CONTRIBUIÇÕES DA ODONTOLOGIA LEGAL EM CENÁRIOS DE DESASTRES EM MASSA: UMA REVISÃO DE LITERATURA.

CONTRIBUTIONS OF FORENSIC DENTISTRY IN MASS DISASTER SCENARIOS: A LITERATURE REVIEW.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202509112224


Mariana Barbosa da Luz de Santana1
Adriana Conrado de Almeida2
José Rodrigues Laureano Filho³


Resumo

Desastres em massa são eventos catastróficos que ocorrem de maneira repentina, intensa e inesperada. Normalmente, há muitos falecidos nessas situações, sendo necessário, em alguns casos, realizar a identificação dessas vítimas. A identificação é o processo de busca de características que permitem estabelecer a identidade de um indivíduo, sendo a odontologia legal  um dos métodos mais eficazes nesse processo. Objetiva-se investigar a importância da odontologia na identificação humana em casos de desastres em massa. Após a revisão de literatura, foram encontrados 217 artigos e, após a leitura completa e a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra final foi de 32 artigos. Conclui-se que as mais diversas áreas da odontologia desempenham papel fundamental no processo de identificação humana em cenários de desastres em massa, uma vez que métodos e exames odontológicos demonstram-se confiáveis para confirmar identidades.

Palavras-chave: Odontologia Legal. Desastres. Literatura de Revisão como Assunto. Identificação de Vítimas.

Abstract

Mass disasters are catastrophic events that occur suddenly, intensely, and unexpectedly. In these situations, there are often numerous fatalities, and in some cases, it becomes necessary to carry out victim identification. Identification is the process of gathering characteristics that allow the establishment of an individual’s identity, with forensic odontology being one of the most effective methods in this context. The objective of this study is to investigate the importance of odontology in human identification in cases of mass disasters. After a literature review, 217 articles were found, and following full-text reading and the application of inclusion and exclusion criteria, the final sample consisted of 32 articles. It is concluded that the various fields of odontology play a fundamental role in the process of human identification in mass disaster scenarios, as dental methods and examinations have proven to be reliable in confirming identities.

Keywords: Forensic Dentistry. Disasters. Review Literature as Topic. Victims Identification.

1 INTRODUÇÃO

Desastres em massa são eventos catastróficos que ocorrem de maneira repentina, intensa e inesperada. Geralmente incidentes dessa magnitude sobrecarregam diversos setores responsáveis pela manutenção da vida ou pela identificação de corpos. (Mata-Lima et al., 2013;  Silva; Lopes; Silva et al., 2016). 

A identificação é o processo de busca de características que permitem estabelecer a identidade de um indivíduo. A identidade, por sua vez, é a combinação dessas particularidades que tornam o indivíduo único. No contexto das Perícias Forenses, esse processo é de caráter científico e, na maioria dos casos, é realizado por meio de métodos primários de identificação humana. Segundo a International Criminal Police Organization(INTERPOL) no DVI (sigla em inglês para “Disaster Victim Identification” ou “Protocolo de Identificação de Vítimas em Desastres em Massa”), esses métodos primários para a identificação de vítimas humanas são a Odontologia Legal, o DNA e a Necropapiloscopia, sendo possível serem usados juntos ou separados.  Há cinco requisitos técnicos-científicos que tornam um método como eletivo para identificação humana, são eles: unicidade, perenidade, imutabilidade, praticabilidade, classificabilidade. A odontologia legal preenche todas essas disposições.(Franco et al., 2024; França,2017; Vanrell, 2019).

Antes mesmo do avanço da ciência e do estabelecimento de protocolos, as características que hoje fazem parte da área de atuação do cirurgião-dentista, já se faziam presentes no contexto de identificação humana.  Como no caso do assassinato de Lollia Paulina, em 49 d.C, onde seu cadáver foi identificado por características bem distintas em seus dentes.  Entretanto, em junho de 1897, a Odontologia Legal se consolidou como ciência após um desastre em massa, um grande incêndio que causou a morte de centenas de pessoas em Paris. O Bazar de la Charité era uma cerimônia anual destinada à alta sociedade, e, como na época a Odontologia era contemplada quase exclusivamente por esse grupo social, havia registros antemortem que foram utilizados para comparar com os restos mortais das vítimas, resultando em muitas identificações positivas. (Jethi; Arora, 2020; Silva et al, 2017)

