REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202601261948
Tatiane Aragão Silva Albuquerque1
RESUMO
Este artigo propõe uma nova perspectiva sobre a negociação tática em operações policiais de alta complexidade, transcendendo a análise meramente instrumental. A partir de um estudo de caso qualitativo com operadores do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da Polícia Militar de Sergipe (PMSE), cujas percepções foram coletadas por meio de entrevistas e analisadas pela metodologia de Análise de Conteúdo, analisamos a relação da negociação tática enquanto estratégia de enfrentamento (coping) do estresse como forma de auxiliar na performance operacional do grupo de intervenção no contexto de intervenção tática. O estudo revela que a negociação tática fornece elementos que contribuem para a construção de um ambiente com maior previsibilidade e sensação de controle. As percepções dos operadores, que narram uma transição histórica de um modelo isolado para um integrado, confirmam a influência da negociação tática no gerenciamento do estresse contribuindo na preparação do ambiente para o eventual emprego da força, sejam letais ou não, com o objetivo principal de preservar vidas.
Palavras-chave: Negociação Policial. Operações especiais. Estresse. Negociação Tática. Hermenêutica. Estratégias de enfrentamento. Coping.
1 INTRODUÇÃO
Em um contexto social em que as instituições de Segurança Pública têm sido constantemente demandas para ocorrências de crises policiais, a atuação das forças policiais de elite tem se tornado cada vez mais essencial em situações de eventos críticos, como situações com vítimas e/ou reféns, crises suicidas, mentalmente perturbados e ações de grupos armados. Diante da complexidade dessas ocorrências, a negociação policial emerge como uma ferramenta fundamental, não apenas para a resolução pacífica das crises policiais, mas também como estratégia de preservação da vida e do equilíbrio operacional.
A negociação em contextos de crise é frequentemente enquadrada por um viés instrumental, como um conjunto de técnicas e táticas destinadas a um fim pragmático: a resolução de um impasse com a preservação da vida. Contudo, essa perspectiva positivista, embora necessária, revela-se insuficiente para capturar a complexidade do fenômeno. O que ocorre quando a palavra se torna suporte tático em um “teatro da crise”? Que tipo de construção é produzida nesse diálogo assimétrico? E como a subjetividade dos envolvidos é moldada e orientada por meio do discurso?
Utilizando como base empírica um estudo qualitativo sobre as percepções de operadores táticos de elite de Sergipe, propomos uma nova perspectiva sobre a negociação tática enquanto suporte psicológico ao grupo de intervenção. O estudo original, baseado em entrevistas com membros do Batalhão de Operações Policiais Especiais de Sergipe (BOPE PMSE), revela uma fascinante lacuna: uma prática rica e intuitiva que suplanta aspectos técnicos doutrinários. A percepção do negociador como um pilar de estabilidade psicológica para a própria equipe tática são sintomas de uma realidade operacional que desafia a rigidez dos manuais.
As operações policiais envolvendo gerenciamento de crises demandam estratégias complexas que conciliem precisão técnica, controle emocional e preservação da vida. Em contextos críticos, como situações com reféns, vítimas, tentativas de suicídio ou surtos psicóticos, a atuação das equipes táticas precisa ser pautada não apenas pela força, mas também por competências comunicacionais específicas, como a negociação policial. Essa ambiência de crise, por tais particularidades, são caracterizados por intensa carga cognitiva e elevados níveis estresse. As estratégias enfrentamento do estresse (coping) são técnicas que atuam para mitigar os efeitos do estresse.
A negociação em contextos táticos constitui um campo emergente de interesse acadêmico e prático, especialmente quando articulada à atuação de unidades especializadas, como o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Nesse cenário, a negociação não é apenas um recurso complementar, mas uma ferramenta estratégica capaz de influenciar diretamente o desfecho de uma crise, seja pela resolução pacífica ou pela preparação para uma intervenção tática.
Diante disso, compreender como os operadores e negociadores do BOPE PMSE percebem, vivenciam e articulam esse tipo de negociação torna-se essencial para o aprimoramento das práticas operacionais. Além disso, investigar os efeitos da presença do negociador sobre o estado emocional dos operadores e o nível de integração entre as equipes é um passo importante para consolidar uma doutrina de atuação mais integrada, eficaz e segura.
Neste contexto, o presente artigo tem como objetivo analisar as percepções de operadores táticos sobre a negociação tática em operações policiais especiais, bem como identificar os impactos psicológicos da presença do negociador e os níveis de integração entre as equipes de negociação e de intervenção. Para isso, foram utilizadas entrevistas com integrantes do BOPE PMSE e analisadas segundo a metodologia de Análise de Conteúdo proposta por Bardin (2011), permitindo a categorização sistemática das falas e a construção de sentidos compartilhados.
2 METODOLOGIA
Esta pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, com enfoque na compreensão das percepções, práticas e integrações operacionais relacionadas à negociação tática no contexto de atuações do Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar de Sergipe. A abordagem qualitativa foi escolhida por possibilitar a compreensão aprofundada de discursos, experiências subjetivas e práticas institucionais, fundamentais para os objetivos deste estudo.
