ATUAÇÃO DA ENFERMAGEM DIANTE DOS TRANSTORNOS MENTAIS DO PÓS-PARTO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510311008


Ana Maria Gomes de Freitas
Paloma Dionísio de Almeida
Beatriz Mendes de Araújo
Macerlane De Lira da Silva
Geane Silva Oliveira
Francisca Simone Lopes da Silva


RESUMO

Introdução O período puerperal é marcado por intensas transformações físicas, emocionais e sociais que podem desencadear transtornos mentais nas mulheres, como depressão pós-parto, psicose puerperal e transtorno de ansiedade. A vulnerabilidade nesse período é agravada por fatores como falta de apoio, sobrecarga de cuidados e idealizações sociais sobre a maternidade, o que pode comprometer o vínculo mãe-bebê e o bem-estar familiar. Objetivos Analisar a atuação da enfermagem no manejo e prevenção de transtornos mentais no puerpério. Aspectos Metodológicos Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida a partir da análise crítica de publicações entre 2021 e 2025 nas bases SciELO, PubMed e BVS, utilizando os descritores “saúde mental”, “puerpério”, “enfermagem” e “transtornos mentais”. Resultados A pesquisa destaca que a enfermagem tem papel crucial no cuidado das mulheres no período gravídico-puerperal, mas muitos profissionais demonstram falta de conhecimento e preparo para identificar e lidar com transtornos psíquicos no pós-parto. A estigmatização e a baixa formação comprometem esse cuidado. Investir na qualificação da equipe e fortalecer o vínculo com as puérperas são essenciais para melhorar o suporte emocional e a prevenção desses transtornos.

PALAVRAS CHAVE: SAÚDE MENTAL; PUERPÉRIO; TRANSTORNOS MENTAIS; ENFERMAGEM.

Introdução

A gravidez transforma a mulher das mais diversas formas, as mudanças incluem alterações fisiológicas, psicológicas e emocionais, esse ciclo de transformações normalmente se prolonga até o período do pós-parto, onde a mulher segue sofrendo com as consequências das alterações ocasionadas pela gravidez. O período puerperal é dividido em algumas fases, o puerpério imediato (do primeiro ao décimo dia), o tardio (do décimo primeiro dia ao quadragésimo quinto dia) e o remoto (do quadragésimo quinto dia até a completa recuperação), todo esse período inicia-se assim que o bebê nasce e finaliza-se quando a mulher tem a total recuperação de seu organismo (Brito et al., 2022). Diante disso, o puerpério caracteriza-se por uma onda de mudanças e, por consequência, a mulher está mais vulnerável ao surgimento de transtornos psicológicos.

Durante o pós-parto é comum a mulher apresentar o que chamamos de “baby blues”, caracterizado por sintomas como choro fácil, tristeza recorrente e maior fragilidade, essa fase deve passar em algumas poucas semanas, entretanto, quando esses sinais duram mais tempo do que o esperado se torna um indicativo de alerta para problemas psicológicos mais severos como a depressão, transtorno pós-traumático ou psicose pós-parto (Silva et al., 2024).

Desse modo, é evidente que a mulher enfrenta inúmeras dificuldades no ciclo gravídico-puerperal e esses transtornos podem ser desencadeados por inúmeros fatores, como a pressão social em cima da maternidade, falta de uma rede de apoio, o cansaço relacionado aos cuidados com o RN, a falta de autocuidado devido ao enfoque nas necessidades do bebê ou até mesmo traumas ocasionados durante o parto (Berg et al., 2021).

Atualmente a depressão pós-parto acomete cerca de 25% das parturientes no Brasil, dados como esse são preocupantes e tendem a aumentar significativamente devido à falta de atenção especializada para a puérpera, ademais, é válido ressaltar que esse é um problema que afeta todo o contexto familiar, influencia a dinâmica entre a mãe e o filho e impacta no desenvolvimento do recém-nascido (Galvão, 2023). Entretanto, mesmo que seja um tópico de suma importância existe uma falta visível de assistência para as parturientes durante esse período tão delicado, por muitas vezes elas recebem um diagnóstico errôneo, não recebendo um tratamento eficaz.

