SURGICAL CANCELLATION: A PERSPECTIVE IN THE ONCOLOGICAL CONTEXT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602271457
Carla Castro Miranda1
Leide Sara Pires Pereira2
João Vitor da Mota Silva3
Alexandra Isabel de Amorim Lino4
RESUMO
Objetivo: Descrever a taxa de suspensão de cirurgias oncológicas em relação ao total de procedimentos suspensos e identificar os principais motivos em um hospital público do Distrito Federal. Método: Trata-se de um estudo transversal, primário e retrospectivo, realizado em um hospital público, referência em alta complexidade. Foram analisadas todas as cirurgias suspensas entre janeiro e dezembro de 2023, com coleta de dados realizada no segundo semestre de 2024 por meio de prontuários eletrônicos e formulários de suspensão cirúrgica. A análise dos dados foi descritiva. Resultados: No total de 1.526 cirurgias suspensas, 400 (26,2%) foram oncológicas. Observou-se predominância de pacientes do sexo feminino (30,1%), com idade média de 56,4 anos e majoritariamente pardos (78%). A maioria das cirurgias era eletiva (89,5%) e de porte intermediário (58,3%). As principais causas de suspensão estavam relacionadas ao cirurgião (27,5%), a registros ausentes na ficha (26%) e a fatores ligados ao paciente (18,5%). O tempo médio para reprogramação cirúrgica foi de 6,39 dias. Conclusão: As suspensões de cirurgias oncológicas representam uma proporção expressiva e refletem fragilidades no planejamento cirúrgico. Diante do risco do atraso terapêutico em pacientes oncológicos, recomenda-se a adoção priorização desses casos, aprimoramento dos fluxos assistenciais e fortalecimento da cultura de segurança cirúrgica.
Palavras -chave: Procedimentos cirúrgicos operatórios. Enfermagem perioperatória. Segurança do paciente. Oncologia. Cancelamento de cirurgia.
ABSTRACT
Objective: To describe the rate of suspension of oncological surgeries in relation to the total number of canceled procedures and to identify the main reasons in a public hospital in the Federal District, Brazil. Method: This is a cross-sectional, primary, and retrospective study conducted in a public hospital that is a reference in high-complexity care. All surgeries suspended between January and December 2023 were analyzed, with data collection performed in the second half of 2024 using electronic medical records and surgical suspension forms. Data analysis was descriptive. Results: Of the 1,526 suspended surgeries, 400 (26.2%) were oncological. There was a predominance of female patients (30.1%), with a mean age of 56.4 years and mostly self-declared as brown (78%). Most procedures were elective (89.5%) and of intermediate complexity (58.3%). The main causes of suspension were related to the surgeon (27.5%), missing records on the suspension form (26%), and factors linked to the patient (18.5%). The mean time for surgical rescheduling was 6.39 days. Conclusion: Suspensions of oncological surgeries represent a significant proportion and demonstrate weaknesses in surgical planning. Given the risk of therapeutic delay in cancer patients, prioritization of these cases, improvement of care pathways, and strengthening of the surgical safety culture are recommended to reduce avoidable cancellations.
Descriptors
Keywords: Operative surgical procedures. Perioperative nursing. Patient safety. Oncology. Surgery cancellation.
