DA “MENINA DA ROÇA” À MÉDICA DE FAMÍLIA E COMUNIDADE: UMA ESCRITA DE SI ENTRE DORES, PERTENCIMENTO E CONQUISTAS

FROM A GIRL OF THE COUNTRYSIDE TO A FAMILY AND COMMUNITY PHYSICIAN: A SELF-WRITING BETWEEN PAIN, BELONGING, AND ACHIEVEMENTS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511252029


Aline da Silva Santos1
Marcio Costa de Souza2
João André Santos de Oliveira3


Resumo

Este artigo apresenta uma escrita de si orientada pela autobiografia, narrando a trajetória formativa de uma mulher nascida na zona rural de Mutuípe, no Vale do Jiquiriçá, Bahia; cuja infância foi marcada por vínculos comunitários, trabalho rural e, aos 5 anos, pela perda do pai por suicídio. Esse acontecimento-limite desencadeou a migração da família para a cidade, a assunção de responsabilidades precoces e a centralidade dos estudos como possibilidade de futuro. A “menina da roça”, frequentemente atravessada por estigmas territoriais e desigualdades sociais, encontra na escola pública um território de resistência, de onde emerge o desejo de transformar dor em potência e de construir novos caminhos por meio da educação. Com abordagem qualitativa, o estudo utiliza memórias reconstruídas, registros reflexivos e fragmentos de uma dissertação cartográfica em elaboração, analisados hermeneuticamente. A escrita de si é tratada como dispositivo de elaboração subjetiva e produção de conhecimento, inspirada na cartografia existencial, na micropolítica do cuidado e nas pesquisas (auto)biográficas. Os resultados organizam-se em três eixos: da roça à cidade, luto, deslocamento e escolarização como forças formativas; pertencimento, estigma e identidade a ressignificação do ser “menina da roça”; estudo, resistência e narrativa de si, a escrita como gesto de reinvenção. Conclui-se que luto, território e afetos constituem itinerários formativos singulares, nos quais a autobiografia opera como prática ética, política e poética de resistência. A trajetória narrada revela que transformar-se é também elaborar dores, afirmar pertencimentos e reinventar modos de existir.

Palavras-chave: Autobiografia, Território Sociocultural, Medicina de Família e Comunidade.

1 INTRODUÇÃO

Narrar trajetórias é também produzir conhecimento, sobretudo quando a experiência pessoal se transforma em matéria de reflexão sobre si, sobre o mundo e sobre os modos de existir. Peço licença ao orientador e ao coorientador, deste artigo e da minha dissertação de mestrado em construção, para escrever em primeira pessoa e narrar minha própria caminhada: da “menina da roça” à Médica de Família e Comunidade, entre dores, pertencimentos e conquistas.

Neste artigo, apresento meu autorrelato de formação, marcado pela infância vivida na zona rural de Mutuípe, Bahia, onde cresci filha de agricultores familiares, em meio a vínculos comunitários fortes, ao trabalho na terra e a um cotidiano simples, mas profundamente formador. Aos 5 anos, a perda abrupta do meu pai por suicídio estabeleceu um acontecimento-limite que reorganizou minha vida e abriu um percurso de deslocamentos, responsabilidades precoces e busca incansável por estudo, cuidado e proteção. Esta narrativa se inscreve no campo das pesquisas (auto)biográficas, que reconhecem a escrita de si como ferramenta de elaboração, reinvenção e produção de sentido (BOLÍVAR; DOMINGO; FERNÁNDEZ, 2001; PASSEGGI, 2011; SOUZA, 2019). Nesse horizonte, a memória deixa de ser mero registro para se tornar gesto epistemológico; ao narrar minha história, reconstruo-me, interpreto-me e redefino meus lugares de pertencimento.