Atualmente uma das técnicas mais comuns da Odontologia Legal, tanto em casos isolados quanto em contextos de desastres em massa, é o confronto de informações antemortem e postmortem, assim como nessas situações de anos atrás. Entretanto com o advento da ciência e das tecnologias, houve melhorias nesse processo e mais recursos são utilizados. Uso de diversos exames de imagem(radiografias periapicais, panorâmicas, tomografias) , números de séries de próteses, achados corretamente datados e odontogramas, são algumas fontes que possam ser utilizadas como dados antemortem. Os registros utilizados podem ser digitais ou físicos.    Em indivíduos edêntulos a rugoscopia palatina pode ser de grande importância, pois podem ser usados modelos de gesso(normalmente utilizadas para confecção de próteses) ou  fotografias intrabucais. Também é importante o estudo dos estágios de mineralização dentária para estimativa de idade e a queiloscopia  para a busca da identidade. Além disso, os métodos utilizados para identificação humana em odontologia são rápidos e de baixo custo (Gioster Ramos et.al, 2021; Ribas-e-Silva, Terada, Silva, 2015, Silveira, 2013; Garach, 2023; Nunes et.al, 2024).

O exame se divide em três partes, a primeira consiste no exame necroscópico em si, onde há a coleta de informações e a procedência de exames no cadáver , a segunda é a análise dos dados antemortem e a última é a o cruzamento dessas informações.  A comparação de exames pode levar a diferentes formas de identificação: positiva, possível ou presumida, insuficiente, negativa ou a inconclusão. E essas conclusões são baseadas nos pontos convergentes ou divergentes, a relação desses pontos que podem levar os resultados acima citados. (Freire et.al, 2019; Valenzuela-Garach, 2023).

A confiabilidade da odontologia como método de identificação humana e o conhecimento técnico-científico que deve ser desempenhado pelo cirurgião-dentista é de bastante importância em contextos de desastres em massa. Diante disso, é importante compreender o estado da arte do tema por meio de uma revisão esclarecedora da literatura  atual.

2 OBJETIVOS 

2.1 Objetivo geral

Investigar, por meio de uma revisão de literatura, a importância da odontologia em identificação humana em casos de desastres em massa.

2.2 Objetivos específicos

Identificar quais métodos e exames odontológicos podem ser utilizados para fins de identificação de humanos;

Descrever como essa identificação pode ser feita em situações de desastres em massa;

Relatar adversidades e limitações da odontologia como método de identificação.

3 METODOLOGIA

A pesquisa foi realizada nas seguintes base de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde(LILACS), PubMed, ScieLo e Cochrane, utilizando os descritores “Odontologia Legal” e “Desastres” e sua versão na língua inglesa  “Forensic

Dentistry”  e “Disasters”, utilizando o operador booleano AND. Foram incluídos artigos no período de dez anos(2015-2025) em português e em inglês.

Após essa busca, foram encontrados 217 artigos e após a leitura completa e aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, a amostra final foi de 32 artigos(figura 1). Foram excluídos aqueles artigos que não tratavam da área odontológica, que não faziam alusão à identificação humana, entrevistas e que citavam métodos não aplicáveis a desastres em massa.

Figura 1 – Fluxograma do resultado da pesquisa realizada nas bases de dados

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Há uma síntese dos principais achados dos 32 artigos selecionados, com o nome dos autores em ordem alfabética. As informações estão dispostas contendo a s referência(nome dos autores e ano), tipo de metodologia aplicada para identificação e um resumo rápido (tabela 1).

Tabela 1 – Quadro contendo de forma resumida aos artigos selecionados para a pesquisa

A maioria dos artigos utilizados para a pesquisa não narram situações de desastres em massa, mas esses estudos refletem o que é comumente utilizado nesses acontecimentos, mesmo a metodologia aplicada não relatando a vivência de um desastre em massa.  Entretanto os estudos de Agrawal et.al, 2017; Agrawal; Dahal; Wasti, 2017; Cappella et.al, 2022; Dahal et.al, 2022;  Dahal et.al, 2023; Dahal; Chaudhary; Agrawal, 2023; Rontogianni, Mitsea, Karayanni, 2024; Sharon et al., 2025;  Shrestha et.al, 2018 narram identificações nessas catástrofes.

