AVALIAÇÃO E CONTRIBUIÇÃO DO FOOD MILES DA MANGA: DO CAMPO AO CONSUMIDOR  

 EVALUATION AND CONTRIBUTION OF MANGO FOOD MILES: FROM THE FIELD TO THE CONSUMER

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202509100916


Riany Dias Pinheiro Cordeiro1
Acácio Figuêiredo Neto2


RESUMO 

A Mangifera indica L., pertencente à família Anacardiaceae, originária da Índia, encontrou  no Vale do São Francisco condições ideais de clima, solo e disponibilidade de água para  sua produção, ocupando assim posição de destaque em tamanho de área implantada e  em volume de produção e exportação da fruta no cenário brasileiro. Assim, em  consonância com o conceito de food miles, distância que o alimento percorre do campo ao consumidor, estudamos o percurso da manga para as variedades Tommy Atkins,  Palmer e Keitt, na cadeia de comercialização para abastecimento ao mercado interno,  com origem no Vale do São Francisco. Definimos o fluxo, os agentes participantes,  mapeamos o trajeto do campo ao consumidor quantificando o conceito de food miles individualizado por variedade. Para a variedade Tommy Atkins, Palmer e Keitt, foram  atribuídos o food miles, respectivamente, de 2.431 km, 2.428 km e 598 km, o que implica  em um longo trajeto, principalmente pelo grande tamanho territorial do país e a distância  para os nichos de mercado consumidor mais “exigente”. O estudo possibilitou também  o cálculo da emissão CO2 queimado pelo combustível fóssil na utilização de transporte  rodoviário dessa cadeia. Utilizando a fórmula de DEFRA, obtivemos o cálculo de  emissão de CO2, para a variedade Tommy Atkins foi 2.293,72 kg CO2equação, na  variedade Palmer foi 2.290,89 kgCO2equação e 564 kgCO2equação para a variedade  Keitt. Assim, o conceito de food miles mostra-se uma excelente ferramenta para o estudo  do fluxo da cadeia de comercialização, a fim de conhecer, analisar e promover práticas  mais sustentáveis na produção e distribuição de alimentos, beneficiando tanto o meio  ambiente quanto a sociedade como um todo.  

Palavras-chave: Vale do São Francisco, Sustentabilidade, Comercialização. 

ABSTRACT

Mangifera indica L., belonging to the Anacardiacea family, originally from India, found  ideal climate, soil and water availability conditions for its production in the São Francisco  Valley, thus occupying a prominent position in terms of area size and production volume.  and export of the fruit in the Brazilian scenario. In line with the concept of food miles, the  distance that food travels from the field to the consumer, we studied the route of the  mango for the Tommy Atkins, Palmer and Keitt varieties, in the commercialization chain  to supply the domestic market, originating in the São Francisco Valley. We defined the  flow, the participating agents, we map the path from the field to the consumer, quantifying  the concept of food miles individualized by variety. For the Tommy Atkins, Palmer and  Keitt variety, food miles were allocated, respectively, of 2.431 km, 2.428 km and 598 km,  which implies a long journey, mainly due to the large territorial size of the country and the  distance to the food niches more “demanding” consumer market. This also made it  possible to calculate the CO2 emissions burned by fossil fuel when using road transport  in this chain. Using the DEFRA formula, we obtained the CO2 emission calculation,  Tommy Atkins 2.293,72 kgCO2equation, Palmer 2.290,89 kgCO2equation and Keitt 564  kgCO2equation. Thus, the concept of food miles can be a good tool for studying the entire  flow of the marketing chain, in order to understand, analyze and adjust, contributing to  improvements in the environmental, nutritional, social and financial efficiency of the entire  chain.  

Keywords: São Francisco Valley, Sustainability, Commercialization. 

AVALIAÇÃO E CONTRIBUIÇÃO DO FOOD MILES DA MANGA: DO CAMPO AO  CONSUMIDOR  

1. INTRODUÇÃO 

A mangicultura é uma atividade de destaque no cenário econômico brasileiro,  sobretudo na região do Vale do São Francisco, que devido as condições de solo, clima  e disponibilidade de água, torna-se possível escalonar a produção de frutas durante  todos os meses do ano, abastecendo tanto o mercado interno como parcela significativa  na exportação in natura. Destacamos que nos dados de exportação, a região contribuiu  com 87 % da fruta exportada no ano de 2020 (ABRAFRUTAS, 2021). Sendo que a  grande parcela da produção é comercializada no mercado interno. 

