CONTRIBUIÇÕES DA NEUROPSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL PARA FORTALECER ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA E A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA E ESCOLA PÓS-PANDEMIA NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202503201036


Maria Geane da Silva Braga1
Orientadora: Merlim Rose Ricioli2


Resumo  

Com a predominância intensa das dificuldades de aprendizagem, sobretudo no período pós pandêmico da covid-19, urge a importância da neuropsicopedagogia institucional para contribuir com o fortalecimento das etapas de desenvolvimento infantil na primeira infância, tornando notório o apoio da família no processo de ensino-aprendizagem para corroborar com as práticas pedagógicas, auxiliando as crianças em seu crescimento social e cognitivo. Desta forma, a finalidade deste artigo foi analisar algumas produções científicas, referentes a: neuropsicopedagogia institucional, desenvolvimento infantil na primeira infância e o olhar da neurociência em relação à mesma, família e escola pós-pandemia no processo de ensino aprendizagem e destacar as contribuições da neuropsicopedagogia na tentativa de reduzir os espaços entre escola, alunos e família, tornando – se premente a busca por alternativas para a aprendizagem infantil. Os resultados da pesquisa favoreceram as contribuições da neuropsicopedagogia institucional para o aprendizado humano. Dessa forma, cabe ressaltar que, esta nova ciência não dita métodos pedagógicos, pois, ainda há caminhos em construção, mas, contribui com estudos na área educacional, visando a reintegração pessoal e social no que diz respeito ao desenvolvimento das potencialidades humanas, por meio da criação de estratégias que viabilizem o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. 

Palavras-chave: Neuropsicopedagogia institucional. Desenvolvimento infantil. Família. Escola. Ensino-aprendizagem. Covid-19. 

1. INTRODUÇÃO 

Atualmente, a educação passa por várias situações emergentes. Neste novo cenário mundial, marcado por questões diversas, desde o avanço da tecnologia, relações intra e interpessoais, mercado de trabalho e até o crescente número de informações cada vez maiores, educar formalmente, tornou-se, significativamente,  desafiador, porque há de possibilitar ao estudante ser capaz de aprender a pensar, sentir e agir com o mundo e para o mundo, ser aberto às novas situações e se reconhecer  em seu contexto histórico-cultural, no sentido de intervir como protagonista da própria história, ou seja, significa ajudar a desenvolver no estudante habilidades relacionadas aos aspectos cognitivos, físicos, afetivos e sociais, considerando o que ele já sabe e o que precisa saber. 

Mediante isso, a situação da educação se traduz não apenas desafiadora, mas, muito mais urgente, pois, a perda de vínculo com a escola, agravou intensamente a desistência e o fracasso escolar com a situação provocada pelo coronavírus. Assim, faz-se necessária a consulta de variadas fontes de dados e informações que permitam uma releitura aprofundada, inclusive, para entender de que forma a ciência poderá contribuir para amenizar esse impacto no ensino brasileiro, questão esta que fomenta, a importância da neuropsicopedagogia institucional como ciência relevante nas questões relacionadas à aprendizagem e ao desenvolvimento humano. Além disso, há de se entender também, acerca do processo de desenvolvimento infantil na primeira infância, assim como o olhar da neurociência em relação à mesma e por fim, uma reflexão necessária acerca das situações entre família e escola sobre o processo de ensino-aprendizagem pós-pandemia. 

Nesse percurso, todos os segmentos da educação estão sendo prejudicados, especialmente, a primeira infância, por ser um percurso instigador de processos de desenvolvimento, no qual, a criança constrói novas competências em resposta às mudanças e às novas demandas. Por outro lado, é também um período de imprevisibilidade e incertezas.  Portanto, intervir em situações que possam garantir e auxiliar a aprendizagem da criança, torna-se imprescindível. Desse modo, a Neuropsicopedagogia Institucional como ciência já mencionada poderá colaborar com a equipe escolar, família e/ou outra instituição de ordem educativa que necessita de atenção específica, rumo à melhoria e qualidade do ensino.  

Embora, Estados e Municípios tenham se empenhado para assegurar o desenvolvimento educacional de suas redes e, com isso,  amenizar os impactos da pandemia da covid 19, causados na educação formal, os efeitos foram sentidos em maior escala pelos estudantes e professores da educação infantil, muitos dos quais não empregavam qualquer mecanismo digital antes da atual crise, ficando a encargo, na maior parte, a responsabilidade dessa etapa de ensino, assim como a aprendizagem desses estudantes, por conta de seus familiares.  

