HOW PEOPLE EXTERMINATE THEMSELVES: AN ECOLOGICAL STUDY BETWEEN 2002 AND 2023.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202508152310
Bomfim, A.D.; Gonçalves, V.S.; Alves, P.S.S.; Silva, T.F.O.; Lima, M.E.O.; Loesch, M.C.;1 Machado, E.F.A.2
Resumo
INTRODUÇÃO: O suicídio é um desafio global de saúde pública, figurando como uma das principais causas de mortalidade evitável. A presença de transtornos psiquiátricos (depressão, bipolaridade, impulsividade, uso de substâncias), somada a fatores genéticos, epigenéticos e experiências adversas na infância, aumenta o risco. Notam-se diferenças entre os sexos: homens utilizam mais métodos letais (asfixia, armas de fogo), enquanto mulheres optam por estratégias geralmente menos letais (auto-intoxicação). Este estudo analisou tendências e fatores associados ao suicídio no Brasil entre 2002 e 2023, buscando compreender o panorama atual. MÉTODOS: Trata-se de um estudo ecológico baseado nos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM/DATASUS), considerando casos classificados pelos códigos CID X60-X84. Foram analisados suicídios em indivíduos de 6 a 90 anos, ajustados conforme a população do IBGE, divididos em sete categorias de métodos. Regressões lineares e segmentadas foram empregadas para avaliar tendências temporais, utilizando SPSS e bibliotecas Python. RESULTADOS: Entre 2002 e 2023, registraram-se 242.321 suicídios, sendo 78,6% homens. A asfixia prevaleceu (68,71%), com tendência crescente anual (0,84%, p<0,001). Entre as mulheres, a proporção de asfixia aumentou (de 41,38% para 60,65%) e a de auto-intoxicação diminuiu (de 26,65% para 20,05%), indicando mudança no perfil dos métodos empregados. CONCLUSÃO: Observou-se um aumento da letalidade dos métodos entre ambos sexos ao longo do período. Intervenções focadas na restrição de meios letais e na ampliação do acesso à saúde mental são fundamentais para reduzir o impacto do suicídio no Brasil.
Palavras-chave: Suicídio. Transtornos Mentais. Asfixia. Epidemiologia. Estratégias de Prevenção do Suicídio.
1 INTRODUÇÃO
Os transtornos psiquiátricos são os principais fatores de risco para o suicídio. A maioria das pessoas que morrem por suicídio apresentam algum transtorno psiquiátrico, como transtorno depressivo maior, transtorno bipolar, transtornos relacionados ao uso de substâncias, transtornos psicóticos ou transtorno de personalidade e apresentação de impulsividade1,2. Fatores genéticos e epigenéticos desempenham um papel importante. Alterações moleculares em sistemas cruciais, como os eixos serotoninérgico, canabinoide e hipotálamo-hipófiseadrenal, podem predispor indivíduos ao suicídio3,4. Experiências adversas na infância, como abuso, podem levar a mudanças no sistema inflamatório e aumentar a vulnerabilidade ao estresse, contribuindo para o comportamento suicida3.
Em relação às diferenças entre os sexos, o principal aspecto é aquele que se refere à letalidade dos atos suicidas e à escolha dos métodos utilizados. Um dos fatores mais bem documentados na literatura é a tendência dos homens a utilizarem métodos mais letais, como enforcamento e armas de fogo, enquanto as mulheres frequentemente optam por intoxicação medicamentosa, um método com menor taxa de letalidade5. Os métodos de enforcamento e armas de fogo apresentaram taxas de letalidade de 77% e 78%, respectivamente, e foram mais comuns entre os homens. Em estudo semelhante, a letalidade das tentativas de enforcamento foi significativamente maior nos homens (53%) do que nas mulheres (30,4%)5. Essa diferença na gravidade das tentativas pode ser explicada, em parte, pela maior impulsividade e determinação entre os homens, o que se reflete em métodos mais violentos e eficazes. Por outro lado, o envenenamento por drogas, um método mais utilizado por mulheres, teve uma letalidade de apenas 4,7%6.
