PHARMACOLOGICAL ADVANCES IN OBESITY TREATMENT: EFFICACY, SAFETY, AND FUTURE DIRECTIONS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202511140155
Bruna Lim Mariani¹; Filipe Pinheiro Santana¹; Isabela de Carvalho Soares¹; Geovana Lavinia dos Santos Leite¹; Ana Beatriz Oliveira Rocha¹; Ana Cristina Sperandio Sabino¹; Thiago Cunha Araujo¹; Maria Eduarda Borges Holanda¹; Ciro Brasil Campos¹; Thayse Lassance de Souza².
Resumo
Este estudo investiga os avanços farmacológicos no tratamento da obesidade, com ênfase na eficácia e segurança dos agonistas dos receptores de incretinas. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura de natureza exploratória, descritiva, analítica e comparativa, utilizando abordagem mista para análise de dados extraídos de estudos selecionados. A metodologia empregou a busca sistemática em bases de dados eletrônicos reconhecidos (PubMed/MEDLINE, SciELO, Scopus, ClinicalTrials.gov) utilizando descritores MeSH específicos, com seleção de ensaios clínicos avaliados de fase 3, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos observacionais publicados entre 2020 e 2024. O processo de seleção rigorosa as diretrizes PRISMA, resultando em amostra final de quatro artigos fundamentais que avaliaram semaglutida e tirzepatida em adultos com excesso de peso ou obesidade. Os resultados demonstram que a semaglutida proporcionou redução ponderal média de 14,9% nos estudos STEP, enquanto a tirzepatida distribuída nova referência de eficácia com reduções de até 20,9% nos estudos SURMOUNT, superando significativamente outros tratamentos farmacológicos disponíveis. Uma análise evidenciou que estes medicamentos transcendem os benefícios na redução ponderal, demonstrando impactos cardiovasculares relevantes, com a semaglutida reduzida em 20% o risco de eventos cardiovasculares adversos maiores em pacientes com doença cardiovascular causada. O estudo conclui que os agonistas dos receptores de incretinas representam uma revolução paradigmática no tratamento farmacológico da obesidade, posicionando-se como intervenções cardioprotetoras em população de alto risco. No entanto, ainda permanecem em investigação aspectos como a otimização dos critérios de seleção de pacientes, estratégias de personalização terapêutica e sustentabilidade econômica.
Palavras-chave: Obesidade. semaglutida. Tirzepatida. Agonistas GLP-1. Tratamento farmacológico.
1 INTRODUÇÃO
A obesidade constituiu uma das mais relevantes crises de saúde pública do século XXI, com proporções epidêmicas que afetam mais de 1 bilhão de pessoas globalmente e representam um dos principais fatores de risco modificáveis para múltiplas doenças crônicas não transmissíveis (JANIĆ et al., 2025). Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2024 estima-se que até 2035 mais de 1,77 bilhão de pessoas estarão com sobrepeso e 1,53 bilhão viverão com obesidade. Isso representará aproximadamente 54% da população adulta global (JANIĆ et al., 2025). No contexto brasileiro, projeções do estudo de NG et al. (2025) indicam que 75% dos adultos terão sobrepeso ou obesidade até 2044, sendo 48% com obesidade propriamente dita (NG et al., 2025).
O impacto da obesidade extrapola a esfera individual, configurando-se como um problema socioeconômico de magnitude. Indivíduos com obesidade apresentam custos diretos de saúde até 30% superiores, principalmente devido ao tratamento de comorbidades cardiovasculares (38%), diabetes tipo 2 (34%) e outras condições metabólicas (BUENO et al., 2017; FATOYE et al., 2025). A análise de dados de 6,9 milhões de indivíduos revelou que a prevalência de comorbidades em pessoas com obesidade é significativamente elevada, incluindo hipertensão (29-89%), dislipidemia (28-88%) e depressão/ansiedade (38-44%), dependendo da faixa etária (BAE et al., 2025).