Participaram da pesquisa dez profissionais vinculados ao BOPE PMSE, entre operadores, sargentos e líderes de equipe, todos com experiência prática em ocorrências críticas, incluindo situações de gerenciamento de crise. Os entrevistados foram identificados (Apêndices A a I e Entrevista 2), a fim de garantir a confidencialidade de suas identidades e funções específicas dentro da corporação.
A seleção dos participantes foi intencional, considerando o critério de envolvimento direto com negociações táticas, técnicas ou intervenções em situações de crise. A diversidade de funções (operadores, snipers, escudeiros) foi intencionalmente preservada para enriquecer a variedade de perspectivas analisadas.
O principal instrumento de coleta de dados foi uma entrevista semiestruturada, composta por questões abertas, organizadas em um roteiro que abordava as seguintes dimensões:
- Função e experiência operacional;
- Tipos de ocorrências atendidas;
- Conceituação de negociação técnica, tática e preparatória;
- Experiências com gerenciamento de crise;
- Percepções sobre a integração entre operadores e negociadores;
- Impactos psicológicos da presença de negociadores.
As entrevistas foram transcritas na íntegra e organizadas em apêndices, preservando a oralidade e autenticidade das falas.
As entrevistas foram realizadas individualmente, em ambiente seguro e com o consentimento dos participantes. Em alguns casos, os relatos foram produzidos por meio de questionários escritos, preenchidos com apoio do pesquisador.
O material foi posteriormente transcrito e revisado, compondo um corpus textual que reflete com fidelidade as experiências vivenciadas pelos profissionais do BOPE. Todos os dados foram tratados sob critérios de anonimato, conforme os princípios éticos da pesquisa científica.
Para análise dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo segundo a metodologia proposta por Bardin (2011), composta por três fases:
- Pré-análise: leitura flutuante dos depoimentos, organização dos documentos e definição de unidades de registro.
- Exploração do material: codificação, categorização e construção de núcleos de sentido com base nos temas recorrentes das falas.
- Tratamento dos resultados e interpretação: elaboração de inferências e cruzamento dos dados com o referencial teórico, identificando padrões, divergências e significados latentes.
As categorias emergentes incluíram: compreensão sobre negociação tática, diferenças entre negociação técnica e tática, interpretação da negociação preparatória, impactos psicológicos da negociação e nível de integração entre negociadores e operadores.
A pesquisa seguiu os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Todos os participantes assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo o direito à confidencialidade, à desistência a qualquer momento e ao sigilo das informações prestadas.
2.1 Resultados
Os resultados da presente pesquisa revelam percepções ricas e complexas dos operadores do BOPE PMSE em relação à negociação, evidenciando que, embora este campo esteja em crescimento prático, ainda está em processo amadurecimento institucional. De modo geral, a negociação foi compreendida como elemento essencial nas operações de gerenciamento de crise, sendo valorizada não apenas como técnica de persuasão, mas como recurso estratégico que contribui decisivamente para a segurança da equipe, do refém ou vítima e até do próprio causador do evento crítico. Os entrevistados foram unânimes ao afirmar que a negociação “prepara o terreno”, cria previsibilidade e permite intervenções mais seguras, sendo considerada um fator que potencializa o sucesso da operação, especialmente quando há risco iminente à vida.
As falas dos operadores apontam que há uma distinção clara entre negociação técnica e negociação tática. A técnica ou real é reconhecida como o esforço de convencimento via diálogo direto com o causador da crise, enquanto a negociação tática ou preparatória quando o diálogo já não evolui, passando a atuar em sinergia com a equipe de intervenção para criar as melhores condições de entrada. Na prática diversos operadores relataram ocorrências em que a negociação tática manteve o causador do evento crítico verbalmente envolvido, coletando informações e distraindo-o enquanto o time tático se preparava para a intervenção, evidenciando um cenário híbrido. Tal constatação indica uma migração funcional entre os dois modelos o que demonstra flexibilidade tática.
Um dado que chama atenção é o desconhecimento do termo “negociação preparatória” por parte dos entrevistados. Embora muitos operadores nunca tenham escutado a expressão, a maioria compreendeu intuitivamente seu significado, associando-o ao momento inicial da crise: levantamento de informações, observação do cenário e briefing entre os policiais envolvidos. Isso evidencia que, em que pese, conheçam a negociação tática, o termo sinônimo, negociação preparatória ainda é de pouco conhecimento. O desconhecimento de sua formalização pode implicar em dificuldades na padronização de procedimentos e o planejamento estratégico da operação, uma vez que esse termo pode ser utilizado na linha de frente e em documentos procedimentais.
Outro aspecto relevante emergente da análise foi a influência da presença do negociador no preparo psicológico dos operadores. Em praticamente todas as entrevistas, os participantes relataram que a atuação do negociador promove maior confiança, tranquilidade e clareza de ação. O negociador é percebido não apenas como um elemento operacional, mas também como figura de apoio emocional no teatro da crise. Ao transmitir informações qualificadas e manter contato constante com o time, ele permite ao operador se concentrar em sua função, reduzindo a ansiedade típica de contextos de alta imprevisibilidade. Esta dimensão, raramente discutida na literatura, merece ser considerada como parte fundamental da doutrina de negociação, uma vez que o desempenho técnico está profundamente vinculado à regulação emocional em situações-limite.