INTRODUÇÃO
O câncer configura-se como um dos principais problemas de saúde pública mundial, sendo uma das principais causas de morte é um importante obstáculo ao aumento da expectativa de vida. Nos países com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o impacto da doença nas taxas de incidência e mortalidade reflete a implementação de intervenções eficazes voltadas à prevenção, detecção precoce e tratamento. (1)
A etiologia do câncer é multifatorial, envolvendo hábitos de vida, fatores ambientais, predisposição genética e o envelhecimento. Grande parte dos casos está relacionada a comportamentos modificáveis, como tabagismo, consumo abusivo de álcool, alimentação inadequada, sedentarismo e obesidade, cuja compreensão é essencial para o monitoramento da incidência e mortalidade por neoplasias. (2)
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2020 foram registrados quase 10 milhões de óbitos no mundo. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) traz dados mais recentes com 9,7 milhões de pessoas morrendo de câncer em 2022. O que representa aproximadamente uma em cada seis mortes no mundo. (3,4)
No contexto brasileiro, os dados também são preocupantes. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA), foram registradas cerca de 235 mil mortes por ano. Esse quadro demonstra uma importante questão de saúde pública, que necessita urgentemente de adoção de medidas sustentáveis para frear o avanço da doença. (5)
Em 2020, foram registrados globalmente 19,3 milhões de novos casos, evidenciando que um em cada cinco indivíduos desenvolverá a doença ao longo da vida. O que reforça a importância de estratégias contínuas de prevenção, diagnóstico precoce e manejo adequado.6,7)
Nesse contexto, o tempo de espera para procedimentos cirúrgicos oncológicos é pautado principalmente pela Lei Federal nº 12.732/2012, que garante aos pacientes diagnosticados com câncer o início do tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) em até 60 dias após a confirmação diagnóstica. (8)
No Brasil, entre pacientes do SUS, houve um aumento ao longo dos anos na proporção de casos oncológicos tratados dentro do prazo de 60 dias. No entanto, atrasos ainda são frequentes, especialmente entre homens, idosos e pacientes com cânceres em estágios iniciais. Além disso, neoplasias de algumas especialidades médicas apresentam maior associação com o início tardio do tratamento. (9)
Esses atrasos, aliados às limitações estruturais do SUS, impactam diretamente o tempo de internação, que constitui um fator de risco relevante para infecções relacionadas à assistência e eventos adversos. Pesquisas revelam que a cada dia adicionado na internação, eleva consideravelmente a probabilidade de ocorrer incidentes, principalmente ao paciente imunossuprimido por quimioterapia. (10)
Estudos também demonstram que complicações infecciosas e toxicidades devido a quimioterapia e imunoterapia estão entre as principais componentes relacionadas ao tempo de permanência prolongado, que por sua vez estão associadas ao maior risco de mortalidade e desfechos clínicos desfavoráveis. Considerando esses fatores, é evidenciado na pesquisa a necessidade de estratégias personalizadas de entrega de terapia a fim de minimizar tais intercorrências. (11)
Por mais que ainda haja avanços expressivos no tratamento do câncer, a ocorrência de sintomas físicos e emocionais como fadiga, dor, náuseas, ansiedade e depressão continuam sendo relatadas pela maioria dos pacientes e pode comprometer e impactar significativamente a qualidade de vida. Assim, o cuidado oncológico ultrapassa os aspectos estritamente clínicos e que necessitam de estratégias de um cuidado integral e individualizados a fim de promover seu bem-estar geral. (12)
Neste contexto, o presente estudo busca responder à seguinte pergunta norteadora: qual é a proporção de procedimentos cirúrgicos oncológicos entre o total de cirurgias suspensas? Como objetivo, pretende-se descrever a taxa de suspensão de cirurgias oncológicas em relação ao total de procedimentos suspensos e identificar os principais motivos que levaram à suspensão desses procedimentos em um hospital público do Distrito Federal.
METODOLOGIA
Tipo de estudo
Trata-se de uma pesquisa primária, transversal, retrospectiva sobre a suspensão de procedimentos cirúrgicos oncológicos. O estudo transversal retrospectivo tem como objetivo analisar a prevalência e as características das suspensões cirúrgicas em um período previamente definido, por meio da coleta e análise de dados secundários. (13)
O estudo primário também permite a obtenção de dados confiáveis para análises descritivas e de prevalência, sem a necessidade de acompanhar os participantes ao longo do tempo. Esse tipo de delineamento permite descrever padrões e possíveis associações entre variáveis, como o tempo de internação hospitalar e o intervalo entre a suspensão da cirurgia e sua reprogramação ou alta hospitalar. Esse tipo de pesquisa significa que os dados foram coletados diretamente pela própria pesquisa, em vez de utilizar fontes secundárias. (13)
Descrição do local de estudo e população
O estudo foi realizado em um hospital terciário 100% SUS do Distrito Federal, referência para atendimento de alta complexidade, com 16 salas cirúrgicas e infraestrutura para diversas especialidades. A população do estudo compreendeu todos os pacientes que tiveram cirurgias suspensas nesse hospital entre janeiro e dezembro de 2023, permitindo identificar o número de procedimentos cirúrgicos oncológicos suspensos e os principais motivos que levaram à interrupção desses procedimentos.