Conforme dados do Anuário Brasileiro da Fruticultura (2022), a região do Vale do  São Francisco apresenta-se como grande polo de cultivo de qualidade de mangas que,  mesmo em tempos de pandemia, alcançou o mais alto ranking de exportação de frutas.  No ano de 2021, devido à cotação da moeda, a exportação não teve aumento expressivo  em termos de valores, entretanto, a produção atingiu 272.560.167 kg, enquanto em 2020  haviam sido 243.225.863 kg. Isso se deve, principalmente, à alta tecnologia que os  perímetros irrigados utilizam na produção da manga, o que gera alta produtividade e  excelente qualidade, atendendo até os mais exigentes mercados como EUA e Europa. 

No Vale do São Francisco, estima-se que 50% da área colhida seja da variedade  Palmer, 30% da Tommy Atkins e 20% de Keitt, Kent, Haden, Rosa e outras (Lima, 2021).  Além disso, na região, 52% são pequenos produtores que contribuem com 14% da  produção nacional.  

Dentro desse cenário, entre os gargalos que dificultam e/ou aumentam os custos de  produção da manga, a logística envolvendo o escoamento ocupa lugar de destaque. Os  modais utilizados no transporte da fruta produzida no Vale do São Francisco precisam  ser analisados para que os problemas envolvendo essa fase da cadeia produtiva sejam  discutidos e solucionados, diminuindo as distâncias entre ponto de origem do produto e  destino e, consequentemente, melhorando a qualidade das frutas no destino final e  aumentando a lucratividade para os produtores.  

Um conceito de distância entre o local de produção e o destino final, “Food Miles”  (quilômetros de alimentos), está sendo bastante discutido no mundo desde 1990,  quando o professor Tim Lang apresentou o termo no Sustainable Agriculture Food and  Environment (SAFE) Alliance, no Reino Unido. Entretanto, alguns estudiosos associam  as grandes distâncias percorridas pelo alimento à preocupação com a segurança  alimentar, bem como incentivos a agricultura local, a valorização cultural, associado à  preservação ambiental, pois uma vez que consumimos alimentos que apresentam uma  grande distância percorrida, considera-se uma maior emissão de gases de efeito estufa  no transporte concordam que o conceito não pode ser considerado como único indicador  ambiental. (AZEVEDO, 2015). Embora o conceito não possa ser considerado como único  indicador ambiental, é importante estudo e melhor compreensão, a fim de estabelecer  estratégias na gestão de alimentos com objetivo de reduzir os impactos climáticos. Li et  al. (2022)  

O consumo de frutas, legumes e verduras frescos vem crescendo em todo o  mundo, em decorrência de seus benefícios numa alimentação saudável em  contrapartida de um grande número crescente da população de obesos que apresentam  problemas nutricionais. Segundo dados da Agência Brasil (2022), existe uma projeção de que no ano de 2030, 68% da população brasileira pode estar com excesso de peso, ou  seja, sete em cada dez pessoas, o que eleva a preocupação com o aumento dos riscos  associados a Doenças Crônicas Não Transmissíveis.  

O mercado interno brasileiro da manga apresenta grande volume de  comercialização, sendo que 61% da fruta produzida no Vale do São Francisco são  realizadas pelo Mercado de Produtor de Juazeiro na cidade de Juazeiro – BA. Ainda nessa etapa de transporte podemos observar perdas de até 16,67%, considerando as  condições de manuseio, embalagens e acondicionamento inadequado, o que ainda  compromete mais as distâncias (MACHADO; CARVALHO; FIGUEIRÊDO NETO, 2017).  

Os números de produtividade de manga na região do Vale São Francisco são  superiores à média nacional, o que demonstra a excelente capacidade produtiva da  região, ficando como um dos grandes gargalos na cadeia da produção nas etapas pós colheita. Assim, é proposto nesta pesquisa estudar a logística do transporte da manga  com foco no mercado interno, a fim de conhecer, mapear e identificar as possibilidades  de melhoria nesse fluxo, bem como avaliar a distância percorrida durante o transporte  da manga do campo à mesa do consumidor em consonância com o conceito de food  miles na região do Vale do São Francisco e atribuir valor estimado ao cálculo do CO2 emitido pela queima de combustível fóssil utilizado nesse trajeto.  

