BUILDING COLLECTIVE HEALTH: CONTRIBUTIONS OF GROUP ACTIVITIES TO HEALTH PROMOTION IN PRIMARY CARE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202509031447
Janne de Jesus Bugarim Martins1, Jânio de Jesus Gonçalves Júnior2, Eunice Lara dos Santos Cunha3, Soly Guedes de Oliveira4, Jéssica Nayara Gondim dos Santos5, Mateus Felipe de Freitas6, Tatiane Bahia do Vale Silva7, Gabriel Vinícius Reis de Queiroz8
RESUMO: A Atenção Primária à Saúde (APS) é reconhecida como eixo central dos sistemas universais por articular cuidado integral, promoção da saúde e equidade. Nesse contexto, as atividades em grupo têm sido destacadas como ferramentas relevantes, embora ainda pouco institucionalizadas. Este estudo realizou uma revisão narrativa da literatura, com buscas em bases científicas (SciELO, LILACS e PubMed) e bibliotecas digitais, contemplando produções entre 2000 e 2024 sobre práticas coletivas na APS. A análise, fundamentada em referenciais da Saúde Coletiva, Educação Popular e psicossociologia, identificou três categorias centrais: (1) práticas grupais como tecnologia leve de cuidado, ao promover vínculo, corresponsabilização e escuta qualificada; (2) promoção da saúde e empoderamento comunitário, ao favorecer a participação ativa, a criação de redes sociais de apoio e a ampliação da autonomia; e (3) desafios e perspectivas para a institucionalização dos grupos, relacionados à fragmentação do trabalho, escassez de recursos, precarização profissional e deficiências na formação para metodologias participativas. A literatura aponta que, apesar dos benefícios clínicos, psicossociais e comunitários associados às práticas em grupo, sua consolidação ainda depende de investimentos políticos, de capacitação interdisciplinar e de avaliações sistemáticas que considerem impactos para além de indicadores biomédicos. Conclui-se que os grupos possuem potencial estratégico para fortalecer a APS como espaço de cuidado integral e democrático, mas sua efetividade exige superar barreiras estruturais e pedagógicas, de modo a integrá-los de forma contínua às redes de atenção em saúde.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Promoção da Saúde; Grupos de Apoio; Participação Comunitária.
ABSTRACT: Primary Health Care (PHC) is recognized as a cornerstone of universal health systems for providing comprehensive care, health promotion, and equity. In this context, group activities have emerged as relevant tools, although still weakly institutionalized. This study conducted a narrative literature review, searching scientific databases (SciELO, LILACS, and PubMed) and digital libraries, covering publications from 2000 to 2024 on collective practices in PHC. The analysis, grounded in Collective Health, Popular Education, and psychosociology frameworks, identified three core categories: (1) group practices as light-care technologies, by fostering bonding, co-responsibility, and active listening; (2) health promotion and community empowerment, by encouraging participation, building social support networks, and expanding autonomy; and (3) challenges and perspectives for institutionalizing groups, related to work fragmentation, resource shortages, professional precarization, and gaps in training for participatory methodologies. The literature shows that, despite the clinical, psychosocial, and community benefits associated with group practices, their consolidation still depends on political investment, interdisciplinary training, and systematic evaluations that consider impacts beyond biomedical indicators. In conclusion, groups hold strategic potential to strengthen PHC as a space for comprehensive and democratic care, but their effectiveness requires overcoming structural and pedagogical barriers to ensure their continuous integration into health care networks.
Keywords: Primary Health Care; Health Promotion; Support Groups; Community Participation.
Introdução
A Atenção Primária à Saúde (APS) consolidou-se como eixo estruturante dos sistemas universais por sua capacidade de produzir respostas integrais, coordenar o cuidado e promover equidade no território (Starfield, 2002). No Brasil, a APS incorpora os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS): universalidade, integralidade e participação da população e, conforme a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), atua como organizadora das redes de atenção (Brasil, 2017). Nesse contexto, a promoção da saúde deixa de ser um complemento das práticas curativas e passa a ser uma abordagem central no cuidado, capaz de integrar necessidades individuais e fatores sociais que influenciam o processo saúde-doença (Buss; Pellegrini Filho, 2007; Dahlgren; Whitehead, 1991).