Nesse sentido, o Programa de Humanização de Pré-Natal e Nascimento do Ministério da Saúde incluiu o período puerperal como área que necessita de atenção. Desse modo, visando o cuidado no pós-parto, o programa inclui na agenda da Estratégia de Saúde da Família (ESF) a assistência a puérpera afim de atender suas necessidades e verificar sinais de alerta para o desenvolvimento de patologias e transtornos relacionados a esse período (Silva et al., 2024).

Entretanto, por mais que o programa tenha incluído nas funções da equipe da Atenção Básica a visita puerperal, que visa atender as necessidades da mulher nesse período tão delicado, sabe-se que não é algo visto na prática, muitas vezes a puérpera acaba sem nenhuma visita, ficando desassistida nessa fase (Campos et al., 2021).

Nesse contexto, a enfermagem desempenha um papel de grande relevância pois atua diretamente no processo de prevenção, identificação precoce e enfrentamento dos diferentes transtornos mentais do puerpério, porém ainda existem diversas lacunas de conhecimentos a serem preenchidas acerca dessa temática. Diante desse cenário, essa revisão integrativa da literatura tem como objetivo analisar como a enfermagem pode atuar no manejo e prevenção de transtornos mentais durante o período de pós-parto.

Portanto, o desenvolvimento dessa pesquisa justifica-se ao modo que, a partir da análise e compreensão das alterações do período gravídico-puerperal, espera-se contribuir para que os profissionais sejam capazes de atuar diante desse momento tão frágil para a puérpera, identificando sinais e sintomas e auxiliando no enfrentamento de possíveis transtornos psicológicos que podem surgir. 

METODOLOGIA 

O presente estudo trata-se de uma revisão de literatura, compreendida como uma modalidade de investigação que permite a síntese do conhecimento disponível por meio da busca, seleção, análise crítica e apresentação de estudos científicos relevantes sobre determinado tema. 

 Serão percorridas as etapas sugeridas por Finelli e Soares (2022): definição do tema e objetivos da revisão; elaboração dos critérios de inclusão e exclusão; busca sistemática nas bases de dados científicas; seleção dos estudos com base nos critérios estabelecidos; extração e organização dos dados dos estudos selecionados; análise crítica do conteúdo dos estudos; síntese integrativa dos achados; e apresentação estruturada dos resultados da revisão.

Neste estudo, adotamos essa técnica com o objetivo de reunir e analisar literaturas relevantes sobre a saúde mental no puerpério. Trata-se de um trabalho de caráter qualitativo, que visa discutir acerca dos estudos mais relevantes em volta da temática em questão. A pesquisa será realizada em bases de dados cientificas, incluindo SciELO (Scientific Eltronic Library Online), PubMed (National Library of Medicine – NCBI) e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde). 

O presente estudo é fundamentado a partir da seguinte pergunta norteadora: De que maneira a enfermagem pode atuar no manejo e prevenção de transtornos mentais durante o período de pós-parto?

Para assegurar a qualidade dos estudos serão adotados critérios de inclusão e exclusão. Serão incluídos artigos publicados a partir de 2021, disponíveis na integra, em português, inglês e espanhol, que discutam acerca da saúde mental no puerpério, serão excluídos estudos duplicados, resumos de congressos, teses, dissertações e artigos que não seguem a finalidade do estudo. A pesquisa será realizada utilizando os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e o operador booleano AND, os principais descritores serão “SAÚDE MENTAL”, “PUERPÉRIO”, “ENFERMAGEM”, “TRANSTORNOS MENTAIS”. A priori, os títulos e resumos dos artigos serão analisados e aqueles que atendem aos critérios de inclusão passarão a serem lidos na integra para um entendimento mais aprofundado.

As informações extraídas dos artigos inclusos irão ser analisadas de forma crítica e organizadas em tópicos que contemplam os objetivos desse presente estudo. Desse modo, essa revisão de literatura tem como finalidade contribuir para o aprofundamento do conhecimento na área, gerando uma visão mais ampla e atualizada sobre a saúde mental no puerpério e atuação da enfermagem diante dos principais transtornos mentais nesse período.