Outro aspecto importante é a relutância dos homens em procurar ajuda antes do ato de tentativa do suicídio, enquanto ainda não há plano nem método, apenas a ideação. Esse comportamento reduz as chances de intervenção e resgate a tempo, o que contribui para a maior letalidade entre eles5. Além disso, o uso de substâncias como álcool e drogas, que é mais frequente entre homens, agrava a letalidade das tentativas pela impulsividade, especialmente em indivíduos com transtornos de humor5. Esse padrão contrasta com o comportamento das mulheres, que tentam suicídio com mais frequência, mas geralmente optam por métodos menos letais e são mais propensas a buscar apoio antes de agir.
Em suma, as diferenças de gênero no suicídio envolvem uma complexa interação entre escolha de método, intenção e fatores psicossociais. A compreensão dessas diferenças é essencial para o desenvolvimento de estratégias de prevenção eficazes e adaptadas às necessidades de cada sexo.
A relevância deste estudo reside no reconhecimento do tipo de suicidio cometido. Assim, a identificação desses fatores pode revelar padrões de comportamento e riscos específicos, que podem orientar intervenções mais eficazes voltadas para a redução da incidência de suicídios. Com o fito de compreender como os métodos utilizados e variam de acordo com o sexo e com a idade.
Assim, ao reconhecer os principais determinantes associados ao suicídio, como a escolha de métodos letais e fatores psicossociais subjacentes, torna-se possível direcionar políticas de saúde pública que abordem tanto os fatores individuais quanto os sociais que contribuem para esses desfechos trágicos.
O objetivo do estudo é analisar as formas de suicídio ocorridas entre os anos de 2002 e 2023, com o propósito de identificar possíveis correlações entre o perfil demográfico e psicossocial dos indivíduos que cometeram o ato, bem como os métodos empregados.
Busca-se, portanto, entender de maneira mais aprofundada quem está cometendo suicídio, em que condições e com quais métodos, a fim de fornecer uma base sólida para a formulação de estratégias de prevenção direcionadas à essa população.
A análise dessas variáveis poderá contribuir para identificar grupos de maior risco e circunstâncias em que a intervenção pode ser mais eficaz, oferecendo subsídios para diminuir a ocorrência de novos casos e mitigar os impactos do suicídio na sociedade.
2 METODOLOGIA
O presente estudo se trata de um estudo observacional do tipo ecológico, com o fito de analisar os CID associados ao autoextermínio registrados nas declarações de óbito entre os anos de 2002 e 2023. Os dados utilizados são provenientes do Sistema de informação sobre Mortalidade, disponibilizados pelo ministério da Saúde por meio do DATASUS
Nesse sentido, os arquivos foram catalogados por estado, e tiveram os valores traduzidos segundo o dicionário. Por conseguinte, as informações foram unidas em um único documento para facilitar a análise. Utilizou-se um filtro utilizado para buscar os CIDS X60 a X84 em quaisquer uma das linhas referentes a causa de morte constando na declaração de óbito. Sejam elas a causa base, a linha A, B, C, D, I ou II da declaração de óbito.
Os CIDs X60 a X84 foram agrupados em sete categorias para facilitar a análise dos métodos de suicídio. A primeira é a auto-intoxicação e exposição intencional a substâncias farmacológicas e químicas, incluindo o CID X60 (analgésicos, antipiréticos e anti-reumáticos não opiáceos), X61 (anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos), X62 (narcóticos e psicodislépticos [alucinógenos]), X63 (outras substâncias que afetam o sistema nervoso), X64 (outras drogas e substâncias biológicas), X65 (álcool), X66 (solventes orgânicos e hidrocarbonetos), X67 (outros gases e vapores), X68 (pesticidas) e X69 (outros produtos químicos e substâncias nocivas). A segunda categoria é a asfixia e métodos relacionados à restrição respiratória, com os CIDs X70 (enforcamento, estrangulamento e sufocação) e X71 (afogamento e submersão). A terceira categoria inclui lesões por armas e explosivos, englobando os CIDs X72 (arma de fogo curta), X73 (arma de fogo longa), X74 (outras armas de fogo) e X75 (dispositivos explosivos). A quarta categoria trata de queimaduras e exposição a calor extremo, com os CIDs X76 (fumaça, fogo e chamas) e X77 (vapor, gases ou objetos quentes). Na quinta categoria, relacionada a lesões por objetos e impacto físico, estão os CIDs X78 (objetos cortantes ou penetrantes) e X79 (objetos contundentes). A sexta categoria abrange precipitação e impactos com movimento, incluindo o CID X80 (queda de lugar elevado), X81 (colisão com objeto em movimento) e X82 (impacto com veículo a motor). Por fim, a sétima categoria é de outros métodos e meios não especificados, com os CIDs X83 (outros meios especificados) e X84 (meios não especificados).