A expressão “menina da roça”, que dá nome a este estudo, carrega também marcas de estigma. No ambiente urbano e escolar, ouvi muitas vezes esse termo de forma pejorativa, como se vir da zona rural significasse estar condenada à invisibilidade social ou à impossibilidade de trilhar caminhos acadêmicos. Para mim, porém, o termo sempre significou o contrário: nomeia minha origem, minha identidade e minha força. Andrade (2025), ao refletir igualmente sobre sua experiência vinda da roça, afirma que “o lugar é o meu canto, minha casa, o espaço onde encontro refúgio e sentido”. A roça sempre foi e continua sendo esse lugar para mim. É ali que estão minhas raízes, a plantação de cacau, a escola pequena, a comunidade rural que moldou minha sensibilidade, minha ética afetiva e o modo como percebo o mundo. O preconceito atravessou minha trajetória, mas não me paralisou; transformou-se em força de resistência e em horizonte de afirmação da minha própria existência.

No plano teórico, este autorrelato dialoga com a cartografia existencial, compreendida como método que acompanha processos, afetos e afetações que constituem o sujeito em movimento (DELEUZE; GUATTARI, 1995; PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2015). Cartografar a mim mesma é reconhecer que a vida é tecida por linhas que se cruzam, tensionam e se reinventam; é compreender que experiências como o luto, a migração, a escola pública, o trabalho e a descoberta do estudo como promessa de futuro produzem marcas e deslocamentos que atravessam meu processo de subjetivação.

Essa perspectiva encontra ressonância direta em Andrade (2025), para quem narrar-se é um exercício de elaboração e cuidado consigo, no qual a experiência se transforma em pensamento e o pensamento em ação. Ao considerar o território como elemento formador não apenas no sentido geográfico, mas existencial, como chão, história, memória e afeto (SANTOS, 1996), reafirma-se a compreensão de que a escrita autobiográfica não se limita ao relato de acontecimentos, mas constitui prática de resistência, reinvenção e afirmação da singularidade. Assim, narrar a própria trajetória é assumir a autoria da própria vida, produzindo conhecimento a partir da sensibilidade e das forças que atravessam o viver (ANDRADE, 2025).

Deste modo, o objetivo deste artigo é apresentar uma escrita de mim mesma, entre dores, pertencimentos e conquistas, cartografando as forças que atravessam o percurso da minha vida desde a infância na roça até a chegada ao ensino superior. Busco refletir como luto, território, escolarização, pobreza, estigma e desejo se entrelaçam na constituição de minha identidade. Mais especificamente, procuro analisar como as experiências da infância e da adolescência produziram sentidos formativos; compreender de que maneira o deslocamento do campo para a cidade reorganizou expectativas e modos de existir; e discutir como o estudo, o pertencimento territorial e a escrita de si se tornaram dispositivos de resistência e reconstrução subjetiva. Assim, este artigo não pretende apenas contar uma história, mas compreender como uma vida se faz caminho e como esse caminho, narrado, transforma-se também em conhecimento.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Autobiografia e escrita de si: memória, subjetividade e cuidado de si

A autobiografia constitui-se como campo epistemológico potente na produção de conhecimento sobre o sujeito, articulando memória, identidade e narrativa (BOLÍVAR; DOMINGO; FERNÁNDEZ, 2001). Nesse horizonte, a memória não é reprodução do passado, mas construção situada, relacional e continuamente revisitada à luz do presente (DELORY-MOMBERGER, 2006).

A escrita de si opera como exercício de elaboração, distanciamento e autoria, rompendo com a neutralidade positivista e assumindo a implicação do sujeito na própria narrativa BRAGANÇA, 2015; SOUZA, 2029). Passeggi (2011) a compreende como dispositivo de formação, no qual vivências — especialmente dor, rupturas, vínculos e pertencimentos — tornam-se forças constitutivas do percurso.

Nesse marco, Andrade (2025) contribui ao afirmar que a escrita autobiográfica é também gesto de cuidado de si: narrar-se transforma experiência em pensamento e pensamento em ação, produzindo deslocamentos éticos, subjetivos e políticos. Assim, a autobiografia não é mero relato de fatos, mas prática epistemológica que reinscreve o sujeito no mundo e afirma sua singularidade diante de discursos hegemônicos que historicamente silenciam determinadas existências.

2.2 Narrativas de vida, vulnerabilidade e território como matriz formativa

Autobiografias ganham potência quando emergem de trajetórias marcadas por pobreza, luto, deslocamentos territoriais, desigualdades e estigmas — condições historicamente vividas por populações rurais e famílias agricultoras. Nessas narrativas, como aponta Bragança (2015), não se trata apenas de relatar adversidades, mas de visibilizar processos de resistência, criação e reinvenção.

