DA DETECÇÃO À CURA: ANÁLISE DO DIAGNÓSTICO PRECOCE EM ATENÇÃO PRIMÁRIA E A EFICÁCIA DOS ESQUEMAS TERAPÊUTICOS (MDT) PARA HANSENÍASE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511161312


Thaywane Vinhati da Silva¹
Letícia Ervilha Rigo¹
Ana Júlia Alves Garcia Vicente¹


RESUMO 

A hanseníase, uma doença infectocontagiosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, permanece como um grave desafio de saúde pública e negligenciada no Brasil. O país, historicamente um dos que mais concentra novos casos globais, registra milhares de notificações anuais, com maior incidência observada nas macrorregiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que denota a persistência de focos endêmicos. A interrupção da cadeia de transmissão e, crucialmente, a prevenção de incapacidades físicas permanentes a sequela mais temida da doença – são diretamente dependentes da oportunidade do diagnóstico. O presente artigo tem como objetivo precípuo analisar, de forma crítica e aprofundada, a importância da detecção precoce da hanseníase no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS) e, em paralelo, avaliar a comprovada eficácia e os desafios de adesão dos esquemas terapêuticos poliquimioterápicos (MDT Multidrug Therapy) recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica qualitativa, fundamentada na análise de artigos científicos recentes, teses, dissertações e documentos oficiais e normativos do Ministério da Saúde do Brasil e da OMS, abrangendo o período de 2015 a 2025. Os resultados da revisão constataram que a triagem ativa de contatos e a capacitação contínua dos profissionais da APS são fundamentais para elevar a taxa de diagnóstico em estágios iniciais, o que minimiza o dano neural. Além disso, a combinação de medicamentos no MDT, quando utilizado corretamente e com a distribuição gratuita garantida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), demonstra um elevado potencial de cura, interrompendo a progressão da doença, reduzindo significativamente a carga bacilar e, consequentemente, diminuindo a estigmatização social e os índices de incapacidade grau 2. Contudo, falhas estruturais na cobertura da APS, lacunas na educação permanente dos profissionais e o persistente estigma social ainda configuram importantes entraves para o controle e a eliminação efetiva da hanseníase no país. Conclui-se que a estratégia de fortalecimento da Atenção Primária, investindo em educação em saúde e em campanhas de conscientização que combatam o preconceito, é essencial e inadiável para a erradicação da hanseníase como problema de saúde pública no Brasil.  

Palavras-chave: hanseníase; Mycobacterium leprae; diagnóstico precoce; atenção primária; MDT; eficácia terapêutica; estigma social; saúde pública. 

ABSTRACT 

Leprosy, a chronic infectious disease caused by Mycobacterium leprae, remains a significant and often neglected public health challenge in Brazil. Historically, the country is one of the world’s largest contributors to the global new case burden, registering thousands of annual notifications, with the highest incidence rates concentrated in the North, Northeast, and Central-West macro-regions, signaling the persistence of endemic foci. The interruption of the transmission chain and, crucially, the prevention of permanent physical disabilities, the most feared sequelae are directly dependent on timely diagnosis. This paper aims to critically and in-depth analyze the paramount importance of early detection of leprosy within the context of Primary Health Care (PHC) and, concurrently, to evaluate the proven efficacy and adherence challenges associated with the World Health Organization (WHO) recommended Multidrug Therapy (MDT) regimens. This study employs a qualitative bibliographic review methodology, based on the analysis of recent scientific articles, theses, dissertations, and official regulatory documents from the Brazilian Ministry of Health and the WHO, covering the period from 2015 to 2025. The review findings indicate that active contact tracing and continuous training of PHC professionals are fundamental to increasing the diagnosis rate at initial stages, thus minimizing neural damage. Furthermore, the combination of drugs in MDT, when correctly utilized and provided free of charge by the Unified Health System (SUS), demonstrates high curative potential, halting disease progression, significantly reducing the bacillary load, and consequently mitigating social stigmatization and Grade 2 disability rates. Nevertheless, structural failures in PHC coverage, gaps in the permanent education of healthcare professionals, and the persistent social stigma still constitute major obstacles to the effective control and elimination of leprosy in the country. It is concluded that the strategy of strengthening Primary Health Care, investing in health education, and launching awareness campaigns that actively combat prejudice, is essential and urgent for the eradication of leprosy as a public health problem in Brazil. 