Procedimento de coleta de dados e análise de dados
A coleta de dados foi realizada por meio da análise dos prontuários eletrônicos e formulários de suspensão cirúrgica durante o 2º semestre de 2024, durante cinco semanas, três vezes por semana, em turnos alternados. As informações foram extraídas do formulário de suspensão cirúrgica e do prontuário eletrônico do hospital (SIS Soul MV). Para garantir o sigilo, os participantes serão identificados de forma anônima.
Os dados foram codificados, organizados em planilha do Microsoft Excel com dicionário de códigos, e validados por dupla digitação. A análise será realizada no software SPSS (versão 20.0). Dados contínuos foram analisados por estatísticas descritivas (média, mediana e desvio padrão) e os categóricos por frequências absolutas e relativas.
Aspectos éticos
Para a pesquisa, foi solicitada a dispensa do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) devido à dificuldade de contato pessoal com o grande número de participantes, muitos deles residentes em locais distantes ou que evoluíram para óbito. O estudo seguiu as diretrizes éticas estabelecidas pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi submetido à apreciação dos Comitês de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (CEP/FS/UnB), sob o CAAE 78623924.7.0000.0030, e do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (CEP/IGESDF), sob o CAAE 78623924.7.3001.8153.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No total de 1.526 suspensões cirúrgicas identificadas no período, 400 (26,2%) estavam relacionadas a procedimentos oncológicos, enquanto 1.126 (73,8%) correspondiam a cirurgias não oncológicas. Esse achado revela que pouco mais de um quarto das suspensões envolveu pacientes oncológicos, o que merece destaque, uma vez que o adiamento desses procedimentos pode ter implicações clínicas mais graves em razão da evolução potencialmente rápida da doença e da necessidade de continuidade terapêutica em tempo oportuno.
Tabela 1. Número de suspensões cirúrgicas de acordo com a classificação oncológica. Brasília – DF, 2025.

Considerando as cirurgias oncológicas suspensas por sexo, observa-se que, entre as 678 mulheres avaliadas, 204 (30,1%) tiveram cirurgias suspensas, enquanto 474 (69,9%) não tiveram suspensão. Já entre os 848 homens, 196 (23,1%) tiveram cirurgias oncológicas suspensas. Esses resultados indicam que a proporção de cirurgias oncológicas suspensas foi maior entre as mulheres em comparação aos homens, sugerindo uma diferença de impacto segundo o sexo.
Para os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a idade média foi de 56,4 anos, com desvio padrão de 16,7 anos, indicando ampla variação etária entre os indivíduos. A mediana de 58 anos mostra que metade dos pacientes tinha idade acima e metade abaixo desse valor, sugerindo distribuição relativamente próxima da média. As idades variaram entre 8 e 93 anos, demonstrando que tanto pacientes jovens quanto idosos foram afetados pelas suspensões cirúrgicas.
Para os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a distribuição por raça revelou que a maioria era parda, com 312 indivíduos (78,0%). Seguiram-se os pacientes brancos, com 59 casos (14,8%), e os amarelos, com 14 casos (3,5%). Pacientes pretos representaram 13 casos (3,3%) e 2 pacientes (0,5%) não informaram a raça. Esses dados indicam predominância de pacientes pardos entre aqueles que tiveram cirurgia oncológica suspensa.
