COLELITÍASE NA GESTAÇÃO: DESAFIOS DIAGNÓSTICOS E TERAPÊUTICOS

CHOLELITHIASIS IN PREGNANCY: DIAGNOSTIC AND THERAPEUTIC CHALLENGES

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202508152356


Marihá Brum Siqueira1
Gustavo Cota Barbosa de Lima Santos2
Delio Lima Rocha3
Ana Clara Aguilar de Almeida4


Resumo

A colelitíase na gestação representa uma condição de significativa relevância clínica, cuja ocorrência está associada a modificações hormonais e metabólicas próprias do período gestacional, favorecendo a formação de cálculos biliares e aumentando o risco de complicações. Este estudo teve como objetivo analisar os desafios diagnósticos e terapêuticos relacionados à colelitíase em gestantes, enfatizando os métodos de identificação precoce e as condutas mais seguras para mãe e feto. Foi conduzida uma pesquisa de revisão bibliográfica integrativa em bases científicas reconhecidas, contemplando publicações nacionais e internacionais recentes sobre o tema. A análise evidenciou que a ultrassonografia abdominal constitui-se no exame de escolha para diagnóstico devido à sua eficácia e segurança, enquanto a conduta terapêutica deve ser individualizada, priorizando manejo conservador nos casos não complicados e intervenção cirúrgica em situações de risco iminente. Os resultados reforçam que a definição do tratamento deve considerar o estado clínico da gestante, a idade gestacional e a gravidade do quadro, minimizando riscos e maximizando desfechos favoráveis. Conclui-se que o manejo adequado da colelitíase durante a gestação exige integração entre conhecimento científico atualizado, recursos diagnósticos precisos e condutas terapêuticas alinhadas à segurança materno-fetal, contribuindo para a redução de complicações e melhora da qualidade da assistência.

Palavras-chave: Colelitíase. Gestação. Diagnóstico. Tratamento. Manejo clínico.

1 INTRODUÇÃO

A colelitíase, definida como a presença de cálculos no interior da vesícula biliar, constitui uma das doenças biliares mais frequentes na população em geral e apresenta maior prevalência em mulheres, especialmente durante o período gestacional (Vieira & Silva, 2014). Estima-se que as alterações hormonais próprias da gravidez, como o aumento dos níveis de estrogênio e progesterona, influenciem diretamente na composição da bile e na motilidade vesicular, favorecendo a formação de cálculos (Araújo, Nogueira & Ramos, 2017).

Durante a gestação, o diagnóstico da colelitíase apresenta desafios específicos, uma vez que a sintomatologia pode ser confundida com desconfortos gastrointestinais comuns do período, além de haver limitações na escolha dos métodos diagnósticos por conta da segurança materno-fetal (Ferreira, Oliveira & Alves, 2018). A ultrassonografia abdominal é o exame de escolha devido à sua alta acurácia e ausência de radiação ionizante (Lousada, 2005).

As complicações decorrentes da colelitíase não tratada na gestação, como colecistite aguda, pancreatite biliar e colangite, podem representar risco significativo tanto para a gestante quanto para o feto (Silva, Freitas & Pereira, 2020). Nesse contexto, torna-se relevante compreender as abordagens diagnósticas mais seguras e as alternativas terapêuticas mais eficazes, considerando as particularidades desse período.

A presente pesquisa tem como objetivo analisar os principais desafios diagnósticos e terapêuticos relacionados à colelitíase na gestação, discutindo suas implicações clínicas e avaliando estratégias baseadas na literatura recente. Justifica-se pela necessidade de integrar evidências científicas que contribuam para práticas mais seguras e resolutivas no manejo dessa condição, reduzindo riscos materno-fetais e ampliando o embasamento clínico para a tomada de decisão (Barbosa, Rodrigues & Moura, 2018; Kingston et al., 2010).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

A colelitíase apresenta prevalência variável durante a gestação, estimada entre 3% e 12%, sendo mais frequente no segundo e terceiro trimestres (Kingston et al., 2010). Fatores de risco incluem idade materna avançada, multiparidade, obesidade e histórico familiar de cálculos biliares (Vieira & Silva, 2014; Gomes, Lima & Pereira, 2020). A gestação atua como catalisador para a manifestação clínica da doença, precipitando episódios sintomáticos em pacientes previamente assintomáticas (Carvalho et al., 2015).

O aumento da secreção de estrogênio durante a gestação eleva os níveis de colesterol na bile, enquanto a progesterona reduz a motilidade da vesícula biliar, favorecendo estase biliar e litogênese (Araújo, Nogueira & Ramos, 2017; Vieira, Silva & Borges, 2016). A resposta contrátil reduzida à colecistocinina é apontada como um dos mecanismos centrais para o desenvolvimento de cálculos biliares no período gestacional (Barbosa, Rodrigues & Moura, 2018).

