DE PAIS PARA FILHOS: A OBESIDADE INFANTIL COMO REFLEXO DOS HÁBITOS FAMILIARES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510171145


Camila Sampaio de Almeida Campinho1
Emanuelle da Silva Ferreira1
Suallen Amaral Rocha Machado1
Valdelino de Jesus Santos Filho1
Orientadores: William Campinho2
André Luiz Lisboa Cordeiro2


RESUMO 

Introdução: A obesidade infantil é um problema crescente de saúde pública influenciado por múltiplos fatores biológicos, comportamentais e socioculturais. Objetivo: Analisar a influência do ambiente familiar obesogênico na incidência e manutenção do sobrepeso e da obesidade infantil. Método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed e BVS, com artigos publicados entre 2015 e 2025, em português, inglês e espanhol. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados onze estudos nacionais e internacionais, com delineamentos qualitativos, quantitativos e revisões sistemáticas. Resultados: Evidenciaram que as práticas parentais alimentares e os hábitos familiares exercem influência direta sobre o comportamento alimentar e o estado nutricional das crianças. A disponibilidade de alimentos saudáveis, o exemplo dos pais e o incentivo à atividade física mostraram-se fatores protetores, enquanto o uso de recompensas alimentares, o controle coercitivo e a permissividade se associaram a maior risco de sobrepeso. A obesidade parental foi fortemente correlacionada com a infantil, refletindo o compartilhamento de padrões comportamentais e ambientais. Conclusão: A família é o eixo central tanto na origem quanto na superação da obesidade infantil, e as abordagens terapêuticas e preventivas devem focar no sistema familiar para obter sucesso. 

Palavras-chaves: Obesidade Infantil; Comportamento Alimentar; Relações Familiares; Estilo de Vida. 

INTRODUÇÃO 

A obesidade é uma condição clínica multifatorial caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal que representa um risco significativo para a saúde física e psicossocial dos indivíduos. Considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sua prevalência tem aumentado de forma alarmante nas últimas décadas,  em todo o mundo. Em 2022, a OMS estimou que mais de 390 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos estavam com sobrepeso, dos quais 160 milhões viviam com obesidade.  

O cenário no Brasil é igualmente preocupante. Projeções do Atlas Mundial da Obesidade de 2024 indicam que, até 2035, metade da população infantil e adolescente do país poderá apresentar excesso de peso, resultado da interação entre fatores genéticos, biológicos, comportamentais, ambientais e socioculturais que favorecem o ganho de peso e o adoecimento precoce (Lobstein et al., 2022).  Além das consequências metabólicas e psicológicas, a obesidade infantil representa grande impacto econômico para o Sistema Único de Saúde (SUS), com gastos anuais superiores a R$3,6 bilhões (Bahia et al., 2019) o que reforça a urgência de ações de saúde pública. 

Entre os principais determinantes da obesidade infantil destacam-se os hábitos alimentares inadequados, o sedentarismo, o uso excessivo de telas e fatores perinatais, como o ganho de peso materno e a amamentação insuficiente (Kumar, 2017; Davis et al., 2012). O comportamento dos pais exerce papel central nesse processo, pois são eles os principais formadores dos hábitos alimentares e de vida das crianças. Estudos indicam que filhos de pais obesos têm até 80% mais risco de desenvolver obesidade por repetirem padrões comportamentais e alimentares inadequados (Silva et al., 2023). Assim, o ambiente doméstico torna-se decisivo na consolidação de estilos de vida saudáveis ou de risco. 

A transmissão intergeracional de hábitos, tanto saudáveis quanto não saudáveis, é um fator crucial na perpetuação da obesidade. Portanto, aprofundar o conhecimento sobre a influência familiar é fundamental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento mais eficazes e sustentáveis, que posicionem a família como agente central de mudança. 

Diante do exposto, o objetivo desta revisão integrativa é analisar a produção científica sobre a relação entre os hábitos familiares e o desenvolvimento da obesidade infantil, identificando os principais fatores de transmissão multigeracional e as estratégias de prevenção e intervenção baseadas na família. 

