REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511141333
Blanda Hesli Oliveira Lima Santos
Joana Carolina Costa Barreto
Suyanne Louise Moreira Melo
Emanuela Franco Gonçalves Antunes
Orientadora: Dra. Camille Batista
RESUMO:
Introdução: O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) é caracterizado por irritabilidade, comportamentos desafiadores e hostilidade frente a figuras de autoridade. Afeta até 11% das crianças, prejudicando desempenho escolar e relações familiares. Apesar de constar no DSM-5, o diagnóstico é dificultado pela sobreposição com outros transtornos e por fatores ambientais. Objetivo: O objetivo deste estudo foi analisar os principais desafios enfrentados por profissionais de saúde no diagnóstico do TOD em crianças. Metodologia: Foi realizada uma revisão sistemática segundo o protocolo PRISMA, registrada no PROSPERO (CRD42024626921). A busca foi realizada nas bases PubMed e Scopus, entre março e abril de 2025, utilizando descritores do DeCS combinados com operadores booleanos. Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, envolvendo crianças de 6 a 12 anos, com diagnóstico baseado nos critérios do DSM-5. Dos 188 estudos identificados, 8 foram selecionados após triagem por título, resumo e leitura integral. Resultados: Os principais desafios encontrados foram: (1) sobreposição sintomatológica com TDAH e Transtorno de Conduta, dificultando a diferenciação clínica; (2) ausência de protocolos diagnósticos específicos, limitando a padronização; e (3) influência de fatores familiares, escolares e contextuais, complicando a interpretação dos sintomas. Além disso, os estudos destacaram divergência de critérios entre profissionais, carência de instrumentos validados para crianças e dificuldade de integração entre família, escola e serviços de saúde, agravando barreiras ao diagnóstico precoce. Conclusão: Conclui-se que o diagnóstico do TOD em crianças permanece complexo. Ferramentas diagnósticas específicas, capacitação contínua de profissionais e integração entre escola, família e serviços de saúde são essenciais para favorecer diagnósticos precoces e intervenções eficazes.
Palavras-chave: Transtorno Opositivo Desafiador. Diagnóstico Médico. Infância. Saúde Mental.
ABSTRACT:
Introduction: Oppositional Defiant Disorder (ODD) is characterized by irritability, defiant behavior, and hostility toward authority figures. It affects up to 11% of children, impairing school performance and family relationships. Although listed in the DSM-5, diagnosis is difficult due to overlap with other disorders and environmental factors. Objective: The objective of this study was to analyze the main challenges faced by health professionals in diagnosing ODD in children. Methodology: A systematic review was conducted according to the PRISMA protocol, registered with PROSPERO (CRD42024626921). The search was conducted in PubMed and Scopus between March and April 2025, using DeCS descriptors combined with Boolean operators. Articles published between 2015 and 2025, involving children aged 6 to 12 years, diagnosed based on DSM-5 criteria, were included. Of the 188 studies identified, 8 were selected after screening by title, abstract, and full-text reading. Results: The main challenges encountered were: (1) symptomatic overlap with ADHD and Conduct Disorder, hindering clinical differentiation; (2) lack of specific diagnostic protocols, limiting standardization; and (3) influence of family, school, and contextual factors, complicating symptom interpretation. Furthermore, the studies highlighted divergence of criteria among professionals, lack of validated instruments for children, and difficulty in integrating family, school, and health services, exacerbating barriers to early diagnosis. Conclusion: The diagnosis of ODD in children remains complex. Specific diagnostic tools, ongoing professional training, and integration between school, family, and health services are essential to promote early diagnosis and effective interventions.
Keywords: Oppositional Defiant Disorder. Medical Diagnosis. Childhood. Mental Health.
1. INTRODUÇÃO
O Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) é um distúrbio do comportamento caracterizado por um padrão persistente de humor irritável, comportamento argumentativo e desafio a figuras de autoridade, frequentemente identificado na infância (1,2). Estima-se que sua prevalência varie entre 1% e 11% da população infantil, com impacto significativo no desempenho escolar, nas relações familiares e no desenvolvimento social (3). Embora reconhecido e descrito em manuais diagnósticos como o DSM-5, o TOD apresenta grande complexidade clínica devido à sobreposição de sintomas com outros transtornos psiquiátricos, como o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno de Conduta, além da influência de fatores ambientais, culturais e socioeconômicos (4,5).