RESULTADOS E DISCUSSÕES 

A pesquisa feita nas bases de dados teve como principal objetivo escolher artigos que tragam informações importantes sobre o tema que foi proposto no início deste estudo.  A seguir, a tabela 1 apresenta em números, os artigos encontrados a partir da busca realizadanas bases de dados com os descritores para a presente pesquisa.

Tabela 1 – Apresentação da quantidade de artigos encontrados nas bases de dados utilizando os descritores “Saúde Mental”, “Puerpério”, “Enfermagem”, “Transtornos Mentais”

BASE DE DADOSQUANTIDADE DE ARTIGOS ENCONTRADOS
SCIELO44 32
PUBMED BVS438
TOTAL514
Fonte: elaborado pela autora (2025)


Através da pesquisa exposta na tabela 1, foram encontrados 514 artigos nas bases de dados. Esses estudos encontrados passaram por um processo de filtração utilizando os critérios de inclusão e exclusão que permitiu selecionar os artigos mais relevantes para essa pesquisa.

A seguir na figura 01 mostra a utilização dos critérios que auxiliam na escolha dos artigos que foram inseridos nesse estudo.

Figura 01 – Apresentação da seleção de artigos através dos critérios estabelecidos nesta pesquisa.

Fonte: elaborado pela autora (2025)

Ao final da seleção dos artigos foram escolhidos 12 artigos com informações que agregam significativamente a essa pesquisa.

A seguir, a Tabela 02 nos mostra a exposição dos artigos selecionados para esse estudo. 

Tabela 02 – Apresentação da síntese dos artigos organizado por título/ano

 TÍTULOANO DE PUBLICAÇÃO
1Sou mãe: e agora? Vivências do puerpério2021
2Sofrimento mental puerperal: conhecimento da equipe de enfermagem2022
3Sintomas de depressão pós-parto e sua associação com as características socioeconômicas e de apoio social2022
4Assistência à saúde nos transtornos mentais no período de puerpério: revisão integrativa2023
5Problemas psicológicos e sociais no puerpério e políticas públicas2024
6O suporte à saúde mental de gestantes e puérperas nos serviços de saúde2024
7Atenção psicológica às puérperas na maternidade: relato de experiência2024
8Identificação de sinais precoces de alteração e/ou transtornos mentais em puérperas para promoção do autocuidado2024
9Análise de fatores associados à saúde mental em gestantes e puérperas no Brasil: Uma revisão da literatura2024
10Saúde mental de mulheres no ciclo gravídico puerperal, políticas públicas de cuidado e a importância das redes de suporte2024
11Manifestações psicopatológicas da mulher em alojamento conjunto no puerpério imediato2025

 A seguir, na Tabela 03, consta o objetivo principal dos estudos e os resultados principais no qual os autores chegaram sobre a atuação da enfermagem diante dos principais transtornos mentais no puerpério.

Tabela 2 – Identificação dos artigos, conforme objetivo geral e principais resultados

