COMBATENDO O RELATIVISMO FILOSÓFICO ATRAVÉS DA APOLOGÉTICA CRISTÃ

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202507291330


Me. Raniel Marcelo de Santana1
Me. Júlio César de Santana Gonçalves2


RESUMO

A presente pesquisa apresenta refutações ao relativismo filosófico fundamentadas na apologética cristã, mostrando que ele não se sustenta por si mesmo, sendo uma falácia, através de evidências literárias e bíblicas. Nessa perspectiva, neste artigo se faz uma descrição da natureza conceitual do relativismo, os pressupostos ideológicos, fazendo um contraponto com a cosmovisão cristã. Este trabalho justifica-se pela necessidade de ampliar o debate acadêmico sobre os aspectos do relativismo filosófico e promover a apologética cristã como ferramenta de refutação às falácias ideológicas. Os métodos de pesquisa bibliográfica e explicativa foram utilizados de forma integrada. Buscou-se construir o conhecimento de forma sistemática a partir da contribuição de diversas áreas de pesquisa por meio da interdisciplinaridade acadêmica. Através das investigações e reflexões teóricas, foi possível analisar o conceito e tipos de relativismo, a natureza do relativismo filosófico e como desenvolver estratégias de refutação as falácias do relativismo filosófico. Portanto, conclui-se que a cosmovisão relativista não se sustenta diante dos argumentos da apologética cristã, sendo indispensável ao crente da contemporaneidade desenvolver habilidades que o condicione a refutar o relativismo filosófico com responsabilidade e firmeza diante dos propósitos do SENHOR.

Palavras-chave: Relativismo; Apologética; Defesa da fé cristã.

ABSTRACT

This research presents refutations of philosophical relativism based on Christian apologetics, showing that it does not stand on its own, being a fallacy, through literary and biblical evidence. From this perspective, this article describes the conceptual nature of relativism and its ideological presuppositions, making a counterpoint with the Christian worldview. This work is justified by the need to broaden the academic debate on aspects of philosophical relativism and to promote Christian apologetics as a tool for refuting ideological fallacies. Bibliographical and explanatory research methods were used in an integrated way. The aim was to build up knowledge in a systematic way based on the contribution of various areas of research through academic interdisciplinarity. Through theoretical investigations and reflections, it was possible to analyze the concept and types of relativism, the nature of philosophical relativism and how to develop strategies to refute the fallacies of philosophical relativism. Therefore, it is concluded that the relativist worldview does not stand up to the arguments of Christian apologetics, and it is indispensable for contemporary believers to develop skills that condition them to refute philosophical relativism with responsibility and firmness in the face of the LORD’s purposes.

Keywords: Relativism; Apologetics; Defense of the Christian faith.

INTRODUÇÃO

Os desafios da contemporaneidade no mundo filosófico exigem cada vez mais do teólogo a necessidade de um aprofundamento teórico e conceitual sobre diversas áreas do conhecimento que ameaçam a ortodoxia bíblica. No cerne desta discussão, está o relativismo filosófico, que figura como uma ideologia disseminada por diversos pensadores ao longo do tempo, contribuindo para a interpretação da verdade de forma subjetiva (Lorenzoni, 2023).

O desenvolvimento do pensamento filosófico sob o viés do relativismo constitui-se como ameaçador ao processo de produção do conhecimento, tendo em vista a negação da verdade absoluta (Sales, 2016). As diversas estruturas sociais podem ser descaracterizadas a partir da relativização da verdade, e essas implicações refletem diretamente na interpretação do conhecimento histórico e nas decisões sociopolíticas.

Analisando a natureza da cosmovisão relativista, Barbosa (2021, p. 11) afirma que: “No relativismo, o termo bem ou mal podem ser atribuídos a coisas distintas, por pessoas distintas e variam entre comunidades políticas. Na lógica moderna, esses dois termos tornamse quase irreconciliáveis”. Dessa maneira, a realidade torna-se alvo da subjetividade, o que abre precedentes para uma grande diversidade de implicações.

