CRISE CONVULSIVA – RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601130754


Letícia Tavares Costa1
Henrique Fernandes Noé2


RESUMO

Introdução: Crises epilépticas (convulsivas ou não) são mais comuns do que se imagina, 9% da população apresentará pelo menos uma crise ao longo da vida. Crises provocadas são aquelas nas quais há fatores deflagradores identificáveis, como, febre, traumatismo cranioencefálico ou distúrbio metabólico. Crises não provocadas ou idiopáticas são aquelas nas quais os achados clínico-eletroencefalográficos são bem definidos, ficando o termo idiopático reservado para epilepsias genéticas. Uma crise convulsiva ou epiléptica é a ocorrência transitória de sinais ou sintomas clínicos secundários a uma atividade neuronal anormal excessiva ou sincrônica, podendo ocorrer localmente ou difusamente no cérebro. Se ficarem restritos, a crise será chamada focal; se envolverem os dois hemisférios cerebrais, generalizada. Convulsões febris (CF) são uma manifestação epiléptica benigna da infância e não necessitam de uma extensa investigação diagnóstica. Objetivo: Relatar o manejo clínico e terapêutico de paciente com diagnóstico de Crise Convulsiva de origem Febril no Hospital e Maternidade São José (HMSJ), no município de Colatina, Espírito Santo (ES). Descrição do caso: D. C. F., 1 ano e 8 meses de idade, sexo masculino, acompanhado pela a mãe, a criança compareceu ao pronto-atendimento pediátrico do HMSJ com quadro de coriza associada a febre de 39ºC e relato de crise convulsiva do tipo tônico-clônica há aproximadamente 12 horas, manejado em outro serviço. Durante a avaliação, a mãe informou a ausência de outros sinais e sintomas e relatou ocorrência prévia de crise convulsiva em janeiro de 2021, também associada a quadro febril. Optou-se por internação hospitalar e realização de exames laboratoriais para melhor investigação clínica. Considerações finais: A convulsão febril é definida como uma crise convulsiva provocada pelo aumento súbito da temperatura corporal e não se caracteriza como síndrome epiléptica. Possui vários fatores desencadeantes e tem evolução benigna, independentemente do uso de medicações, que atuam apenas prevenindo recorrências.

Palavras-chave: febre, convulsões febris, neurologia.

INTRODUÇÃO

As crises epilépticas (convulsivas ou não) são frequentes na rotina médica e estima-se que cerca de 9% da população apresentará pelo menos uma crise ao longo da vida. As crises provocadas, são aquelas nas quais há fatores deflagradores identificáveis, como, por exemplo, febre, traumatismo cranioencefálico (TCE) ou distúrbio metabólico. Em contrapartida, crises não provocadas ou idiopáticas são aquelas nas quais os achados clínico-eletroencefalográficos são bem definidos, ficando o termo idiopático reservado para epilepsias genéticas(Nicole-Carvalho & Henriques-Souza, 2002). 

Em suma, as crises são classificadas como sintomáticas remotas quando a criança tem antecedente de insulto neurológico prévio, tal como uma encefalopatia não progressiva desde o nascimento, acidente vascular cerebral ou TCE, levando a uma lesão estática. Casos de crises não provocadas nas quais não há antecedente etiológico serão classificadas como idiopáticas ou criptogênicas(Nicole-Carvalho & Henriques-Souza, 2002). 

O termo idiopático refere-se às síndromes epilépticas parciais ou generalizadas com características clínicas e eletrográficas específicas. As crises não classificadas como idiopáticas ou sintomáticas remotas são consideradas criptogênicas(Nicole-Carvalho & Henriques-Souza, 2002).

Nas formas idiopáticas, haveria falta de fatores causais, nas sintomáticas algum fator etiológico conhecido estaria presente, sendo postulado, por alguns autores, que graduações entre essas duas poderiam ocorrer, sugerindo assim a existência de um continuum biológico entre as diversas entidades em detrimento da ideia de síndromes epilépticas distintas(Nicole-Carvalho & Henriques-Souza, 2002).

De acordo com Pereira, uma crise convulsiva ou epiléptica é a ocorrência transitória de sinais ou sintomas clínicos secundários a uma atividade neuronal anormal excessiva ou sincrônica, podendo ocorrer localmente ou difusamente no cérebro. Se ficarem restritos, a crise será chamada focal; se envolverem os dois hemisférios cerebrais, generalizada. A causa pode ser por infecção no cérebro (meningoencefalite e/ou encefalite), outras infecções (crise febril), drogas, traumas, distúrbios hidroeletrolíticos e/ou metabólicos como hipoglicemia e hiponatremia.