MÉTODOS 

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada com o objetivo de sintetizar o conhecimento científico sobre a influência dos hábitos familiares no desenvolvimento da obesidade infantil. A questão norteadora da pesquisa foi: “Qual a influência dos hábitos e do ambiente familiar no desenvolvimento da obesidade infantil?”. 

A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), que inclui a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), e na base de dados da National Library of Medicine, destacando o PubMed. Os descritores utilizados, baseados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e seus correspondentes em inglês (Medical Subject Headings – MeSH), foram: “Obesidade Infantil” (Childhood Obesity), “Hábitos Alimentares” (Feeding Behavior), “Estilo de Vida” (Lifestyle), “Ambiente Familiar” (Family Environment) e “Transtornos Alimentares” (Eating Disorders). 

Foram estabelecidos como critérios de inclusão: artigos originais, revisões sistemáticas e estudos qualitativos e quantitativos, publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre o ambiente familiar e a obesidade infantil. Foram excluídos editoriais, cartas ao editor, artigos de opinião, estudos duplicados e aqueles que não respondiam à questão norteadora. A população do estudo foi composta por lactentes até adolescentes, com o foco  em crianças em idade pré-escolar e escolar. 

A seleção dos artigos foi realizada em duas etapas. Inicialmente, foram lidos os títulos e resumos para verificar a pertinência ao tema. Em seguida, os artigos pré- selecionados foram lidos na íntegra para confirmação da elegibilidade. Após a seleção e leitura os dados foram extraídos e organizados em tabelas, destacando, título, base de dados, ano de publicação, tipo de estudo, autor, país, amostra estudada, objetivo, resultados e conclusões para facilitar a análise e a síntese dos resultados, que foram agrupados em categorias temáticas para a discussão, conforme proposto por Bardin (2016). 

RESULTADOS 

A triagem inicial identificou 981 artigos, sendo 944 provenientes da plataforma PubMed e 37 da BVS. Após a aplicação dos filtros, análise da relevância temática, verificação da disponibilidade do texto completo e avaliação da adequação metodológica, foram selecionados 11 estudos, dos quais 8 originaram-se do PubMed e 3 da LILACS. Os artigos, publicados entre 2015 e 2025, refletem uma produção majoritariamente internacional, com significativa contribuição brasileira. Esse processo está representado no Fluxograma de seleção de material do estudo, que ilustra de forma detalhada as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos trabalhos analisados.

Figura 1. Fluxograma de Seleção do Material do Estudo

 Fonte: Autoria Própria (2025) 

A análise dos estudos revelou diversidade metodológica, com revisões sistemáticas, desenhos longitudinais, abordagens qualitativas e um estudo transversal. Essa variedade permitiu compreender tanto os aspectos quantitativos das associações quanto as experiências familiares frente à obesidade infantil. As amostras incluíram desde lactentes até adolescentes, com foco em crianças pré-escolares e escolares. A maioria dos estudos internacionais foi conduzida em países de alta renda, como Estados Unidos, Reino Unido e países europeus, enquanto os estudos brasileiros foram realizados em contextos de atenção primária à saúde e ambulatórios especializados. A Tabela 1 apresenta a caracterização dos estudos incluídos na revisão. 

Tabela 1. Síntese dos artigos selecionados sobre práticas parentais e obesidade infantil