É perceptível na literatura acadêmica, as influências do relativismo em outros problemas intelectuais e espirituais, o ceticismo é um exemplo claro (Borba, 2008). A interpretação filosófica e teológica à luz dos pressupostos em destaque, desconsidera a infalibilidade e inerrância das Escrituras Sagradas.

As influências e perigos de invalidar a verdade como absoluta vão mais além do que meras insinuações teóricas, refletem significativamente na prática do cotidiano, pois, segundo Damiani (2021, p. 62): “Um adepto de correntes relativistas jamais afirmaria, peremptoriamente, por exemplo, que infanticídio ou feminicídio são condutas reprováveis. Diria que infanticídio ou feminicídio são condutas reprováveis para a sociedade X ou Y”. É perceptível que a relativização da moralidade e verdade causam danos irreparáveis a ordem social.

Diante das questões até então apresentadas, este artigo busca responder a seguinte pergunta: Como combater o relativismo filosófico moderno através de uma apologética cristã ortodoxa e bíblica? O questionamento central é abordado através de uma fundamentação teórica científica contextualizada à luz das Sagradas Escrituras.

Assim, o objetivo geral desta pesquisa é refutar o relativismo filosófico, mostrando que ele não se sustenta por si mesmo, sendo uma falácia, através de evidências literárias e bíblicas. Nessa perspectiva, é indispensável descrever a natureza conceitual do relativismo, os pressupostos ideológicos, fazendo um contraponto com a cosmovisão cristã.

A finalidade da presente investigação é contribuir para a ampliação do debate bíblico-científico sobre os fundamentos do relativismo, discorrendo sobre as suas variantes ao longo tempo e das abordagens sociais. A discussão justifica-se pelo interesse do autor em promover a apologética cristã como ferramenta de refutação às falácias ideológicas do relativismo. A afinidade com a área de defesa da fé cristã foi a principal razão que influenciou significativamente a escolha da presente abordagem.

A presente pesquisa foi construída sob a perspectiva dos métodos de pesquisa bibliográfica e explicativa de forma integrada, tendo em vista que são metodologias que se complementam mutuamente (Köche, 2011). Buscou-se construir o conhecimento de forma sistemática a partir da contribuição de diversas áreas de pesquisa por meio da interdisciplinaridade acadêmica.

A revisão bibliográfica tradicional levou em consideração a contribuição de diversos autores, buscando somar pensamentos ou contrapor ideias. Foram utilizados como fonte de pesquisa, livros, periódicos, artigos da plataforma Scielo, dissertações e teses da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), etc.

O tópico a seguir discorre de forma sistemática o conceito e tipos de relativismo. A análise epistemológica da palavra relativismo torna-se indispensável para a compreensão da natureza conceitual e filosófica. É peremptório analisar como pensam os relativistas para que seja possível utilizar a apologética cristã como ferramenta de refutação eficiente.

1. Conceito e tipos de relativismo

O relativismo figura uma temática bastante discutida no cenário acadêmico e científico da contemporaneidade, ganhando cada vez mais adeptos e levantando diversas especulações em torno das suas características (Lorenzoni, 2023). As várias linhas da filosofia hodierna discorrem sobre essa vertente do pensamento, dividindo-se em defensores ou refutadores.

Analisando de forma conceitual o relativismo, Dambros (2013, p. 108) afirma que:

Para o relativismo não há propriedades compartilhadas e, portanto, não é possível um acordo entre os sujeitos. Esta tese ontológica basilar do relativismo é a que tem consequência mais problemática, tanto epistemologicamente como logicamente, antropologicamente, politicamente, moralmente etc. 