Quando a causa da crise é febril, esta é intitulada como Convulsões Febris (CF). Elas são uma manifestação epiléptica benigna da infância que ocorrem entre os 3 meses e 5 anos de idade e que afeta um número estimado de 2-5 % das crianças. As CF simples têm um prognóstico benigno em quase todos os casos e não necessitam de uma extensa investigação diagnóstica. Entretanto, as CF complexas necessitam de uma avaliação clínica mais detalhada e exames complementares podem ser indicados devido ao maior risco de causas subjacentes detectáveis e um discreto maior risco para o desenvolvimento posterior de epilepsia (ALENCAR, 2015).A CF costuma ser do tipo simples (FIGURA 01), isto é, crise tônico-clônica generalizada, rápida e isolada. Os pais podem referir hipotonia, mas, nesses casos, geralmente há uma fase clônica rápida que pode passar despercebida. Oitenta por cento das CFs enquadram-se nas duas circunstâncias acima referidas. As demais crises (20% dos casos) são classificadas como CFs complexas ou complicadas (FIGURA 01). As três características das CFs complexas (focalidade, duração >15 minutos e crises repetidas em 24 horas) parecem dividir alguns componentes subjacentes comuns, pois costumam ocorrer associadamente. Entre focalidade e duração prolongada, especialmente, há estreita correlação, isto é, as crises focais tendem a ser prolongadas (ALENCAR, 2015).

Figura 01: Classificação das crises febris. Fonte: Disponível em:<https://pebmed.com.br/voce-sabe-o-que-fazer-em-caso-de-crise-convulsiva-febril/>. Acesso em: 30 ago. 2021.

Acredita-se que o rápido aumento da temperatura seja um fator desencadeante da CF, mas até hoje não está claro se isso é mais importante do que a alta temperatura atingida. Uma história cuidadosa deve ser feita, pois poderá descartar outras causas de crises epilépticas, como trauma ou intoxicação, além de esclarecer se há história familiar de convulsões. O exame físico deverá incluir a pesquisa de possíveis focos infecciosos. A presença ou ausência de sinais meníngeos e o exame da fontanela são etapas fundamentais do exame neurológico. Infecção do sistema nervoso central causando crises convulsivas associadas à febre devem ser descartadas, especificamente encefalite ou meningite (GUERREIRO, 2002).

As CF geralmente não têm efeitos negativos importantes no desenvolvimento cognitivo e motor. Por outro lado, também não são associadas a risco aumentado de prejuízo intelectual. A maioria das crianças com CF apresenta apenas um único episódio durante a vida. O restante pode apresentar recorrência e, pode-se dizer que 70% das crianças terão apenas uma crise, 20% delas terão duas CFs, e apenas 10% terão chance de ter várias CFs(GUERREIRO, 2002). 

A questão que se coloca na prática clínica é quem são as crianças que poderão ter várias CFs. Isto é importante, pois é para este grupo que o tratamento profilático poderá ser considerado (GUERREIRO, 2002).O uso da profilaxia com anticonvulsivantes tem controvérsias na literatura, porém não são rotineiramente recomendados tanto em crises simples, como nas complexas, uma vez que seus efeitos colaterais superam os benefícios dessa prática (ALENCAR, 2015).

Guerreiro et al. (1992) propõem a profilaxia anticonvulsivante nas seguintes condições: na presença de desenvolvimento neurológico anormal; quando a convulsão febril é complicada ou seguida por anormalidades neurológicas transitórias ou persistentes; ou quando há história familiar imediata de epilepsia. Feita a opção por tratamento, há atualmente duas escolhas: profilaxia contínua com fenobarbital ou valproato e profilaxia intermitente com diazepam. 

O objetivo deste trabalho é relatar o manejo clínico e terapêutico de paciente com diagnóstico de Crise Convulsiva de origem Febril no Hospital e Maternidade São José (HMSJ), no município de Colatina, Espírito Santo (ES). 

DESCRIÇÃO DO CASO

O paciente do caso trata-se de D.C.F., 1 ano e 8 meses de idade, sexo masculino, proveniente de Colatina – ES. Acompanhado pela a mãe, a criança compareceu ao pronto-atendimento pediátrico do HMSJ com quadro de coriza associada a febre de 39ºC e relato de crise convulsiva do tipo tônico-clônica há aproximadamente 12 horas, manejado em outro serviço. 