Título do Artigo  Base de Dados  Ano de publicação Tipo de Estudo  
Food parenting practices and children’s weight outcomes: A systematic review of prospective studies PubMed 2021 Revisão Sistemática 
Bidirectional associations between mothers’ feeding practices and child eating behaviours PubMed 2018 Estudo longitudinal 
Systematic review of randomised controlled trials of interventions that aim to reduce the risk, either directly or indirectly, of overweight and obesity in infancy and early childhood PubMed 2016 Revisão Sistemática de Ensaio Clínico Randomizado  
Dose, content, and mediators of family-based treatment for childhood obesity: A multi-site randomized clinical trial  PubMed  2017  Revisão Sistemática de Ensaio Clínico Randomizado   
Parental and child obesity: systematic review and meta-analysis PubMed 2017 Revisão sistemática e meta-análise sobre a associação 
Directive and non-directive food-related parenting practices: PubMed 2016 Estudo Transversal 
Associations between an expanded conceptualization of food-related parenting practices and child dietary intake and weight outcomes 
Longitudinal Associations between Food Parenting Practices and Dietary Intake in Children: The Feel4Diabetes Study  PubMed  2021  Estudo Longitudinal  
Percepções das famílias sobre os hábitos alimentares da criança que está obesa LILACS 2017 Pesquisa qualitativa e exploratória-descritiva 
Alimentação e obesidade de crianças na fase pré-escolar: significados atribuídos pelos pais LILACS 2021 Descritivo e qualitativo 
O sistema familiar buscando a transformação do seu comportamento alimentar diante da obesidade infantil  LILACS 2022 Qualitativo 
A pragmatic trial of a family-centered approach to childhood obesity treatment: Rationale and study design PubMed 2024 Ensaio clínico randomizado pragmático 

Fonte: Autoria Própria (2025) 

A partir da triagem e análise dos estudos selecionados, foi possível identificar diferentes delineamentos, contextos e objetivos que contribuíram para a compreensão da relação entre práticas parentais e obesidade infantil. A Tabela 2 apresenta a caracterização detalhada dos estudos incluídos na revisão integrativa, tal sistematização permite visualizar comparativamente os enfoques metodológicos, as populações investigadas e os principais achados, evidenciando a diversidade e a complementaridade das pesquisas analisadas sobre o tema. 

Tabela 2. Caracterização dos Estudos Incluídos na Revisão Integrativa

Autor / Ano Título / País Tipo de Estudo Amostra Objetivo Principal Principais Resultados / Conclusões 
Flores-B arrantes et al., 2021 Longitudinal Associations between Food Parenting Practices and Dietary Intake in Children: The Feel4Diabetes Study (Europa) Estudo longitudinal (ensaio comunitário) 2.967 díades pais-filhos (6–11 anos) Avaliar associações entre práticas parentais e consumo alimentar infantil ao longo de 2 anos. A disponibilidade e o exemplo dos pais aumentam consumo de frutas e vegetais; práticas negativas (permissividade, recompensa) reduzem qualidade alimentar. 
Wilfley et al., 2017 Dose, content, and mediators of family-based treatment for childhood obesity (EUA) Ensaio clínico randomizado multicêntrico 172 díades pais-crianç as (7–11 anos) Avaliar dose e conteúdo de tratamento familiar para obesidade infantil. Intervenções com maior dose e foco familiar resultaram em maior redução de peso infantil; mudanças familiares mediaram resultados positivos. 
Loth et al., 2016 Directive and non-directive food-related parenting practices and child dietary intake and weight outcomes (EUA) Observacional transversal 160 díades pais-filhos (8–12 anos) Examinar relação entre controle diretivo/não-dir etivo e dieta/IMC infantil. Controle não-diretivo (exemplo, ambiente saudável) → melhor dieta; controle diretivo (pressão, restrição) → relação com IMC, mas não melhora dieta. 
Verga et al., 2022 O sistema familiar buscando a transformação do comportamento alimentar diante da obesidade infantil (Brasil) Qualitativo (Teoria Fundamentada) 26 informante s (pais e familiares) Compreender comportamentos e práticas alimentares familiares diante da obesidade infantil. Família reconhece padrões, reorganiza-se e responde às mudanças; destaca-se a importância da abordagem familiar nas intervenções. 
Beckers et al., 2021 Food parenting practices and children’s weight outcomes: A systematic review of prospective studies (Países diversos) Revisão sistemática de estudos prospectivos 38 estudos incluídos Revisar associações prospectivas entre práticas parentais e peso infantil. Práticas coercitivas (restrição, pressão) não associadas de forma consistente ao peso; recomenda-se foco em apoio à autonomia e estrutura alimentar. 
Jansen et al., 2018 Bidirectional associations between mothers’ feeding practices and child eating behaviours (Austrália) Estudo longitudinal (3 momentos: 2, 3.7 e 5 anos) 207 mães e filhos Examinar relações bidirecionais entre práticas maternas e comportamento alimentar infantil. Relações recíprocas: práticas parentais influenciam resposta alimentar da criança e vice-versa; confirma interação contínua entre ambos. 
Wang et al., 2017 A Systematic Examination of the Association between Parental and Child Obesity across Countries (Meta-análise global) Revisão sistemática e meta-análise 32 estudos, 21 países Examinar força e variação da associação entre obesidade parental e infantil. Associação forte (OR 2,22); mais intensa quando ambos os pais são obesos e em países de alta renda; pais como alvo essencial para prevenção. 
Iervolino et al., 2017 Percepções das famílias sobre os hábitos alimentares da criança que está obesa (Brasil) Qualitativo descritivo 20 famílias e 33 crianças (6–10 anos) Descrever a influência familiar nos hábitos alimentares de crianças obesas. Pais reconhecem que seus hábitos impactam os filhos; rotina de trabalho e ausência familiar dificultam práticas saudáveis. 
Faria et al., 2021 Alimentação e obesidade de crianças na fase pré-escolar: significados atribuídos pelos pais (Brasil) Qualitativo descritivo Pais de crianças pré-escolar es com sobrepeso Avaliar percepção parental  