Agrawal et.al(2017) relatam a aplicação da luz ultravioleta como ferramenta complementar em exames odontológicos para fins de identificação nas vítimas fatais de um avalanche. Dentes naturais, restaurações ou próteses podem apresentar fluorescência diferenciada sob iluminação UV, facilitando a distinção entre materiais e tecidos dentários. Além disso, a luz ultravioleta funciona como uma ferramenta complementar para a visibilidade durante o exame pericial, pois em alguns cenários a visualização de estruturas(sejam elas naturais ou advindas de um tratamento) podem se tornar difíceis devido ao estado de alguns corpos ou a pelas condições do ambiente pós-desastre. Já que nesses contextos, devido a grande quantidade de corpos e a sobrecarga de setores responsáveis, pode-se proceder a instalação de unidades temporárias para a realização dos procedimentos de identificação.

Agrawal, Dahal e Wasti (2017) discutem um acidente aéreo da Nepal Airlines ocorrido em 2014, onde analisaram o caso de duas crianças identificadas por meio do desenvolvimento dentário. Os achados foram comparados com a idade cronológica relatada pelos familiares. Como não era possível realizar o reconhecimento facial das vítimas, a odontologia legal foi empregada como método de identificação, destacando-se ainda pela praticidade, agilidade e baixo custo em comparação a outras técnicas.

Outra vantagem a ser destacada é que, em muitos desastres em massa, geralmente há um número elevado de vítimas fatais, o que tende a sobrecarregar os centros de identificação. Além disso, deve-se considerar o impacto emocional sofrido por amigos e familiares das vítimas. Diante desse cenário, torna-se indispensável a adoção de metodologias de identificação mais ágeis e eficazes.

Cappella e colaboradores (2022) relatam um caso ocorrido em 3 de outubro de 2013, no Mar Mediterrâneo, que resultou na morte de centenas de migrantes. O estudo concentrou-se nos dados antemortem disponíveis para a possível identificação de 74 desaparecidos, destacando a dificuldade ocasionada pela indisponibilidade dessas informações. Nesse contexto é importante salientar que muitas pessoas no mundo ainda não têm acesso a tratamentos dentários o que torna essa busca ainda mais complexa e complicada. Por outro lado, nos casos em que há registro de intervenções odontológicas, torna-se essencial que todas as informações sejam  documentadas e anexadas ao prontuário odontológico, de modo a favorecer futuros processos de identificação e resguardar o cirurgião-dentista perante a lei.

Da mesma forma, um estudo de 2022 conduzido por Dahal e colaboradores relata as identificações realizadas após o terremoto ocorrido no Nepal em 2015. Entre as abordagens e procedimentos de identificação descritos, destaca-se a ausência de dados antemortem e o impacto que ela pode exercer sobre os métodos comparativos em odontologia.

A Odontologia Legal, na maioria dos casos, é um método que ocorre de forma comparativa,  consistindo na busca de similaridades e discrepâncias entre os dados anteriores à morte e aos dados colhidos no cadáver, e, a partir desse cotejo há o resultado positivo ou negativo daquela comparação. Se há a ausência de dados preliminares, não há como haver uma comparação, assim, descartando a Odontologia Legal como método. Essa problemática é rotineira, pois não é comum haver essa guarda de informações odontológicas, sendo essa uma das razões que inviabilizam a odontologia como método de identificação. Nesse terremoto ocorrido no Nepal, estudado  por Dahal e colaboradores(2022), apenas seis vítimas foram identificadas pela Odontologia.  

Esse mesmo autor, em diferentes anos, desenvolveu juntamente com seus colaboradores estudos acerca da relação entre a Odontologia Legal e os desastres em massa. Dahal et.al, 2023 narram sobre a atuação da Odontologia em três casos envolvendo  um acidente de avião, ocorrido também no Nepal. É importante salientar que um dos indivíduos, com o corpo carbonizado,  foi identificado positivamente a partir de uma fotografia de sorriso.

Selfies e fotos causais fazem parte da rotina da maioria das pessoas, sejam elas compartilhadas nas redes sociais ou casualmente em conversas e chats. Ressaltando que  registros  rotineiros podem ser utilizados para fins de identificação humana. Formato de coroas, existências de espaços e até mesmo o posicionamento dos dentes da linha do sorriso são pontos bastante valiosos à luz de comparativos AM e PM. Torna-se relevante a realização de estudos adicionais acerca dessa fonte de referência, uma vez que fotografias contendo sorrisos estão presentes na maioria da população.

Ademais, Rontogianni, Mitsea, Karayanni (2024) relatam dois diferentes casos em desastres de massa na Grécia. O primeiro relato é sobre uma criança que veio a óbito em uma acidente aéreo (121 mortos ao total). Seu reconhecimento visual não era possível devido à carbonização, mas a identificação foi positiva devido aos registros odontológicos. Dados como braquetes, radiografias,  fotografias intraorais e extraorais e registros em gesso foram usados. 

