SUSTAINED MICROGLIAL ACTIVATION AND PRO INFLAMMATORY CYTOKINE AMPLIFICATION AS AXES OF NEUROLOGICAL PROCESS CHRONIFICATION: A SYSTEMATIC REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602140855
Jorge Eberson de Oliveira Santana¹; Arthur Soares Albuquerque Melo²; Bianca Leite de Araújo Petrônio¹; Emanuel Levi da Silva¹; Emanuel Vitor Ferreira dos Santos¹; Felipe Christovam Leal Luz¹; Isabelle Coimbra Silva Ataíde³; Islandia Maria Rodrigues Silva⁴; Lucas Ibrayn Vasconcelos Amorim¹; Maria Alice Santos Nardini¹; Sara Araújo de Morais¹
Resumo
Introdução: A ativação microglial sustentada tem sido reconhecida como componente central da neuroinflamação crônica, integrando amplificação citocínica, reprogramação metabólica e remodelação circuital na gênese da persistência clínica de múltiplos distúrbios neurológicos. Objetivo: Analisar sistematicamente os mecanismos neuroimunes envolvidos na cronificação de processos neurológicos, com ênfase no papel da microglia como eixo integrador entre sinalização inflamatória, plasticidade sináptica e disfunção sistêmica. Metodologia: Trata-se de uma revisão sistemática conduzida conforme as diretrizes PRISMA 2020, com buscas nas bases PubMed, Scopus, BVS e SciELO, incluindo artigos completos e gratuitos publicados nos últimos cinco anos. Após aplicação de critérios de elegibilidade e síntese qualitativa dos dados, foram analisados estudos que abordaram ativação microglial persistente e amplificação citocínica pró-inflamatória. Resultados: Os achados demonstram que a microglia coordena vias moleculares intracelulares, colapso bioenergético, comunicação bidirecional glia–neurônio e influências periféricas, estabelecendo um estado neuroinflamatório autorregenerativo responsável pela manutenção da hiperexcitabilidade central e da disfunção circuital. Evidenciou-se que a amplificação citocínica atua como elemento estrutural da cronificação, sustentando reorganização sináptica e resistência à resolução espontânea. Conclusão: Conclui se que a cronificação decorre de reprogramação funcional profunda da microglia, envolvendo dimensões molecular, celular, circuital e sistêmica, o que limita a eficácia de intervenções tardias isoladas e reforça a necessidade de estratégias terapêuticas precoces e multimodais direcionadas simultaneamente à inflamação, ao metabolismo glial e à plasticidade sináptica.
Palavras-chave: Microglia. Neuroinflamação crônica. Citocinas pró-inflamatórias. Sensibilização central. Cronificação neurológica.
Abstract
Introduction: Sustained microglial activation has been recognized as a central component of chronic neuroinflammation, integrating cytokine amplification, metabolic reprogramming, and circuit remodeling in the development of persistent neurological conditions. Objective: To systematically analyze the neuroimmune mechanisms involved in neurological chronification, emphasizing the role of microglia as an integrative axis between inflammatory signaling, synaptic plasticity, and systemic dysfunction. Methodology: This is a systematic review conducted according to PRISMA 2020 guidelines, with searches performed in PubMed, Scopus, BVS, and SciELO databases, including full-text open-access articles published within the last five years. After eligibility screening and qualitative synthesis, studies addressing persistent microglial activation and pro-inflammatory cytokine amplification were analyzed. Results: Findings demonstrate that microglia orchestrate intracellular molecular pathways, bioenergetic collapse, bidirectional glia–neuron communication, and peripheral influences, establishing a self-regenerative neuroinflammatory state responsible for maintaining central hyperexcitability and circuit dysfunction. Cytokine amplification was identified as a structural element of chronification, sustaining synaptic reorganization and resistance to spontaneous resolution. Conclusion: It is concluded that neurological chronification results from profound functional reprogramming of microglia across molecular, cellular, circuital, and systemic dimensions, limiting the effectiveness of late isolated interventions and reinforcing the need for early multimodal therapeutic strategies targeting inflammation, glial metabolism, and synaptic plasticity.
Keywords: Microglia. Chronic neuroinflammation. Pro-inflammatory cytokines. Central sensitization. Neurological chronification.
