EVALUATION OF THE PREVALENCE AND IMPACTS OF SOCIAL ANXIETY DISORDER IN MEDICAL STUDENTS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202507310133
Bruno Paracchini Mendes¹
Ellen Carolina Zawoski2
Cristiane de Bortoli Rota3
Resumo
O presente estudo visa identificar a prevalência e os impactos do transtorno de ansiedade social em estudantes de medicina de uma instituição localizada no oeste do Paraná. Esse transtorno é caracterizado pelo medo intenso de situações sociais e pode comprometer significativamente as interações interpessoais, especialmente em cursos que demandam habilidades de comunicação e exposição constante, como o de medicina. A pesquisa tem como objetivo geral avaliar a prevalência de TAS e investigar como esse transtorno afeta as relações sociais de alunos do ciclo básico (1º ao 3º período). Trata-se de um estudo descritivo e correlacional, com abordagem quantitativa, realizado por meio da aplicação do Inventário de Fobia Social (SPIN) e de nove perguntas suplementares ao tema. Foram consideradas válidas as respostas de 87 estudantes que atenderam aos critérios de inclusão. Os resultados mostraram que 57,5% dos participantes apresentaram TAS em grau moderado ou grave, com maior prevalência no sexo feminino. Ademais as perguntas complementares revelaram elevados índices de preocupação com julgamento social, revisão mental de interações passadas, evitação de situações sociais e planejamento excessivo antes de interações interpessoais.
Palavras-chave: Transtorno de fobia social. Estudantes de medicina. Interação social.
Abstract
The present study aims to identify the prevalence and impacts of Social Anxiety Disorder (SAD) among medical students at an institution located in western Paraná, Brazil. This disorder is characterized by intense fear of social situations and can significantly impair interpersonal interactions, especially in courses that require communication skills and frequent public exposure, such as medicine. The general objective of the research is to assess the prevalence of SAD and investigate how this disorder affects the social relationships of students in the basic cycle (1st to 3rd period). This is a descriptive and correlational study with a quantitative approach, conducted through the application of the Social Phobia Inventory (SPIN) and nine supplementary questions related to the theme. Valid responses were obtained from 87 students who met the inclusion criteria. The results showed that 57.5% of participants presented moderate or severe levels of SAD, with a higher prevalence among female students. Furthermore, the complementary questions revealed high levels of concern with social judgment, mental review of past interactions, avoidance of social situations, and excessive planning before interpersonal interactions.
Keywords: Social anxiety disorder. Medical students. Social interaction.
1 INTRODUÇÃO
O tema desse projeto abordará o transtorno de ansiedade social (TAS) em alunos de medicina do primeiro ao terceiro período, em uma instituição no Oeste do Paraná. Sendo o objetivo geral deste estudo a avaliação da prevalência do transtorno de ansiedade social em estudantes de medicina e os impactos desse transtorno nas relações sociais desses alunos.
O transtorno de ansiedade social pode ser caracterizado como um medo ou ansiedade acentuados e persistentes em situações de exposição social ou desempenho, nas quais a pessoa que é exposta acredita em uma avaliação contínua pelos outros. No geral, pode ser interpretado como um medo intenso de ser julgado negativamente pelas pessoas do ambiente em que o indivíduo ocupa, o que leva à evitação dessas situações ou à experiência delas com um intenso desconforto. A duração desse medo precisa ser de pelo menos seis meses, sendo o impacto sobre a vida diária significativo, afetando áreas como o trabalho, a escola ou os relacionamentos pessoais (1,2).
No que tange a epidemiologia o transtorno de ansiedade social tem uma prevalência de aproximadamente 7% nos EUA por ano, enquanto na Europa a média é de 2,3%. Globalmente, sua prevalência varia de 7% a 13%, sendo considerado o terceiro transtorno psiquiátrico mais comum, e apresenta-se frequentemente com comorbidades como depressão e abuso de substâncias, resultando em impactos significativos na qualidade de vida, levando a impactos significativos na vida social e profissional, e a um maior risco de abuso de substâncias e ao suicídio. Em relação à faixa etária, os adolescentes tendem a ter taxas mais altas do que crianças e idosos. Já em relação ao gênero, o TAS afeta mais as mulheres do que os homens, com uma razão de chances variando de 1,5 a 2 especialmente em adolescentes (3,4).