TÍTULOOBJETIVOPRINCIPAIS RESULTADOS
Sou mãe: e agora? Vivências do puerpérioInvestigar como as mulheres das camadas médias da população carioca vivenciam o puerpério atualmente.As participantes relataram ainda sentimento de culpa e frustração por não experimentarem amor imediato pelo bebê, reforçando que o vínculo materno é um processo construído ao longo do tempo. Nesse contexto, o estudo aponta a necessidade de maior conscientização sobre o baby blues e o puerpério, de modo a reduzir a idealização e prevenir sentimentos de inadequação.
Sofrimento mental puerperal: conhecimento da equipe de enfermagemAvaliar o conhecimento da equipe de enfermagem do alojamento conjunto sobre sofrimento mental puerperal e oferecer subsídios para ações educativas.73,3% das enfermeiras obstétricas, técnicas e auxiliares de enfermagem tinham idade ≥40 anos e 80% tinham tempo de atuação ≥cinco anos. Predominou o conhecimento sobre o papel da enfermagem e as práticas na assistência ao sofrimento mental puerperal (maioria de respostas esperadas em 80% das questões), em contraposição ao conhecimento sobre fisiopatologia, sintomas e causas de blues, depressão e psicose puerperal (maioria de respostas esperadas em 40% das questões).
Sintomas de depressão pós-parto e sua associação com as características socioeconômicas e de apoio socialVerificar a prevalência de sintomas de depressão pós-parto em puérperas atendidas em uma maternidade pública e sua associação com características socioeconômicas e de apoio social.A prevalência de sintomas de DPP foi de 29,7%. A idade entre 14 e 24 anos (PR1,60; 95%CI 1,10-2,34), ter até 8 anos de escolaridade (RP1,39; IC95%1,01-2,14) e o baixo nível de suporte social afetivo (RP1,52; IC95%1,07-2,14) e emocional (RP2,12; IC95%1,41-3,19) estiveram associados à maior prevalência de sintomas de DPP.
Assistência à saúde nos transtornos mentais no período de puerpério: revisão integrativaIdentificar a assistência à saúde nos transtornos mentais no período de puerpério.A análise revelou que o baixo suporte social e familiar se apresenta como o principal fator de risco para o surgimento de transtornos mentais na puérpera. Por outro lado, os fatores de proteção incluíram o apoio familiar ampliado e a assistência oferecida pelos serviços de saúde. Ressalta-se ainda a importância da atuação da enfermagem, por meio da implementação de estratégias preventivas e de intervenção na saúde mental pós-parto.
Problemas psicológicos e sociais no puerpério e políticas públicasReunir à luz da literatura os fatores envolvidos na depressão pós-parto e discutir de que modo o Estado lida com essa situação.Dentre as causas mencionadas nos estudos estão aquelas com etiologia relacionada à idade da mãe, onde observa-se a diminuição da prevalência conforme o aumento da idade. Ademais, a falta de apoio, multiparidade, história pregressa de distúrbios psicológicos, desemprego e menor nível de escolaridade também constituem fatores de risco para desenvolvimento da depressão pós-parto.
O suporte à saúde mental de gestantes e puérperas nos serviços de saúdeEsta pesquisa visou, com base na aplicação de questionário on-line e literatura pesquisada, constatar se houve acompanhamento psicológico adequado à saúde mental de mulheres durante a gestação e puerpério nos serviços de saúde.Participaram da pesquisa 100 mulheres, sendo grávidas com no mínimo 30 semanas de gestação e puérperas (até 3 meses após o nascimento da criança). A maior parte das participantes declarou que sentiu sua saúde mental fragilizada ao longo do período gravídico-puerperal, no entanto, os resultados demonstraram que a maioria dessas mulheres não recebeu acompanhamento psicológico adequado ao longo da gestação e puerpério, independentemente do serviço de saúde escolhido.
Atenção psicológica às puérperas na maternidade: relato de experiênciaRelatar a experiência de realizar intervenções em saúde mental desenvolvidas com puérperas internadas por razão de pós-parto imediato.As ações do programa basearam-se em escuta qualificada, dando ênfase à narrativa da participante. A atenção à recém-mãe seguiu as seguintes diretrizes de atuação: abordagem com questionário desenvolvido; atendimento psicológico conforme demanda; interconsulta com médico; avaliação com instrumentos de saúde mental; encaminhamentos para psicologia externa; orientações sobre aspectos emocionais do pós-parto; entrega de relatório à direção da instituição visando melhorias na gestão em saúde.
Identificação de sinais precoces de alterações e/ou transtornos mentais em puérperas para promoção do autocuidadoIdentificar sinais precoces de alterações e/ou transtornos mentais em puérperas para promoção do autocuidado.As puérperas participantes enquadram-se como mulheres em idade reprodutiva, classificadas como mães adolescentes e mães adultas jovens. São mulheres que reconhecem a necessidade da prática do autocuidado, mas que possuem entraves ligados às diferentes realidades e cotidianos em que estão inseridas, tornando-se fatores de risco para transtornos/alterações mentais durante o ciclo gravídico-puerperal.
Análise de fatores associados à saúde mental em gestantes e puérperas no Brasil: uma revisão da literaturaLevantar as principais evidências de estudos brasileiros no âmbito da investigação de problemas de saúde mental em gestantes e puérperas, identificando os principais fatores de risco apontados na literatura.A mediana da prevalência de depressão pré-natal e pós-natal nos estudos foi de 16,9% e 20,8%, respectivamente, e alguns estudos indicam sintomas de ansiedade em 80% das participantes. A presença de risco de suicídio variou entre 6,3% e 23,53%. Apesar de pouco avaliados, o transtorno bipolar e os transtornos psicóticos demonstram ser fatores de risco para suicídio e estão associados a piores desfechos materno-infantis.
Saúde mental de mulheres no ciclo gravídico-puerperal, políticas públicas de cuidado e a importância das redes de suporteAnalisar os transtornos mentais no puerpério, especialmente a depressão pós-parto (DPP), suas causas multifatoriais, impactos e as lacunas nas políticas públicas brasileiras para a saúde mental materna, destacando também a importância das redes de suporte, incluindo as virtuais.A DPP é comum no Brasil, afetando cerca de 10% a 25% das mulheres, e se manifesta por sintomas de tristeza profunda, ansiedade e dificuldade no vínculo com o bebê. Apesar de sua prevalência, a DPP é subdiagnosticada e mal atendida na atenção básica. Redes de apoio, especialmente grupos virtuais de mães, têm se mostrado importantes para oferecer suporte emocional e promover a saúde mental nesse período.
Manifestações psicopatológicas da mulher em alojamento conjunto no puerpério imediatoCompreender as manifestações psicopatológicas em mulheres no puerpério imediato e identificar seus fatores de risco.No momento gestacional e puerperal, foram proeminentes sentimentos de aflição e insegurança. Foi identificado que a falta de suporte financeiro e emocional adequados contribuiu para o surgimento de transtornos psíquicos. A presença ativa e solidária do companheiro foi fator predominante no alicerce emocional das mulheres.

