DESAFIOS E ESTRATÉGIAS NA CAPTAÇÃO E FIDELIZAÇÃO DE DOADORES DE SANGUE: O PAPEL DO ENFERMEIRO

CHALLENGES AND STRATEGIES IN RECRUITING AND RETAINING BLOOD DONORS: THE ROLE OF THE NURSES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202510272153


Cleomar Alves do Nascimento; Vilany Soares Cardoso; Rosângela Maria Sousa Santos; Tatiane dos Santos Lima; Patrícia Karollyne Rosário Nascimento; João Vieira Araújo Filho; Orientador: Enf. Esp. Pedro Henrique Rodrigues Alencar


RESUMO 

Introdução: A doação de sangue é um ato essencial para a manutenção da vida e o equilíbrio  do sistema de saúde, especialmente diante da constante necessidade de estoques seguros e  suficientes. No entanto, diversos fatores sociais, culturais e informacionais ainda representam  desafios para a fidelização de doadores. Objetivo: Analisar, por meio da literatura científica, os  principais desafios relacionados à captação e fidelização de doadores de sangue, destacando a  atuação do enfermeiro nesse processo. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da  literatura, com busca de artigos nas bases de dados BDENF, SCIELO, MEDLINE, LILACS,  SCIENCE DIRECT, IBECS, publicados entre 2020 e 2025, utilizando os descritores: Doadores  de Sangue; Captação de Doadores; Enfermagem; Estratégias de Saúde. Resultados: Os estudos  evidenciaram que o enfermeiro é peça-chave na construção de vínculos com os doadores,  atuando desde a triagem e acolhimento até o esclarecimento de dúvidas e promoção da educação  em saúde. Estratégias como comunicação eficaz, escuta ativa, campanhas educativas e ações  intersetoriais com instituições de ensino foram apontadas como fundamentais para sensibilizar  e engajar a população na doação voluntária e repetida. Além disso, a empatia, o  profissionalismo e a confiança estabelecida entre enfermeiro e doador demonstraram ser  determinantes para a continuidade do ato de doar. Conclusão: A atuação da enfermagem é  crucial para o sucesso das práticas de fidelização de doadores de sangue, contribuindo  significativamente para a estabilidade dos estoques e a segurança transfusional. Investir na  qualificação dos profissionais e em políticas públicas que valorizem a educação e a mobilização  social é indispensável para transformar a doação de sangue em um hábito cultural, voluntário e  constante na sociedade brasileira. 

Palavras-chave: Doadores de Sangue; Captação de Doadores; Enfermagem; Estratégias de  Saúde.

ABSTRACT 

Introduction: Blood donation is an essential act for maintaining life and ensuring the balance of  the healthcare system, especially given the constant need for safe and sufficient blood supplies.  However, various social, cultural, and informational factors still pose challenges to donor  retention. Objective: To analyze, through scientific literature, the main challenges related to the  recruitment and retention of blood donors, highlighting the role of nurses in this process.  Methodology: This is an integrative literature review, with article searches conducted in the  BDENF, SCIELO, MEDLINE, LILACS, SCIENCE DIRECT, and IBECS databases, published  between 2020 and 2025, using the following descriptors: Blood Donors; Donor Recruitment;  Nursing; Health Strategies. Results: The studies revealed that nurses play a key role in building  bonds with donors, acting from screening and reception to clarifying doubts and promoting health  education. Strategies such as effective communication, active listening, educational campaigns,  and intersectoral actions with educational institutions were identified as essential to raise  awareness and engage the population in voluntary and repeated blood donation. Moreover,  empathy, professionalism, and the trust established between nurse and donor proved to be decisive  for the continuity of the donation act. Conclusion: Nursing plays a crucial role in the success of  blood donor retention practices, contributing significantly to the stability of blood supplies and  transfusion safety. Investing in professional training and public policies that value education and  social mobilization is essential to transform blood donation into a voluntary, continuous cultural  habit in Brazilian society. 

Keywords: Blood Donors; Donor Recruitment; Nursing; Health Strategies.

1. INTRODUÇÃO 

O sangue e seus derivados são recursos essenciais para a Saúde Pública e para o  funcionamento dos sistemas de atenção hematológica e transfusional. Diante dessa importância,  países como Brasil e Espanha estabeleceram marcos legais que promovem a autossuficiência  por meio da doação voluntária e segura, aliada à infraestrutura adequada dos serviços. A  Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça a necessidade de sistemas nacionais bem  estruturados, capazes de garantir a disponibilidade oportuna e suficiente de sangue e  hemoderivados (Silva & Santoro, 2019). 

Apesar dos avanços, o suprimento regular, seguro e suficiente de sangue ainda enfrenta  diversos desafios. A realização de testes obrigatórios para HIV, hepatites B e C e sífilis é  fundamental, porém muitos países de baixa renda ainda não conseguem garantir essa triagem  em todas as doações. De acordo com a OMS, há grande desigualdade no acesso ao sangue, com  taxas de doação significativamente maiores em países de alta renda. Em 2016, a Espanha  apresentou uma taxa de 36,62 doações por mil habitantes, enquanto o Brasil registrou 18,20 em  2015. Esses dados evidenciam a necessidade de estratégias eficazes por parte de gestores e  profissionais da saúde para garantir a assistência hemoterápica diante das dificuldades  enfrentadas (Federación Nacional de Donantes de Sangre, 2017; Silva & Santoro, 2019). 

A triagem clínica é uma etapa fundamental para garantir a segurança da doação de  sangue, realizada por meio de entrevista sigilosa com um profissional de saúde. O objetivo é  assegurar que apenas pessoas saudáveis doem, protegendo doadores e receptores. Para estar  apto, é necessário ter entre 16 e 69 anos, pesar mais de 50 kg, estar alimentado (evitando  gorduras), ter dormido pelo menos seis horas, não ter consumido álcool nas últimas 12 horas e  evitar fumar por duas horas antes da doação. Homens podem doar até quatro vezes por ano e  mulheres até três, respeitando os intervalos mínimos (Silva; Santana, 2021). 