1 INTRODUÇÃO
A microglia constitui o principal sistema imunocompetente residente do sistema nervoso central, desempenhando papel estruturante na vigilância do parênquima neural, na regulação do microambiente sináptico e na manutenção da homeostase tecidual. Em condições fisiológicas, sua ativação é rigidamente controlada e orientada à resolução inflamatória; entretanto, exposições persistentes a estímulos nocivos podem promover deslocamento funcional dessas células para estados reativos duradouros, acompanhados por comprometimento progressivo do suporte trófico neuronal e reorganização adversa do equilíbrio neuroglial. Tal enquadramento posiciona a neuroinflamação não apenas como resposta adaptativa transitória, mas como potencial eixo organizador de disfunção quando mecanismos regulatórios falham, inaugurando trajetórias patológicas de longa duração no tecido nervoso (MUZIO, 2021).
A consolidação desses estados reativos envolve reprogramação fenotípica da microglia, caracterizada por redução da plasticidade adaptativa e estabilização de perfis pró inflamatórios capazes de se manter independentemente do estímulo inicial. Esse fenômeno desloca a compreensão da cronificação de um paradigma meramente temporal para um modelo baseado em mudança de estado celular, no qual a microglia passa a operar como amplificador persistente de perturbações neurais. A transição entre inflamação aguda e crônica, nesse contexto, emerge como processo ativo de reorganização funcional, marcado pela perda da reversibilidade biológica e pela instalação de ambientes neurotóxicos autorregenerativos (SOCODATO, 2025).
Para além dos determinantes intrínsecos ao sistema nervoso central, sinais periféricos de natureza metabólica, hormonal e microbiana exercem influência direta sobre o estado microglial, ampliando a interdependência entre homeostase sistêmica e estabilidade neurofuncional. Essa integração corpo–cérebro reforça que a persistência da neuroinflamação pode resultar da convergência entre estímulos centrais e extracerebrais, conferindo maior complexidade causal aos processos de cronificação e dificultando abordagens terapêuticas unidimensionais. Nesse cenário, a microglia assume posição de núcleo integrador dessas informações, modulando respostas inflamatórias centrais em função de entradas periféricas contínuas (YOUNG & SAMUEL, 2025).
A manutenção prolongada desse ambiente inflamatório associa-se a trajetórias progressivas de disfunção neural e neurodegeneração, com repercussões diretas sobre condições clínicas de elevada prevalência e impacto social, como dor crônica e doenças neurodegenerativas. Embora a literatura reconheça amplamente essa associação, persiste uma lacuna relevante na integração sistemática dos mecanismos que conectam ativação microglial sustentada, amplificação citocínica e reorganização funcional em múltiplos níveis neuroanatômicos. A fragmentação conceitual das evidências limita a construção de modelos fisiopatológicos coerentes e compromete a identificação de pontos críticos passíveis de intervenção terapêutica (ADAMU, 2024).
Diante desse panorama, impõe-se a necessidade de uma síntese sistemática que organize as evidências recentes em uma progressão neurofisiológica contínua, desde a ativação inicial até a expressão clínica persistente, permitindo delimitar nós mecanísticos centrais e lacunas do conhecimento atual. Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar sistematicamente, nos últimos cinco anos, as evidências sobre ativação microglial sustentada e amplificação citocínica pró-inflamatória como eixos da cronificação de processos neurológicos, integrando dados experimentais e conceituais em um modelo fisiopatológico unificado, com relevância translacional.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Referencial teórico e estado da arte
A cronificação de processos neurológicos tem sido progressivamente reinterpretada como fenômeno emergente de redes neuroimunes persistentes, nas quais a microglia deixa de atuar como elemento regulador transitório e passa a integrar circuitos patológicos estáveis. A literatura recente descreve que essa transição é sustentada por arquiteturas moleculares integradas envolvendo receptores de reconhecimento de padrão, cascatas quinásicas e fatores de transcrição inflamatórios, formando loops de retroalimentação capazes de converter estímulos breves em estados duradouros de hiperreatividade neural. Essa organização intracelular cria uma base bioquímica para a manutenção da inflamação central, estabelecendo continuidade funcional entre insulto inicial e disfunção persistente, o que desloca o entendimento da cronificação para um modelo sistêmico e autorregenerativo (PU, 2026).
