REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202503070911
Vanderlei Fernandes Barreto1
RESUMO
Este artigo tem a prerrogativa principal de apresentar uma análise dos primórdios da Administração, enquanto ciência, bem como a contemporaneidade desta ciência está embasada sob diversas variáveis conceituais, perpassando a administração nesse processo histórico. Esse artigo não tem a pretensão de aprofundar a pesquisa sobre a história da administração, ao contrário, contribuir para o devido alinhamento do pontos significativos da linha temporal em que se baseia a administração, possibilitando a ampliação de debates sobre esse tema, inclusive a questão do paradigma sobre sua origem milenar e sua posição enquanto nova ciência pós-século XX. No intuito de assegurar a qualidade da coleta de dados, a pesquisa bibliográfica consistirá na principal metodologia utilizada nesse artigo. Nessa perspectiva, respostas devem ser apresentadas acerca das incógnitas: A administração é de fato uma ciência? Sua origem é milenar ou pós-Revolução Industrial? Quem são seus precursores? As teorias de administração de fato existem? A essas incógnitas, entre outras, o presente artigo norteará, expondo as diferentes conceituações de autores diversos e, para tanto, as contribuições teóricas de Idalberto Chiavenato, Djalma Pinheiro Rebouças Oliveira, Filipe Sobral e Alketa Peci, serão as fontes principais desse trabalho. Outro aspecto sobre esse artigo ressalta que a história da administração apresenta importância significativa aos demais cursos da área de negócios, pois a estes, a Administração, não está condicionada, ao contrário, ela se configura num processo interdisciplinar, interligado as demais disciplinas e, pode contribuir, no processo epistemológico de quaisquer áreas do saber, sem, contudo, perder sua origem, propósito e certamente sua teoria e prática profissional.
Palavras-chave: Primórdios da Administração; Teorias da administração; História da Administração; Processo interdisciplinar; teoria e prática profissional.
ABSTRACT
This article has the main prerogative of presenting an analysis of the beginnings of Administration, as a science, as well as the contemporaneity of this science is based on several conceptual variables, permeating management in this historical process. This article does not intend to deepen the research on the history of management, on the contrary, to contribute to the proper alignment of the significant points of the timeline on which management is based, enabling the expansion of debates on this theme, including the question of the paradigm about its millennial origin and its position as a new post-twentieth century science. The bibliographic research will consist of the main methodology used in this article. From this perspective, answers must be presented about the unknowns: Is management really a science? Is its origin millennial or post-Industrial Revolution? Who are its precursors? Do management theories actually exist? This article will guide these unknowns, among others, exposing the different conceptualizations of different authors and, to this end, the theoretical contributions of Idalberto Chiavenato, Djalma Pinheiro Rebouças Oliveira, Filipe Sobral and Alketa Peci, will be the main sources of this work. Another aspect of this article highlights that the history of administration is of significant importance to other courses in the business area, as Administration is not conditioned to these, on the contrary, it is configured as an interdisciplinary process, interconnected with other disciplines and can contribute to the epistemological process of any area of knowledge, without, however, losing its origin, purpose and certainly its theory and professional practice.
Keywords: Beginnings of Administration; Administration theories; History of Administration; Interdisciplinary process; Theory and professional practice.
INTRODUÇÃO
O presente artigo trata da apresentação sobre os dos primórdios da Administração, enquanto ciência, bem como seu olhar contemporâneo que embasa esta ciência, que para alguns tem caráter generalista, e para outros um estudo pragmático de uma ciência gerencial, pautada na interdisciplinaridade acerca dos pressupostos complexos que a constitui. Dessa forma, o estudo da história e conceitos da Administração e seus respectivos impactos na contemporaneidade será objeto de análise e pesquisa desse artigo
Como é do conhecimento geral, a Administração é uma ciência nova, contudo suas práticas são reconhecidamente seculares e, dessa forma, compreender sua história, significado e importância para as pessoas e para as sociedades, é fator preponderante, seja para estudantes ou profissionais que utilizam dessa ciência, com seu caráter interdisciplinar.
Historicamente, evidencia-se que as organizações são diversificadas, de tamanhos, características, estruturas e de objetivos diferentes. Dessa forma, em qualquer lugar do mundo atual, para continuar a existir, a organização necessita de pessoas. Estas, por sua vez, mantêm relação quase simbiótica com aquela – considerando que uma não vive sem a outra. Entender a história e diferentes conceitos de administração nesse contexto é extremamente relevante e demonstra os desafios temporais e recursos utilizados no processo evolutivo das organizações.