A ultrassonografia abdominal é considerada método padrão para o diagnóstico de colelitíase na gestação, apresentando elevada sensibilidade e especificidade, além de ser segura para o feto (Ferreira, Oliveira & Alves, 2018; Lousada, 2005). Em situações de diagnóstico inconclusivo, a colangiorressonância magnética surge como alternativa não invasiva e segura, permitindo avaliação detalhada do trato biliar sem risco de radiação (Kingston et al., 2010). A interpretação dos sintomas pode ser dificultada pela sobreposição com sinais comuns da gestação, como náuseas, vômitos e desconforto abdominal.

O tratamento conservador, incluindo analgesia, hidratação e dieta hipolipídica, é recomendado em casos não complicados (Silva, Freitas & Pereira, 2020). Entretanto, complicações como colecistite aguda, pancreatite biliar e colangite exigem intervenção cirúrgica (Moura, Castro & Martins, 2019). A colecistectomia laparoscópica é considerada segura principalmente no segundo trimestre, período em que os riscos maternos e fetais são minimizados (Carvalho et al., 2015). Estudos recentes indicam que, em centros especializados, a cirurgia pode ser realizada em qualquer trimestre mediante indicação absoluta (Barbosa, Rodrigues & Moura, 2018).

A análise da literatura evidencia que a colelitíase na gestação requer abordagem integrada, considerando fatores fisiológicos, diagnósticos e terapêuticos. Apesar de avanços, persistem lacunas quanto ao manejo cirúrgico precoce e protocolos padronizados, reforçando a necessidade de diretrizes específicas para a gestação (Kingston et al., 2010; Silva, Freitas & Pereira, 2020).

3 METODOLOGIA 

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa, cujo objetivo foi reunir e analisar criticamente as evidências científicas disponíveis sobre os desafios diagnósticos e terapêuticos da colelitíase na gestação. Essa metodologia foi escolhida por permitir a síntese do conhecimento existente, identificar lacunas na literatura e subsidiar a prática clínica baseada em evidências.

A pesquisa bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS, Web of Science e Scopus, abrangendo publicações disponíveis até julho de 2025. Foram utilizados descritores controlados dos vocabulários Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por operadores booleanos. A estratégia de busca foi estruturada com os seguintes termos:

(“Gallstones” OR “Cholelithiasis”) AND “Pregnancy”

(“Colelitíase” OR “Cálculos Biliares”) AND “Gestação”

Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, revisões narrativas, diretrizes clínicas e estudos observacionais que abordassem a colelitíase na gestação, contemplando aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos. Foram considerados trabalhos publicados em inglês, português ou espanhol, com texto completo disponível.

Foram excluídos estudos com foco exclusivo em populações não gestantes, relatos de caso isolados sem relevância para a síntese teórica, artigos duplicados entre bases e publicações não indexadas em periódicos científicos.

A seleção ocorreu em três etapas: Triagem inicial dos títulos e resumos por dois revisores independentes, para exclusão dos artigos que não atendiam aos critérios de inclusão. Leitura na íntegra dos textos selecionados para confirmar a elegibilidade. Inclusão final dos estudos que preencheram todos os requisitos. Em casos de discordância entre revisores, um terceiro pesquisador realizou a avaliação final.

Os dados extraídos incluíram: autor(es), ano de publicação, país do estudo, tipo de pesquisa, tamanho da amostra, métodos diagnósticos, condutas terapêuticas e principais conclusões. As informações foram organizadas em planilha eletrônica para facilitar a análise.

A análise dos resultados foi conduzida por meio de análise temática, que consistiu na categorização dos achados em eixos principais:

Aspectos epidemiológicos e fisiopatológicos;

Métodos diagnósticos e limitações na gestação;

Estratégias terapêuticas e momento ideal da intervenção;

Desafios e perspectivas para o manejo da doença.

Os achados foram comparados com recomendações de diretrizes internacionais, visando identificar convergências, divergências e lacunas no conhecimento.

Por se tratar de uma revisão de literatura, este estudo não envolveu coleta de dados com seres humanos e, portanto, não necessitou de aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A presente revisão integrativa reuniu e analisou 32 estudos publicados entre 2005 e 2025 que abordaram aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos da colelitíase na gestação. As publicações incluídas foram provenientes majoritariamente dos Estados Unidos, Brasil, Reino Unido e países da Europa Ocidental, com predominância de artigos originais observacionais e revisões sistemáticas.

Os achados foram agrupados em quatro eixos temáticos principais, de acordo com a categorização definida na metodologia.

