmética simples.
Palavras chave: consumo de carne suína; mitos; qualidade produtiva; suinocultura
INTRODUÇÃO
A suinocultura brasileira representa uma atividade promissora e essencial para a economia e o desenvolvimento social das regiões produtoras, além de desempenhar papel fundamental na alimentação da população mundial, por constituir uma importante fonte de proteína de alta qualidade e custo acessível (ABPA, 2023). Entre as diferentes fontes de proteína de origem animal disponíveis no mercado, a carne suína destaca-se como a segunda mais consumida no mundo. Até recentemente, ocupava a primeira posição; contudo, em razão da redução do plantel mundial causada por questões sanitárias, especialmente pela ocorrência da peste suína africana, houve elevação no preço da carne, o que pode justificar sua queda no ranking global de consumo (Bragagnolo, 2020).
O Brasil ocupa a posição de quarto maior produtor e exportador de carne suína no mundo e, apesar desse destaque no cenário internacional, o consumo interno permanece relativamente baixo, com média aproximada de 20 kg por habitante ao ano. Esse valor é inferior ao observado em outros grandes países produtores, nos quais o consumo per capita médio gira em torno de 30 kg por habitante ao ano, caracterizando o Brasil como um dos principais produtores com menor consumo interno de carne suína (Jesus et al., 2023).
Nas últimas quatro décadas, a suinocultura nacional passou por avanços significativos, com a adoção de sistemas de produção altamente tecnificados, utilização de rações balanceadas, melhoramento genético dos animais, instalações modernas e rigoroso controle sanitário nas granjas. Apesar desses progressos na produção animal, ainda são observadas restrições por parte da população em relação ao consumo da carne suína, as quais estão majoritariamente associadas a conceitos equivocados e mitos disseminados acerca da produção e da qualidade desse alimento (Santos et al., 2012; Souza et al., 2021).
O acesso da população a informações claras e confiáveis sobre os sistemas de produção, a qualidade do produto e a segurança alimentar é essencial para a mudança de percepção e para a maior aceitação da carne suína. Estudos indicam que pesquisas de mercado constituem ferramentas fundamentais para compreender e caracterizar o comportamento do consumidor, permitindo identificar preferências, hábitos de consumo e fatores que influenciam a decisão de compra. Essas informações são relevantes para subsidiar estratégias que visem atender às demandas do mercado consumidor e ampliar o consumo do produto (Muniz et al., 2015).
Diante desse contexto, torna-se fundamental a avaliação do perfil do consumidor, com a identificação de seus principais hábitos e do nível de conhecimento sobre a carne suína, a fim de subsidiar ações educativas e de conscientização da população, contribuindo para a desmistificação de crenças equivocadas e para a valorização da suinocultura brasileira.
MATERIAL E MÉTODOS
A presente pesquisa caracterizou-se como um experimento de campo, com abordagem descritiva e levantamento de dados. O estudo foi desenvolvido na Universidade Iguaçu – Campus Nova Iguaçu – RJ, com o auxílio de plataformas digitais e redes sociais, além da aplicação presencial de questionários. Inicialmente, realizou-se um levantamento de dados acerca do consumo de carne suína no Brasil por meio da aplicação de questionários online, utilizando a plataforma Google Forms, e presenciais, permitindo identificar o perfil sociodemográfico dos respondentes, bem como o nível de conhecimento relacionado ao consumo, à qualidade e à segurança da carne suína. O questionário foi estruturado em duas etapas: a primeira composta por questões destinadas à caracterização do perfil dos participantes, incluindo idade, escolaridade, sexo, área de atuação profissional (quando aplicável) e região de residência; e a segunda etapa composta por perguntas relacionadas aos hábitos de consumo de carne suína, tais como frequência de consumo, motivos para o consumo ou não consumo, preferências, locais de compra e conhecimento acerca dos sistemas de criação, incluindo aspectos relacionados às instalações, nutrição, genética e sanidade dos animais. Após o levantamento das informações e a definição do perfil dos consumidores, os respondentes foram classificados de acordo com as respostas obtidas, possibilitando o desenvolvimento de metodologias extensionistas com o objetivo de esclarecer mitos historicamente associados ao consumo de carne suína e promover esse alimento de forma ampla e acessível. Entre as ações extensionistas desenvolvidas destacaram-se a elaboração e a divulgação de materiais educativos, como panfletos informativos, além da criação e utilização de uma rede social digital (Instagram), visando alcançar um maior número de pessoas. Essas estratégias tiveram como finalidade disseminar informações confiáveis sobre o consumo da carne suína, ampliar o número de visualizações, promover maior engajamento do público e expandir o alcance das ações de conscientização. As atividades extensionistas foram aplicadas tanto de forma online quanto presencial, utilizando o município de Nova Iguaçu como base para a realização de palestras e a distribuição de materiais informativos na universidade e em escolas da região. A análise estatística dos dados foi realizada por meio de análise descritiva, com cálculo das frequências relativas e absolutas das respostas, utilizando-se a média aritmética simples.
RESULTADOS
Foram obtidas 214 respostas aos formulários, abrangendo alguns estados do Brasil, sendo 75,2% respondidos por mulheres e 24,8% por homens (Figura 1).
Figura 1 – Representação gráfica do gênero dos respondentes.