Nesse contexto, o Neuropsicopedagogo Institucional, na sua especialidade, poderá contribuir com a equipe técnica-pedagógica das instituições escolares para a elaboração de planos, estratégias, ações pedagógicas que auxiliem as escolas e famílias a refletirem sobre os diversos contextos da educação que impactam diretamente na vida escolar. Esse profissional, respeitando os fundamentos legais e limites de cada segmento do contexto educativo, coopera, portanto, para o fortalecimento das etapas do desenvolvimento do sujeito, através de ações interventivas, visando à melhoria do processo de ensino/aprendizagem e do convívio com seus pares. 

Cabe salientar, ainda que, as ações neuropsicopedagógicas em âmbito institucional, recomendam, primordialmente, proposições de reverter questões resultantes de situações e conhecimentos desfavoráveis para o desenvolvimento de escolares, desde a educação infantil ao ensino fundamental, que por sua vez, não se desenvolvendo adequadamente, e não trabalhadas no tempo devido, conforme cada etapa escolar e idade biológica do estudante, poderá se estender durante todo o percurso acadêmico e posteriormente. 

Por conseguinte, vale reforçar que, o desenvolvimento na primeira infância precisa ser considerado prioritário em qualquer segmento social, especialmente, no contexto escolar para poder haver sucesso nas etapas seguintes dos estudantes. Tal entendimento, encontra-se apoiado em diversas literaturas, principalmente, na neurociência. No entanto, apesar de, o conceito e a importância dessa fase serem conhecidos pelas mais diversas áreas da ciência, o termo ainda é praticamente ignorado por diversos segmentos da população brasileira.  

Por isso, a necessidade e importância dos familiares e cuidadores, bem como a equipe escolar entenderem sobre esse processo para o estabelecimento de estratégias com estímulos adequados ao aprendizado e aperfeiçoamento das capacidades que envolvem as habilidades motoras, cognitivas e sociais das crianças, o que infelizmente, não ocorreu, em sua maioria, durante e pós o período da pandemia da covid-19. 

Dessa forma, o presente estudo contribui para fortalecer etapas e entendimento do desenvolvimento na primeira infância e a importância do apoio familiar, através da escola para o progresso da mesma, tendo por base os construtos da neuropsicopedagogia institucional, bem como alguns aspectos do desenvolvimento infantil, além de estudos da neurociência para auxiliar família e escola no processo de ensino-aprendizagem.  

Portanto, o tema desse trabalho intitulado “Contribuições da Neuropsicopedagogia Institucional para Fortalecer Etapas do Desenvolvimento na Primeira Infância e a importância da Família e Escola Pós-pandemia no processo de Ensino-aprendizagem”, ser urgente e nascido, pois, da inquietação de como a neuropsicopedagogia institucional pode colaborar na aprendizagem de escolares dessa etapa de ensino, tendo em vista que este é um processo cada vez mais desafiador para as famílias e escolas. Para isso, os objetivos que se propuseram a alcançar ao longo desse percurso foi: fortalecer as etapas do desenvolvimento infantil na primeira infância, através da neuropsicopedagogia institucional; refletir sobre os impactos gerados pela covid – 19 no processo de ensino e aprendizagem para auxiliar escola e família, de forma assertiva e significativa. 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

Para fundamentar o presente estudo, foi preciso realizar um levantamento bibliográfico, seguido de revisão literária em livros e artigos científicos, publicados no google acadêmico com o cruzamento de dados na obtenção de informações em livros, revistas por meio de plataformas educacionais e/ou outros, validando as informações, das quais nortearam reflexões e entendimentos, acerca da importância da aprendizagem na primeira infância por se tratar de um processo dinâmico e desafiador para pais, escolas e sociedade. Assim, esse construto perpassou por três tópicos, por conseguinte. 

2.1 Neuropsicopedagogia Institucional 

De acordo com a Faculdade CENSUPEG, essa ciência estuda o funcionamento do sistema nervoso para compreender como ocorre o aprendizado, a memória, a atenção e o comportamento em uma interface com práticas do sistema educacional formal. Sendo assim, poderá contribuir nas questões relacionadas à aprendizagem e ao desenvolvimento humano nas áreas motoras, cognitivas e comportamentais, considerando os preceitos da Neurociência aplicada à Educação, em interface com a Pedagogia e Psicologia Cognitiva, bem como na criação de procedimentos que viabilizem o desenvolvimento do processo ensino aprendizagem, principalmente, por ser fundamentada à luz das neurociências.  