O segundo relato desses autores, trata-se de duas irmãs gêmeas que foram umas das 102 vítimas de um incêndio. Devido a carbonização e ao fato de serem gêmeas monozigóticas, a identificação por meio da Odontologia era a mais viável. Havia diferenças entre as arcadas das garotas(irrupção e erupções de alguns dentes) e essas informações contidas nos modelos de gesso cedidos pelo ortodontistas das crianças foi de grande valor para identificação.

Ambos casos evidenciam a relevância das características individuais como ferramenta para a identificação humana. Ressalta-se também a importância da correta guarda, organização e  datação das informações pelo cirurgião-dentista a respeito de pacientes e dos tratamentos realizados. 

Adicionalmente, esse relato que envolve gêmeas monozigóticas,  destaca-se que a identificação por DNA não era viável, uma vez que gêmeos univitelinos compartilham o mesmo material genético, já que se desenvolvem a partir de um único óvulo que se divide em dois embriões. Nos casos em que os corpos estão preservados, a identificação necropapiloscópica poderia ser positiva; entretanto, em situações de carbonização ou em avançado estado de decomposição, a Odontologia Legal se apresenta como o método eletivo para identificar gêmeos monozigóticos, devido à impossibilidade de diferenciá-los pelo DNA.

Além disso, Sharon et al. (2025) narram o processo de identificação por meio da Odontologia Legal nas vítimas do conflito entre Israel e Palestina, mais precisamente em um ataque do Hamas contra Israel ocorrido em 7 de outubro de 2023. Das 970 vítimas processadas pelas autoridades policiais, 166 foram identificadas pela Odontologia Legal. Utilizou-se radiografias, tomografias computadorizadas e fichas clínicas . As informações foram entregues por parentes das vítimas e na ausência desses materiais, a equipe entrou em contato com centros de radiologia e serviços de saúde. 

Ademais, Shrestha et.al(2018) procedem um estudo feito após um acidente de avião no Nepal onde 49 pessoas vieram a óbito. Os achados dentários foram úteis em 17 dos casos(34,7%).  Um dos pontos abordados nesse artigo é sobre não haver o costume de ir ao dentista no Oriente na mesma intensidade que isso é feito no Ocidente, o que contribui para a menor disponibilidade de registros odontológicos para fins de comparação. Consequentemente, em muitos casos no mundo todo, o método não é considerado, uma vez que, sem informações antemortem para comparação, torna-se inviável a realização do exame necrópsico odontológico. 

Dahal; Chaudhary; Agrawal (2023) analisam o processo de identificação de vítimas do acidente aéreo da Makalu Air e apontam alguns pontos que foram equivocados. O cirurgiãodentista responsável pela identificação das vítimas teve acesso prévio aos dados odontológicos antemortem, o que levou a uma suposição prematura de identificação, comprometendo a objetividade e a validade do processo identificatório.

Paralelo a isso, os estudos de Guzman e De Hungria(2025) analisam as limitações que podem surgir durante o processo de identificação humana em odontologia. Os autores apontam o contexto das ocorrências em um desastre em massa ocorrido nas Filipinas. Um dos fatores que pode ser citado é a carência de dados antemortem, muitas vezes justificada por um prontuário mal preenchido ou ausente.

Por outro lado, no que diz respeito aos dentes humanos, sabe-se que eles são estruturas altamente resistentes e  a soma de todas as características encontradas nas arcadas dentárias tornam o indivíduo quase único. Ao longo da vida, boa parte da população realiza diversos procedimentos na boca, sejam restaurações, tratamentos endodônticos, extrações, aparelhos ortodônticos, próteses. Essas informações devem ser corretamente registradas em prontuários e fichas e podem ser usadas em desastres em massa para fins de identificação(além da ressalva para o profissional). 

Nos casos relatados por Rontogianni e colaboradores (2024) e Freire et.al, 2019 são reflexo disso, os indivíduos foram identificados com auxílio das informações contidas em suas fichas ortodônticas e nos exames por imagem, sendo estes últimos fundamentais para a determinação da idade.

Sobre outro aspecto relevante, a área de Prótese também pode ser explorada nessa aplicabilidade. Sabe-se que boa parte da população recorre a esta abordagem terapêutica para reabilitação das funções do sistema estomatognático. Informações acerca do tratamento protético contidas em fichas de tratamento odontológicos podem ser utilizadas no curso de uma identificação de vítimas. Além disso, a presença ou não de uma prótese em um indivíduo pode auxiliar na restrição de uma determinada amostragem em um desastre em massa com muitas vítimas.