Nessa perspectiva, é perceptível que as implicações do relativismo se desdobram sobre as diversas áreas do conhecimento humano. Conceitualmente, o relativismo se caracteriza por ser oposto ao conhecimento objetivo e absoluto conforme corrobora Lorenzoni (2023, p. 43): “Uma primeira aproximação do termo diz que relativismo vem de relativo, como oposto a absoluto, o mesmo que não fixo, variável de indivíduo para indivíduo, de tempo para tempo”. Assim, os pilares centrais dessa ideologia gravitam em torno da subjetividade.

Portanto, o contexto sociopolítico é quem estabelece os princípios de certo ou errado na perspectiva relativista, assim, as diferentes sociedades constituem variados códigos de valores (Barbosa, 2021). Corrobora com este pensamento, Casimiro (2023, p. 08) ao afirmar que: “O relativismo ensina que o que é certo é a inexistência de verdades absolutas ou de certo e errado. Cada pessoa é dona da sua “verdade” e deve respeitar a do outro”. Dessa maneira, não há objetividade no conhecimento, tal contextualização impacta negativamente no processo de ensino-aprendizagem das sociedades.

Analisando o relativismo de forma sistemática, pode-se classifica-lo em diferentes tipos, entretanto, todos giram em torno da subjetividade dos valores e da verdade, condicionando-a ao juízo de valor relativo. Os principais tipos são: relativismo epistemológico, cultural, religioso, moral e filosófico (Cruz, 2023).

O relativismo epistemológico é uma vertente filosófica que subjuga o conhecimento humano a cosmovisão individual e ao contexto histórico de cada povo. De acordo com essa linha de pensamento, não há uma verdade universal e absoluta, existem diferentes verdades que variam de acordo com as circunstâncias gerais (Borba, 2008).

A linha de raciocínio do relativismo cultural é indissociável do relativismo moral, pois ambos defendem que os valores e crenças devem ser interpretados dentro do escopo de cada lugar (Cruz, 2023). O que pode ser moralmente correto em determinada cultura pode ser incorreto em outra. Nessa perspectiva as heranças e tradições são valorizadas dentro do recorte social do tempo e do espaço desconsiderando totalmente os padrões universais de moralidade.

Por sua vez, o relativismo religioso defende uma cosmovisão de mundo plural, afirmando não haver uma religião verdadeira. Esse tipo de pensamento abre margem para o pluralismo religioso e o ecumenismo. Entretanto, o princípio filosófico da não-contradição esclarece que uma proposição não pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa, de acordo com (Sales, 2016): o cristianismo bíblico é verdadeiro e tudo o que se opõe a ele é falso. A Bíblia Sagrada é a fonte infalível da verdade absoluta de Deus para o homem.

Os conceitos e tipos de relativismo evidenciados na presente obra são consequências diretas do relativismo filosófico, que por sua vez, nasce através de interpretações errôneas da realidade (Barbosa, 2021). O conceito de verdade absoluta é desconsiderado no processo de reflexão do relativismo filosófico, tal posicionamento impacta negativamente na produção da história e do conhecimento humano.

Conhecer os pressupostos do relativismo filosófico é indispensável para compreender as características dessa cosmovisão de mundo nociva ao cristianismo bíblico. É indispensável analisar as estruturas do pensamento relativista para o desenvolvimento de estratégias de refutação eficientes através da apologética cristã.

2. Pressupostos do relativismo filosófico e como pensam a fé cristã

Os pressupostos do relativismo filosófico fundamentam-se na subjetividade dos valores éticos e morais. De acordo com essa cosmovisão de mundo, os valores e costumes são variáveis mediante a época e sociedade, e os diferentes recortes sociais refletem um padrão de pluralidade no que se refere a verdade (Queiroz, 2011).

