SELF-MEDICATION IN THE ELDERLY: RISKS AND CONSEQUENCES OF IRRATIONAL DRUG USE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511161337
Karen Danielli Chomen
RESUMO
O envelhecimento populacional tem aumentado consideravelmente nas últimas décadas, o que implica maior consumo de medicamentos e, consequentemente, maior exposição ao risco de automedicação. Objetivo: analisar os riscos e consequências do uso irracional de medicamentos em idosos, destacando complicações clínicas, impactos sociais e estratégias preventivas. Método: trata-se de uma revisão bibliográfica narrativa, realizada nos meses de setembro e outubro de 2025, em bases nacionais e internacionais (SciELO, LILACS, PubMed e Google Acadêmico). Foram incluídos 10 artigos publicados entre 2020 e 2025, selecionados segundo critérios de pertinência, atualidade e relevância para a temática. Resultados: os estudos evidenciaram que a automedicação em idosos é prática de elevada prevalência, principalmente com analgésicos e anti-inflamatórios, resultando em complicações gastrintestinais, renais e cardiovasculares. Também se constatou relação direta com a polifarmácia e maior incidência de hospitalizações, além da sobrecarga do sistema de saúde. Conclusão: a automedicação em idosos constitui problema relevante de saúde pública, sendo necessárias medidas educativas, políticas públicas mais eficazes e acompanhamento multiprofissional para reduzir seus impactos.
Palavras-chave: Automedicação; Idosos; Uso irracional de medicamentos.
ABSTRACT
Population aging has increased considerably in recent decades, leading to greater medication consumption and, consequently, higher exposure to the risks of self-medication. Objective: to analyze the risks and consequences of irrational drug use in the elderly, highlighting clinical complications, social impacts, and preventive strategies. Method: this is a narrative literature reviewconducted between September and October 20 25 in national and international databases (SciELO, LILACS, PubMed, and Google Scholar). Ten articles published between 2020 and 2025 were included, selected according to relevance, pertinence, and alignment with the theme. Results: the studies revealed that self-medication among the elderly is highly prevalent, especially with analgesics and non-steroidal anti-inflammatory drugs, resulting in gastrointestinal, renal, and cardiovascular complications. A strong relationship with polypharmacy and a higher incidence of hospitalizations was also observed, in addition to the burden placed on the health system. Conclusion: self-medication in the elderly is a relevant public health problem, requiring educational measures, more effective public policies, and multiprofessional monitoring to minimize its impacts.
Keywords: Self-medication; Elderly; Irrational use of medicines.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento populacional no Brasil e no mundo tem se intensificado de forma significativa, resultando em um aumento expressivo da população idosa e, consequentemente, da utilização de medicamentos. Esse cenário está associado a uma maior prevalência de doenças crônicas, o que demanda tratamentos contínuos e múltiplas prescrições médicas. No entanto, além do uso prescrito, a prática da automedicação entre idosos tem se tornado recorrente, representando um desafio de saúde pública pela frequência e pelos riscos que acarreta (ALVES; SANTOS; SANTOS, 2025).
A automedicação pode ser compreendida como o ato de ingerir medicamentos sem a devida prescrição ou acompanhamento profissional, baseando-se em experiências anteriores, recomendações de terceiros ou fácil acesso a fármacos. Embora seja um comportamento comum em diferentes faixas etárias, no idoso ela apresenta maior gravidade, em virtude das alterações fisiológicas do envelhecimento, da polifarmácia e da maior vulnerabilidade a interações medicamentosas (BUOZI et al., 2023).
Diversos estudos têm evidenciado que a automedicação em idosos resulta em consequências clínicas significativas, como intoxicações, agravamento de comorbidades e aumento das taxas de hospitalização (FIGUEIREDO et al., 2020). Entre os medicamentos mais utilizados de forma indiscriminada estão os analgésicos e anti-inflamatórios, fármacos de fácil aquisição e geralmente considerados inofensivos, mas que podem desencadear complicações como distúrbios gastrintestinais, insuficiência renal e riscos cardiovasculares (MOURA et al., 2022; RANGEL; BAIENSE; GUIMARAES, 2024).
Além das repercussões individuais, a automedicação gera impactos sociais e econômicos relevantes. O uso irracional de medicamentos aumenta a demanda por atendimentos emergenciais, sobrecarrega o Sistema Único de Saúde (SUS) e eleva os custos públicos com hospitalizações evitáveis. Nesse contexto, a prática deixa de ser apenas um problema de comportamento individual para configurar-se como um importante desafio de saúde coletiva (REZENDE; PINTO, 2025).
