CONSTRUCTION OF KNOWLEDGE-IN-ACTION IN JIU-JITSU: A PILOT STUDY OF A METHODOLOGICAL PROPOSAL FOR ANALYSIS THROUGH THE COURSE OF ACTION
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510081408
Joslea Silva Rodrigues¹
Orientador: Prof. Dr. Juan Carlos Pérez Morales²
Resumo
O artigo analisa como atletas de Jiu-Jitsu constroem conhecimento em ação durante lutas competitivas, utilizando a Teoria do Curso da Ação como referencial metodológico. Trata-se de um estudo qualitativo de caráter piloto realizado com uma atleta faixa preta bicampeã mundial, que competiu no Campeonato Brasileiro de 2025. Foram analisadas duas lutas, uma vencida e outra perdida, a partir de entrevistas de autoconfrontação apoiadas em registros audiovisuais e observações presenciais. A análise foi estruturada em três níveis hierárquicos: momentos da luta, dimensões táticas e ações técnico-táticas, possibilitando compreender os processos de tomada de decisão em situações reais de combate. Os resultados mostraram que o conhecimento em ação é dinâmico e situado, emergindo da articulação entre percepções, intenções e execuções. Na luta vencida, a atleta explorou informações relevantes do ambiente, articulou defesa, ataque e manutenção e converteu percepções em ações eficazes, enquanto na derrota uma decisão precipitada no início comprometeu a sequência estratégica e resultou em atuação predominantemente defensiva. Conclui-se que a construção do conhecimento em ação constitui um eixo central da prática competitiva no Jiu-Jitsu, demonstrando como atletas reorganizam suas decisões em tempo real a partir das condições do combate. A aplicação da Teoria do Curso da Ação confirma-se como recurso metodológico pertinente para acessar a experiência vivida e qualificar a compreensão da tomada de decisão em esportes de combate.
Palavras-chave: tomada de decisão; conhecimento em ação; esportes de combate; curso da ação; jiu-jitsu.
Abstract
This article analyzes how Brazilian Jiu-Jitsu athletes build knowledge-in-action during competitive matches, using the Course of Action Theory as a methodological framework. It is a qualitative pilot study conducted with a black belt athlete, two-time world champion, who competed in the 2025 Brazilian Championship. Two matches, one won and one lost, were analyzed through self-confrontation interviews supported by audiovisual recordings and direct observations. The analysis was structured in three hierarchical levels: fight moments, tactical dimensions, and technical-tactical actions, allowing a deeper understanding of decision-making processes in real combat situations. The results showed that knowledge-in-action is dynamic and situated, emerging from the articulation between perceptions, intentions, and executions. In the winning match, the athlete explored relevant environmental information, articulated defense, attack, and maintenance, and successfully converted perceptions into effective actions, while in the losing match a hasty initial decision compromised the strategic sequence and resulted in a predominantly defensive performance. It is concluded that knowledge-in-action constitutes a central axis of competitive practice in Brazilian Jiu-Jitsu, demonstrating how athletes reorganize their decisions in real time according to the conditions of the fight. The application of the Course of Action Theory is confirmed as a pertinent methodological tool to access lived experience and to enhance the understanding of decision-making in combat sports.
Keywords: decision-making; knowledge-in-action; combat sports; course of action; Brazilian Jiu-Jitsu.
1 NTRODUÇÃO
A tomada de decisão no esporte constitui um campo de estudos consolidado e em expansão, integrando contribuições da psicologia cognitiva, da ergonomia e da psicologia ecológica (HASTIE, 2001; KAHNEMAN, 2003; ARAÚJO & DAVIDS, 2009). Em modalidades caracterizadas pela imprevisibilidade e pela oposição direta, como as lutas, o processo decisório torna-se crítico, pois exige lidar com riscos, adaptação contínua e leitura rápida do comportamento do adversário (SCHMIDT & RIBAS, 2020). Nessas práticas, cada ação resulta de um encadeamento dinâmico entre intenções, percepções e execuções, que se concretizam em momentos decisivos de ataque, defesa, manutenção ou transição (AVELARROSA et al., 2015).