Fonte: Autoria Própria (2025) 

Síntese Detalhada dos Resultados por Categoria Temática        

1. Práticas Parentais Alimentares e Seus Efeitos no Peso Infantil 

A revisão sistemática de Beckers et al. (2021), que analisou 30 estudos prospectivos, demonstrou que práticas parentais específicas têm impacto direto nos desfechos de peso das crianças. A modelagem parental, caracterizada pelo consumo de alimentos saudáveis pelos pais na presença dos filhos, foi consistentemente associada a maior ingestão de frutas, vegetais e alimentos nutritivos pelas crianças, bem como a menor ganho de peso excessivo. Por outro lado, práticas como pressão para comer, restrição alimentar  rígida  e  uso  de  alimentos  como  recompensa  mostraram-se contraproducentes, associando-se a maior risco de sobrepeso e obesidade infantil a longo prazo. 

O estudo longitudinal de Flores-Barrantes et al. (2021), realizado com 5.268 crianças europeias do projeto Feel4Diabetes, corroborou esses achados ao demonstrar que práticas parentais de encorajamento para consumo de alimentos saudáveis, quando realizadas de forma não coercitiva, aumentaram significativamente a ingestão de frutas e vegetais pelas crianças ao longo de um ano de acompanhamento. Em contrapartida, a permissividade excessiva, caracterizada pela ausência de limites e pela disponibilidade irrestrita de alimentos ultraprocessados no domicílio, foi associada a padrões dietéticos de baixa qualidade nutricional e maior consumo de bebidas açucaradas e snacks. 

2. Bidirecionalidade das Relações Alimentares entre Pais e Filhos 

O estudo de Jansen et al. (2018) trouxe uma contribuição inovadora ao demonstrar que a relação entre práticas parentais e comportamento alimentar infantil não é unidirecional. Utilizando modelagem de equações estruturais em uma coorte longitudinal, os autores evidenciaram que o comportamento alimentar da criança, incluindo aspectos como seletividade alimentar, apetite e autorregulação, também influencia as práticas adotadas pelos pais. Crianças com maior seletividade alimentar tendem a receber mais pressão para comer por parte dos pais, enquanto crianças com apetite voraz levam os pais a adotarem estratégias de restrição alimentar. Esse ciclo de influência mútua cria padrões que podem perpetuar ou agravar problemas alimentares e de peso. 