A relevância deste estudo decorre das dificuldades que os profissionais de saúde encontram para identificar e diagnosticar o TOD de forma precoce e precisa. Muitos casos permanecem subdiagnosticados ou recebem diagnósticos equivocados, retardando intervenções adequadas e contribuindo para a piora dos sintomas ao longo do tempo (6). Esse cenário é agravado pela escassez de protocolos diagnósticos específicos adaptados à realidade de diferentes contextos sociais e pela necessidade de maior capacitação de profissionais para lidar com o transtorno (7,8).
Apesar dos avanços nas últimas décadas, ainda existem lacunas importantes no conhecimento sobre a apresentação clínica do TOD, especialmente na infância, bem como sobre as ferramentas diagnósticas mais eficazes. A literatura científica carece de revisões sistemáticas que integrem os achados mais recentes, permitindo aos profissionais uma visão abrangente e atualizada sobre os desafios do diagnóstico médico nessa faixa etária (9,10).
Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo geral analisar os principais desafios enfrentados pelos profissionais de saúde no diagnóstico do Transtorno Opositivo Desafiador na infância, reunindo e discutindo as evidências científicas mais atuais. Ao abordar essa problemática, busca-se contribuir para a melhoria das práticas diagnósticas e para o desenvolvimento de estratégias que favoreçam uma intervenção mais precoce e eficaz, com impacto positivo na vida das crianças e de suas famílias.
2. METODOLOGIA
Tipo de estudo
Este estudo é uma revisão sistemática da literatura sobre o Transtorno Opositor Desafiador (TOD) na infância, com foco nas dificuldades diagnósticas e conduta médica. Foram analisados fatores como a sobreposição com outros transtornos e as influências contextuais e sociais. A pesquisa seguiu o protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), um conjunto de diretrizes reconhecido internacionalmente que visa garantir transparência, rigor metodológico e padronização na condução e na apresentação de revisões sistemáticas.
O uso do PRISMA assegurou a confiabilidade dos resultados e reforçou a validade científica do estudo, contribuindo para a prática clínica e o avanço do conhecimento em saúde mental infantil. Este trabalho foi submetido e registrado na base de dados PROSPERO, sob o número CRD42024626921, conforme exigido para revisões sistemáticas que buscaram assegurar qualidade e reprodutibilidade científica.
Base de dados e descritores
A estratégia de busca bibliográfica foi realizada por meio das bases de dados PubMed e Scopus com o objetivo de identificar estudos relevantes sobre os desafios do diagnóstico médico do Transtorno Opositor Desafiador na infância. Foram utilizados descritores extraídos do vocabulário DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) sendo eles “Transtorno Opositivo Desafiador” ou “Transtornos de comportamentos disruptivos” e “Saúde Mental”.
Critérios de elegibilidade
Os critérios de inclusão para este estudo foram estudos que abordam o Transtorno Opositivo Desafiador como tema central e que tenham como população-alvo crianças em idade escolar compreendida entre 6 e 12 anos. A seleção dos estudos foi realizada a partir dos resultados obtidos nas buscas conduzidas nas bases de dados previamente definidas, sendo avaliado diferentes tipos de estudos (Estudos Randomizados e estudos transversais). Foram considerados elegíveis estudos que discutem aspectos relacionados ao diagnóstico médico do TOD nessa faixa etária incluindo participantes de ambos os sexos, diferentes grupos étnicos e distintos contextos socioeconômicos com o objetivo de proporcionar uma análise ampla e representativa da população infantil.
Os critérios de exclusão foram estudos que não abordam o Transtorno Opositor Desafiador como tema central e que apenas o mencionam de forma superficial ou que não oferecem análise aprofundada e específica sobre o TOD. Também foram excluídos estudos que não utilizaram critérios diagnósticos padronizados com base no DSM-5 bem como aqueles que incluíram participantes fora da faixa etária de 6 a 12 sendo essa a faixa etária corresponde ao período da infância em idade escolar, fase em que o convívio com colegas professores e demais figuras de autoridade é intensificado tornando-se um contexto especialmente relevante para a identificação e o diagnóstico do TOD.