Não somente, mas também é importante salientar quais são os principais fatores de risco para desenvolvimento dessa condição psiquiátrica. Tendo em vista que o TAS envolve interações entre fatores genéticos, ambientais e psicológicos. Atualmente o principal fator é o gênero, porque mulheres apresentam uma prevalência até 2 vezes maior do que em homens, valor esse sustentado pelas observações feitas em estudos que sugerem que o público feminino apresenta uma maior vulnerabilidade biológica e psicológica maior aos transtornos de ansiedade em geral (1,3,5). Outro fator de destaque é o temperamento, pois crianças que apresentam inibição comportamental, como a timidez extrema ou medo de avaliações negativas tendem a apresentar um risco maior de desenvolver TAS na idade adulta (3,6).
A prevalência do TAS dentro de um contexto específico, como o meio acadêmico, principalmente o de medicina, pode ter números maiores do que quando comparados aos dados da população em geral, uma análise indiana feita no¨ Bachelor of Medicine¨, analisou a prevalência e os fatores associados ao Transtorno de Ansiedade Social em 150 estudantes de medicina, incluindo todos os alunos do 1º, 2º e 3º anos e conclui que dos 150 estudantes, 46% apresentaram algum nível de TAS, com 19% dos casos sendo significativos, principalmente na forma moderada (7) .
Ademais esse estudo identificou associações entre o TAS e fatores como desempenho acadêmico inferior (notas abaixo de 75%), gênero feminino e baixa escolaridade da mãe. Além disso, estudantes que residiam em alojamentos ou viviam sozinhos após os 18 anos apresentaram maior prevalência de TAS. Esses achados refletem tendências observadas em pesquisas anteriores sobre ansiedade social, sugerindo que o ambiente educacional e familiar desempenha um papel importante no desenvolvimento do TAS entre estudantes de medicina (7).
Outrossim, estudos mais recentes identificaram em uma amostra maior de alunos, dados também elevados, indicando uma possível relação entre o ambiente estudantil médico e o TAS. A prevalência do TAS em estudantes de medicina na Arábia Saudita, com uma amostra de 5.896 estudantes, abrangendo estudantes de diferentes universidades da Arábia Saudita, tanto instituições públicas quanto privadas, incluindo estudantes do 2º ao 6º ano, além de estudantes em período de estágio identificou que a prevalência de TAS foi de 51%, sendo que 8,21% tinham TAS severo e de 4,21% muito severo. Fatores como sexo feminino, idade mais jovem, falhas acadêmicas anteriores e um ¨grade point average¨ mais baixo foram associados a um maior risco de desenvolver TAS (7,8) .
A escolha de investigar a prevalência e os impactos do TAS em estudantes de medicina se justifica pela natureza peculiar deste curso, que combina uma carga acadêmica intensa com a necessidade de habilidades interpessoais e emocionais. O curso demanda que os alunos desenvolvam habilidades de comunicação eficazes, participem de atividades práticas, como atendimento a pacientes, e apresentem trabalhos de maneira clara e objetiva. Para aqueles que sofrem de ansiedade social, essas situações podem gerar uma profunda aversão, limitando o desempenho acadêmico e afetando sua interação com colegas e professores. Além disso, é evidente que estudos sobre ansiedade social em estudantes de medicina são escassos, especialmente no Brasil e essa lacuna também justifica a relevância desta pesquisa.
2 METODOLOGIA
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética na Pesquisa em Seres Humanos da Fundação Assis Gurgacz (FAG), através do CAAE 86800825.0.0000.5219. Todos os participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), os participantes responderam à pesquisa de forma voluntária, não havendo em nenhum momento a oferta de qualquer incentivo financeiro ou outro. Além disso, houve garantia de anonimato, bem como foram dadas orientações referentes à condução do estudo.