Estudos mostram o conhecimento insuficiente sobre a doação de sangue por parte da  população, o que pode levar os indivíduos a acreditarem, de forma equivocada, que não estão  aptos a doar. Essa desinformação reduz a motivação e contribui para a baixa taxa de doação  entre os jovens. Ademais, barreiras como medos infundados, preconceitos, falta de tempo e  ausência de convites para doar também impactam negativamente esse comportamento. Diante  disso, torna-se essencial o investimento em estratégias educativas, principalmente através das  mídias digitais, para ampliar o conhecimento, desconstruir mitos e estimular a prática da doação  de forma consciente e segura (Cicolini et al., 2019). 

A atuação da enfermagem na captação e fidelização de doadores de sangue é essencial para manter os estoques hemoterápicos em níveis seguros e sustentáveis. O enfermeiro, como  profissional de referência nos serviços de saúde, tem papel estratégico na educação da  população sobre a importância da doação, desmistificando medos, corrigindo informações  equivocadas e esclarecendo critérios de elegibilidade. A abordagem acolhedora e humanizada  durante o atendimento inicial, especialmente na triagem clínica, favorece uma experiência  positiva, o que é fundamental para transformar o doador eventual em um doador fidelizado  (Barros et al., 2023). 

Além disso, a equipe de enfermagem pode atuar no planejamento e execução de  campanhas educativas em escolas, universidades e comunidades, utilizando estratégias de  comunicação acessíveis e canais digitais para ampliar o alcance das mensagens. A fidelização  também depende do cuidado contínuo com o doador, garantindo conforto, segurança e  reconhecimento pelo gesto solidário. Assim, o enfermeiro contribui não apenas com o aspecto  técnico do processo transfusional, mas também com a construção de uma cultura permanente  de doação voluntária e consciente (Moraes et al., 2023). 

Diante dessa realidade, torna-se imprescindível compreender os fatores que  influenciam a adesão e a manutenção de doadores de sangue, bem como reconhecer as  estratégias que podem ser implementadas para superar os desafios existentes. Assim, este  estudo tem como objetivo analisar, por meio da literatura científica, os principais desafios  relacionados à captação e fidelização de doadores de sangue, destacando a atuação do  enfermeiro nesse processo, considerando as dimensões éticas, sociais, educativas e de gestão  envolvidas. Ao aprofundar essa discussão, busca-se contribuir para a reflexão sobre práticas  mais eficazes de promoção da doação voluntária e para o fortalecimento das políticas públicas  de hemoterapia no Brasil. 

A relevância deste estudo reside na contribuição que ele oferece para o aprimoramento  das práticas de enfermagem e das políticas públicas voltadas à doação de sangue. Além disso,  o aprofundamento dessa temática pode subsidiar a elaboração de estratégias mais eficazes de  comunicação e de engajamento social, ampliando a conscientização sobre a importância da  doação voluntária e regular. Dessa forma, o estudo contribui não apenas para a melhoria da  gestão dos bancos de sangue, mas também para a consolidação de uma cultura de  solidariedade e responsabilidade coletiva, fundamental para a manutenção da vida e o  equilíbrio do sistema de saúde.

2. REFERENCIAL TEÓRICO 

2.1 Panorama da Doação de Sangue no Brasil e no Mundo 

A cada ano, mais de 81 milhões de doações de sangue são realizadas em todo o mundo; entretanto, apenas 45% delas ocorrem em países em desenvolvimento ou em  transição, que concentram 81% da população global (Pessoni et al., 2021). Na América do  Sul, países como Brasil, Peru, Colômbia e Equador apresentam taxas de doação inferiores a 2%. Em uma análise mais ampla, observa-se que, a cada mil habitantes, a taxa de doadores é de 31,5% nos países de alta renda, 15,9% nos de média alta renda, 6,8% nos de média baixa renda e 5,0% nos de baixa renda (Cruz et al., 2021; Pessoni et al., 2021). 

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são realizadas anualmente 118,5  milhões de doações de sangue no mundo, sendo que as nações de alta renda concentram  cerca de 40% desse total (Cruz et al., 2021). No Brasil, a estrutura dos hemocentros é regulamentada pela Política Nacional de Sangue, Componentes e Hemoderivados, e inclui  diversas unidades independentes. Atualmente, os bancos de sangue públicos são  responsáveis por 58% do fornecimento, 33% provêm de serviços licenciados pelo Sistema  Único de Saúde (SUS) e 7% de instituições privadas (Cruz et al., 2021; Pessoni et al.,  2021; Silva et al., 2021). 

A OMS recomenda que 3% da população de cada país seja doadora de sangue, mas  no Brasil apenas 1,6% dos indivíduos realizam a doação. Para aumentar esse número, campanhas de incentivo têm sido fundamentais, buscando sensibilizar e informar a  população sobre a importância da doação. Quanto à frequência, os dados de 2019 mostram que 43,3% das doações foram feitas por doadores de repetição, enquanto os doadores de  primeira vez representaram 37,4% e os doadores eventuais 19,3%. Esses resultados reforçam a efetividade das campanhas de conscientização na promoção da doação de  sangue (Silva et al., 2021). 

No Brasil, a doação de sangue é regulamentada pelas diretrizes e princípios da  Política Nacional de Sangue, Componentes e Hemoderivados, instituída pela Lei Federal nº  10.205/2001, que visa organizar e adequar todas as etapas do processo, desde a regulamentação até a transfusão, estruturando o ordenamento institucional da área.  Complementarmente, a Portaria nº 1.353, de 13 de junho de 2011, do Ministério da Saúde,  determina que todos os candidatos à doação sejam submetidos à triagem clínica e  sorológica, a fim de reduzir o risco de transmissão de patógenos por meio da transfusão 7 sanguínea (Mingrone et al., 2022). 

A doação deve ocorrer de maneira anônima, voluntária e altruística, embora o doador se identifique pessoalmente no ato da doação, sendo chamado pelo nome em todas as  etapas. 

Contudo, o anonimato é garantido no momento da coleta, quando o sangue e seus tubos são codificados com números e códigos de barras, impedindo a identificação do  doador por terceiros (Hokama et al., 2021). 