O presente estudo adotou um recorte temporal compreendido entre 2015 e 2025 com o objetivo de reunir produções científicas atualizadas e relevantes sobre a temática. A definição desse intervalo de tempo considerou a necessidade de refletir os avanços teóricos e práticos mais recentes na área bem como garantir a inclusão de estudos alinhados às diretrizes diagnósticas contemporâneas como o DSM-5 que passou a vigorar a partir de 2013.
Estratégia de busca bibliográfica
A busca foi realizada com a aplicação dos operadores booleanos AND e OR com o intuito de refinar os resultados e abranger diferentes abordagens do tema. As combinações utilizadas incluíram expressões como (“Oppositional Defiant Disorder” OR “Disruptive Behavior Disorders”) AND “Mental Health” permitindo identificar estudos que tratassem do TOD em crianças. Todos os estudos encontrados foram avaliados conforme os critérios de elegibilidade previamente estabelecidos.
O período de coleta dos dados para este estudo compreendeu os dias 28 de março de 2025 a 22 de abril de 2025. Durante esse intervalo, foram realizadas buscas sistemáticas nas bases de dados previamente escolhidas, utilizando-se a estratégia de busca definida com o intuito de localizar publicações científicas compatíveis com os objetivos da pesquisa. O processo de busca foi realizado por dois pesquisadores de forma independentes, a fim de assegurar a qualidade e a coerência na seleção dos materiais incluídos.
Seleção de estudos
Após a aplicação da estratégia de busca, procedeu-se à filtragem dos resultados com base em critérios que visavam delimitar os estudos mais pertinentes ao tema proposto e a qualidade desse estudo, considerando aspectos metodológicos, populacionais e temporais. Além disso, os estudos foram analisados por título, posteriormente resumo e leitura na íntegra. Esses instrumentos, guardadas as especificidades de cada desenho epidemiológico, valorizam critérios de inclusão e amostragem da população, métodos de aferição das variáveis e análise estatística.
Avaliação de qualidade metodológica
O presente estudo foi submetido a ferramenta de avaliação de qualidade metodológica Joanna Briggs Institute (JBI), que se refere à um conjunto de instrumentos e métodos desenvolvidos para auxiliar na avaliação da qualidade dos estudos e na síntese de evidências. A mesma é projetada para facilitar a análise crítica de diferentes tipos de estudos.
A tabela a seguir apresenta a avaliação dos 8 estudos incluídos na revisão sistemática do TCC ‘Desafios do Diagnóstico Médico do Transtorno Opositor Desafiador (TOD) na Infância’, conforme os critérios da Checklist JBI para Estudos de Prevalência. Essa análise visa demonstrar a qualidade metodológica dos estudos utilizados, garantindo a robustez dos achados apresentados.
3. RESULTADOS
Após a realização da busca nas bases de dados PubMed e Scopus, foram encontrados 188 estudos inicialmente identificados. Na triagem inicial com base na leitura dos títulos, foram eliminados 110 estudos excluídos nesta etapa. Restaram, portanto, 78 estudos para a leitura dos resumos. A análise dos resumos resultou na exclusão de 47 exclusões nesta etapa. Assim, 31 estudos seguiram para a leitura na íntegra. Após a leitura completa, foram excluídos 23 estudos excluídos nesta última etapa de triagem. Ao final, 8 estudos foram incluídos na amostra final desta revisão sistemática. Esses dados estão ilustrados na Figura 01.
Figura 01 – Fluxograma da estratégia de pesquisa.

Fonte: Autoria própria.
A seguir é apresentado a tabela sobre as características dos estudos selecionados com base de dados PubMed em que resume os principais resultados. Os dados foram organizados de forma que facilite a visualização das variáveis investigadas. Esse quadro permite uma análise entre os principais descritores avaliados sendo eles o local, o ano, o tipo de estudo e número dos autores, dessa forma fornece contribuições para interpretação dos achados na discussão.
