CONTEXT OF ELDERLY PEOPLE IN PALLIATIVE CARE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202510302034
Whendyfer Almeida Silva1; Thamires Victoria Lopes Mamedes Bennesby2; Luiz Fabiano Azevedo de Freitas3; Paulo Henrique Almendra de Andrade4; Eliott Cavalcante de Mesquita5; Lucas Schneider de Carvalho6; Kauanny de Jesus Pantoja7; Brenda Rocha Machado Camurça8; Ioná Gercina Severo da Costa9; Francielle Alba Moraes10
RESUMO
Objetivo: compreender alguns elementos do contexto de idosos em atendimento paliativo. Metodologia: foi realizada uma pesquisa do tipo revisão de literatura por meio de artigos científicos publicados nos últimos dez anos na base de dados online SciElo. Resultados e Discussão: após aplicar os descritores: idosos, cuidados paliativos, saúde pública, profissionais da saúde e familiares, utilizando o operador booleano AND, inicialmente, foram retornados 192 estudos. Os quais foram submetidos aos critérios de inclusão e exclusão, sendo eleito 08 artigos para esta revisão. Os dados encontrados nos artigos permitiram entender as percepções dos idosos em cuidados paliativos (CP), sobre a doença e a morte, além dos sentimentos e circunstâncias de seus familiares nesse cenário. Também concepções dos profissionais de saúde pública que lidam com idosos em CP. E os desafios do cuidado paliativo para idosos no sistema de saúde pública, dentre outros conhecimentos. Considerações finais: é essencial intensificar as políticas governamentais e os programas destinados à organização da assistência paliativa, estabelecendo um vínculo entre este tema e os programas e políticas públicas de saúde.
Palavras-chave: Cuidados paliativos. Idosos. Saúde pública.
ABSTRACT
Objective: To understand some elements of the context of elderly individuals receiving palliative care. Methodology: A literature review was conducted using scientific articles published in the last ten years in the SciElo online database. Results and Discussion: After applying the descriptors: elderly, palliative care, public health, health professionals and family members, using the Boolean operator AND, 192 studies were initially returned. These were subjected to the inclusion and exclusion criteria, with eight articles being selected for this review. The data found in the articles allowed us to understand the perceptions of elderly individuals receiving palliative care (PC) regarding illness and death, as well as the feelings and circumstances of their family members in this setting. We also gained insights into the conceptions of public health professionals who work with elderly individuals receiving PC, and the challenges of palliative care for elderly individuals in the public health system, among other areas of knowledge. Final considerations: It is essential to strengthen government policies and programs aimed at organizing palliative care, establishing a link between this topic and public health programs and policies.
Keywords: Palliative care. Elderly. Public health.
1. INTRODUÇÃO
O cuidado paliativo (CP) é destinado a indivíduos com doenças fatais, sem probabilidade curativa e tem por finalidade oferecer mais qualidade no tempo restante de vida. Estima-se que, a cada ano, mais de 56,8 milhões de pessoas precisarão desse tipo de cuidado. Os cuidados paliativos são oferecidos sobretudo às pessoas que estão em fase terminal. Portanto, o trabalho do profissional de saúde atuante junto a pacientes em assistência paliativa, deve ser voltado a abrandar a dor e o sofrimento, de forma a melhorar a condição de vida dos pacientes próximos da finitude, de seus familiares e cuidadores (Beserra; Brito, 2024).
Neste sentido, alguns dos princípios dos cuidados paliativos são: oferecer alívio da dor e de outros sintomas, valorizar a vida e encarar a morte como um processo natural, evitar a busca por postergar ou precipitar a morte. Incorporar elementos sociais, psicológicos e espirituais no atendimento ao paciente e proporcionar auxílio para que a família possa lidar com o processo de adoecimento e o luto futuro (Hoffmann; Santos; Carvalho, 2021).