O período gravídico puerperal é marcado por inúmeras alterações no organismo, entre elas, as emocionais são muito significativas e de grande impacto no psicológico da mulher. Essas mudanças são provenientes dos mais diversos fatores que irão influenciar no desenvolvimento dos transtornos psicológicos no pós-parto, entre esses fatores estão inclusos os estressores experienciados durante a gravidez e no período do puerpério. Grande parte das gestantes passam por estresses em algum nível durante a gestação, aquelas que são expostas a episódios de estresse prolongado possuem uma maior predisposição a apresentar riscos à sua saúde e a do bebê (Silva et al., 2023).

Esses estressores normalmente são associados a alguns episódios específicos, tais como a gravidez indesejada, baixa autoestima devido a mudanças no corpo, enjoos e medo do parto. Nesse sentido, devido aos episódios de estresses comuns da gestação, é recorrente que uma boa parcela das puérperas possua o baby blues, caracterizado por um período onde a mulher encontra-se mais fragilizada e emocionalmente instável. Segundo o estudo realizado por Campos et al. (2021), as mães relatam que, durante essa fase, o choro é constante, há um forte cansaço e má qualidade de sono, entretanto, elas não deixam de cuidar de seus filhos, mesmo em meio a montanha russa de emoções vivenciadas e o medo de estarem falhando elas seguem preocupadas com o bem estar do bebê. Esse período de tristeza materna corresponde a fase de adaptação entre mãe e bebe, não sendo, necessariamente, caracterizado como um transtorno psiquiátrico, não havendo a necessidade de intervir com medicações, sendo o cuidado voltado para promoção de suporte emocional adequado e uma rede de apoio sólida para auxiliar nos cuidados com o bebe (Gil et al., 2024).