Tradicionalmente, o manejo da obesidade baseava-se primariamente em intervenções comportamentais, como modificação dietética, atividade física e suporte psicológico. Contudo, tais estrategias isoladas demonstram baixa capacidade de promover perda ponderal clinicamente significativas a longo prazo, com 95% dos pacientes recuperando o peso perdido em cinco anos (TCHANG et al., 2021). Esta limitação terapêutica levou ao reconhecimento da necessidade de tratamentos farmacológicos que abordem os mecanismos fisiopatológicos subjacentes à obesidade, particularmente as desregulações neuro-hormonais que favorecem o ganho e a manutenção do peso corporal elevado (PEDERSEN et al., 2025).
O desenvolvimento de agonistas dos receptores de incretinas representou uma revolução paradigmática no tratamento farmacológico da obesidade. A semaglutida, um análogo do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1) de longa duração, demonstrou eficácia sem precedentes nos estudos STEP, proporcionando redução ponderal média de 14,9% comparada a 2,4% com placebo, com 86,4% dos participantes alcançando perda de peso ≥5% (WILDING et al., 2021). Mais recentemente, a tirzepatida, primeiro agonista dual dos receptores GLP-1 e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose), estabeleceu nova referência de eficácia, demonstrando reduções ponderais de até 20,9% nos estudos SURMOUNT, superando significativamente outros tratamentos farmacológicos disponíveis (JASTREBOFF et al., 2022; GARVEY et al., 2023).
Além da expressiva redução ponderal, evidências recentes apontam benefícios cardiovasculares relevantes, um avanço especialmente significativo, dado que intervenções farmacológicas anteriores raramente demonstram impacto consistente nos desfechos clínicos. O estudo SELECT, envolvendo 17.604 pacientes com doença cardiovascular estabelecida, sobrepeso ou obesidade sem diabetes, revelou que a semaglutida reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares adversos maiores, incluindo morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal e acidente vascular cerebral não fatal (LINCOFF et al., 2023; RYAN et al., 2024). Esta evidência expandiu significativamente o potencial terapêutico destes agentes, posicionando-os não apenas como tratamentos para obesidade, mas como intervenções cardioprotetoras em populações de alto risco.
O cenário terapêutico da obesidade no Brasil passou por transformações significativas com a aprovação regulatória destes novos agentes pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e o desenvolvimento de produção nacional. A entrada da primeira farmacêutica brasileira, EMS, na produção de análogos de GLP-1 representa marco histórico na democratização do acesso a estas terapias inovadoras, prometendo redução de custos e maior disponibilidade no mercado nacional. Diretrizes nacionais atualizadas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) incorporaram estes medicamentos como opções terapêuticas de primeira linha para pacientes com indicações apropriadas.
Apesar dos avanços terapêuticos promissores, diversas questões permanecem em investigação, incluindo otimização de critérios de seleção de pacientes, estratégias de personalização terapêutica, manejo de efeitos adversos e sustentabilidade econômica do tratamento a longo prazo. A heterogeneidade na resposta terapêutica, variando de não responsividade a perdas ponderais superiores a 25%, sugere a necessidade de biomarcadores preditivos e abordagens individualizadas (CHAKHTOURA et al., 2023). Adicionalmente, o desenvolvimento de agonistas triplos (GLP-1/GIP/glucagon) e formulações orais promete expandir ainda mais o arsenal terapêutico disponível.
Diante da relevância epidemiológica e do potencial transformador desses agentes, torna-se essencial sintetizar as evidências mais recentes sobre sua eficácia, segurança e posicionamento terapêutico, com foco em implicações clínicas e perspectivas futuras. Além disso, é de relevância significativa identificar lacunas no conhecimento atual e perspectivas futuras que possam orientar a prática clínica e políticas públicas de saúde no enfrentamento da epidemia de obesidade.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A obesidade é classificada como uma doença crônica e de origem multifatorial associada a complicações metabólicas e cardiovasculares significativas. Embora mudanças no estilo de vida sejam essenciais, elas raramente garantem perda de peso sustentada e manutenção metabólica, o que urgiu a necessidade de desenvolvimento de terapias farmacológicas mais eficazes (BERGMANN et al., 2023). Dentre elas, destacam-se os agonistas de incretina, especialmente os que atuam sobre os receptores GLP-1 e GIP, que modificaram de forma expressiva o tratamento da obesidade.