2. MATERIAL E MÉTODOS  

Esta pesquisa é de natureza básica, com abordagem mista quantitativa, com  objetivo exploratória e descritiva, procedimento de estudo de caso múltiplo, utilizando  de instrumentos: fontes bibliográficas, observação in loco, coleta e análise de dados  referente a comercialização da manga no mercado interno, no ano de 2021.  

Amostras não probabilísticas: escolha por acessibilidade  

  • empresa pública

. Autarquia Municipal de Abastecimento (AMA) de Juazeiro 

  • empresa privada produtora  

. Empresa privada produtora  

  • empresas privadas produtoras e comercializadoras  

. Empresa privada produtora e comercializadora –  01  

. Empresa privada produtora e comercializadora –  02  

Iniciou-se com a etapa de pesquisa bibliográfica, para os três temas focais, a cultura  da manga no Brasil e na região do Vale do são Francisco; comercialização com foco em  mercado interno e food miles, sempre registrando em apontamentos as informações  mais aderentes ao objetivo da pesquisa. 

Na Figura 1, é possível observar as etapas dessa cadeia local da fruta, com origem  no campo e as fases até a chegada ao consumidor. 

Figura 1 – Fluxograma de comercialização da manga do Vale do São Francisco no  mercado interno 

2.1 PRODUTO SELECIONADO  

O Vale do São Francisco é a principal região brasileira produtora de manga e as  cidades de Petrolina – PE e Juazeiro – BA são destaque em tamanho de área implantado  e em números de produção e exportação da fruta. Conforme dados do IBGE (2022), a  área cultivada no Vale do São Francisco era de 15,9 mil ha em 2015, atingindo em 2021  um total de 34,4 mil ha.

Foram considerados os dados apresentados por Lima et al. (2018), que apontam  que 80% das variedades plantadas no Vale do São Francisco correspondem às  variedades Tommy Atkins e Palmer. Além destas, também foi incluída na condução da  pesquisa a variedade Keitt, devido ao grande volume destinado ao mercado interno. A  tabela 1 mostra as principais características de cada uma delas. 

Tabela 1 – Descrição das variedades de manga Tommy Atkins, Palmer e Keitt.

Fonte: Costa e Santos (2004) 

2.2 Locais de coleta de dados  

Autarquia Municipal de Abastecimento de Juazeiro – AMA  

A AMA de Juazeiro está consolidada como o segundo maior entreposto em  volume de comercialização de produtos hortifrutigranjeiros no ano base 2022, com o  montante de 1.719.456.610 kg e R$ 5,7 bilhões, ficando atrás apenas do CEAGESP/SP,  e a mais representativa das regiões Norte e Nordeste (CONAB, 2023).  

Toda mercadoria que chega ao entreposto precisa dar entrada na portaria para  recolhimento de taxa de acesso, onde deve ser informado o volume, porém, não são  consolidadas as informações de origem e de destino das mercadorias, o que inviabilizou  o cálculo do food miles para essa amostra. 

A AMA é importante fonte de informações para produtores, comerciantes,  pesquisadores e toda sociedade, divulgam boletim diário com os preços dos itens de  hortifrutis, com base na procura e na oferta, o que permite ao produtor informações atualizadas, norteando sua venda. Além disso, pode-se confirmar em plataformas de  pesquisas dezenas de estudos sobre análises comportamentais de preços, ofertas, entre  outros, com base nesses dados disponibilizados. A Figura 2 mostra uma vista aérea da  AMA. 

Figura 2 – Imagem aérea da AMA – Juazeiro – BA

Empresa privada produtora  

Fazenda produtora localizada no Projeto Senador Nilo Coelho, lote 35, possui 50  hectares irrigados com cultivo de manga das variedades Tommy Atkins, Keitt, Haden e  Palmer, apresenta uma produtividade média de 40.000 kg por hectare, acima do dobro  da média nacional de 19.792 kg segundo IBGE (2021), efetua a comercialização da  produção dentro da “porteira”, ou seja, na própria fazenda. A empresa possui a premissa  de cultivar suas fruteiras dentre as exigências necessárias para o mercado externo,  sendo que parte da manga que não apresenta viabilidade para a exportação (refugo) é  destinada ao mercado interno. Isto é, não existe uma preocupação ou checklist de  exigências específicas para as frutas que são destinadas à comercialização no mercado  brasileiro.  

