DIABETES MELLITUS EM CADELA ADULTA: RELATO DE CASO  CLÍNICO 

DIABETES MELLITUS IN AN ADULT FEMALE DOG: CASE REPORT 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511141313


Giovanna Marques Brunetta1 


Resumo 

A diabetes mellitus é uma doença endócrina comum em cães e gatos, caracterizada pela hiperglicemia  persistente devido à deficiência na secreção, ação da insulina ou ambos. O objetivo deste artigo é  relatar o caso clínico de uma cadela sem raça definida de 12 anos de idade, diagnosticada com diabetes  mellitus e seu monitoramento durante o extenso período de internação hospitalar. Destacando a  importância do manejo intensivo, permitindo melhor controle glicêmico e assim maior possibilidade  no sucesso terapêutico, bem como a necessidade do acompanhamento interdisciplinar para um melhor  controle da doença e de possíveis complicações associadas, como a piometra no caso relatado. 

Palavras-chave: Diabete mellitus. Cão. Piometra.  

Abstract 

Diabetes mellitus is a common endocrine disease in dogs and cats, characterized by persistent  hyperglycemia due to impaired insulin secretion, action, or both. The aim of this article is to report the  clinical case of a 12-year-old mixed-breed female dog diagnosed with diabetes mellitus and its  monitoring during an extended hospital stay. It highlights the importance of intensive management,  allowing for better glycemic control and thus a greater chance of therapeutic success, as well as the  need for interdisciplinary follow-up for better control of the disease and possible associated  complications, such as pyometra in the reported case.  

1 INTRODUÇÃO 

A diabetes mellitus (DM) é uma desordem metabólica crônica caracterizada pela  persistência do alto nível de glicose no sangue, decorrente de defeitos na secreção de insulina,  na ação insulínica ou em ambos (NELSON; COUTO, 2015). Em cães existem dois tipos de  diabete , a Mellitus (tipo 1) e a Insipidus (tipo 2), a forma mais comum é a diabetes mellitus  do tipo 1, resultante da destruição autoimune das células beta pancreáticas, o que leva à  deficiência absoluta de insulina (REUSCH, 2010). 

Os principais sinais clínicos incluem poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso,  podendo ser acompanhados por letargia, catarata e infecções secundárias. O diagnóstico  baseia-se na identificação de hiperglicemia persistente e glicosúria, e o tratamento é baseado  na administração de insulina exógena, controle dietético e monitoramento clínico e  laboratorial (ETTINGER; FELDMAN, 2017). 

O presente relato descreve o caso de uma cadela adulta com diagnóstico de diabetes  mellitus, destacando a evolução terapêutica, o manejo da glicemia e as complicações  observadas durante o tratamento hospitalar. 

2 RELATO DE CASO 

Foi atendida uma cadela fêmea de 12 anos de idade, sem raça definida, com 4,30 Kg  de massa corporal. A tutora informou histórico de hipofagia há aproximadamente 11 dias,  polidipsia e normouria. Na consulta inicial, observou-se hematócrito de 28%, creatinina de  1,59 mg/dL, fosfatase alcalina de 664 U/L, colesterol total de 404 mg/dL, glicosúria 3+ e  glicemia de 571,5 mg/dL. Baseado na anmnese e nos exames realizados o diagnóstico  presuntivo de diabetes mellitus foi estabelecido, e o tratamento inicicial incluiu insulina  regular (0,2 UI/kg, via intramuscular), ondansetrona (1 mg/kg, IV), dipirona (25 mg/kg, IM) e  fluidoterapia com solução Ringer lactato e cloreto de potássio. A fim de um melhor controle  glicêmico e suporte clínico indicou-se internação hospitalar. 

Durante o período de internação (de 10/09 a 29/09), foram realizados diversos exames  complementares, incluindo curvas glicêmicas e dosagens seriadas de beta-hidroxibutirato  (BHB). A paciente apresentou episódios de hiperglicemia persistente (valores >400 mg/dL)  nas primeiras 48 horas, seguidos de redução gradual com ajustes na insulinoterapia,  alternando a dose de insulina regular 0.2UI/Kg para 0.3UI/Kg.

Durante a internação, também foi observada elevação do beta-hidroxibutirato  plasmático, o que indicou episódios de cetoacidose diabética compensada, tratados com  fluidoterapia, reposição de eletrólitos e ajustes na dose de insulina. 