Segundo Brito et al. (2022), entre as complicações mais prevalentes do puerpério está a depressão pós-parto (DPP), é um transtorno que se manifesta com sintomas mais graves e, em grande parte dos casos, irá necessitar de intervenção médica. Os sintomas incluem queda de energia, mudanças no apetite, rejeição ao bebe e, até mesmo, pensamentos suicidas. Os estudos de Grillo et al. (2024) mostram que existem diversos fatores associados ao desenvolvimento da depressão pós-parto (DPP) entre eles cabe destacar a violência, seja ela física ou psicológica, a violência obstétrica relacionada ao parto, o baixo nível socioeconômico, histórico prévio de outros problemas psiquiátricos, gravidez não planejada, uso de álcool e outras drogas, multiparidade, situação familiar instável, entre alguns outros fatores. Ademais, Grillo et al., ainda destaca que maiores índices de depressão pós-parto foram encontrados em puérperas atendidas pelo sistema único de saúde. 

A prevalência dos sintomas depressivos no puerpério é algo preocupante pois pode influenciar diretamente na interação mãe-bebe, isso ocorre pois as mãe com sintomas da depressão pós-parto tem dificuldade de realizar as funções da maternidade, muitas vezes podem tem sentimentos negativos em relação ao bebe, como desprezo, rejeição ou raiva. Ademais outros problemas podem surgir no desenvolvimento da criança, como dificuldades no aleitamento, baixo peso, atrasos de desenvolvimento, instabilidade no sono, problemas de comportamento (Santos et al., 2024).

A psicose pós-parto é relatada como uma doença mental grave, caracterizada por confusão, alucinações, delírios e alucinações. É uma condição rara, mas que necessita de intervenção psiquiátrica e tratamento farmacológico imediato e, em alguns casos, hospitalização. Essa condição gera um grande risco para a puérpera e o bebe pois ela poderá se automutilar ou agredir o RN. Estudos mostraram que o histórico de doenças mentais, violências e uso de drogas durante a gestação podem estar associadas ao desenvolvimento dessa patologia (Campos et al., 2021). 

Um fator que está interrelacionado ao desenvolvimento de qualquer um dos transtornos psíquicos no puerpério é a falta de amparo. Todo o processo que a mulher passa desde a descoberta da gestação até o puerpério é muito delicado, nesse período a rede de apoio se torna crucial, quando a rede é fragilizada ou, até mesmo, inexistente a mulher acaba ficando ainda mais fragilizada, se tornando propensa ao desenvolvimento de problemas psicológicos (Reis et al. 2025).

Nesse sentido, a equipe de enfermagem possui um papel fundamental no cuidado às mulheres durante o ciclo gravídico-puerperal, por muita das vezes é o primeiro contato com o serviço de saúde. Na pesquisa realizada por Brito et al., (2022), o conhecimento da equipe de enfermagem em questões relacionadas aos transtornos mentais no puerpério se mostrou insuficiente. Muitos profissionais mostraram não terem conhecimento sobre a fisiopatologia, sintomas e causas, outro ponto significativo apontado no estudo mostra que existe, ainda, uma estigmatização em relação ao sofrimento psíquico no período puerperal, ademais, muitos profissionais ainda acreditam que não é função da enfermagem realizar a avaliação da paciente nesse momento. 

Além disso, cabe destacar que existe uma grande fragilidade no currículo dos cursos de nível superior de enfermagem. Esses cursos são responsáveis por formar profissionais que irão atuar diretamente no cuidado prestado às mulheres no período gravídico-puerperal mas, em grande maioria dos casos, eles não são preparados corretamente para atuar diante de situações de sofrimento psíquicos em suas pacientes nessa fase, sendo assim, os futuros profissionais não são  capazes de identificar precocemente os sinais e sintomas e não saberão como intervir de forma correta (Brito et al., 2022).