É possível compreender – sob enfoque da gestão – que todas as atividades atuais em nossa sociedade são orientadas para a produção de bens e serviços, pautadas no processo de planejar, coordenar, dirigir e controlar dentro de uma organização. De fato, todas as organizações são constituídas de pessoas e de recursos não humanos (recursos materiais, financeiros, tecnológicos, mercadológicos, etc.), e a história da administração apresenta como evoluíram esses conceitos ao longo dos anos e, concomitantemente, como as empresas prosperaram.
O termo organização neste artigo, apresenta uma amplitude em sua terminologia, abrangendo quaisquer agrupamento de pessoas sob atividade laboral, de forma estruturada, no alcance de objetivos comuns. Nesta premissa, o termo organização agrupa empresas lucrativas ou não ( igrejas, exército, marinha, aeronáutica), ONGs – Organizações não Governamentais, cooperativas, IES – Instituições de ensino superior – entre outras escolas de ensino fundamental e médio, autarquias, bancos, creches, sociedades de economia mista, hospitais e demais instituições e/ou empresas de pequeno, médio e grande porte.
A análise e estudo da história desse tema não é tarefa simples. Sua complexidade norteia, inclusive, a dificuldade de conceituar administração, posto que tal definição não é única, tampouco estanque. Existem vários autores e inúmeras conceituações, alguns aludindo ao conceito de administração como uma arte, outros como ciência. Percebe-se que alguns conceitos são uniformes, outros apresentam características diferentes.
Este artiog propiciará a percepção das diversas teorias da administração e sua relevância inerente às diversas organizações e sociedade como um todo. Será possível, por meio de pesquisa bibliográfica em livros, artigos, teses, entre outras fontes, compreender a evolução do pensamento sobre a ciência da Administração, concatenando de forma temporal, as diferentes correntes desses pensadores, bem como a compreensão das teorias formuladas e respectiva relevância na prática da Administração.
Enfim, para uma melhor compreensão sobre o exposto, serão apresentados alguns temas, como os primórdios da Administração, perpassando as abordagens científicas e a clássica, notadamente, os diferentes aspectos conceituais e, consequentemente, como está a Administração no Brasil contemporâneo. Não obstante, à guisa do processo epistemológico, o desafio é propiciar amplo debate sobre a história, conceito e propósito da Administração e correlação com nossa sociedade contemporânea.
1. Primórdios da Administração
Os primórdios da administração para alguns autores, correspondem ao surgimento da escrita com os sumérios em meados de 3.200 a.C. (OLIVEIRA, 2012). Outros destacam as pirâmides do Egito e a muralha da China como atividades humanas partícipes do ato de administrar pessoas e produtos. Dessa forma, embora a sistematização da administração tenha ocorrido no século XX, o ato de administrar e organizar, de fato, já se constituía em práticas milenares.
Segundo Sobral e Alketa Peci (2013), milhares de pessoas foram envolvidas no trabalho de construção civil no Egito antigo:
A construção da grande Pirâmide de Quéops envolveu o trabalho de mais de 100 mil homens, durante vinte anos. Foram utilizados 2,3 milhões de blocos, cada um com peso médio de 2,5 toneladas. Sem dúvida, foi necessária uma imensa habilidade administrativa para planejar, coordenar e controlar a construção, o que demonstra que a administração como forma de organizar e gerenciar o trabalho de pessoas vem sendo praticada há milhares de anos (SOBRAL; PECI, 2013, p.50).
A administração recebeu influência de várias áreas, “pode-se afirmar que a administração empresta, de outras áreas de conhecimento, o seu ferramental teórico e metodológico – Psicologia, Sociologia, Antropologia, Matemática, Biologia, Economia etc.[…].” ( CURADO, 2001, p.14).
A Filosofia, em épocas distintas, teve ascendência sobre a Administração por meio dos seguintes filósofos: Sócrates (470-399 a.C.) apresentava a administração como algo inerente à habilidade humana; Platão (429-347 a.C.), discípulo de Sócrates, analisa a questão social em detrimento do desenvolvimento social e impactos de um governo democrático na administração pública; Aristóteles (384 – 322 a.C.), discípulo de Platão, apresentou os três tipos de administração pública: Monarquia, Aristocracia e Democracia; Thomas Hobbes (1588-1679) desenvolveu a teoria da origem contratualista do Estado, segundo a qual o homem primitivo passou de forma gradativa à vida social; Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) desenvolveu a teoria do Contrato Social: uma sociedade em que as pessoas conviviam de forma harmoniosa (CHIAVENATO, 2014).