Keywords: leprosy; Mycobacterium leprae; early diagnosis; primary health care; MDT; therapeutic efficacy; social stigma; public health. 

1. INTRODUÇÃO 

A hanseníase, também conhecida como lepra, é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, um bacilo intracelular obrigatório com tropismo por células cutâneas e nervos periféricos. Transmitida principalmente por vias aéreas superiores, a hanseníase ainda constitui um relevante problema de saúde pública em países tropicais e subtropicais, especialmente no Brasil, Índia e Indonésia (OMS, 2023). 

O Brasil ocupa o segundo lugar mundial em número absoluto de casos, com cerca de 17 mil novos registros anuais, sendo responsável por mais de 90% dos casos notificados nas Américas (BRASIL, 2023). A persistência dessa enfermidade reflete as desigualdades sociais, o estigma histórico e a dificuldade de acesso a serviços de saúde de qualidade. 

O diagnóstico precoce é a principal estratégia para interromper a cadeia de transmissão e prevenir incapacidades. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel essencial por ser o primeiro nível de contato da população com o sistema de saúde, promovendo o reconhecimento de sinais iniciais, o encaminhamento e o acompanhamento dos pacientes (LANA et al., 2020). 

Além disso, a introdução da Poliquimioterapia (MDT) pela Organização Mundial da Saúde em 1981 revolucionou o tratamento, tornando a hanseníase uma doença curável e com baixo risco de recidiva (PINHEIRO et al., 2021). 

2. JUSTIFICATIVA 

O tema deste estudo é justificado pela persistência da hanseníase como importante agravo de saúde pública, mesmo diante da existência de diagnóstico e tratamento eficazes e gratuitos. A detecção precoce é o principal fator que define o prognóstico do paciente e a capacidade do sistema de saúde de controlar a transmissão. 

A Região Norte apresenta um dos maiores coeficientes de detecção do país, o que reforça a necessidade de estudos que relacionem a estrutura da atenção primária, à capacitação dos profissionais e a eficácia dos esquemas terapêuticos (SOUZA et al., 2021). 

O aprofundamento dessa temática permite compreender os desafios enfrentados por estados como Rondônia, que apresenta índices superiores à média nacional, exigindo políticas públicas mais intensas e voltadas à vigilância e à educação em saúde. 3. Objetivos 

3.1 Objetivo geral 

Analisar a importância do diagnóstico precoce da hanseníase na atenção primária e a eficácia dos esquemas terapêuticos (MDT) no controle da doença, com ênfase na epidemiologia da Região Norte. 

3.2 Objetivos específicos 

  • Descrever o papel da atenção primária na detecção e acompanhamento de casos de hanseníase; 
  • Avaliar a eficácia dos esquemas terapêuticos (MDT) recomendados pela OMS; 
  • Discutir a situação epidemiológica da hanseníase na Região Norte e em Rondônia; 
  • Apontar desafios e estratégias para o controle da hanseníase no Brasil. 

4. DESENVOLVIMENTO 

4.1 Aspectos Clínicos e Etiológicos da Hanseníase: O Silêncio do Mycobacterium 

O agente etiológico da hanseníase, o Mycobacterium leprae, é um bacilo álcool-ácido resistente que se destaca por seu crescimento excepcionalmente lento, com tempo de duplicação estimado em 13 dias (PINHEIRO et al., 2021). Essa característica biológica está intrinsecamente ligada ao longo período de incubação da doença, que geralmente varia entre dois e dez anos, podendo se estender por décadas. Este longo intervalo entre a infecção e o surgimento dos primeiros sinais clínicos é um dos principais fatores que dificultam o rastreamento epidemiológico de contatos e representa um obstáculo significativo para a detecção precoce (BRASIL, 2022). 

A afinidade primária do bacilo por células de Schwann e nervos periféricos é o cerne da patogênese da hanseníase, resultando em neuropatias sensoriais e motoras. A invasão e a subsequente destruição neural resultam nas lesões mais graves e irreversíveis da doença, culminando nas deformidades e incapacidades que historicamente alimentam o estigma. As manifestações clínicas são vastas, variando em um espectro que reflete a resposta imunológica do hospedeiro. Os sinais cardinais incluem: lesões cutâneas hipocrômicas ou eritematosas com alteração ou perda de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil, espessamento de nervos periféricos palpáveis e paresias ou paralisias motoras. 