A Carta de Ottawa, elaborada em 1986, redefiniu a promoção da saúde como uma abordagem política e técnica que envolve indivíduos, comunidades e instituições na criação de ambientes salubres, no fortalecimento de ações coletivas e no desenvolvimento de competências pessoais (WHO, 1986). Essa visão é especialmente proveitosa na APS, onde o trabalho é estruturado conforme o território, os vínculos e a continuidade, aspectos que facilitam a elaboração conjunta de planos terapêuticos e a mobilização de redes sociais de apoio. Nesse contexto, as atividades em grupo surgem como eficazes ferramentas de cuidado, capazes de aumentar a autonomia, promover o auxílio mútuo e apoiar a mudança de hábitos em situações concretas do dia a dia.
A produção literária na área de Saúde Coletiva no Brasil revela que práticas consideradas “tecnologias leves”, como acolhimento, criação de vínculos, escuta atenta e trabalho em equipe, geram impactos clínicos e políticos significativos ao deslocar a ênfase do procedimento técnico para o encontro humano (Merhy, 2002). Agindo como espaços de diálogo, os grupos desafiam a predominância do papel do médico, integram diferentes conhecimentos e abrem novas possibilidades para uma “clínica ampliada”, que abarca as esferas biológicas, psicológicas e socioculturais do cuidado (Campos, 2014; Ayres, 2009). Além disso, essas práticas incorporam metas de promoção da saúde na rotina da APS, tornando mais fácil a corresponsabilização e o empoderamento dos usuários.
Sob a perspectiva psicossocial, as atividades em grupo baseadas na tradição dos grupos operativos veem o coletivo como um meio para aprendizagem, análise e transformação. Nesse contexto, a tarefa compartilhada e a comunicação em pé de igualdade impulsionam processos de mudança (Pichon-Rivière, 2005). No âmbito da Educação Popular em Saúde, a abordagem pedagógica dialógica enfatiza a importância da problematização e do conhecimento construído em conjunto, permitindo que os participantes se movam de um papel passivo para o de agentes de transformação de suas próprias realidades (Freire, 1987). Essas bases teóricas e metodológicas se alinham à APS, ao fornecerem fundamentos para rodas de conversa, grupos temáticos e intervenções comunitárias focadas na promoção de estilos de vida mais saudáveis e solidários.
No dia a dia dos serviços, a utilização de atividades em grupo tem sido aplicada para diversos objetivos: manejo de enfermidades crônicas (como hipertensão e diabetes), promoção da saúde mental e diminuição de danos, cuidados ao longo da vida (pré-natal, puerpério, envelhecimento), práticas de atividade física e alimentação saudável, entre outros. Além dos resultados clínicos imediatos, essas experiências afetam fatores intermediários. apoio social, senso de pertencimento, autoestima e conhecimentos sobre saúde, que são vistos como fundamentais para a manutenção de mudanças comportamentais e para a resiliência da comunidade diante de adversidades (Buss; Pellegrini Filho, 2007). Em áreas com situações de vulnerabilidade, os grupos atuam também como “redes de apoio”, conectando serviços públicos, escolas, organizações da sociedade civil e iniciativas intersetoriais.
Entretanto, ainda existem desafios persistentes. A organização do trabalho na área da saúde é influenciada por abordagens voltadas para a produtividade, pela medicalização e pela fragmentação das práticas, o que pode transformar atividades em grupo em ações pontuais e descontextualizadas (Campos, 2014; Merhy, 2002). Obstáculos como a alta rotatividade das equipes, a precarização das relações de trabalho, dificuldades na programação das agendas, a falta de formação adequada para metodologias participativas e a carência de avaliações sistemáticas dos resultados dificultam a institucionalização de grupos como uma estratégia de longo prazo na APS. Além disso, há o desafio de garantir que esses grupos não repliquem relações hierárquicas ou de culpa, o que poderia comprometer seu potencial emancipatório (Ayres, 2009; Freire, 1987).
Assim, justifica-se a realização desta revisão narrativa, que organiza conceitos e diretrizes práticas sobre a importância das atividades em grupo para a promoção da saúde na APS. A abordagem narrativa, ao combinar diferentes tradições teóricas em Saúde Coletiva, psicossociologia e educação em saúde, facilita a união de evidências diversas, experiências na gestão do cuidado e fundamentos críticos sobre trabalho ativo (Merhy, 2002), clínica ampliada (Campos, 2014) e cuidado como um encontro entre sujeitos (Ayres, 2009). Essa síntese pode servir como um guia para equipes ao elaborar, implementar e avaliar grupos que respondam às necessidades locais e aos princípios do SUS.
