REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510101628
Paulo Victor Monteiro Quinan1
Augusto Ribeiro Gabriel2
Augusto Rodrigues de Araújo Neto3
Deborah Branco Ferreira Perilo4
Diego Vinícius Gonçalves Santana5
Fernanda José de Toledo6
Mariana Abrahão Helou Kaluf7
Marília Bittencourt Gabriel8
1. Introdução
O câncer de mama constitui um dos principais problemas de saúde pública no Brasil e no mundo, sendo a neoplasia maligna mais incidente entre mulheres e a principal causa de morte por câncer nessa população (COUGHLIN, 2019; CRONIN, 2021). De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), para o triênio 2023–2025, são esperados aproximadamente 73 mil novos casos anuais no país, correspondendo a uma taxa ajustada de incidência de 43,7 casos por 100 mil mulheres (INCA, 2023). Segundo os dados de Morbidade Hospitalar mais recentes do DATASUS (tabela 1), entre 2015 e 2024, último ano com dados integralizados, houve 722.928 internações por câncer de mama (gráfico 1), com cerca de 58.453 óbitos, representando uma taxa de mortalidade de cerca de 8%.
Tabela 1. Número de internações, valor total, valor dos serviços hospitalares, óbitos e taxa de mortalidade do câncer de mama no Brasil, de 2015 a 2024.
| Ano | Internações | Valor total | Valor dos serviços hospitalares (EMREAIS) | Óbitos | Taxa de mortalidade (%) |
| 2015 | 63.481 | 8.472.110 | 5.961.715 | 4.907 | 8,26 |
| 2016 | 62.106 | 130.849.786 | 89.928.954 | 5.287 | 8,51 |
| 2017 | 65.376 | 141.794.649 | 97.674.669 | 5.471 | 8,37 |
| 2018 | 68.384 | 148.004.545 | 102.190.550 | 5.780 | 8,45 |
| 2019 | 73.233 | 159.299.015 | 110.364.818 | 6.104 | 8,34 |
| 2020 | 65.447 | 145.940.270 | 101.113.531 | 5.612 | 8,57 |
| 2021 | 69.419 | 163.230.752 | 114.356.207 | 5.720 | 8,24 |
| 2022 | 79.047 | 187.117.580 | 131.669.949 | 6.246 | 7,9 |
| 2023 | 86.756 | 209.440.709 | 146.044.115 | 6.611 | 7,62 |
| 2024 | 89.679 | 238.073.355 | 155.144.259 | 6.312 | 7,04 |
| Total | 722.928 | 1.655.411.355 | 1.139.010.115 | 58.453 | 8,09 |
FONTE: DATASUS, 2025
Gráfico 1. Número de internações por câncer de mama no Brasil, de 2015 a 2024.

Do ponto de vista regional, considerando-se os dados disponíveis no DATASUS, da plataforma TABNET, de 2014 a 2025, houve houve 11.998 internações para o CID de neoplasia maligna de mama, com os valores por internação no SUS, no município de Goiânia, o valor médio por internação por paciente é de R$ 2.483,43, com um valor total de R$ 29.796.205,89 (tabela 2).
Tabela 2. Número de internações por ano por câncer de mama de 2015 a 2024, considerando valor por internação no SUS.
| ANO | INTERNAÇÕES | VALOR TOTAL (R$) | VALOR POR INTERNAÇÃO |
| 2015 | 980 | R$ 2.304.261,11 | R$ 2.351,29 |
| 2016 | 1361 | R$ 3.196.433,12 | R$ 2.348,59 |
| 2017 | 1409 | R$ 3.454.364,99 | R$ 2.451,64 |
| 2018 | 1377 | R$ 3.331.249,87 | R$ 2.419,21 |
| 2019 | 1356 | R$ 3.184.609,00 | R$ 2.348,53 |
| 2020 | 965 | R$ 2.411.255,61 | R$ 2.498,71 |
| 2021 | 969 | R$ 2.492.689,89 | R$ 2.572,44 |
| 2022 | 1089 | R$ 2.811.506,23 | R$ 2.581,73 |
| 2023 | 1176 | R$ 3.259.727,73 | R$ 2.771,88 |
| 2024 | 1316 | R$ 3.350.108,34 | R$ 2.545,68 |
| Total | 11998 | R$ 29.796.205,89 | R$ 2.483,43 |
Fonte: DATASUS, 2025
Entre os subtipos histológicos e moleculares, o câncer de mama receptor hormonal positivo e HER2 negativo (RH+/HER2−) representa cerca de 70% dos diagnósticos (RUGO et al., 2022), caracterizando-se por dependência do sinal estrogênico para crescimento e proliferação celular, curso clínico mais indolente, porém com risco significativo de recidiva e progressão quando metastático (CRONIN, 2021).