A classificação operacional da hanseníase, adotada pela OMS (2023), é crucial para a definição terapêutica, dividindo os pacientes em: Paucibacilares (PB), com até cinco lesões cutâneas e baixo número de bacilos; e Multibacilares (MB), com seis ou mais lesões ou presença detectável de bacilos na baciloscopia. Essa categorização define não apenas a duração do tratamento, mas também o risco epidemiológico e a probabilidade de ocorrência de episódios reacionais, reforçando a necessidade de um diagnóstico clínico minucioso e célere. 

4.2 O Papel Estratégico da Atenção Primária à Saúde (APS) na Detecção Oportuna 

A Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), é o pilar fundamental e a porta de entrada preferencial para o controle e a eliminação da hanseníase. Dada a natureza crônica e silenciosa da doença, a responsabilidade primária pela identificação dos casos recai sobre os profissionais de saúde que estão em contato direto e contínuo com a comunidade. 

As equipes da APS são as responsáveis por: (1) Identificar ativamente lesões cutâneas ou queixas neurológicas suspeitas; (2) Realizar o exame dermatoneurológico completo, que inclui a avaliação da sensibilidade e a palpação dos troncos neurais; e (3) Garantir o acompanhamento e a supervisão do paciente durante todo o tratamento e após a alta (LANA et al., 2020). 

A busca ativa de casos e o exame de contatos domiciliares e sociais são ferramentas de vigilância epidemiológica de alta eficácia, que dependem diretamente da capilaridade e do preparo técnico das equipes básicas. Em contextos endêmicos, a desconfiança clínica por parte do profissional da APS é um fator determinante. Além disso, as ações educativas comunitárias, mediadas por Agentes Comunitários de Saúde (ACS), são vitais, pois promovem a sensibilização das comunidades, desmistificam a doença e, o mais importante, incentivam a procura espontânea e precoce por atendimento, ajudando a mitigar o estigma no nível local (COSTA et al., 2022). O fortalecimento do vínculo comunitário e a descentralização do cuidado garantem que o diagnóstico e o tratamento ocorram o mais próximo possível da residência do paciente. 

4.3 Esquemas Terapêuticos (MDT) e a Eficácia Comprovada no Controle da Doença 

O esquema poliquimioterápico (Multidrug Therapy MDT) representa um marco na história do controle da hanseníase e é a base da estratégia global de tratamento da OMS. O regime combina três fármacos com mecanismos de ação distintos: rifampicina, que possui uma potente ação bactericida de dose única, dapsona e clofazimina (esta última reservada para casos MB) (PINHEIRO et al., 2021). 

O protocolo de tratamento é padronizado e distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo o acesso universal e integral à terapia. A duração do tratamento é rigidamente definida: seis meses para pacientes paucibacilares e doze meses para pacientes multibacilares. A eficácia do MDT é inquestionável, alcançando taxas de cura que consistentemente ultrapassam 95% dos pacientes que aderem ao esquema completo, enquanto o risco de desenvolvimento de resistência bacteriana é historicamente baixo (BRASIL, 2023). 

A supervisão do tratamento é uma etapa essencial da APS, visando a adesão total. A ingestão correta e ininterrupta dos medicamentos não apenas garante a cura clínica e bacteriológica do indivíduo, prevenindo recidivas e o agravamento das incapacidades, mas também tem um impacto epidemiológico fundamental: o paciente se torna não infeccioso após a primeira dose supervisionada de MDT, interrompendo a cadeia de transmissão ativa da hanseníase na comunidade (BRASIL, 2023). 

4.4 Desafios Persistentes no Diagnóstico e Adesão Terapêutica 

Apesar da eficácia do MDT e da gratuidade do tratamento no SUS, o Brasil ainda enfrenta importantes barreiras no controle efetivo da hanseníase, que se concentram em dois grandes eixos: o estigma social e as falhas operacionais na saúde. 

O estigma social e o preconceito histórico associado à “lepra” continuam sendo o maior impedimento para a busca oportuna de cuidados. O medo da exclusão social, da perda de emprego e da rejeição familiar leva muitos pacientes a retardarem a busca por atendimento (NUNES et al., 2020). Esse retardo culmina no diagnóstico tardio, quando o dano neural já está estabelecido, manifestando-se como deformidades físicas e incapacidades de grau 2, que perpetuam o ciclo do preconceito. 