O Jiu-Jitsu competitivo é exemplar nesse aspecto, já que sua lógica interna se organiza em ciclos constantes de oposição, compostos por quedas, guardas, passagens, raspagens, estabilizações e finalizações (ANDREATO et al., 2013; ANDREATO et al., 2017). Em cada ciclo, o atleta precisa interpretar as condições emergentes do combate, ajustando a intensidade de suas ações em função das oportunidades e restrições oferecidas pelo adversário e pelo contexto. Assim, a tomada de decisão vai além da execução técnica: envolve, na perspectiva ecológica, o conhecimento do entorno competitivo, ou seja, a capacidade de perceber informações relevantes, construir mapas perceptivos situacionais e agir de acordo com as affordances (ARAÚJO & DAVIDS, 2009). A gestão da ação em combate, portanto, resulta da articulação contínua entre percepção e ação em um cenário dinâmico e incerto. Avelar-Rosa et al. (2015) ressaltam que esse conhecimento manifesta-se como intenções táticas que orientam a conduta do lutador, integrando percepção e ação em um fluxo contínuo de escolhas.
No campo metodológico, uma das contribuições mais relevantes para a análise da tomada de decisão em situação real é a Teoria do Curso da Ação (TCA) (THEUREAU, 2002, 2014; POIZAT, SÈVE & SAURY, 2013; SAN MARTIN & POIZAT, 2020). Esse programa de pesquisa busca compreender a atividade humana significativa em seu contexto, valorizando a experiência vivida pelo ator. A TCA se apoia em conceitos como a consciência pré-reflexiva, que corresponde ao saber implícito mobilizado durante a ação, e a atividade-signo, que entende cada gesto como expressão dotada de sentido. Para acessar essas dimensões, utiliza-se principalmente a entrevista de autoconfrontação, na qual o atleta revisita sua performance assistindo ao vídeo e explicita intenções, percepções e decisões (SÈVE et al., 2002; THEUREAU, 2002; POIZAT, SÈVE & SAURY, 2013 SAN MARTIN & POIZAT, 2020).
Esse procedimento, aplicado a diferentes modalidades, é aqui utilizado no Jiu-Jitsu competitivo, possibilitando reconstituir a lógica interna do curso da ação no combate.
Estudos prévios demonstram a pertinência de integrar a perspectiva da TCA à abordagem ecológica da decisão esportiva. Araújo, Davids & Serpa (2005) defendem que a expertise emerge da interação entre indivíduo, tarefa e ambiente, num sistema de constrangimentos que canalizam as possibilidades de ação (constraints-led approach). No JiuJitsu, isso significa que as decisões são moldadas pelas características do atleta (condição física, repertório técnico), pelas exigências da tarefa (placar, tempo, situação da luta) e pelas ações do adversário. Assim, compreender a tomada de decisão requer considerar simultaneamente a experiência vivida pelo atleta e os constrangimentos objetivos do contexto.
Apesar dos avanços nos estudos sobre tomada de decisão em esportes coletivos (ARAÚJO, 2009; ARAÚJO et al., 2016) e em algumas modalidades de luta (AVELAR-ROSA et al., 2015), ainda são escassas as investigações metodológicas que aplicam a TCA ao Jiu-Jitsu de alto rendimento. Esse vazio contrasta com a relevância prática da modalidade, que conta com milhões de praticantes em todo o mundo, organiza competições em larga escala sob a chancela da International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) e da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ), e atrai crescente interesse acadêmico em desempenho, pedagogia e ciências do esporte (ANDREATO et al., 2013).
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo apresentar uma proposta metodológica de aplicação da TCA ao Jiu-Jitsu competitivo, exemplificada pela análise de duas lutas de uma atleta faixa preta de elite, bicampeã mundial pela IBJJF e destaque no ranking internacional (CBJJ, 2025; IBJJF, 2025). Por meio de entrevistas de autoconfrontação, investigam-se os processos de tomada de decisão em contextos de vitória e derrota, com ênfase em como a atleta articula intenções, lê o entorno competitivo e ajusta suas ações em situações de alta pressão. Pretende-se, assim, contribuir metodologicamente para as ciências do esporte e oferecer subsídios práticos ao ensino-aprendizagem no Jiu-Jitsu.