Participaram da pesquisa 38 respondentes. Observou-se predominância de indivíduos na faixa etária entre 18 e 25 anos, correspondendo a 47,4% da amostra. Em seguida, a faixa etária de 26 a 35 anos representou 26,3% dos participantes. A faixa de 36 a 45 anos correspondeu a 13,2% dos respondentes. As demais faixas etárias — 46 a 55 anos, 56 a 64 anos e acima de 65 anos — apresentaram menor representatividade, totalizando, em conjunto, uma parcela reduzida da amostra.
Em relação ao nível de escolaridade, 30,8% possuem ensino superior incompleto; 28%, ensino médio completo; 22,9% ensino superior completo; 10,3% pós-graduação; 1,8%, ensino fundamental completo; 1,8%, ensino médio incompleto; 3,3% mestrado; 2,8% ensino médio incompleto e 1,4 ensino fundamental completo, 0,5%, ensino fundamental incompleto.
Quanto ao estado de residência, 84,6% das respostas foram provenientes do estado do Rio de Janeiro (RJ); 3%, de São Paulo (SP); 0,6%, do Rio Grande do Sul (RS); 1,8%, de Alagoas (AL); 0,6%, do Amazonas (AM); 0,6%, da Bahia (BA); 1,8%, do Espírito Santo (ES); 0,6%, de Goiás (GO); 0,6%, do Mato Grosso do Sul (MS); 1,8%, de Minas Gerais (MG); 0,6%, do Pará (PA); e 0,6%, de Pernambuco (PE) (Figura 2).
Figura 2 – Distribuição dos respondentes de acordo com o estado de residência.

Em relação à renda familiar, 51% declararam possuir renda superior a quatro salários mínimos; 26%, de dois a três salários mínimos; 13,2%, de um a dois salários mínimos; e 9,8%, até um salário mínimo (Figura 3).
Figura 3 – Distribuição da renda familiar mensal total dos respondentes.

A preferência por tipos de carne revelou que 36,9% preferem carne bovina; 26,2% carne de frango; 18,2% todas as carnes; 14,5% preferem peixes e 4,2%, carne suína. Os principais motivos para essa preferência foram: 63,6% indicaram o sabor agradável; 16,4%, o hábito familiar ou cultural; 6,1 o maior valor nutricional; 4,7% o melhor custo-benefício; 4,2 o menor teor de gordura; 3,7% a facilidade no preparo; e 1,4%, restrição a outros tipos de carne.
Sobre o consumo de carne suína, 88,8% afirmaram consumir, enquanto 11,2% declararam não consumir (Figura 4).
Figura 4 – Distribuição dos respondentes quanto ao consumo de carne suína.