Apesar dos avanços na integração entre equipes de negociação e intervenção, os dados indicam que essa relação ainda se mostra em construção em muitos aspectos. A descontinuidade de treinamentos conjuntos, a comunicação limitada a momentos críticos e a falta de uma linguagem operacional comum dificultam a construção de uma identidade integrada. Vários operadores relataram que só passaram a confiar verdadeiramente na negociação após vivenciar na prática sua eficácia, um dado que evidencia a necessidade de experiências compartilhadas como forma de aprendizagem e quebra de barreiras institucionais. A metáfora esportiva utilizada por um dos participantes, “como em um time de futebol, cada um tem sua função, mas o resultado depende do entrosamento coletivo”, sintetiza a lógica de interdependência necessária entre as duas frentes.
Portanto, os resultados revelam que a negociação tática é amplamente valorizada no contexto do BOPE PMSE, porém ainda opera em uma zona de consolidação conceitual e procedimental. A prática já se encontra incorporada ao cotidiano das operações, mas sua formalização, por meio de protocolos, manuais operacionais e módulos formativos, ainda está em processo de construção.
3 Negociação Tática no Gerenciamento de Crises
A negociação tática no contexto do gerenciamento de crises configura-se como uma modalidade especializada de negociação que transcende o mero diálogo persuasivo com o causador do evento crítico (CEC). Ela assume papel estratégico ao atuar diretamente na preparação do ambiente operacional para uma possível intervenção por parte das forças táticas, conforme destacam Silva, Silva e Roncaglio (2021). Essa dimensão da negociação, por vezes também denominada “negociação preparatória”, é essencial para otimizar as condições de segurança e eficiência das ações a serem empregadas, inclusive quando envolve o uso proporcional da força.
De acordo com os autores, entre as principais atribuições do negociador tático (EN) estão a manutenção do diálogo com o CEC mesmo após a definição da solução tática; a coleta de informações operacionais fundamentais, como o posicionamento de vítimas e ofensores, as características do ambiente físico e a identificação de lideranças ou possíveis tentativas de disfarce; além do direcionamento estratégico tanto dos reféns quanto do CEC para pontos que favoreçam a atuação do Grupo de Intervenção (GI). Ademais, destaca-se a necessidade de manter o CEC em constante interação verbal ou, conforme a situação tática, promover pausas estratégicas bem como a adoção de concessões que reforcem a sensação de controle por parte do CEC, tornando-o potencialmente mais vulnerável.
Ao longo das entrevistas o estudo de caso revela que os operadores distinguem, na prática, entre uma negociação “técnica” (o diálogo direto) e uma “tática” (o suporte à intervenção), mas desconhecem o termo sinônimo “negociação preparatória”, embora sua prática (levantamento de informações, briefing) seja universalmente reconhecida como intuitiva e essencial. Para Silva, Silva, Ronclaglio (2021, p. 146): “A negociação tática tem como uma de suas funções atuar na preparação do ambiente para uma ação tática, por isso também é chamada de negociação preparatória”. Para Silva, Silva, Ronclaglio (2021, p. 146) as ações a serem tomadas pela EN durante a negociação tática:
a) Prosseguir com os contatos com o CEC, mesmo que a solução tática já esteja definida, visto que ainda podem trazer várias vantagens. Inclusive, numa situação hipotética, na fase da preparação para a ação tática, o CEC pode eventualmente propor sua rendição, o que já não ensejaria mais o uso das demais alternativas táticas disponíveis e , assim, a crise se encerraria sem riscos;
b) Coletar informações importantes; o negociador precisa se esforçar para apurar elementos vitais ao seguimento das ações planejadas, como:
- Posicionamento do CEC e dos reféns /vítimas no ponto crítico;
- Identificação de líderes (quando for o caso), atentando para a descrição física e eventuais trocas de vestuário por parte de reféns ou CEC (pode indicar uma tentativa do causador se passar por um refém);
- Examinar a estrutura física do ponto crítico, principalmente quanto a pontos de acesso ou fuga (portas, janelas etc.), quanto à existência de pontos barricados, entre outros detalhes que sejam importantes ao trabalho do GI.
c) Manter diálogo constante e sem pausas com o CEC, deixando-o sempre em atividade, ou, por outro lado, estimular pausas estratégicas. Isso dependerá das necessidades do grupo de intervenção, conforme ação tática escolhida;
d) Direcionar os reféns/ vítimas para locais menos perigosos;
e) Direcionar o CEC para locais ou pontos pré-determinados pelo GI ou pelos atiradores de precisão, facilitando as necessárias ações táticas;
f) Fazer concessões significativas que induzam o CEC a acreditar que vai atingir seus objetivos (ficando menos atento e mais vulnerável);
g) Coletar imagens com discrição e cuidado, pois caso o CEC perceba tal procedimento, pode adotar alguma medida extrema.