Toda a comercialização da produção de fruta da fazenda é realizada de modo  que o comprador é o responsável pela colheita, embalagem e transporte até o destino  final, e o produtor negocia o preço do quilo da fruta na árvore. É possível observar que  as vendas de mercado interno, até mesmo a embalagem, ocorre dentro do pomar,  conforme figuras 3,4,5 e 6.  

Mercado externo 

Foram comercializados 1.029.356 kg de manga, das variedades Tommy Atkins,  Keitt e Palmer, através de empresa exportadora sediada na cidade de Petrolina. A  variedade Tommy com maior proporção apresentou 80% do total comercializado, além  de 6.467 kg de manga da variedade Haden com destino a França.  

Mercado interno  

São direcionados ao mercado interno em embalagens de contentores de 18 kg,  com destino à região Nordeste, os frutos que apresentam estágio de maturação  avançado, avarias mais visíveis são aproveitadas na maior quantidade a produção de  polpa. Para estes, o produtor não realiza o controle por variedade, sendo comercializada  em conjunto com preço único.  

Ainda são comercializados frutos para revenda (hortifruti) locais para variedade Tommy Atkins de 29.490.00 kg em embalagens com capacidade de 18 kg. Foi observado que para o pequeno produtor que comercializa os frutos direto  da fazenda, o controle de destino é prejudicado, uma vez que este não tem  conhecimento da cidade final para o trajeto do fruto, pois toda a produção é objetivada  para o mercado externo, sendo o mercado interno algo “menosprezado”. 

Figura 3 – Colheita com destino ao mercado interno

Fonte: acervo pessoal

Figura 4 – Colheita no campo utilizando contentores de 25 kg com destino ao mercado  interno  

Fonte: acervo pessoal 

Figura 5 – Comercialização com embalagem dentro do próprio pomar

Fonte: acervo pessoal

Figura 6 – Comercialização com embalagem em caixa de papel de 18 kg, transportes  em caminhão 

Fonte: acervo pessoal

Empresa privada produtora e comercializadora – 01  

Empresa produtora e exportadora de manga e uva instalada desde 2007 em  Juazeiro – BA, representa uma classe de empresa certificada, com selos como Sedex,  Fair Trade Certified, Walmart, SMETA, ABRINQ, entre outros, o que reforça sua  excelente reputação em todo território nacional e internacional.  

Possui uma estrutura de packing house com mais de 12.000 m² e conta com  sistemas de classificadora, túneis de resfriamento e câmaras frias que permitem a  rastreabilidade dos produtos e com uma capacidade de processamento diário de 300  toneladas de manga. Assim é possível atender aos 400 hectares implantados de manga  com as variedades Tommy, Kent, Palmer e Keitt, abastecendo o mercado externo como  Canadá, EUA, Europa, Emirados Árabes, Coreia e Japão e o mercado interno brasileiro.  

A empresa destinou ao mercado interno no ano de 2021 um total de 887.591 kg  de manga, aproximadamente 20% da produção total, nas variedades Keitt, Kent, Palmer  e Tommy Atkins, sendo 457.503 kg de manga da variedade Tommy Atkins e 219.808 kg  de manga da variedade Palmer, para as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.  Tem como transporte predominante o FOB (Free on Board – livre a bordo), onde o cliente  quem assume os custos de transporte, e a maior parte do volume comercializado utiliza  as embalagens de 18 kg, conforme reagrupamento de dados na tabela 04 a seguir. 

Podemos observar pela qualidade dos frutos que a empresa preza por seguir um  manejo padrão prescrito, conforme exigências do mercado internacional, pela  preocupação no transporte com embalagem em caixas, ao invés da maioria da  comercialização, não transportadas de modo a granel. Nas figuras 7,8 e 9, é possível  observar a estrutura do pomar, docas com o fluxo de caminhões para o transporte e parking house, equipado com esteiras de classificação, câmaras frias, a fim de promover  a qualidade das frutas em todas as etapas da cadeia e prorrogar seu tempo de prateleira. 