Trata-se de uma pesquisa descritiva e correlacional, que avalia a prevalência e os impactos do transtorno de ansiedade social em estudantes de medicina do 1 ao 3 período em uma instituição do Oeste do Paraná. Quanto à natureza, trata-se de uma pesquisa aplicada, com características exploratórias e explicativas, já que busca compreender como o TAS afeta a vida pessoal dos estudantes. A abordagem utilizada foi a hipotético-dedutiva, uma vez que o estudo parte de hipóteses previamente estabelecidas, que serão testadas por meio da análise dos dados coletados.
Foram incluídos na pesquisa estudantes de medicina regularmente matriculados nos primeiros 3 períodos do curso, de ambos os sexos, com idades entre 18 e 40 anos, que aceitaram voluntariamente participar da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). E foram excluídos da pesquisa aqueles que não entenderam aos critérios de idade, ou que já tenham sido diagnosticados com outros transtornos psiquiátricos graves que interfiram no estudo (como transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline), além de estudantes que não concordaram em participar voluntariamente.
Participaram deste estudo 100 alunos, sendo do primeiro período 38, do segundo período 36 e do terceiro período 26. Os contribuintes da pesquisa contemplam ambos os sexos, sendo a prevalência maior do sexo feminino com 71 % em relação aos 21% do sexo masculino.
O plano de recrutamento foi realizado por meio de convite formal, divulgado em sala de aula e plataformas digitais de alunos da instituição, como grupos de WhatsApp. Em termos de procedimentos, a pesquisa utilizou o Inventário de Fobia Social (SPIN), para medir a intensidade e a prevalência de sintomas do TAS e perguntas relacionadas ao tema para identificar em qual situação social observa-se um maior impacto dessa patologia. Os dados coletados foram analisados para calcular a prevalência geral nos períodos acadêmicos analisados.
O SPIN foi escolhido pois é um questionário de autoavaliação amplamente utilizado e foi projetado para rastrear e mensurar o transtorno de ansiedade social. Contém 17 perguntas que avaliam aspectos como medo, evitação e os sintomas fisiológicos relacionados ao TAS, sendo cada item avaliado em uma escala de 0 (Nada) a 4 (Extremamente). Já para avaliar o impacto desse transtorno nos alunos foram aplicadas 9 perguntas objetivas de sim ou não, que visam analisar a interferência da fobia social na interação desses alunos com seus colegas e sua realidade acadêmica.
3 ANÁLISE DOS DADOS
3.1 Prevalência total.
Do total de 100 alunos entrevistados, apenas 87 foram elegíveis para a avaliação plena desse estudo, já que 13 desses 100 alunos não preencheram os critérios estabelecidos para esse estudo: critério de idade cujo entrevistado deveria preencher se possuía idade maior de 17 e menor de 40 anos. Já o critério de doença psiquiátrica estabelecida o entrevistado deveria responder que não possuía doença psiquiátrica previamente diagnosticada.
Como a Tabela 1 demonstra, dos 87 participantes, 29 alunos possuem ansiedade social grave, 21 alunos possuem uma manifestação moderada e 37 não possuem sintomas ou têm relevância clínica mínima. Logo, 50 dos 87 alunos apresentaram, segundo a classificação do Inventário de Fobia Social, manifestações do TAS consideradas moderadas ou graves.
Tabela 1 – Classificação do Transtorno de Ansiedade Social

Os achados deste estudo indicam uma elevada prevalência do transtorno de ansiedade social entre estudantes de medicina, com 57,5% dos participantes apresentando sintomas moderados ou graves. Esse resultado reforça a hipótese de que o ambiente acadêmico, especialmente em cursos intensos e altamente exigentes como medicina, atua como estressor psicológico significativo, contribuindo para o desenvolvimento e a manutenção do TAS (7,8).
Somado a isso, o valor que sugere que 57,5% dos acadêmicos possuem TAS — encontra respaldo em estudos internacionais conduzidos em contextos semelhantes. Na Arábia Saudita, Al-Johani et al, investigaram 5.896 estudantes de medicina de diferentes instituições públicas e privadas e encontraram uma prevalência geral de 51% de TAS (8). A semelhança entre os achados sugere que a presença do transtorno é robusta mesmo em realidades culturais distintas, reafirmando o impacto potencialmente universal da formação médica sobre a saúde mental dos estudantes (8).