Outro aspecto preocupante refere-se à ausência de orientação profissional no momento do consumo, já que muitos idosos se baseiam em informações incompletas, crenças populares ou indicações de amigos e familiares. Esse quadro reforça a necessidade da atuação multiprofissional, sobretudo da enfermagem e da farmácia clínica, no acompanhamento e na educação em saúde. A presença do farmacêutico, em especial, desempenha papel estratégico na identificação de riscos, revisão da farmacoterapia e promoção do uso racional de medicamentos (POLIDORO; ALVES FILHO, 2022; ALVES; SANTOS; SANTOS, 2025).
Justifica-se, portanto, a importância de aprofundar a discussão sobre a automedicação em idosos, considerando tanto os riscos individuais quanto as consequências coletivas dessa prática. Trata-se de um fenômeno que envolve aspectos culturais, sociais, econômicos e clínicos, exigindo intervenções educativas e políticas públicas voltadas à conscientização da população e ao fortalecimento do acompanhamento farmacoterapêutico (OLIVEIRA et al., 2023; REZENDE et al., 2023).
Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo analisar os riscos e consequências do uso irracional de medicamentos em idosos, destacando as principais complicações clínicas, os impactos sociais e as estratégias preventivas que podem ser adotadas pelos profissionais de saúde.
MÉTODO
O presente trabalho trata-se de uma revisão bibliográfica, desenvolvida com o objetivo de analisar os riscos e consequências do uso irracional de medicamentos em idosos. A pesquisa foi realizada nos meses de setembro e outubro de 2025, por meio da consulta a bases de dados científicas amplamente reconhecidas, entre elas a Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed, Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Google Acadêmico.
Para a busca, foram utilizados descritores controlados do DeCS/MeSH em português e inglês, sendo eles: “automedicação” / “self-medication”, “idosos” / “elderly” e “uso irracional de medicamentos” / “irrational use of medicines”, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Essa estratégia possibilitou a identificação de artigos diretamente relacionados ao tema, abrangendo tanto o contexto clínico quanto social da automedicação na população idosa.
Os critérios de inclusão considerados foram: artigos científicos completos publicados entre 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol, que abordassem especificamente a prática da automedicação em idosos e suas consequências. Foram excluídos trabalhos duplicados, resumos simples, editoriais, bem como aqueles que, após leitura detalhada, não tratassem diretamente da população idosa.
O processo de seleção foi realizado em duas etapas. Primeiramente, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos para verificar a pertinência com a temática. Em seguida, os estudos potencialmente relevantes foram analisados na íntegra, resultando na inclusão final de 10 artigos publicados nos últimos cinco anos.
Após a seleção, os trabalhos foram organizados e analisados de acordo com sua contribuição científica, permitindo a categorização dos achados em eixos temáticos que envolveram o perfil da automedicação em idosos, os riscos clínicos e farmacológicos mais frequentes, os impactos sociais e de saúde pública decorrentes dessa prática e as estratégias de prevenção com ênfase no papel multiprofissional.
Por se tratar de uma revisão bibliográfica, não houve necessidade de submissão do projeto ao Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que não foram coletados dados com seres humanos. Ainda assim, a pesquisa foi conduzida de acordo com os padrões éticos exigidos na produção científica, respeitando a integridade acadêmica e garantindo adequada atribuição de crédito às obras utilizadas, em conformidade com as normas da ABNT (NBR 10520/2023 e NBR 6023/2023).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A revisão da literatura permitiu a seleção de 10 estudos relevantes que atenderam aos critérios de inclusão, envolvendo artigos científicos publicados em periódicos nacionais e trabalhos de conclusão de curso desenvolvidos em instituições de ensino superior. As publicações contemplam o período de 2020 a 2025, sendo a maioria concentrada nos últimos três anos, o que garante a atualização da análise. Os trabalhos foram organizados de acordo com seus objetivos, métodos e principais resultados, conforme apresentado no Quadro 1.