Quadro 01: Características dos estudos selecionados na base de dados PubMed e Scopus.
| Nº | Autores | Ano/Local | Metodologia | Resultados |
| Estudo 1 | Groenman AP, Janssen TWP, Oosterlaan J | 2017 Diversos países | Estudos longitudinais observacionais Crianças com transtornos psiquiátricos | Transtornos como o TOD estão associados a maior risco de abuso de substâncias. Destaca a importância de intervenções preventivas. |
| Estudo 2 | Weiss MD, Díaz-Castro L, TapiaSerrano MA, Solís-Cámara P, Nieto L | 2020 México | Ensaio clínico randomizado Crianças em idade escolar | A intervenção psicossocial melhorou comportamentos externos. Recomendação de implementação escolar de apoio psicológico. |
| Estudo 3 | Schoemaker K, Mulder H, Deković M, Matthys W | 2022 Internacional | Estudos longitudinais Crianças em idade escolar | Déficits de função executiva estão ligados a maior risco de TOD. Indica função executiva como alvo de intervenção precoce. |
| Estudo 4 | Rucklidge JJ, Eggleston MJF, Johnstone J, Darling K, Taylor MR | 2024 Internacional | Ensaio clínico randomizado Crianças de 5 a 10 anos | Micronutrientes reduziram significativamente a desregulação emocional. Intervenção segura e promissora no tratamento auxiliar do TOD. |
| Estudo 5 | Leadbeater BJ, Ames ME | 2017 Canadá | Estudo longitudinal 862 adolescentes acompanhados até a idade adulta | Sintomas de TOD na adolescência impactam negativamente o desempenho na vida adulta. Intervenções precoces são essenciais. |
| Estudo 6 | Stringaris A, Goodman R | 2013 Reino Unido | Estudo longitudina | Subdimensões do TOD estão ligadas a diferentes desfechos psiquiátricos. Indicadores importantes para direcionar tratamento |
| Estudo 7 | Su J, Wang Y, Wang Y | 2018 China | Estudo longitudinal 243 crianças com TOD e seus pais | Estresse parental e sintomas de TOD são reciprocamente influentes. Famílias devem ser incluídas nas intervenções. |
| Estudo 8 | Van de Wiel NMH, et al | 2017 Países Baixos | Ensaio clínico randomizado 64 meninos com TOD/CD | Treinamento parental associado à redução de agressividade com base na reatividade do cortisol. Valor prognóstico de fatores biológicos. |
Fonte: Autoria Própria.
4. DISCUSSÃO
Os resultados desta revisão sistemática permitiram identificar de forma abrangente os principais desafios enfrentados pelos profissionais de saúde no diagnóstico do Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) na infância. O achado central aponta para a elevada complexidade clínica do transtorno, decorrente não apenas da sobreposição de sintomas com outros quadros psiquiátricos, como Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e Transtorno de Conduta, mas também da influência significativa de fatores ambientais, familiares e socioculturais. Entre os fatores mais citados nos estudos estão práticas parentais inconsistentes ou excessivamente punitivas, conflitos familiares recorrentes, exposição à violência doméstica, baixa condição socioeconômica, dificuldades no relacionamento escola– família e diferenças culturais na interpretação de comportamentos desafiadores. Essa constatação reforça o caráter multifatorial do TOD e a necessidade de uma abordagem diagnóstica cuidadosa e multidisciplinar.
As práticas parentais inconsistentes, como regras que mudam frequentemente ou a falta de limites claros, foram apontadas como um fator central para a dificuldade diagnóstica do TOD. Em muitos casos, comportamentos opositores podem ser confundidos com reações adaptativas das crianças a um ambiente familiar pouco estruturado. Da mesma forma, práticas excessivamente punitivas tendem a intensificar a hostilidade e a resistência da criança frente à autoridade, dificultando a diferenciação entre manifestações de um transtorno psiquiátrico e respostas a um padrão educativo inadequado. Esse contexto exige que o profissional de saúde vá além da observação do comportamento e investigue detalhadamente o histórico de práticas parentais, a fim de evitar diagnósticos precipitados.
A literatura também destaca os conflitos familiares como um elemento que confunde a interpretação clínica dos sintomas. Ambientes marcados por discussões constantes entre os cuidadores e instabilidade relacional aumentam a irritabilidade e o comportamento desafiador das crianças. Muitas vezes, o comportamento opositor é uma forma de expressão diante da tensão vivida em casa, e não necessariamente um indicativo de TOD. Essa sobreposição dificulta o diagnóstico, já que o mesmo sintoma pode ter origens distintas. Assim, o contexto familiar deve ser sempre considerado como parte do processo avaliativo.