Após 8 dias de internação não obtendo estabilização clínica realizou-se o pedido de  ultrassonografia abdominal completa. O exame revelou aumento de cornos uterinos com  conteúdo intraluminal, sugerindo piometra, uma complicação frequente em cadelas com  diabetes mellitus, devido à influência dos hormônios sexuais sobre a resistência à insulina no  qual o tratamento condiz no procedimento de ovariohisterectomia terapêutica (OHE).  

O procedimento cirúrgico foi realizado no dia 27/09, sem intercorrências anestésicas, e  o pós-operatório transcorreu com recuperação gradual e controle glicêmico satisfatório. A paciente apresentava também membro pélvico esquerdo com dor e contratura  muscular, sendo solicitada avaliação ortopédica. Exames complementares revelaram doença  periodontal severa e sinais compatíveis com esclerose senil ocular. 

No decorrer do tratamento, foi observada normorexia progressiva, hidratação  adequada, e resposta satisfatória à insulina regular, sendo posteriormente iniciada a insulina  NPH (0,5 a 1 UI/kg, SC) conforme estabilização do apetite. 

Após estabilização clínica e laboratorial, a paciente recebeu alta com prescrição de  insulina NPH, dieta específica para cães diabéticos e recomendações para acompanhamento  periódico com equipe endocrinológica. 

3 DISCUSSÃO  

O caso relatado evidencia a complexidade do manejo clínico do diabetes mellitus em  cães geriátricos, especialmente quando associado a comorbidades, como infecções uterinas e  doenças periodontais, que podem agravar o quadro hiperglicêmico. 

Segundo Reusch (2010), a cetoacidose diabética é uma complicação potencialmente  fatal, caracterizada pela elevação dos corpos cetônicos e acidose metabólica, exigindo  correção intensiva com fluidos e insulina de ação rápida. O protocolo utilizado no caso — fluidoterapia com Ringer lactato e suplementação de potássio, associada à insulina regular — mostrou-se eficaz no controle da hiperglicemia inicial. 

A substituição gradual da insulina regular por NPH após estabilização clínica é  conduta recomendada para manutenção a longo prazo (NELSON; COUTO, 2015). Além  disso, o suporte nutricional com dietas próprias para diabéticos ricas em fibras e de baixo  índice glicêmico é fundamental para evitar flutuações glicêmicas e promover qualidade de  vida (ETTINGER; FELDMAN, 2017).

O diagnóstico de piometra representa uma complicação frequente em cadelas inteiras  com diabetes mellitus sendo a ovariohisterectomia considerada como tratamento de escolha,  contribuindo para a estabilização metabólica e redução da necessidade insulínica  (FELDMAN; NELSON, 2015). 

O acompanhamento multidisciplinar envolvendo clínico, endocrinologista e cirurgião  foi essencial para o sucesso terapêutico e controle da doença a longo prazo. 

4 CONCLUSÃO 

O presente relato ressalta a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento  intensivo no manejo de cães com diabetes mellitus. O controle rigoroso da glicemia, o  monitoramento de corpos cetônicos e a correção de comorbidades, como infecções uterinas e  doenças orais, são determinantes para o prognóstico favorável. A adesão do tutor e a educação  sobre o tratamento domiciliar são igualmente fundamentais para a manutenção da estabilidade  metabólica e qualidade de vida do paciente diabético. 

REFERÊNCIAS 

SENGE, Peter, et al. Escolas que aprendem: um guia da Quinta Disciplina para educadores,  pais e todos que se interessam pela educação. Porto Alegre: Artmed, 2005. 

ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de Medicina Interna Veterinária: Doenças do  Cão e do Gato. 8. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017. 

FELDMAN, E. C.; NELSON, R. W. Canine and Feline Endocrinology. 4. ed. St. Louis:  Elsevier Saunders, 2015. 

NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina Interna de Pequenos Animais. 5. ed. Rio de  Janeiro: Elsevier, 2015. 

REUSCH, C. E. Diabetes mellitus in dogs and cats. Veterinary Clinics of North America:  Small Animal Practice, v. 40, n. 2, p. 297–308, 2010.


1Discente do Curso Superior de clínica médica de cães e gatos do Instituto Anclivepa – SP