2 MÉTODO
2.1. Tipo de estudo
Este é um estudo qualitativo, metodológico e exploratório (SAMPIERI, COLLADO & LUCIO, 2013), fundamentado no programa de pesquisa do Curso da Ação (THEUREAU, 2002, 2014; POIZAT & SÈVE; SAURY, 2013; SAN MARTIN & POIZAT, 2020). A escolha desse delineamento justifica-se pelo objetivo central: analisar como atletas de Jiu-Jitsu constroem conhecimento em ação em situações reais de competição. Abordagens qualitativas permitem captar a complexidade dos processos decisórios em contextos autênticos, valorizando a experiência vivida em sua totalidade (BARDIN, 2011; YIN, 2010).
Diferentemente de delineamentos experimentais, que controlam variáveis em ambientes artificiais, a TCA privilegia a análise da atividade situada, na qual corpo, ambiente, tarefa e cultura interagem de forma inseparável (DURAND, 2016; SAN MARTIN & POIZAT, 2020). A natureza metodológica do estudo decorre de seu caráter propositivo: não apenas descrever ou explicar uma performance específica, mas propor e exemplificar um modelo de análise aplicável ao Jiu-Jitsu competitivo, estruturado em três níveis hierárquicos interdependentes: momentos da luta, dimensões táticas e ações técnico-táticas. Trata-se, portanto, de um estudo piloto de aplicação da TCA ao contexto das lutas corporais, com vistas a avançar metodologicamente o campo das ciências do esporte.
2.2. Participante
A participante foi uma atleta faixa preta de Jiu-Jitsu, com títulos mundiais pela IBJJF, que competiu no Campeonato Brasileiro de 2025 (categoria adulto pesado). Sua inclusão foi intencional, considerando critérios de excelência esportiva e disponibilidade para a autoconfrontação, de modo a representar o nível de rendimento e a experiência tática de interesse do estudo.
Foram analisadas duas lutas da mesma competição:
a) Primeira luta (vitória);
b) Semifinal (derrota).
A seleção buscou comparar decisões em contextos de êxito e insucesso, observando como o conhecimento do entorno competitivo se manifesta em desfechos distintos. Essa análise possibilitou identificar como, diante de diferentes pressões e oportunidades, a atleta construiu, reorganizou e mobilizou informações situacionais durante a tomada de decisão em combate.
2.3. Constituição do material empírico
A constituição do corpus ocorreu em três etapas complementares. Neste estudo, o corpus refere-se ao conjunto de materiais empíricos produzidos para a pesquisa: registros audiovisuais das lutas, transcrições integrais das entrevistas de autoconfrontação e notas de campo da pesquisadora. Metodologicamente, o corpus constitui a base documental que sustenta a análise qualitativa, permitindo leituras sucessivas, categorização e interpretação (BARDIN, 2011; THEUREAU, 2014).
a) Registros audiovisuais das lutas
Os combates foram obtidos em vídeo na plataforma FloGrappling (FLOGRAPPLING, 2025). Esses registros forneceram a sequência factual da atividade (gestos, encadeamentos técnico-táticos, evolução temporal), servindo de suporte para a autoconfrontação e para o confronto interpretativo entre fala e ação observável.
b) Entrevistas de autoconfrontação
As entrevistas foram realizadas até 48 horas após cada luta, conforme recomendação da TCA para preservar a memória vívida do evento (SAN MARTIN & POIZAT, 2020). A atleta revisitou os vídeos e explicitou intenções, percepções, expectativas e decisões em pontos considerados significativos. Esse procedimento permitiu acessar a consciência pré-reflexiva: o saber tácito que orienta a ação no calor do combate, ainda que não verbalizado no momento da execução.
c) Transcrição integral
As entrevistas foram transcritas literalmente, constituindo o corpus de análise. A transcrição integral viabilizou leituras sucessivas, marcação de episódios e categorização sistemática, em linha com a análise de conteúdo (BARDIN, 2011). Todos os procedimentos: organização dos registros audiovisuais, condução das entrevistas, transcrição literal e elaboração das notas de campo, foram realizados pela pesquisadora, que também acompanhou as lutas presencialmente, assegurando controle sobre a qualidade dos dados e fidedignidade na construção do corpus.