Delory-Momberger (2006) identifica tais trajetórias como expressões de “modos de subjetivação”, evidenciando como sujeitos se constituem a partir de afetos, relações e contextos sociais. Essas experiências funcionam como “linhas de força” (DELEUZE; GUATTARI, 1995), moldando subjetividades e percursos. Nesse sentido, Andrade (2025) observa que a narração de vulnerabilidades se torna gesto emancipatório, permitindo reconfigurar marcas e reposicionar-se como agente de sua própria história.

Nessa perspectiva, o território assume centralidade. Para Santos (1996), é “chão e identidade”, lugar onde se entrelaçam história, memória e afeto. No caso de sujeitos do campo, o território rural deixa de ser apenas recorte geográfico e torna-se matriz de sensibilidade e ética existencial. Processos de desterritorialização — como luto, migração e ruptura com modos de vida e reterritorialização construção de novos vínculos e sentidos — marcam essas trajetórias (DELEUZE; GUATTARI, 1995).

Além da dimensão existencial, o território é também categoria analítica vinculada ao cuidado. Como evidencia Andrade (2023), territorializar é apropriar-se do espaço como processo vivo, complexo e desigual, no qual se revelam necessidades, vulnerabilidades e modos de vida. Assim, o território não é apenas cenário, mas fundamento identitário, afetivo e político da formação.

2.3 Cartografia existencial e escrita de si como prática formativa e transformadora

A cartografia, inspirada em Deleuze e Guattari (1995), orienta a leitura de processos, afetos e afetações que produzem o sujeito. Diferente de métodos representacionais, cartografar é acompanhar fluxos, rupturas e reinvenções, reconhecendo que toda vida é processo em constante movimento.

Passos, Kastrup e Escóssia (2015) sustentam que a cartografia envolve implicação: quem pesquisa é afetado e transformado pelo que escreve. Na autobiografia, especialmente quando marcada por eventos-limite como perda parental, pobreza, migração e desejo de estudar, cartografar significa identificar como essas experiências operam deslocamentos subjetivos e inauguram novas potências (DELEUZE, 2002).

Assim, narrar-se é também formar-se. Passeggi (2011) e Bragança (2015) reconhecem a autobiografia como prática formativa que permite reinterpretar trajetórias, reconhecer rupturas, reelaborar experiências e produzir novos sentidos para si. Trata-se de exercício ético e político, que legitima saberes situados e experienciais, constituindo o que Larrosa (2002) denomina “epistemologia do sensível”.

Nessa direção, Andrade (2025) reforça que a escrita de si é gesto de resistência à invisibilidade de sujeitos marcados por classe, território e origem. Ao assumir a palavra, esses sujeitos produzem deslocamentos identitários e reivindicam sua presença no mundo. Assim, o referencial teórico sustenta a leitura desta narrativa como cartografia de afetos e pertencimentos, iluminando como dor, território, escolarização e desejo se entrelaçam na constituição da vida-formação em direção à medicina.

3 METODOLOGIA

Este estudo adota uma abordagem qualitativa, autobiográfica e cartográfica, fundamentada na escrita de si como dispositivo de formação e produção de conhecimento (PASSEGGI, 2011; SOUZA, 2019; BRAGANÇA, 2015). Conforme Delory-Momberger (2006) e Bolívar, Domingo e Fernández (2001), a autobiografia ultrapassa o relato factual e constitui ato de pesquisa e reconstrução identitária, no qual o sujeito reelabora sentidos à luz do presente (PASSEGGI, 2010; LARROSA, 2002).

A metodologia ancora-se nos princípios da pesquisa narrativa e fenomenológica, que buscam compreender o significado das experiências vividas a partir da perspectiva do próprio sujeito (CLANDININ; CONNELLY, 2000; SOUZA, 2019). Nessa direção, a escrita de si é compreendida como prática reflexiva e ética, articulando memória, corpo e linguagem, e operando como movimento de (auto)formação (BRAGANÇA, 2015; PASSEGGI, 2011). Andrade (2025) reforça que narrar-se é gesto de cuidado consigo, no qual experiência torna-se pensamento e pensamento torna-se ação.