A natureza do relativismo é centrada na figura do homem como referencial de verdades temporais e relativas. Corrobora com este pensamento Arrais (2021, p. 13) ao afirmar que:  

O relativismo atesta, portanto, que os pontos de vista não têm uma verdade absoluta ou validade intrínsecas, mas eles têm apenas um valor relativo, subjetivo, e de acordo com diferenças na percepção e consideração. Essa corrente de pensamento teve em seus primórdios, como principal corifeu, o sofista grego, Protágoras de Abdera. Sua teoria baseava-se na premissa de que o homem é a referência de tudo.

Nessa perspectiva, o relativismo filosófico surge das proposições humanistas e alcança diferentes vertentes ao longo dos séculos. “Se dizemos que o relativismo se encontra presente no pensamento de filósofos contemporâneos, suas raízes, no entanto, se encontram nos primeiros pensadores da filosofia ocidental, na Magna Grécia” (Lorenzoni, 2023, p. 43). Assim, a filosofia grega contribuiu para a estruturação dos ideais relativistas.

Sobre a essência dos pressupostos do relativismo Arrais (2021, p. 22) descreve que:

Para Protágoras tudo é relativo: não há um “verdadeiro” absoluto e sequer há valores morais absolutos: “O que é certo para mim, pode não ser para ti”. Isso levou Protágoras a rejeitar a existência de definições absolutas de verdade, justiça ou virtude. Acerca de sua doutrina e sua conflitualidade com a filosofia, salienta-se: Para Protágoras, nada é inerentemente bom em si mesmo. Algo é ético ou certo apenas porque uma pessoa (ou sociedade) o julga assim.

A interpretação filosófica e as ideias de Protágoras foram bases teóricas para o desdobramento das correntes de pensamento relativistas na antiguidade, idade média e contemporaneidade (Cruz, 2023). Os dogmas têm sido vistos como obsoletos em diversas comunidades em virtude da relativização da verdade.

Nesse sentido, a sociedade atual cada dia mais se descaracteriza dos valores e padrões éticos “tradicionais”, segundo Lennox (2017, p. 71): “Essas profundas mudanças surgem da desconstrução pós-moderna da verdade, que envolve a remoção da verdade da esfera objetiva para a esfera subjetiva e, de fato, relativizando-a”. A negação da possibilidade de analisar a verdade como absoluta abriu precedentes para equivocadas interpretações filosóficas e teológicas da pós-modernidade.

Levando em consideração alguns nomes da Teologia Contemporânea, (Gonçalves, 2009, p. 08) descreve que:

David Hume, filósofo escocês, havia lançado dúvida em quanto à possibilidade de alguém provar alguma coisa, tanto dentro como fora de si mesmo. Causa e efeito, Deus como origem de todas as coisas, o homem como ser contingente, tudo isso era para ele completamente evasivo. Segundo ele, não conhecemos a coisa em si, mas apenas aquele conhecimento que os sentidos nos proporcionam.

O ceticismo de David Hume impactou diversos pensadores da teologia liberal, os quais tentaram respaldar a interpretação bíblica nos princípios relativistas. Tais pensadores, distanciaram-se completamente da exegese bíblica, utilizando interpretações equivocadas para justificar seus ideais falidos (Gonçalves, 2009).

Seguindo a perspectiva do relativismo, Rudolf Bultmann (1884-1897), teólogo liberal, figurou em seu tempo como um nome proeminente do pensamento relativista e liberal. Bultmann utilizou-se de um método interpretativo que colocava as verdades do cristianismo sob o prisma da relativização dos milagres, cunhando em seu tempo o termo “desmitologização” (Nascimento, 2023).

A Teologia Liberal de Bultmann é um reflexo da visão de mundo relativista, de acordo com sua cosmovisão, no Novo Testamento encontra-se duas coisas, o Evangelho Cristão, por um lado e a cosmogonia do século primeiro, de índole mitológica, de outro lado (Gonçalves, 2009). A desmitologização seria um processo de negação dos eventos sobrenaturais que ocorrem no contexto do Novo Testamento, para Bultmann, o homem moderno deve crer apenas no conteúdo da pregação, na parte histórica dos escritos neotestamentários.