No plano operacional, a falta de capacitação contínua dos profissionais da Atenção Primária, aliada à alta rotatividade das equipes, compromete a qualidade e a continuidade do cuidado. A hanseníase, por não ser uma doença prevalente em todas as regiões, pode não ser prontamente reconhecida por clínicos gerais e enfermeiros menos experientes. Estudos demonstram que a dificuldade no diagnóstico diferencial leva à confusão com outras dermatoses (como micoses ou vitiligo), resultando em subnotificação e falha na vigilância epidemiológica (SILVA et al., 2022). Adicionalmente, o abandono do tratamento, ainda que em minoria, é outro desafio, geralmente motivado pela duração prolongada da terapia ou pela falta de suporte social adequado. 

4.5 Estratégias para o Fortalecimento do Controle e o Combate à Hanseníase 

O controle da hanseníase exige uma abordagem multissetorial e estratégica, focada no fortalecimento da APS e no combate ao estigma. As principais estratégias delineadas pela OMS (2023) e adotadas pelo Ministério da Saúde incluem: 

  1. Capacitação e Educação Permanente: Assegurar que todos os profissionais da Atenção Primária estejam aptos a realizar o exame dermatoneurológico completo e a identificar os sinais cardinais da hanseníase. 
  2. Integração e Vigilância Ativa: Fortalecer a integração entre a vigilância epidemiológica e as equipes da ESF para a realização eficiente do exame de contatos e a busca ativa de casos em áreas de alta endemicidade. 
  3. Combate ao Estigma e Inclusão Social: Implementação de campanhas educativas maciças e direcionadas para a população geral e profissionais de saúde, visando desmistificar a doença, enfatizar sua cura e promover a inclusão social dos indivíduos afetados (OMS, 2023). 

A educação em saúde é a ferramenta mais poderosa para quebrar o ciclo vicioso de desinformação e preconceito. O investimento em políticas públicas que ampliem o acesso à informação de qualidade, garantam o diagnóstico oportuno e ofereçam suporte social e reabilitação aos pacientes é essencial para a redução da carga da doença e para que o Brasil avance de forma decisiva rumo à erradicação da hanseníase como problema de saúde pública. 

4.6 Epidemiologia da hanseníase na Região Norte e em Rondônia 

A Região Norte apresenta os maiores coeficientes de detecção de hanseníase do Brasil. Em 2023, a taxa regional foi de 31,2 casos por 100 mil habitantes, quase três vezes superior à média nacional (BRASIL, 2023). Estados como Pará, Tocantins e Rondônia concentram os maiores números absolutos de novos casos. 

Em Rondônia, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde (SESAU/RO, 2023), foram notificados cerca de 450 novos casos de hanseníase em 2023, com coeficiente de detecção de 25,6 por 100 mil habitantes, classificando o estado como de alta endemicidade. Os municípios de Porto Velho, Ariquemes e Cacoal lideram as notificações. 

O perfil epidemiológico revela predomínio de casos multibacilares e maior acometimento entre homens adultos, na faixa etária de 30 a 59 anos. Observa-se ainda alta proporção de diagnósticos tardios, evidenciada pela presença de incapacidades grau 2 no momento do diagnóstico (SOUZA et al., 2021). 

As principais causas para essa realidade incluem a baixa cobertura de equipes da Estratégia Saúde da Família em áreas rurais e ribeirinhas, o estigma social e a dificuldade de acesso geográfico a unidades básicas de saúde. A implementação de campanhas itinerantes e o fortalecimento da vigilância ativa têm mostrado resultados promissores na redução de novos casos. 

Esses dados reforçam que, para o alcance das metas da OMS de eliminação da hanseníase como problema de saúde pública, é indispensável o fortalecimento das políticas de saúde voltadas à Região Norte, com foco na descentralização das ações e na educação permanente dos profissionais. 

4.7 Revisão Histórica do Pré-Natal no Brasil 

O acompanhamento pré-natal no Brasil passou por diversas transformações ao longo das décadas, refletindo avanços nas políticas públicas de saúde e na consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Durante grande parte do século XX, a assistência à gestante era voltada apenas para o parto e complicações imediatas, sem enfoque preventivo. Com a criação do Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN), em 2000, o Ministério da Saúde passou a enfatizar o cuidado integral, com atenção à saúde física, mental e social da gestante (BRASIL, 2000). 