Figura 7 – Vista aérea do pomar de manga

Fonte: acervo da empresa

Figura 8 – Carregamento de carga de frutas, em módulo refrigerado

Fonte: acervo da empresa

Figura 9 – Etapa de embalagem de manga no packing house

Fonte: acervo da empresa

Empresa privada produtora e comercializadora – 02  

Iniciou-se como um projeto familiar, em 1987, com aproximadamente 400  hectares de uva, manga e banana. No terceiro ano de implantação, a empresa iniciou o  abastecimento do mercado interno e, no ano seguinte, o mercado internacional.  Posteriormente, adquiriu mais 700 hectares e hoje é a maior produtora e exportadora de  mangas do Brasil, com 95% da produção exportada para a Europa. Em 2021, a empresa  atingiu recorde com a maior produção de mais de 32 milhões de quilos de manga. Cultiva  as variedades de manga Keitt, Kent, Palmer e Tommy Atkins com produção ativa em todos os meses do ano, em um total de oito fazendas localizadas nos municípios de  Belém de São Francisco – PE, Abaré – BA e Curaçá – BA. 

A empresa possui grande preocupação em associar a marca à sustentabilidade,  dispondo de coleta seletiva, produção de energia elétrica limpa e renovável, viveiros  de mudas nativas e reserva de 687 hectares como Reserva Particular do Patrimônio  Natural (RPPN). Nas figuras 10, 11 e 12 observa-se a estrutura de packing house e  vista aérea do pomar. 

Possui excelente estrutura de packing house, o maior do Brasil, com capacidade  de até 40 toneladas de manga por hora. Destinou ao mercado interno um volume de  2.535.850,50 kg de manga da variedade Keitt, abastecendo os estados da região Norte,  Sul e Sudeste do país. 

Figura 10 – Etapa na esteira de classificação e controle de qualidade pós-colheita

Fonte: acervo da empresa

Figura 11 – Etapa de embalagem de manga no packing house

Fonte: acervo da empresa

Figura 12 – Vista aérea do pomar de manga 

Fonte: acervo da empresa

2.3 Dados coletados  

A coleta de informações para o estudo do trajeto que a manga percorreu do  campo ao consumidor foi feita nas unidades selecionadas, a fim de obter dados de  comercialização da fruta consolidados no ano de 2021, relacionando a cidade destino  de envio da produção, bem como volume referente.  

2.4 Análise dos dados  

Para o cálculo das distâncias em quilômetros, entre a produção e a  comercialização da manga, foi utilizada a ferramenta Google Maps para verificação de  trajetória informando a cidade/UF de origem e a cidade/UF de destino.  

Para a quantificação do conceito de food miles, em um estudo similar, Aliotte,  Lima e Oliveira (2020) utilizaram do método de WASD para calcular a rota food miles praticadas na comercialização do mamão no CEAPE de Campinas – SP, além da  literatura citar vários autores que utilizaram o mesmo método, entre eles, Pirog e  Benjamim (2003) e Rajkumar e Jacob (2010).  

A fórmula de WASD (Weighted Average Source Distance) está descrita na figura 13. 

K = Diferentes pontos de localização da produção  
m = Volume de cada ponto  
d = Distância de cada ponto de produção para cada ponto de venda  

Considerando que o transporte das frutas no mercado interno é realizado pela  malha rodoviária, e a relevância da emissão de GEE (Gases Efeito Estufa), no  aquecimento global do planeta, foi ampliada a pesquisa proposta, incluindo o cálculo na  emissão de CO2 provenientes do combustível fóssil queimado, considerando os dados  de food miles calculado por variedade.

A literatura disponibiliza alguns métodos para cálculos de emissão de CO2 dentre  eles, quatro métodos destacam-se pela sua aplicabilidade: Top Down, Bottom Up, NTM  e DEFRA. 

Calcular e reportar as emissões de GEE provenientes das suas operações de transporte de mercadorias não necessita de ser difícil e pode trazer múltiplos benefícios empresariais. Fundamentalmente, a medição das emissões de GEE provenientes dos transportes baseia-se na medição ou estimativa da utilização de combustível e, como tal, está alinhada com uma boa logística e gestão de combustível – e com todas as poupanças de custos que isso pode trazer. (DEFRA, 2015, p.01) 

Em decorrência dos dados disponibilizados pelas empresas, foi escolhida a  fórmula de DEFRA, ilustrada na figura 14, onde apresenta portfólio de possíveis  combinações de fórmulas a depender das informações possuídas. 