Ainda sob a égide desse cenário, igreja católica e exército influíram na administração, a primeira apresentando uma hierarquia simples, sob o comando geral de uma única pessoa, mas com grande poder de decisão – o Papa; a segunda com a apresentação do comando em linha de staff, em especial, a situação que todo subordinado – o soldado – sabe o que se espera dele e seu papel na organização é definido de forma objetiva e clara.
Destaca-se que a Revolução Industrial[2] teve início na Inglaterra, em meados de 1780, com o advento da invenção da máquina a vapor de James Watt (17361819). Esse invento foi aperfeiçoado para a indústria têxtil e, em seguida, para o setor de logística – modal fluvial e marítimo no século XIX. Conforme Chiavenato (2014, p.36), a Revolução Industrial teve “duas épocas distintas: 1780 a 1860 – Primeira Revolução Industrial ou revolução do carvão e do ferro, e 1860 a 1914 – Segunda Revolução Industrial ou revolução do aço e da eletricidade.”
Os trabalhadores, numa época anterior à Revolução Industrial, eram os artesãos e agricultores, ambos proprietários das ferramentas e da arte de seus ofícios – o que, inequivocamente, proporcionava-lhe poder sobre seu labor diário, pois não dependiam de superiores imediatos para ingerir sobre a execução de suas tarefas.
Porém, conforme Maximiano (2014), com o advento da Revolução Industrial, a vida dos camponeses e artesãos foi modificada profundamente, seja no aspecto social, econômico e político, alterando, de forma indelével, a vida das pessoas e do mundo. As indústrias fabris necessitavam de terras para criar seus carneiros e edificar galpões para as máquinas de fiar; assim, os camponeses perderam seu lar, foram obrigados a trabalhar nessas máquinas e viram seu ofício se esvair. O salário era muito baixo, a condição de trabalho era exaustiva devido a várias horas ininterruptas, sem descanso; esse é o início do capitalismo como sistema econômico. Dessa forma, apresentam-se os donos dos meios de produção e detentores do lucro. O capital passa a dirimir questões antes gerenciadas pelo Estado.
Karl Marx (1818 – 1883), uma das principais influências na história da Administração, elaborou profunda crítica ao analisar o capitalismo, seu olhar recai sobre o caráter social do sistema de produção e notadamente a questão da propriedade privada, enfatizando a diferença de classes, de um lado os capitalistas, elite burguesa e de outro os trabalhadores – classe proletária.
Reside nesse contexto a principal e fundamental contradição apontada por Marx, o caráter social da produção e o caráter privado da apropriação. O caráter social da produção é aquele que se expressa pela divisão do trabalho existente dentro da organização, que coloca os trabalhadores numa atuação solidária e coordenada. Com isso, o produto do trabalho se incorpora à propriedade privada, ou seja, o valor é a parte do capital investida na força do trabalho, resultando o capital variável. O capital investido na produção e o valor de venda dos produtos há uma diferença na mais-valia apropriada pelo capitalista pelo valor criado do trabalho.
Como se percebe, Marx analisou esse período histórico, identificou o conflito gerador da dissociação entre o dono dos meios de produção, mercado e as relações humanas advindas desse processo (CHIAVENATO, 2014).
Em consequência desses eventos, certamente após esse período, o mundo já havia se transformado. A administração aparece como solução aos problemas iniciados pela Revolução Industrial, como o desordenado crescimento das organizações e seu respectivo método arcaico de gestar uma empresa, além do fato da improvisação imperar como ato de ação gerencial.
Outro aspecto relevante nesse cenário aponta a profunda necessidade de as organizações obterem eficiência nos processos produtivos, considerando que não eram mais possíveis as improvisações, diante do aumento da concorrência que o mercado já anunciava, ou seja, era urgente uma administração efetiva, eficaz e moderna.
Nesse advento, Begnis, Arend e Estivalete (2014) afirmam em seu artigo: “Em pleno vigor da Revolução Industrial na Inglaterra do século XIX, embora fossem prósperas as fábricas de tecido, os tecelões operários que nelas trabalhavam formavam uma classe mal remunerada.” A divisão do trabalho em etapas – atividades menores – é realizada pelos trabalhadores, em contrapartida, o custo social eleva-se em conformidade com o descontentamento da classe trabalhadora.