Tal atuação não é apenas acessória, mas constitui elemento essencial do planejamento operacional. A negociação tática fornece subsídios valiosos para a atuação do GI, uma vez que amplia o conhecimento situacional e possibilita ajustes dinâmicos à estratégia, com vistas à preservação de vidas e à resolução eficiente da crise. Silva e Roncaglio (2020) reforçam essa perspectiva ao afirmarem a importância do papel tático desempenhado pelo negociador, cuja função estende-se além do convencimento, assumindo um caráter cooperativo com as forças de intervenção.
Interessantemente, estudos de campo indicam que os operadores, mesmo quando não nomeiam formalmente a prática como “negociação preparatória”, reconhecem-na como uma etapa intuitiva e indispensável, geralmente relacionada aos momentos de briefing, levantamento de dados e adequação da comunicação aos objetivos operacionais. A distinção entre negociação “técnica”, voltada ao diálogo direto com o CEC, e a “tática”, orientada ao suporte da intervenção, emerge, assim, como um saber prático consolidado, embora ainda carente de sistematização conceitual no vocabulário cotidiano dos profissionais de segurança.
Nesse sentido, a negociação tática policial tem como uma de suas missões prover suporte ao grupo de intervenção policial, preparando o ambiente para o necessário emprego da força, sejam letais ou não.
4 Atuação do Grupo de Intervenção (Time Tático) e gestão de risco operacional
A atuação do Grupo Tático em contextos de crise revela um espaço onde a racionalidade técnica se encontra em tensão com a imprevisibilidade do comportamento humano. Neste cenário, o conceito de risco operacional assume centralidade, não apenas como fator contingencial, mas como elemento estruturante da própria tomada de decisão. Segundo Aguilar (2017), a operacionalização tática parte de uma análise situacional de risco, pautada pela coleta estratégica de informações e pela aplicação da chamada Negociação Tática. Este modelo de atuação visa converter uma situação classificada inicialmente como de risco inaceitável em uma condição de risco aceitável, estabelecendo uma lógica de mitigação dinâmica, onde o risco não é eliminado, mas reconfigurado.
Na negociação real busca-se a resolução da crise pelo convencimento do negociador, mas também envolve papel tático de extrema relevância. Um exemplo disso é o prolongamento do tempo, a fim de que a equipe de prepare para uma entrada tática, como também coleta de dados de forma precisa, identificação de alvo e avaliações de ameaças, hábitos de exposição do tomador, informações essas que na maioria das vezes somente são conseguidas pelo elemento negociador. (Aguilar, 2017, p. 103).
Essa reconfiguração remete diretamente à matriz de Probabilidade e Impacto, também referida por Aguilar (2017), na qual se busca graduar o nível de risco em função de variáveis contextuais. Trata-se de um instrumental de origem clássica na gestão de risco, com raízes em autores como Kaplan e Garrick (1981), que enfatizam que “risco é a integração entre a probabilidade de um evento e a severidade de suas consequências”. Tal definição encontra eco na prática tática policial, especialmente quando o trinômio homem–TTP (Táticas, Técnicas e Procedimentos) –sistema de desempenho humano (Aguilar, 2010) é assumido como núcleo analítico para a gestão do risco calculado.
No entanto, é preciso reconhecer que esse “cálculo” é sempre incompleto e, em alguma medida, ficcional. Como já problematizava Ulrich Beck (2010) em sua teoria da sociedade de risco, a tentativa moderna de controlar o incontrolável, por meio de métricas, previsões e simulações, não elimina o risco, apenas o redistribui. Assim, mesmo os operadores mais treinados, ancorados em protocolos precisos, lidam com variáveis imprevisíveis, entre elas o fator humano do tomador de refém, as reações das vítimas, e o comportamento do ambiente. Aguilar (2017), diz que:
A entrada tática se afigura como última alternativa tática, ultima ratio. ou seja, quando todas as outras alternativas táticas não forem suficientes para lavar o refém, porque carrega consigo um risco todo próprio, sendo a perfeição algo ilusório (p.106).
Diante disso, a negociação tática aparece como uma alternativa racionalizada para prolongar o tempo, reduzir tensões e ampliar a margem de controle estratégico. Conforme salienta Aguilar (2017), essa negociação não se limita ao discurso persuasivo; ela desempenha papel crucial na obtenção de dados vitais para a intervenção, como padrões de exposição do tomador, hábitos, ameaças e possibilidade de entrada. Trata-se de uma dimensão operacional que se ancora tanto na inteligência técnica quanto na sensibilidade humana, refletindo o que Clausewitz (1832) já apontava no campo da guerra: “a fricção entre o planejado e o real é inevitável”.
Ainda que a entrada tática (ou “quarta alternativa”) se configure como ultima ratio, última opção diante do fracasso das demais tentativas, ela carrega consigo um risco “todo próprio”, nas palavras de Aguilar (2017, p. 106). A ação direta, embora tecnicamente estruturada, é sempre permeada pela imperfeição e pelo imprevisto. Nesse sentido, a decisão de intervir taticamente não é apenas técnica, mas também ética e política, pois envolve a ponderação entre o valor da vida e a legitimidade da força.