Historicamente, o tratamento do câncer de mama metastático RH+/HER2− era baseado predominantemente em terapias endócrinas, como inibidores da aromatase, tamoxifeno e fulvestranto, reservando-se a quimioterapia para casos de progressão rápida, doença visceral sintomática ou falha às linhas hormonais disponíveis (CONITEC, 2021). Contudo, a resistência primária ou adquirida à terapia endócrina limita sua eficácia prolongada, representando desafio clínico relevante (PRAT et al., 2023).
Nesse cenário, a introdução dos inibidores de quinases dependentes de ciclina 4 e 6 (CDK4/6), palbociclib, ribociclib e abemaciclib, modificou substancialmente o paradigma terapêutico para pacientes com câncer de mama RH+/HER2− metastático (SLEDGE et al., 2020). Esses agentes atuam bloqueando a transição da fase G1 para a fase S do ciclo celular, impedindo a fosforilação da proteína do retinoblastoma (pRb) e, consequentemente, a proliferação descontrolada das células tumorais. Ensaios clínicos randomizados de fase III demonstraram ganhos expressivos de sobrevida livre de progressão (SLP) e, em alguns casos, de sobrevida global (SG), quando administrados em combinação com terapia endócrina, tanto na primeira linha quanto em linhas subsequentes (IM et al., 2019; PRAT et al., 2023)
No Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) avaliou as evidências clínicas e os modelos econômicos relativos aos inibidores de CDK4/6, emitindo parecer favorável à incorporação desses medicamentos para pacientes com câncer de mama metastático RH+/HER2− (BRASIL, 2021). A decisão considerou não apenas a magnitude de benefício clínico observada nos ensaios pivotais (tabela 3), mas também análises de custo-efetividade e impacto orçamentário, concluindo que o uso desses fármacos poderia ser viável no contexto do SUS (tabela 4), desde que houvesse gestão racional da prescrição e acompanhamento rigoroso dos resultados em vida real .
Tabela 3. Viabilidade econômica e justificativa do parecer favorável para inibidores da ciclina segundo parecer da CONITEC.

FONTE: CONITEC, 2021
Apesar dessa decisão, a implementação prática no SUS ainda enfrenta desafios importantes, incluindo questões logísticas de aquisição e distribuição, custos elevados por paciente, limitações orçamentárias, heterogeneidade no acesso e variabilidade de efetividade no mundo real em comparação aos ensaios clínicos. Em hospitais públicos de alta complexidade, como o Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HCUFG/EBSERH), apesar da recomendação da CONITEC, ainda não foram implementados os inibidores de CDK4/6, de modo que não é possível mensurar seu impacto econômico no orçamento hospitalar.
Tabela 4. Comparação dos inibidores da ciclina com o tratamento padrão anterior.
MEDICAMENTO Custo Ganho Ganho de SG Parecer CONITEC anual/paciente de SLP.
| PALBOCICLIBE | 280.000 | 27,6 vs14,5 meses | Não-significativo | Favorável pelo ganho clínico expressivo emSLP e impacto potencial na qualidade de vida, apesar do alto custo |
| RIBOCICLIBE | 270.000 | 25,3 vs16,0 meses | 63,9 vs 51,4 meses | Favorável pelo ganho de sobrevida global e livre de progressão, considerado custo-efetivo frente ao benefício clínico |
| ABEMACICLIBE | 285.000 | 28,2 vs14,8 meses | 50,6 vs 43,8 meses | Favorável pelo ganho significativo de SLP e benefício em SG, mesmo com custo elevado |
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo realizar uma avaliação clínica e econômica do uso de inibidores de CDK4/6 no tratamento do câncer de mama metastático RH+/HER2− no SUS, conforme o relatório supracitado, com base na experiência do HC-UFG/EBSERH, confrontando dados dos estudos pivotais com os estudos de vida real e com as análises econômicas apresentadas pela CONITEC.
2. OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Analisar o impacto da implementação dos inibidores de CDK4/6 (palbociclibe, ribociclibe e abemaciclibe) no Sistema Único de Saúde, descrevendo seus aspectos econômicos (custo-efetividade) no contexto do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC/UFG).
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Avaliar a Sobrevida Global e Sobrevida Livre de Progressão com o uso dos inibidores de CDK4/6 com base na literatura científica atual.
Descrever os dados disponíveis sobre custo-efetividade das três moléculas no contexto brasileiro;
Discutir os desafios operacionais enfrentados para a disponibilização efetiva desses agentes no SUS.
3. METODOLOGIA
3.1 TIPO DE ESTUDO
Estudo descritivo com abordagem qualitativa, do tipo revisão narrativa, complementado por análise documental institucional.
3.2 FONTES DE DADOS
A pesquisa será baseada em:
Revisão de literatura científica, utilizando bases como PubMed, Scielo e LILACS, com ênfase nos estudos PALOMA, MONALEESA, MONARCH e SONIA;
Documentos oficiais do Ministério da Saúde e Conitec;
Dados institucionais internos do HC/UFG, incluindo protocolos, relatórios e registros administrativos relacionados à oncologia e à prescrição de inibidores de CDK4/6;
Banco de dados públicos como SIGTAP e DATASUS, para análise de valores de APAC e informações sobre incorporação no SUS.
3.3 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO
Artigos científicos publicados entre 2015 e 2025, em inglês ou português;
Estudos clínicos fase III que avaliaram o uso de inibidores de CDK4/6 em câncer de mama RH+/HER2−;
Documentos oficiais que abordem a incorporação de tecnologias em saúde no SUS.
3.4 CRITÉRIOS DE EXCLUSÃO
Estudos pré-clínicos, experimentais in vitro ou em modelos animais; Revisões sistemáticas redundantes sem novas evidências.
3.5 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
Os dados coletados serão organizados em tabelas e analisados descritivamente, buscando-se:
Comparação entre os resultados de sobrevida livre de progressão (SLP) e sobrevida global (SG);
Análise crítica de custo-efetividade (ICER/QALY) segundo dados da Conitec e estudos nacionais;
Identificação de barreiras locais à implementação no contexto hospitalar do HC/UFG.
4. RESULTADOS
4.1. ANÁLISE DOS ESTUDOS PIVOTAIS
A análise dos ensaios clínicos pivotais sobre os inibidores de CDK4/6, palbociclib, ribociclib e abemaciclib, evidencia impacto clínico significativo na sobrevida livre de progressão (SLP) e, em diversos cenários, na sobrevida global (SG), reforçando sua relevância no manejo do câncer de mama avançado RH+/HER2−. No caso do palbociclib, o estudo PALOMA-1, de fase II, identificou incremento substancial da SLP quando associado ao letrozol em pacientes pós-menopáusicas (20,2 meses vs 10,2 meses; HR = 0,488; p = 0,0004), com neutropenia grau 3/4 como principal toxicidade (FINN et al., 2016). Esses achados foram confirmados pelo PALOMA-2, que demonstrou mediana de SLP de 27,6 meses no grupo intervenção contra 14,5 meses no controle (HR = 0,56; p < 0,0001), embora a análise final de SG não tenha alcançado significância estatística (53,9 vs 51,2 meses; HR = 0,96; IC 95%: 0,78–1,18)(RUGO et al., 2022). No cenário de doença resistente à terapia endócrina, o PALOMA-3 mostrou benefício em SLP (9,5 vs 4,6 meses; HR = 0,46; p < 0,0001), mas sem evidência conclusiva de ganho de SG (HR = 0,81; IC 95%: 0,64–1,03; p = 0,09) (CRONIN et al., 2021).