Contudo, uma divergência importante está na categorização da gravidade: o estudo saudita reportou 8,21% dos estudantes com TAS severo e 4,21% com TAS muito severo, enquanto este estudo optou por agrupar os casos com SPIN ≥31 na categoria “grave”. Essa diferença metodológica pode dificultar comparações exatas de intensidade, mas não compromete o alinhamento dos dados gerais de prevalência. Vale destacar que, apesar da diferença nos critérios, os dois estudos apontam para níveis clínicos significativos de ansiedade social, o que fortalece a necessidade de atenção institucional sobre o tema.
Já o estudo conduzido na Índia, com 150 estudantes de medicina, identificou uma prevalência de 46% de TAS (7). A metodologia incluiu alunos do 1º ao 3º ano e apontou que os fatores mais fortemente associados ao transtorno foram: desempenho escolar inferior, residência longe da família, gênero feminino e baixa escolaridade da mãe (7). O dado indiano de prevalência é ligeiramente inferior ao encontrado na presente pesquisa, o que pode ser justificado por diferenças amostrais (número reduzido de participantes), diversidade regional e critérios diagnósticos.
3.2 Prevalência da fobia social em relação ao sexo dos estudantes.
Ao estratificar os dados pelo sexo dos acadêmicos, observou-se que o sexo feminino apresentou maior prevalência de TAS, com 63,9% das mulheres apresentando sintomas moderados ou graves, o que corresponde a 39 estudantes do total de 61 respostas femininas.
Em contrapartida, ao estratificar os dados pelo sexo masculino, observou-se que das 26 respostas, apenas 11 sugerem TAS moderada ou grave.Logo, 42,3% dos entrevistados masculinos apresentam manifestações sintomáticas da TAS.
Tabela 2 – Relação entre a fobial social e o sexo

A predominância do transtorno entre mulheres (63,9%), em comparação aos homens (42,3%), está em concordância com a literatura que destaca uma maior vulnerabilidade feminina aos transtornos de ansiedade (1,3,5) .
Essa diferença pode ser explicada por fatores biológicos, sociais e cognitivos que contribuem para maior reatividade emocional no público feminino [4,6]. Além de que fatores como maior sensibilidade à avaliação negativa, propensão à pós processamento e padrões de socialização mais autocentrados são frequentemente citados como explicações para essa disparidade (4,6,10).
3.3 Distribuição do sexo em relação a gravidade da fobia social
No que tange à pontuação estabelecida pelo Inventário de Fobia Social, observou-se que o sexo feminino apresenta uma maior proporção de casos graves. Das 61 respostas femininas, 22 apresentaram ansiedade social grave (SPIN ≥31), 17 apresentaram manifestação moderada (SPIN 21–30) e 22 apresentaram sintomas leves ou ausentes (SPIN ≤20).
De modo semelhante, observou-se que o público masculino apresenta uma menor relação de gravidade com o transtorno de fobia social, quando comparado ao feminino. Das 26 respostas masculinas, 7 apresentaram ansiedade social grave, 4 manifestaram sintomas moderados e 15 apresentaram sintomas leves ou ausentes.
Tabela 4 – Relação entre gravidade sexo

Partindo dessa relação, a predominância de casos graves entre as mulheres também está alinhada com dados da literatura. Essa diferença pode refletir maior propensão à autoavaliação negativa, ao foco excessivo nos sintomas físicos e à antecipação de falhas durante interações sociais (9,10,13). Tais padrões são consistentes com o modelo cognitivocomportamental proposto por Rapee e Heimberg, no qual a atenção auto-dirigida e o medo da avaliação negativa perpetuam o ciclo de ansiedade social (13,15) .
3.4 Relação entre sexo e pontuação máxima
A Tabela 5 apresenta as perguntas com que estudantes do sexo feminino e masculino atribuíram a pontuação máxima (nota 4) a itens específicos do Inventário de Fobia Social. Foi observado que o sexo feminino demonstrou maior frequência de respostas máximas, principalmente em itens relacionados à exposição pública, como discursos e atenção direta do grupo.