Figura 14 – Fórmula para cálculo de emissão de CO2

Fonte: DEFRA (2015) 

Diesel: Diesel usado em litros  
EFd: Fator de eficiência do consumo de combustível

Todavia, a cartilha DEFRA (2015) exemplifica que na ausência dos dados de litros  de combustíveis, é possível usar os dados de quilômetros rodado multiplicado ao fator  de emissão baseado na carga média e na eficiência de combustível para todos os  veículos pesados articulados do Reino Unido (0,94353).  

Emissões totais = Distância (Km) x fator de emissão  

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO  

Com base na análise dos dados coletados nas empresas, serão apresentados a  seguir os resultados e algumas discussões, de modo a contemplar o objetivo proposto  pelo presente estudo. Depois, algumas considerações são levantadas, junto com a  exposição de novas possibilidades de investigação.  

Foram tabulados os dados obtidos junto à Empresa privada produtora e  comercializadora – 01 (Tabela 2) e com a Empresa privada produtora e comercializadora  – 02 (Tabela 3), onde são relacionados o volume, variedade e cidade destino para a  manga comercializada no mercado interno no ano de 2021. 

Tabela 2 – Relação de volume total de manga comercializados no mercado interno no  ano de 2021, na empresa privada produtora e comercializadora – 01 

Fonte: Autores com base nos dados fornecido pela empresa 

Tabela 3 – Relação de volume total de manga comercializados no mercado interno no  ano de 2021, na empresa privada produtora e comercializadora – 02 

Fonte: Autores com base nos dados fornecido pela empresa 

Utilizando a ferramenta Google Maps, foi efetuado o cálculo da distância entre a  cidade de origem e a cidade destino em quilômetros, conforme Tabela 4 e ilustradas as  rotas na Figura 15. 

Tabela 4 – Distância em quilômetros entre a cidade destino e origem na  comercialização da manga 

Fonte: Autores com base nos dados fornecido pela empresa

Figura 15 – Representação das rotas de destino da manga produzida no vale do São  Francisco, no ano de 2021. 

Observa-se que toda a comercialização interna realizada pela empresa privada  produtora e comercializadora – 01 foi destinada para as regiões Centro Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, no montante de volume total de 887.591 kg para as variedades Kent,  Keitt, Tommy Atkins e Palmer.  

As variedades Palmer e Tommy Atkins tiveram os volumes de 219.808 kg e  457.503 kg, respectivamente, que correspondem ao total de aproximadamente 76,30%  das mangas destinadas ao mercado interno.  

A variedade Tommy Atkins foi comercializada em maior volume para a cidade de  Curitiba – PR com 193.410 kg, em segundo maior volume para a cidade de Cuiabá – MT  com 138.726 kg, e apresentou o menor volume de 6.435 kg destinado à cidade de  Barracão – PR. Em relação ao trajeto, a maior distância que a variedade percorreu foi  3.090 km, até a cidade de Barracão – PR, e a menor distância foi de 1.494 km, até a cidade  de Cariacica – ES, mostrados na Tabela 7.  

Para a variedade Palmer, o maior volume comercializado foi para a cidade de  Curitiba – PR com 110.116 kg, o segundo maior volume foi de 76.158 kg para a cidade  de São Paulo – SP, e o menor volume foi destinado à cidade de Cariacica – ES, com  4.374 kg. Em relação ao trajeto, a variedade percorreu 2.614 km de distância até o  destino mais longo, na cidade de Curitiba – PR, e 1.494 km de distância até o destino  mais curto, na cidade de Cariacica – ES, conforme descrito na Tabela 8.  

A variedade Keitt apresenta-se com grande volume destinado ao mercado interno  brasileiro pela empresa privada produtora e comercializadora – 02, totalizando um  montante de 2.535.850,50 kg, uma vez que a exportação apresenta a maior  concentração de mercado (95% da produção) e refugo das demais variedades são  destinados para compostagem na própria fazenda. O maior volume, 1.974.268 kg, foi  direcionado para a cidade de Nova Soure – BA, e 205.986 kg para a cidade de Petrolina  – PE, que é um grande polo de produção e logística de distribuição de manga do Brasil  e do mundo. O maior trajeto percorrido foi de 3.525 km, tendo como destino final a cidade  de Esteio – RS.  