O objetivo deste artigo é identificar e analisar as contribuições das atividades grupais na promoção da saúde na APS, considerando sua potencialidade para: (a) criar ambientes de apoio e aprendizagem coletiva; (b) fortalecer vínculo e corresponsabilização; (c) favorecer a intersetorialidade e a participação social; e (d) produzir efeitos clínicos e sociopolíticos em consonância (ou tensão) com a missão pública do SUS. Ao discutir essas dimensões, o estudo pretende problematizar o lugar das práticas grupais como possíveis componentes estruturantes do cuidado na APS e situá-las no debate contemporâneo sobre modelos de atenção orientados por equidade, integralidade e democracia sanitária
Materiais e métodos
Este trabalho consiste em uma revisão narrativa da literatura, uma abordagem que permite reunir diversas produções teóricas e empíricas distintas, organizando descobertas e proporcionando uma análise crítica (Rother, 2007). Ao contrário das revisões sistemáticas, o estudo atual não adere a protocolos estritos de busca e seleção, mas se fundamenta na relevância e na adequação dos textos ao tema em questão.
A revisão teve como meta principal identificar, entre o acervo bibliográfico disponível, as contribuições das atividades em grupo para a promoção da saúde dentro da Atenção Primária. Para isso, foram realizadas consultas em bases de dados científicas (SciELO, LILACS e PubMed), além de buscas adicionais em bibliotecas digitais (Google Scholar e repositórios institucionais). Foram empregados descritores em português e inglês, utilizando operadores booleanos: “atividades grupais” OR “grupos em saúde” AND “promoção da saúde” AND “atenção primária” / “primary health care” AND “health promotion” AND “group activities”.
Foram considerados artigos, dissertações, teses, manuais e obras publicadas entre os anos de 2000 e 2024, levando em conta o período após a consolidação da Estratégia Saúde da Família como o modelo prioritário de APS no Brasil. Não houve restrições rigorosas em relação ao tipo de pesquisa, englobando tanto estudos empíricos quanto textos teóricos e normativos, desde que tratassem de experiências, conceitos ou resultados ligados a práticas coletivas no âmbito da APS. Foram descartados trabalhos que abordavam exclusivamente grupos em ambientes hospitalares ou especializados, sem conexão com a atenção primária.
A abordagem da leitura e análise foi guiada por uma visão crítica, baseada em conceitos de Saúde Coletiva e Promoção da Saúde. Com a organização dos materiais escolhidos, surgiram três categorias temáticas que estruturam a apresentação e debate dos resultados: 1) As práticas grupais como tecnologia leve de cuidado, 2) Promoção da saúde e empoderamento comunitário, 3) Desafios e perspectivas para a institucionalização dos grupos na APS.
Essas categorias não foram estabelecidas antecipadamente; surgiram a partir da análise do material coletado, possibilitando uma compreensão mais holística da função das atividades em grupo na consolidação de práticas para a promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde.
Resultados e Discussão As práticas grupais como tecnologia leve de cuidado
A literatura aponta que as dinâmicas em grupo, quando integradas à Atenção Primária à Saúde (APS), representam tecnologias leve de cuidado, ou seja, ações que enfatizam a relação, a escuta ativa e a corresponsabilidade entre profissionais de saúde e usuários (Merhy, 2002; Campos, 2014). Pesquisas recentes corroboram essa função. Um estudo qualitativo realizado no Ceará entre agosto e novembro de 2022, focado em grupos de atividades físicas, revelou que os participantes relataram não apenas vantagens físicas (como aumento da força, flexibilidade e resistência), mas também melhorias psicossociais, incluindo incremento na autoestima, maior energia para as tarefas diárias e fortalecimento das relações interpessoais (Silva et al., 2023).
Um outro levantamento, conduzido em Santa Maria (RS), investigou duas iniciativas comunitárias ligadas à APS, “Semeando Arte” e “Semeando Saúde”, e constatou que o ambiente de grupo favoreceu a acolhida e a expressão emocional, diminuindo o isolamento social e fortalecendo os vínculos na comunidade (Moura et al., 2024). Nesse cenário, a prática em grupo funcionou como um mecanismo de cuidado holístico, integrando aspectos subjetivos e coletivos.
