DESAFIOS DA ATUAÇÃO DE ENFERMAGEM NA REABILITAÇÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512040517


Wuellison da Silva Guedes1
Orientadora: Jamilly Karoliny da Silva Miranda2


Resumo: Contextualização: Refere-se ao relato de experiência de um acadêmico de enfermagem do 7° semestre, dentro do estágio extracurricular no centro de referência especializado em reabilitação física e auditiva doutora Socorro Gabriel (CER II), no município de Bragança no estado do Pará. Processo de Intervenção/acompanhamento: Foi realizado a análise, observação e descrição direta da prática do serviço de enfermagem com pessoas com deficiência inseridas na reabilitação.  Análise Crítica da Prática: O enfermeiro é um profissional de extrema importância no processo de reabilitação da pessoa com deficiência, entretanto, encontra inúmeros percalços para sua atuação dentro do centro de reabilitação. Síntese das considerações: Na assistência terapêutica, destaca-se a variedade de enfoques, dinâmicas e funções do cuidado prestado pelo enfermeiro. É essencial que o serviço de enfermagem na área de reabilitação, obtenha saberes por meio de iniciativas educativas e capacitações, aprimorando suas habilidades, para melhor intervir dentro desse contexto.

Palavras-chave: Atuação da enfermagem. Reabilitação biopsicossocial. Pessoas com deficiência. 

1. Contextualização 

Refere-se ao relato de experiência de um acadêmico do curso de bacharelado em enfermagem, do Centro Universitário Planalto do Distrito Federal (UNIPLAN), campus Bragança, no estado do Pará, no centro de referência especializado em reabilitação física e auditiva, doutora Socorro Gabriel (CER II), dentro do setor de enfermagem.

2. Processo de intervenção 

Foi realizada a análise da prática do serviço de enfermagem, na intervenção de pessoas com deficiência (PCDs), dentro do centro especializado em reabilitação tipo 2 (reabilitação física e auditiva), no qual, o acadêmico de enfermagem acompanhou de forma direta todo o processo de intervenção da equipe de enfermagem, incluindo visita domiciliar da enfermeira juntos aos profissionais da equipe multiprofissional. O discente de enfermagem fez registro em diário de campo da análise da prática dos profissionais de enfermagem, durante o mês de abril de 2025, pelo turno da manhã, totalizando um (1) mês de inserção no campo de prática, com supervisão clínica da enfermeira da equipe do CER II. 

O atendimento/intervenção em pessoas com deficiência, foi o principal foco de análise desse trabalho. Pessoa com deficiência, segundo a lei brasileira, é aquela que possui impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, que, em interação com barreiras, pode dificultar sua participação plena e efetiva na sociedade, em igualdade de condições com os demais. Essa definição está contida na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, no Art. 2º. No processo interventivo da equipe de enfermagem dentro do CER II, é realizada a triagem, consulta de enfermagem, auxílio aos profissionais da equipe nos manejos clínicos em pacientes, monitoramento e avaliação da evolução clínica dos pacientes, visita domiciliar com equipe visando incluir pessoas com mobilidade reduzida e outros contextos adoecedores, estudo de caso com a equipe multiprofissional, educação permanente em saúde com usuários do serviço, prescrição de cuidados de enfermagem voltados à saúde do indivíduo. 

O serviço de enfermagem, é regulado pelo sistema de regulação municipal. Os serviços de reabilitação utilizam como principal forma de acesso a relação entre o número de usuários em fila de espera e a quantidade de vagas disponíveis. Embora não forneça uma estimativa geral do tempo necessário para atender à demanda existente, e não considerar as especificidades dos diferentes níveis de complexidade da atenção. O sistema de regulação tende a ajustar automaticamente a prioridade com base no tempo de espera do usuário, o que, por vezes, desconsidera a classificação inicial realizada no momento do acolhimento, comprometendo a efetividade do processo de priorização (Matos et al., 2022). 

A enfermagem atua na prevenção de agravos e promoção da saúde com base no modelo de reabilitação do Sistema Único de Saúde. Segundo Gomes e Silva (2019), o modelo de reabilitação pautado na atenção integral à saúde foi consolidado no Brasil em 1988, a formalização desse sistema ocorreu por meio da Lei nº 8.080, de 1990, a qual estabeleceu os princípios e diretrizes do SUS, destacando a promoção, a proteção e a recuperação da saúde como fundamentos essenciais, além de regulamentar sua organização e funcionamento.

Foi realizado também visita domiciliar especializada com a equipe multiprofissional, no qual após estudo de caso feito pelos profissionais, foi escolhido (2) duas famílias, em situação de vulnerabilidade social, para promoção da reabilitação em pessoas com deficiência por meio de um atendimento multidisciplinar, visando à autonomia, independência e ao desenvolvimento integral do indivíduo, englobando assim, dimensões físicas e psicossociais do cuidado. 

3. Análise crítica da prática  

Durante o processo de análise da prática, no contexto da reabilitação, foi observado que a equipe de enfermagem ainda enfrenta desafios estruturais com relação a sua metodologia e prática de intervenção. No contexto da legislação brasileira, a reabilitação é concebida como um conjunto de ações voltadas às pessoas com deficiência, com o propósito de promover a superação de barreiras funcionais e favorecer sua inclusão social. Apesar dos avanços normativos e das diretrizes organizacionais do sistema único de saúde, os serviços de reabilitação ainda enfrentam importantes desafios, especialmente no que se refere à fragmentação da atenção e à descontinuidade do cuidado ofertado aos usuários (Mota & Bousquat; 2023).