Conforme Gráfico 1, a comercialização da variedade Keitt foi direcionada em  maior volume para a região Nordeste, no caso das variedades Palmer e Tommy Atkins,  a região Sul foi a que recebeu maior quantidade das frutas. 

Gráfico 1 – Comercialização da manga produzida no Vale do São Francisco, com  volume por região, no ano de 2021 

 Fonte: Autores com base nos dados fornecido pelas empresas 

Com as informações de distâncias em quilômetros, foi efetuado o cálculo dos  quilômetros de alimentos utilizando a fórmula supracitada na Figura 13, e os dados  foram agrupados conforme tabelas 5, 6 e 7. 

Tabela 5 – Cálculo do Food Miles para manga variedade Tommy Atkins 

Fonte: Autores a partir de dados da amostra 

Tabela 6 – Cálculo do Food Miles para manga variedade Palmer 

Fonte: Autores a partir de dados da amostra

Tabela 7 – Cálculo do Food Miles para manga variedade Keitt 

Fonte: Autores a partir de dados da amostra  

Considerando o trajeto percorrido para a comercialização da manga originária do Vale do São Francisco até o consumidor ponderado pelo volume, chegou-se ao  resultado da distância média percorrida, a partir do cálculo do método WASD. Portanto,  a distância média ponderada de origem-destino no trajeto da manga foi de 2.431 km  para a variedade Tommy Atkins, 2.482 km para a variedade Palmer e 598 km para a  variedade Keitt (tabelas 5, 6 e 7, respectivamente).  

Em 2003, Pirog e Benjamim (2003) compararam o WASD local e o convencional  de 16 itens frescos no estado norte americano de Iowa. O WASD médio para produtos  cultivados localmente para atingir os mercados institucionais foi de 56 milhas, enquanto  o WASD convencional para os produtos atingirem esses mesmos pontos de venda  institucionais foi de 1.494 milhas. No estudo de food miles para o mamão, realizado com  ponto de origem as cidades de produção e o destino de comercialização no  CEAGES/SP, foi de 1.359 km, classificado pela autora como média – longa (BIGARAN.;  MENDONÇA; RAMOS, 2020).  

No cálculo de food miles para as variedades Tommy Atkins e Palmer, observa-se  uma diferença mínima para o cálculo de WASD, conforme as tabelas 7 e 8, em  decorrência de seguirem trajetos semelhantes e serem originárias da mesma fazenda,  entretanto, devido ao volume divergente, tem pequena diferença nas medidas  encontradas. 

Todavia, a variedade Keitt apresenta-se em menor cálculo do food miles, pois  pode-se observar um volume bem maior destinado ao mercado interno do que as  demais, de 2.535.850,50 kg. Além disso, sua capilaridade de distribuição é mais ampla,  abrangendo 26 cidades das regiões Norte, Nordeste, Sul e Sudeste do país, com volume  de aproximadamente 88% destinado às cidades da região Nordeste, situados em um  raio mais próximo, embora percorra a maior distância, num trajeto de 3525 km para a  cidade de Esteio – RS. Assim, apresenta o valor para a distância percorrida da fazenda  ao consumidor de 598 km, consideravelmente menor que as variedades Tommy Atkins  e Palmer, enquadrada na classificação descrita em curta-média distância.  

Considerando que em busca de um mercado mais lucrativo e mesmo que seja interno, podemos entender que existem diversos nichos de mercados brasileiros, como  por exemplo, cidades turísticas, grandes centros, onde possuem restaurantes, hotéis de  luxos, que ainda pode ser explorado e lucrativamente podem ser excelentes opções  quando comparados com mercado externo.  

Para a variedade Keitt, que apresenta um grande volume destinado à  comercialização interna, existe uma preocupação em ampliar este mercado numa  perspectiva de médio a longo prazo, devido à sua coloração menos intensa e predominantemente verde amarelada, torna-se menos atrativa ao paladar brasileiro.  Entretanto, já existe um trabalho de marketing com a fruta, devido às suas caraterísticas  e slogan bastante chamativo, “A manga que você come de colher”, a fim de fomentar  esse mercado para uma fruta produzida dentre rigoroso padrão de qualidade de  exportação, para consumo da população brasileira.  