Em 2020, mais de 3,2 milhões de pessoas foram consideradas aptas para doação de  sangue pelos serviços hemoterápicos, o que corresponde a 83% dos 3,9 milhões de  indivíduos que procuraram os centros de coleta. Observou-se que a maioria dos doadores  era do sexo masculino, representando 56%, e possuía idade acima de 29 anos, somando 67% do total. Entre os principais motivos de inaptidão para a doação destacaram-se a presença de anemia (12,4%), comportamentos de risco para infecções sexualmente transmissíveis  (11,4%) e hipertensão arterial (4,5%), evidenciando a importância da triagem clínica  rigorosa para garantir a segurança transfusional (Ministério da Saúde, 2022). 

Fonte: Anvisa, 2022.

A análise da doação de sangue no Brasil entre 2014 e 2020 revela variações na taxa  de doadores por 1.000 habitantes, com os maiores índices registrados em 2016 (18,35) e  2017 (18,18). A partir de 2018, observou-se uma tendência de queda, chegando a 14,78 em  2020 (Anvisa, 2022). No recorte regional de 2020, o Sudeste apresentou a maior taxa de  doadores (17,45 por 1.000 habitantes), seguido pelo Centro-Oeste (15,49) e Sul (14,55). Já  as regiões Norte (12,79) e Nordeste (11,37) apresentaram as menores taxas, indicando uma desigualdade na distribuição dos doadores pelo território nacional. 

Arruda (2019) identificou que, no Estado do Ceará, os principais motivos de  inaptidão para doação de sangue entre os homens foram o comportamento sexual de risco,  anemia, hipertensão, uso de drogas e a presença de doenças infecciosas. Já entre as  mulheres, destacaram-se a anemia, seguida pelo comportamento sexual de risco, hipotensão, hipertensão e também a presença de doenças infecciosas. Esses dados revelam diferenças nos fatores que levam à inaptidão entre os gêneros, reforçando a necessidade de  estratégias específicas para o aumento da elegibilidade dos doadores. 

Corroborando esses achados, Teles et al. (2021) observaram no Centro de Hemoterapia do Nordeste brasileiro que a proporção de doadores masculinos positivos para  doenças infecciosas foi significativamente superior à das mulheres. Durante o período de janeiro a julho de 2015, houve ainda uma redução nos casos de inaptidão relacionados a comportamento sexual e hemoglobina baixa. No Estado de Goiás, Costa (2016) apontou que, entre 2010 e 2013, a baixa prevalência de inaptidão entre os doadores no Hemocentro  Regional de Ceres-GO pode ser atribuída, principalmente, à eficácia da triagem clínica  realizada durante a seleção dos candidatos. 

2.2 A importância da doação de sangue para o sistema de saúde 

A doação de sangue é um ato de solidariedade e cidadania de extrema relevância social,  sendo fundamental para a manutenção da vida e o equilíbrio do sistema de saúde. De acordo  com Ferreira, Oliveira e Santos (2022) o sangue por ser um tecido vivo e insubstituível,  desempenha papel essencial no transporte de oxigênio, nutrientes e hormônios, além de  participar de processos imunológicos e de coagulação. Dessa forma, ele se torna indispensável  em inúmeros procedimentos médicos e hospitalares, como cirurgias de grande porte,  tratamentos oncológicos, transplantes de órgãos, atendimento de vítimas de acidentes e  complicações obstétricas.  

Para melhor compreender a relevância sobre o ato de doar sangue, Brasil (2024,p.3) faz  a seguinte afirmativa.  

A doação de sangue é um ato altruísta e totalmente voluntário, que pode salvar vidas.  Dependem desse ato solidário pessoas que se submetem a tratamentos planejados e  intervenções médicas urgentes de grande porte e complexidade, como transfusões,  transplantes e procedimentos oncológicos. O sangue é imprescindível também para  que pacientes com doenças crônicas graves – como Doença Falciforme e Talassemia – possam viver por mais tempo e com mais qualidade, além de ser de vital importância  para tratar feridos em situações de emergência ou calamidades.

Compreende-se que sem a doação de sangue, isto é, sem a disponibilidade de estoques  sanguíneos adequados, muitos procedimentos clínicos não poderiam acontecer, por serem inviáveis, o que poderia comprometer a recuperação de pacientes e, em casos mais graves, levar  à morte. 

A relevância da doação de sangue transcende o âmbito individual, configurando-se  como uma questão de saúde pública. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que  pelo menos 3% a 5% da população de um país seja doadora regular para garantir a  autossuficiência nacional. Assim, doação voluntária, altruísta e habitual é, portanto, a base para  um sistema hemoterápico sustentável e seguro (Brasil, 2025). 

Ademais, a doação de sangue é também um reflexo da responsabilidade social e da  confiança entre doadores, profissionais de saúde e instituições hemoterápicas. A segurança  transfusional depende tanto da qualidade dos procedimentos técnicos quanto da conscientização  da população sobre a importância de informar corretamente seu histórico de saúde e de adotar  hábitos saudáveis que contribuam para a elegibilidade da doação. 

Segundo Silva, Costa e Mendes (2021) a doação de sangue é a principal responsável  pela manutenção de estoques adequados, paralelamente reduz o risco de cancelamento de  cirurgias e assegura o atendimento rápido e eficaz em situações de emergência. Além disso, os  serviços de hemoterapia funcionam como centros de vigilância epidemiológica, uma vez que a  triagem sorológica obrigatória permite o monitoramento de doenças transmissíveis e a  implementação de medidas preventivas. Assim, a doação de sangue não é apenas um ato de  solidariedade individual, mas também uma prática que fortalece o sistema público de saúde e  contribui para o controle sanitário e epidemiológico da população. 

A doação de sangue também carrega um importante valor simbólico e ético, ao  expressar o compromisso do indivíduo com a coletividade. Em uma sociedade marcada por  desigualdades e pela busca de benefícios individuais, o ato voluntário de doar sem esperar  recompensas representa uma manifestação concreta de empatia e solidariedade humana. Esse  comportamento altruísta contribui para a construção de uma cultura de responsabilidade social  e de apoio mútuo, na qual a preservação da vida se torna um dever compartilhado. Dessa forma,  a doação de sangue não é apenas um procedimento técnico, mas também uma prática social que  reflete valores de cidadania, compaixão e comprometimento com o bem comum (Ferreira,  Oliveira e Santos, 2022). 