Dentro desse arcabouço, o inflamassoma NLRP3 emerge como elemento estruturante da amplificação inflamatória, promovendo ativação de caspase-1, maturação de interleucinas pró-inflamatórias e indução de morte celular inflamatória, com repercussões diretas sobre a integridade do microambiente neural. A ativação sustentada desse complexo não apenas intensifica a produção citocínica, mas também consolida um estado microglial refratário à resolução, conectando inflamação intracelular à degradação progressiva do tecido nervoso. Tal mecanismo fornece sustentação teórica para compreender como vias imunológicas originalmente protetoras passam a operar como motores centrais da cronificação (CHEN, 2023).
Paralelamente, evidências apontam para profunda reorganização imunometabólica da microglia durante estados inflamatórios prolongados, caracterizada por acúmulo lipídico, alterações bioenergéticas e ativação de eixos associados à degeneração. Essa reprogramação metabólica fixa a célula em um fenótipo disfuncional, comprometendo sua capacidade de retorno ao estado homeostático e perpetuando a liberação de mediadores inflamatórios. A incorporação dessa dimensão metabólica amplia o referencial teórico ao demonstrar que a cronificação não é apenas inflamatória, mas também metabólica, envolvendo alterações estruturais duráveis no funcionamento celular (OYAMADA, 2025).
Além dos mecanismos intrínsecos ao sistema nervoso central, fatores periféricos inflamatórios exercem papel relevante na manutenção da ativação microglial, atuando como gatilhos adicionais de polarização pró-inflamatória. A exposição crônica a mediadores sistêmicos é capaz de induzir simultaneamente vias oxidativas e inflamatórias na microglia, reforçando a interdependência entre inflamação periférica e central. Esse acoplamento corpo– cérebro sustenta a ideia de que processos neurológicos crônicos podem ser continuamente alimentados por sinais extracerebrais, ampliando o espectro causal da neuroinflamação persistente (BARTRA, 2025).
A heterogeneidade funcional da microglia também se destaca como componente essencial do estado da arte, uma vez que subpopulações distintas exibem capacidades diferenciadas de remodelação sináptica, liberação citocínica e interação com neurônios. Essa diversidade fenotípica permite respostas inflamatórias espacialmente específicas e temporalmente prolongadas, favorecendo alterações estruturais em circuitos neurais associados à sensibilização central. Tal perspectiva reforça que a cronificação não decorre de uma população microglial homogênea, mas da atuação coordenada de subtipos celulares especializados em diferentes aspectos da disfunção neural (JI, 2025).
Por fim, a interação bidirecional entre microglia e neurônios tem sido descrita como eixo fundamental da manutenção da hiperexcitabilidade central, envolvendo sinalização purinérgica, fractalcina e outros mediadores que sustentam ciclos de retroalimentação excitatória. Esse crosstalk glia–neurônio consolida alterações funcionais em redes centrais, convertendo inflamação persistente em expressão clínica prolongada. A incorporação desses circuitos ao referencial teórico permite compreender a cronificação como produto da integração entre inflamação, remodelação sináptica e reorganização de redes neurais, fechando o arco conceitual entre célula imune residente e comportamento patológico (ZHANG, 2023).
3 METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão sistemática da literatura, conduzida conforme as diretrizes PRISMA 2020, com delineamento observacional secundário e abordagem qualitativa integrativa, destinada a sintetizar evidências mecanísticas sobre ativação microglial sustentada e amplificação citocínica pró-inflamatória associadas à cronificação de processos neurológicos.
As buscas foram realizadas nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e SciELO, contemplando estudos publicados entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Foram considerados artigos redigidos em inglês e português, disponíveis em texto completo e de acesso aberto.
A estratégia de busca combinou descritores controlados MeSH/DeCS e termos livres. Os descritores principais utilizados foram Microglia, Neuroinflammation, Cytokines, Central Sensitization e Chronic Disease, associados a termos não controlados como “pro-inflammatory cytokines”, “neuroimmune interaction” e “neurological chronicity”. As combinações foram estruturadas por meio dos operadores booleanos AND e OR, adotando-se a seguinte lógica geral:
(Microglia AND Neuroinflammation) AND (Cytokines OR “pro-inflammatory cytokines”) AND (Central Sensitization OR Chronic Disease).
Foram incluídos estudos originais experimentais, translacionais ou clínicos que abordassem explicitamente ativação microglial, sinalização inflamatória central ou mecanismos relacionados à persistência de disfunção neurológica. Excluíram-se revisões narrativas ou sistemáticas, editoriais, cartas ao editor, relatos de caso, estudos sem acesso ao texto completo, publicações fora do intervalo temporal estabelecido e trabalhos que não apresentassem análise direta do eixo microglia–inflamação–cronificação.