De acordo com Resolução SBNPp n°05 de 12 de abril de 2021, em seu artigo 10: 

A Neuropsicopedagogia é uma ciência transdisciplinar, fundamentada nos conhecimentos da Neurociências aplicada à educação, com interfaces da Pedagogia e Psicologia Cognitiva que tem como objeto formal de estudo a relação entre o funcionamento do sistema nervoso e a aprendizagem humana numa perspectiva de reintegração pessoal, social e educacional. 

Ao contemplarmos o artigo acima da SBNPp, podemos perceber o quanto a neuropsicopedagogia institucional pode contribuir com o desenvolvimento de atividades, tanto no âmbito escolar, quanto familiar, através de orientações adequadas para que as crianças possam atingir resultados positivos em seu processo de aprender, principalmente, no momento atual, devido a profundas modificações causadas no indivíduo pela covid-19 e, ambas as instituições, família e escola ter que se adaptar às novas oportunidades e exigências da era digital, dentre outros que, podem alimentar relações desastrosas e impactar negativamente no processo de ensino e aprendizagem. Por isso, não é possível subestimar o papel da Neuropsicopedagogia no ambiente escolar; afinal, ela tem se mostrado competente para relacionar saberes, que vão desde os mais diversos comportamentos, pensamentos e movimentos, principalmente, sua efetividade ao fornecer melhorias na qualidade de vida do indivíduo. 

Ainda, em se tratando da Neuropsicopedagogia Institucional, como fonte de contribuição para o processo de ensino-aprendizagem, precisa considerar os preceitos da atuação profissional preconizada no Código de Ética Técnico-Profissional da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia – SBNPp, no tocante ao artigo 8°, inciso II: 

Abertura ao diálogo, debate ou discussão, pelo Neuropsicopedagogo e suas interfaces, dos limites e entendimentos relativos aos direitos individuais e coletivos, importante para as relações que estabelece com a sociedade, os demais atuantes como ofício e os que dependerem dos serviços. 

Dessa forma, a neuropsicopedagogia poderá mudar a maneira de lidar com os obstáculos encarados pelas crianças e pode prevenir e diminuir a frustração na próxima etapa educacional, tendo em conta que o aluno não é o responsável caso não aprenda, criando assim um chamado para que a instituição de ensino reflita sobre o seu desempenho 

De acordo com o livro “A educação no Brasil: uma perspectiva internacional”, o país conta com tamanha desigualdade e defasagem no ensino (pág. 60), portanto, quanto mais fundamentado for esse ensino e baseado em evidências, maiores são as possibilidades relacionadas para avançar no ambiente de aprendizagem, seja na escola ou no contexto familiar. Desse modo, a criação de estratégias que viabilizem o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem dos que são atendidos nos espaços coletivos, é uma das premissas da neuropsicopedagogia institucional, citada, inclusive, pela Resolução SBNPp n° 04/2020, portanto, necessário considerar a importância da atuação do Neuropsicopedagogo nesse momento atual, não como resposta às demandas elucidadas até o momento, mas, como mais uma possibilidade de prevenção e/ou intervenção nas situações limítrofes do processo de ensino e aprendizagem das crianças. 

2.2 Desenvolvimento Infantil e o olhar da neurociência na primeira infância 

O desenvolvimento infantil se refere ao próprio desenvolvimento da criança, em seus aspectos motores, sociais, cognitivos e emocionais. Para entender melhor como isso se aplica a cada faixa etária, existe o conceito de fases do desenvolvimento infantil, apresentadas por Piaget (2010): 

Segundo a teoria piagetiana, quando a criança não tem noção de conservação, isto é, quando ela não acredita que pode haver diferentes configurações para um mesmo objeto, ela está passando pelo período pré-operatório ou primeira infância, que ocorre dos 2 (dois) aos 7 (sete) anos. Nesse período acontecem as representações da realidade dos próprios pensamentos. Muitas vezes, a criança não tem uma percepção real dos eventos, mas sim, a sua própria interpretação do que está acontecendo. É uma fase muito proeminente do egocentrismo e a necessidade de dar vida as coisas. Sendo visto ainda, como a fase dos “porquês” e da exploração da imaginação, onde o faz de conta é elemento complementar da vida da criança. 

Isto significa dizer que, o desenvolvimento de uma criança é contínuo e incorpora diversos processos biológicos e socioemocionais que se acomodam a partir das experiências vivenciadas, especialmente na primeira infância, ou seja, mesmo após o nascimento, o cérebro continua sendo “construído” e a qualidade de sua “construção” depende das experiências vividas. Quanto melhor for a “construção” do cérebro nessa fase, melhor será a preparação da criança para o futuro. 