A semaglutida, análogo de GLP-1 de longa duração, demonstrou elevada eficácia em diversos estudos. No programa STEP, reduziu o peso corporal em 14% a 17% em 68 semanas e manteve perdas médias de 15,2% após dois anos (BERGMANN et al., 2023; GARVEY et al., 2022). A meta-análise de Tan et al. (2022) confirmou redução média de 11,85%, embora com maior incidência de efeitos gastrointestinais leves. Assim, a semaglutida consolidou-se como um tratamento eficaz e seguro, ainda que com limitações de tolerabilidade.
Mais recentemente, a tirzepatida, primeiro agonista dual dos receptores GLP-1 e GIP, ampliou o potencial terapêutico. Segundo Hamza et al. (2025), os estudos do programa SURMOUNT registraram reduções ponderais de 16% a 22,5%, superiores às da semaglutida, além de melhorias metabólicas e cardiovasculares relevantes. De modo consistente, Rodriguez et al. (2024) observaram que a tirzepatida promoveu perdas de peso significativamente maiores — diferença média de 6,9% após 12 meses — com perfil de segurança semelhante.
Dessa forma, os estudos indicam que, enquanto a semaglutida representa um marco na farmacoterapia da obesidade, a tirzepatida estabelece um novo padrão de eficácia. Ambas demonstram benefícios metabólicos duradouros e segurança aceitável, ainda que persistam desafios relacionados à adesão, custo e manutenção da perda ponderal a longo prazo.
3 METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa de natureza básica, com objetivos exploratórios, descritivos, analíticos e comparativos, realizada por meio de um delineamento bibliográfico, documental e de revisão integrativa da literatura. A abordagem do problema é de natureza mista, utilizando-se tanto da análise qualitativa quanto quantitativa dos dados extraídos dos estudos selecionados.
3.1 População e Amostragem
O universo da pesquisa compreendeu a produção científica indexada em bases de dados nacionais e internacionais de relevância na área da saúde. A amostragem foi do tipo não probabilística e intencional, selecionando-se estudos que atenderam rigorosamente aos critérios de elegibilidade preestabelecidos.
3.2 Critérios de Elegibilidade
Critérios de Inclusão: Ensaios clínicos randomizados de fase 3, revisões sistemáticas, meta-análises e estudos observacionais publicados entre 2020 e 2024, nos idiomas português ou inglês, que avaliaram o uso de semaglutida ou tirzepatida em adultos com sobrepeso ou obesidade
Critérios de Exclusão: Artigos de opinião, cartas ao editor, estudos de caso, revisões narrativas não sistemáticas, estudos pré-clínicos, teses e dissertações não publicadas em periódicos, e estudos cujo texto completo não estava disponível
3.3 Instrumentos e Procedimentos para Coleta de Dados
A estratégia de busca foi realizada em bases de dados eletrônicas de amplo reconhecimento na área médica, incluindo PubMed/MEDLINE, SciELO, Scopus, ClinicalTrials.gov, utilizando descritores MeSH (Medical Subject Headings) e palavras-chave relacionadas à temática. Os principais descritores MeSH utilizados foram: “Obesity”, “Overweight”, “Semaglutide”, “Tirzepatide” [Supplementary Concept], “Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists”, “Weight Loss”, “Anti-Obesity Agents”, “Clinical Trials as Topic”.