Para o ribociclib, os estudos MONALEESA confirmaram não apenas benefícios em SLP, mas também ganhos estatisticamente significativos em SG. No MONALEESA-2, a associação com letrozol em mulheres pós-menopáusicas resultou em SG mediana de 63,9 meses versus 51,4 meses no grupo controle (HR = 0,76; IC 95%: 0,63–0,93; p = 0,008), além de aumento da SLP (25,3 vs 16,0 meses; HR = 0,57; p < 0,001) (HORTOBÁGYI et al., 2017).
O MONALEESA-3, avaliando ribociclib com fulvestranto em primeira e segunda linhas, demonstrou aumento de SG para 53,7 meses, contra 41,5 meses no grupo controle (HR = 0,73; IC 95%: 0,59–0,90; p = 0,004) (SLIMANE et al., 2021). Já o MONALEESA-7, único a incluir exclusivamente mulheres pré-menopáusicas com supressão ovariana farmacológica, reportou SG mediana de 58,7 meses no grupo intervenção, comparada a 47,7 meses no controle (HR = 0,76; IC 95%: 0,61–0,96; p = 0,00973) (IM et al., 2019).
Em relação ao abemaciclib, o MONARCH-2 evidenciou ganho de SG de 9,4 meses (46,7 vs 37,3 meses; HR = 0,757; IC 95%: 0,606–0,945; p = 0,01) e aumento expressivo de SLP (16,4 vs 9,3 meses; HR = 0,553; p < 0,001) em pacientes com progressão à terapia endócrina (SLEDGE et al., 2020). No MONARCH-3, o fármaco combinado a inibidor de aromatase em primeira linha apresentou SG de 67,1 meses contra 54,5 meses no controle (HR = 0,754; IC 95%: 0,584–0,974; p = 0,0301), embora sem atingir o limiar pré-estabelecido de significância (PRAT et al., 2023).
Quanto ao uso do tratamento com inibidores de ciclina em pacientes como primeira ou segunda linha, o estudo SONIA-trial avalia a estratégia de utilização de inibidores de CDK4/6 em combinação com terapia endócrina em pacientes com câncer de mama avançado HR-positivo/HER2-negativo, comparando o uso em primeira linha (CDK4/6i seguido de fulvestranto na segunda linha) versus o uso diferido na segunda linha (primeiro inibidor de aromatase seguido de CDK4/6i com fulvestranto). O desfecho primário foi definido como sobrevida livre de progressão após o segundo tratamento (PFS2), ou seja, o tempo desde a randomização até a progressão após a segunda linha de tratamento. O desenho do estudo envolveu 1.073 pacientes inicialmente avaliadas, com 1.050 randomizadas entre os dois braços; o critério incluía pacientes com expressão de receptor hormonal maior que 10%, qualquer status menopausal (com supressão ovariana quando necessário) e certas condições prévias com inibidores não esteroidais de aromatase, se a recidiva não ocorreu dentro de 12 meses após tratamento adjuvante ou neoadjuvante (SONKE et al., 2024).
Os resultados revelaram que não houve benefício estatisticamente significativo ao utilizar o CDK4/6i como primeira linha em comparação à segunda linha: a mediana de PFS2 foi de 31,0 meses no grupo CDK4/6i em primeira linha versus 26,8 meses no grupo com uso diferido; hazard ratio foi de 0,87, com intervalo de confiança de 95% entre 0,74–1,03, e valor de P = 0,10. A qualidade de vida relacionada à saúde também foi similar entre os grupos. Em termos de duração total do tratamento com CDK4/6i, houve diferença substancial: mediana de 24,6 meses no grupo com uso em primeira linha, contra apenas 8,1 meses no grupo com uso diferido (SONKE et al., 2024).
Esse prolongamento foi acompanhado por um aumento significativo em eventos adversos de grau ≥ 3: 2.763 eventos no grupo de primeira linha versus 1.591 no grupo de segunda linha. Em termos de eventos por paciente, a média foi de 5,3 eventos por paciente no primeiro grupo, contra 3,0 no segundo. Especificamente para eventos hematológicos de grau elevado (como anemia, leucopenia, neutropenia, pancitopenia e trombocitopenia), o total foi de 2.129 eventos (média 4,1 por paciente) no grupo de primeira linha, contra 1.066 eventos (média 2,0 por paciente) no uso diferido; eventos não hematológicos graves somaram 634 (média 1,2) versus 525 (média 1,0), respectivamente (SONKE et al., 2024).