Não distante, a neurociência estuda como nosso cérebro funciona, aprende e se comunica com o mundo. Após vários anos de estudos, é sabido que os seis primeiros anos de vida são decisivos para desenvolver linguagem, comportamento e aprendizagem. Esse desenvolvimento compreende todo o processo de transformação da criança, pelo qual ela passa ao longo do tempo, enquanto adquire e aprimora inúmeras capacidades necessárias para toda vida. É importante destacar que se a família entende acerca dessas capacidades e que são refletidas em ações, por exemplo, começar a falar, andar, entre outras esperadas nas diferentes idades das fases desse desenvolvimento infantil, certamente, haverá mais contribuições nas habilidades que levam à independência e autonomia infantil.  

Ainda com base nos estudos da neurociência, nos seis primeiros anos de vida, o cérebro vive um período único de neuroplasticidade, ou seja, novas conexões e neurônios são formados em meio a circuitos neuronais que se expandem e assim, ocorrem a estruturação dos mecanismos biológicos que darão suporte às funções sociais, cognitivas e emocionais da criança. 

Segundo o Relatório anual do Fundo das Nações Unidas para crianças de até 6 anos: 

Este é o período em que o cérebro mais precisa de estímulos, uma vez que 90% das conexões cerebrais são estabelecidas até os 6 anos. Em outras palavras, as interações sociais contribuem para impulsionar a atividade cerebral. Se a criança for negligenciada, muitas ligações entre os neurônios deixam de acontecer, o que pode afetar o seu potencial de aprender e se desenvolver. 

De acordo com a publicação “Neurociências e Educação na Primeira infância: progressos e obstáculos” – resultado da IX Semana de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz de 2016, promovida pelo Senado Federal, “grandes são as contribuições que a neurociência está trazendo à pedagogia, às ciências da educação”. No entanto, essa contribuição não deve ser entendida como forma de “biologizar” a educação, muito menos como fórmula mágica para pais e professores, até porque, a neurociência é mais uma disciplina a trazer conhecimentos sobre como o ser humano constrói-se a si mesmo e se torna sujeito de sua vida. Daí, a importância necessária, apenas, desse diálogo e cooperação, portanto, de todas as ciências que ajudam a construir a educação sistemática. 

Desse modo, pensar a primeira infância, organizada em ambientes infantis enriquecedores de afetos e ludicidade, oportunidades para comunicação, juntamente com destaques de BARR (2016), para alimentação, atividade física e o sono, todos esses de qualidades, que, certamente repercutirá no sucesso da vida escolar, nas relações sociais, e na formação de um adulto preparado para lidar com os desafios da vida cotidiana (MIGUEL; et al., 2018). Por isso, torna- se tão importante conhecer e refletir sobre esse processo de evolução inicial do ser humano, porque, para haver aprendizagem, é necessário que “o cérebro do indivíduo amadureça de forma ajustada, e, conforme este ser se desenvolve e aprende, mudanças progressivas e cumulativas ocorrem em nível molecular, celular, estrutural, bem como comportamental” (Bar et al., 2016), ou seja, esse processo do desenvolvimento cerebral é importante, mas também é importante o meio em que essa criança vive, as pessoas que estão ao redor dela, porque sendo esse cérebro tão plástico, ele vai se modificar em função ao meio. 

No que se reporta, ainda, à neurociência, LENT (2004) nos apresenta que há muitas maneiras de ver o cérebro, como há muitas maneiras de ver o mundo. Para esse autor, o funcionamento do cérebro na sua forma mais abstrata e caracteristicamente humanas, estão ligadas à memória, à linguagem e à percepção (o nível psicológico), e também, outras mais concretas e mais frequentes entre os animais, como a motricidade e as sensações (o nível fisiológico). Dessa forma, o processo de aprender passa por uma circuitaria cerebral, da qual, requer dos envolvidos com o processo de ensino, o entendimento necessário para saber ativar as áreas inerentes aos níveis psicológicos e fisiológicos à evolução humana. 

Para Konkiewitz (2013), a idade dos 5 aos 8 anos tem sido reconhecida como uma transição no desenvolvimento, com mudanças qualitativas que delimitam uma nova etapa. Contribuindo assim, para a formação da aprendizagem que é fundamental para a vida dos estudantes. 