Entre os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a grande maioria das cirurgias era eletiva, com 358 casos (89,5%). Cirurgias classificadas como urgência somaram 39 casos (9,8%) e aquelas de emergência representaram apenas 3 casos (0,8%). Esses dados evidenciam que a maior parte das suspensões ocorreu em procedimentos programados, o que reforça a importância de monitorar a organização e a disponibilidade de recursos para cirurgias eletivas oncológicas.
Entre os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a distribuição segundo a classificação porte revelou que 58 pacientes (14,5%) estavam no grupo 1, 233 pacientes (58,3%) no grupo 2 e 109 pacientes (27,3%) no grupo 3. Esses dados indicam que a maioria dos casos suspensos estava concentrada no grupo 2, sugerindo predominância de procedimentos de complexidade intermediária ou risco moderado conforme essa classificação.
Entre os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a classificação segundo o potencial de contaminação cirúrgica mostrou que a maioria dos procedimentos era limpa, com 261 casos (65,3%). Procedimentos classificados como potencialmente contaminados representaram 118 casos (29,5%), enquanto 19 cirurgias (4,8%) foram contaminadas e 2 casos (0,5%) foram infectados. Esses dados indicam que, embora a maioria das cirurgias suspensas fosse de baixo risco de contaminação, um percentual considerável envolvia procedimentos com maior risco potencial, reforçando a necessidade de protocolos rigorosos de assepsia e planejamento.
Entre os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, a distribuição por turno de programação cirúrgica mostrou que 161 cirurgias (40,3%) estavam agendadas para o turno da manhã, 199 cirurgias (49,8%) para o turno da tarde e 40 cirurgias (10,0%) para o turno da noite. Esses dados indicam que a maior parte das suspensões ocorreu em procedimentos programados para o turno da tarde, seguido pelo turno da manhã, enquanto o turno da noite apresentou menor frequência de suspensões.
Entre os pacientes com cirurgia oncológica suspensa, as condições relacionadas à suspensão apresentaram a seguinte distribuição: a maioria dos casos esteve associada ao cirurgião, com 110 registros (27,5%), seguida por registros classificados como outros (ausentes na ficha) com 104 casos (26,0%). Problemas relacionados ao paciente corresponderam a 74 casos (18,5%), enquanto insumos e equipamentos foram responsáveis por 44 suspensões (11,0%) e a falta de leito ou UTI por 33 casos (8,3%). Condições ligadas à enfermagem e à anestesiologia representaram 13 (3,3%) e 11 casos (2,8%), respectivamente, assim como sala e hora, que também somaram 11 casos (2,8%). Esses dados indicam que a maior parte das suspensões cirúrgicas oncológicas esteve relacionada a fatores diretamente ligados à equipe médica e a registros incompletos, seguidos por questões do paciente e de infraestrutura hospitalar.
Tabela 2. Motivos de suspensão cirúrgica detalhada e suas respectivas frequências. Brasília – DF, 2025.


As 400 suspensões cirúrgicas registradas afetaram um total de 340 pacientes. Entre eles, 89 permaneceram hospitalizados aguardando a reprogramação do procedimento.
Com base nos dados, observou-se que, entre os pacientes que permaneceram hospitalizados após a suspensão cirúrgica, o tempo de espera até a nova cirurgia apresentou média de 6,39 dias e mediana de 4 dias, indicando que metade dos pacientes aguardou até quatro dias para reprogramação do procedimento. O tempo mínimo registrado foi de 1 dia e o máximo chegou a 50 dias, revelando grande variação nesse intervalo, refletida também pelo desvio padrão de 6,86.