Tabela 5 – Itens do SPIN com pontuação máxima por sexo

Diante disso, evidencia-se que as que a pontuação máxima, assinalada pelas mulheres, está relacionada diretamente a situações de exposição pública, como falar em público ou ser observada, o que está em concordância com os modelos cognitivos do TAS que envolvem atenção auto-focada e comportamentos de evitação (13,15,17). Ademais, as perguntas complementares podem confirmam esse padrão pois: 75,6% relataram revisão mental negativa de interações passadas e 71,8% preocupação com julgamento social, alinhando-se ao conceito de processamento pós-evento e manutenção do ciclo ansioso (10,14,15) .
3.5 Avaliação do impacto psicossocial da fobia social nos acadêmicos
Além das perguntas do Inventário de Fobia Social (SPIN), este estudo incluiu nove questões complementares com respostas dicotômicas (SIM/NÃO) a fim de aprofundar a análise do impacto funcional e social da fobia social entre os estudantes elegíveis. As perguntas abordaram aspectos relacionados ao medo de julgamento, evitação de situações sociais, planejamento excessivo, autocensura e prejuízos nas relações interpessoais.
Tabela 6 – Respostas às Perguntas de Impacto Social e Funcional
| Pergunta | SIM (n) | SIM (%) | NÃO (n) | NÃO (%) |
| Você evita interações sociais porque tem medo de ser julgado negativamente? | 32 | 37.2% | 54 | 62.8% |
| Você sente dificuldade em fazer amizades ou criar vínculos afetivos devido ao medo de rejeição? | 32 | 37.2% | 54 | 62.8% |
| Você frequentemente se preocupa com o que as pessoas pensam sobre você em situações sociais? | 61 | 71.8% | 24 | 28.2% |
| Você sente necessidade de planejar excessivamente o que vai dizer em conversas sociais? | 39 | 45.3% | 47 | 54.7% |
| Você revisa mentalmente | 65 | 75.6% | 21 | 24.4% |
| interações sociais passadas e sente vergonha ou culpa por coisas que disse ou fez? | ||||
| Você sente que suas relações pessoais são prejudicadas por causa de sua ansiedade social? | 39 | 45.3% | 47 | 54.7% |
| Você evita fazer apresentações ou falar em público por sentir muita ansiedade ou desconforto? | 44 | 51.2% | 42 | 48.8% |
| Você sente necessidade de evitar festas ou encontros acadêmicos para evitar desconforto social? | 22 | 25.6% | 64 | 74.4% |
| Você sente dificuldade para permanecer em ambientes que envolvam um grande número de observadores, como salas de aulas cheia, biblioteca, academias? | 17 | 19.8% | 69 | 80.2% |
Em síntese ao exposto na tabela 6, observa-se que os itens com maior índice de concordância (resposta SIM) foram: “Você revisa mentalmente interações sociais passadas e sente vergonha ou culpa por coisas que disse ou fez?”, com 75,6% de respostas afirmativas e “Você frequentemente se preocupa com o que as pessoas pensam sobre você em situações sociais?”, com 71,8% de respostas afirmativas.
Além desses dois mais pontuados, vale ressaltar também que as perguntas: ¨Você evita fazer apresentações ou falar em público por sentir muita ansiedade ou desconforto? ¨ e ¨Você sente necessidade de planejar excessivamente o que vai dizer em conversas sociais?”, obtiveram respectivamente uma porcentagem de 51,2% e 45.3% de respostas afirmativas, constituindo dessa maneira as 4 perguntas com mais concordância dentre as 9.
Frente a isso, pode-se afirmar que as respostas das nove perguntas complementares revelam o quanto o transtorno de ansiedade social vai além da simples evitação de situações públicas, afetando profundamente a cognição, os comportamentos de enfrentamento e até a resposta fisiológica dos indivíduos. Em especial, os itens relacionados à preocupação excessiva com a opinião alheia (71,8%) e à revisão mental de interações passadas com culpa ou vergonha (75,6%) confirmam a presença de componentes centrais da fisiopatologia do TAS e aponta para o papel central dos processamentos cognitivos antecipatório e pós-evento, reconhecidos como mecanismos de manutenção do TAS. Tais pensamentos disfuncionais reforçam crenças de inadequação social e elevam o risco de retraimento (10,14,15) .