Em se tratando de idosos, o processo próprio de envelhecimento humano contribui para o surgimento de doenças como câncer, doenças neurológicas e condições osteomusculares crônicas, entre outras. Essas enfermidades podem causar mudanças degradantes e resultar em dependência funcional. Quando isso é combinado com a deterioração da saúde, comumente demanda cuidados paliativos. A preparação para a morte deve ser um componente essencial dos cuidados de saúde e uma prioridade para a saúde pública. Sendo que os cuidados paliativos ao paciente idoso requer uma equipe multiprofissional, permitindo um atendimento que considere o idoso em sua totalidade (Moura et al., 2021).
Assim sendo, esta revisão de literatura tem por objetivo geral, compreender alguns elementos do contexto de idosos em atendimento paliativo. Para alcançá-lo, foram investigadas as percepções de idosos em CP a respeito do adoecimento e da morte, bem como os sentimentos e as condições de seus familiares nesse cenário; Foram analisadas as concepções dos profissionais de saúde pública que atuam com idosos em cuidados paliativos. E os desafios do atendimento paliativo para idosos na saúde pública.
A presente pesquisa é justificada por fornecer, entre outros resultados, evidências de que é imperativo reforçar as políticas públicas e programas de organização do cuidado paliativo para idosos, de forma a oferecer apoio aos profissionais de saúde e, sobretudo, aos idosos que necessitam de assistência paliativa e aos seus familiares.
2. METODOLOGIA
Este artigo foi elaborado por meio de uma pesquisa do tipo revisão de literatura, que se baseia em fundamentos de estudos já publicados (Gil, 2002). Na contemporaneidade, os artigos científicos têm sido frequentemente o primeiro recurso pesquisado em revisões de literatura, devido ao fato de fornecerem conhecimentos atualizados sobre diversos temas (Marconi; Lakatos, 2017).
Os dados foram adquiridos por meio de artigos científicos publicados na base de dados Scientific Electronic Library Online (SciElo), por meio da aplicação dos descritores: idosos, cuidados paliativos, saúde pública, profissionais da saúde e familiares, mediados pelo operador booleano AND.
Foram considerados artigos científicos publicados entre os anos de 2015 a 2025, sendo o primeiro selecionado para esta revisão, publicado em 2018 e os últimos em 2024. Por outro lado, foram excluídos estudos como: livros eletrônicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado.
A avaliação dos dados foi realizada através da leitura integral dos artigos selecionados para esta revisão, identificando as ideias principais, organizando hierarquicamente e sintetizando os conceitos. Formando, assim, categorias de análise (Gil, 2002).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao se aplicar os descritores idosos, cuidados paliativos, saúde pública, profissionais da saúde e familiares, mediados pelo operador booleano AND, a princípio retornaram 192 estudos, que foram avaliados de acordo com os critérios de inclusão e exclusão, resultando em 95 artigos. Dos quais, os títulos foram lidos, levando à conclusão que 23 deles poderiam atender aos objetivos desta revisão. Seus resumos foram lidos e, ao final, oito artigos foram considerados adequados. Assim, foram selecionados 08 artigos científicos nesta revisão de literatura. O quadro 01, a seguir, apresenta elementos dos artigos selecionados, organizados em ordem crescente de acordo com o ano de publicação.