A qualidade de vida relacionada à saúde foi similar em ambos os grupos. O uso em primeira linha resultou em duração mais longa do tratamento com CDK4/6 (mediana de 24,6 meses) versus segunda linha (8,1 meses), e foi associado a maior frequência de eventos adversos de grau ≥ 3 (2 763 versus 1 591 eventos, respectivamente). Em resumo, o estudo demonstra que adiar o início dos inibidores de CDK4/6 para após a falha da terapia endócrina de primeira linha resulta em desfechos clínicos equivalentes (PFS2 e qualidade de vida), reduz substancialmente o tempo total de exposição ao CDK4/6i e diminui a incidência de eventos adversos graves. Esses resultados desafiam a necessidade de uso indiscriminado de CDK4/6i na primeira linha para todos os pacientes, especialmente considerando o aumento da toxicidade e dos custos sem melhora significativa na eficácia (SONKE et al., 2024).
4.2 ANÁLISE DO IMPACTO FINANCEIRO
Para avaliar a viabilidade econômica, é imprescindível realizar uma análise custo-benefício, considerando a melhoria em qualidade de vida, taxas de resposta e sobrevivência adicional proporcionada pelos inibidores. Estudos realizados por Turner et al. (2019) indicam que o aumento na sobrevida global com o uso de inibidores de ciclina é de aproximadamente 10 meses em média, com um custo adicional de cerca de R$ 500.000 por paciente ao longo do tratamento. Assim, o custo incremental por ano de vida ajustada pela qualidade (QALY) varia bastante, mas estima-se que seja superior a R$ 100.000, valor considerado elevado frente ao limite de aceitabilidade usual em políticas públicas brasileiras, que oscila entre R$ 30.000 e R$ 50.000 por QALY.
Conforme dados fornecidos pela Unidade de Gestão e Processamento da Informação Assistencial do Hospital das Clínicas, compreendendo de março de 2024 a março de 2025, houve 493 APAC (autorização de procedimento de alto custo) para o tratamento em pacientes de diferentes estadiamento de câncer de mama. Destes, 95 se referem a tratamento do estádio I, 143 para o estadio II, 188 para o estádio III e 67 para o estádio IV (tabela 5). Tais dados representam um corte transversal referente a data de 31/03/2025, utilizado como proxy da média de pacientes ativos em tratamento do serviço. A escolha desse delineamento justifica-se pela estabilidade do fluxo assistencial, caracterizado por número relativamente constante de admissões, altas e óbitos, sem variações sazonais relevantes.
Tabela 5. Número de pacientes com APACs ativas no HC de março de 2024 a março de 2025.
| Estadiamento do Câncer de Mama | Número de APACs |
| Estádio I | 95 |
| Estádio II | 143 |
| Estádio III | 188 |
| Estádio IV | 67 |
| Total | 493 |
Fonte: Unidade de Gestão e Processamento da Informação Assistencial do Hospital das Clínicas
Quanto ao custo, por paciente, de cada tratamento, o estádio I custa R$ 79,75, os estádios II e III R$ 800,00 e o estádio IV, conforme o tratamento seja primeira linha ou segunda linha, respectivamente R$ 79,75 e R$ 301,50 mensais (tabela 6).
Tabela 6. Custos do tratamento por paciente, conforme valores para tratamento usual.