Nesse sentido, COSENZA (2011) aponta que “o ambiente de estudo, faz a diferença na criação de uma rotina e a utilização de locais com poucos estímulos distraidores”, gerando assim, mudanças que acarretam em conhecimento e consequentemente em aprendizagens, passando por essas fases de maturação no decorrer da vida, mudando, conforme, a faixa etária e também, o ambiente e estímulos. 

Portanto, há de se apoiar e estimular experiências positivas na primeira infância, pois, estas contribuem para o desenvolvimento saudável do cérebro, “permitindo que a arquitetura cerebral seja sólida e tenha uma estrutura mais apta a superar dificuldades” (UNICEF,2006). 

2.3 Família e escola pós-pandemia no processo de ensino-aprendizagem 

Já vimos que, tanto o ambiente familiar, quanto escolar, podem ser considerados como fatores determinantes nos estímulos e experiências oferecidos no ciclo inicial de vida da primeira infância, visto serem, ambos os espaços, convivência e experiências do ser humano. Assim, em um estudo fundamentado nas teorias de Jean Piaget, Vygotsky e Wallom (1992) sobre a importância da afetividade para as crianças nos primeiros anos da educação infantil, torna-se a relação inseparável entre afetividade e aprendizagem, ingredientes essenciais no processo de obtenção dos aspectos socioafetivos e cognitivos, bem como sua relação humana consigo mesmo e com o mundo, e esses, tornaram-se mais distantes no ensino-aprendizagem, devido à pandemia. 

Nesse sentido, muitos foram e são os desafios que o Brasil vem enfrentando, quanto à qualidade e a equidade da educação e, ao mesmo tempo, atender às demandas imediatas da crise da Covid-19. Com o fechamento de escolas, as famílias tiveram que aprender a se “virar” do seu próprio jeito para lidar com as demandas geradas pelo período pandêmico, que dentre outros, os aspectos socioafetivos e cognitivos das crianças foram afetados, conforme aponta relatório da OCDE (2021): 

(…) escolas precisarão de um apoio bem planejado para facilitar a recuperação da aprendizagem e amparar seu bem-estar. Essa situação exige esforços redobrados e contínuos, com os recursos necessários, para elevar a qualidade e a equidade do atendimento escolar, juntamente com medidas imediatas para mitigar os efeitos da crise. 

Por isso, tanto a escola, quanto a família precisam entender acerca do desenvolvimento da primeira infância para, então, auxiliarem no processo evolutivo do ser humano que ocupa esses espaços: escola, família e consequentemente, sociedade, reconhecendo assim, a educação infantil como um elemento vital na educação, especialmente, pós-pandemia. Pois, embora a educação online e outras formas de ensino a distância tenham sido desenvolvidas como resposta, as diferenças no acesso das famílias à internet, a habilidade dos pais de fornecer apoio aos filhos e as disparidades entre as redes escolares no que diz respeito à capacidade de implementar respostas educacionais eficazes durante a crise, contribuíram para que as crianças ficassem mais vulneráveis no seu processo de ensino aprendizagem. 

Diante desse cenário, BARR (2016), apresentado por Larissa Zeggio e Laila B. Torres diz que:  

Habilidades socioemocionais são um marco crucial para o futuro desenvolvimento acadêmico, bem como sobre os desfechos psicológicos e sociais na infância, juventude e vida adulta [3, 25]. É bem descrito na literatura, por exemplo, que comportamentos pró-sociais estão significativamente relacionados com redução da agressividade, ansiedade, exclusão, apatia e vitimização [8]. Além disso, estudos têm demonstrado que o aumento do repertório de habilidades socioemocionais melhora o engajamento e sucesso escolar [2,3] e altera diretamente o desempenho acadêmico. 

Por outro lado, os problemas externos são caracterizados por respostas comportamentais que denotam baixo controle pessoal e que estão direcionadas ao ambiente social, do qual, a criança está envolvida. Essas podem se expressar como hiperatividade, impulsividade e agressividade e, portanto, podem “prejudicar” os outros indivíduos e são mais notadas por professores e familiares. 

Com o impacto da Covid-19, isso não repercute apenas nos resultados de aprendizagem dos alunos. O confinamento e o distanciamento social têm consequências negativas para o bem-estar geral dos estudantes e, isso precisa ser considerado por todas as esferas. À medida que a pandemia chegou ao fim, o principal desafio passou a ser reabrir as escolas com novas medidas, além da implementação de planos de recuperação para os alunos que tiveram a aprendizagem interrompida e oferecer, especialmente, apoio socioemocional às crianças. E, portanto, a forma como isso está acontecendo hoje, certamente trará novos impactos em futuro próximo. 