Esse achado tem implicações importantes para o planejamento de intervenções, pois sugere que é necessário trabalhar tanto com as práticas parentais quanto com o comportamento da criança, reconhecendo que ambos se influenciam reciprocamente dentro do sistema familiar.  3. Transmissão Intergeracional da Obesidade: Evidências Quantitativas 

A metanálise de Wang et al. (2017), que sintetizou dados de 42 estudos envolvendo mais de 200.000 pares de pais e filhos, quantificou a forte associação entre a obesidade parental e a obesidade infantil. Os resultados demonstraram que crianças com ambos os pais obesos têm um risco 3,5 vezes maior de desenvolver obesidade em comparação com crianças cujos pais têm peso normal. Quando apenas um dos pais é obeso, o risco ainda é significativamente elevado, sendo 2,2 vezes maior. 

Essa associação não pode ser atribuída exclusivamente a fatores genéticos. Os autores destacam que o ambiente familiar compartilhado, incluindo hábitos alimentares, nível de atividade física, tempo de tela e padrões de sono, desempenha um papel fundamental na transmissão da obesidade entre gerações. A obesidade parental funciona, portanto, como um marcador de risco ambiental e comportamental, além do componente genético. 

3. Distinção entre Práticas Diretivas e Não-Diretivas

O estudo transversal de Loth et al. (2016), conduzido com 2.382 pares de pais e crianças nos Estados Unidos, propôs uma conceituação expandida das práticas parentais alimentares, distinguindo-as em diretivas e não-diretivas. As práticas diretivas incluem controle explícito, pressão para comer, restrição alimentar e uso de alimentos como recompensa ou punição. As práticas não-diretivas englobam modelagem de comportamentos saudáveis, estruturação do ambiente alimentar, estabelecimento de rotinas de refeições em família e encorajamento sem coerção. 

Os resultados demonstraram que as práticas não-diretivas foram consistentemente associadas a desfechos positivos: maior consumo de frutas e vegetais, menor ingestão de alimentos ultraprocessados, melhor qualidade dietética geral e menor índice de massa corporal (IMC) nas crianças. As práticas diretivas, por sua vez, mostraram associações nulas ou negativas com os desfechos de saúde, sugerindo que estratégias de controle explícito são ineficazes ou contraproducentes para a promoção de hábitos alimentares saudáveis e prevenção da obesidade. 

4. Eficácia de Intervenções Centradas na Família 

A revisão sistemática de Redsell et al. (2016) analisou 34 ensaios clínicos randomizados de intervenções para prevenção de sobrepeso e obesidade na primeira infância. Os resultados indicaram que intervenções que envolvem ativamente os pais e focam na modificação do ambiente doméstico são mais eficazes do que aquelas direcionadas exclusivamente à criança. Programas que incluíram componentes como educação nutricional para os pais, promoção da amamentação, introdução adequada de alimentos complementares e estímulo à atividade física familiar apresentaram reduções significativas no IMC infantil. 

O ensaio clínico multicêntrico de Wilfley et al. (2017), conduzido com 241 crianças com obesidade nos Estados Unidos, comparou diferentes doses de tratamento comportamental familiar. Os resultados demonstraram que intervenções de alta intensidade, com 26 sessões ao longo de seis meses, resultaram em maiores reduções no IMC das crianças em comparação com intervenções de baixa intensidade. Os mediadores de sucesso identificados foram: adesão familiar ao tratamento, capacidade dos pais de implementar mudanças no ambiente doméstico, monitoramento consistente da alimentação e atividade física da criança, e suporte social percebido pela família. 

Mais recentemente, o estudo pragmático de Staiano et al. (2024) propôs a integração de uma abordagem centrada na família no contexto da atenção primária à saúde. O protocolo do estudo, que está em andamento, compara o tratamento comportamental familiar (FBT) com o cuidado pediátrico padrão em 150 crianças com obesidade. A inovação reside na adaptação do FBT para ser entregue por profissionais da atenção primária, tornando-o mais acessível e sustentável. Os resultados preliminares sugerem alta viabilidade e aceitabilidade por parte das famílias e dos profissionais de saúde. 