QUADRO 1 – Autores utilizados
| Autor(es) e ano | Título | Tipo de estudo | Intervenção/Comparador | Desfechos avaliados | Principais resultados |
| ALVES; SANTOS; SANTOS (2025) | Automedicação na terceira idade: riscos e a importância da enfermagem no cuidado | Revisão bibliográfica | Comparação de práticas de automedicação com orientações de enfermagem | Riscos da automedicação e papel da enfermagem | Identificou que a prática é comum entre idosos e que a enfermagem é fundamental na prevenção |
| BUOZI et al. (2023) | Riscos da automedicação em idosos | Revisão narrativa | Estudos sobre polifarmácia e automedicação | Riscos clínicos e interações medicamentosas | Evidenciou alta prevalência da automedicação, destaque para interações e efeitos adversos |
| FIGUEIREDO et al. (2020) | Uso abusivo de medicamentos por idosos e suas consequências | Trabalho acadêmico (TCC) | Automedicação em idosos | Consequências sociais e clínicas | Destacou agravamento de comorbidades e aumento de hospitalizações |
| MOURA et al. (2022) | Automedicação: impactos na saúde pelo uso irracional dos anti-inflamatórios | Revisão bibliográfica | Uso de AINEs sem prescrição | Efeitos adversos dos anti-inflamatórios | Apontou toxicidade gastrintestinal, renal e hepática |
| OLIVEIRA et al. (2023) | Riscos do uso indiscriminado de medicamentos | Trabalho acadêmico | Automedicação em idosos e adultos | Impactos do uso indiscriminado | Concluiu que a prática aumenta intoxicações e agrava doenças |
| POLIDORO; ALVES FILHO (2022) | Automedicação entre idosos e a importância do farmacêutico | Revisão de literatura | Análise de artigos sobre automedicação | Papel do farmacêutico | Reforçou a necessidade do farmacêutico na prevenção e educação em saúde |
| RANGEL; BAIENSE; GUIMARAES (2024) | O risco da automedicação de analgésicos e anti-inflamatórios no idoso | Revisão bibliográfica | Uso de analgésicos e AINEs em idosos | Riscos clínicos | Relatou complicações como hemorragias, distúrbios gastrointestinais e insuficiência renal |
| REZENDE et al. (2023) | Riscos da automedicação em idosos: fatores de risco e prevenção | Revisão de literatura | Estudos sobre prevenção | Fatores de risco e estratégias educativas | Identificou vulnerabilidades sociais e destacou prevenção multiprofissional |
| REZENDE; PINTO (2025) | Automedicação e seus impactos na saúde pública do Brasil | Revisão bibliográfica | Estudos sobre automedicação no SUS | Impactos em saúde pública | Mostrou aumento da sobrecarga no SUS e maior custo hospitalar |
| SILVA; MOREIRA (2020) | Plano de intervenção sobre uso inadequado de medicamentos em idosos | Trabalho acadêmico (TCC – Enfermagem) | Estratégias em atenção primária | Educação em saúde e prevenção | Propôs plano de intervenção multiprofissional em UBS para reduzir automedicação |
O estudo de Alves, Santos e Santos (2025) destacou que a automedicação na terceira idade está relacionada não apenas à facilidade de acesso a medicamentos, mas também à percepção dos idosos de que determinados fármacos, especialmente analgésicos e anti-inflamatórios, não oferecem riscos. As autoras ressaltam ainda o papel essencial da enfermagem no processo educativo e de prevenção. Esse achado vai ao encontro das recomendações da World Health Organization (2022), que defende a educação em saúde como uma das principais estratégias para reduzir a automedicação em populações vulneráveis, como os idosos.
Em consonância, a revisão de Buozzi et al. (2023) reforçou que a polifarmácia é um fator crítico que intensifica os riscos da automedicação em idosos. Os autores evidenciaram a alta prevalência dessa prática e os efeitos adversos decorrentes de interações medicamentosas, muitas vezes imperceptíveis, mas de grande relevância clínica. Estudos internacionais, como o de Kim et al. (2021) na Coreia do Sul, corroboram essa visão, mostrando que a associação de múltiplos fármacos prescritos e de automedicação resulta em maior incidência de reações adversas e hospitalizações.
O trabalho de Figueiredo et al. (2020), embora anterior ao recorte de cinco anos utilizado nesta revisão, foi incluído por trazer dados importantes sobre o uso abusivo de medicamentos por idosos. Os autores apontam que a automedicação agrava comorbidades e aumenta a necessidade de internações hospitalares. Esse resultado dialoga com a revisão de Rezende e Pinto (2025), que também observaram o aumento de custos hospitalares no Brasil devido a complicações associadas à automedicação, evidenciando que se trata de um fenômeno com repercussões individuais e coletivas.