Quadro 01 – Elementos dos artigos selecionados para a revisão
| Ano/Publicação | Autoria | Títulos | Objetivos |
| 2018 | RIBEIRO, Mariana dos Santos; BORGES, Moema da Silva. | Percepções sobre envelhecer e adoecer: um estudo com idosos em cuidados paliativos | Apreender as percepções de idosos, em cuidados paliativos sobre o enfrentamento do envelhecer e adoecer. |
| 2019 | ALVES, Railda Sabino Fernandes et al. | Cuidados Paliativos: Alternativa para o Cuidado Essencial no Fim da Vida | Apresentar os cuidados paliativos, numa perspectiva histórico-conceitual e em interface com as políticas públicas de saúde do Sistema Único de Saúde. |
| 2020 | MARQUES, Fernanda Pasquetti; BULGARELLI, Alexandre Fávero. | Os sentidos da atenção domiciliar no cuidado ao idoso na finitude: a perspectiva humana do profissional do SUS | Compreender os sentidos da atenção domiciliar no escopo das ações da atenção primária no cuidado a estes idosos pela perspectiva do profissional da saúde do SUS. |
| 2020 | MATOS, Johnata da Cruz; GUIMARÃES, Silvia Maria Ferreira. | A aplicação do cuidado transpessoal e a assistência espiritual a pacientes idosos em cuidados paliativos | Compreender a percepção dos enfermeiros sobre a assistência espiritual a pacientes idosos em cuidados paliativos. |
| 2021 | HOFFMANN, Leonardo Bohner; SANTOS, Ana Beatriz Brandão; CARVALHO, Ricardo Tavares. | Sentidos de vida e morte: reflexões de pacientes em cuidados paliativos | Conhecer o sentido de aspectos transcendentais, como vida e morte. |
| 2022 | TEIXEIRA, Luciana Aparecida et al. | Cuidadores de idosos em cuidados paliativos: nível de sobrecarga e sintomas depressivos | Conhecer as características dos cuidadores informais de idosos com câncer em cuidados paliativos, avaliar o seu nível de sobrecarga e a intensidade de sintomas depressivos, como também analisar o grau de dependência dos idosos para as atividades básicas e instrumentais da vida diária. |
| 2024 | QUEIROZ, Luciana Meneguim Pereira de et al. | Representações sociais de profissionais da Estratégia Saúde da Família acerca de cuidados paliativos para a pessoa idosa | Compreender as Representações Sociais dos profissionais enfermeiros, médicos e odontólogos da Atenção Primária em Saúde (APS) sobre Cuidados Paliativos (CP) para a pessoa idosa. |
| 2024 | REBOLLEDO SANHUEZA, Jame et al. | Preparando-se para a morte de idosos: perspectivas das equipes de atenção primária à saúde, familiares e cuidadores primários | Descrever os significados e as práticas de preparação para a morte entre idosos no fim da vida, a partir das perspectivas de equipes de atenção primária à saúde, Familiares e cuidadores primários. |
3.1 PERCEPÇÕES DE IDOSOS EM CUIDADOS PALIATIVOS SOBRE ADOECIMENTO E MORTE E OS SENTIMENTOS E CONDIÇÕES DE SEUS FAMILIARES NESSE CENÁRIO
Para compreenderem as percepções de 11 idosos oncológicos em cuidados paliativos, Ribeiro e Borges (2018) realizaram uma pesquisa de natureza qualitativa, por meio de entrevistas. As autoras constataram que a luta das adversidades moldou a habilidade de lidar de maneira positiva com os fatores estressores identificados em seus relatos. Isso porque os conceitos sobre o processo de envelhecimento e adoecimento indicaram que, para eles, envelhecer representou um privilégio e, mesmo diante dos desafios, estavam agradecidos pela vida. Por esse motivo, vivenciaram integridade ao invés de desespero. Todos os idosos participantes do estudo afirmaram que queriam receber informações reais sobre sua condição de doença. E, para lidar com esses desafios, se apoiaram na espiritualidade, na reorganização cognitiva e na aprovação.