A estratégia de busca combinou estes descritores com operadores booleanos “AND” e “OR”. Um exemplo de estratégia para a base PubMed foi: (“Obesity”[Mesh] OR “Overweight”[Mesh]) AND (“Semaglutide”[Mesh] OR “Tirzepatide”[Supplementary Concept] OR “Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists”[Mesh]) AND (“Weight Loss”[Mesh] OR “Anti-Obesity Agents”[Mesh]) AND (“Clinical Trial”[ptyp] OR “Randomized Controlled Trial”[ptyp] OR “Review”[ptyp])
O processo de seleção dos estudos seguiu as etapas recomendadas pelo método PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses):
Identificação: Busca inicial nas bases de dados utilizando os descritores MeSH
Triagem: Remoção de duplicatas e triagem por título e resumo
Elegibilidade: Leitura na íntegra dos artigos pré-selecionados
Inclusão: Estudos que atenderam a todos os critérios foram incluídos para análise
A amostra final foi composta por quatro artigos fundamentais:
Garvey et al. (2022) – Nature Medicine: Ensaio STEP 5 com semaglutida 2,4 mg por 104 semanas (indexado no PubMed/NCT03693430)
Hamza et al. (2025) – Expert Opinion on Pharmacotherapy: Revisão abrangente do programa SURMOUNT com tirzepatida
Rodriguez et al. (2024) – JAMA Internal Medicine: Estudo de coorte retrospectivo comparando tirzepatida e semaglutida utilizando dados de prontuários eletrônicos
Bergmann et al. (2023) – Diabetes, Obesity and Metabolism: Revisão do programa STEP com semaglutida
A análise dos dados foi conduzida por meio de síntese narrativa, temática e comparativa. Os achados foram agrupados em categorias analíticas predefinidas: “Eficácia Sustentada a Longo Prazo”, “Comparação Direta entre Fármacos”, “Perfil de Segurança e Tolerabilidade” e “Impacto em Comorbidades e Parâmetros Cardiometabólicos”. Esta abordagem permitiu contrastar evidências de ensaios clínicos controlados com dados de estudos do mundo real, proporcionando uma visão abrangente e atualizada do tema.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1 Eficácia dos Agentes Farmacológicos de Nova Geração
Os agonistas do receptor de GLP-1, como a Semaglutida, são a classe mais recente de medicamentos aprovados para o tratamento da obesidade (RYAN, D. H. et al., 2024). A semaglutida 2.4 mg subcutânea uma vez por semana tem sido extensivamente avaliada no programa de ensaios clínicos Semaglutide Treatment Effect in People with Obesity (STEP) (Bergmann N. C., 2022).
Semaglutida (Agonista do Receptor de GLP-1)
| Ensaio (Duração) | População | Perda Média de Peso (Diferença vs. Placebo) | Proporção Participantes Perderam ≥5% |
| STEP 1 (68 semanas) | Obesidade/Sobrepeso sem DM2 | –14,9% vs. –2,4% (Diferença: –12,4 pp) | 86,4% vs. 31,5% |
| STEP 5 (104 semanas) | Obesidade/Sobrepeso sem DM2 | –15,2% vs. –2,6% (Diferença: –12,6 pp) | 77,1% vs. 34,4% |
Os resultados do programa STEP demonstram uma eficácia robusta e sustentada da semaglutida em adultos com sobrepeso ou obesidade, sem DM2: (Garvey W. T., 2022; WILDING, J. P. H. et al., 2021; CHAKHTOURA, M. et al, 2023)
Em uma meta-análise de 4 ensaios clínicos randomizados (ECRs) envolvendo indivíduos com obesidade sem DM2, a diferença média na redução de peso foi de –11,85% a favor da semaglutida (IC95% [-12,81, -10,90]) (Tan H. C. et al, 2022);. No STEP 1, 50,5% dos participantes tratados com semaglutida alcançaram uma perda de peso igual ou superior a 15% ou mais, em comparação com 4,9% no grupo placebo.(WILDING, J. P. H. et al., 2021)
Tirzepatida (Agonista Dual GIP/GLP-1)
A Tirzepatida é um agonista duplo do polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) e do receptor GLP-1 (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022). A hipótese é que a combinação do agonismo de GIP e GLP-1 pode levar a uma eficácia ainda maior na redução de peso. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022)
Os resultados do ensaio de fase 3 SURMOUNT-1 (72 semanas, sem DM2) demonstraram perdas de peso notavelmente elevadas (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022; Hamza M. et al, 2025):
- Dose de 5 mg: –15,0% de perda média de peso.