A Lei Federal nº 12.732/2012 assegura que pessoas com diagnóstico de neoplasia maligna iniciem o tratamento pelo SUS em até 60 dias após a confirmação diagnóstica, reconhecendo o tempo como fator determinante para o prognóstico, entretanto, esse direito esbarra em diversas dificuldades encontradas pelo usuário do SUS. (8)
Considerando que a maioria das doenças oncológicas apresenta caráter invasivo e evolução desfavorável quando não tratadas oportunamente, optou-se por distingui-las das não oncológicas na análise. Mesmo atrasos de poucas semanas podem comprometer as taxas de cura e a sobrevida, tornando o cancelamento de cirurgias um evento de grande relevância clínica. Por esse motivo, os procedimentos oncológicos devem ser priorizados na programação cirúrgica e acompanhados de forma rigorosa, a fim de prevenir desfechos negativos decorrentes da postergação do tratamento. (14)
A literatura reforça a necessidade dessa priorização, ao demonstrar que atrasos no início da terapêutica comprometem diretamente o prognóstico. Um estudo evidenciou3 que atrasos superiores a 60 dias entre diagnóstico e início do tratamento, bem como postergações cirúrgicas superiores a 12 semanas, estão associados a aumento da mortalidade, especialmente em tumores de mama e cólon. (15)
Em consonância, um estudo canadense identificou baixas taxas de cancelamento de cirurgias oncológicas, mas mostrou que, quando ocorrem, estão associadas à espera prolongada, mediana de 41 a 49 dias, além de maior risco de complicações e custos elevados, mesmo em sistemas de saúde com fluxos bem estruturados. (14)
Contudo, esses achados não se aplicam integralmente ao cenário brasileiro. Nas instituições públicas, ainda predominam lacunas na triagem e na organização do fluxo oncológico, dificultando a adequada priorização dos casos urgentes. Esse contexto agrava os efeitos do cancelamento, tanto no desfecho clínico quanto no bem-estar emocional dos pacientes.(15)
Nesse sentido, Netto et al. ressalta que a suspensão de cirurgias em doenças graves, como tumores do sistema nervoso, pode intensificar quadros de ansiedade e depressão. O impacto psicológico, marcado por sentimentos de oscilação entre esperança e frustração, tende a comprometer o engajamento do paciente com o tratamento e a percepção de sua evolução clínica. (16)
Assim, a abordagem dos casos oncológicos deve ir além da urgência médica e considerar também aspectos organizacionais e humanos. Isso inclui revisar protocolos de agendamento, garantir disponibilidade de insumos e leitos e adotar estratégias que reduzam o tempo entre a indicação e a realização da cirurgia. A complexidade desses casos exige, portanto, uma resposta interdisciplinar, alinhada às diretrizes de segurança do paciente e centrada na minimização dos riscos decorrentes de adiamentos. (14)
O cuidado do paciente oncológico deve ser integral, multidimensional e centrado na pessoa, considerando não apenas a patologia, mas todos os aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais que envolvem o paciente. Por isso, é fundamental compreender o perfil desses pacientes para que haja um planejamento estratégico que favoreça o diagnóstico precoce, o início imediato do tratamento e uma resolução favorável do quadro clínico. (17)
Uma das características que mais se repetem nos estudos é que a maior parte dos pacientes com o diagnóstico de câncer estão em uma faixa etária mais avançada, a partir de 50-60 anos ou mais. O estudo de Silva et al, no estado da Paraíba, revelou que grande parte dos pacientes oncológicos são idosos, usuários do (SUS) e em situação de vulnerabilidades socioeconômicas. (18)
Já em outra pesquisa foi analisado que de 119 pacientes utilizados em sua amostra 63,87% eram do sexo feminino; 64,71% tinham mais 60 de anos; 50,85% já estavam em um estágio avançado da doença e o início do tratamento foi de 16-235 dias, com uma média de 64 dias. Porém, o principal ponto demonstrado no artigo está no predomínio de pacientes do sexo feminino e idosos com diagnóstico tardio da doença. (19)
A literatura aponta que o maior desafio enfrentado é o diagnóstico tardio. Grande parte dos pacientes iniciam o tratamento apenas no estágio avançado da doença, o que dificulta ainda mais o processo de cura e aumenta as chances de mortalidade. No Paraná, um estudo revelou que o diagnóstico de câncer gástrico foi dado já no estágio de T3 e T4, o que revela a falha na detecção precoce. Em um estudo realizado no Rio de Janeiro, acontece o mesmo, onde o diagnóstico e o início do tratamento em paciente com linfoma de não Hodkgin acontecem de maneira tardia. (20,21)
Os resultados deste estudo demonstraram que 26,2% das suspensões cirúrgicas estavam relacionadas a procedimentos oncológicos, evidenciando que mais de um quarto das interrupções envolveu pacientes com neoplasias. Essa proporção é expressiva e reforça a gravidade do problema, uma vez que, em doenças oncológicas, o atraso terapêutico pode comprometer significativamente o prognóstico e a sobrevida dos pacientes.