Tem-se assim um estudo que demonstrou a resiliência de idosos em se tratando do envelhecimento, de uma doença terminal e do fato de estarem próximos à morte. Hoffmann, Santos e Carvalho (2021) entrevistaram quatro idosos que estavam em monitoramento por equipe de cuidados paliativos de um hospital público de nível terciário por um período mínimo de três meses, haviam recebido informações sobre o diagnóstico, prognóstico e progresso de câncer e concordaram em participar da pesquisa. Todos os participantes afirmaram sofrimentos para além dos sintomas da doença, como diminuição da autonomia e independência, restrições causadas pela enfermidade e sensação de impotência à medida que começaram a depender de terceiros para os autocuidados. Sob outra perspectiva, três deles demonstraram a fé religiosa como uma estratégia de enfrentamento própria da esfera espiritual, juntamente com crenças, valores e esperança. No entanto, afirmaram enfaticamente que a ansiedade por saberem que seus familiares sofreriam após a partida deles, provocava tristeza.
Já neste estudo, os idosos admitiram sofrer para além do fato de estarem doentes, uma vez que perderam a autonomia, inclusive quanto aos cuidados do próprio corpo. Sendo outra forma de sofrimento a ansiedade pela tristeza que a morte deles causaria em seus familiares. Por outro lado, esse grupo de idosos em CP revelou a fé religiosa como uma tática de enfrentamento inerente à esfera espiritual, aliada a convicções, princípios e confiança.
Quanto aos significados de se perder um ente querido, Rebolledo-Sanhueza et al.(2024) apontam que familiares podem ter preconceitos em relação à morte, considerando-a um tema tabu que raramente é discutido. Assim, apesar de estarem cientes da iminência da morte, não conseguem ou não desejam aceitá-la devido à profundidade da dor da perda, o que os leva a questionar a possibilidade de se prepararem para isso. Sob outra perspectiva afirmaram também que, ainda que a perda de um ente querido possa causar muita dor, a morte representa o término do sofrimento, o que contribui para amenizar a tristeza decorrente da perda. Para eles, a condição do idoso, sobretudo em cuidados paliativos, os levou a aceitar a morte como um acontecimento que proporciona alívio à dor.
Este estudo demonstra sentimentos distintos de familiares face à proximidade da morte de idosos em cuidados paliativos. Porque a morte ainda é um tema pouco discutido e gera preconceitos, junto à dor do luto após o falecimento do ente querido. Mas os familiares também entenderam que morrer significa o fim do sofrimento, principalmente para o enfermado.
Outro tema relacionado a idosos em cuidados paliativos e familiares é apresentado no estudo de Teixeira et al. (2022, p. 02), no sentido de parentes que cuidam de idosos em CP e são denominados “cuidadores informais”. Após entrevistar 20 cuidadores que cuidavam de 20 idosos oncológicos em estado paliativo em suas casas, os autores constataram que os filhos dos idosos constituíam a maior parte (45%) dos cuidadores. Em relação à idade, a maior parte dos cuidadores tinha entre 36 e 50 anos. Todavia, os autores destacam que havia também a presença de cônjuges com idade superior a 65 anos, representando 20% do total. A idade avançada dos cuidadores de idosos pode afetar a saúde deles, assim como a qualidade do serviço oferecido, considerando que essas pessoas são menos capazes de realizar os esforços físicos necessários para a função de cuidador, tornando-os mais suscetíveis ao desenvolvimento de problemas de saúde.
Neste sentido, Teixeira et al. (2022) explicam que o processo de cuidar de um idoso que necessita de cuidados paliativos demanda do cuidador informal comprometimento por tempo integral e, na etapa de cuidados terminais, os sintomas dos pacientes tendem a se agravar, exigindo mais atenção, o que intensifica a sobrecarga e a tensão do cuidador. Proporcionar cuidados paliativos a idosos oncológicos de forma contínua gera sobrecarga psicológica, física e social, que leva a mudanças psicossomáticas ao cuidador, afetando sua qualidade de vida e saúde. Portanto, esses cuidadores apresentavam sintomas depressivos leves (35%) e depressão moderada (10%).
Considerando o último estudo, entende-se que os cuidados paliativos de idosos em suas casas, se mostram um problema para esses idosos e para seus familiares. Isso porque os CP podem ser comprometidos, uma vez que esses idosos recebem cuidados de filhos ou cônjuges (estes últimos também idosos). Além disso, os dois grupos estão intimamente ligados ao paciente paliativo e sofrem pela exaustão física e emocional.