Em diálogo com a cartografia existencial (DELEUZE; GUATTARI, 1995; PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2015), este estudo acompanha processos, afetos e afetações que compõem minha trajetória, reconhecendo que toda escrita é também produção de si. O material empírico inclui: (a) memórias reconstruídas durante a escrita; (b) registros reflexivos e fragmentos de minha dissertação; (c) movimentos de autorreflexão emergentes no próprio ato de narrar (ANDRADE, 2025).

A análise seguiu uma perspectiva hermenêutico-narrativa (RICOEUR, 1994), identificando eixos de sentido como luto, deslocamento, escolarização pública, estigma territorial, pobreza, pertencimento rural e desejo como força de futuro, compreendidos como linhas de força cartográficas.

Do ponto de vista ético, trata-se de um relato de si, guiado pela ética da implicação e da presença (ANDRADE, 2025), seguindo os princípios da Resolução nº 466/2012. A validade do estudo repousa na profundidade analítica e na credibilidade narrativa (ELLIS, 2004; SOUZA, 2019), sustentadas pela triangulação entre memória, escrita e teoria, aproximando a investigação da epistemologia do sensível (LARROSA, 2002; PASSEGGI, 2011).

Assim, a autobiografia aqui apresentada constitui prática de resistência e afirmação da singularidade, expressando o gesto de tornar-se autora de minha própria vida (ANDRADE, 2025).

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1 Da menina da roça à estudante de Medicina: luto, deslocamento e desejo de cuidar

Começo narrando a partir de quem sou: uma mulher de pele clara, estatura mediana, cabelos escuros na altura dos ombros e óculos que acompanham meu cotidiano. Minha corporalidade é também parte da minha história; ela carrega as marcas da roça, da escola pública, das caminhadas até a pequena escola rural e das travessias que fiz até chegar à universidade.

Nasci em 1990, em uma comunidade rural de Mutuípe-BA, filha de agricultores e marcada por um contexto de conflitos por terra e acesso limitado aos serviços de saúde. A morte do meu pai, por suicídio, quando eu tinha 05 anos, produziu uma ruptura profunda em minha vida. A partir desse acontecimento, minha família precisou deixar a roça e migrar para a cidade em busca de segurança e de novas possibilidades de estudo. Minha mãe, viúva aos 35 anos, abandonou o sonho de se tornar Agente Comunitária de Saúde (ACS) e assumiu sozinha o cuidado de mim, de minha irmã e da lavoura de cacau. Ela fez da nossa educação o centro de seu projeto de vida.

Nesse cenário, a escola pública tornou-se, para mim, um território de resistência e de esperança. O desejo de ser professora antecedeu o de ser médica, mas ambos nasceram do mesmo impulso: aliviar a vida árdua de “mainha” e ampliar as possibilidades de futuro para nossa família.

Logo no início da minha trajetória, aprendi que as oportunidades são moldadas tanto pelo trabalho familiar quanto pelas forças políticas que atravessam o território. Minha família, de base católica e conservadora, vivia em uma região marcada pelo coronelismo e pela concentração de poder. Ainda assim, minha mãe, minha irmã e eu construímos um caminho próprio, alinhado à autonomia feminina e à defesa dos direitos sociais. Participamos dos movimentos que, nos anos 2000, romperam com a lógica coronelista local e elegeram, pela primeira vez, um trabalhador para a prefeitura de Mutuípe. Esse período marcou transformações importantes no município, que passou a ser referência em Atenção Primária à Saúde (APS), acesso à educação e políticas de permanência escolar. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, dois anos depois, ampliou ainda mais as possibilidades de futuro para nós, filhos e filhas de trabalhadores. Percebo hoje que esses acontecimentos políticos não apenas compuseram o cenário da minha adolescência, mas influenciaram diretamente meu desejo de estudar, cuidar e transformar realidades.

A aprovação em Medicina, em três universidades estaduais, conquista viabilizada por muito estudo e determinação, marcou um ponto de virada na minha trajetória: a filha de agricultores, a “menina da roça”, atravessava pela primeira vez um espaço historicamente elitizado.