| Estadiamento do Câncer de Mama | Número de Pacientes | Custo Mensal por Paciente | Custo Total Mensal | Custo Total em12 Meses |
| Estádio I | 95 | R$79,75 | R$7.576,25 | R$90.915,00 |
| Estádio II | 143 | R$800,00 | R$114.400,00 | R$1.372.800,00 |
| Estádio III | 188 | R$800,00 | R$150.400,00 | R$1.804.800,00 |
| Estádio IV (1ª linha) | 54 | R$79,75 | R$4.306,50 | R$51.678,00 |
| Estádio IV (2ª linha) | 13 | R$301,50 | R$3.919,50 | R$47.034,00 |
| TOTAL | 493 | R$2.061,00 | R$280.602,25 | R$3.367.227,00 |
Fonte: Unidade de Gestão e Processamento da Informação Assistencial do Hospital das Clínicas
Além das pacientes em terapia hormonal, o serviço do Hospital das Clínicas também contava, no recorte temporal acima, com 131 pacientes em quimioterapia e 66 pacientes em terapia anti-HER, nas diversas linhas de tratamento. O valor total das APACs, considerando tais números, totaliza cerca de 2 milhões de reais anuais, para o tratamento quimioterápico, e 1 milhão de reais para tratamento anti-HER. Logo, considerando o valor total de quimioterapia, hormonioterapia e terapia anti-HER, conforme os tratamentos atuais, o montante anual gira em torno de 6 milhões de reais anuais, para todos os perfis de paciente em tratamento no HC, pensando apenas no tratamento medicamentoso. Considerando-se, por outro lado, apenas o estimado para o tratamento com inibidores de ciclina (tabela 7), tal valor representaria um incremento de cerca de 133,3% no custo total de APACs e quase 80 vezes mais no tratamento das pacientes com doença luminal em estádio IV, população que seria beneficiada pela implementação desse tratamento.
De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e fontes de mercado, o custo mensal de um tratamento com um inibidor de ciclina gira em torno de R$ 10.000 a R$ 12.000 por paciente. Considerando uma população estimada de pacientes elegíveis no Brasil, aproximadamente 5.000 a 8.000 pacientes com câncer de mama metastático RH+ e HER2-negativo, o impacto orçamentário potencial supera R$ 60 milhões mensais, ou seja, mais de R$ 720 milhões anuais apenas para o início do tratamento. Trazendo para o contexto do Hospital das Clínicas, os valores mensais ficaram conforme a tabela abaixo, considerando-se o valor médio de R$ 11.000,00 por paciente, num cenário em que as pacientes em estádio IV, com APACs ativas atualmente (tabela 7), recebessem algum dos tratamentos recomendado pela CONITEC (BRASIL, 2021).
Tabela 7. Custos do tratamento por paciente, conforme valor estimado, para pacientes com câncer de mama estádio IV.
| Estadiamento | Pacientes | Custo Mensal por Paciente (R$) | Custo Total Mensal | Custo anual |
| Estádio IV (primeira linha) | 54 | R$ 11.000,00 | R$ 594.000,00 | R$ 7.128.000,00 |
| Estádio IV (segunda linha) | 13 | R$ 11.000,00 | R$ 143.000,00 | R$ 1.716.000,00 |
| TOTAL | 67 | R$ 11.000,00 | R$ 737.000,00 | R$ 8.844.000,00 |
Fonte: próprio autor.
Especificando os custos para as pacientes estadio IV, candidatas ao uso de inibidores da ciclina, com base no número de APACs ativas, conforme o recorte indicado acima, o custo anual saltaria de aproximadamente R$ 100.000,00 para quase 9 milhões de reais, representando potencial sobrecarga financeira e possível prejuízo à organização longitudinal do cuidado dessas e de outros pacientes, com diversas patologias, as quais também necessitam dos serviços disponibilizados pelo HC.
5. DISCUSSÃO
Diversos estudos recentes vêm investigando a relação entre eficácia clínica e custo-efetividade dos inibidores de CDK4/6 no tratamento do câncer de mama metastático RH+/HER2−, reforçando a complexidade das decisões de incorporação em sistemas públicos de saúde, como o SUS.
Büyükkaramikli et al. (2019), em revisão para a NICE, destacam que o ribociclib combinado ao inibidor de aromatase apresenta benefício clínico consistente em sobrevida livre de progressão, mas a avaliação econômica evidenciou que seu custo por QALY (ano de vida ajustado pela qualidade) ultrapassa os limiares geralmente aceitos para adoção no sistema público inglês, a despeito da melhoria na sobrevida global. O estudo pontua a necessidade de negociações comerciais para viabilizar seu uso em larga escala.
Darvishi, Daroudi e Fazaeli (2023), em análise de custo-utilidade no contexto iraniano, compararam palbociclib+letrozol e ribociclib+letrozol à monoterapia com letrozol. Ambos os regimes com inibidores de CDK4/6 mostraram ganhos significativos em QALYs, incrementos de 0,68 e 0,72 anos, respectivamente, porém com aumento proporcional nos custos totais. A análise indicou que os custos incrementais por QALY ficaram dentro de parâmetros aceitáveis para o sistema de saúde local, sugerindo viabilidade econômica condicionada ao contexto orçamentário.