2.4. Unidade mínima de análise
A unidade mínima de análise adotada foram as unidades táticas (SÈVE et al., 2002; POIZAT, SÈVE & SAURY, 2013; THEUREAU, 2014; MATIAS, 2015). Cada unidade corresponde a um recorte significativo da ação, identificado na autoconfrontação e corroborado pelo comportamento observado no vídeo (exemplo: decidir segurar uma pegada, ajustar a postura para respirar, executar uma raspagem).
Na TCA, as unidades táticas equivalem à atividade-signo (THEUREAU, 2014): cada ação expressa simultaneamente uma conduta (o que se faz) e um sentido (por que e para quê se faz), articulando percepções, intenções, execuções e apreciações situacionais.
2.5. Construção das dimensões e unidades táticas
As unidades táticas identificadas foram agrupadas em dimensões táticas (MATIAS, 2015), compreendidas como categorias que reúnem unidades com significados semelhantes e facilitam a leitura da lógica global da luta. À luz da literatura (AVELAR-ROSA et al., 2015; ANDREATO et al., 2013; ANDREATO et al., 2017), adotaram-se quatro dimensões centrais:
a) Ofensiva: ações voltadas a gerar vantagem direta (quedas, raspagens, passagens, finalizações);
b) Defensiva: respostas para neutralizar ataques e conter avanços do oponente;
c) Manutenção: estratégias para preservar posição ou vantagem no placar;
d) Transição: mudanças situacionais (ex.: defesa → contra-ataque; guarda →
passagem).
Essas dimensões compuseram o segundo nível de uma hierarquia analítica tripartite:
- Momentos da luta: início, meio, clímax e finalização;
- Dimensões táticas: categorias amplas que organizam a conduta;
- Ações técnico-táticas: execuções observáveis que materializam unidades e dimensões (pegadas, raspagens, passagens, estabilizações).
Esse processo está sistematizado no Quadro 1, que ilustra a estrutura metodológica da análise e exemplifica como unidades, dimensões e intenções se articulam em situações concretas de luta.
Quadro 1 – Estrutura metodológica de análise

2.6. Critérios de seleção e tratamento das falas
Todas as falas da atleta foram transcritas integralmente e analisadas segundo Bardin (2011) e Theureau (2014). Os trechos destacados nos Resultados foram escolhidos a partir de três critérios metodológicos: (a) expressar intenções ou percepções diretamente relacionadas a decisões táticas; (b) apresentar correspondência entre a fala e a ação observada no vídeo; (c) condensar de forma clara o sentido atribuído pela atleta à sua conduta.
É importante destacar que todo o corpus foi considerado na análise, e que os excertos apresentados são representativos, e não exaustivos. A escolha de determinados trechos deve-se à sua capacidade de ilustrar de modo paradigmático a articulação entre percepção, intenção e execução em situações críticas de combate. Esse procedimento assegura a fidedignidade empírica e permite que os resultados expressem não apenas ações isoladas, mas a lógica interna vivida pela atleta.
2.7. Procedimentos de análise
O processo analítico desenvolveu-se em cinco etapas articuladas:
- Leitura e transcrição do material empírico, composto pelas entrevistas, observações presenciais e registros audiovisuais, em consonância com Bardin (2011).
- Segmentação em unidades táticas, identificando recortes significativos da ação a partir das falas da atleta, confirmados nos vídeos.
- Agrupamento em dimensões táticas, correspondentes às categorias centrais (ofensiva, defensiva, manutenção e transição).
- Hierarquização por momentos da luta, alocando unidades e dimensões na linha temporal (início, meio, clímax, finalização) e articulando intenções e ações técnicotáticas.
- Validação da análise, assegurada por três parâmetros: (I) fidedignidade empírica, ao cruzar relato e vídeo; (II) validação participante, por meio do retorno da atleta; e (III) validação intersubjetiva, em reuniões com pesquisadores (um professor de Educação Física e um professor faixa preta de Jiu-Jitsu com mais de 20 anos de experiência).
A articulação entre a TCA e a Análise de Conteúdo (BARDIN, 2011) está estruturada no Quadro 2, que relaciona fases de pré-análise, exploração do material e interpretação com momentos, dimensões e ações técnico-táticas no Jiu-Jitsu.