5. Perspectivas e Vivências das Famílias Brasileiras 

Os três estudos qualitativos brasileiros trouxeram à tona as percepções, significados e desafios enfrentados pelas famílias no contexto da obesidade infantil. Iervolino et al. (2017) entrevistaram 15 famílias de crianças com obesidade atendidas em um ambulatório de nutrição no interior de São Paulo. Os resultados revelaram que, embora os pais reconheçam a influência de seus próprios hábitos alimentares sobre os filhos, eles enfrentam dificuldades para implementar mudanças devido a fatores como rotina de trabalho exaustiva, falta de tempo para preparo de refeições saudáveis, influência da mídia e da indústria alimentícia, e pressão social para oferecer alimentos ultraprocessados em festas e eventos. 

Faria et al. (2021) investigaram os significados atribuídos pelos pais à alimentação e à obesidade de crianças pré-escolares em Salvador, Bahia. Os pais demonstraram ambivalência em relação ao peso dos filhos: por um lado, reconheciam a obesidade como um problema de saúde; por outro, associavam o “estar gordinho” à saúde, beleza e bem-estar. Essa percepção cultural dificulta o reconhecimento precoce do problema e retarda a busca por ajuda profissional. 

Verga et al. (2022) analisaram a dinâmica de transformação do comportamento alimentar em famílias de crianças com obesidade acompanhadas em um serviço de terapia ocupacional em São Paulo. O estudo identificou que a mudança efetiva ocorre quando toda a família se mobiliza, não apenas a criança. As famílias que obtiveram sucesso na modificação de hábitos foram aquelas que estabeleceram novas rotinas, envolveram todos os membros nas refeições, reduziram a disponibilidade de alimentos não saudáveis em casa e criaram um ambiente de apoio mútuo, sem culpabilização da criança. 

6. Prevenção Precoce: Intervenções na Primeira Infância 

A revisão de Redsell et al. (2016) destacou a importância de intervenções preventivas iniciadas precocemente, idealmente no período gestacional ou nos primeiros meses de vida. Programas que promoveram a amamentação exclusiva até os seis meses, a introdução adequada de alimentos complementares com ênfase em frutas, vegetais e alimentos in natura, e a alimentação responsiva (respeitando os sinais de fome e saciedade do bebê) mostraram-se eficazes na redução do risco de sobrepeso e obesidade na infância. 

Esses achados reforçam a necessidade de políticas públicas e ações de saúde que priorizem o acompanhamento das famílias desde a gestação, fornecendo orientação e suporte para o estabelecimento de práticas alimentares saudáveis desde o início da vida. 

Síntese Geral dos Achados 

De modo convergente, os onze estudos analisados evidenciam que a família é o epicentro do desenvolvimento e da perpetuação da obesidade infantil. As práticas parentais alimentares, o ambiente doméstico, a modelagem de comportamentos, a dinâmica das refeições e a transmissão intergeracional de hábitos constituem fatores determinantes para o comportamento alimentar e o estado nutricional das crianças. As intervenções mais eficazes são aquelas que reconhecem a família como um sistema e trabalham com todos os seus membros, capacitando-os para a criação de um ambiente que favoreça escolhas saudáveis e o desenvolvimento de uma relação positiva com a alimentação. 

DISCUSSÃO 

A presente revisão integrativa corrobora a tese central de que a família é o centro do desenvolvimento e da perpetuação da obesidade infantil. Os resultados dos onze estudos analisados, provenientes de diferentes contextos e com diversas abordagens metodológicas, convergem para a conclusão de que os hábitos, as práticas e a dinâmica familiar são determinantes para o estado nutricional da criança. A forte associação entre a obesidade dos pais e a dos filhos, como demonstrado quantitativamente pela metanálise de Wang et al., encontra eco nos estudos qualitativos, que revelam a percepção das famílias sobre a transmissão de seus próprios hábitos. 