Mamiya et al. (2017) avaliaram a relação custo-efetividade do palbociclib nos Estados Unidos, constatando que embora os custos absolutos sejam elevados, o custo incremental por QALY ficou em aproximadamente US$ 180 mil, valor que desafia os padrões habituais, mas pode ser justificado pela extensão significativa da sobrevida livre de progressão e a manutenção da qualidade de vida dos pacientes.
Masurkar et al. (2023) e Pilehvari et al. (2025) avançaram a análise incluindo despesas não relacionadas diretamente à medicação, como custos hospitalares, consultas e manejo de efeitos adversos, e concluíram que a inclusão destes custos aumenta o impacto financeiro, porém mantém a favorabilidade custo-efetiva dos inibidores de CDK4/6 para o tratamento de primeira linha, especialmente em pacientes pós-menopáusicas. A análise reforça a necessidade de políticas de preço e financiamento para garantir sustentabilidade.
Finalmente, Zhang et al. (2019) realizaram uma avaliação econômica comparativa do palbociclib como terapia endócrina de segunda linha nos Estados Unidos e China, encontrando que, embora o custo seja alto em ambos os países, a relação custo-efetividade é mais favorável no contexto chinês, devido ao menor custo da terapia e diferente disposição a pagar. Os autores destacam a importância da adaptação das políticas de saúde às realidades locais.
Essas evidências corroboram a decisão da CONITEC no Brasil em recomendar a incorporação dos inibidores de CDK4/6, ainda que condicionada a negociações de preço e definição de protocolos de uso restritos. Os ganhos clínicos, sobretudo na sobrevida livre de progressão e, em alguns casos, na sobrevida global, fundamentam o investimento, mas o alto custo exige estratégias integradas de financiamento e regulação para que o impacto orçamentário seja administrável para o SUS.
Do ponto de vista clínico-econômico e de implementação no SUS, os dados combinados apontam para um padrão: todos os três inibidores de CDK4/6 (palbociclib, ribociclib, abemaciclib) conferem ganhos de PFS e adiamento da quimioterapia, alguns mostram ganho de OS em populações específicas e outros em análises de seguimento estendido (PILEHVARI et a., 2025). Esses efeitos têm potencial para reduzir uso de quimioterapia citotóxica de imediato, diminuir tempo em atendimentos oncológicos de alta complexidade e postergar custos associados a cuidados paliativos e internações por progressão tumoral, fatores que devem ser modelados em análises de custo-efetividade locais (MAMIYA et al., 2017). Entretanto, tais ganhos clínicos vêm acompanhados de custos elevados com fármacos, necessidade de monitorização laboratorial (hemograma sequencial), possíveis internações por eventos adversos e suporte para toxicidades não-hematológicas (ex.: diarreia com abemaciclib; alterações hepáticas e QT com ribociclib) (BÜYÜKKARAMIKLIET AL., 2019), os quais têm impacto direto sobre o orçamento limitado de um hospital público federal.
Para a experiência específica de um hospital público federal em Goiás, a incorporação racional desses agentes exige modelagem econômica local que considere pelo menos: a prevalência e características demográficas da população atendida (idade, estado menopausal, carga de doença visceral), a capacidade de monitorização (laboratório, ECG), custos unitários do medicamento no mercado/regulação pública (preço por comprimido/ciclo), custos de manejo de eventos adversos (hospitalização, fatores de crescimento, consultas extras) e efeitos evitados (adiamento de quimioterapia, redução de internações por progressão). Estudos de custo-efetividade internacionais frequentemente demonstram que o custo por ano de vida ajustado por qualidade (QALY) depende fortemente do preço do fármaco e do horizonte temporal considerado; assim, negociações de preço, protocolos padronizados de monitoramento e seleção criteriosa de pacientes com maior probabilidade de benefício (ex.: doenças endócrino-sensíveis, sem quimioterapia prévia) são estratégias pragmáticas para maximizar valor em contexto público.