- Dose de 10 mg: –19,5% de perda média de peso.
- Dose de 15 mg: –20,9% de perda média de peso, em comparação com –3,1% no grupo placebo.
No SURMOUNT-1, uma proporção significativa dos participantes alcançou perdas de peso clinicamente transformadoras: 50% e 57% dos participantes nos grupos de 10 mg e 15 mg, respectivamente, obtiveram uma redução de peso corporal de 20% ou mais. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022);
Comparação Direta e Indireta (Semaglutida vs. Tirzepatida)
Embora ensaios comparativos diretos focados apenas em obesidade sem DM2 sejam limitados nas fontes, um estudo de coorte do mundo real que comparou tirzepatida e semaglutida em adultos com sobrepeso/obesidade (com e sem DM2) (n = 41.222) relatou que o uso de tirzepatida foi associado a uma perda de peso significativamente maior do que a semaglutida. (Patricia J. Rodriguez P. J., 2024)
Além disso, outro estudo fez uma comparação indireta entre semaglutida 2.4 mg e tirzepatida (10 mg e 15 mg) na qual se sugere que as doses mais altas de tirzepatida são mais eficazes para o tratamento da obesidade. (Hamza M. et al, 2025)
4.2 Segurança e Perfil de Eventos Adversos
Os medicamentos antiobesidade mais recentes, embora eficazes, têm perfis de segurança que precisam ser gerenciados, especialmente os eventos gastrointestinais (GI).
Eventos Gastrointestinais
Tanto para a semaglutida quanto para a tirzepatida, os eventos adversos mais comuns são gastrointestinais, tipicamente náuseas, diarreia e vômitos. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022; WILDING, J. P. H. et al., 2021);
- Semaglutida: No STEP 1, distúrbios GI ocorreram em 74,2% dos participantes com semaglutida versus 47,9% com placebo. Esses eventos são geralmente transitórios e de intensidade leve a moderada, e tendem a diminuir com o tempo. (WILDING, J. P.
- H. et al., 2021)
- Tirzepatida: Os eventos GI foram os mais comuns no SURMOUNT-1, ocorrendo predominantemente durante o período de escalada da dose. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022);
Descontinuação e Eventos Adversos Graves
A descontinuação do tratamento devido a eventos adversos é mais frequente nos grupos de tratamento ativo:
- Semaglutida: O risco de eventos GI adversos foi 1,59 vezes maior, e o risco de descontinuação devido a efeitos adversos foi duas vezes mais provável com semaglutida versus placebo. A descontinuação devido a eventos GI foi de 4,5% no grupo semaglutida no STEP 1, em comparação com 0,8% no grupo placebo. Os eventos adversos graves foram 1,6 vezes mais prováveis com semaglutida, sendo a maioria distúrbios gastrointestinais e hepatobiliares, como pancreatite aguda e colelitíase. (Tan H. C. et al, 2022); (WILDING, J. P. H. et al., 2021)
- Tirzepatida: As taxas de descontinuação devido a AEs no SURMOUNT-1 foram de 4,3% (5 mg), 7,1% (10 mg) e 6,2% (15 mg), em comparação com 2,6% no grupo placebo. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022)
É importante notar que, em ensaios de segurança cardiovascular (como o SELECT), eventos como colelitíase e pancreatite foram relatados, embora as incidências fossem baixas (≤0,6%) para eventos graves relacionados à vesícula biliar no SURMOUNT-1. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022)
4.3 Benefícios Cardiometabólicos e na Morbidade
A perda de peso clinicamente significativa alcançada com os novos agentes farmacológicos resulta em melhorias importantes nas complicações relacionadas à obesidade. (PEDERSEN, S. D. et al., 2025)
Fatores de Risco Cardiometabólico
A semaglutida e a tirzepatida demonstraram melhora consistente em vários fatores de risco cardiometabólico. No STEP 1, a semaglutida foi associada a reduções na circunferência da cintura, pressão arterial, níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) e lipídios, bem como a uma maior redução da proteína C reativa (um marcador de inflamação). (WILDING, J. P. H. et al., 2021) A tirzepatida no SURMOUNT-1 também demonstrou melhorias em todas as medidas cardiometabólicas pré-especificadas. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022)