Perfil epidemiológico e fatores de risco

A prevalência de colelitíase em gestantes variou de 3% a 12%, com maior incidência no segundo e terceiro trimestres (Kingston et al., 2010). Entre os fatores de risco mais citados destacam-se idade materna avançada, multiparidade, obesidade e história familiar de cálculos biliares (Vieira & Silva, 2014; Gomes, Lima & Pereira, 2020). A gestação aumenta a probabilidade de manifestação clínica em mulheres previamente assintomáticas, especialmente quando associada a múltiplos fatores predisponentes (Carvalho et al., 2015).

‘Fisiopatologia

As alterações hormonais caracterizadas pelo aumento de estrogênio e progesterona promovem alterações na composição da bile e na motilidade vesicular, favorecendo estase biliar e litogênese (Araújo, Nogueira & Ramos, 2017; Vieira, Silva & Borges, 2016). A resposta reduzida da vesícula biliar à colecistocinina constitui um mecanismo central para a formação de cálculos durante a gestação (Barbosa, Rodrigues & Moura, 2018).

Estratégias diagnósticas e desafios

A ultrassonografia abdominal permaneceu como o método de escolha, devido à sua segurança e eficácia na gestação (Ferreira, Oliveira & Alves, 2018; Lousada, 2005). Em casos inconclusivos, a colangiorressonância magnética apresentou-se como alternativa segura, permitindo avaliação detalhada do trato biliar sem exposição à radiação (Kingston et al., 2010). A sobreposição de sintomas gestacionais, como náuseas e desconforto abdominal, constitui o principal desafio diagnóstico, podendo atrasar a intervenção necessária.

Abordagem terapêutica: conservadorismo versus intervenção

O manejo conservador, com analgesia, hidratação e dieta hipolipídica, é adequado para a maioria dos casos não complicados (Silva, Freitas & Pereira, 2020). Entretanto, complicações como colecistite aguda, pancreatite biliar e colangite exigem intervenção cirúrgica (Moura, Castro & Martins, 2019). A colecistectomia laparoscópica é considerada segura, sobretudo no segundo trimestre, e pode ser realizada em qualquer trimestre quando há indicação absoluta, desde que a equipe seja experiente (Carvalho et al., 2015; Barbosa, Rodrigues & Moura, 2018).

Síntese interpretativa

Os achados indicam que a colelitíase na gestação requer abordagem integrada, considerando fatores fisiológicos, diagnósticos e terapêuticos. A literatura evidencia avanços na identificação precoce e no manejo seguro, mas lacunas persistem quanto à padronização de protocolos cirúrgicos e condutas terapêuticas (Kingston et al., 2010; Silva, Freitas & Pereira, 2020). O conhecimento consolidado nesta revisão oferece subsídios para reduzir complicações maternas e fetais, promovendo desfechos clínicos mais favoráveis.

5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa demonstra que a colelitíase na gestação configura-se como condição de alta relevância clínica, marcada por desafios diagnósticos e terapêuticos que exigem abordagem criteriosa e individualizada. Os objetivos propostos foram alcançados, evidenciando a influência de alterações hormonais gestacionais na litogênese biliar, a utilidade da ultrassonografia como exame de escolha e a pertinência de estratégias terapêuticas adaptadas à segurança materno-fetal.

Verifica-se que a definição do momento e da conduta cirúrgica deve considerar a gravidade do quadro, a idade gestacional e os riscos associados, priorizando o tratamento conservador em casos não complicados e a intervenção oportuna diante de complicações. A pesquisa contribui com subsídios teóricos e práticos para a padronização de protocolos assistenciais, favorecendo condutas mais seguras e efetivas.

Reconhece-se como limitação a escassez de estudos multicêntricos nacionais com grandes amostras que avaliem comparativamente diferentes estratégias terapêuticas. Recomenda-se que futuras investigações aprofundem a análise de indicadores prognósticos e explorem tecnologias diagnósticas avançadas que permitam reduzir o tempo para confirmação do diagnóstico.

Conclui-se que a compreensão integrada dos aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos e terapêuticos da colelitíase na gestação potencializa a tomada de decisão clínica e contribui para a redução de complicações, promovendo desfechos mais favoráveis para mãe e feto.

REFERÊNCIAS

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1 Médica pela Universidade Governador Ozanan Coelho. e-mail: marihabrums@gmail.com
2 Médico pelo Universidade Governador Ozanan Coelho. e-mail: gustavocotabls@gmail.com
3 Médico pelo Universidade Governador Ozanan Coelho. e-mail: rochadelio@hotmail.com
4 Médica pela Universidade Governador Ozanan Coelho. e-mail: anaaguilar.almeida@gmail.com