Segundo Nascimento (2023, p. 90), “Com essa declaração, ele negava com veemência a realidade dos milagres, e dizia que a ressureição era algo que se passara apenas na experiência subjetiva dos discípulos, ou seja, em sua mente, e não algo que acontecera na história”. É notório que o relativismo é totalmente contrário aos princípios da fé cristã, que têm suas raízes na verdade absoluta e infalível, a Bíblia Sagrada, a Palavra de Deus.

Contrariando os ideais relativistas presentes no pensamento de Bultmann, que coloca o homem como parâmetro central da interpretação, Gonçalves (2009, p. 27) afirma que: “O verdadeiro propósito do Novo Testamento é proclamar que o Deus soberano veio ao mundo na pessoa de Jesus para restaurar a natureza humana e resgatar a humanidade. O coração do Novo testamento continua sendo Deus, e não o Homem”. 

Nesse sentido, os escritos neotestamentários não estão condicionados ao relativismo humanista, pelo contrário, Jesus é o centro da revelação escrita. Corrobora com este pensamento, Nascimento (2023, p. 92) ao declarar que “A revelação de Cristo se deu na história, portanto, podemos ter acesso as evidências da ressureição, utilizando o método correto, a crítica histórica, tal como qualquer outro evento do passado”. Assim, a fé cristã é contrária aos ideais do relativismo, pois pode ser analisada sobre o escopo da história.

Sobre o pensamento da fé cristã, Casimiro (2023, p. 47) afirma que: “A ética cristã estabelece verdades absolutas, universais e eternas. Ela reconhece e respeita as diferenças culturais, mas, por causa do pecado, afirma que toda cultura deve passar pelo filtro da Palavra de Deus”. Torna-se evidente que os valores do cristianismo bíblico são absolutos, apesar das mudanças culturais e adaptações sociais ao longo dos séculos, os princípios normativos da fé cristã permanecem válidos.

Em relação a inerrância das Sagradas Escrituras, Frame (2010, p. 53) descreve que: “[…] a Escritura não só proclama a verdade; ela proclama também as razões para a crença na verdade. E como suas verdades são autorizadas, assim também as suas razões. Temos obrigação não somente de crer na verdade escritural, mas também de crer nela por razões escriturais. A verdade bíblica é imutável assim como a natureza do Deus Criador.

Portanto, os pressupostos do relativismo filosófico não se sustentam quando confrontados aos princípios absolutos da verdade bíblica. A própria filosofia fornece bases para a refutação do relativismo, o princípio da não-contradição, é um exemplo claro (Sales, 2016). De acordo com Dagg (2003, p. 02) “O senso de obrigação religiosa que nos impele a buscar o conhecimento da verdade, embora desconsiderado por larga porção da humanidade, pertence à própria constituição da natureza humana”. 

As Sagradas Escrituras apresentam princípios absolutos e eternos e expressam os propósitos de Deus para a humanidade, defender o relativismo filosófico é mergulhar em um oceano de ilusões, tendo em vista o caráter absoluto da verdade.

3. Refutando o relativismo filosófico sob o prisma da Apologética Cristã

Os desafios da contemporaneidade, exigem do cristão autêntico, habilidades para identificar as características das ideologias que tentam subjugar a verdade aos padrões humanistas. De acordo com Lennox (2017, p. 72): “Observamos que o pós-modernismo contém em si a flagrante autocontradição de que “não há verdade absoluta”, a qual é afirmada como verdade absoluta. Por conseguinte, não é de se estranhar que sua linguagem seja muito confusa”. A afirmação da não é existência de verdades absolutas figura um grande paradoxo do pensamento relativista. Nessa perspectiva a apologética cristã constitui-se como ferramenta indispensável no combate ao relativismo filosófico.