Achados semelhantes foram observados em estudo realizado em um hospital universitário de São Paulo, que identificou taxa de suspensão cirúrgica oncológica de 24,8%, destacando como principais motivos a indisponibilidade de equipe médica e problemas logísticos. Internacionalmente, dados do Canadian Journal of Surgery indicam taxas de cancelamento inferiores (em torno de 8% em oncologia), mas com consequências clínicas importantes, incluindo aumento no tempo médio de espera (41 a 49 dias) e piora dos desfechos pós-operatórios, mesmo em sistemas de saúde bem estruturados. (22,14)
No contexto brasileiro, o impacto das suspensões é amplificado pelas limitações estruturais e pela alta demanda do SUS. Segundo o Painel de Monitoramento do INCA do ano de 2024, cerca de 30% dos pacientes oncológicos iniciam o tratamento além do prazo legal previsto na lei. Isso reflete desafios na coordenação da linha de cuidado oncológica, especialmente na etapa cirúrgica, que depende de múltiplos fatores como disponibilidade de sala, equipe, leitos e insumos. (23)
Em duas pesquisas, as principais causas de suspensão estiveram associadas ao cirurgião (27,5%) e a registros ausentes nos formulários (26%), seguidas por problemas relacionados ao paciente (18,5%) e à falta de insumos e equipamentos (11%). Esses achados se alinham a pesquisas nacionais que apontam causas predominantemente organizacionais e estruturais. Em contrapartida, estudos internacionais indicam predominância de causas clínicas, o que revela diferenças contextuais entre países com diferentes níveis de desenvolvimento e gestão. (24,25,26)
A predominância de cirurgias eletivas (89,5%) entre as suspensas ressalta a importância do planejamento e controle dos fluxos operacionais, especialmente em hospitais públicos de grande porte. De acordo com a OMS, uma parte significativa das suspensões de cirurgias eletivas podem ser evitadas mediante revisão de protocolos pré-operatórios, checklists e estratégias de triagem pré-anestésica. No caso de pacientes oncológicos, o impacto é ainda mais sensível, pois o atraso no tratamento cirúrgico está associado à progressão tumoral e à redução da sobrevida global. (27)
Estudos recentes reforçam essa relação: Leite, Ruhnke e Valejo verificaram que intervalos superiores a 60 dias entre o diagnóstico e a cirurgia aumentam a mortalidade em até 20% em casos de câncer de mama. De modo semelhante, Pecoraro e Fuly observaram média de 64 dias entre diagnóstico e início do tratamento em pacientes oncológicos acompanhados por enfermeiros navegadores, com destaque para idosos e mulheres, perfil compatível com os achados do presente estudo. (15,19)
Além das implicações clínicas, as suspensões cirúrgicas em oncologia têm impactos psicossociais relevantes. Netto et al. descrevem que pacientes com tumores do sistema nervoso apresentaram altos níveis de ansiedade e depressão durante o período de espera pela cirurgia, potencializados pela frustração de cancelamentos sucessivos. O adiamento reforça o sentimento de insegurança, medo da evolução da doença e desconfiança no sistema de saúde, fatores que podem comprometer a adesão ao tratamento e a percepção de qualidade do cuidado. (16)
Nesse sentido, é indispensável adotar estratégias interdisciplinares e centradas no paciente. O fortalecimento da gestão cirúrgica, a integração entre os setores de oncologia, anestesia e enfermagem perioperatória e a criação de fluxos prioritários para casos oncológicos podem reduzir significativamente as suspensões evitáveis. Além disso, a enfermagem perioperatória exerce papel fundamental na triagem pré-cirúrgica, no acolhimento do paciente e na verificação de requisitos clínicos e administrativos, contribuindo diretamente para a segurança e continuidade do cuidado.