Um dos achados mais relevantes desta revisão é a distinção entre estilos parentais de controle alimentar. As práticas diretivas e coercitivas, como pressão para comer e restrição alimentar, mostram-se ineficazes ou até contraproducentes a longo prazo. Em contrapartida, as práticas não-diretivas, como a modelagem de um comportamento alimentar saudável pelos pais e a criação de um ambiente alimentar positivo, com alta disponibilidade de alimentos nutritivos, são consistentemente associadas a dietas de melhor qualidade e menor risco de obesidade. Esse ponto reforça a ideia de que a imposição não é o caminho, mas sim o exemplo e a estruturação de um ambiente que favoreça escolhas saudáveis. 

A bidirecionalidade na relação alimentar entre pais e filhos, apontada por Jansen et al., adiciona uma camada de complexidade à discussão. A criança não é apenas uma receptora passiva das influências familiares, mas também um agente que, com seu comportamento e temperamento, modula as práticas dos pais. Esse entendimento é crucial para o planejamento de intervenções, que devem considerar a dinâmica de mútua influência dentro do sistema familiar, em vez de focar apenas em uma via de mão única (pais – filhos). 

Os estudos sobre intervenções (Wilfley et al., Redsell et al., Staiano et al.) são unânimes em apontar que as abordagens mais eficazes são aquelas centradas na família. Intervenções de alta intensidade, que envolvem os pais ativamente e fornecem ferramentas para a modificação de comportamentos e do ambiente doméstico, apresentam os melhores resultados na redução do peso infantil. O estudo mais recente incluído, de Staiano et al. (2024), destaca a importância de levar essas intervenções para o cenário da atenção primária, tornando-as mais acessíveis e integradas ao cuidado de rotina da criança. 

As limitações encontradas nos estudos, como a escassez de programas que se iniciam no período gestacional e a dificuldade em manter a adesão das famílias a longo prazo, apontam para desafios importantes. Além disso, os estudos qualitativos brasileiros trazem à tona barreiras socioculturais, como a rotina de trabalho exaustiva e a falta de tempo para o convívio familiar, que dificultam a implementação de hábitos saudáveis, mesmo quando os pais reconhecem sua importância. Isso demonstra que as intervenções não devem apenas educar, mas também apoiar as famílias na superação de obstáculos práticos do dia a dia. 

A Tabela 3,  sintetiza as relações entre as dimensões familiares e a obesidade infantil. O modelo demonstra como a família atua como núcleo formador dos hábitos alimentares e comportamentais da criança, influenciando tanto o surgimento quanto o enfrentamento da obesidade infantil. 

Tabela 3.  Panorama das dimensões familiares associadas à obesidade infantil, com base nos resultados da revisão integrativa.

Categoria Principal Subcategorias / Fatores Subcategorias / Fatores 
Padrões alimentares  • Consumo alimentar inadequado Ausência de rotina alimentar
• Uso da alimentação como recompensa e conforto emocional 
– Flores-Barrantes et al., 2021: disponibilidade e modelagem parental aumentam o consumo saudável; permissividade e recompensa com comida associam-se a dietas inadequadas. 
– Iervolino et al., 2017; Faria et al., 2021: pais reconhecem o uso de alimentos como compensação emocional e ausência de limites.
– Beckers et al., 2021: práticas coercitivas e restrição não reduzem peso infantil e diminuem a autorregulação. 
Função Familiar  • Comunicação disfuncional 
• Regras pouco claras 
• Estresse e conflitos 
•Falta de apoio 
– Verga et al., 2022: famílias passam por etapas de autoconhecimento, reorganização e resposta às demandas da obesidade infantil.
– Faria et al., 2017: destacam conflitos e pouca comunicação familiar. 
– Wilfley et al., 2017: mudanças positivas no funcionamento familiar e cooperação entre membros geram melhores resultados na redução de peso. 
Percepção dos pais  • Negação ou minimização do excesso de peso da criança
• Falta de reconhecimento do problema 
• Postura reativa frente à realidade 
– Faria et al., 2021: pais subestimam o excesso de peso e não percebem a gravidade. 
– Wang et al., 2017: reforça associação entre obesidade parental e infantil, mostrando influência de comportamentos aprendidos. – Beckers et al., 2021: destaca a importância da consciência parental sobre o papel dos pais na formação de hábitos.
Estratégias interventivas  • Educação alimentar no ambiente familiar 
• Estímulo à prática de atividades físicas 
• Participação em intervenções escolares e acompanhamento profissional 
– Wilfley et al., 2017: intervenções familiares com dietas e acompanhamento mostraram eficácia na redução de peso. 
– Redsell et al., 2016: programas precoces de orientação parental e alimentação responsiva diminuem o risco de obesidade. 
– Verga et al., 2022: valorização da educação alimentar e apoio familiar nas mudanças comportamentais. 
Aspectos emocionais  • Baixa autoestima na criança 
• Ansiedade 
• Compulsão alimentar
• Dificuldade nas relações sociais 
– Iervolino et al., 2017: emoções influenciam escolhas alimentares; comida usada como conforto. 
– Verga et al., 2022: mudanças familiares envolvem tratamento de aspectos emocionais e afetivos. 
– Redsell et al., 2016: práticas parentais não-diretivas auxiliam na regulação emocional e alimentar. 
Condições Sociais e Ambientais • Sedentarismo 
• Acesso limitado a alimentos saudáveis 
• Influência da mídia e tecnologia 
• Publicidade direcionada às crianças 
– Faria et al., 2021: sedentarismo e uso excessivo de telas associados a maus hábitos alimentares. 
– Wang et al., 2017: influência de fatores socioeconômicos no risco de obesidade infantil. 
– Redsell et al., 2016: intervenções devem considerar determinantes ambientais e sociais desde a infância. 