3.1. A natureza da Apologética Cristã

É imprescindível àqueles que desejam refutar os falsos ensinamentos, conhecer a natureza da apologética cristã, de acordo com Frame (2010, p. 13): “A apologética cristã (que nada tem a ver com “apologia” no sentido de pedir desculpas) busca servir a Deus e à igreja, ajudando os crentes a levar a cabo a ordem de 1Pedro 3.15-16. Poderemos defini-la como a disciplina que ensina os cristãos a dar uma razão para a sua esperança”

Sob um contexto de iminente perseguição contra a Igreja do primeiro século, o Apóstolo Pedro inspirado pelo Espírito Santo exclama: “[…] antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós”. (1 Pe 3.15 – ARC).

O termo empregado pelo Apóstolo Pedro no versículo 15, (ἀπολογία – apología), é traduzido no texto em português por responder. De acordo com o texto grego, significa: defesa verbal, discurso em defesa uma afirmação ou argumento raciocinado. A utilização do termo em grego em destaque “[…] significa defesa em um interrogatório judicial. Traz à luz o preparo da argumentação apologética da fé, salientando uma argumentação de raciocínio lógico”. (Sales, 2016, p. 33). Assim, o cristão genuíno fundamenta sua crença na experiência e razão (Rm 12.1).

Ainda sobre o conceito de apologética cristã, Lennox (2017, p. 90) descreve que: “A palavra grega apologia, da qual temos a palavra “apologista”, significa “defensor”. É importante perceber isso, visto que no Novo Testamento não há distinção entre evangelismo e apologética: todo evangelismo envolvia a defesa do evangelho”. Os escritos neotestamentários confirmam o preparado dos primeiros crentes no exercício da apologética cristã.

O Apóstolo Paulo é um exemplo claro de apologista da Igreja Primitiva, ele utilizou-se das oportunidades para pregar a verdade de Deus revelada na encarnação de Jesus. Paulo poderia ficar inerte diante do cenário sombrio de idolatria em Atenas, entretanto, como um verdadeiro apologista, usou o contexto cultural e religioso de Atenas para pregar à Cristo (At 17.15-21).

No que se refere a estratégia usada pelo apóstolo dos gentios, Richardson (1995, p. 18) afirma que: 

Paulo, no entanto, havia “passado e observado” (At 17.23) e descobriu algo “no sistema” que não fazia parte “do” sistema – um altar que não se associava a qualquer ídolo! Um altar com a curiosa inscrição, “ao deus desconhecido”. Paulo percebeu uma diferença de comunicação que provavelmente abriria as mentes e os corações daqueles filósofos estoicos e epicureus. Quando eles o convidaram para apresentar formalmente seu ponto de vista num local mais próprio para uma discussão logica, Paulo aceitou.

Os aspectos da cultura greco-romana certamente eram conhecidos por Paulo (Richardson, 1995).O Apóstolo se apropriou da linguagem cultural dos atenienses para conquistar a atenção dos intelectuais presentes no Areópago, essa estratégia é muito eficiente para quem deseja formular refutações práticas no exercício da apologética cristã.

Outro exemplo clássico de apologista da Igreja primitiva, foi também um dos primeiros mártires da Igreja Cristã, o diácono Estevão, o qual constitui-se como paradigma para a Igreja da atualidade, “[…] não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava” (At 7.10). Além de conhecer profundamente a história do povo de Israel (v.2-53), o diácono Estevão era cheio do Espírito Santo, essa marca o fez contemplar as maravilhas de Deus mesmo em meio aos ataques hostis dos que não se submetiam à Cristo (v. 55-60).

Diante do exposto, torna-se evidente que a natureza da apologética cristã caracteriza-se pela apresentação da verdade absoluta através da pessoa de Cristo, utilizando os mais variados recursos e diante das mais adversas circunstâncias. Paulo e Estevão figuram como paradigmas para os cristãos da contemporaneidade em virtude da postura apologética diante dos desafios vivenciados em seus dias. É indispensável ao seguidor de Cristo na atualidade, apropriar-se dos recursos espirituais e intelectuais para a pregação do Evangelho, que é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). 