O PHPN instituiu parâmetros mínimos de qualidade, como a realização de pelo menos seis consultas pré-natais, início do acompanhamento até a 12ª semana de gestação e a garantia de exames laboratoriais básicos. Essa política resultou em avanços significativos na redução da mortalidade materna e neonatal, embora persistam desigualdades regionais que ainda limitam o acesso de gestantes de áreas remotas e populações vulneráveis (SANTOS; OLIVEIRA; MARTINS, 2019). 

4.8 Desafios Socioculturais no Acesso ao Pré-Natal na Região Norte 

Na Região Norte, as particularidades geográficas e socioculturais exercem forte influência sobre o acesso e a qualidade do pré-natal. A grande extensão territorial, as distâncias entre comunidades e centros urbanos, além da escassez de profissionais de saúde, representam obstáculos expressivos (COSTA et al., 2021). 

Em estados como Rondônia, Acre e Amazonas, é comum que gestantes residentes em áreas ribeirinhas ou rurais dependam de transporte fluvial ou terrestre precário para chegar aos serviços de saúde, o que dificulta o cumprimento das consultas recomendadas. Além disso, barreiras culturais e linguísticas especialmente em comunidades indígenas e ribeirinhas podem gerar resistência à procura pelo atendimento pré-natal (SILVA; MOURA; FREITAS, 2020). 

Outro ponto relevante é a vulnerabilidade socioeconômica, que se reflete em baixos níveis de escolaridade e renda, fatores associados à menor adesão ao acompanhamento gestacional. Tais aspectos exigem políticas públicas voltadas à equidade no cuidado e à valorização das especificidades regionais. 

4.9 Fatores de Risco e Intercorrências Obstétricas Mais Frequentes 

O pré-natal tem papel essencial na detecção precoce e no controle de intercorrências obstétricas. Entre as principais condições identificadas estão a hipertensão gestacional, o diabetes mellitus gestacional, as infecções urinárias e as anemias. A ausência de acompanhamento adequado aumenta o risco de complicações maternas e fetais, incluindo parto prematuro, baixo peso ao nascer e mortalidade perinatal (REZENDE; TORRES; ANDRADE, 2022). 

Na Região Norte, estudos apontam prevalências elevadas dessas intercorrências, especialmente entre mulheres com baixo acesso a exames laboratoriais e consultas regulares. Segundo dados do Ministério da Saúde (2023), Rondônia apresenta uma taxa de mortalidade materna de 59,3 por 100 mil nascidos vivos, acima da média nacional (53,3). Esses números reforçam a necessidade de estratégias voltadas à detecção precoce e manejo adequado de fatores de risco durante o pré-natal. 

4.10 Comparativo Regional: Região Norte e Sudeste 

As disparidades regionais no acompanhamento pré-natal são evidentes. Enquanto a Região Sudeste concentra a maior cobertura de pré-natal adequado, com 83,7% das gestantes realizando seis ou mais consultas, a Região Norte apresenta cobertura de apenas 62,5%, segundo o DATASUS (2023). 

Essa diferença reflete desigualdades estruturais, como menor densidade de profissionais de saúde, falhas na infraestrutura de transporte e escassez de unidades básicas em áreas isoladas. No entanto, observa-se avanço gradual na cobertura da atenção básica e no número de gestantes acompanhadas por equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), especialmente em municípios de médio porte em Rondônia e Amazonas (BRASIL, 2024). 

O comparativo evidencia a importância de políticas públicas voltadas à regionalização do cuidado, com ênfase na formação e fixação de profissionais nas regiões de menor cobertura. 

4.11 Perspectivas Futuras e Estratégias de Melhoria 

As perspectivas futuras para o fortalecimento do pré-natal no Brasil envolvem o uso de tecnologias de informação e comunicação, a expansão da telemedicina e a ampliação da Atenção Primária à Saúde (APS). O uso de aplicativos de acompanhamento gestacional e prontuários eletrônicos integrados pode melhorar a continuidade do cuidado, especialmente em áreas de difícil acesso. 