Para critérios de padronização, a causa base foi utilizada para contabilizar o número de casos ainda que estivesse registrado com condição alheia a buscada, como por exemplo, morte em decorrência de infarto agudo do miocárdio, secundário à uma tentativa de suicídio. Nesse sentido, pelo fato de utilizar a causa base como objeto de avaliação, alguns casos não constam a causa base como tendo sido o autoextermínio, o que pode ocasionar diferenças estatísticas.
Para a análise estatística, os dados foram tabulados utilizando o Microsoft Office 365 e analisados com o auxílio das bibliotecas, da linguagem Python, pandas (versão 2.1.4), numpy (versão 1.26.4) e MatPlotLib (versão 3.8.0) para a confecção de gráficos. Testes estatísticos foram realizados com o software IBM® SPSS (versão 20.0.1.0). Para ajuste da base populacional, utilizou-se as projeções da população entre 2002 e 2023 disponibilizados pelo IBGE. Para manter a concordância com os dados do IBGE, a idade da população foi definida entre 6 e 90 anos. Salienta-se ainda que, para as análises estatísticas, valores notadamente inconsistentes foram descartados.
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Entre 2002 e 2023, foram registrados 242.321 suicídios no Brasil, dos quais 78,6% envolviam homens (aproximadamente 190.602 casos) e 21,4% mulheres (cerca de 51.719 casos). Esses dados refletem uma desproporção significativa entre os gêneros, em consonância com tendências globais de maior prevalência de suicídio entre homens. Não obstante, nota-se um crescimento contínuo em ambos os sexos.
Por conseguinte, quando analisada a de regressão segmentada dos dados para o período entre 2002 e 2023 para os indivíduos do sexo masculino, notou-se mudanças marcantes nas tendências de crescimento, especialmente ao considerar pontos de quebra em 2014 e 2020. Segmentando os dados com um ponto de quebra em 2014, observa-se que a taxa de crescimento anual até esse ano era de aproximadamente 0,141 (IC 95%: 0,107 a 0,175), representando um aumento constante. Após 2014, essa taxa de crescimento anual quase dobrou, passando para cerca de 0,3085 (IC 95%: 0,236 a 0,381), o que evidencia uma aceleração significativa. Essa diferença nas taxas de crescimento entre os períodos pré e pós-2014 é estatisticamente significativa (p < 0,001 e (R² = 0,982) para ambos os coeficientes, indicando que a mudança de tendência a partir de 2014 é substancial. (FIGURA 1).
Ao realizar uma nova segmentação dos dados para o sexo masculino, supondo que houve impactos do COVID-19 nas taxas de suicídio. Nesse sentido, realizou-se um ponto de quebra em 2020. Foi observada outra mudança significativa, pois, a partir de 2020, a taxa de crescimento anual aumentou ainda mais, alcançando cerca de 0,6382 (IC 95%: 0,362 a 0,914). Esse incremento pós-2020 é estatisticamente significativo (p < 0,001) e reflete uma nova aceleração, possivelmente relacionada a eventos contextuais, como a pandemia de COVID-19, que teve implicações profundas na saúde mental e nos fatores de risco associados ao suicídio com coeficiente de determinação (R²) de 0,959.
Essas análises demonstram que tanto 2014 quanto 2020 representam marcos importantes na tendência de crescimento dos suicídios, sugerindo que esses períodos podem ter sido influenciados por fatores contextuais ou mudanças estruturais na sociedade. A aceleração na taxa de crescimento após 2014 e a leve desaceleração em 2020 nesses anos destacam a importância de investigar os fatores subjacentes e de implementar estratégias preventivas direcionadas para mitigar esse aumento.