Por fim, observa-se que o Grupo Tático opera dentro de um campo onde o risco não é apenas mensurado, mas constantemente interpretado, reavaliado e ressignificado. A gestão do risco operacional, portanto, não é um mero exercício técnico, mas um processo interpretativo, onde a experiência, o julgamento e o contexto pesam tanto quanto as estatísticas. Em suma, a atuação tática é um exercício permanente de equilíbrio entre a racionalidade instrumental e a contingência do real, entre o possível e o necessário.
4.1 Estresse e estratégias de Coping em contextos críticos
Em contextos policiais críticos, como nas chamadas “ocorrências letais”, o risco iminente à vida altera substancialmente a dinâmica de atuação, exigindo respostas que vão além das capacidades técnicas e operacionais. A compreensão do estresse nesses cenários passa a ser fundamental, uma vez que ele não apenas modifica a percepção, mas também interfere diretamente na performance e na tomada de decisão (Santos, 2021; Calaça & Menezes, 2022). De acordo com Silva et al. (2021), tais situações exigem uma atuação integrada e não meramente dificultosa por parte de policiais altamente treinados, realçando o caráter multifacetado da crise no campo da segurança pública.
O estresse, conforme abordado por Monroe (2008) e Santos (2010), deve ser compreendido como uma resposta psicofisiológica diante da percepção de que as demandas ambientais superam os recursos adaptativos do indivíduo. Essa definição dialoga com a tradição interacionista proposta por Lazarus (1973), posteriormente sistematizada em sua teoria do coping com Folkman (1984), onde o enfrentamento é entendido como uma série de transações entre o sujeito e o ambiente, mediadas por avaliações cognitivas da situação estressora. O modelo unificado de estresse e performance de Grossman, citado por Santos (2021), corrobora essa perspectiva ao indicar que o estresse não apenas desencadeia reações fisiológicas, mas também altera profundamente a percepção da realidade, distanciando a experiência real de confronto da imagem construída culturalmente por filmes ou narrativas heroicas.
Em situações de estresse elevado ou de risco de morte, corpo e mente estarão em estado de hiper atenção (p.25)
O estresse muda a percepção, restringe a atenção, muda o processamento das informações visuais e em geral prejudica a tomada de decisão no contexto do confronto moderno (ambiente urbano com ameaças em várias direções). A melhor ferramenta contra isso ainda é o treinamento adequado a experiência prática no ambiente caótico da vida urbana. (CALAÇA, 2022, p.25).
A teoria do coping, portanto, emerge como uma estrutura explicativa robusta para a análise do comportamento humano sob pressão. Lazarus e Folkman (1984) propõem que o coping envolve esforços cognitivos e comportamentais orientados para a regulação da tensão, seja por meio da resolução do problema ou da modulação da resposta emocional. Em contextos policiais, essas estratégias adquirem especial relevância, visto que a capacidade de atuar sob alto estresse está diretamente relacionada à sobrevivência própria e de terceiros. Nesse cenário, Calaça e Menezes (2022) destacam que o estresse elevado induz um estado de hiperatenção que, embora adaptativo em certa medida, pode comprometer a tomada de decisão em ambientes urbanos caóticos, onde as ameaças são múltiplas e assimétricas. Ainda, nesse contexto:
O estresse pode ser entendido como um conjunto de reações mentais e corporais que ocorre diante da percepção que Demandas internas ou externas excedem a capacidade adaptativa do indivíduo, suscitando a ativação de recursos biológicos, sociais e psicológicos para o retorno ao (ou busca do) estado de bem-estar subjetivo (MOROE, 2008; SANTOS, 2010. p. 208).
Assim sendo, a regulação do estresse por meio de estratégias de enfrentamento é, então, não apenas desejável, mas essencial. Como observado por Somerfield e McCrae (2000), tais estratégias impactam significativamente a forma como o estresse é experimentado e processado, podendo atenuar ou agravar os efeitos adversos da situação. Isso é especialmente pertinente quando se considera que a eficácia do coping está condicionada não apenas à natureza da ameaça, mas também ao treinamento prévio, às experiências acumuladas e ao suporte institucional disponível ao profissional (Rocha & Araújo, 2017).
Como salientado por Lazarus (1999), as respostas de enfrentamento são uma série de transações estabelecidas entre o indivíduo e o ambiente, em que se buscam regular estados de desajuste, de mal-estar ou de inadaptação, alterando as relações do sujeito com seu ambiente percebido. (p.210).
Ademais, ao se conceber o enfrentamento como ação regulatória e situacional, há que se destacar sua função de neutralizar, ainda que temporariamente, o caráter desorganizador dos eventos críticos. O sujeito, ao empregar recursos internos e externos, tenta restabelecer uma sensação de controle, mesmo que parcial, sobre o ambiente (Lazarus, 1999). No entanto, como bem pontua Aguilar (2021), o enfrentamento em contextos complexos não deve ser reduzido a uma simples resposta adaptativa individual. Trata-se de uma construção coletiva, muitas vezes sustentada por rotinas institucionais, doutrinas de atuação e valores partilhados no grupo profissional.