Quadro 2 – Articulação entre Curso da Ação e Análise de Conteúdo


3 RESULTADOS
Os trechos apresentados a seguir foram selecionados segundo critérios metodológicos previamente definidos, representando unidades táticas significativas emergentes das falas da atleta e confirmadas por registros audiovisuais e notas de campo. Embora todo o corpus tenha sido analisado, optou-se por apresentar apenas excertos paradigmáticos que condensam intenções, percepções e execuções diretamente ligadas à construção do conhecimento em ação.
3.1. Primeira luta – vitória
A análise da primeira luta evidenciou um encadeamento oportuno entre percepção, intenção e execução, com unidades táticas identificadas na autoconfrontação e confirmadas nos vídeos, distribuídas nos diferentes momentos do combate e dimensões táticas correspondentes.
- Início (dimensão defensiva): a atleta buscou neutralizar a pegada inicial para impedir o domínio da adversária.
Fala: “No começo eu quis segurar bem a pegada para não deixar ela impor o joelho.” Unidade tática: segurar firmemente o punho e abaixar a base.
Ação técnico-tática: controle de pegada e postura.
- Meio (dimensão transição/ofensiva): aproveitamento de um desequilíbrio percebido como affordance para iniciar o ataque.
Fala: “Quando senti o peso dela para frente, aproveitei e puxei para a guarda, já pensando na raspagem.”
Unidade tática: puxar para a guarda.
Ação técnico-tática: encadeamento guarda → raspagem.
- Clímax (dimensão ofensiva/manutenção): consolidação da vantagem e bloqueio da recomposição adversária.
Fala: “Consegui raspar e logo estabilizar a posição, não podia perder a vantagem.” Unidade tática: estabilizar após pontuar.
Ação técnico-tática: fixação e pressão para controle.
- Finalização (dimensão manutenção): gestão do risco para assegurar o resultado.
Fala: “Fiquei controlando até o fim, sem me expor, só pensando em segurar a vitória.” Unidade tática: controlar e fechar espaços.
Ação técnico-tática: contenção e travas.
Síntese: o combate mostra a reconstrução do conhecimento em ação orientada por leituras situacionais (peso, pegadas, equilíbrio) e por decisões encadeadas em sequência lógica:
defesa → transição → ataque → manutenção.
3.1. Semifinal – derrota
Na semifinal, o encadeamento entre intenção e execução ocorreu de forma tardia e predominantemente reativa, o que dificultou a conversão das percepções em vantagem competitiva.
- Início (dimensão manutenção/defensiva): postura reativa frente às primeiras iniciativas da oponente.
Fala: “Entrei mais na defensiva, só esperando o que ela ia fazer.” Unidade tática: proteger base e linhas de ataque.
Ação técnico-tática: contenção sem avanço.
- Meio (dimensão transição/ofensiva): tentativa de impor estratégia fora do timing ideal.
Fala: “Quando tentei puxar para a guarda, já era tarde, ela estava mais firme e não consegui raspar.”
Unidade tática: puxar guarda atrasado.
Ação técnico-tática: raspagem neutralizada.
- Clímax (dimensão defensiva): resistência sob pressão, sem contra-ataques efetivos.
Fala: “Eu só pensava em não deixar passar, mas já estava perdendo espaço.” Unidade tática: bloquear passagem.
Ação técnico-tática: defesa sem reversão.
- Finalização (dimensão manutenção): gestão do placar para evitar maior desvantagem.
Fala: “No final fiquei só segurando, tentando não tomar mais pontos.” Unidade tática: segurar resultado.
Ação técnico-tática: controle mínimo, pouca iniciativa.
- Síntese: a luta evidenciou dissincronia temporal entre leitura e execução. Intenções como “puxar guarda” e “evitar passagem” não se converteram em ações vantajosas, destacando fragilidade na gestão do timing e das affordances.
3.1. Síntese Comparativa – vitória e derrota
- Alinhamento vs. dissincronia: na vitória, a atleta encadeou defesa → transição → ataque → manutenção com timing adequado; na derrota, decisões tardias resultaram em padrão defensivo prolongado.
- Conhecimento em ação: na vitória, as leituras situacionais foram rapidamente transformadas em execuções eficazes; na derrota, o atraso comprometeu a efetividade das intenções.
- Implicação analítica: a articulação entre entrevistas de autoconfrontação e vídeos sustentou a interpretação de como a atleta constrói e ajusta seu agir em tempo real, evidenciando a centralidade da temporalidade e do acoplamento percepção–ação na eficácia decisória.