3.2 PERCEPÇÕES DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE PÚBLICA QUE ATUAM COM IDOSOS EM ESTADOS PALIATIVOS
O estudo de Marques e Bulgarelli (2020) resultou de uma pesquisa compreensivista, realizada com 12 profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) que ofereciam cuidados domiciliares paliativos a idosos. Neste estudo, os autores afirmam que profissionais do Sistema único de Saúde (SUS) entendem a atenção domiciliar disponibilizada pela APS, como essencial e afirmam que ela promove cuidado e confiança, conexão e empatia do profissional. Entretanto, afirmam a necessidade de uma efetiva rede de assistência à saúde voltada ao CP de idosos. Isso porque, os modelos de gestão municipal em saúde frequentemente negligenciam considerar os profissionais como seres humanos que se angustiam.
O estudo supracitado revela que profissionais da APS atuantes junto a idosos em cuidados paliativos, por meio da atenção domiciliar, percebem essa forma de cuidado como essencial. Todavia, queixaram-se por não haver uma rede de assistência em CP, que os amparem em suas aflições, de forma que eles se sentem negligenciados pela saúde pública municipal.
Sequenciando, Matos e Guimarães (2020) elaboraram um estudo descritivo com abordagem qualitativa, entrevistando 27 enfermeiros atuantes na Atenção Primária em Saúde, que além dos cuidados em enfermagem, haviam oferecido assistência espiritual a pacientes idosos em cuidados paliativos. Os profissionais entrevistados destacaram a importância do apoio espiritual e do envolvimento dos familiares no CP. No entanto, sinalizaram que cabe principalmente aos voluntários religiosos e à família o papel de intervir na espiritualidade.
Tem-se no estudo acima, enfermeiros que além dos cuidados em enfermagem, destacaram oferecer assistência espiritual a idosos em cuidados paliativos. Todavia, esses profissionais sinalizaram que os cuidados espirituais, deviam ser oferecidos por pessoas voluntárias religiosas. Reflete-se assim, profissionais da saúde agindo para além de suas funções.
Queiroz et al.(2024) realizaram uma pesquisa fundamentada na Teoria das Representações Sociais, na qual entrevistaram profissionais de saúde pública, para compreenderem as representações sociais dos profissionais enfermeiros, médicos e odontólogos da Atenção Primária em Saúde (APS) sobre cuidados paliativos para a pessoa idosa. Os autores confirmaram que as percepções sociais dos profissionais de saúde da APS, em relação ao CP para idosos estão fortemente ligadas ao que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso porque, os referidos profissionais entendem o cuidado paliativo como o lidar com um diagnóstico sem cura, biopsicossocial e humanizado voltado ao idoso e sua família, além da instrução em bem-estar. No que diz respeito à execução da assistência paliativa direcionada a idosos na APS, o grupo destaca iniciativas por meio de visitas domiciliares, nas quais oferecem atenção biopsicossocial ao idoso e seus familiares. Além de grupos de atividades, incentivo da qualidade de vida e suporte após o falecimento.
Nota-se, dessa forma, que os profissionais também atuantes na Atenção Primária em Saúde, analisados no estudo supracitado, têm percepções e práticas dos cuidados paliativos para idosos conforme recomenda a Organização Mundial de Saúde. Isto significa conceitos e práticas assertivas.
Entretanto, a maioria dos achados apresentados nas duas categorias levam ao entendimento que o cuidado paliativo ao idoso na saúde pública, enfrenta desafios. Conforme pode ser observado na próxima categoria de análise.