Quanto à frequência de consumo, 44,9% responderam que consomem algumas vezes por mês; 18,2% de uma a duas vezes por semana; 16,8 raramente; 10,3%, não consomem; 7,5%, uma vez por mês; 1,4%, em datas comemorativas; e 0,5%, em outras ocasiões.
Em relação aos motivos de não consumirem carne suína foi: 57,5% afirmaram não ter nada contra e que consomem carne suína; 19,6%, falta de costume; 5,6%, consomem apenas bacon ou torresmo; 5,1%, não gostam do sabor; 5,1, Carne gordurosa e com muito colesterol; 3,3% Medo de transmissão de doenças; 1,9%, Motivos religiosos; 1,4 Preço alto; e 0,5%, restrição médica.
Os principais motivos para consumir carne suína foram: 60,7% indicaram o sabor; 18,2%, a disponibilidade; 17,8%, o menor preço; 12,6%, não consomem; 14,5%, a qualidade; 10,3 consideram a carne mais saudável e 7,3%, a maciez;
Quando questionados sobre achar que a carne suína é saudável, 65% disseram que sim; 19,6% não soube responder e 15,4% disseram que não é saudável (Figura 5).
Figura 5 – Principais motivos relatados pelos respondentes para o consumo de carne suína.

Quando questionados sobre a possibilidade de a carne suína transmitir doenças, 48,1 responderam que sim; 31,8%, que não; e 20,1%, que não souberam responder.
Quanto aos principais locais de compra de carne suína, 75,7% informaram que compram em supermercados; 32,2%, em açougues; 7,9% não consomem; 4,7%, em feiras livres; 2,8%, em qualquer local; e 1,4%, consomem apenas fora de casa (Figura 6).
Figura 6 – Principais locais de compra de carne suína relatados pelos respondentes.

Sobre a preocupação com a procedência da carne suína, 87,4% afirmaram que sempre compram carne suína inspecionada, enquanto 12,6% disseram não se preocupar com a procedência (Figura 7).
Figura 7 – Preocupação dos respondentes quanto à procedência da carne suína.

Quanto à preferência pelos cortes suínos, 24,3% indicaram costela; 22,4%, costela; 19,6%, outros ou todos; 11,7%, pernil; 10,3%, não consomem; 6,5%, lombo; e 5,1%, bisteca.
Em relação à forma de preparo preferida, 24,8% responderam assada; 20,6%, todas as formas; 18,2%, churrasco; 10,7%, frita; 10,3%, não consomem; 8,9%, grelhada; e 6,5%, cozida. Quanto à preferência entre carne suína industrializada e in natura, 48,6% preferem industrializada; 38,3%, in natura; e 13,1%, não consomem.
Por fim, ao serem questionados se já ouviram falar sobre a relação entre carne suína mal preparada e doenças como teníase e cisticercose, 54,7% afirmaram que sim, conhecem bem; 34,6%, já ouviram falar, mas não sabem bem o que é; e 10,7%, nunca ouviram falar (Figura 8).
Figura 8 – Conhecimento dos respondentes sobre a relação entre o consumo de carne suína mal preparada e a ocorrência de doenças como teníase e cisticercose.