Em síntese, a importância da doação de sangue para o sistema de saúde abrange  dimensões biológicas, éticas, sociais e institucionais. Garantir o acesso equitativo e contínuo a esse recurso vital requer o fortalecimento das políticas públicas, a capacitação dos profissionais  de saúde, especialmente dos enfermeiros, e a implementação de estratégias educativas que  promovam a conscientização e a fidelização dos doadores (Brasil, 2021). 

A sustentabilidade do sistema hemoterápico depende, sobretudo, do reconhecimento  coletivo de que doar sangue é um ato de amor e de responsabilidade que salva vidas, sustenta o  funcionamento dos serviços de saúde e reforça os princípios fundamentais de solidariedade e  humanização que devem nortear a prática em saúde. 

2.3 Barreiras e Fatores que Influenciam a Doação de Sangue 

A análise das dificuldades enfrentadas pelos serviços de hemoterapia em diferentes  contextos regionais evidencia dois grandes desafios principalmente: limitações na estrutura  e nos recursos disponíveis, e obstáculos no recrutamento e fidelização de doadores de sangue. A carência de recursos humanos, a precariedade física de algumas unidades e a  falta de equipamentos adequados, como unidades móveis de coleta, são apontadas como  barreiras significativas, especialmente na realidade brasileira (Souza & Santoro, 2019). Na  Espanha, os efeitos da crise econômica também impactaram a organização e a oferta dos  serviços, demonstrando como fatores econômicos podem afetar diretamente a segurança  transfusional (Souza et al., 2019). 

Além da infraestrutura deficiente, a ausência de sistemas de informação unificados  compromete a eficiência dos serviços de hemoterapia, dificultando o gerenciamento adequado dos estoques e dos dados dos doadores. Esse cenário é particularmente problemático em locais com grande extensão territorial e dispersão de serviços, como na  Bahia, onde a logística para captação e transporte de sangue é mais complexa devido às  distâncias geográficas e às desigualdades regionais (Souza & Santoro, 2019). No tocante à fidelização dos doadores, o estudo de Souza et al. (2019) revelou que, tanto no Brasil quanto na Espanha, captar e manter novos doadores representa um desafio constante.  No Brasil, fatores culturais, econômicos e organizativos dificultam o alcance das taxas  ideais recomendadas pela OMS (Organización Mundial de la Salud, 2010). Na Espanha, a  preocupação gira em torno do envelhecimento da população de doadores e da baixa adesão entre indivíduos de 30 a 40 anos, o que compromete a renovação do quadro de  doadores regulares (Souza & Santoro, 2019). 

Outro desafio relevante é a necessidade de manter estoques suficientes de sangue de  tipos raros e hemoderivados. A dificuldade em encontrar rapidamente hemocomponentes específicos, como o tipo O negativo, e atender amplas redes de serviços de saúde, como no  estado da Bahia, são exemplos que demonstram a complexidade da gestão de estoque em  hemoterapia (Souza & Santoro, 2019; Cruz et al., 2021). A adoção de estratégias  alternativas, como campanhas específicas para tipos sanguíneos raros, é fundamental para  garantir a disponibilidade contínua desses insumos vitais. 

As patologias emergentes, decorrentes da migração e da globalização, também  configuram um novo cenário de risco para a segurança do sangue. Vírus como o Zika,  Chikungunya e o Nilo Ocidental exigem medidas rigorosas de triagem e suspensão temporária de doadores, o que reduz ainda mais a disponibilidade de sangue (Souza &  Santoro, 2019; Pessoni et al., 2021). Este contexto ressalta a importância de políticas de  vigilância epidemiológica atualizadas e da flexibilidade dos serviços de hemoterapia para  responder rapidamente a essas ameaças. 

Por fim, gerir os serviços de hemoterapia com recursos financeiros limitados e lidar com a multiplicidade de atores — públicos, privados e do terceiro setor — constitui um  grande desafio para a sustentabilidade dos serviços. A necessidade de assegurar o uso  racional do sangue e hemocomponentes, promovendo práticas de economia e revisão de  processos, como ocorre na Espanha, é uma estratégia fundamental (Silva et al., 2021). No Brasil, as dificuldades orçamentárias agravam-se com os valores insuficientes de repasse  para procedimentos transfusionais, tornando essencial a integração de esforços entre o  setor público, instituições privadas e a sociedade civil para garantir a autossuficiência de  sangue. 

2.4 A Atuação do Enfermeiro na Captação e Fidelização de Doadores de Sangue

A fidelização de doadores de sangue é um aspecto crucial para garantir a  autossuficiência dos estoques hemoterápicos e a segurança transfusional. Estratégias  eficazes de fidelização envolvem não apenas captar novos doadores, mas também  promover o retorno contínuo daqueles já cadastrados, criando vínculos baseados em  confiança, reconhecimento e sensibilização para a importância social da doação (Pedrosa et  al., 2022). 

Fatores como o atendimento humanizado, a comunicação clara sobre o impacto da  doação e a criação de campanhas educativas contínuas são essenciais para motivar o doador a adotar a prática como um hábito de vida. Além disso, é fundamental compreender os perfis e as motivações dos diferentes públicos, especialmente dos jovens, para personalizar  abordagens e superar barreiras culturais e sociais que possam dificultar a doação regular (Silva et al., 2021). 