Por conseguinte, a análise de regressão segmentada para o sexo feminino entre 2002 e 2023 revelou mudanças significativas nas tendências de crescimento, especialmente ao considerar pontos de quebra nos anos de 2014 e 2020. O modelo apresentou um coeficiente de determinação ajustado (R² ajustado) de 97,7%, indicando que a maior parte da variação nos dados é explicada pela regressão. Até 2014, a taxa de crescimento anual foi de aproximadamente 0,0393 (IC 95%: 0,028 a 0,050), sendo estatisticamente significativa (p < 0,001). A partir de 2014, observou-se uma aceleração marcante, com um incremento adicional na taxa de crescimento de 0,0740 (IC 95%: 0,044 a 0,104), também altamente significativo (p < 0,001). No entanto, após 2020, o aumento na taxa de crescimento foi menos expressivo, com um incremento de 0,0672 (IC 95%: -0,008 a 0,143), que apresentou significância marginal (p = 0,077), como também pode ser observada na população masculina. Ademais, esses resultados vão ao encontro dos resultados achados em estudos internacionais que avaliaram mais de 23 países que demonstraram que houve uma desaceleração, em muito associado pela aproximação decorrente das barreiras sanitárias impostas para frear a contaminação do COVID-19.
Figura 1 – Incidência de suicídios a cada 100.000 habitantes de acordo com o sexo.

Esses resultados indicam que o período até 2014 foi caracterizado por um crescimento moderado e constante, seguido de uma aceleração significativa entre 2014 e 2020. A partir de 2020, observa-se um possível aumento adicional na taxa de crescimento, embora menos intenso e com menor significância estatística. Assim como no sexo masculino, o ano de 2014 emerge como um marco importante, sugerindo possíveis mudanças contextuais ou estruturais que podem ter influenciado as tendências de crescimento. O impacto mais discreto observado após 2020 pode estar relacionado à pandemia de COVID-19, que trouxe implicações para a saúde mental e fatores associados ao suicídio. Esses achados destacam a necessidade de investigar os fatores subjacentes a essas mudanças e de desenvolver estratégias de prevenção específicas para mitigar o aumento observado nos últimos anos.
Outro importante aspecto a ser analisado, é o tipo de auto extermínio cometido ao longo dos anos. Os dados sobre os métodos de suicídio masculino ao longo de 2002 a 2023 revelam padrões importantes. A asfixia foi o método predominante durante todo o período, com uma média de 68,71% do total de suicídios masculinos (IC 95%: 65,34% a 72,08%), apresentando um aumento significativo ao longo dos anos. Em 2002, a proporção de suicídios por asfixia era de 57,6%, crescendo continuamente até atingir 76,5% em 2023. A análise de regressão linear simples para este método apresentou um coeficiente de crescimento anual de 0,84% (p < 0,001), indicando uma tendência robusta de aumento (FIGURA 2).
Figura 2 – Percentual do tipo de suicídios cometido por homens em relação ao total daquele determinado ano.


Já o uso de armas de fogo e explosivos, que foi o segundo método mais comum, apresentou uma média de 11,82% (IC 95%: 10,23% a 13,41%). Esse método demonstrou uma tendência significativa de declínio ao longo do tempo, caindo de 19,7% em 2002 para 7,9% em 2023. A regressão linear simples apontou um coeficiente de redução anual de -0,61% (p < 0,001), refletindo uma queda constante e significativa.
A auto-intoxicação teve uma média de 9,92% (IC 95%: 8,47% a 11,36%) e também apresentou uma tendência de declínio ao longo do tempo. No início do período, esse método representava 11,88% dos suicídios masculinos, caindo para 7,1% em 2023. A análise de regressão evidenciou uma redução anual de -0,28% (p < 0,001), sugerindo um padrão consistente de redução na utilização deste método.
A precipitação e o impacto com movimento apresentaram uma média de 3,57% (IC 95%: 3,01% a 4,14%), mantendo-se relativamente estáveis ao longo do período, com flutuações moderadas. Apesar das variações, a regressão linear não apontou uma tendência significativa de crescimento ou redução (coeficiente de 0,01%, p = 0,148).
Os métodos classificados como “outros e não especificados” apresentaram uma média de 2,52% (IC 95%: 2,11% a 2,93%), com tendência de queda ao longo dos anos. Em 2002, representavam 3,83%, reduzindo-se para 2,42% em 2023. O coeficiente de regressão indicou uma redução anual de -0,07% (p < 0,001), confirmando uma tendência significativa de declínio.