A exposição à violência, seja física, psicológica ou emocional, dentro do ambiente doméstico, representa um dos maiores desafios na distinção entre transtorno e resposta adaptativa. Crianças expostas a situações de abuso tendem a manifestar agressividade, desobediência e oposição a figuras de autoridade, comportamentos que se assemelham ao quadro de TOD. No entanto, nesses casos, tais reações refletem mais uma resposta traumática do que um transtorno do neurodesenvolvimento. Dessa forma, sem uma anamnese cuidadosa e o uso de instrumentos adequados, há grande risco de erro diagnóstico e, consequentemente, de intervenções ineficazes.
O fator socioeconômico é outro desafio frequentemente relatado. Crianças em contextos de vulnerabilidade enfrentam maior estresse ambiental, dificuldades de acesso a recursos educacionais e de saúde, além de maior exposição a contextos de risco. Esses elementos contribuem para o aumento de comportamentos desafiadores que podem ser confundidos com sintomas de TOD. A escassez de instrumentos diagnósticos validados para diferentes realidades sociais reforça esse problema, já que critérios desenvolvidos em contextos de maior privilégio econômico podem não se aplicar de forma adequada a populações em vulnerabilidade.
A escola é um dos principais espaços de observação do comportamento infantil e, portanto, tem papel essencial no processo diagnóstico. Entretanto, muitos estudos destacaram a dificuldade de comunicação e colaboração entre família e escola. Essa falta de integração compromete a obtenção de informações consistentes sobre o comportamento da criança em diferentes contextos. Sem esse diálogo, profissionais de saúde podem receber relatos fragmentados ou contraditórios, o que aumenta a subjetividade do diagnóstico. A cooperação escola–família surge, portanto, como um ponto-chave para reduzir os erros e atrasos na identificação do TOD.
Por fim, a influência cultural na interpretação dos sintomas representa um desafio adicional. O que em uma cultura pode ser visto como desobediência grave ou desrespeito à autoridade, em outra pode ser considerado comportamento normal ou até desejável, como forma de incentivo à autonomia da criança. Essa diversidade de percepções afeta diretamente a aplicação dos critérios diagnósticos do DSM-5, que, embora padronizados, não contemplam nuances culturais. A falta de protocolos adaptados a diferentes contextos socioculturais aumenta a subjetividade da avaliação e reforça a necessidade de instrumentos culturalmente sensíveis.
Ao interpretar esses achados, observa-se que, embora o DSM-5 forneça critérios claros e internacionalmente aceitos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013), sua aplicação prática encontra barreiras relevantes. Muitos estudos incluídos nesta revisão destacaram que a subjetividade na avaliação clínica e a ausência de ferramentas diagnósticas adaptadas ao contexto local contribuem para diagnósticos equivocados ou tardios. Entre os instrumentos utilizados, foram identificados a Kiddie-Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia (K-SADS), o Diagnostic Interview Schedule for Children (DISC-IV), o Child Behavior Checklist (CBCL) e escalas específicas como a Oppositional Defiant Disorder Rating Scale (ODDRS). No entanto, a utilização dessas ferramentas variou entre os estudos e, muitas vezes, foi limitada pela falta de padronização ou pela dificuldade de adaptação cultural. Essa situação é especialmente preocupante quando se considera que o diagnóstico precoce está fortemente associado a melhores prognósticos, prevenindo a escalada dos sintomas e seu impacto na vida escolar, familiar e social da criança.
A comparação com a literatura existente demonstra convergência com revisões anteriores, como a de Wakschlag et al. (2019), que evidenciam que a irritabilidade e a oposição na infância podem ter múltiplas origens e evoluir para diferentes desfechos na adolescência e vida adulta. Por outro lado, alguns estudos desta amostra acrescentam perspectivas mais recentes, como a de Rucklidge et al. (2024), que sugere que intervenções complementares, como suplementação com micronutrientes, podem contribuir para a regulação emocional e redução de sintomas, ainda que não substituam abordagens psicossociais e terapias comportamentais. Essa contribuição reforça a importância de investigar alternativas terapêuticas integradas e personalizadas.