Resultados Cardiovasculares (SELECT Trial)
Historicamente, a falta de evidências de que intervenções farmacológicas para obesidade melhoram os desfechos cardiovasculares tem sido uma limitação. (LINCOFF, A. M. et al, 2023) O estudo SELECT (Semaglutide Effects on Cardiovascular Outcomes in People with Overweight or Obesity) foi o primeiro ensaio clínico desenhado para explorar a superioridade de um GLP-1 RA de ação prolongada (semaglutida 2.4 mg) versus placebo na redução de eventos cardiovasculares em pacientes com DCV estabelecida e sobrepeso ou obesidade, mas sem DM2. (RYAN, D. H. et al., 2024; PEDERSEN, S. D. et al., 2025)
O SELECT demonstrou que a semaglutida 2.4 mg s.c., em combinação com recomendações de estilo de vida, foi superior ao placebo na redução da incidência de um desfecho composto de morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal, com um seguimento médio de 39,8 meses. Esta redução no risco cardiovascular é consistente com a emergência precoce da diferença de incidência observada no ensaio, sugerindo que podem existir mudanças fisiológicas induzidas pelo tratamento, além da magnitude da perda de peso (média de 9,4% neste estudo). (LINCOFF, A. M. et al, 2023)
Outras Comorbidades Específicas
As evidências sugerem benefícios adicionais para condições específicas relacionadas à adiposidade como a apneia obstrutiva do sono, insuficiência cardíaca, doença hepática esteatótica e osteoartrite. (PEDERSEN, S. D. et al., 2025; Bergmann N. C., 2022; (Hamza M. et al, 2025)
4.4 Perspectivas Futuras
A farmacoterapia para obesidade deve ser entendida como um tratamento de longo prazo (TCHANG, B. G. et al., 2021; PEDERSEN, S. D. et al., 2025). Ensaios clínicos demonstram consistentemente que a interrupção do tratamento resulta na recuperação de peso e na perda ou regressão dos benefícios de saúde, mesmo com a manutenção das mudanças de comportamento saudáveis. (JASTREBOFF, A. M. et al., 2022; Hamza M. et al, 2025; PEDERSEN, S. D. et al., 2025)
Medicamentos em Desenvolvimento
O cenário farmacológico sobre o tratamento da obesidade ainda se expande exponencialmente. Dessa forma, novos medicamentos como a Retatrutida (agonista triplo de GLP-1, GIP e glucagon) e Orforglipron (um GLP-1 RA oral de pequena molécula) estão em desenvolvimento visando uma maior eficácia na perda de peso, maior acessibilidade e redução dos efeitos adversos. Outra estratégia recente é a combinação de medicamentos com mecanismos de ação complementares, como a semaglutida 2.4 mg com cagrilintida (um análogo da amilina) que alcançaram 15% de perda de peso em um ensaio de fase 2. (TCHANG, B. G. et al., 2021)
Lacunas e Desafios (Discussão)
Apesar dos avanços na eficácia, persistem importantes lacunas no conhecimento. Dados de resultados a longo prazo ainda são limitados. Embora o estudo SELECT forneça dados cruciais sobre desfechos cardiovasculares para a semaglutida (LINCOFF, A. M. et al., 2023), há uma necessidade urgente de mais ensaios de longo prazo que demonstrem o impacto da farmacoterapia da obesidade na mortalidade por todas as causas e na mortalidade cardiovascular para a maioria dos agentes (CHAKHTOURA, M. et al., 2023). Também é necessária maior exploração sobre a qualidade da perda de peso induzida por medicamentos, especificamente a proporção entre massa magra e gordura perdida, bem como o impacto na força e na função muscular (GARVEY, W. T., 2022; PEDERSEN, S. D. et al., 2025). Além disso, mais evidências são necessárias para orientar o uso da terapia combinada, com o objetivo de abordar a etiologia multifatorial da obesidade (PEDERSEN, S. D. et al., 2025).