Enfim, família e escola precisam entender a efetividade da parceria que deve se estabelecer entre ambas, especialmente, pós-pandemia, como forma principal e devido ao peso das evidências que demonstram sua importância no desenvolvimento das crianças pequenas (UNICEF, 2021). 

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Ao começar essa caminhada, esperou-se saber o que é a neuropsicopedagogia institucional e suas contribuições para o entendimento e etapa do desenvolvimento infantil, de que forma a covid-19 tem prejudicado o processo de ensino-aprendizagem, tanto no âmbito educacional, quanto familiar e como as famílias podem apoiar o crescimento cognitivo das crianças, mesmo em meio a tantos desafios. Além disso, visto que esse tema ainda é novo tanto nas mídias, quanto no meio escolar, vale ressaltar que, mesmo para profissionais especializados, as contribuições da neuropsicopedagogia poderá fortalecer, por meio de estratégias criativas e bem fundamentadas para o sucesso do ensino-aprendizagem. O que possibilita aos leitores, a pensar e buscar mais informações a respeito. 

Convidamos, portanto, todos a refletirem: por mais conhecimentos que a escola, seu quadro docente e a família tenham sobre as etapas de desenvolvimento na primeira infância, são suficientes para o pleno desenvolvimento dessa fase ou requer um pouco mais de atenção, e entendimento dos aspectos cognitivos, sociais e emocionais e que sejam na mesma conferência dos aspectos físicos e biológicos, como nutrição, sono, prática de atividades motoras, higiene e imunização para lidar com uma etapa tão importante como esta? 

Enfim, o estudo pretendeu despertar nos envolvidos dessa fascinante etapa inicial da vida, mudanças rápidas de entendimento, bem como a buscar literaturas sobre a neurociência no tocante e a importância da etapa inicial do desenvolvimento infantil, em relação aos aspectos: motor, cognitivo, social e afetivo, dos quais, bem estimulados e explorados podem contribuir para o processo de ensino-aprendizagem, de forma qualitativa. Mas, precisa considerar, ainda, o que a escola e a família, desconhecem e precisam saber mais, acerca dos aspectos evolutivos, inerentes à primeira infância de pré-escolares e escolares do 1º ano do ensino fundamental, especialmente, no que diz respeito a forma de como o cérebro pode a aprender, do qual, é caracterizado por uma série de etapas e desdobramentos que necessitam de entendimento no que se refere à infância, sabendo, portanto, que a aprendizagem e o desenvolvimento cerebral ocorrem de forma integrada. 

Não obstante, há de se considerar, ainda, o impacto da Covid-19, pois esta não repercute apenas nos resultados da aprendizagem dos alunos. Podemos, nesse sentido, citar como exemplo, o confinamento e o distanciamento social que vem apresentando consequências negativas para o bem-estar geral das crianças. Até porque, ser impedido de ir à escola e ter que ficar em casa, estudos já apontam o aumento do risco de má nutrição, a potencial exposição à violência doméstica, bem como o aumento dos níveis de estresse e ansiedade entre as crianças, originados pela pandemia. 

Finalmente, sem pretender esgotar esse estudo, torna-se salutar refletir que, a família e a escola precisam de um despertar de consciência para uma nova realidade em relação às suas práticas parentais e pedagógicas no que se refere ao desenvolvimento, principalmente, da primeira infância, para fortalecer o processo de ensino-aprendizagem, de forma mais significativa e baseada em evidências científicas, eis aqui, portanto, a importância da contribuição da neuropsicopedagogia institucional, como mais uma ferramenta a mais e  necessária à quebra de paradigmas no contexto da educação. 

REFERÊNCIAS 

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KONKIEWITZ, Elisabete Castelon. Aprendizagem, Comportamento e Emoções na Infância e Adolescência: uma visão transdisciplinar. Dourados-MS :UFGD, 2013. 

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 1Graduada em Pedagogia. Mestra em Educação para a Saúde. Pós – Graduada em: Pedagogia Organizacional e Gestão de RH; Psicopedagogia; Gestão Escolar; Psicopedagogia Clínica e Institucional; Neuropsicopedagogia Institucional e Educação Especial Inclusiva; Neuropsicopedagogia Clínica.  Professora de Educação Infantil e Séries Iniciais do Ensino Fundamental. E-mail: mgbraga.gb@gmail.com
2Professora Orientadora. Merlim Rose Ricioli. E-mail: merlimrose@hotmail.com