Assim, a análise do estresse em contextos policiais e das estratégias de enfrentamento utilizadas convida a uma leitura que integra teoria psicológica, prática institucional e dinâmicas sociais mais amplas. O enfrentamento do estresse, nesse campo, não pode ser visto como um fenômeno apenas intrapsíquico, mas como uma manifestação concreta da interface entre sujeito, instituição e sociedade.
4.2 Previsibilidade e sensação de Controle na modulação do estresse operacional
A modulação do estresse operacional está profundamente enraizada em variáveis cognitivas e emocionais, entre as quais se destacam a previsibilidade e a sensação de controle. Segundo Sapolsky (2010), a previsibilidade representa um fator crucial na atenuação da resposta ao estresse. A resposta de estresse prepara o corpo para uma explosão de consumo energético imediata. Já o estresse psicológico significa passar pelo mesmo processo sem que exista nenhuma razão física para isso. (Sapolsky, 2010, p. 281). Nesse cerne, quando um indivíduo é capaz de antecipar um estressor, mesmo que não consiga evitá-lo, sua resposta fisiológica tende a ser menos intensa. A previsibilidade torna os estressores menos estressantes (Sapolsky, 2010, p.284). Isso ocorre porque a previsibilidade não apenas fornece uma sensação implícita de segurança ao delimitar o desconhecido, como também permite que o organismo otimize estratégias de enfrentamento antes mesmo que o estressor se manifeste plenamente. Sapolsky, 2010, afirma que:
Alguns poderosos fatores psicológicos podem por si mesmos detonar uma resposta de estresse ou fazer outro estressor parecer mais estressante do que é: ausência de controle ou imprevisibilidade, ausência de válvulas de escape para a frustação ou de pontos de apoio, percepção de que as coisas estão piorando. (p.289)
Nesse prisma, pode-se entender que a familiaridade adquirida por meio da repetição, como no caso dos militares noruegueses submetidos a treinamentos com saltos de paraquedas, evidencia que, diante de estímulos constantes e previsíveis, o sistema de alarme do corpo deixa de operar com a mesma intensidade (Sapolsky, 2010). Essa habituação ilustra como a exposição contínua a um mesmo tipo de desafio, quando mediada pela previsibilidade, pode transformar um fator inicialmente estressante em um elemento gerenciável, reduzindo a ativação antecipatória da resposta ao estresse.
Outra variação da ajuda da previsibilidade é que os organismos irão acabar se habituando a um estressor se este for aplicado seguidamente. Pode ser que ele bagunce da mesma forma o equilíbrio alostático na enésima vez em que for impingido, mas então já será um estressor familiar e previsível, e uma resposta de estresse menor será ativada. Uma clássica demonstração desse fato envolveu homens do exército norueguês sob treinamento de paraquedas- à medida que o processo passava de novidade capaz de deixar o cabelo em pé para algo que eles conseguiriam fazer até dormindo, a resposta de estresse antecipatória foi de extrema a inexistente. (Sapolsky, 2010, p. 284).
Em paralelo, a percepção de controle se mostra igualmente poderosa na modulação do estresse. Tal como ressalta Sapolsky (2010), não é necessariamente o exercício do controle em si que importa, mas a crença de que se detém controle sobre uma determinada situação. A ilusão de controle pode, por si só, minimizar a percepção de ameaça e, consequentemente, reduzir os efeitos fisiológicos do estresse. Um exemplo cotidiano dessa dinâmica pode ser observado na comparação entre o medo de voar e o medo de dirigir: apesar de os aviões serem estatisticamente mais seguros, muitas pessoas sentem-se mais vulneráveis durante um voo devido à ausência de controle direto sobre a situação.
Concomitantemente, Sapolsky (2010) afirma: “a perda de controle e a falta de dados de previsibilidade estão intimamente relacionados. Alguns pesquisadores já enfatizaram isso, apontando o ponto em comum é o organismo ser submetido à novidade. (p.288)”, em outros termos, o entrelaçamento entre a imprevisibilidade e a perda de controle revela um ponto crítico na fisiologia do estresse: ambos os fatores promovem um estado de novidade percebida, que aciona intensamente os sistemas de alarme do organismo. A ausência de dados claros, o desconhecimento da duração ou da intensidade de um evento estressor, e a impossibilidade de influenciar seus efeitos, criam um cenário propício à ativação exacerbada do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), com consequências para a saúde física e mental do indivíduo.