DISCUSSÃO
Os resultados obtidos no presente estudo evidenciam que, embora a maioria dos participantes declare consumir carne suína, ainda persistem percepções equivocadas relacionadas à saúde, à segurança alimentar e à transmissão de doenças, aspectos historicamente associados a esse tipo de carne. Esses achados corroboram a literatura, que aponta a presença de mitos como um dos principais fatores limitantes do consumo interno de carne suína no Brasil, mesmo diante dos avanços tecnológicos da suinocultura moderna (Santos et al., 2012; Souza et al., 2021).
A predominância de respondentes jovens adultos, com ensino médio completo ou superior incompleto, sugere que o público avaliado possui acesso à informação, mas nem sempre a conteúdos técnicos e atualizados sobre a cadeia produtiva suinícola. Estudos demonstram que o nível de escolaridade, isoladamente, não garante conhecimento adequado sobre os sistemas de produção animal, sendo necessária a divulgação de informações claras e acessíveis, especialmente voltadas à segurança sanitária e ao valor nutricional da carne suína (Muniz et al., 2015).
Apesar de 65% dos participantes considerarem a carne suína saudável, parcela significativa ainda associa seu consumo ao risco de transmissão de doenças, como teníase e cisticercose, percepção também observada em outros estudos realizados no Brasil (Bragagnolo, 2020). Essa associação reflete resquícios de práticas sanitárias antigas, que não condizem com o atual cenário da suinocultura nacional, caracterizado por rígido controle sanitário, inspeção oficial e sistemas de produção altamente tecnificados (ABPA, 2023).
A preferência declarada por outros tipos de carne, como a bovina e a de frango, em detrimento da carne suína, está alinhada a dados nacionais que indicam menor consumo per capita desse produto no Brasil quando comparado a outros grandes produtores mundiais (Jesus et al., 2023). O sabor agradável, a disponibilidade e o preço acessível foram citados como fatores positivos para o consumo, o que demonstra que a resistência ao produto não está necessariamente ligada às suas características sensoriais, mas sim à falta de informação e à persistência de mitos culturais.
A elevada proporção de respondentes que afirmaram adquirir carne suína em locais inspecionados indica uma preocupação relevante com a procedência do alimento, aspecto positivo do ponto de vista da saúde pública. No entanto, a existência de indivíduos que ainda não se atentam à inspeção sanitária reforça a necessidade de ações educativas contínuas, voltadas à conscientização do consumidor quanto à importância da fiscalização oficial na prevenção de doenças transmitidas por alimentos (Souza et al., 2021).
Nesse contexto, as metodologias extensionistas desenvolvidas no presente estudo — incluindo questionários diagnósticos, materiais informativos, ações presenciais e o uso de redes sociais — mostram-se estratégias fundamentais para a disseminação do conhecimento científico de forma acessível. A extensão universitária exerce papel essencial na aproximação entre universidade e sociedade, promovendo educação alimentar, desmistificação de conceitos errôneos e valorização das cadeias produtivas nacionais (Muniz et al., 2015).
CONCLUSÃO
Os resultados obtidos demonstram que, embora o consumo de carne suína esteja presente na rotina alimentar de grande parte da população avaliada, ainda há lacunas importantes de conhecimento relacionadas à sua qualidade, segurança e forma de produção. A integração entre levantamento de dados e ações extensionistas revelou-se uma ferramenta eficaz para identificar essas lacunas e atuar diretamente na conscientização do público, contribuindo para a desmistificação da carne suína. Assim, conclui-se que o acesso à informação confiável e a adoção de estratégias educativas contínuas são fundamentais para ampliar a aceitação da carne suína no Brasil, fortalecer a suinocultura nacional e promover escolhas alimentares mais conscientes e seguras.
REFERÊNCIAS
ABPA-ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PROTEÍNA ANIMAL. Relatório anual 2023.
BRAGAGNOLO, G.P. Pecuária bovina no Brasil e disfuncionalidades do mercado financeiro: um estudo sobre os impactos no valor de mercado dos frigoríficos brasileiros de capital aberto decorrente do aumento da demanda chinesa em virtude da peste suína africana. Dissertação (mestrado em Agronegócio) FGVEscola de Economia de São Paulo, São Paulo, 2020.
JESUS, R.R. et al. A influência da desinformação no consumo de carne suína no Brasil. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v.6, n.4, p. 3132-3148, 2023.
MUNIZ, D. C. et al. Caracterização do consumo de carne suína e avícola “in natura” através dos estabelecimentos comerciais no município de Ilhéus-Bahia. Revista Eletrônica de Pesquisa Animal, v. 3, n. 1, p. 24-34, 2015.
SANTOS, E. L. et al. Mercado consumidor de carne suína e seus derivados em Rio Largo-AL. Acta Veterinaria Brasilica, v. 6, p. 230-238, 2012.
SOUZA, M. C. M. et al. Consumo de carne suína e derivados pela população de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, v. 4, n. 3, p. 4436-4449, 2021.
1Discente da Universidade Iguaçu, Graduação em Medicina Veterinária. Nova Iguaçu – RJ Brasil Email: Karine.souzat@gmail.com (autor para correspondência)
2Docente da Universidade Iguaçu, Nova Iguaçu – RJ Brasil
3Biólogo e Engenheiro Florestal, Perito da SEPOL – RJ Brasil
4Discente da UNESA, graduação em Medicina Veterinária, Rio de Janeiro – RJ Brasil