Segundo a Anvisa, em 2020, os doadores de repetição representaram 43,6% do total  de doações de sangue, evidenciando a importância da fidelização para a manutenção dos estoques hemoterápicos. Em seguida, destacaram-se os doadores de primeira vez, com 35,9%, e os doadores esporádicos, com 20,5%. Observou-se que as doações de primeira  vez foram mais frequentes em serviços privados, enquanto as instituições públicas e conveniadas ao Sistema 

Único de Saúde (SUS) apresentaram maior número de doadores regulares. No que se refere à motivação para doar, o percentual de doações espontâneas superou o das doações de reposição, realizadas quando um familiar ou amigo necessita de  sangue, tanto em serviços públicos quanto privados. Esse resultado é considerado  favorável, visto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta as doações espontâneas como as mais seguras e sustentáveis para o sistema de saúde (Anvisa, 2022). O estudo de Pedrosa et al. (2022) analisou fatores associados à fidelização de doadores de sangue em um hemocentro público do Distrito Federal, por meio de um delineamento caso- controle. Participaram da pesquisa 153 doadores fidelizados e 133 doadores esporádicos ou de primeira vez. Os resultados revelaram que a fidelização esteve  significativamente associada a características individuais, sendo mais comum entre homens  (OR=1,79), pessoas brancas (OR=1,68), com idade entre 30 e 49 anos (OR=1,72), e com  escolaridade de nível superior ou maior (OR=14,0). Por outro lado, fatores relacionados à  motivação para doar — como ajudar desconhecidos, receber brindes ou exames, ou acompanhar campanhas nas redes sociais — não demonstraram associação estatística com a  fidelidade à doação. 

Além disso, a pandemia de COVID-19 não influenciou significativamente a frequência das doações entre os grupos. O estudo destaca, portanto, a necessidade de  estratégias institucionais mais eficazes para engajar públicos diversos, especialmente  mulheres, jovens, pessoas de baixa escolaridade e de outras etnias, visando ampliar o perfil  dos doadores fidelizados e garantir maior estabilidade nos estoques de sangue (Pedrosa et  al., 2022). 

A Enfermagem desempenha um papel central na promoção da doação de sangue,  atuando tanto na captação quanto no acolhimento dos doadores. Os profissionais de  enfermagem são responsáveis por garantir um ambiente seguro, acolhedor e informativo, o que pode influenciar positivamente a decisão dos indivíduos em doar. Sua atuação envolve desde o esclarecimento de dúvidas até o acompanhamento durante e após o procedimento, contribuindo para uma experiência positiva e segura, o que aumenta as chances de fidelização dos doadores (Casal-Otero et al., 2020). 

Adicionalmente, a enfermagem tem a responsabilidade de promover ações  educativas junto à comunidade e dentro das instituições de ensino, especialmente no caso de estudantes de Enfermagem. Pesquisas apontam que mesmo entre futuros profissionais da área da saúde, como acadêmicos de Enfermagem, ainda há baixos índices de doação e  lacunas significativas no conhecimento sobre o processo de doação de sangue. Isso destaca  a necessidade de incluir conteúdos sobre hemoterapia e cidadania no currículo da  graduação, fortalecendo o compromisso ético e social desses futuros profissionais com a  causa (Cicolini et al., 2019). 

Por fim, o uso de estratégias modernas de comunicação, como as redes sociais, pode ser potencializado pela Enfermagem para atingir públicos mais jovens e ampliar o alcance  das campanhas de doação. Diante do cotidiano digital da maioria dos estudantes e da população em geral, os profissionais de enfermagem podem colaborar com a criação e  divulgação de conteúdos educativos e motivacionais, contribuindo para desmistificar o  processo de doação e aumentar a adesão voluntária. Assim, a Enfermagem se consolida  como uma aliada indispensável no fortalecimento das políticas de incentivo à doação de  sangue (Kanwal et al., 2019 

3. METODOLOGIA 

Esta investigação foi conduzida por meio de uma revisão integrativa da literatura,  conforme o modelo metodológico descrito por Souza et al. (2010). O percurso da pesquisa  compreende seis fases: (1) definição da questão central do estudo; (2) busca e seleção criteriosa dos estudos nas bases científicas; (3) extração dos dados relevantes; (4) análise  crítica do material selecionado; (5) interpretação e discussão dos resultados obtidos; e (6)  organização e exposição dos achados da revisão. 

Para a elaboração da pergunta de pesquisa, utilizou-se a estratégia PICo, conforme  descreve Santos et al. (2007). Neste contexto, o elemento “P” compreende paciente ou problema (Doadores de Sangue) “I” para intervenção ou fenômeno de interesse (Estratégias  da Enfermagem); e “Co” para contexto da Intervenção (Captação e Fidelização de  Doadores). Assim, formula-se a seguinte pergunta norteadora: Quais são os principais desafios enfrentados na captação de doadores de sangue e como o enfermeiro pode atuar efetivamente para aumentar a taxa de doação e garantir a fidelização desses doadores? A coleta de dados deu-se início em janeiro 2025 até outubro do referente ano, na  qual utilizou como bases de dados: Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde  (LILACS), Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud (IBECS), Scientific  Electronic Library Online (SCIELO), Base de Dados da Enfermagem (BDENF) e Science  Direct. Para a pesquisa, foram utilizados os seguintes Descritores em Ciência da Saúde  (DeCS): Doadores de Sangue; Captação de Doadores; Enfermagem; Estratégias de Saúde.  Os termos foram cruzados com o operador booleano AND. O recorte temporal abrange o  período de 2020 a 2025, passando a incluir os estudos mais recentes sobre o tema. Adotou-se como critérios de inclusão os estudos disponíveis na íntegra, em formato  eletrônico e de acesso gratuito, publicados dentro do período estabelecido e que apresentassem relação direta com a questão de pesquisa, independentemente do idioma.  Deu-se preferência a pesquisas originais, revisões sistemáticas e metanálises. Foram  excluídos da seleção materiais como documentos institucionais, resumos de congressos,  cartas ao editor, dissertações, teses, bem como artigos que não abordassem especificamente  o tema central ou que apresentassem falhas metodológicas e ausência de rigor científico. A coleta de dados foi conduzida com o auxílio de um instrumento desenvolvido por  especialistas da área da saúde, contendo itens direcionados à identificação dos estudos, análise das características metodológicas e avaliação do rigor científico, conforme proposto por Ursi (2006). A descrição do processo de busca e seleção dos artigos foi estruturada com base no  modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses),  de acordo com as orientações de Page et al. (2022), que organiza essa trajetória em quatro  fases principais: identificação, triagem, avaliação da elegibilidade e inclusão final dos  estudos na revisão (Figura 1).