O uso de objetos e impacto físico representou 2,46% em média (IC 95%: 2,05% a 2,88%), com uma clara tendência de queda. Em 2002, esse método correspondia a 3,27%, reduzindo-se para 1,86% em 2023. A análise de regressão mostrou um coeficiente de -0,07% ao ano (p < 0,001), confirmando a tendência de redução.
Por fim, queimaduras e exposição a calor extremo foram o método menos utilizado, com uma média de 0,99% (IC 95%: 0,82% a 1,15%), mantendo-se em níveis baixos ao longo de todo o período analisado. Não houve variação estatisticamente significativa nesse método ao longo do tempo (coeficiente de -0,01%, p = 0,342).
Os resultados evidenciam mudanças importantes nas tendências dos métodos de suicídio ao longo do tempo, com um aumento acentuado na utilização da asfixia e uma redução significativa no uso de armas e auto-intoxicação. Essas alterações refletem potenciais mudanças no acesso aos métodos, fatores culturais e contextos sociais que requerem investigação mais aprofundada para direcionar estratégias de prevenção eficazes.
Os dados sobre os métodos de suicídio entre mulheres de 2002 a 2023 revelam padrões e tendências significativas ao longo desse período. Diversos métodos foram utilizados, cada um exibindo trajetórias distintas em termos de prevalência e variação temporal.
Primeiramente, a asfixia e métodos relacionados à restrição respiratória destacam-se como o método mais prevalente entre as mulheres. A proporção média desse método foi de 51,38% do total de suicídios femininos (intervalo de confiança de 95%: 48,43% a 54,33%). Em 2002, a asfixia representava 41,38% dos casos, aumentando para 60,65% em 2023. A análise de regressão linear simples indica um aumento anual significativo de aproximadamente 0,93 ponto percentual por ano (p < 0,001), evidenciando uma tendência ascendente robusta e estatisticamente significativa no uso desse método ao longo dos anos (FIGURA 3)
Figura 3 – Percentual do tipo de suicídios cometido por mulheres em relação ao total daquele determinado ano.


Em segundo lugar, a auto-intoxicação e exposição intencional a substâncias é o segundo método mais comum, com proporção média de 24,90% (IC 95%: 22,96% a 26,84%). Diferentemente da asfixia, esse método apresenta tendência decrescente ao longo do tempo, passando de 26,65% em 2002 para 20,05% em 2023. A análise de regressão linear demonstra uma diminuição anual significativa de aproximadamente 0,37 ponto percentual por ano (p < 0,001), refletindo um declínio consistente na utilização da auto-intoxicação ao longo dos anos.
O uso de lesões por armas e explosivos teve uma proporção média de 4,90% (IC 95%: 4,21% a 5,59%). Esse método mostrou uma tendência significativa de declínio, reduzindo-se de 10,19% em 2002 para 2,58% em 2023. A análise de regressão linear indica uma diminuição anual de aproximadamente 0,34 ponto percentual por ano (p < 0,001), confirmando uma redução constante e significativa nesse método.
As queimaduras e exposição a calor extremo apresentaram proporção média de 4,80% (IC 95%: 4,21% a 5,39%). Houve uma tendência decrescente de 6,47% em 2002 para 3,65% em 2023. A regressão linear aponta uma diminuição anual de aproximadamente 0,14 ponto percentual por ano (p < 0,001), indicando um declínio estatisticamente significativo no uso desse método.
A precipitação e impactos com movimento teve proporção média de 6,36% (IC 95%: 5,96% a 6,77%). A tendência é relativamente estável, com pequenas flutuações ao longo do tempo. Iniciou em 5,38% em 2002, atingiu um pico de 8,45% em 2010 e estabilizou-se em torno de 7% nos anos subsequentes, chegando a 7,36% em 2023. A análise de regressão indica um aumento anual não significativo de aproximadamente 0,06 ponto percentual por ano (p = 0,068), sugerindo estabilidade na utilização desse método.
As lesões por objetos e impacto físico representaram uma proporção menor, com média de 1,94% (IC 95%: 1,68% a 2,20%). Houve uma leve tendência de redução, passando de 3,01% em 2002 para 1,25% em 2023. A regressão linear mostra uma diminuição anual de aproximadamente 0,08 ponto percentual por ano (p < 0,001), indicando um declínio estatisticamente significativo.