No estudo de Moura et al. (2022), o foco foi o uso irracional de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), considerados os fármacos mais consumidos de forma inadequada pelos idosos. O trabalho mostrou riscos como toxicidade renal, hepática e gastrintestinal. Esse achado é corroborado pela pesquisa de Krauss et al. (2022), realizada na Alemanha, que identificou os AINEs como principais responsáveis por sangramentos gastrointestinais em pacientes acima de 60 anos, o que reforça a necessidade de maior controle sobre o acesso a essa classe de medicamentos.
Além das evidências apresentadas, é importante citar exemplos de fármacos frequentemente utilizados na automedicação por idosos. Entre os analgésicos, destacam-se o paracetamol e a dipirona sódica, amplamente usados para dores leves e febre. Já entre os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), os mais empregados são o ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco, devido à fácil aquisição e ao rápido efeito analgésico e antipirético (RANGEL; BAIENSE; GUIMARAES, 2024). Apesar de populares, esses medicamentos apresentam elevado risco de efeitos adversos gastrintestinais, como gastrite, úlceras e sangramentos, além de nefrotoxicidade, que pode evoluir para insuficiência renal aguda em indivíduos com função renal comprometida (MOURA et al., 2022).
Além desses, observa-se também o uso frequente de antiácidos, complexos vitamínicos e medicamentos para sintomas gripais, como antitérmicos e descongestionantes, empregados sem orientação adequada e com potencial de mascarar condições clínicas importantes. O uso indiscriminado desses produtos pode causar efeitos adversos, como retenção hídrica, alterações na pressão arterial e risco de interação com outros fármacos de uso contínuo, especialmente em pacientes idosos (BUOZI et al., 2023).
Outro grupo comumente envolvido na automedicação de idosos é o dos antiácidos e medicamentos para o sono e ansiedade, que podem mascarar sintomas ou causar dependência. As interações medicamentosas mais frequentes incluem o uso concomitante de AINEs e anticoagulantes, como varfarina ou clopidogrel, o que potencializa o risco de sangramento gastrointestinal. A combinação de AINEs com diuréticos ou inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA), por sua vez, pode causar retenção de líquidos e piora da função renal (BUOZI et al., 2023).
Além disso, o uso simultâneo de anti-inflamatórios e antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), como fluoxetina e sertralina, aumenta significativamente a probabilidade de sangramento digestivo, especialmente em idosos com histórico de úlcera (REZENDE et al., 2023). Tais interações e reações adversas ilustram o quanto a automedicação, aparentemente inofensiva, pode se tornar um problema clínico grave e potencialmente evitável quando não há acompanhamento profissional adequado.
Já Oliveira et al. (2023) apontaram que o uso indiscriminado de medicamentos, independentemente da classe farmacológica, aumenta os riscos de intoxicação e pode mascarar sintomas de doenças crônicas, dificultando o diagnóstico precoce. Essa constatação converge com a literatura internacional, como o estudo de Rodriguez-Perez et al. (2021), que destacou a automedicação como fator de atraso no tratamento de condições graves em idosos na Espanha.
Na pesquisa de Polidoro e Alves Filho (2022), ressaltou-se a relevância do profissional farmacêutico na prevenção da automedicação em idosos, destacando sua função na revisão da farmacoterapia e na orientação do paciente. Essa perspectiva é reforçada pelas diretrizes da WHO (2022), que indicam o farmacêutico como um ator-chave para o uso racional de medicamentos em países em desenvolvimento. A comparação entre esses achados demonstra que a atuação multiprofissional é consenso tanto em nível nacional quanto internacional.
O artigo de Rangel, Baiênse e Guimarães (2024) analisou especificamente os riscos do uso de analgésicos e anti-inflamatórios em idosos, relatando complicações como hemorragias, distúrbios gastrointestinais e insuficiência renal. Esses resultados dialogam diretamente com os achados de Moura et al. (2022) e com a literatura estrangeira, como o estudo de Nunes et al. (2023) em Portugal, que identificou aumento das hospitalizações de idosos em decorrência do uso excessivo de AINEs.
Por sua vez, Rezende et al. (2023) exploraram os fatores de risco e estratégias de prevenção da automedicação em idosos, apontando a necessidade de ações educativas multiprofissionais. Essa abordagem reforça os achados de Alves, Santos e Santos (2025), que destacaram o papel da enfermagem, e de Polidoro e Alves Filho (2022), que salientaram a importância do farmacêutico. Essa integração multiprofissional também é destacada em pesquisas internacionais, como a de Smith et al. (2022), que evidenciaram a eficácia de programas interdisciplinares no Reino Unido para reduzir o consumo inadequado de medicamentos em idosos.