Além disso, é fundamental investir na formação continuada dos profissionais de saúde, com foco em práticas humanizadas e na valorização da diversidade cultural das gestantes brasileiras. Políticas de incentivo à saúde indígena e ribeirinha, bem como a ampliação de ações de educação em saúde, podem contribuir para a redução das desigualdades regionais (PEREIRA; ALMEIDA; LIMA, 2024). 

Por fim, o fortalecimento das redes de atenção materno-infantil e a integração entre os níveis de atenção são essenciais para garantir um pré-natal mais resolutivo, equitativo e humanizado em todo o território nacional. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A análise sobre o diagnóstico precoce e os esquemas terapêuticos para hanseníase evidencia que a Atenção Primária à Saúde (APS) desempenha papel fundamental na erradicação da doença no Brasil. O diagnóstico precoce, associado à poliquimioterapia (PQT/MDT), constitui a estratégia mais eficaz para reduzir a carga da hanseníase e interromper a cadeia de transmissão, conforme diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde. 

A ampliação da cobertura da APS, somada à capacitação contínua dos profissionais de saúde, é essencial para garantir o reconhecimento dos sinais clínicos iniciais, principalmente nas regiões mais endêmicas, como o Norte do Brasil. Em estados como Rondônia, que apresenta elevada taxa de detecção, o fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, busca ativa de casos e acompanhamento pós-tratamento ainda é um desafio. 

O estudo demonstrou que, apesar dos avanços obtidos com o Programa Nacional de Controle da Hanseníase (PNCH), persistem dificuldades estruturais e socioculturais que impactam o acesso ao diagnóstico e tratamento, como o estigma social, a desigualdade regional e a falta de recursos humanos especializados. Nesse contexto, políticas públicas voltadas à educação em saúde e à integração entre os níveis de atenção se mostram fundamentais. 

Outro ponto relevante é a necessidade de aprimorar os sistemas de informação, de modo a garantir maior precisão nos indicadores epidemiológicos e permitir intervenções mais eficazes. A incorporação de tecnologias digitais na atenção básica, como a telemedicina e o prontuário eletrônico, pode otimizar o acompanhamento de pacientes e facilitar o monitoramento dos casos novos e recidivas. 

Por fim, para que o Brasil avance rumo à eliminação da hanseníase como problema de saúde pública, é imprescindível consolidar um modelo de atenção que una prevenção, diagnóstico precoce, tratamento oportuno e reabilitação física e social dos pacientes. Somente por meio de um sistema integrado, humanizado e equitativo será possível alcançar a cura clínica e social dos indivíduos acometidos por essa enfermidade secular. 

6. REFERÊNCIAS 

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia prático sobre a hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: https://www.gov.br/saude

BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Hanseníase (PNCH). Brasília: Secretaria de Vigilância em Saúde, 2022. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (PHPN). Brasília: Ministério da Saúde, 2000. 

BRASIL. DATASUS. Indicadores de cobertura de pré-natal e atenção básica por região. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br

COSTA, M. R. et al. Desafios para o acesso ao pré-natal na região Norte do Brasil: análise das barreiras geográficas e culturais. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, v. 21, n. 3, p. 837–849, 2021. 

PEREIRA, A. C.; ALMEIDA, J. R.; LIMA, F. G. A tecnologia e a humanização no pré-natal: desafios e perspectivas para a atenção básica. Revista de Enfermagem e Saúde Coletiva, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 44–57, 2024. 

REZENDE, A. F.; TORRES, D. L.; ANDRADE, P. S. Intercorrências obstétricas e os fatores de risco associados ao pré-natal inadequado. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, Rio de Janeiro, v. 44, n. 2, p. 109–117, 2022. 

SANTOS, C. L.; OLIVEIRA, P. M.; MARTINS, R. S. Políticas públicas de atenção à gestante no Brasil: avanços e desafios. Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, n. 12, p. 4507–4516, 2019. 

SILVA, M. N.; MOURA, A. L.; FREITAS, E. P. Determinantes sociais e culturais no acesso ao pré-natal de populações ribeirinhas. Revista Pan-Amazônica de Saúde, Belém, v. 11, n. 4, p. 1–10, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global Leprosy (Hansen’s disease) Update 2023: Towards zero leprosy. Geneva: WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int.


¹Acadêmicas do Curso de Medicina.