LIMITAÇÕES DO ESTUDO
Esta pesquisa apresenta limitações dependentes da precisão e integralidade dos registros em prontuários eletrônicos e formulários de suspensão cirúrgica, o que pode ter resultado em notificações incompletas de motivos ou variáveis significativas. Ademais, a realização do estudo em um único hospital público, impede que haja uma generalização dos achados para outras realidades assistenciais. Adicionalmente, não foi possível avaliar os desfechos clínicos resultantes dos atrasos após a suspensão cirúrgica, o que poderia complementar a análise dos achados.
CONTRIBUIÇÕES PARA A PRÁTICA
Os achados deste estudo demonstram que a suspensão de cirurgias oncológicas não deve ser tratada apenas como uma falha logística, mas como um indicador sensível da qualidade assistencial e da eficiência hospitalar. A redução dessas ocorrências exige não apenas melhorias na infraestrutura, mas também o fortalecimento da cultura de segurança, do planejamento estratégico e da responsabilização compartilhada entre gestores, médicos e equipes de enfermagem. A implementação dessas medidas pode minimizar cancelamentos evitáveis, racionalizar recursos e favorecer o tratamento oportuno, seguro e humanizado para pacientes oncológicos.
CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou que as cirurgias oncológicas representaram uma parcela significativa das suspensões cirúrgicas, correspondendo a 26,2% do total. Esse dado é preocupante, considerando-se que os atrasos no tratamento de pacientes com neoplasias podem impactar negativamente a evolução clínica, reduzir as taxas de cura e comprometer a sobrevida.
Observou-se que a maioria das suspensões ocorreu em procedimentos eletivos, predominantemente no turno vespertino e em cirurgias limpas, o que reforça a importância do planejamento e da organização institucional para otimizar o uso das salas cirúrgicas e evitar cancelamentos. As principais causas de suspensão estavam relacionadas ao cirurgião, à ausência de registros adequados e a problemas ligados aos pacientes e à infraestrutura, o que evidencia a necessidade de ações interdisciplinares para fortalecer a gestão e a comunicação entre as equipes.
Os resultados ressaltam a urgência de estratégias voltadas à priorização dos casos oncológicos, em consonância com a lei. A adoção de protocolos específicos para cirurgias oncológicas, a ampliação de leitos de UTI e o aprimoramento do agendamento cirúrgico que podem reduzir o número de suspensões e, consequentemente, minimizar os impactos clínicos e emocionais.
Dessa forma, conclui-se que a suspensão de cirurgias oncológicas não deve ser tratada apenas como um problema administrativo, mas como um importante indicador de qualidade assistencial e de segurança do paciente. O fortalecimento da gestão cirúrgica e o compromisso institucional com a continuidade terapêutica são fundamentais para garantir um cuidado integral, oportuno e humanizado às pessoas em tratamento oncológico.
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1Enfermeira, Residente de Enfermagem em Centro Cirúrgico, Escola de Saúde pública do Distrito Federal ESPDF, Brasília-DF, Brasil, (carlacastromiranda92@gmail.com).
2Enfermeira, Residente de Enfermagem em Centro Cirúrgico, Escola de Saúde pública do Distrito Federal ESPDF, Brasília-DF, Brasil, ( leidesara6@gmail.com).
3Enfermeiro. Mestre em enfermagem. Coorientador, Consultor Técnico do Ministério da Saúde. Brasília, Distrito Federal, Brasil, (jvitordamota@gmail.com).
4Enfermeira, Mestre em enfermagem. Orientadora, Tutora do Programa de Residência Uniprofissional de Enfermagem em Centro Cirúrgico da Escola de Saúde pública do Distrito Federal ESPDF. Brasília, Distrito Federal, Brasil, (alexandra.lino2@gmail.com).