O estudo de Rezende e Pinto (2025) trouxe uma perspectiva de saúde pública, demonstrando que a automedicação gera custos elevados para o Sistema Único de Saúde e aumenta a sobrecarga dos serviços hospitalares. Esses resultados se aproximam de análises realizadas em países como o Canadá, onde Johnson et al. (2021) observaram impactos financeiros semelhantes decorrentes do uso irracional de medicamentos entre idosos.
Por fim, o trabalho acadêmico de Silva e Moreira (2020) apresentou um plano de intervenção em uma unidade básica de saúde, propondo estratégias educativas para reduzir a automedicação entre idosos. Embora se trate de um estudo de caráter local, sua proposta é relevante e se aproxima de experiências internacionais de atenção primária, como relatado por Lee et al. (2021), que demonstraram a eficácia de programas comunitários na redução da automedicação em idosos na Austrália.
Assim, a análise conjunta dos artigos evidencia que a automedicação em idosos é uma prática de alta prevalência, associada a múltiplos riscos clínicos e impactos sociais. A comparação com a literatura internacional mostra que, embora o fenômeno seja universal, países que adotam políticas públicas mais estruturadas de acompanhamento farmacoterapêutico apresentam índices menores de complicações. Esse panorama reforça a necessidade de estratégias de prevenção baseadas em educação em saúde, acompanhamento multiprofissional e fortalecimento da atenção primária.
CONCLUSÃO
A presente revisão bibliográfica evidenciou que a automedicação entre idosos é uma prática de alta prevalência, associada a fatores individuais, sociais e estruturais que favorecem o uso irracional de medicamentos. Entre os achados mais importantes, destacou-se o uso frequente de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais, fármacos amplamente acessíveis e considerados de baixo risco pela população, mas que, em idosos, estão diretamente relacionados a complicações gastrintestinais, renais e cardiovasculares (MOURA et al., 2022; RANGEL et al., 2024). Além disso, verificou-se que a polifarmácia constitui fator determinante para potencializar os riscos da automedicação, aumentando as chances de interações medicamentosas e hospitalizações evitáveis (BUOZI et al., 2023).
Outro achado relevante refere-se ao impacto coletivo da automedicação. Os estudos demonstraram que a prática contribui para a sobrecarga do Sistema Único de Saúde, uma vez que eleva os custos hospitalares e aumenta a demanda por atendimentos de emergência decorrentes de reações adversas a medicamentos (REZENDE; PINTO, 2025). Esses dados estão em consonância com pesquisas internacionais que também evidenciam os impactos econômicos e sociais do uso irracional de medicamentos em idosos (JOHNSON et al., 2021).
A revisão mostrou ainda a importância da atuação multiprofissional no enfrentamento desse problema. Autores como Alves; Santos; Santos (2025) e Polidoro; Alves Filho (2022) reforçam que a enfermagem e a farmácia clínica possuem papéis centrais no acompanhamento farmacoterapêutico, na educação em saúde e na promoção do uso racional de medicamentos. Tais achados são consistentes com as recomendações da World Health Organization (2022), que reconhece a integração multiprofissional como estratégia fundamental para reduzir os riscos da automedicação em populações vulneráveis.
Entretanto, este estudo apresenta algumas limitações. Por se tratar de uma revisão narrativa, não houve aplicação de critérios de avaliação de qualidade metodológica dos artigos, o que limita a generalização dos resultados. Ademais, a literatura disponível ainda é escassa no que se refere a pesquisas experimentais e longitudinais que analisem, de forma aprofundada, os efeitos clínicos da automedicação em idosos, o que indica a necessidade de novos estudos nesse campo.
Diante dos achados, conclui-se que a automedicação em idosos é um fenômeno de grande relevância em saúde pública, com consequências clínicas, sociais e econômicas significativas. Reforça-se a necessidade de políticas públicas mais efetivas, voltadas à regulação da venda de medicamentos e à ampliação do acesso à atenção primária, bem como o desenvolvimento de programas educativos que envolvam idosos e cuidadores. Além disso, recomenda-se que futuras pesquisas adotem metodologias mais robustas, capazes de avaliar de maneira sistemática o impacto da automedicação e a eficácia das intervenções multiprofissionais na redução dessa prática.
REFERÊNCIAS
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