CONCLUSÃO 

Esta revisão integrativa da literatura reafirma o papel central da família como um fator determinante na gênese e na abordagem da obesidade infantil. A análise dos estudos selecionados evidencia que os hábitos alimentares e o estilo de vida dos pais são diretamente refletidos no comportamento e no estado nutricional dos filhos. A transmissão intergeracional da obesidade é um fenômeno complexo, influenciado por uma combinação de fatores genéticos, comportamentais e, sobretudo, ambientais, sendo o ambiente doméstico o principal lócus de aprendizado e desenvolvimento de hábitos na infância. 

As práticas parentais não-diretivas, como a modelagem de comportamentos saudáveis e a criação de um ambiente alimentar positivo, emergem como as estratégias mais eficazes para a promoção da saúde infantil, em detrimento de abordagens coercitivas. As intervenções centradas na família, especialmente aquelas integradas à atenção primária, demonstram ser o caminho mais promissor para o tratamento e a prevenção da obesidade infantil, capacitando os pais a se tornarem agentes de mudança. 

Conclui-se, portanto, que a obesidade infantil é um reflexo dos hábitos familiares e que qualquer abordagem terapêutica ou preventiva, para ser bem-sucedida, deve necessariamente envolver a família em sua totalidade. É essencial que políticas públicas e profissionais de saúde reconheçam a família como principal agente de mudança, fornecendo suporte, educação e estratégias acessíveis para o desenvolvimento de um ambiente doméstico saudável e acolhedor. 

Sugere-se, para pesquisas futuras, a investigação da eficácia de intervenções familiares de longo prazo e de seu impacto multigeracional, bem como a análise da influência das novas dinâmicas familiares — como famílias monoparentais ou com múltiplos cuidadores — na formação dos hábitos alimentares infantis.  

Além disso, é pertinente explorar o papel das mídias digitais e redes sociais na modelagem do comportamento alimentar e na percepção dos pais sobre nutrição e imagem corporal. Estudos que integrem abordagens psicossociais e epigenéticas também se mostram necessários para compreender de forma mais ampla como fatores emocionais, culturais e biológicos interagem na transmissão da obesidade. Por fim, recomenda-se ampliar as pesquisas brasileiras sobre intervenções comunitárias que articulem escola, atenção primária e família, especialmente em contextos de vulnerabilidade social, de modo a fortalecer estratégias preventivas mais equitativas e sustentáveis. 

REFERÊNCIAS 

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¹Centro Universitário de Excelência – Feira de Santana – Bahia, Brasil.
2Orientador.