3.3 DESAFIOS NO ATENDIMENTO PALIATIVO AO IDOSO NA SAÚDE PÚBLICA
Após entrevistar 45 profissionais e técnicos da Atenção Primária à Saúde, que prestavam assistência domiciliar a idosos paliativos, Rebolledo-Sanhueza et al. (2024), constataram que esses profissionais afirmaram a necessidade de incorporar estratégias de preparação para a morte no contexto dos cuidados paliativos na APS, a fim de promover uma morte digna como parte essencial de uma vida plena. Bem como que a preparação para a morte é de fundamental importância no contexto do cuidado domiciliar. Isso porque, além dos fatores médicos, falecer em casa demanda suporte emocional e espiritual para garantir uma boa morte. Assim, é essencial disponibilizar recursos adequados para que a APS possa cumprir essa função e aprimorar a qualidade de vida daqueles que estão próximos à finitude da vida, oferecendo suporte emocional eficaz.
O estudo acima revela desafios apontados por profissionais da APS, como falta de preparação destinada à morte no âmbito dos cuidados paliativos domiciliares a idosos, que possam assegurar uma morte respeitosa.
Já o estudo de Ribeiro e Borges (2018) é voltado à percepção de 11 idosos oncológicos em cuidados paliativos internados em um hospital de Brasília. Baseadas nas narrativas desses pacientes, as autoras afirmam que além dos sentimentos negativos resultantes do recebimento da confirmação de câncer e os sinais e sintomas da doença, 39% apontaram outro fator estressor como a dificuldade de acesso ao tratamento, caracterizada como angustiante. Também que o atendimento nas cidades de origem era impróprio e, portanto, decidiram pela mudança para a capital do país procurando um diagnóstico confiável e apropriado.
Conforme a percepção dos idosos em CP, no estudo supramencionado, nota-se o quão desafiador foi o processo de adoecimento deles, uma vez que para além das muitas questões de uma doença terminal, parte deles tiveram problemas quanto ao diagnóstico, tratamento e deslocamentos de suas cidades.
Considerando as três categorias descritivas, percebe-se que existem diversos desafios nos cuidados paliativos aos idosos, apesar de também haver cuidados paliativos assertivos a essa população.
Neste sentido, Alves et al. (2019) explicam que ainda há um grande desconhecimento e preconceito em relação aos cuidados paliativos, entre profissionais de saúde, administradores hospitalares e sistema judiciário. Todavia, o entendimento sobre os cuidados paliativos é cada vez mais essencial para a eficácia das práticas de saúde. A formação técnica, de nível médio e superior, assim como a capacitação dos profissionais já em exercício, deve ser o método mais eficiente para fazer com que esses profissionais estejam melhor preparados para promoverem as práticas paliativistas. Sendo imprescindível o fortalecimento das políticas públicas e programas de organização do cuidado no final da vida. Porque não é possível aprofundar essa questão, sem criar conexões tanto filosóficas quanto teóricas e práticas em relação aos programas e políticas públicas de saúde do SUS.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Objetivando compreender alguns elementos do contexto de idosos em atendimento paliativo, foi realizada uma revisão de literatura com base em dados de oito artigos científicos, publicados nos últimos dez anos, na base de dados online SciElo. Os resultados encontrados revelam que 35 idosos em cuidados paliativos, eram pacientes oncológicos. Parte deles foram assistidos em casa por profissionais da saúde e outros por familiares. Enquanto uma terceira parte foi assistida em hospitais. Todavia, nem todos os artigos enumeraram os pacientes idosos em CP, ou especificaram suas doenças. Igualmente, nem todos os artigos especificaram amostras de familiares e profissionais de saúde. Apenas um estudo especificou 20 familiares que também eram cuidadores informais. Já os profissionais de saúde apontados foram 84, divididos em técnicos, enfermeiros, médicos e odontólogos, que atendiam na Atenção Primária à Saúde, prestando cuidados paliativos a idosos internados em hospitais ou em atendimentos domiciliares.