O crente pode-se valer dos três aspectos da apologética cristã para o desenvolvimento da defesa da fé de forma eficiente: apologética como prova (1 Co 15.1-11); apologética como defesa (Fp 1.7) e apologética como ofensiva (1 Co 1.18; 2 Co 10.4-5), Frame (2010). Portanto, através de uma vida de dependência ao Espírito Santo e exercício intelectual pautado na verdade bíblica, o apologista cristão obterá fundamentos sólidos em refutação ao relativismo filosófico. 

3.2. Principais refutações ao relativismo filosófico

A apologética cristã contribui significativamente para o desenvolvimento de refutações concretas ao relativismo. Além disso, o princípio filosófico ou lei da não-contradição afirma que nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo (D’ Agord, 2006). Nesse sentido, o relativismo filosófico não se sustenta diante das suas afirmações, tendo em vista o caráter absoluto da verdade do cristianismo bíblico.

Concernente às estratégias de refutação do relativismo, Frame (2010, p. 53) descreve:

Quando encontrar alguém que enfatiza o lado da descrença do relativismo ateu, seja persistente em apresentar estas questões: (1) Como é que você pode estar seguro de que o relativismo é verdadeiro, quando ele mesmo descarta toda segurança? (2) Como é que você vive como relativista? Não ter segurança de qualquer coisa deve requerer um terrível esforço racional, emocional e volitivo. Que base você usa para a tomada de decisões? Que base você tem para criticar o tratamento que outros lhe dispensam? Como pode dizer que uma coisa está errada ou é injusta? Que base você tem para confiar na lógica – ou em sua própria mente?

Os questionamentos levantados por Frame (2010) são indispensáveis para desmontar as falácias do pensamento relativista, pois a partir do momento que se diz que não há verdades absolutas, isso se configura uma verdade absoluta. Em suma, o relativismo é uma mera ilusão, Dambros (2013, p. 122) afirma que: “É uma ficção filosófica como tantas outras. Não há tal coisa como “ser relativista” ou “adotar uma posição relativista” porque sempre se fala de algum lugar, de um dado conjunto. Quem fala, sempre enuncia dada proposição tendo a si mesmo como garantia de verdade”. Ou seja, a verdade é de fato universal e objetiva.

No tocante à natureza do relativismo, “A conclusão que se nos impõe é que o relativismo, como posição filosófica, não tem sustentação razoável. De fato, o relativista não atua como relativista” (Lorenzoni, 2019, p. 45). Assim, a realidade é que o relativismo se constitui como uma verdadeira utopia, as suas proposições não se sustentam diante de uma análise racional.

Sob a perspectiva do contexto bíblico, o salmista apresenta a condição de corrupção geral do homem que almeja viver distante da realidade da existência de Deus. “Disseram os néscios no seu coração: Não Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não ninguém que faça o bem” (Salmos 14.1). Nesse sentido, percebe-se que o comportamento de negar a realidade perpassa os milênios da história humana. 

Negar a existência de Deus é trilhar os caminhos de uma vida relativista, longe de padrões éticos e morais indispensáveis à existência humana. A existência de Deus é uma prova infalível de que a verdade possui um caráter absoluto e universal (Sl 19.1; Sl 90.1,2). É notório que o pecado tem deturpado cada vez mais o caráter do homem que vive distante dos propósitos do SENHOR, trazendo como consequência o juízo divino sobre a impiedade, conforme (Rm 1.18): “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça”.