Além disso, como apontado por Calaça e Menezes (2022), quando o resultado de uma ação é previsível, sobretudo se for positivo, os mecanismos de alarme do organismo tendem a operar com menor intensidade. “Nós seres humanos, também lidamos melhor com estressores quando temos escapes para as frustações-bater na parede, correr, encontrar conforto num hobby. Somos até mesmo cerebrais o bastante para imaginarmos tais escapes e obter algum alívio”. (Sapolsky, 2010, p. 281). Essa observação contribui para reforçar a importância da previsibilidade como fator de proteção contra o desgaste crônico promovido pelo estresse. Em contextos operacionais, como ambientes militares, policiais ou hospitalares, garantir ao profissional informação suficiente sobre as condições a enfrentar, bem como desenvolver treinamentos que promovam uma sensação de domínio sobre o ambiente, pode ser decisivo na manutenção da resiliência psicológica.
Assim, “Informações de previsibilidade nos permitem saber qual é a estratégia para lidar com a situação que tem mais chances de funcionar bem durante um estressor (Sapolsky, 2010, p.286).”. Portanto, compreende-se que estratégias voltadas à redução da imprevisibilidade e ao fortalecimento da sensação de controle, ainda que simbólica, devem ser consideradas componentes centrais na gestão do estresse em contextos de alta demanda. O autor acrescenta que: Informações apropriadas nos fazem reduzir a resposta de estresse inclusive durante o período de dor (p.286). Nesse sentido, a eficácia dessas abordagens está em consonância com a compreensão contemporânea do estresse como um processo não apenas fisiológico, mas profundamente influenciado por fatores cognitivos e subjetivos.
5 A Transformação da Incerteza em Previsibilidade
Um aspecto crucial revelado pelas percepções dos operadores é a transformação que a negociação operacionaliza: a conversão da incerteza em previsibilidade. Os operadores táticos, cuja função é intervir em ambientes desconhecidos e potencialmente hostis, vivem sob uma pressão psicológica intensa. A negociação, ao “coletar dados sobre a dinâmica do ambiente, comportamento do CEC, quantidade de pessoas presentes, número de portas e janelas, rotas de fuga e outras variáveis relevantes”, transforma o caos em ordem informacional. Essa transformação não é meramente técnica; é ontológica. O espaço de crise deixa de ser um vazio ameaçador e se torna um território mapeado, cognoscível.
De um ponto de vista hermenêutico, essa transformação representa a antecipação de um horizonte. Os operadores, através das informações fornecidas pelo negociador, conseguem pré-compreender o ambiente antes de nele entrar. Essa pré-compreensão não é um conhecimento completo, seria impossível, mas uma estrutura de expectativas que permite a ação orientada.
A negociação tática, nesse sentido, funciona como uma hermenêutica aplicada. Ela não apenas coleta informações; ela as interpreta e as transforma em narrativas operacionais que os operadores podem compreender e sobre as quais podem agir. Quando o negociador “conseguiu distrair o causador, reduzir a influência de armas e favorecer movimentações internas”, ele não está apenas manipulando o ambiente; está reescrevendo a narrativa da crise de forma a favorecer um desfecho específico. Os operadores reconhecem que “muitos relataram casos concretos em que a negociação tática foi determinante para o sucesso da operação, inclusive em ocorrências prolongadas”, confirmando que essa reescrita narrativa é eficaz.
5.2 A Integração como Fusão de Horizontes
A integração, contudo, é vista como um processo em construção. A ênfase unânime na necessidade de “treinamentos conjuntos” como “pilar de previsibilidade” para gerar “ritmo, linguagem comum, doutrina e tomada de decisão alinhada” é profundamente hermenêutica. O treinamento conjunto não é apenas um exercício técnico; é um ato de construção de um mundo comum, uma fusão de horizontes pré-crise. É no “jogo” compartilhado do treinamento que a confiança mútua é edificada, permitindo que, na crise real, as equipes operem com base em um entendimento tácito e interdependente.
Gadamer (2022) enfatiza que a compreensão é um evento, não um processo que pode ser totalmente controlado ou padronizado. Da mesma forma, a integração entre negociadores e operadores não se resume a um protocolo. Ela deve ser vivida, experimentada, sedimentada na prática compartilhada. A metáfora do “time de futebol” utilizada pelos operadores, “cada um tem sua função, mas o resultado depende do entrosamento coletivo”, captura perfeitamente essa dimensão hermenêutica da integração. No futebol, como na negociação tática, o sucesso não vem de instruções rígidas, mas de uma compreensão mútua que é fortalecida através da prática repetida.
Os operadores reconhecem que “o treinamento conjunto é entendido como pilar de previsibilidade: é ele que constrói confiança mútua e garante que, quando a crise ocorre, as equipes já tenham ritmo, linguagem comum, doutrina e tomada de decisão alinhada”. Essa percepção revela uma profunda compreensão, ainda que intuitiva, de que a eficácia operacional não reside apenas em regras, mas em uma forma de ser-junto (Mitsein, no sentido heideggeriano) que é construída através da experiência compartilhada.
6 CONCLUSÃO
O verdadeiro desafio não é apenas criar protocolos mais detalhados, mas fomentar uma cultura organizacional que valorize a integração, o treinamento conjunto e, acima de tudo, a compreensão de que, no limite da crise, a palavra não é um instrumento, mas o próprio campo onde a vida e a morte são, em última instância, negociadas. A negociação policial, portanto, não é um apêndice técnico das operações; é seu coração hermenêutico, o espaço onde a compreensão mútua e a transformação da realidade através do discurso tornam possível a resolução pacífica da crise.