Uma análise global divulgada em 2024 revelou 30 pesquisas relacionadas a grupos na APS, abrangendo ensaios clínicos randomizados, estudos quase experimentais e qualitativos. Os resultados demonstraram que essas intervenções têm um efeito positivo tanto no bem-estar psicológico dos participantes quanto na ampliação do conhecimento sobre saúde (Kumar et al., 2024). Entretanto, a análise enfatizou a falta de padronização e sublinhou a importância de profissionais “mediadores” que possam facilitar a comunicação entre a equipe de saúde e a comunidade, ressaltando a significância dos aspectos relacionais.
Essas descobertas apoiam a ideia de que os grupos representam ambientes favoráveis para a prática de trabalho significativo (Merhy, 2002), onde o cuidado se manifesta na interação e não apenas na execução de técnicas. Contudo, a pesquisa também enfatiza o perigo de os grupos se tornarem menos dialogais se forem geridos de maneira hierárquica, o que diminui sua eficácia como uma tecnologia leve (Vieira; Palha, 2021).
Promoção da saúde e empoderamento comunitário
As atividades em grupo são fundamentais na área da promoção da saúde, pois incentivam a autonomia, a participação da comunidade e o fortalecimento de redes sociais. Baseadas em documentos como a Carta de Ottawa (WHO, 1986) e os princípios da Educação Popular em Saúde (Freire, 1987), essas iniciativas coletivas têm sido adotadas para promover estilos de vida saudáveis, aumentar o entendimento sobre saúde e empoderar os indivíduos.
Uma revisão integrativa acerca de grupos educativos na Atenção Básica, que analisou publicações entre 2009 e 2018, havia constatado que a principal estratégia adotada continuava sendo a realização de palestras, o que restringia a participação ativa dos usuários (Souza; Oliveira, 2021). Pesquisas mais recentes corroboram essa incongruência: apesar de reconhecerem o potencial transformador dos grupos, os profissionais frequentemente permanecem utilizando métodos tradicionais, focados principalmente na disseminação de informações (Almeida et al., 2022).
Em contrapartida, iniciativas inovadoras demonstram progresso. Um relato de experiência da Fiocruz referente a atividades em uma unidade no Ceará destacou que ações educativas realizadas na sala de espera melhoraram a participação da comunidade e incentivaram a corresponsabilidade pelo cuidado (Nunes et al., 2023). Além disso, grupos dedicados a práticas corporais e artísticas têm se revelado eficazes para expandir repertórios culturais, estimular a criatividade e promover a saúde mental coletiva (Moura et al., 2024).
Essas descobertas mostram que a literatura apoia a importância das práticas em grupo para a promoção da saúde como ambientes que favorecem o fortalecimento da comunidade. No entanto, também revela uma deficiência: a discrepância entre a abordagem crítica da Educação Popular e as ações que estão realmente sendo executadas na APS. O desafio está em fazer a transição de um modelo informativo para um modelo dialógico, onde os usuários deixam de ser meros receptores e se tornam participantes ativos no processo de cuidado.
Desafios e perspectivas para a institucionalização dos grupos na APS
Embora traga vantagens, a consolidação das práticas em grupo como um pilar da APS ainda encontra desafios. O maior deles é a fragilidade de sua institucionalização, que faz com que essas práticas dependam de ações pontuais dos profissionais. Muitas vezes, os grupos ocorrem de maneira ocasional, não são integrados no planejamento da equipe e estão sujeitos a interrupções devido à rotatividade dos trabalhadores ou à pressão por atingir metas (Vieira; Palha, 2021; Nunes et al., 2023).
Pesquisas recentes confirmam essa vulnerabilidade. Um estudo realizado em 2024 sobre o Programa Saúde na Escola (PSE) revelou que a falta de integração entre os setores de saúde e educação, somada à escassez de recursos materiais e humanos, prejudicou a realização de atividades coletivas voltadas para a promoção da saúde, evidenciando as limitações da colaboração intersetorial (Rodrigues et al., 2024). Essa conclusão está alinhada com a investigação de Kumar et al. (2024), que apontaram a falta de padronização como um elemento que afeta a continuidade dos grupos em diversos contextos.
Um outro obstáculo identificado na literatura é a falta de treinamento adequado para profissionais encarregados de promover atividades dialogais. Apesar de a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde sugerir abordagens ativas e participativas, ainda prevalece um modelo de formação voltado para a técnica, que não inclui práticas coletivas como essência do cuidado (Campos, 2014; Almeida et al., 2022). Essa defasagem impacta diretamente na qualidade dos grupos formados.