O relativismo filosófico é uma ideologia que tenta tirar Deus do centro de todas as coisas, atribuindo ao homem os parâmetros de definição do que deve ser verdade ou não. Porém, a natureza do homem caído é totalmente corrompida, levando-o a exercer o juízo de valor de forma errônea. A Bíblia Sagrada, a infalível Palavra de Deus menciona que  

O estabelecimento da verdade em caráter universal e absoluto é indispensável para que os princípios e valores não sejam manipulados pelos interesses particulares. De acordo com (Lorenzoni, 2019, p. 45):  

No convívio humano, todos buscam a verdade, base comum do que significa conhecer. E conhecer quer dizer alcançar o real, mesmo com todas as limitações de interpretação que ocorrem, da parte do sujeito e do objeto. Mas ninguém se contentará jamais com “a sua verdade”. Ela tem que se encontrar na Verdade.

Portanto, o relavismo filosófico não se sustenta quando confrontado com a realidade, pois, a verdade não está atrelada às interpretações pessoais sobre determinado fato ou fenômeno, a verdade é o que corresponde a realidade. Dessa maneira, não se sustentam as ideias falaciosas do relativismo, tendo em vista os fundamentos absolutos da verdade.

Considerações Finais

Portanto, os resultados do presente artigo apontam para os objetivos elaborados a priori. A apresentação do conceito e a caracterização dos diferentes tipos de relativismo, a partir de uma revisão bibliográfica contextualizada com a temática, contribuiu significativamente para a compreensão da natureza do relativismo filosófico.

Diante de uma exposição teórica sobre os aspectos do pensamento relativista, foi possível centrar a discussão em torno do relativismo filosófico que é o propulsor das demais vertentes apresentadas no referido trabalho. Evidenciou-se que o relativismo filosófico se desenvolve a partir de intepretações errôneas da realidade (Barbosa, 2021).

As reflexões realizadas no desenvolver da pesquisa apontam que os pressupostos do relativismo filosófico acompanham o desenvolvimento da história da humanidade, atravessando desde a antiguidade na Magna Grécia até a contemporaneidade (Lorenzoni, 2023).

As ideias relativistas estruturaram-se de forma abrangente a partir das contribuições da filosofia grega e ganharam novas formas nos períodos históricos subsequentes.

A modernidade foi marcada pela influência do relativismo filosófico na produção literária de alguns teólogos reformados, nesse período a teologia liberal entrou em ascensão, fomentando interpretações errôneas das Sagradas Escrituras. O presente artigo, contribuiu significativamente para o entendimento da cosmovisão cristã no tocante a relativização da verdade, pois contextualiza a objetividade da apologética cristã diante da subjetividade do relativismo filosófico.

Portanto, os resultados esperados do presente artigo foram alcançados com êxito, contribuindo para o debate acadêmico e apologético através da caracterização e refutação do relativismo filosófico. Os desafios do mundo intelectual da atualidade, exigem do cristão genuíno, habilidades para identificar as características das ideologias que tentam subjugar a verdade aos padrões humanistas. 

As reflexões teóricas sobre a natureza do relativismo filosófico foram importantes para o desenvolvimento de estratégias para a refutação dessa cosmovisão de mundo anticristã. Em meio as hostilidades de uma sociedade que se opões constantemente a fé cristã, o Senhor deseja investir na vida de sinceros apologistas. Assim como na Igreja Primitiva, a sociedade contemporânea precisa ouvir o eco da voz de corajosos soldados do SENHOR, defendendo a fé diante das oposições (1 Tm 6.20).

Referências

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1Mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental – Universidade de Pernambuco – UPE Especialista em Ensino de Geografia e História – Faculdade da Região Serrana (Farese)
Licenciatura em Geografia (Universidade de Pernambuco)
Curso Livre em Teologia (Escola de Teologia das Assembleias de Deus no Brasil)
raniel.santana@upe.br

2Mestre em Administração (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE)
Bacharel em Administração – UFPE Bacharel em Teologia – FABAD
Especialização em Finanças para Negócios – Universidade Presbiteriana Mackenzie  MBA em Gestão Empresarial – Uninassau jcesargoncalves@hotmail.com

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