Faltam ainda evidências sobre o potencial benefício da farmacoterapia em subpopulações específicas, como aquelas com síndrome do ovário policístico, doença renal crônica e depressão (PEDERSEN, S. D. et al., 2025; CHAKHTOURA, M. et al., 2023). A resposta à medicação é variável, e a medicina de precisão pode representar o futuro nesse campo, com uma abordagem personalizada baseada no perfil do paciente, incluindo aspectos genéticos e epigenéticos para otimizar a seleção do medicamento (CHAKHTOURA, M. et al., 2023).
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sendo assim, os resultados obtidos demonstram que a pesquisa confirma que os medicamentos semaglutida e tirzepatida têm eficácia significativa no tratamento da obesidade, tanto na redução ponderal quanto na melhoria dos parâmetros metabólicos e cardiovasculares. O uso de semaglutida demonstrou uma redução ponderal média de 14,9%, enquanto o de tirzepatida alcançou até 20,9% de perda de peso, superando outros tratamentos disponíveis no mercado. Além disso, ambos demostraram benefícios no controle de comorbidades associadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e dislipidemia, e na redução do risco de eventos cardiovasculares adversos. Essas evidências reforçam a escolha desses fármacos como opções terapêuticas de primeira linha no manejo da obesidade, especialmente em pacientes com comorbidades associadas.
Os objetivos da pesquisa foram atingidos, onde a análise comparativa da eficácia e segurança desses dois medicamentos, além da identificação de seus impactos além da perda de peso, como os efeitos cardiovasculares e metabólicos. As evidências corroboram a hipótese de que esses tratamentos não só oferecem uma solução eficaz para a redução de peso, mas também podem desempenhar um papel importante na prevenção de doenças crônicas relacionadas à obesidade. No entanto, as limitações identificadas, como a necessidade de um acompanhamento a longo prazo para avaliar os efeitos de forma prolongada e a resposta individualizada dos pacientes, indicam que a personalização do tratamento de forma individual ainda é um desafio de grande importância.
A pesquisa também destaca que, embora esses medicamentos ofereçam avanços significativos no tratamento da obesidade, ainda há questões em aberto, como a otimização dos critérios de seleção de pacientes e a gestão de possíveis efeitos adversos. Além disso, o alto custo desses medicamentos pode ser um obstáculo que precisa ser considerado antes de sua adoção em larga escala, especialmente em países em desenvolvimento como o Brasil. A aprovação da produção nacional de análogos de GLP-1, como a semaglutida, representa um avanço importante para a democratização do acesso a essas terapias, mas ainda é necessário monitorar a viabilidade econômica desses tratamentos a longo prazo.
Em termos teóricos, o trabalho contribui para o entendimento do papel dos agonistas de GLP-1 no tratamento da obesidade, além de lançar luz sobre a relação entre obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, especialmente no contexto brasileiro. A pesquisa prática oferece implicações diretas para a prática clínica e as políticas públicas de saúde, sugerindo que as terapias farmacológicas possam ser incorporadas de forma mais ampla nas estratégias de manejo da obesidade. Para estudos futuros, recomenda-se a exploração de terapias combinadas que integrem medicamentos, intervenções comportamentais e mudanças no estilo de vida, além da identificação de biomarcadores que possam prever a resposta ao tratamento, garantindo uma abordagem mais personalizada e eficaz.
REFERÊNCIAS
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¹Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto UniCEUB Campus Asa Norte. E-mail: bruna.lim@sempreceub.com;
²Docente do Curso Superior de Medicina do UniCEUB – Brasília. E-mail: thayselassance@gmail.com.