No que tange às percepções dos idosos em atendimento paliativo, esses demonstraram resiliência frente ao envelhecimento, a uma enfermidade terminal e à proximidade do óbito. Grande parte deles evidenciou a crença religiosa como uma tática de resistência vinculada ao plano espiritual. Por outro lado, sofriam não só por estarem enfermos, mas também pela perda da autonomia, inclusive no que diz respeito aos cuidados com o próprio corpo. Além disso, a aflição pela tristeza que a perda deles poderia causar aos familiares, foi outra forma de angústia.
Concernente às condições familiares face à morte dos idosos em CP, esta revisão demonstra sentimentos variados de parentes diante da proximidade da finitude da vida. Porque morrer ainda é um assunto pouco abordado e gera preconceitos, além da dor do luto após o falecimento de um ente querido. Mas, a morte também foi entendida como o término do sofrimento, especialmente para aqueles que estavam gravemente doentes e sem chances de cura. Já os familiares (cônjuges e filhos) que cuidavam de idosos em cuidados paliativos, geralmente eram profundamente conectados ao paciente, junto a todas as demandas desses cuidados, o que levou parte considerável deles a problemas físicos e emocionais.
Referente às percepções dos profissionais de saúde pública que cuidam de idosos em estados paliativos, eles consideram esse tipo de cuidado fundamental. No entanto, reclamaram da falta de uma rede de assistência em CP que os apoie em suas dificuldades, fazendo com que se sintam desprezados pela saúde pública. Outros profissionais indicaram estar trabalhando para além de suas funções, como por exemplo prestar cuidados espirituais. Todavia, um estudo demonstrou profissionais com percepções e práticas de cuidados paliativos para idosos, de acordo com as orientações da Organização Mundial de Saúde, corroborando conceitos e exercícios assertivos.
Em se tratando dos desafios no cuidado paliativo a idosos na saúde pública, a ausência de métodos de preparação para a morte no contexto dos CP domiciliares para idosos, que garantam uma morte digna, foi apontada por profissionais. Além disso, os problemas desse contexto, foram sinalizados pelos próprios pacientes ao relatarem que além das inúmeras questões relacionadas a uma doença terminal, alguns enfrentaram problemas com diagnóstico e tratamento, sendo processos que demandaram saírem de suas cidades de origem.
Nota-se, portanto, que geralmente os cuidados paliativos para idosos constituem um desafio à saúde pública. Portanto, é crucial intensificar as políticas governamentais e os programas voltados para a organização da assistência no fim da vida. E não é possível discutir essa questão sem estabelecer vínculos com os programas e políticas públicas de saúde.
REFERÊNCIAS
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1Graduanda em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: whendyferalmeida@gmail.com.
2Graduada em Administração pelo Computer System Institute. Graduanda em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: bennesby.t@gmail.com.
3Graduando em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho Rondônia, Brasil. E-mail: luizfabiano2003@gmail.com.
4Graduando em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das araras, 241, Bairro: Eldorado Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: henriquealmendra2@gmail.com.
5Graduando em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das araras, 241, Bairro: Eldorado Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: eliottcavalcante042@gmail.com.
6Graduando em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das araras, 241, Bairro: Eldorado Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: lukaschneider45@gmail.com.7.
7Graduando em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das araras, 241, Bairro: Eldorado Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: Kauannypantojasantana@gmail.com.
8Graduanda em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: brendarochamc@gmail.com
9Graduada em enfermagem pela Faculdade São Lucas.Graduanda em Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho- Rondônia, Brasil. E-mail: ionadacosta123@gmail.com.
10Graduada em medicina FIMCA 2010. Pós graduada em ensino médico em 2017. Pós graduada em geriatria e gerontologia 2019. Especialista em infectologia RQE 3576. Docente no Curso de Medicina na União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental – UNNESA/Faculdade Metropolitana. Rua das Araras, 241, Bairro: Eldorado, Porto Velho Rondônia, Brasil. E-mail: francielle.moraes@metropolitana-ro.com.br