O artigo redigido por  Bathala e colaboradores (2016) ressalta essas vantagens das próteses dentárias para identificação humana, além disso, os autores propõem uma forma de rotulá-las, como um números de série que ocorrem em outras formas protéticas, com a finalidade de individualizar.

Também existem estudos na área de Endodontia, como o de Jethi e Arora (2020), que abordam a criação de um banco de dados odontológicos na Índia. Esse banco reuniria informações contidas nos prontuários dos pacientes, incluindo fotografias pré-operatórias, materiais de obturação utilizados e imagens pós-tratamento. Tais dados são extremamente importantes para possíveis comparações em exames necroscópicos com fins de identificação humana.

Por sua vez, os exames imaginológicos são muito comuns nas mais diversas áreas da odontologia, tornando-se valiosos e bastante usados em  identificação humana devido às mais diversas informações sobre o indivíduo contidas nessas imagens.  É um método muito utilizado em contextos de desastres em massa pois é rápido e de baixo custo.  Estudos como os  Manigandan e colaboradores debatem o uso da radiologia forense na odontologia como uma ferramenta essencial para a identificação humana em investigações criminais e desastres.

As pesquisas realizadas por Nunes et.al, 2024; Kavousinejad et.al, 2024; Mizuno et.al, 2022 narram como é feito o uso de imagens radiológicas para identificação humana. Já Ohtani, Oshima, Mimasaka, 2017  e  Enomoto et.al, 2023 atrelam imaginologia a novas tecnologias.

Mizuno et.al (2022) analisam o valor dos achados odontológicos em imagens de TC postmortem  em comparação com outros exames odontológicos para identificação humana. Artigos como esse teor ressaltam a relevância dos mais diversos exames utilizados em odontologia. De modo semelhante, Kavousinejad e colaboradores (2024) que  propõe-se o desenvolvimento de um algoritmo voltado à correspondência entre cefalogramas post-mortem e registros antemortem (AM), objetivando aprimorar o processo de identificação humana por meio da análise comparativa de características craniofaciais. 

Enquanto os estudos Enomoto e colaboradores (2023) propõem um método automatizado de identificação humana por radiografias panorâmicas com IA.  Evidencia-se que o desenvolvimento de tecnologias atrelado à metodologias científicas são de extrema importância para o aprimoramento de novas técnicas e otimização do processo pericial. 

Em paralelo a isso, é sabido que a área de imaginologia é muito utilizada na área de pediatria e hebiatria, principalmente para o acompanhamento da erupção dentária e para realização de tratamentos ortodônticos, por exemplo. Há métodos, como os de Demirjian e Cameriere, que ajudam a mensurar a idade provável do indivíduo pelas características apresentadas em seus dentes.

Os estudos de Gupta e colaboradores do ano de 2023 fazem um comparativo entre os estudos de Demirjian e Cameriere, que normalmente são usados em subadultos,uma vez que, na dentição adulta, as técnicas de estimativa da idade são limitadas devido ao desgaste dentário e às alterações relacionadas à idade

Do mesmo modo, no caso relatado por Agrawal, Dahal e Wasti (2017), em um acidente aéreo que vitimou 18 pessoas, havia duas crianças do mesmo gênero, com idades de 4 e 8 anos,  cujo reconhecimento visual não era possível devido às condições decorrentes do desastre. Após a análise das arcadas dentárias, verificou-se que uma apresentava dentição decídua e a outra dentição mista, permitindo, assim, estabelecer a identidade com base nessas características compatíveis com a idade.

Por outro lado, devido a evolução e aprimoramento das técnicas, há também a possibilidade de extração de material genético pelos dentes, como em Eaton et al (2024); Babu e Rose(2016); Carrasco et.al, (2020); Reddy et.al, 2017; Kaneko et.al, 2015.

Os exames de DNA apresentam elevada eficácia, embora constituam um método mais caro e demorado para fins de identificação humana. Os dentes, por serem órgãos extremamente resistentes, podem representar uma fonte confiável de material genético. Casos assim evidenciam que a Odontologia Legal se mostra eficaz até  mesmo em situações de carência de dados antemortem para comparação.