De forma geral, a comparação mostrou que o conhecimento em ação é continuamente atualizado no combate. Na vitória, a atleta reorganizou suas decisões de modo adaptativo, explorando informações do ambiente e executando ações compatíveis com o contexto. Na derrota, embora as intenções estivessem presentes, a execução tardia levou a uma atuação reativa e defensiva.
Assim, a análise reforça três pontos centrais:
- O tempo da decisão e a articulação exploração–execução são determinantes para o resultado.
- A autoconfrontação, aliada ao vídeo, evidenciou não apenas o que foi feito, mas o sentido atribuído às ações.
- O Curso da Ação mostrou-se adequado para compreender a lógica vivida do atleta, indo além da descrição técnica da luta.
4 DISCUSSÃO
A análise das duas lutas revelou contrastes significativos na forma como a atleta organizou sua tomada de decisão em contextos de vitória e derrota, permitindo identificar processos de construção e reorganização do conhecimento em ação. Na luta vencida, observouse um encadeamento coerente entre percepções, intenções e execuções: neutralização inicial da pegada adversária, aproveitamento do desequilíbrio para a raspagem, estabilização da posição e controle até o fim. Na luta perdida, ao contrário, uma execução precipitada, sem exploração suficiente, comprometeu a posição inicial e levou a uma atuação predominantemente defensiva.
Esses achados reforçam que o conhecimento em ação é dinâmico, situacional e sensível à temporalidade das decisões. De acordo com a TCA (THEUREAU, 2014), cada unidade tática constitui não apenas uma conduta observável, mas também o sentido atribuído pelo atleta em contexto (MATIAS, 2015). Isso ficou evidente nas falas da atleta durante a autoconfrontação, quando justificou, por exemplo, a prioridade de segurar a pegada no início da luta vencedora em função de experiências anteriores em que havia sofrido desvantagem pela mesma ação da adversária. Tal relato evidencia como a tomada de decisão incorpora memórias, reorganiza estratégias e se configura como um processo de aprendizagem situada.
Os resultados corroboram a ideia de que a decisão não é um cálculo racional externo à prática, mas uma atividade situada, guiada pela consciência pré-reflexiva. Pesquisas como as de Sève et al. (2002) já haviam mostrado que atletas constroem conhecimento em ação ao revisitar e ressignificar experiências competitivas, o que se confirmou aqui ao revelar a atualização da compreensão da luta em tempo real.
Outro aspecto relevante foi a distinção entre exploração e execução. Na vitória, o início foi marcado pela exploração — segurar pegada, testar forças, avaliar o peso da adversária — antes da execução de raspagem e estabilização. Já na derrota, a tentativa de execução imediata, sem exploração suficiente, resultou em fragilidade defensiva. Essa diferença dialoga com a abordagem ecológica de Araújo & Davids (2009), ao conceber a decisão como processo de percepção-ação em ambientes de incerteza, em que a eficácia depende da leitura situacional e do timing da resposta do atleta.
As escolhas relatadas pela atleta: segurar a pegada, puxar para guarda, controlar a respiração, estabilizar após raspagem, configuraram unidades táticas que, articuladas em dimensões mais amplas (defensiva, ofensiva, manutenção e transição), compõem a lógica interna da luta. Essa articulação encontra respaldo em Matias (2015), que define as dimensões como categorias de intenção que organizam a conduta, e foi evidenciada empiricamente neste estudo.
A literatura específica sobre o Jiu-Jitsu também sustenta essa interpretação. Andreato et al. (2013) demonstraram que o desempenho competitivo depende da alternância entre guarda, passagem e controle posicional, diretamente vinculados às decisões situacionais. Schmidt e Ribas (2020), ao analisarem a lógica interna das lutas corporais, destacaram os ciclos de ataque, defesa e transição, convergentes com a hierarquia adotada neste estudo. Os resultados, portanto, não apenas confirmam padrões já descritos, mas os aprofundam ao mostrar, via Curso da Ação, como esses ciclos são efetivamente vividos e ressignificados pelo atleta.