Figura 1 – Fluxograma de seleção dos artigos incluídos no estudo. Imperatriz, Maranhão, Artigos excluídos por não atenderem à temática (n=250)

Fonte: adaptado do PRISMA (Page et al., 2022).*

A avaliação crítica dos estudos selecionados foi fundamentada na hierarquia de  evidências descrita por Souza et al. (2010). Essa classificação organiza os níveis de  evidência da seguinte forma: o nível 1 corresponde às meta-análises de ensaios clínicos  randomizados, sendo considerado o mais elevado; o nível 2 abrange estudos experimentais; o nível 3 refere-se a pesquisas quase experimentais; o nível 4 inclui investigações descritivas ou com  abordagem qualitativa; o nível 5 envolve relatos de casos e experiências pessoais; e o nível  6 engloba opiniões de especialistas, representando o menor grau de evidência científica. A análise busca identificar a qualidade metodológica e a consistência dos achados, com  ênfase nos estudos de maior robustez científica. 

Após a categorização dos estudos, as informações foram organizadas em um quadro  descritivo, contemplando dados como autoria e ano de publicação, local onde a pesquisa  foi realizada, idioma do artigo, objetivos do estudo, principais achados, delineamento  metodológico e o respectivo nível de evidência. Essa estrutura facilitou a visualização e  interpretação dos dados de forma sistemática e comparativa. 

4. RESULTADOS 

A revisão bibliográfica revelou que os principais desafios enfrentados na doação de  sangue envolve tanto fatores estruturais quanto comportamentais. Dentre as dificuldades  recorrentes destacam-se a omissão de informações por parte dos doadores durante a  triagem clínica, muitas vezes motivada pelo medo de inaptidão ou pela busca de benefícios  pessoais, como atestados e exames. Além disso, o desconhecimento da população sobre a  segurança do processo transfusional e a baixa clareza das campanhas educativas  contribuem para a desmotivação e o não envolvimento. 

Após a etapa de seleção, foram incluídos 5 artigos, cada um contribuindo de forma  significativa para o escopo desta pesquisa. Essa seleção possibilitou a elaboração de um  quadro síntese, no qual são apresentados o nível de evidência e as principais características  de cada estudo analisado. 

Quadro 1 – Apresentação dos principais resultados e características dos artigos selecionados para a amostra final da revisão. Imperatriz, Maranhão, Brasil, 2025.

Autoria Metodologia (Nível  de Evidência)Objetivo Principais Resultados
Monteiro et al.,  (2021)Pesquisa de campo  do tipo descritivo exploratório de  natureza qualitativa  (Nível 4)Compreender os  desafios vivenciados pela equipe  multiprofissional  envolvida no  processo de triagem  clínica quanto aos  critérios de  aptidão/inaptidão à  doação de sangue, de  modo a delinear os principais problemas que a equipe  enfrenta na seleção  de possíveis  doadores.O artigo destaca que a doação de sangue ainda não é uma prioridade para grande parte da  população, exigindo  estratégias mais  eficazes para captação.  Entre as principais  dificuldades  identificadas na triagem  clínica estão: a falsa  intenção do doador  (como buscar atestados  ou exames gratuitos), a omissão de informações por medo de inaptidão e o desconhecimento sobre a segurança do  processo. Embora  existam doadores  altruístas motivados por  solidariedade, muitos  não são totalmente  sinceros durante a  triagem, o que  compromete a  segurança transfusional.  O artigo também aponta  que mulheres tendem a  doar mais,  possivelmente por  maior sensibilidade  humanitária e resposta a  campanhas. A falta de conhecimento dos doadores sobre o ciclo do sangue e a dificuldade dos profissionais em  obter respostas  verdadeiras são  barreiras recorrentes no  processo de seleção.
Mesquita et al.,  (2021)Estudo qualitativo  (Nível 4)Analisar os aspectos  dificultadores na doação de sangue e as estratégias para  captação de  doadores.Resultados em relação  aos aspectos  dificultadores, foram  pontuadas a falta de  tempo e a pouca  flexibilidade nos  horários de  atendimento, o  deslocamento no acesso  ao serviço e o medo do  processo de doação.  Como estratégias de  captação, os  entrevistados  verbalizam sobre a  divulgação e  campanhas internas nas  empresas, educação nas  escolas e universidades,  fidelização de doadores,  flexibilidade nos  horários do hemocentro e unidades móveis para doação de sangue em pontos estratégicos da cidade.
Souza et al.,  (2020)Estudo qualitativo (Nível 4)Identificar alg umas das  dificuldades, dos  desafios e das  estratégias que os  serviços de  hemoterapia públicos  experimentam no  momento atual, a  partir de perspectivas 
regionais na Espanha e no Brasil
Resultados  Identificaram-se dois  grupos de dificuldades: disposição de estrutura e recursos; e recrutamento e fidelização dos doadores. Desafios  envolver e fidelizar  novos doadores,  sobretudo jovens;  manter estoque  suficiente de sangue de tipos raros e dispor de hemoderivados; lidar com patologias  emergentes decorrentes  do processo de  migração e  globalização; assegurar o uso racional do  sangue; gerir os  serviços com restrição sobre os recursos financeiros; lidar com distintos atores. Como  linhas estratégicas,  destacaram-se uso de  diversos recursos para  sensibilização e fidelização de doadores; concentração tecnológica e de  procedimentos nos  centros coordenadores;  implantação de  programas públicos de  plasmaférese; utilização  de diferentes meios  para estabelecer as  relações com distintos  atores.
Monteiro et al., (2024)Estudo sistemático qualitativo (Nível  4)O objetivo deste  estudo foi analisar os  fatores que podem  influenciar a doação  de sangue.O artigo aponta que há desconhecimento e desinformação da população sobre a  doação de sangue, o  que leva à  desmotivação e baixo  envolvimento. As  campanhas existentes  são vistas como pouco  claras, básicas e, às  vezes, insensíveis. O  estudo destaca que  estratégias de marketing  bem planejadas, com  comunicação  aprimorada e educação  contínua desde a  infância até a  universidade, podem  atrair e fidelizar  doadores. Campanhas educativas são eficazes, mas sua baixa frequência transmite a  ideia de que doar  sangue não é prioritário.  Além disso, o conteúdo informativo deve ser dosado, pois o excesso pode desmotivar.  Abordagens mais eficazes devem focar em argumentos positivos, senso de dever moral e altruísmo, reconhecendo que este nem sempre pode ser  incentivado apenas por  marketing.
Marinho et al.,  (2025)Estudo qualitativo  (Nível 4)Evidenciar a atuação  do enfermeiro na  fidelização de  doadores de sangue e  na garantia de  transfusões seguras.Os resultados  demonstraram que o enfermeiro desempenha papel essencial em todo o  processo transfusional, desde o acolhimento até  o acompanhamento  pós-doação, promovendo ações  educativas, aliada a  estratégias de gestão  humanizada e  campanhas de conscientização, é  fundamental para o  fortalecimento das  políticas públicas de  hemoterapia. Conclui se que o enfermeiro  atua como elo central  na fidelização de doadores e na  segurança transfusional, sendo indispensável  para a manutenção de  um sistema de saúde
Fonte: Autores (2025).