6. CONCLUSÃO
O alto custo dos inibidores de ciclina, aliado à elevada prevalência de câncer de mama no Brasil, levanta questões sobre a sustentabilidade financeira do SUS ao incorporá-los como padrão de tratamento para toda a população elegível. Uma análise baseada em dados do Ministério da Saúde sugere que a incorporação massiva poderia reduzir substancialmente o orçamento destinado a outras ações de saúde, prejudicando o financiamento de programas preventivos e de atenção primária.
Por outro lado, a implementação de um programa piloto com critérios estritos de elegibilidade, acompanhada de avaliações contínuas de efetividade clínica e econômica, poderia contribuir para uma distribuição mais racional dos recursos, alinhando-se aos princípios de equidade e eficiência em saúde.
Estudos epidemiológicos indicam que a taxa de resposta ao tratamento com inibidores de ciclina em pacientes com câncer de mama metastático RH+ e HER2-negativo atinge aproximadamente 60%, com uma melhora significativa na qualidade de vida, especialmente pela redução do número de sessões de quimioterapia convencional. Entretanto, a análise de custo-utilidade revela que, para uma implantação em larga escala, o custo por QALY ultrapassa os limites usualmente aceitos pela política de saúde brasileira.
Além disso, a variação de preços entre os fabricantes, negociações de preços com o fabricante, e programas de acesso ampliado poderiam alterar o cenário econômico, tornando o uso mais viável. Segundo dados de estudos de custo-efetividade, a redução de custos por meio de negociações poderia viabilizar a incorporação desses medicamentos, particularmente no âmbito de programas de acesso prolongado ou de uso por etapas clínicas.
Em conclusão, a evidência de melhora na PFS proporcionada pelos inibidores de CDK4/6 justifica seu uso como padrão terapêutico em câncer de mama avançado HR+/HER2−, com reflexos clínicos relevantes em adiamento da quimioterapia e manutenção da qualidade de vida. Ainda que os ganhos em OS variem de acordo com a linha de tratamento e subgrupo, o atraso na progressão e o perfil aceitável de toxicidades reforçam a necessidade de análises econômicas locorregionais detalhadas. Tais análises devem incorporar custos dos medicamentos, monitoramento laboratorial (e.g., hemograma sequencial, ECG), suporte a toxicidades (hematológica, gastrointestinal, cardíaca etc), e impacto no uso de quimioterapia e internações. Isso permitirá decisões baseadas em evidência e sustentabilidade econômica adaptada à realidade do SUS e do hospital público federal em Goiás (FINN et al., 2016; RUGO et al., 2022).
A partir das evidências levantadas na literatura e nos relatórios do CONITEC, conclui-se que, embora os inibidores de ciclina representem avanços terapêuticos relevantes para o tratamento do câncer de mama avançado RH+ e HER2-negativo, sua incorporação massificada pelo SUS ainda enfrenta obstáculos significativos.
7. REFERÊNCIAS
BRASIL. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Relatório de recomendação n.° 678 – Abemaciclibe, palbociclibe e succinato de ribociclibe para o tratamento de pacientes adultas com câncer de mama avançado ou metastático com HR+ e HER2–. Brasília, DF: CONITEC, 7 dez. 2021.
BÜYÜKKARAMIKLI, N. et al. Ribociclib with an aromatase inhibitor for previously untreated, HR-positive, HER2-negative, locally advanced or metastatic breast cancer: an Evidence Review Group perspective of a NICE Single Technology Appraisal. Pharmacoeconomics, v. 37, n. 2, p. 141-153, 2019.
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1Autor. Médico – Residente de Oncologia. Hospital das Clínicas – Universidade Federal de Goiás.
2Orientador. Oncologista Clínico e Doutor em Ciências da Saúde. Hemolabor/ Hospital das Clínicas – Universidade Federal de Goiás.
3Coautor. Oncologista Clínico – Hemolabor
4Coautora. Mestre em Ciências da Saúde – Universidade Federal de Goiás.
5Coautor. Oncologista Clínico. Hospital das Clínicas – Universidade Federal de Goiás/Honcord
6Coautora. Oncologista Clínica – Instituto de Mastologia e Oncologia.
7Coautora. Oncologista Clínica – Hemolabor.
8Coautora. Mestranda em Ciências da Saúde – Universidade Federal de Goiás.