Foi observado a falta de materiais necessários para realização da visita, e a dificuldade principalmente da enfermagem, na resolutividade dos problemas das pessoas com deficiência em questão, tanto com relação ao controle, prescrição e orientação. Essas dificuldades presentes na prática de enfermagem acabam por impactar na rede de cuidados à pessoa com deficiência. A rede de cuidados à pessoa com deficiência enfrenta diversos estudos desafios que comprometem sua efetividade. Entre eles, destacam-se a necessidade de redução das barreiras de acesso, a promoção da integração entre os diferentes componentes da rede, o estabelecimento de fluxos assistenciais bem definidos e a ampliação das condições de acessibilidade. Para que a rede, principalmente na área da reabilitação, cumpra de maneira eficaz seu papel na garantia de atenção integral, é imprescindível que haja definições claras quanto às atribuições de cada ponto de atenção primária, secundária, terciária e serviços especializados em reabilitação, bem como a ampla divulgação dessas informações à população (Mota & Bousquat; 2023). 

Esses impactos afetam diretamente o engajamento e desempenho ocupacional da pessoa com deficiência, no qual o indivíduo fica com dificuldade executar as ocupações necessárias para o seu desenvolvimento global. Segundo Campos (2022), a fragmentação da atenção à saúde revela a urgência de melhorias nas unidades de atendimento, com destaque para a superação de barreiras físicas e sociais, ainda presentes nesses espaços. Tais barreiras configuram manifestações de violência simbólica, na medida em que limitam a autonomia dos indivíduos e comprometem o pleno exercício de seus direitos. A promoção da acessibilidade física e arquitetônica nos serviços de reabilitação representa um fator fundamental para assegurar que todas as pessoas, independentemente de suas limitações funcionais, tenham acesso aos cuidados de saúde de forma segura, digna e equitativa. A adequação das estruturas físicas, a disponibilidade de equipamentos e tecnologias assistivas, a eliminação de barreiras arquitetônicas e a criação de ambientes inclusivos são medidas indispensáveis para a efetivação do direito à saúde e para a garantia de equidade no acesso aos serviços de reabilitação física (Farias et al., 2023).

A capacitação e a educação continuada dos profissionais de enfermagem, que atuam na reabilitação física constituem elementos essenciais para a garantia da qualidade e da eficácia dos cuidados prestados. Profissionais qualificados estão mais aptos a oferecer um atendimento seguro, resolutivo e centrado nas necessidades dos usuários, o que contribui significativamente para melhores desfechos na reabilitação e para o aumento da satisfação dos pacientes. Além disso, a formação interdisciplinar e a atuação colaborativa entre diferentes categorias profissionais, enriquece as práticas de cuidado, permitindo uma abordagem mais integral e sensível à complexidade das demandas dos usuários (Farias et al., 2023).

A falta de integração entre os diversos pontos de atenção à saúde e a fragmentação dos serviços constituem obstáculos significativos à efetiva prestação da assistência de enfermagem. A ausência de uma abordagem especifica, compromete a efetividade dos tratamentos, limitando os resultados terapêuticos e afetando negativamente a experiência dos usuários. A desarticulação entre os profissionais, envolvidos no cuidado dificulta a continuidade e a coordenação das ações, elementos fundamentais para a qualidade da reabilitação e para a satisfação dos pacientes (Mota & Bousquat; 2023).

4. Síntese das considerações

 A intervenção de enfermagem especializada ainda não é uma realidade do centro especializado. Diante disso, é necessário desenvolver protocolos com evidências cientificas que auxiliem na intervenção das diferentes demandas do serviço, prestando assistência de um atendimento mais qualificado, considerando que o acesso e a inclusão é a base da reabilitação.

5. Referências 

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 152, n. 127, p. 2, 7 jul. 2015.

CAMPOS, G. W. D. S. Reforma sanitária e o Sistema Único de Saúde (SUS). Ciência & Saúde Coletiva, 27, p. 2516-2516, 2022.

FARIAS, T. M. O.; ALBUQUERQUE, M. S. V.; OLIVEIRA, R. S.; LYRA, T. M.; MIRANDA, G. M. D.; OLIVEIRA, P. R. O estreito acesso das Pessoas com Deficiência aos serviços de saúde em uma capital nordestina. Ciência & Saúde Coletiva, [S.L.], v. 28, n. 5, p. 1539-1548, maio 2023. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1413- 81232023285.15172022.

GOMES, A.; SILVA, C. Tipos de Reabilitação: Uma Revisão Sistemática da Literatura. Revista Brasileira de Fisioterapia, v. 25, n. 3, p. 321-336, 2019.

MATOS, C. R.; COSTA, C. E.; SANTOS, A. S.; OLIVEIRA, M. M.; SALGADO, J. V. V. Indicadores de acesso nos serviços de reabilitação física das desordens musculoesqueléticas em Belo Horizonte (MG). Fisioterapia e Pesquisa, Belo Horizonte, v. 29, n. 4, p. 436-441, out. 2022. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1809-2950/21029029042022pt.

MOTA, P. H. S.; BOUSQUAT, A. Desafios para a implementação da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência em uma região de saúde: um olhar a partir das dimensões política, organização e estrutura. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 1-15, ago. 2023. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0104-12902023220608pt.


1Graduando do curso de Enfermagem. E-mail: wuellisoguedes@gmail.com
2Enfermeira graduada pela Universidade da Amazônia. Docente na UNIPLAN/Pará. E-mail: jamillymiranda854@gmail.com