A análise dos estudos selecionados evidencia que a doação de sangue, apesar de sua  relevância para a manutenção do sistema de saúde, ainda enfrenta obstáculos significativos  relacionados à captação, fidelização e conscientização da população. As pesquisas convergem  no entendimento de que o ato de doar sangue, embora socialmente reconhecido como uma  prática solidária, não é percebido pela maioria das pessoas como uma prioridade ou um dever  coletivo.  

4. DISCUSSÕES 

Monteiro et al. (2021) apontam que, durante o processo de triagem clínica, muitos  doadores demonstram uma falsa intenção, buscando benefícios secundários, como atestados  ou exames gratuitos, o que revela uma compreensão limitada do verdadeiro propósito da  doação. Além disso, o estudo identifica a omissão de informações relevantes por parte dos  doadores, motivada pelo medo de serem considerados inaptos, e o desconhecimento sobre a segurança do processo transfusional. Esses fatores interferem diretamente na confiabilidade  das triagens e comprometem a segurança hemoterápica, ressaltando a necessidade de ações  educativas e comunicacionais mais efetivas. 

Complementando essa análise, Mesquita et al. (2021) destacam que os fatores  dificultadores para a doação de sangue vão além do desconhecimento e da desinformação,  abrangendo questões estruturais e logísticas, como a falta de tempo, o deslocamento até o  serviço de hemoterapia e a pouca flexibilidade dos horários de atendimento. Esses entraves  refletem uma lacuna entre a intenção de doar e a efetivação do ato, especialmente entre  trabalhadores e estudantes que enfrentam rotinas rígidas.  

Como estratégias para mitigar essas barreiras, Marinho et al., (2025) enfatiza a  importância da educação permanente em espaços escolares e acadêmicos, o fortalecimento de  campanhas internas em empresas e o uso de unidades móveis de coleta em locais estratégicos.  Tais medidas contribuem para aproximar o serviço da comunidade e reduzir os obstáculos de  acesso, promovendo um ambiente favorável à adesão de novos doadores. 

No estudo de Souza et al. (2020), observa-se uma abordagem mais ampla e  comparativa entre as realidades do Brasil e da Espanha, onde são destacados desafios  estruturais e gerenciais que influenciam a sustentabilidade dos serviços de hemoterapia. Os  autores identificam dois grupos de dificuldades principais: a limitação de recursos materiais e  humanos, e o recrutamento e fidelização de doadores. Assim, entre os desafios mais  expressivos, estão a necessidade de manter estoques de sangue raros, assegurar o uso racional  dos hemocomponentes, enfrentar patologias emergentes relacionadas à globalização e lidar  com restrições orçamentárias que afetam a gestão dos hemocentros.  

Souza et al., (2020) também apontam que a articulação entre diferentes atores sociais  como instituições de ensino, empresas e meios de comunicação é essencial para o  fortalecimento de uma rede de cooperação em prol da doação. Nesse sentido, a criação de  programas públicos de plasmaférese e a concentração tecnológica nos centros coordenadores  surgem como medidas estratégicas que podem aprimorar a eficiência e a qualidade do  processo transfusional. 

Os resultados de Monteiro et al. (2024) reforçam e aprofundam as discussões  anteriores, apontando que a desinformação e o desconhecimento sobre o ciclo do sangue ainda  constituem barreiras centrais para a doação voluntária. Pensamento semelhante apresentou  Souza et al., (2020) ao assegurar que muitas campanhas de conscientização são pouco  atrativas, com mensagens superficiais e linguagem pouco sensível às realidades socioculturais  dos diferentes grupos populacionais. 

Por certo, a limitação comunicacional faz com que a doação de sangue não seja  percebida como um ato contínuo e necessário, mas sim como uma ação pontual, geralmente  associada a situações emergenciais. Para Marinho et al., (2025) o uso de estratégias de  marketing social, fundamentadas em abordagens mais empáticas e educativas, pode ser  determinante para a transformação desse cenário.  

Acredita-se que o incentivo à doação deve estar presente desde a infância, por meio de  atividades educativas, e ser reforçado nas instituições de ensino e no ambiente corporativo,  criando uma cultura de solidariedade e responsabilidade coletiva. Além disso, Monteiro et al.  (2024) alertam que campanhas excessivamente informativas, ao enfatizarem riscos e detalhes  técnicos, podem gerar desinteresse ou medo, sendo necessário dosar o conteúdo de modo a  manter o engajamento e o sentimento de altruísmo dos doadores. 

No tocante à atuação dos profissionais de saúde, o estudo de Marinho et al. (2025)  evidencia que o enfermeiro desempenha papel central no processo de captação, fidelização e  segurança transfusional. A pesquisa mostra que esse profissional é responsável não apenas  pela execução técnica do procedimento, mas também pelo acolhimento humanizado e pela  educação em saúde, o que o torna uma figura essencial na consolidação de vínculos entre o  doador e o serviço de hemoterapia.  