7 LIMITAÇÕES DO ESTUDO E SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS
Embora este artigo avance em uma nova perspectiva prática da negociação tática policial, é imperativo reconhecer suas limitações inerentes. A natureza qualitativa e o foco em um único, embora emblemático, estudo de caso, o BOPE PMSE, conferem profundidade, mas limitam a generalização dos achados. As percepções aqui analisadas refletem a cultura e a história de uma unidade específica, e a replicação em outros contextos operacionais, tanto nacionais quanto internacionais, seria um passo crucial para validar e refinar o arcabouço teórico proposto.
Diante disso, as sugestões para pesquisas futuras desdobram-se em três vertentes principais:
É fundamental expandir a base empírica. Pesquisas que comparem as práticas e percepções entre diferentes unidades de operações especiais e até mesmo entre diferentes países, poderiam revelar como a cultura organizacional e o contexto social moldam a prática da negociação. Estudos longitudinais, que acompanhem a evolução da doutrina e da integração em uma mesma unidade ao longo de vários anos, poderiam oferecer insights valiosos sobre como a confiança e a “linguagem comum” são efetivamente construídas ou erodidas.
Além disso, estudos que acompanhem operadores em diferentes fases de sua carreira, desde o treinamento inicial até a aposentadoria, poderiam revelar como a phronesis é adquirida, transmitida e sedimentada na cultura operacional. Seria particularmente valioso investigar como operadores mais experientes transmitem sua sabedoria prática aos mais novos, e se essa transmissão é facilitada ou dificultada pelas formalizações doutrinarias.
Para capturar a phronesis em ação, métodos de pesquisa mais imersivos são necessários. A etnografia, com observação participante em treinamentos e, quando possível, em cenários operacionais, poderia revelar as nuances da tomada de decisão em tempo real, indo além do que as entrevistas retrospectivas podem capturar. Estudos fenomenológicos focados na experiência vivida do negociador durante o diálogo, analisando a angústia, a intuição, a gestão emocional e os momentos de hesitação ou clareza súbita, aprofundariam a compreensão da negociação como um evento existencial e intersubjetivo.
Um desafio particular seria investigar o que Gadamer (2022) chama de “fusão de horizontes” em tempo real. Como os negociadores e os sujeitos em crise efetivamente constroem uma linguagem comum? Que sinais verbais e não-verbais indicam que uma fusão de horizontes está ocorrendo? Estudos que utilizem análise conversacional, análise do discurso e até mesmo análise de linguagem corporal poderiam revelar os mecanismos micro interacionais pelos quais a compreensão mútua é construída ou fracassa.
Finalmente, sugere-se expandir o diálogo para além do campo policial. Profissões que lidam com crises e que dependem fortemente da phronesis, como negociadores internacionais, mediadores de conflitos, psicólogos clínicos em situações de emergência e até mesmo cirurgiões em situações de urgência, poderiam oferecer perspectivas valiosas. Um estudo comparativo entre essas profissões poderia revelar padrões universais de como a sabedoria prática é desenvolvida, transmitida e formalizada (ou não) em diferentes contextos.
Em suma, o caminho a seguir exige um diálogo robusto e contínuo entre a teoria crítica e a pesquisa empírica rigorosa. Se a negociação é, de fato, o “coração hermenêutico” das operações de crise, é preciso continuar a auscultá-lo com a mesma seriedade com que se analisam as táticas de intervenção. As limitações deste estudo não representam falhas, mas convites a futuras investigações que possam aprofundar, questionar e refinar a compreensão da negociação como fenômeno humano, social e político.
REFERÊNCIAS
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Agradecimentos
Agradeço, primeiramente, a Deus, fonte de sabedoria, força e direção, por sustentar cada etapa deste trabalho e conceder resiliência e perseverança ao longo de todo o processo. À minha família, pelo apoio constante, pela compreensão e pelo incentivo durante a construção deste artigo. Aos operadores do time tático do BOPE/PMSE que, de forma voluntária, participaram das entrevistas, compartilhando experiências e percepções essenciais para o desenvolvimento, a profundidade e a consistência do estudo. Expresso também meu reconhecimento à equipe de Negociação do BOPE/PMSE, por ombrear comigo o exercício diário dessa nobre e complexa missão de preservar e salvar vidas. Registro, de maneira especial, minha gratidão à Maj Belisa e ao Maj Calaça, pelo apoio e incentivo desde o início desta pesquisa.
Minha gratidão!
1Bacharel em Direito, com especialização em Ciências Criminais e em Neurociência e Desenvolvimento Humano. Analista de Perfil Comportamental e Negociadora Policial em Crises. 2º Tenente da Polícia Militar de Sergipe (PMSE), integrante da equipe de Negociação do BOPE/PMSE. E-mail: tatiaragao2010@gmail.com.
Orcid: https://orcid.org/0009-0006-3559-9545