Como se pode observar, a administração surge de necessidades estruturais, sociais e políticas, entretanto seu saber estruturado, em formato de curso de nível superior, ocorreu no final do século XIX, conforme afirma Oliveira (2012) Wharton é considerado o fundador da primeira faculdade de Administração do mundo: “Neste momento é válido lembrar que o primeiro curso de administração de empresas foi criado em 1881, pela Universidade de Pensilvânia – EUA, por Joseph Wharton (1826-1909), o qual estruturou a Wharton School.” (OLIVEIRA, 2012, p.8).
Tal demanda teve forte impacto nos Estados Unidos daquela época e, em pouco tempo, a Administração já estava sendo objeto de estudo nas universidades de outros países.
2. Aspectos Conceituais da Administração
A história da Administração demonstra que não há um conceito único e específico para definir está área do saber. Vários autores, em épocas distintas e também contemporâneas, expressaram suas ideias sobre o significado dessa jovem ciência. Contudo, não há controvérsia sobre a etimologia da palavra administração. Conforme Sobral e Alketa Peci (2013, p.49), essa terminologia é de origem latina “A própria palavra “administração” vem do latim ad (direção, tendência para) e minister (subordinação ou obediência), o que significa que administrar consiste em dirigir as atividades de um grupo de subordinados.”
Alguns autores definem administração como uma arte, como afirma Maximiano (2000, p. 28): ” A administração é uma arte, no sentido de profissão ou área de ação humana.” Há aqueles que detalham alguns aspectos fundamentais como planejar, controlar, dirigir, liderar, enfim, a leitura pessoal de cada autor sobre o conceito de administração, demonstra que essa ciência requer profundo conhecimento teórico e prático.
Não é possível conceber, nas organizações contemporâneas, gestores que não tenham profundo conhecimento de administração. As complexidades em que vivem as organizações modernas, em face das constantes mudanças que ocorrem no mercado e, notadamente, em qualquer contexto ambiental – mudanças são frequentes – demandam uma ação estratégica de gestão para que as organizações consigam alcançar seus objetivos. Como administrar essas circunstâncias define o sucesso das organizações, conforme afirma Chiavenato (2014):
Tudo em administração depende da situação e das circunstâncias. Tudo nela é relativo por causa da complexidade das organizações. Por isso, existem várias teorias a respeito da administração. Cada uma delas ensina a discernir o que é relevante e a guiar suas ações e o que deve ser feito em cada situação ou circunstância. Cada teoria funciona como um modelo de pensar sobre o curso de ação diante de uma situação específica. Todo administrador busca resultados, mas sem a teoria adequada para chegar lá será apenas um palpiteiro ou um opinador às cegas. Teorias científicas são declarações que predizem como o mundo real vai responder quando provocado de certa maneira. E o que confirma ou nega qualquer teoria é a resposta que o mundo dá a ela (CHIAVENATO, 2014, p.13).
Como a questão da definição de administração não é algo estanque, o debate e a discussão sobre o assunto é pertinente e benéfico à produção acadêmica e científica. Contudo, cabe ressaltar a importância de perceber as diferentes conceituações e, em conformidade com as mesmas, detalhar como a história da administração é processada ao longo dos anos, pois, conforme ressaltado anteriormente, Taylor proporcionava foco principal na questão dos tempos e movimentos, objetivando a máxima eficiência dos funcionários.
Nessa ótica, percebe-se que a administração, naquele contexto e para aquele autor, envolve a organização, suas máquinas e toda a estrutura, sendo estes os fatores fundamentais de produção. Nota-se que as pessoas eram relegadas a um plano menos importante no escopo geral da administração, o que vem de encontro com as teorias de administração contemporâneas, pois o fator humano, hoje, é fundamental para as organizações de qualquer lugar do mundo industrializado e globalizado em que vivemos. Não há como retroceder nessa condição, como ressalta Peter Drucker (2002, p.13): “O administrador trabalha com um recurso específico: gente. Trata de um recurso sui generis, que exige determinadas qualidades de quem tente trabalhar com ele.”