Na avaliação quanto a emissão de CO2 com base nos dados de food miles encontrados, foram calculados para manga das variedades: Tommy Atkins 2.293,72  kgCO2equação, Palmer 2.290,89 kgCO2equação e Keitt 564 kgCO2equação.  

Estes valores foram considerando apenas na quilometragem interna, imagina-se  o montante no caso de frutas que são exportadas, por ainda somar os números de  emissão de CO2 de outros modais como avião ou marítimos.  

4. CONCLUSÕES

A distância percorrida pelo alimento do campo para a mesa, food miles,  apresenta-se em discussão há muitos anos nos países da Europa e América do Norte.  No Brasil, as pesquisas ainda são recentes, mas esse estudo pode nortear ações de  grande impacto nas vias ambientais, financeira, nutricional e social do país. Os dados  da FAO (2023) alertam para o aumento de 54% entre os anos de 2018 e 2020, na  quantidade de lares brasileiros que apresentam algum grau de insegurança alimentar,  os números para a fome também aumentaram em 2022 e esteve presente em 9% dos  lares, o que equivale a 19 milhões de brasileiros.  

Na pesquisa, foi constatada uma evolução na implantação de pomares de manga,  com destino a exportação, o que se apresenta como alternativa de boa viabilidade  econômica, devido à valorização da moeda estrangeira em relação à moeda real. Assim,  o planejamento da produção da fruta, desde a escolha da variedade, adoção de práticas  de manejo, certificações, entre outros, está sempre condicionado a atender as  preferências de sabor, coloração, tamanho e exigências do mercado internacional.  

Ao mercado interno, são direcionadas as frutas que não atendem a esses critérios  de seleção, sendo que o crescimento da produção pode acarretar numa necessidade de  novos mercados geográficos (entendemos que ampliar a exportação in natura para  outros países ou investir numa produção de qualidade a fim de atender os vários nichos  que podem ser oportunizados no mercado interno) ou mercados de agroindústrias como  polpa, néctar, frutas seca, compotas etc, que possam absorver a produção de manga  estimada.  

Para as pesquisas futuras, pode-se desdobrar em várias linhas, tendo como ponto  de partida esse estudo, pode-se expandir a consulta para outras frutas do Vale do São Francisco, ou até mesmo da região Nordeste e demais do Brasil, agregando uma análise  mais apurada em relação a emissão de gases de efeito estufa não apenas da etapa de  food miles, mas de toda cadeia de produção.  

O estudo de food miles apresenta-se como ferramenta estratégica para os  produtores, comerciantes, órgãos governamentais e todos interessados na cadeia de  produção, por proporcionar o entendimento de todo o fluxo de comercialização,  implementar ajuste de melhoria na eficiência ambiental, nutricional, social e financeira  de toda a cadeia. Impulsionar estudos em relação a ações públicas que visem promover  através de incentivos, de treinamento e legislação para uma comercialização de  alimentos mais sustentável, voltada para a redução da pegada de carbono, que se apresenta como tendência de mudança de hábitos de consumidor que valoriza a compra  de alimentos frescos, com amparo social, e ambiental. 

5. REFERÊNCIAS  

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AGÊNCIA BRASIL. Em 2030, 68% dos brasileiros poderão estar com excesso de  peso. 2022. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2022- 01/em-2030-68-dos-brasileiros-poderao-estar-com-excesso-de-peso >. Acesso em: 19  ago. 2022.  

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AZEVEDO, E. O ativismo alimentar na perspectiva do locavorismo. Ambiente &  Sociedade, v. 18, n. 3, p. 81–98, 2015.  

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1Mestre em Dinâmicas de Desenvolvimento do Semiárido pela Universidade Federal do  Vale do São Francisco – UNIVASF.  Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.  Rua: Bethoveen, 31 Pedra do Bode – CEP: 56332-455- Petrolina -PE  E-mail: rianydiaspc@gmail.com.

2Doutor em Engenharia Agrícola e professor da Universidade Federal do Vale do São  Francisco – UNIVASF.Instituição: Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF.   Avenida: Antônio Carlos Magalhães, 510 – Santo Antonio – CEP 489022-300  Juazeiro-BA E-mail: acacio.figueiredo@univasf.edu.br

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