Esse movimento condensou a dimensão política e afetiva do território: foi a partir das marcas do campo, do luto e das desigualdades que surgiu meu desejo de cuidar, transformar e estudar. Como discutem Santos (1996) e Andrade (2023), o território é sempre lugar de memória, disputa e afeto. No meu caso, ele é simultaneamente ferida e força, dor e motor de mudança.

4.2 Tornar-se médica de família: universidade, SUS e descobertas no território

A Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) foi a instituição escolhida para realizar a minha graduação. Na universidade, o encontro com o Diretório Acadêmico, com debates sobre determinantes sociais da saúde, e com o Movimento Sem Terra (MST) inaugurou um processo de desconstrução das narrativas conservadoras com as quais cresci. A formação em saúde se entrelaçou, desde cedo, com a defesa de direitos e com a compreensão de que cuidar é também lutar por justiça social (PAIM, 2009).

As Práticas Integrativas de Ensino em Serviço e Comunidade (PIESC), disciplina obrigatória do currículo da graduação em medicina, abriram para mim as portas da APS e do Sistema Único de Saúde (SUS). Nas Unidades de Saúde da Família (USF), descobri que o cuidado só fazia sentido quando articulado às histórias, necessidades e prioridades dos usuários. Aprender a cuidar implicava escutar, sentir, caminhar e habitar os territórios (ANJOS et al., 2010).

No internato, os rodízios hospitalares produziram inquietações profundas. Ao acompanhar uma mulher com ferimento por arma de fogo que revelou ter tentado suicídio, vivi o confronto entre a lógica biomédica — centrada no procedimento — e a necessidade de uma clínica ampliada que acolhesse sofrimento psíquico e produzisse redes de apoio. A impotência que senti diante do encaminhamento automático para um hospital psiquiátrico, sem articulação com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), reforçou meu desejo por outra forma de medicina.

Foram através dessas afetações que a Medicina de Família e Comunidade (MFC) se mostrou como caminho possível: eu não queria ser “médica de partes”, mas médica de pessoas, famílias e territórios. A militância estudantil, a inserção precoce no SUS e os encontros com a APS consolidaram essa escolha, que se enraíza na integralidade, no vínculo e no trabalho em equipe (GUSSO et al., 2019).

4.3 Cuidar em territórios vulnerabilizados: ruralidades, periferias e pandemia

Após concluir a graduação, iniciei minha atuação na APS em territórios rurais remotos, como médica da Estratégia de Saúde da Família (ESF) em Irará-BA. Ali, o trabalho vivo em ato se fez presente de forma intensa: a escassez de recursos e a negação de direitos exigiam criatividade, presença e escuta como tecnologias principais do cuidado (MERHY, 2003; FAUSTO et al., 2023). Essa experiência reafirmou em mim o pertencimento a uma APS que chega onde o Estado quase não chega.

Em 2020, iniciei a residência em MFC na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em plena pandemia de Covid-19. Na USF São Paulo, em Santo Antônio de Jesus, conheci o território primeiro pelas narrativas dos ACS, pelas histórias dos usuários monitorados à distância e pelas ruas vazias. O medo do contágio nos impedia de entrar nos domicílios, e a territorialização precisou ser reinventada. As reuniões de equipe se tornaram espaços centrais para reorganizar cuidados, garantir acesso e acolher o sofrimento dos trabalhadores (MEDINA et al., 2020).

As atividades remotas aproximaram residentes e profissionais de diferentes regiões e fortaleceram nossa formação. A chegada da vacina trouxe alívio, mas também a necessidade de enfrentar fake news e discursos negacionistas — reafirmando o papel ético e político da MFC na defesa da vida (GALHARDI et al., 2022).

Depois da residência, ao atuar na comunidade periférica “Rádio Clube”, encontrei um contexto marcado por racismo, violência policial, insegurança alimentar e negação de direitos. As mulheres, muitas vezes as únicas que podiam se deslocar, tornaram-se ponte entre a unidade e a comunidade. Mais do que nunca, a clínica precisou ser racializada, reconhecendo o papel do racismo na determinação do adoecimento (SOUZA et al., 2020). Escutas, cartazes e conversas intencionais se tornaram dispositivos para convocar relatos e romper silêncios históricos. Cuidar ali exigiu coragem, ética e compromisso radical com a garantia de direitos.