Por meio de outro olhar, percebendo as organizações em seu contexto complexo, competitivo e alternado em cenários de mudanças, Drucker define administração voltada à realização de tarefas, num aspecto mais geral. Ele afirma: “A administração constitui função social, enraizada na tradição dos valores, hábitos, crenças e sistemas governamentais e políticos.” (DRUCKER, 2002, p.16). Com relação à questão da universalidade da administração, pois ela utiliza recursos organizacionais em prol do alcance dos seus objetivos, Daft conceitua como “o alcance das metas organizacionais de maneira eficaz e eficiente por meio de planejamento, organização, liderança e controle dos recursos organizacionais.” (DAFT, 2005, p.5). Tal afirmação ratifica a questão sobre o viés interdisciplinar da administração, esta pode e deve ser utilizada em quaisquer áreas do saber, sem contudo perder sua origem, teoria e prática profissional.
Como se percebe, não há um único conceito de administração[3], cabe às organizações e aos administradores, em suas diferentes realidades ambientais, encontrar a melhor definição que atenda as suas necessidades, seja de ordem profissional ou acadêmica.
3. Escola da Administração Científica
A administração somente é considerada como ciência a partir do início do século XX. A primeira abordagem conhecida foi desenvolvida por Frederick Winslow Taylor (1856-1915), engenheiro norte-americano, que estabeleceu um novo olhar para o estudo e pesquisa da área, com a introdução aos princípios da administração científica.
As empresas, antes dessa abordagem, perdiam tempo e recursos na operacionalização de seus produtos e serviços. Taylor desenvolveu prática administrativa sobre a divisão do trabalho. A ênfase nesse processo é a eficiência por meio da sistematização do método que enfatiza tempos e movimentos, possibilitando que as organizações conseguissem alcançar seus objetivos por meio de custos baixos e máxima produção, conforme afirma Chiavenato (2014, p.55): “A preocupação original foi eliminar o fantasma do desperdício e das perdas sofridas pelas indústrias e elevar os níveis de produtividade por meio da aplicação de métodos e técnicas da engenharia industrial.”
Ainda sobre as proposições da administração científica de Taylor, toda e qualquer organização pode ser equiparada numa máquina, que atua em roteiro anteriormente definido. Com relação ao gerenciamento das pessoas na organização, Taylor deixa evidente que sua teoria, apesar de relevar a questão salarial como fator preponderante, não enfatiza a satisfação dos colaboradores como caráter fundamental; de outro lado, em virtude da divisão do trabalho, os operários exerciam tarefas cujos movimentos eram repetitivos e executados sempre da mesma forma, evidenciando, portanto, que a qualificação dos funcionários era irrelevante.
Outro aspecto extremamente importante nessa abordagem é a postura pessoal de Taylor, este passava horas observando o trabalho dos funcionários e, nessa condição, percebeu como poderia estruturar o que definiu como ORT – Organização Racional do Trabalho, como estabelece Chiavenato (2014):
Taylor verificou que os aprendiam a maneira de executar as tarefas do trabalho por meio da observação dos companheiros vizinhos. Isso levava a diferentes métodos para fazer a mesma tarefa e uma grande variedade de instrumentos e ferramentas diferentes em cada operação. Como há sempre um método mais rápido e um instrumento mais adequado que os demais, esses métodos e instrumentos melhores podem ser encontrados e aperfeiçoados por meio de uma análise científica e um acurado estudo de tempos e movimentos, em vez de ficar a critério pessoal de cada operário. Essa tentativa de substituir métodos empíricos e rudimentares pelos métodos científicos recebeu o nome de Organização Racional do Trabalho (ORT) (CHIAVENATO, 2014, p. 58).
Um precursor da administração científica, reconhecido no mundo todo, foi Henry Ford (1863-1947), pioneiro da indústria automobilística e responsável pela otimização e melhoria da produção em massa. Começou sua carreira como mecânico, criou o carro popular modelo Ford T e, de acordo com James Stoner e Freeman (1982), eram necessárias várias horas para a montagem de um carro, porém, em 1925, Ford atingiu seu maior feito ao produzir um modelo T a cada 5 segundos em sua linha de montagem.
Ao elaborarmos uma leitura do mundo corporativo no século XXI, as questões apresentadas na administração científica de Taylor e seus precursores ainda são verificadas nas organizações contemporâneas, em especial a questão sobre a padronização e o controle sobre a produção, propiciando condições para a efetivação da qualidade total.