Os indivíduos com TAS tendem a manter um foco atencional excessivo em si mesmos (self-focused attention), o que amplifica a percepção de sinais fisiológicos de ansiedade (rubor, tremores, sudorese, etc.) e distorce a percepção de como são vistos pelos outros. Essa autopercepção negativa é retroalimentada por processos cognitivos como o processamento antecipatório e o processamento pós-evento (13,16).
O processamento antecipatório, que ocorre antes de uma situação social, envolve pensamentos intrusivos e a catastrofização (“vai dar tudo errado”, “vão rir de mim”), levando ao aumento da ansiedade basal. Isso se reflete nas respostas dos participantes que afirmaram sentir necessidade de planejar excessivamente o que vão dizer em conversas sociais (45,3%), indicando que o medo do julgamento desencadeia uma hiperpreparação ansiosa, típica desse mecanismo(10).
Já o processamento pós-evento é caracterizado pela revisão sobre interações passadas, frequentemente com interpretações negativas distorcidas (“fui ridículo”, “falei demais”), o que perpetua o ciclo ansioso. Isso está fortemente representado na amostra que indica 75,6% dos participantes relataram revisar interações passadas com vergonha ou culpa, ocupando um dos índices mais altos da pesquisa (10) .
Outro dado importante foi que 51,2% dos participantes afirmaram evitar apresentações por ansiedade intensa, o que se alinha aos comportamentos de segurança descritos pela literatura. Esses comportamentos, como evitar falar, não manter contato visual ou ensaiar frases mentalmente, são tentativas de minimizar a percepção de ameaça, mas acabam reforçando a crença de que a situação social é perigosa — o que mantém o transtorno (13) .
E por fim, 25,6% relataram evitar festas ou encontros acadêmicos e 19,8% demonstraram desconforto em locais com grande número de observadores (salas cheias, academias). Essas respostas mostram a generalização da ansiedade para situações não formalmente avaliativas, mas que envolvem exposição social implícita. Isso reforça que o TAS não se limita a situações de performance (como apresentações), mas pode comprometer aspectos rotineiros da vida acadêmica e social, impactando a qualidade de vida (9,11,12).
4 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo constata que o transtorno de ansiedade social está presente de forma significativa entre estudantes de medicina da instituição analisada. Os dados indicam que a prevalência de sintomas moderados e graves ultrapassa a metade dos participantes, demonstrando que os fatores acadêmicos, sociais e individuais contribuem diretamente para o desencadeamento e manutenção do transtorno. O objetivo de estimar a prevalência e analisar o impacto do TAS na vida acadêmica e nas relações sociais dos estudantes foi atingido.
Verifica-se que as manifestações do TAS se estendem para além dos critérios avaliados no Inventário de Fobia Social, alcançando aspectos como autocensura, medo do julgamento social e evitação de interações cotidianas, como revelado nas perguntas complementares. Os achados apontam que o sexo feminino apresenta maior vulnerabilidade, contribuindo para a compreensão do perfil dos alunos mais acometidos.
A pesquisa contribui teoricamente ao reafirmar a aplicação do modelo cognitivocomportamental como explicação plausível para os padrões observados, especialmente no que diz respeito ao processamento antecipatório e pós-evento. Praticamente, oferece subsídios para a implementação de ações institucionais que visem à identificação precoce e ao manejo adequado do TAS no contexto acadêmico.
Reconhece-se como limitação o delineamento transversal, que impossibilita estabelecer relações de causalidade entre os fatores analisados. Futuras investigações podem beneficiar-se do uso de amostras maiores, acompanhamento longitudinal e inclusão de grupos controle. Sugere-se também a aplicação do estudo em outros cursos e instituições, ampliando o conhecimento sobre o impacto da ansiedade social no ambiente universitário brasileiro.
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¹Discente do Curso Superior de Medicina da Fundação Assis Gurgacz – FAG – Campus Cascavel e-mail: brunomendes324@gmail.com
²Docente do Curso Superior de Medicina da Fundação Assis Gurgacz Campus Cascavel. Mestra em Biociências e Saúde pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. e-mail: carolinazawoski@gmail.com ³https://orcid.org/0000-0002-8608-0376 – Fundação Assis Gurgacz – FAG. e-mail: Cristianerota@hotmail.com