O enfermeiro atua desde a triagem até o acompanhamento pós-doação, garantindo que  o processo ocorra com segurança e conforto, além de promover ações educativas que  desmistificam crenças e fortalecem a confiança do doador. Marinho et al. (2025) ainda  destacam a importância da qualificação continuada desses profissionais, especialmente no  desenvolvimento de habilidades comunicativas e na aplicação de estratégias de gestão  humanizada. Essa atuação integrada e sensível contribui para o fortalecimento das políticas  públicas de hemoterapia e para a consolidação de um sistema de saúde mais eficiente,  equitativo e sustentável. 

As funções dos profissionais de enfermagem vão além das atividades técnicas,  abrangendo a realização de triagens clínicas criteriosas, a promoção de um ambiente acolhedor e a construção de vínculos que incentivem a continuidade da doação. Essa presença ativa e  qualificada contribui diretamente para a manutenção de um estoque estável e seguro, além de melhorar a experiência dos doadores e a qualidade do cuidado prestado aos pacientes  (Mesquista et al., 2021). 

A empatia e a competência dos enfermeiros são determinantes para gerar confiança  nos doadores, promovendo um ambiente propício à adesão e à fidelização. Assim, fortalecer a capacitação e o protagonismo da equipe de enfermagem é uma estratégia essencial para o sucesso das políticas públicas de hemoterapia. 

Marinho et al. (2025) profere que a presença do profissional de enfermagem  humanizadora, aliada a práticas educativas e de acolhimento, tem potencial para transformar a  experiência do doador, convertendo a doação em um hábito voluntário e contínuo. Portanto, o  fortalecimento das práticas educativas, o aprimoramento das campanhas e a valorização do  papel do enfermeiro são pilares fundamentais para superar os desafios da captação e  fidelização de doadores de sangue, assegurando a sustentabilidade do sistema hemoterápico e  a manutenção da vida. 

É sabido que a fidelização de doadores é essencial para garantir a estabilidade dos estoques de sangue e promover a segurança transfusional, sendo um processo construído a  partir de experiências positivas e contínuas. Nesse contexto, o enfermeiro desempenha um  papel central ao proporcionar um acolhimento humanizado, orientar com clareza sobre o  processo de doação, reduzir a ansiedade e estabelecer vínculos interpessoais que incentivem o  retorno espontâneo dos doadores (Souza et al., 2020).  

Segundo Mesquita et al. (2024) a criação desse vínculo de confiança passa pela escuta atenta, pela condução segura da doação e pela valorização do doador enquanto sujeito ativo no processo, o que contribui para o hábito da doação regular.  

Ao comparar os achados dos estudos analisados, observa-se uma convergência quanto  à necessidade de integrar estratégias educativas, comunicacionais e gerenciais para promover  a adesão e fidelização de doadores. A pesquisa realizada demonstrou que os desafios não se  limitam à falta de informação, mas envolvem também a percepção social do ato de doar e a  forma como os serviços de saúde se comunicam e se relacionam com a comunidade. Nesse  sentido, a atuação do enfermeiro surge como um elemento transversal em todos os contextos,  sendo ele o principal mediador entre o sistema de saúde e a população.  

E quando trata-se de promover a fidelização de doadores de sangue, é fundamental que  os profissionais de enfermagem busquem novas formas inovadoras de sensibilizar os  possíveis doadores, estimulando o compromisso com a doação regular, uma vez que, essa  equipe pode atuar diretamente na criação de vínculos, esclarecimento de dúvidas, suporte  emocional e na melhoria da experiência do doador, o que pode minimizar mitos e receios,  aumentar a confiança e estimular a fidelização, garantindo assim a continuidade do fluxo sanguíneo essencial para o sistema de saúde (Mesquista et al., 2021). 

Diante do exposto, evidencia-se que o fortalecimento da cultura da doação de sangue  requer uma abordagem multifatorial, na qual o enfermeiro assume papel central não apenas na execução técnica, mas principalmente na promoção do acolhimento, educação e motivação dos  doadores.  

5. CONCLUSÃO 

A presente permitiu compreender de forma ampla e fundamentada os principais desafios  relacionados à captação e fidelização de doadores de sangue, bem como destacar o papel  essencial do enfermeiro nesse processo. E a análise dos estudos revelou que, embora a doação  de sangue seja um ato de extrema importância para a manutenção da vida e o equilíbrio do  sistema de saúde, ainda há entraves significativos que comprometem a regularidade e a  segurança dos estoques hemoterápicos.  

Por meio da pesquisa pode-se constatar que fatores como desinformação, medo, falta de  tempo, barreiras estruturais e a percepção limitada sobre a relevância da doação contribuem  para a baixa adesão populacional. Além disso, questões relacionadas à sinceridade dos  doadores durante a triagem e às dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde na  comunicação e no acolhimento demonstram que a problemática é multifatorial e demanda  abordagens integradas. 

Ademais, ficou evidente que estratégias educativas contínuas, campanhas de  conscientização atrativas e práticas humanizadas são fundamentais para transformar o ato de  doar em um comportamento habitual e consciente. Por sua vez, o enfermeiro exerce um papel  central na mediação entre o doador e o serviço de hemoterapia, sendo responsável tanto pela  segurança técnica do procedimento quanto pelo acolhimento e educação em saúde.  

Por certo, a atuação desse profissional, quando pautada na empatia, no diálogo e na  escuta ativa, favorece a criação de vínculos e promove a confiança necessária para a fidelização  dos doadores. Assim, o alcance dos objetivos propostos confirma que o fortalecimento das  políticas públicas de hemoterapia deve estar aliado à valorização do papel do enfermeiro e ao  desenvolvimento de estratégias de gestão e comunicação que integrem ciência, ética e  humanização. 

Contudo, apesar dos avanços identificados, ainda há lacunas que precisam ser  exploradas pela comunidade científica. Seria relevante que novos estudos fossem realizados,  ampliando a investigação sobre as práticas de fidelização e educação voltadas à doação de  sangue, especialmente no que diz respeito ao impacto das estratégias digitais, das campanhas  em redes sociais e da formação continuada dos profissionais de enfermagem. Pesquisas futuras  podem contribuir significativamente para o aperfeiçoamento das políticas públicas e para o fortalecimento de uma cultura social voltada à solidariedade e à doação voluntária, assegurando  a sustentabilidade do sistema de saúde e o compromisso coletivo com a preservação da vida por  meio da doação de sangue.  

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