4. Abordagem Clássica da Administração
O criador da abordagem clássica da administração foi Jules Henri Fayol (1841 – 1925). Enquanto a escola da administração científica progredia na América, a Europa via nascer uma nova teoria, porém semelhante à científica, a princípio, no que diz respeito ao objetivo de alcançar a máxima eficiência nas organizações. A teoria clássica entende que a análise da estrutura organizacional, no seu aspecto geral – departamentos e seções nas diversas áreas – é fator fundamental para que a empresa consiga atingir seus objetivos.
A história da administração demonstra que o contexto em que ocorreu a teoria clássica definiu a entrada do capitalismo na fase monopolista e criou outras correntes, como a gestão administrativa e a teoria da burocracia[4]. Essa abordagem pressupõe empresas altamente verticalizadas e hierarquizadas. A análise organizacional tem base no foco interno das empresas, originando vários princípios que norteiam essa abordagem.
Em sua teoria, Fayol cria seis funções básicas – gestão administrativa – para toda e quaisquer organizações. São elas: técnicas, comerciais, financeiras, de segurança, contábeis e administrativas. As técnicas norteavam a produção de bens e serviços; as comerciais eram ligadas à compra e venda de produtos e serviços; as financeiras, interligadas com aspectos de gestão dos recursos de caixa das organizações; de segurança, envolvendo situações de proteção patrimonial e das pessoas; contábeis, relativas ao controle e registros, balanços entre outros fatores de contabilidade; administrativas eram as que norteavam as cinco funções, sendo elas: prever, organizar, comandar, coordenar e controlar.
Esses aspectos são determinados, conforme salienta Oliveira (2012):
[…] Fayol estabeleceu que toda e qualquer empresa deve ter um conjunto de funções, as quais fazem as empresas funcionarem de maneira adequada. Nesse contexto, essas funções orientam o estabelecimento de um conjunto de responsabilidades dos executivos das empresas. E, para que os executivos das empresas possam realizar as suas responsabilidades adequadamente e as funções das empresas sejam consolidadas na plenitude, é necessário que um conjunto de princípios de administração das empresas seja respeitado (OLIVEIRA, 2012, p.69).
De acordo com Chiavenato (2014), Fayol, fundou um centro de estudos administrativos e sua teoria foi largamente utilizada e difundida no mundo todo, inclusive pelo exército. A história da administração demonstra que Fayol foi o responsável pela integração das diferentes e diversas funções das organizações, bem como determinou questões relativas à normatização das empresas e seus princípios gerais – quatorze ao todo – que sistematizaram a administração das organizações.
A abordagem clássica, determina que as organizações sejam tratadas como um sistema fechado, previsível e gerenciado em conformidade com as necessidades dos princípios que o norteiam, mantendo os pressupostos básicos da administração dessa teoria como uma filosofia a ser seguida é absorvida pelas organizações, num processo de sistematização e ordenação factível e crível de ser realizada com segurança no dia a dia das empresas.
5. Administração no Brasil contemporâneo
Ao analisarmos a história da administração, percebemos que esta demonstra uma evolução nos processos de ensino e aprendizagem, porém questões antiéticas e amorais que envolvem o comportamento dos gestores, em que pese não ser objeto de estudo do presente trabalho, são entraves no processo de desenvolvimento de qualquer organização e, até mesmo, de um país.
Esse cenário demonstra que a administração deve pautar questões éticas e morais, seja no âmbito do ensino, da pesquisa ou prática profissional nas organizações. Conceitualmente, a administração é uma prática observada em qualquer parte do mundo atual.
No Brasil, existem especificidades inerentes ao sistema cultural brasileiro, características marcantes, como paternalismo, concentração de poder e a impunidade são alguns dos traços culturais encontrados nas organizações brasileiras contemporâneas. Com relação aos administradores brasileiros, conforme afirma Sobral e Alketa Peci (2013), a cultura administrativa brasileira apresenta modismos gerenciais e adoção de sistemas de tomada de decisão pautados na centralização e posição autocrática. De fato, as organizações brasileiras apresentam especificidades culturais próprias, como observa Sobral e Alketa Peci (2013, p.22):
A cultura brasileira apresenta alguns traços que lhe permitem distinguir-se de outras culturas nacionais. Esses traços definem um estilo brasileiro de administrar que, em alguns casos, reforçam vantagens comparativas, mas que, em outros, criam dificuldades aos administradores.