Estudos recentes apontam direções promissoras. Dentre elas, destaca-se a importância de integrar os grupos como uma prática regular nas atividades da equipe; a valorização das ações coletivas como medidas de qualidade da APS; a capacitação de profissionais em abordagens participativas e interdisciplinares; além da implementação de métodos de avaliação qualitativa que levem em conta os impactos psicossociais e comunitários, e não apenas os aspectos biomédicos (Moura et al., 2024; Silva et al., 2023).
Assim, a literatura atual concorda que, além de serem uma atividade complementar, os grupos devem ser vistos como uma abordagem fundamental na APS, pois integram o atendimento clínico, a promoção da saúde e o fortalecimento da comunidade. Para superar os obstáculos, é necessário um investimento político e educativo que transcenda a lógica de objetivos e resgate a vertente emancipatória do cuidado coletivo.
Conclusão
O presente estudo teve como objetivo analisar, com base em estudos recentes, as contribuições das atividades em grupo para a promoção da saúde na Atenção Primária. A análise demonstrou que os grupos se estabelecem como uma tecnologia leve de cuidado, capaz de fortalecer relações, aumentar a escuta atenta e facilitar processos de acolhimento e responsabilização compartilhada entre profissionais e usuários. Assim, as práticas em grupo se revelam fundamentais para transcender o modelo biomédico focado no indivíduo, alinhando-se a visões mais amplas de saúde e cuidado em saúde coletiva.
Verificou-se que as ações coletivas implementadas na APS são essenciais para a promoção da saúde e o fortalecimento da comunidade. Essas iniciativas criam ambientes propícios à participação, educação em saúde e libertação social, onde os indivíduos se tornam protagonistas de seus próprios cuidados, ao mesmo tempo em que estreitam os relacionamentos comunitários. Essa abordagem pedagógica e libertadora é apoiada por pesquisas recentes que ressaltam os efeitos benéficos das atividades em grupos sobre a autonomia dos participantes e a maior adesão a tratamentos personalizados.
Em contrapartida, as conclusões também evidenciaram obstáculos contínuos para a adoção das práticas coletivas nos serviços de APS. Elementos como a ausência de uma infraestrutura adequada, a limitação de profissionais qualificados e a sobrecarga enfrentada pelas equipes configuram barreiras significativas. Além disso, a literatura destaca deficiências na formação dos profissionais, especialmente no que diz respeito à gestão de processos em grupo, ao uso de metodologias participativas e à avaliação dos resultados dessas iniciativas. Nesse contexto, mesmo que os grupos sejam vistos como estratégias essenciais, sua aplicação ainda se mostra vulnerável e desigual entre diferentes regiões.
De um modo geral, a revisão narrativa demonstra que as atividades em grupo não só favorecem a saúde tanto individual quanto coletiva, mas também se apresentam como instrumentos de resistência contra a descontinuidade do cuidado e a predominância do enfoque curativo. Para que isso se fortaleça, é necessário implementar políticas públicas robustas, investir em formação interdisciplinar e promover a pesquisa aplicada, a fim de firmar os grupos como parte fundamental da APS.
Em conclusão, é importante destacar que, mesmo com os resultados expostos que evidenciam o valor das atividades em grupo, persiste a necessidade de pesquisas mais estruturadas que analisem, de maneira contínua, seus efeitos sobre parâmetros de saúde, bem-estar e engajamento social. Portanto, espera-se que este estudo ajude a enriquecer a discussão acadêmica e a melhorar as políticas de saúde, sugerindo direções para a expansão e o aprimoramento dessas abordagens na rotina da Atenção Primária.
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1Fisioterapeuta. Especialista em Fisioterapia Pélvica – Uroginecologia e Sexualidade Funcional pela Faculdade Inspirar.
2Médico. Mestrando em Oncologia e Ciências Médicas pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
3Biomédica. Mestra em Cirurgia e Pesquisa Experimental pela Universidade do Estado do Pará (UEPA). 4Fisioterapeuta. Mestra em Cirurgia e Pesquisa Experimental pela Universidade do Estado do Pará (UEPA).
5Fisioterapeuta pela Universidade da Amazônia (UNAMA).
6Graduando em Obstetrícia pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP).
7Fisioterapeuta. Doutora em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ).
8Fisioterapeuta. Doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