4.4 Formar cuidando, retornar e permanecer: preceptoria, micropolítica e pertencimento

Minha experiência na MFC desdobrou-se naturalmente no campo da formação. Passei a atuar como preceptora do internato de MFC e como professora na UFRB e na UEFS, utilizando metodologias ativas como caixas de afetações, diários de campo, consultas observadas e devolutivas estruturadas (BORDENAVE, 2007). A preceptoria tornou-se, para mim, espaço de coaprendizagem: eu me formava enquanto formava. O curso de especialização em preceptoria no SUS ampliou meu olhar para a micropolítica dos serviços e para os desafios do ensino em serviço.

Em Serrinha-BA, como tutora do Médicos pelo Brasil e médica da ESF, enfrentei cenários de fragilidade social, práticas punitivistas e captura política dos recursos em saúde (NUNES et al., 2023). Em parceria com os ACS desenvolvemos ações extramuros, planejamentos situacionais e processos problematizadores baseados no Arco de Maguerez (BORDENAVE, 2007; MINAYO, 2010). Nesses territórios, aprendi que o cuidado se reinventa pela implicação e pela cooperação, e que os afetos se tornam força política.  É na micropolítica do cuidado que emergem potências capazes de sustentar resistência e criação (RODRIGUES, 2021).

Em 2024, ingressei no mestrado profissional em Saúde Coletiva da UEFS e retornei como docente à instituição onde me formei — experiência que simbolizou voltar para casa e reencontrar minha própria história. Posteriormente, ao ser aprovada como preceptora da residência em MFC da UFRB e supervisora do programa de provimento médico, pude me reaproximar de minha terra, das minhas raízes e de minha família. Essa reterritorialização foi também afetiva: reatar laços, reencontrar pertencimentos e sustentar o sentido do meu caminho.

Reconheço que permanecer na APS, em meio a vínculos precários, escassez de recursos e intensas demandas emocionais, exige autocuidado, redes de apoio e espaços de elaboração do sofrimento (MERHY, 2014; FEUERWERKER, 2019). Minha trajetória da menina da roça à médica de Família e Comunidade é um itinerário de perda, luta, pertencimento e criação de novos mundos possíveis no cotidiano do SUS.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O autorrelato cartográfico evidencia que a formação e a atuação como Médica de Família e Comunidade se constituem a partir do entrelaçamento entre história de vida, território e afetos. A trajetória narrada demonstra que luto, desigualdade e deslocamento produzem sentidos formativos que sustentam um compromisso ético-político com o cuidado em saúde.

Os resultados mostram que o território funciona como elemento estruturante da formação, operando simultaneamente como professor, coautor e espaço de subjetivação. A experiência em comunidades rurais e periféricas, atravessadas por vulnerabilidades e desigualdades, confirma que a MFC se afirma como prática que articula clínica, política e vínculo.

A utilização de uma metodologia autobiográfica e cartográfica permite compreender que narrar a própria trajetória constitui movimento de elaboração, cuidado de si e produção de conhecimento. A análise da experiência indica que a formação em saúde, quando situada no território e no trabalho vivo, configura-se como processo de transformação ética, existencial e coletiva.

Do ponto de vista formativo, a preceptoria e a docência emergem como desdobramentos naturais da produção do cuidado comprometida com equidade e justiça social, ampliando o alcance de uma APS forte e resolutiva.

Conclui-se que o aprendizado em saúde se funda na relação com o outro, na capacidade de ser afetado e na construção compartilhada do cuidado. A trajetória da autora aponta que histórias de vida marcadas por origem rural, luto e resistência compõem e fortalecem o SUS real, sustentado diariamente por trabalhadores que cuidam, persistem e reinventam possibilidades de existência.

REFERÊNCIAS

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1Discente do Mestrado Profissional em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Feira de Santana, E-mail: aliness1612@gmail.com

2Professor Orientador. Doutor em Medicina e Saúde Humana, Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana, Bahia, Brasil. E-mail: mcsouza@uefs.br

3Professor coorientador, Doutor em Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, Brasil. E-mail:  joao.andre@ufba.br