Do ponto de vista metodológico, a aplicação da TCA mostrou-se adequada para acessar a experiência vivida em combate, ao integrar dimensões técnicas, táticas e situacionais. O uso da autoconfrontação, em diálogo com registros audiovisuais e observações in loco, revelou a lógica interna das decisões. Essa escolha metodológica justifica-se porque, embora as análises notacionais sejam amplamente utilizadas no estudo do desempenho no Jiu-Jitsu e permitam quantificar ações técnico-táticas observáveis (ANDREATO et al., 2013; ANDREATO et al., 2017), elas não alcançam a dimensão subjetiva da decisão. Nesse sentido, a TCA não substitui, mas complementa a notação ao acessar intenções, percepções e significados atribuídos pelo atleta, oferecendo uma compreensão mais completa e situada da performance competitiva.
Por fim, os achados oferecem implicações práticas para o ensino-aprendizagem do JiuJitsu. Se a decisão é guiada por intenções táticas que articulam exploração, execução e reorganização de experiências passadas, o treino deve incluir situações representativas, que exponham o atleta a cenários de incerteza e variabilidade. Essa proposta converge com a teoria dos constraints (DAVIDS et al., 2008), que recomenda manipular constrangimentos individuais, da tarefa e do ambiente para estimular decisões adaptativas. No Jiu-Jitsu, isso implica variar contextos de luta, tempo, placar e perfil de adversários, favorecendo a construção de conhecimento em ação.
Em síntese, a discussão mostra que o Curso da Ação aplicado ao Jiu-Jitsu competitivo permite compreender a tomada de decisão como fenômeno situado, no qual a construção do conhecimento emerge da articulação entre intenções, exploração, execução e regulação pelo contexto. Ao mesmo tempo, confirma que os conceitos de dimensões e unidades táticas são ferramentas úteis para interpretar o combate e oferecem subsídios pedagógicos relevantes para a formação de atletas.
5 CONCLUSÃO
O presente estudo teve como objetivo analisar como atletas de Jiu-Jitsu constroem conhecimento em ação durante lutas competitivas. A partir de entrevistas de autoconfrontação, apoiadas em registros audiovisuais e observações presenciais, foi possível reconstituir a lógica interna de duas lutas: uma vencida e outra perdida, e evidenciar como percepções, intenções e execuções se articulam em diferentes cenários competitivos. Os resultados mostraram que o conhecimento em ação emerge da interação dinâmica entre exploração, execução e reorganização de experiências passadas, sendo continuamente atualizado pelas condições do combate.
Do ponto de vista científico, este estudo piloto reforça que a TCA constitui um referencial metodológico pertinente para compreender a tomada de decisão em esportes de combate, ao permitir acessar a experiência vivida do atleta e interpretar o sentido atribuído às suas ações em situação real. Já no plano prático, os achados sugerem que treinos representativos, estruturados em cenários de incerteza e variabilidade, favorecem a construção de conhecimento em ação e estimulam a autonomia decisional dos praticantes.
É necessário reconhecer, entretanto, que se trata de um estudo piloto, restrito à análise de uma única atleta em duas lutas específicas, e que adotou um recorte parcial da teoria, priorizando dimensões e unidades táticas sem avançar para a análise completa dos constituintes hexádicos do Curso da Ação (SAN MARTIN & POIZAT, 2020). Futuras investigações poderão ampliar o número de participantes, diversificar categorias competitivas e integrar dados notacionais, aprofundando a compreensão sobre os processos de construção do conhecimento em ação no Jiu-Jitsu.
Em síntese, este estudo evidencia que a construção do conhecimento em ação constitui um eixo central da prática competitiva no Jiu-Jitsu e que a aplicação da TCA pode contribuir, de forma inovadora, tanto para o avanço da produção científica quanto para a qualificação do processo de ensino-aprendizagem na modalidade.
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¹Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade de Brasília (UnB). Membro do Laboratório de Análise do Desempenho e Ensino do Esporte (LabEsporte)/UnB. E-mail: rjoslea@gmail.com
²Docente na Universidade de Brasília (UnB), Programa de Pós-graduação em Educação Física/UNB. Doutor em Ciências do Esporte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro do Centro de Estudos de Cognição e Ação (CECA)/UFMG e do Laboratório de Análise do Desempenho e Ensino do Esporte (LabEsporte)/UNB.