Durante a avaliação, a mãe informou a ausência de outros sinais e sintomas e presença de eliminações fisiológicas. Ademais, relatou ocorrência prévia de crise convulsiva em janeiro de 2021, também associada a quadro febril. Ao exame físico, a criança apresentava-se em bom estado geral, afebril, com ausência de sinais meníngeos e estável hemodinamicamente. 

O plantonista optou por internação hospitalar e realização de exames laboratoriais para melhor investigação clínica. Foram prescritos sintomáticos e diazepam em caso de nova crise. Após investigação laboratorial, descartou-se a possibilidade de distúrbios hidroeletrolíticos e infecção bacteriana associada. 

Diante do caso, em decisão conjunta com a mãe, preferiu-se aguardar avaliação e parecer do neuropediatra, profissional disponível no serviço, para melhor seguimento terapêutico. Durante a realização desse trabalho, a criança encontrava-se na unidade hospitalar, em aguardo de parecer da equipe de neurologia, apresentando normotermia e ausência de intercorrências, sendo seu episódio de crise convulsiva associado a origem febril. 

DISCUSSÃO

Neste trabalho descrevemos o caso clínico de episódio convulsivo do tipo tônico-clônica associado a quadro febril. Devido à recorrência de nova crise em menos de um ano, optou-se por avaliação de neuropediatra para melhor seguimento. Como descrito, crises epilépticas são mais comuns do que se imagina e cerca de 9% da população apresentará pelo menos uma crise ao longo da vida. Contudo, corresponde-se a um evento dramático na vida da criança e de seus familiares.

Durante a avaliação, descartou-se prováveis causas graves, como a presença de distúrbios hidroeletrolíticos e infecções. Somado a isso, a criança apresentava estabilidade clínica e ausência de sinais meníngeos. Todavia, com a disponibilidade de avaliação por profissional neuropediatra, optou-se pelo parecer do mesmo, a fim de garantir maior tranquilidade para a mãe e provável seguimento ambulatorial para análise de instituição de terapia profilática. 

Resumidamente, o baixo limiar do córtex cerebral em desenvolvimento, a susceptibilidade da criança a infecções, a propensão a ter febre alta e um componente genético afetando o limiar convulsígeno são fatores que se combinam e justificam, porque a CF é um fenômeno da primeira infância e é sobrepujado com o crescimento. Estudos clínicos e experimentais demonstram que o cérebro imaturo apresenta maior susceptibilidade a convulsões. O baixo limiar provavelmente decorre da combinação de excitação aumentada e inibição diminuída, além de diferenças maturacionais nos circuitos subcorticais, que justificam a ocorrência da CF (GUERREIRO, 2002).

A recorrência pode vir a acontecer, a questão que se coloca na prática clínica é quem são as crianças que poderão ter várias CFs. Isto é importante, pois é para este grupo que o tratamento profilático poderá ser considerado, tendo em vista os malefícios causados a longo prazo pelo uso de antivulsivantes como, déficit de atenção e comprometimento da memória. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A convulsão febril é definida como uma crise convulsiva provocada pelo aumento súbito da temperatura corporal e não se caracteriza como síndrome epiléptica. Possui vários fatores desencadeantes e tem evolução benigna, independentemente do uso de medicações, que atuam apenas prevenindo recorrências.

REFERÊNCIAS

ALENCAR, S. P. D. (2015). Convulsão febril: aspectos clínicos e terapêuticos.

ANTONIUK, SA. Convulsão febril – Como o pediatra deve agir? J ParanPediatr. 2001;2(3):69-70.

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GUERREIRO, M. M. (2002). Tratamento das crises febris. Jornal de Pediatria78, S9-S13.

LAMBERTUCCI JR. Febre. In: Lopez M, Laurentys-Medeiros J, editor. Semiologia médica: as bases do diagnóstico clínico. 4ª ed. Rio de Janeiro: Livraria e Editora Revinter; 2004. p.66-77.

NICOLE-CARVALHO, V., & Henriques-Souza, A. M. D. M. (2002). Conduta no primeiro episódio de crise convulsiva. Jornal de pediatria78, S14-S18. Pereira, A. C. CRISE CONVULSIVA.

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1Acadêmica de Medicina do Centro Universitário (UNESC) do Espírito Santo
2Médico da Santa Casa de Misericórdia de Colatina – Espírito Santo