A administração no Brasil atual deve se preparar para os temas relacionados à globalização, sustentabilidade, meio ambiente, mídias sociais e o avanço da TI. Diante desse contexto, as organizações, desde as microempresas até as grandes multinacionais, necessitam de administradores que pensem de forma estratégica e, nesse sentido, conforme afirma Oliveira (2012, p.353): “[…] se tem observado que o pensamento estratégico auxilia o desenvolvimento de todas as questões administrativas nas empresas.” Evidencia-se que uma administração estratégica é um caminho a ser percorrido pelos gestores brasileiros.
Cabe, portanto, aos administradores, a tarefa de superar as adversidades por meio de ações éticas e consubstanciadas nas boas práticas administrativas sustentadas no mais alto nível de qualidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em suma, a humanidade evoluiu, os tempos mudaram, as exigências do mercado são outras. Pode-se afirmar, de forma categórica, que não há um conceito único e definitivo de administração, tampouco a noção de que a administração seja recente; ao contrário, ela pode ser considerada milenar, porém com a certeza de produzir um saber científico após o século XX.
Pode-se dizer que essa área do saber surgiu em detrimento da necessidade humana em melhorar e atingir resultados, porém, além desse olhar organizado e estruturado, outro ponto fundamental e, infelizmente relegado por alguns, reside no fato de que são as pessoas que fazem a diferença nas organizações. O recurso humano é o mais valioso em quaisquer organizações contemporâneas. Entretanto, ainda se observam, no Brasil contemporâneo, empresas que descumprem obrigações trabalhistas, outras envolvidas em escândalos de corrupção, alheias aos interesses ou bem-estar de seus funcionários. Diante dessa perspectiva, o olhar humanista será o cerne do desenvolvimento das organizações, bem como dos países, estes, por meio de uma administração séria, ética e competente, podem disponibilizar melhores condições de vida à sociedade em geral.
Enfim, a história da administração apresenta uma linha temporal de acontecimentos que delinearam o conhecimento dessa nova ciência, porém, ao final dessa análise, nota-se que pessoas correspondem ao verdadeiro diferencial das organizações, seja como clientes, ou funcionários. As pessoas – são o maior recurso das empresas e, como tal, deve ser protegido e valorizado.
2Conforme Leo Huberman foi na Inglaterra que o capitalismo surgiu com grande força e propiciou seu crescimento (HUBERMAN, 1986, p.163).
3Nesse artigo, definimos “Administração” como: Arte de envolver pessoas, objetivando propósitos comuns na vida organizacional.
4Max Weber (1864-1920) foi o criador da Teoria da Burocracia (CHIAVENATO, 2014, p.257).
REFERÊNCIAS
BEGNIS, Heron Sergio Moreira; AREND, Silvio Cezar; ESTIVALETE, Vania de Fatima Barros. Em frente ao espelho: a produção do conhecimento em cooperativas na Revista de Economia e Sociologia Rural. Revista de Economia e Sociologia Rural. Brasília, vol.52 n.1, Jan./Mar. 2014. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-20032014000100006&script=sci_arttext> Acesso em: 29 de jan. 2025.
CHIAVENATO, Idalberto. Teoria Geral da Administração. 9. ed. Barueri: Manole, 2014.
CURADO, Isabela Baleeiro. O Desenvolvimento Dos Saberes Administrativos em São Paulo: Uma análise histórica. 2001. 191 f. Tese (Doutorado em Administração) – Escola de Administração de Empresas de São Paulo – FGV, São Paulo, 2001.
DAFT, Richard L. Administração. São Paulo: Thomson, 2005.
DRUCKER, Peter F. Introdução à Administração. 3. ed. São Paulo: Thomson, 2002.
HUBERMAN, Leo. De onde vem o dinheiro? In:______. História da Riqueza do Homem. 21. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1986, cap.14, p.163.
MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Primeiros operários. In: ______. Recursos Humanos: Estratégia e Gestão de Pessoas na Sociedade Global. Rio de Janeiro: LTC, 2014. cap. 6, p. 110.
______. Introdução à Administração. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2000.
OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. História da Administração: Como entender as origens, as aplicações e as evoluções da administração. São Paulo: Atlas, 2012.
SOBRAL, Filipe; PECI, Alketa. Administração: teoria e prática no contexto brasileiro. 2. ed. São Paulo: Pearson, 2013.
STONER, James A.F.; FREEMAN, R. Edward. Caso Ilustrativo: O Apóstolo da Produção em Massa. In:______. Administração. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982.
1Mestre em Ciências Humanas Professor e Coordenador Acadêmico do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro