CARCINOMA CERUMINOSO EM CAVIDADE TIMPÂNICA DE GATO PERSA RELATO DE CASO

CEREMUNOSUS CARCINOMA IN THE TYMPANIC CAVITY OF A PERSIAN CAT CASE REPORT

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202507121357


Katharina Medeiros Krambrock1
Gabriela Christine Cruz Mendes
Ana Flávia de Almeida Ferreira
Janine Seixas Gomes Oliveira
Co-orientador: Cristiano Rodrigo Nicomedes da Silva
Orientador: Myrian Kátia Iser Teixeira


RESUMO

O carcinoma de glândulas ceruminosas é a neoplasia mais comum de conduto auditivo externo em gatos, apesar de raro em proporção às neoplasias em felinos domésticos. São, assim, pouco considerados como diagnóstico diferencial, dificultando seu diagnóstico e tratamento precoce, o que tem grande influência no prognóstico dos animais acometidos. 

Este trabalho tem por objetivo o relato de um caso de carcinoma ceruminoso em conduto auditivo externo em felino doméstico. O paciente era um gato macho da raça persa, de 7 anos. Este animal foi atendido com queixa de estar em tratamento prolongado para infecção do trato respiratório superior e da cavidade auditiva. Além de secreção nasal e auricular, apresentou estertores respiratórios e sinais neurológicos. O diagnóstico foi realizado por meio de exames complementares, como radiografia torácica e cranial e de tomografia computadorizada encefálica. 

Apesar do diagnóstico definitivo ter sido atingido, foi feito tardiamente devido ao tratamento como otite crônica por diversos meses, levando ao óbito em poucos meses. Isso reflete tanto a importância da investigação mais profunda em casos recidivantes ou não responsivos, como também pode refletir a hipótese já estudada da otite crônica ter papel no desenvolvimento de carcinogênese.

Palavras-chave: neoplasia aural / oncologia de felinos. 

ABSTRACT

Ceruminous gland carcinoma is the most common neoplasm of the external auditory canal in cats, although rare in proportion to neoplasms in felines. Therefore, they are rarely considered as a differential diagnosis, making their early diagnosis and treatment difficult, which has a great influence on the prognosis of affected animals. 

This study aims to report a case of ceruminous carcinoma in the external auditory canal in a 7-year-old Persian cat. Although a definitive diagnosis was reached, it was made late due to treatment as chronic otitis for several months, leading to death within a few months. This reflects the importance of more in-depth investigation in recurrent or unresponsive cases, and may also reflect the previously studied hypothesis that chronic otitis plays a role in the development of carcinogenesis.

Keywords: aural neoplasia / feline oncology. 

1. Introdução

O carcinoma de glândulas ceruminosas, carcinoma ceruminoso ou adenocarcinoma ceruminoso é o tumor maligno mais comum em conduto auditivo externo de gatos (DALECK, NARDI, 2016; ABDEL GALIL, MOHAMMED, 2021; KUBBA et al., 2018; FOSSUM, 2015). Ainda assim, são raros no contexto geral da oncologia de cães e gatos. Comparando as duas espécies, é mais comum nos gatos, tanto o adenoma quanto o adenocarcinoma ceruminoso, porém ainda são cerca de um a dois por cento de todas as neoplasias que os acometem (KUBBA et al., 2018; MEDEIROS et al., 2014; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006).

Este tipo de neoplasia deve ser considerado como diagnóstico diferencial em diversas situações, como as otites crônicas, as massas otológicas e as síndromes vestibulares. Em geral, são vistos em animais idosos, tendo em gatos a média de idade de ocorrência entre sete e treze anos (DALECK, NARDI, 2016; ABDEL GALIL, MOHAMMED, 2021; BELLAH, MATZ, 2023), sendo os machos mais predispostos (FOSSUM, 2015; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). Diante de uma massa em conduto auditivo, deve ser feita a distinção entre processos hiperplásicos, neoplásicos e infecciosos, como pólipos, cistos de glândulas ceruminosas, hiperplasia glandular e adenomas (MELLO et al., 2021).

Apesar de não apresentar grande risco de metástases, o carcinoma ceruminoso é altamente destrutivo localmente e está localizado próximo às estruturas nobres do crânio. Assim, pode desencadear sintomatologia neurológica grave, como paralisia do nervo facial, síndrome de Horner e dor na articulação têmporo-mandibular (DALECK, NARDI, 2016; BELLAH, MATZ, 2023). Dessa forma, seu diagnóstico e tratamento deve ser, além de precoce, muito preciso. 

O objetivo deste trabalho foi relatar o caso de um gato persa, de sete anos, diagnosticado com carcinoma de glândulas ceruminosas. Por ser uma neoplasia de baixa incidência em felinos e por seu diagnóstico demandar exames mais complexos, esse paciente foi tratado para otite crônica por diversas vezes, ocasionando a piora dos sinais clínicos e desenvolvimento do processo neoplásico.

Assim, destaca-se a importância do diagnóstico diferencial e da abordagem destes casos mais incomuns considerando exames mais complexos e de menor acessibilidade em quadros crônicos e pouco responsivos aos tratamentos usuais. 

2. Revisão de Literatura

2.1. Epidemiologia

Neoplasias no conduto auditivo são raras, totalizando cerca de dois por cento dos tumores que afetam felinos, sendo as mais comuns o carcinoma ceruminoso, o adenoma ceruminoso e o carcinoma de células escamosas (KUBBA et al., 2018; FOSSUM, 2015). A grande maioria dos tumores localizados neste sítio anatômico são os adenomas ceruminosos, cerca de 37%, e adenocarcinomas ceruminosos, cerca de 39%, nos gatos (DALECK, NARDI, 2016).

O carcinoma, ou adenocarcinoma, ceruminoso é mais comum nos gatos do que nos cães, (KUBBA et al., 2018; MEDEIROS et al., 2014; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). Sua idade média de ocorrência varia entre sete e treze anos em gatos (DALECK, NARDI, 2016; ABDEL GALIL, MOHAMMED, 2021; BELLAH, MATZ, 2023), acometendo machos mais frequentemente do que fêmeas (FOSSUM, 2015; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). 

Etiologicamente suas características ainda não são bem definidas, mas parece haver causalidade com processo inflamatório crônico, como é o caso de otites recorrentes ou resistentes (KUBBA et al., 2018; DALECK, NARDI, 2016; FOSSUM, 2015). Outras hipóteses também foram estudadas, como a exposição crônica à secreção de glândulas ceruminosas hiperplásicas, estimulando a carcinogênese (KUBBA et al., 2018; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006).

2.2. Biologia tumoral e sinais clínicos

O carcinoma ceruminoso se origina de células epiteliais das glândulas ceruminosas, que são responsáveis pela produção do cerúmen. Essas glândulas são classificadas como sudoríparas tubulares apócrinas e estão localizadas no canal auditivo externo dos gatos, próximo a membrana timpânica. (DALECK, NARDI, 2016; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006).

Biologicamente, esses tumores tendem a ser de invasão local agressiva, podendo atingir tecidos nobres do crânio e causar sintomatologia de otites média e interna (FOSSUM, 2015). Quando causam tumores secundários, normalmente são em tecidos próximos, como linfonodos mandibulares e glândula parótida, e raramente causam metástases distantes em pulmões, fígado e rins (DALECK, NARDI, 2016; FOSSUM, 2015; KUBBA et al., 2018; McGRATH et al., 2022; BELLAH, MATZ, 2023).

Desse modo, os principais sinais clínicos de pacientes acometidos por essa neoplasia são de otites crônicas, como prurido, inflamação e secreção auricular.  As síndromes vestibulares também podem ocorrer, devido à localização que costumam se desenvolver.  Ademais, pode desencadear sintomatologia neurológica grave, por invasão local de tecidos encefálicos, como paralisia do nervo facial, síndrome de Horner e dor na articulação têmporo-mandibular (DALECK, NARDI, 2016; BELLAH, MATZ, 2023)

2.3. Diagnóstico

O diagnóstico inicial é baseado em selecionar diversas etiologias mais prováveis de acordo com várias características, como os sinais clínicos, epidemiologia, localização e as características macroscópicas. Quando é possível notar uma massa em conduto auditivo, os diferenciais são voltados às diferentes massas que podem ocorrer na localização, devendo-se considerar lesões inflamatórias, infecciosas, hiperplásicas e neoplásicas. Lesões malignas tendem a ser ulceradas, hemorrágicas e mais amplas que benignas, que costumam ser menos friáveis, mais bem delimitadas e pedunculadas (BELLAH, MATZ, 2023; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). 

Em relação aos sinais clínicos, as neoplasias auriculares normalmente possuem sinais semelhantes às otites externas e médias, podendo ser citadas a presença de secreção e odor, diferenciando em alguns casos por terem massa visível no conduto auditivo (BELLAH, MATZ, 2023; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). Deve-se considerar as diversas causas de síndromes vestibulares, pois devido à localização mais comum dos carcinomas ceruminosos, esta síndrome é frequente (KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006). Outras etiologias das doenças vestibulares são as diferentes neoplasias que podem acometer essa localização, as otites crônicas, lesões benignas das glândulas ceruminosas e de outros tecidos próximos, como os pólipos. Normalmente, a diferenciação só é possível por meio de exame histopatológico (DALECK, NARDI, 2016).

Os exames de imagem, além de ajudarem a listar os diferenciais, auxiliam no conhecimento da extensão e invasão dos tecidos adjacentes pelo tumor (MEDEIROS, 2014). A radiografia simples normalmente é o exame inicial a ser realizado nestes casos. Nesta, é possível visualizar a massa, de densidade semelhante à outros tecidos moles, dentro do canal auditivo. Também é possível avaliar se há lise óssea e se há invasão de outros tecidos, como o osso temporal, a bula timpânica e a articulação temporomandibular (DALECK, NARDI, 2016; FOSSUM, 2015; McGRATH et al., 2022).

A tomografia computadorizada tem maior sensibilidade na detecção e na delimitação de neoplasias em cavidades fechadas, como é o caso do crânio nos carcinomas ceruminosos. Além disso, é uma importante técnica para planejamento cirúrgico mais preciso (LITTLE, 2015; FOSSUM, 2015). Outro exame de imagem menos comumente utilizado é o ultrassom, reportado em um estudo científico, como sendo uma alternativa pouco invasiva, sem necessidade de anestesia, que poderia identificar massas, e inclusive podendo sugerir se são malignas ou benignas (ABDEL GALIL, MOHAMMED, 2021).

Porém, para diferenciação do tipo neoplásico, são indicados exames de citologia e histopatologia (FOSSUM, 2015), pois apenas a imagem não diferencia os diversos tipos tumorais que acometem essa região, como os carcinomas de células escamosas (McGRATH et al., 2022). A citologia apresenta boa acurácia nestes tumores, sendo normalmente possível diferenciar características benignas e hiperplásicas de características malignas (DALECK, NARDI, 2016; de LORENZI; et al., 2005). Citologicamente, é possível visibilizar células de morfologicamente normais a atípicas, tendo em seu citoplasma material granular escuro, sendo a melhor técnica de coleta punção por agulha fina (de LORENZI; et al., 2005). A histopatologia normalmente é indicada após uma citologia inconclusiva, por sua coleta ser mais invasiva e o primeiro exame ter bons resultados. (CARNEIRO, HORTA, 2013). Porém, em determinados casos, como os carcinomas em conduto auditivo, o acesso ao tumor pode impossibilitar a citologia prévia.

A histopatologia permite a identificação mais precisa do tipo neoplásico, possibilitando a visualização da arquitetura tumoral. Ademais, permite inferir características do comportamento biológico do tumor pelas particularidades das células que o compõem e por meio de técnicas de imuno-histoquímica (LITTLE, 2015). Esta técnica permite além do diagnóstico mais assertivo, a melhor conduta terapêutica e determinação de um prognóstico mais acurado (CARNEIRO, HORTA, 2013).

Histologicamente, os tumores ceruminosos são similares aos de glândulas apócrinas, porém com acúmulo de material amarronzado dentro do citoplasma celular e nos interstícios (DALECK, NARDI, 2016; KUBBA et al., 2018). Além de diferenciar a origem do tumor, a histopatologia tem papel na avaliação do comportamento biológico do tumor, podendo ser possível inferir se são tumores malignos ou benignos. Algumas características que ajudam nessa diferenciação são pleomorfismo, invasão dos tecidos adjacentes e lâmina própria (DALECK, NARDI, 2016), diferenciação celular, hipercromasia, evidenciação de nucléolos e índice de atividade mitótica (KUBBA et al., 2018). Outra característica avaliada é a proliferação de epitélio muscular e diferenciação condroide ou osteoide, sendo então classificados como adenomas ou carcinomas complexos ou mistos (DALECK, NARDI, 2016).

O segundo tipo de neoplasia mais comum em conduto auditivo em gatos é o carcinoma de células escamosas, sendo um importante diagnóstico diferencial. Sinais clínicos desses dois tipos tumores são semelhantes, incluindo sinais neurológicos, como head tilt ipsilateral à lesão por serem ambas neoplasias localmente destrutivas e com características indicativas de otite externa, como dor à palpação (McGRATH et al., 2022). 

2.4. Tratamento

Normalmente em neoplasias de canal auditivo são indicados procedimentos cirúrgicos radicais, como a ablação total do conduto auditivo e a bulectomia, devido à invasividade local dos tumores mais reportados (McGRATH et al., 2022; FOSSUM, 2015; DALECK, NARDI, 2016; KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006; BELLAH, MATZ, 2023).

Ao se escolher a técnica cirúrgica, o aspecto mais importante é considerar àquele que irá trazer mais chances de se atingir margens cirúrgicas amplas, para evitar que haja recorrência local. Em casos que não podem ser obtidas margens livres, deve-se considerar o tratamento adjuvante, como a radioterapia (FOSSUM, 2015). Obtêm-se melhores resultados quando se faz além da ablação do conduto auditivo, a osteotomia lateral da bula timpânica. Entretanto, os índices de recidiva ainda são muito altos, podendo atingir até 70% dos casos (DALECK, NARDI, 2016). 

Em casos em que a otite bacteriana secundária está presente, deve-se incluir no tratamento a antibioticoterapia, de acordo com o agente envolvido caso tenha esta possibilidade, ou de acordo com os agentes mais comumente encontrados (DALECK, NARDI, 2016; FOSSUM, 2015). 

Em determinados casos, é indicada a radioterapia, como em tumores cuja excisão completa não foi possível ou em casos que o tratamento paliativo é indicado para amenizar a dor local. Outro tratamento adjuvante citado em literatura é a terapia fotodinâmica, porém com resultados insatisfatórios (BELLAH, MATZ, 2023).

Em animais com doença avançada e tumores comprovadamente malignos, a quimioterapia sistêmica é indicada para melhorar a sobrevida do paciente  (FOSSUM, 2015). Porém, são escassos os relatos específicos para carcinomas ceruminosos, sendo mais comum a utilização de quimioterápicos em carcinomas de células escamosas (BELLAH, MATZ, 2023).

2.5. Prognóstico

Na maioria dos casos, o prognóstico é considerado reservado, variando principalmente de acordo com a capacidade de invasão dos tecidos adjacentes, que além de nobres, causam muitos sinais clínicos nos pacientes (DALECK, NARDI, 2016). Fatores que também são importantes ao determinar o prognóstico são altos custos de diagnóstico e tratamento e procedimentos muito invasivos, que são limitantes para muitos tutores (FOSSUM, 2015).

Alguns fatores indicativos de prognóstico ruim para neoplasias de canal auricular em gatos são a presença de sinais neurológicos e a invasão vascular ou óssea determinada pelo exame histopatológico (FOSSUM, 2015; McGRATH et al., 2022; BELLAH, MATZ, 2023). Porém, em comparação com o carcinoma de células escamosas, o adenocarcinoma de glândulas ceruminosas tem prognóstico melhor (McGRATH et al., 2022). No tratamento cirúrgico, que é normalmente indicado em neoplasias malignas auriculares, mesmo a ablação total do conduto auditivo raramente é curativa, piorando o prognóstico e exigindo tratamentos adjuvantes (FOSSUM, 2015), tendo em média um tempo de sobrevida em gatos de um ano (KIRPENSTEIJN, HAAR, 2006).

3. Relato de caso

Foi atendido em julho de 2024 na Clínica Veterinária Gato Leão Dourado, um gato macho, persa, de sete anos de idade, com queixa de respiração ruidosa, secreção nasal purulenta e espirros. Esse paciente já havia passado por tratamentos anteriores, a partir de diagnósticos de pneumonia bacteriana e infecção do trato respiratório superior, com uso de antibióticos de amplo espectro. Nesses tratamentos, era observada melhora no início, porém, com a continuidade começava a apresentar sinais neurológicos, como head tilt, andar em círculos, fraqueza; e também gastrite, sendo os tratamentos interrompidos. Foram também prescritas medicações tópicas multi farmacológicas no conduto auditivo visando possível otite, os quais sempre apresentaram bons resultados. 

Em consulta, a tutora relatou que estava administrando xarope expectorante e antitussígeno (composto de Bromolactobionato de Cálcio, Sulfoguaiacolato de Potássio e Cloreto de Amônio) e realizando nebulização diária com mucolítico, mas sem resposta. No dia da primeira avaliação clínica, o paciente apresentava secreção purulenta bilateral em narinas e respiração ruidosa. Apesar disso, apresentava parâmetros clínicos normais, bom escore de condição corporal e boa disposição, sem linfonodos reativos. Foram então solicitados exames complementares: perfil sanguíneo com hemograma e análises bioquímicas e radiografia torácica em três projeções (declinada inicialmente pela tutora por custos). Nos resultados dos exames foi evidenciada intensa leucocitose (69.700 sendo os valores de referência 5.500 a 19.500), com neutrofilia (66.215 sendo os valores de referência 2.500 a 12.500) e demais parâmetros analisados dentro da normalidade. Foi então prescrito tratamento considerando a hipótese diagnóstica de infecção em trato respiratório superior e pneumonia, com doxiciclina e nebulização por sete dias, inicialmente, com retorno no último dia para reavaliação.

No sétimo dia do tratamento, foi realizado retorno à clínica e o paciente apresentava melhora parcial do quadro, sem secreção nasal aparente, mas com estertores audíveis. Foram coletados novos exames de sangue, nos quais havia leucocitose ainda mais intensa (82.300) com neutrofilia (79.008) e novamente demais parâmetros avaliados dentro da normalidade. Foi então estendido o tratamento com doxiciclina e nebulização por mais 14 dias, completando 21 dias de antibioticoterapia. 

Durante esse tratamento, o paciente iniciou-se quadro neurológico, como relatado pela tutora em outros tratamentos. Paciente apresentou fraqueza, andar cambaleante e em círculos em casa. Como já havia visto este quadro antes, a tutora interrompeu o tratamento e iniciou uso de medicamento otológico à base de  dexametasona, lidocaína, enrofloxacino e clotrimazol, por conta própria. Em retorno, paciente apresentava head tilt para a direita, andar cambaleante e voltado para a direita e leve nistagmo posicional. Neste atendimento não apresentava secreção nasal, mas ainda possuía estertor leve em ausculta pulmonar.

Diante dos resultados, foi novamente solicitada realização de radiografia torácica. As imagens não demonstraram alterações pulmonares, porém, em crânio, foram visibilizadas alterações de conduto auditivo e estruturas ósseas próximas. As alterações visibilizadas foram compatíveis com lise óssea e massa composta de tecido mole de aparente origem no conduto auditivo. Foi então indicada tomografia computadorizada cranioencefálica para avaliar demais vias aéreas e avaliar condutos auditivos devido aos sinais neurológicos, possivelmente oriundos de otite crônica. 

Enquanto o exame foi agendado, realizado e esperava-se o laudo, o paciente, em domicílio, apresentou duas possíveis crises convulsivas passageiras relatadas à clínica por contato telefônico. A tutora optou por observá-lo em casa, mesmo sendo indicado trazê-lo para avaliação e possível internação. Após dois dias, paciente em retorno ao consultório apresentava ataxia, discreto head tilt para direita, olhar aéreo, pouco responsivo ao ambiente e reflexo de ameaça ausente no olho esquerdo. Foi indicada internação para melhor observação e intervenção do quadro, porém, declinada pela responsável. Neste dia, coletou-se amostra sanguínea para realização de painel respiratório felino completo (RT-PCR para herpesvírus felino, Bordetella bronchiseptica, Mycoplasma felis, calicivírus felino e Chlamydia felis), sem detecções de material genético desses agentes. 

O laudo da tomografia craniana foi obtido e indicou diagnóstico possível de processo neoplásico com origem sugestiva na cavidade timpânica esquerda, invadindo a cavidade encefálica e comprimindo levemente o cerebelo, tendo como uma das hipóteses diagnósticas, colesteatoma, e como diagnóstico diferencial, pouco provável, carcinoma de base de orelha. Além disso, foi visibilizada linfonodomegalia de linfonodo retrofaríngeo esquerdo, com possibilidades diagnósticas de processo metastático (mais provável) ou processo reacional (menos provável). 

Como conduta para o caso foi indicada vídeo otoendoscopia com biópsia incisional no conduto auditivo. Nesta, visualizou-se epitélio do conduto auditivo direito íntegro e esquerdo eritematoso; membrana timpânica esquerda rompida com secreção brancacenta sólida no interior da cavidade timpânica;  membrana timpânica direita íntegra, sendo realizada miringotomia, com secreção mucoide clara no interior da bula timpânica (Figura 1). Realizada lavagem ótica e coleta de material para cultura e antibiograma do lado direito e coleta de amostra para histopatológico do lado esquerdo. Como diagnóstico suspeito de otite média bilateral e colesteatoma na orelha esquerda.

Após o procedimento, o paciente foi internado e não apresentou piora do quadro neurológico, tendo alta médica após 48 horas. Prescritos antibióticos orais à base de cloridrato de meclizina e  marbofloxacino, além de prednisolona também oral, e de uso otológico produto manipulado de ciprofloxacino 0,35%, dexametasona 0,1%, miconazol 2% e Tris-EDTA. Além disso, foi indicado repetir a tomografia craniana em três meses. 

Figura 1 – Imagens obtidas por videoendoscopia da orelha esquerda, mostrando acúmulo de secreção mucoide, epitélio eritematoso, membrana timpânica rompida e acúmulo de secreção brancacenta sólida no interior da bula timpânica.

Fonte: Arquivo pessoal (2024). 

Após seis dias do procedimento, paciente apresentou piora em casa, com prostração, inapetência e ataxia. Em avaliação clínica, apresentou perda de propriocepção, respiração paradoxal e sibilos pulmonares bilaterais. Realizada radiografia torácica, apresentando padrão bronquial e hepatomegalia. Foi feita também avaliação com por Focused Assessment with Sonography for Trauma (Avaliação Focada com Ultrassonografia para Trauma) na região torácica (tFAST), na qual havia líquido livre próximo ao coração. Em internação, foi utilizada oxigenoterapia via sonda nasal, analgesia com metadona e terapia com furosemida. 

Em laudo do exame histopatológico, evidenciou-se presença de células epiteliais, cilíndricas a cuboides e pleomórficas difusas formando túbulos, papilas e cordões. As células apresentam acentuada anisocitose, anisocariose, cromatina frouxa, cariomegalia, nucléolos evidentes e presença de figuras de mitose. Foram observadas quatro figuras de mitose em área microscópica de 2,37 mm². Margens histológicas comprometidas com diagnóstico histológico de carcinoma ceruminoso moderadamente diferenciado.

Diante dos achados, foi indicada radioterapia ou quimioterapia metronômica, com objetivo de controlar o crescimento tumoral e melhorar a qualidade de vida do paciente, devido à impossibilidade de realização de exérese pela invasividade do tumor na cavidade encefálica.

Paciente teve piora gradativa, com exacerbação dos sinais neurológicos, como perda de propriocepção em membros torácico e pélvico esquerdos e reduzido nos demais, head tilt para esquerda, nistagmo horizontal bilateral e nistagmo rotatório, estrabismo posicional e reflexo pupilar diminuído em olho esquerdo). O paciente veio à óbito na internação por parada cardiorrespiratória sem resposta às manobras de ressuscitação.

4. Discussão

O carcinoma ceruminoso é a neoplasia maligna mais comum em conduto auditivo de gatos, mas em relação à todos os casos oncológicos em felinos é incomum, segundo diversos autores citados anteriormente. O caso relatado, atendido em uma clínica especializada em felinos, foi um dos poucos quadros de carcinoma de células ceruminosas, refletindo esta baixa incidência. A idade média de ocorrência deste tipo de neoplasia fica entre sete e 13 anos, sendo que a idade do paciente era de sete anos. 

Assim como os autores Daleck e Nardi (2016) relatam, o paciente apresentou sintomatologia de otite crônica por muitos meses, dificultando o diagnóstico. Deve-se considerar ainda que a otite crônica pode favorecer a carcinogênese, como relatado por alguns autores. Dessa forma, não é possível inferir se os tratamentos estavam sendo ineficazes, levando à cronificação e, consequentemente, ao desenvolvimento do tumor; ou se a ineficácia terapêutica se devia ao fato de a neoplasia já estar presente como causa primária da otite. 

O paciente relatado apresentou também sintomatologia neurológica com o avançar da enfermidade, devido à invasão de tecidos encefálicos. Assim como Fossum (2015) exemplifica, o diagnóstico inicial foi realizado pela visualização da massa por meio de radiografia craniana. Além da massa foi possível identificar invasão e lise de tecidos ósseos. Porém, para melhor diagnóstico e planejamento cirúrgico é indicada a tomografia computadorizada de crânio, e foi assim realizada. 

Devido ao local de acometimento no paciente relatado, não foi possível a realização de citologia, sendo indicada a histopatologia, que foi realizada por vídeo-otoendoscopia. No exame histopatológico, visualizou-se células epiteliais, cilíndricas a cuboides e pleomórficas difusas, formando túbulos, papilas e cordões. Algumas características citadas no laudo foram anisocitose, anisocariose, cariomegalia, cromatina frouxa, nucléolos evidentes e aumento de figuras de mitose. Ao contrário do relatado na literatura por alguns autores, como Kubba (2018), não foi visto acúmulo de material amarronzado no interior das células.

Em relação aos procedimentos indicados para tratamento do carcinoma ceruminoso, é principalmente indicada a exérese cirúrgica, mas no caso do paciente citado não foi possível. Isto porque a neoplasia já estava em estado avançado, invadindo tecidos encefálicos, e pela evolução do paciente ter sido fatalmente muito rápida. Em alguns estudos, cita-se a expectativa de sobrevivência em casos semelhantes, sendo de quatro a 180 meses após o procedimento cirúrgico, não sendo muito possível inferir nesse caso devido a ausência da intervenção cirúrgica. 

5. Considerações Finais

O relato acima evidencia a importância de se buscar o diagnóstico definitivo em todos os casos atendidos, levando em consideração uma ampla gama de diagnósticos diferenciais, inclusive aqueles menos comuns na rotina da medicina felina. Isso se torna ainda mais relevante em clínicas especializadas em felinos, uma vez que os tutores de gatos no Brasil vêm demonstrando uma crescente exigência por atendimento de alta qualidade, resolutividade e condutas pautadas em evidências científicas. Esse cenário tem impulsionado a procura por médicos veterinários especialistas, serviços diferenciados e abordagens individualizadas aos seus animais.

No caso relatado, destaca-se a necessidade de considerar diagnósticos diferenciais mesmo quando os sinais clínicos indicam enfermidades comuns, especialmente diante de respostas terapêuticas insatisfatórias aos tratamentos convencionais. Isso é especialmente relevante em casos de carcinoma ceruminoso, dada a sua frequente correlação com quadros de otite crônica, seja pela inflamação prolongada atuar como fator de risco para carcinogênese, seja pelo tumor agir como causa base do quadro inflamatório. 

Embora o desfecho tenha sido desfavorável, o relato apresentado constitui um exemplo didático de carcinoma de glândulas ceruminosas, uma vez que acompanha a evolução desde as hipóteses diagnósticas iniciais, nas quais o diagnóstico definitivo ainda não era contemplado, até a realização de exames e procedimentos mais específicos. Este caso reforça, portanto, a relevância dos exames complementares na confirmação do diagnóstico definitivo e na conduta clínica adequada. 

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1 Aluna Do Curso De Pós-Graduação Em Clínica Médica De Felinos – Centro Universitário De Tecnologia de Curitiba – Unifatec-Pr

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