Por fim, os outros e não especificados apresentaram proporção média de 4,17% (IC 95%: 3,71% a 4,63%). Houve uma tendência de redução de 6,92% em 2002 para 4,47% em 2023. A análise de regressão indica uma diminuição anual de aproximadamente 0,12 ponto percentual por ano (p < 0,001), reforçando a tendência decrescente.
4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os fatores culturais e comportamentais que influenciam essas mudanças são multifacetados e complexos. Primeiramente, a aceitabilidade sociocultural de certos métodos desempenha um papel crucial. Por exemplo, o aumento do enforcamento como método de suicídio em várias regiões pode ser atribuído à sua crescente aceitação social e à facilidade de realização8. A disponibilidade de meios também é um fator determinante. Mudanças na legislação e nas políticas públicas que restringem o acesso a certos métodos, como armas de fogo, podem levar a uma diminuição no uso desses métodos e a um aumento em outros, como o enforcamento ou o envenenamento9,10.
Os efeitos da mídia são outro fator significativo. A cobertura midiática de métodos de suicídio, especialmente quando envolve celebridades, pode levar a um aumento nos casos utilizando esses métodos devido ao efeito de imitação11. Além disso, fatores econômicos e sociais, como taxas de desemprego e crises econômicas, influenciam as tendências. Períodos de adversidade econômica podem estar associados a um aumento nas taxas de suicídio e na escolha de métodos mais acessíveis12.
Fatores demográficos, como idade, sexo e etnia, também desempenham um papel importante. Homens tendem a utilizar métodos mais letais, como armas de fogo, enquanto mulheres frequentemente optam por envenenamento13,14.
Os dados de suicídio entre os homens revelam um aumento significativo no uso de asfixia, que passou de 57,6% em 2002 para 76,5% em 2023, com um coeficiente anual de crescimento de 0,84% (p < 0,001). Esse aumento pode estar associado à percepção de maior letalidade e acessibilidade a esse método, além de possíveis influências culturais e sociais. Por outro lado, métodos como armas de fogo e explosivos apresentaram uma redução significativa, de 19,7% para 7,9% no mesmo período, com um coeficiente de declínio anual de -0,61% (p < 0,001), possivelmente devido ao controle mais rigoroso de armas no Brasil. A auto-intoxicação também mostrou queda, de 11,88% em 2002 para 7,1% em 2023, com um coeficiente de -0,28% ao ano (p < 0,001), refletindo maior regulamentação sobre medicamentos e produtos químicos.
Entre as mulheres, observa-se um padrão semelhante de aumento na prevalência da asfixia, que subiu de 41,38% em 2002 para 60,65% em 2023, com um coeficiente de crescimento anual de 0,93% (p < 0,001). Esse aumento reflete uma possível convergência nos padrões de gênero, com mulheres optando por métodos tradicionalmente mais letais. A autointoxicação, apesar de ainda ser o segundo método mais utilizado, apresentou redução de 26,65% em 2002 para 20,05% em 2023, com um coeficiente de declínio anual de -0,37% (p < 0,001). Outros métodos, como lesões por armas de fogo, queimaduras e objetos de impacto físico, também registraram quedas significativas, reforçando a tendência geral de migração para métodos mais letais e acessíveis.
Estudos em outros países revelam semelhanças, demonstrando que mudanças culturais ao longo do tempo, como a notoriedade de métodos específicos em certas subculturas (por exemplo, suicídio por gás ou “internet suicide” no Japão), também podem influenciar as tendências15,16. Esses fatores interagem de maneira complexa, exigindo maior compreensão para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção.
Os achados destacam a importância de estratégias preventivas que abordem tanto o acesso aos métodos quanto os determinantes sociais e psicológicos do suicídio. Para os homens, é crucial explorar intervenções que reduzam o estigma associado à busca de ajuda. Para as mulheres, o foco pode incluir a prevenção da violência doméstica e outros fatores de risco específicos. Em ambos os casos, fortalecer o acesso aos serviços de saúde mental e promover campanhas de conscientização pode ajudar a mitigar o impacto dessas tendências alarmantes. A tentativa prévia de auto extermínio é um dos fatores de risco para uma nova tentativa, sendo assim conhecer a história do indivíduo também é uma forma de prevenção.
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¹Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto UniEuro Campus Asa Sul Brasília.
2Docente do Curso Superior de Medicina do Instituto UniEuro Campus Asa Sul Brasília