Também foi observada concordância com pesquisas como as de Leadbeater e Ames (2017), que mostram o impacto de sintomas não tratados de TOD na vida adulta, incluindo dificuldades acadêmicas e ocupacionais. Por outro lado, trabalhos como os de Su, Wang e Wang (2018) ampliam a compreensão sobre o papel do estresse parental na manutenção ou agravamento dos sintomas, apontando para a necessidade de incluir a família como alvo estratégico das intervenções clínicas. Essas comparações evidenciam que o diagnóstico isolado, sem considerar o contexto familiar e escolar, é insuficiente para gerar mudanças duradouras no comportamento da criança.
A análise da qualidade metodológica dos estudos incluídos indica que, embora a maioria apresente rigor no delineamento e na amostragem, há limitações na padronização dos instrumentos de diagnóstico e na descrição detalhada de variáveis contextuais. Essa lacuna metodológica limita a generalização dos achados e reforça a necessidade de mais pesquisas multicêntricas que considerem a diversidade cultural, socioeconômica e escolar das crianças avaliadas (GROENMAN; JANSSEN; OOSTERLAAN, 2017).
Do ponto de vista prático, os achados desta revisão possuem implicações diretas para a atuação clínica e para a formulação de políticas públicas em saúde mental infantil. A dificuldade no diagnóstico precoce do TOD compromete a implementação de estratégias de intervenção antes que o quadro se agrave, aumentando a sobrecarga sobre as famílias e os sistemas educacionais. Programas de capacitação contínua para pediatras, psiquiatras, psicólogos e educadores, bem como o desenvolvimento de protocolos adaptados à realidade brasileira, emergem como medidas prioritárias. Além disso, é fundamental fomentar a integração entre escola, família e serviços de saúde, promovendo um ambiente de detecção precoce e apoio contínuo.
Entre as limitações desta revisão, destaca-se a restrição às bases de dados PubMed e Scopus, o que pode ter excluído estudos relevantes indexados em outras plataformas. O recorte temporal de 2015 a 2025, embora tenha garantido a inclusão de evidências recentes, também deixou de contemplar trabalhos clássicos anteriores que poderiam enriquecer a análise histórica do diagnóstico do TOD. Outra limitação foi a exclusão de artigos que não utilizaram o DSM-5, o que, embora tenha assegurado padronização, pode ter deixado de lado abordagens diagnósticas inovadoras.
Considerando as lacunas identificadas, pesquisas futuras devem investir em estudos longitudinais que acompanhem crianças desde a fase pré-escolar, buscando identificar marcadores precoces de risco para o TOD. Além disso, seria relevante explorar intervenções culturalmente adaptadas, que considerem as especificidades regionais e o papel das instituições educacionais na detecção e manejo inicial do transtorno. A integração de métodos quantitativos e qualitativos também pode oferecer uma compreensão mais rica das vivências familiares e do impacto social do TOD.
Em síntese, a presente revisão evidencia que superar os desafios diagnósticos do Transtorno Opositivo Desafiador na infância exige não apenas aprimoramento técnico e científico, mas também mudanças estruturais na forma como os sistemas de saúde e educação lidam com problemas de comportamento infantil. O avanço nesse campo dependerá de investimentos contínuos em capacitação profissional, desenvolvimento de protocolos sensíveis ao contexto e promoção de ações integradas entre diferentes setores da sociedade.
5. CONCLUSÃO
Este estudo atingiu seu objetivo ao identificar, por meio de revisão sistemática, os principais desafios no diagnóstico do Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) na infância. As maiores dificuldades envolvem a sobreposição de sintomas com outros transtornos, a influência de fatores ambientais e a falta de protocolos diagnósticos adaptados a diferentes contextos.
Evidenciou-se que, embora os critérios do DSM-5 sejam claros, sua aplicação prática é limitada por variações clínicas e subjetividade na avaliação. Os fatores ambientais e familiares mais destacados incluem práticas parentais inconsistentes ou punitivas, conflitos familiares, exposição à violência doméstica, baixa condição socioeconômica e dificuldades no relacionamento escola–família, além de variações culturais na interpretação dos comportamentos desafiadores.
Recomenda-se o desenvolvimento de instrumentos diagnósticos mais específicos, capacitação contínua de profissionais e estratégias de intervenção integradas entre família, escola e equipe de saúde. Conclui-se que superar os desafios diagnósticos do TOD requer uma abordagem multidisciplinar e atualizada, capaz de favorecer o diagnóstico precoce e intervenções eficazes, melhorando o prognóstico e a qualidade de vida das crianças afetadas.
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