Alguns estudos destacam particularidades na correlação entre o DNA encontrado nos tecidos dentinários. Reddy e colaboradores (2017), por exemplo, mencionam a extração do DNA para determinação sexual por meio do estudo do corpúsculo de Barr. De maneira semelhante, Kaneko et al. (2025) investigam a quantidade e a integridade dessa molécula ao longo do tempo.

Em contrapartida, a Odontologia pode atuar em conjunto com a Antropologia Forense. Um dos aspectos mais estudados por essas ciências é a estimativa do perfil biológico, que compreende o sexo biológico, afinidade populacional e a estimativa da idade e da estatura por meio da análise dos ossos e os  fatores individualizantes, como patologias, traumatismos antemortem, variantes anatômicas e anormalidades dentais. Esses achados funcionam como indicadores pessoais, uma vez que a combinação dessas informações pode restringir significativamente a amostra em situações de desastre em massa.

Como observado nas pesquisas de Shree e colaboradores (2023), são analisadas as características de dimorfismo sexual em mandíbulas(perfil biológico) . Já o trabalho de Puri, Skukla e Haque (2019) investigam anomalias dentárias, fornecendo informações relevantes para a identificação de fatores individualizantes. Ressalta-se que, para uma análise eficaz desses fatores, é fundamental que as informações odontológicas, dessa e de outras naturezas, estejam corretamente registradas no prontuário, garantindo sua utilidade tanto para este propósito quanto para outras finalidades periciais.

Por outro lado, Ohtani, Oshima e Mimasaka (2017) evidenciam a relevância da utilização de dispositivos portáteis de raios X na prática forense, sobretudo por contribuírem para a otimização do tempo durante o exame post mortem e por se mostrarem úteis em casos nos quais a abertura do cadáver é dificultada.  Nagi et al. (2019) destacam a aplicação de tecnologias avançadas para identificação humana na Odontologia Forense, como imagens digitalizadas, impressão 3D, autópsia virtual e scanners intraorais, ferramentas que potencializam a eficiência e a confiabilidade das análises odontológicas em situações críticas.

O avanço tecnológico tem ampliado significativamente as possibilidades de atuação do dentista em cenários de desastres em massa. Mohammad et al. (2024) apresentam um aplicativo de computador capaz de estimar a idade dentária de forma digital, oferecendo maior precisão e agilidade nos processos periciais. Nesse mesmo contexto, Nakamura; Kasahara ; Hashimoto (2022) estudam um dispositivo digital de moldagem para identificação humana em odontologia. Por sua vez, McDonald; Chong; Forgie(2024) analisam  como a autópsia virtual poderia oferecer agilidade no processo em identificações em Odontologia Legal.

É importante ressaltar que métodos dessa natureza ainda se encontram em fase de estudo e, futuramente, poderão ser amplamente utilizados, por se tratarem de abordagens recentes e ainda preliminares, é necessária maior acurácia em sua aplicação.

Por fim, a odontologia pode ser utilizada para identificação de vivos, usando a mesma metodologia(de cotejo de informação) em casos de desaparecidos ou em pessoas que perderam a memória, sendo bastante importante  para o estabelecimento da idade. Não há menções na literatura utilizada acerca dessa temática.

5. CONCLUSÃO

Conclui-se que as mais diversas áreas da Odontologia desempenham papel fundamental no processo de identificação humana em cenários de desastres em massa, uma vez que  radiografias, fichas clínicas, modelos de gesso, números de identificação em próteses e características dentárias individuais demonstram elevada confiabilidade para a confirmação de identidades. 

Além disso, foi possível identificar que  quando esses métodos são corretamente aplicados em  situações críticas, contribuem para a agilidade e a precisão na identificação das vítimas. Entretanto, também se observam limitações e adversidades, como a ausência de registros odontológicos completos, que podem comprometer a eficácia do processo. 

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¹Discente do Mestrado em Perícias Forenses da Universidade de Pernambuco Campus Recife e-mail: marianabarbosa.odonto@gmail.com
²Docente do Mestrado em Perícias Forenses da Universidade de Pernambuco Campus Recife. Mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz – Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães; Doutorado em Saúde Materno Infantil pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira; e-mail: adriana.almeida@upe.br. 
³Docente do Mestrado em Perícias Forenses da Universidade de Pernambuco Campus Recife. Mestre em Clínica Odontológica pela Universidade Estadual de Campinas (1999) e doutorado em Clínica Odontológica pela Universidade Estadual de Campinas (2001). Pos-Doutorado em Cirurgia Ortognática no Kaiser Permanente Oakland Medical Center – University of Pacific(2008). e-mail:laureano.filho@upe.br