Segundo pesquisa realizada por Felicio et al. (2024), uma grande parte das participantes relataram que não receberam um bom acompanhamento psicológico durante o período gravídico-puerperal, mesmo que elas tenham sido atendidas em diferentes serviços de saúde nenhum deles prestou os cuidados adequados para esse momento de tamanha fragilidade. Entretanto, as usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) possuem condições menos favoráveis para o desenvolvimento de uma gestação sadia, em boa parte dos casos elas apresentam problemas psicológicos que não possuem o diagnóstico correto, e, consequentemente, não serão tratadas da maneira certa, o que irá afetar, além da mãe, o bebe.   Diante desse cenário, torna-se necessário a implementação efetiva de medidas e politicas públicas que visem melhorar a assistência a saúde materna e perinatal. Ações como a Rede Cegonha e o Programa de Assistência e Integral à Saúde da Mulher (PAISM) tem o papel de promover acesso aos cuidados de qualidade durante o ciclo gravídico-puerperal. Nesse sentido, a Rede Cegonha tem como um de seus objetivos a redução da morbimortalidade materna, através dela a mulher tem o direito assegurado por lei de ter acesso integral a rede de cuidados, devendo receber uma atenção humanizada e de qualidade. Já o PAISM tem o objetivo de garantir uma assistência integral, promovendo o acompanhamento em todas as fases da vida da mulher, inclusive adolescente e pessoas idosas, desse modo irá abranger o pré-natal, parto e puerpério, o programa visa garantir um atendimento de qualidade e humanizado (Souza et al. 2024).

Nesse sentido, é crucial que a equipe de enfermagem seja capaz de identificar os fatores de risco para o desenvolvimento de problemas psíquicos no puerpério e possa intervir de forma precoce. É papel da enfermagem construir um vinculo de confiança com a mãe e poder auxiliá-la nesse processo tão frágil que é o ciclo gravídico-puerperal, principalmente no âmbito das Unidades Básicas de Saúde, elas são a primeira interação da mulher com o serviço de saúde e possuem um papel importante na orientação e apoio em todas as fases da gestação e no pós-parto (Silva et al, 2024).

O programa “Saúde Mental da Recém-mamãe” implementado em uma maternidade pública no interior de São Paulo prestou assistência psicológica as puérperas por meio de ações que contemplavam a escuta qualificada, atendimento psicológico, encaminhamento para serviços externos e orientações sobre os aspectos emocionais do pós-parto. A mobilização de toda a equipe multiprofissional foi essencial para o bom funcionamento do programa, todos estavam dedicados a proporcionar um bom acolhimento e fornecer uma assistência de qualidade. As ações realizadas mostraram uma grande eficácia proporcionando um cuidado mais sensibilizado, personalizado e eficaz à saúde mental materna (Tortorelli et al., 2024). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base na análise dos estudos apresentados, é possível concluir que o período gravídico-puerperal é uma fase complexa e a delicada, a mulher enfrenta diversas alterações fisiológicas e emocionais, nesse sentido, cabe destacar a importância de compreender esses aspectos para prevenir e manejar os transtornos psíquicos pós-parto. Estresses e problemas comuns durante a gestação, como o medo do parto ou, até mesmo, a gravidez indesejada, colocam muitas mulheres em uma situação de vulnerabilidade emocional, com o baby blues sendo uma manifestação comum e natural dessa fragilidade. Contudo, é fundamental distinguir esse quadro de transtornos mais graves que demandam intervenções específicas.

O papel da equipe de enfermagem é essencial na identificação precoce e no acolhimento das mulheres em sofrimento psíquico, mas a insuficiente formação e a persistente estigmatização sobre a saúde mental materna limitam essa atuação. Investir na qualificação desses profissionais e fortalecer a rede de apoio são passos indispensáveis para garantir uma assistência eficaz e sensível às necessidades emocionais das puérperas, prevenindo complicações mais sérias. 

Desse modo, a efetivação de políticas públicas como a Rede Cegonha e o PAISM seguem sendo essenciais para promover uma assistência integral e humanizada durante todo o ciclo gravídico-puerperal. Esses programas que atuam diretamente na saúde mental da mulher, integrando ações multiprofissionais, demonstram eficácia e devem ser ampliados. Assim, garantir apoio emocional, acompanhamento qualificado e a construção de vínculos de confiança entre a mãe e a equipe de saúde é essencial para a promoção do bem-estar materno e infantil.

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