Após a identificação inicial, procedeu-se à remoção de duplicatas. Em seguida, realizou se triagem por títulos e resumos, seguida da leitura integral dos textos potencialmente elegíveis. A seleção final foi baseada na aderência aos critérios de inclusão e na relevância mecanística para o objetivo do estudo.
A extração de dados contemplou características do modelo experimental ou populacional, vias neuroimunes envolvidas, mediadores inflamatórios descritos e implicações para processos de cronificação neurológica. As informações foram organizadas em matriz analítica padronizada.
Os dados extraídos foram submetidos à síntese qualitativa narrativa, priorizando integração conceitual e organização neurofisiológica progressiva dos achados, sem realização de metanálise devido à heterogeneidade metodológica dos estudos incluídos. O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão foi estruturado conforme fluxograma PRISMA 2020, garantindo transparência e reprodutibilidade do percurso investigativo.
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Inicialmente, Wang (2024) delimita a microglia espinal como o primeiro operador neuroimune capaz de converter nocicepção periférica em sensibilização central persistente, ao organizar a substância cinzenta dorsal como sítio de acoplamento entre sinalização inflamatória e excitabilidade neuronal. O autor demonstra que a ativação microglial sustentada favorece cascatas que mantêm a fosforilação de p38 MAPK e amplificam a liberação de mediadores pró nociceptivos, com repercussão direta sobre a estabilidade do controle inibitório medular. Nesse enquadramento, a liberação microglial de BDNF e a modulação de alvos iônicos associados ao gradiente de cloreto figuram como elementos determinantes da desinibição, o que eleva o ganho sináptico de circuitos nociceptivos e facilita a transmissão ascendente. O ponto crítico reside no caráter autossustentado do estado reativo: a microglia deixa de ser resposta transitória e passa a integrar o regime funcional do circuito, mantendo a excitabilidade mesmo após atenuação do estímulo inicial. Assim, o estudo sustenta que a cronificação emerge quando a medula passa a operar sob um “set-point” neuroinflamatório, no qual a microglia condiciona a estabilidade do fenótipo persistente.
Em continuidade ao eixo espinal descrito, Alhadlaq (2023) fornece evidência de necessidade funcional ao demonstrar que a via p38 MAPK microglial não atua como marcador secundário, mas como componente obrigatório para a manutenção da hipersensibilidade mecânica sustentada. O autor demonstra que a inibição farmacológica de p38 reduz de forma consistente a alodinia, indicando que a cronificação depende de sinalização microglial ativa e contínua, e não apenas de plasticidade neuronal residual. Além disso, ao relacionar a supressão da via com redução de mediadores inflamatórios e reversão de hiperexcitabilidade, o trabalho reforça que a microglia opera como fonte de manutenção do ambiente pró-nociceptivo. A interpretação integrada é que o circuito medular se estabiliza por controle glial de vias quinásicas, de modo que interromper p38 afeta o “motor” que sustenta a persistência do estado.
Esse achado também delimita uma implicação translacional: a via p38 apresenta coerência mecanística como alvo, pois interfere no núcleo de sustentação do fenótipo crônico e não em consequência tardia inespecífica. Assim, consolida-se a noção de que cronificação é um estado regulado por nós intracelulares gliais, com impacto direto sobre a expressão comportamental.
Avançando do nível de circuito para o plano de arquitetura celular, Pu (2026) organiza uma visão integrada de sinalização microglial na dor neuropática ao descrever como receptores e cascatas intracelulares se acoplam em loops de retroalimentação capazes de manter a produção citocínica e a reatividade glial. O autor estrutura a convergência de TLRs, NF-κB, PI3K/Akt e JAK/STAT como um sistema regulatório que estabiliza a transcrição de mediadores pró-inflamatórios e sustenta o estado reativo, convertendo estímulos transitórios em regimes duradouros de resposta. Essa organização explica, com base molecular, por que o eixo espinal não se resolve espontaneamente: a microglia passa a operar sob um programa sinalizador persistente que mantém citocinas e quimiocinas em níveis funcionalmente relevantes. Ao enfatizar mecanismos de amplificação e manutenção, o estudo fornece coerência mecanística para a continuidade entre fase inicial e fase crônica, sem depender de reinjúrias sucessivas para justificar persistência. Do ponto de vista neurofisiológico, a consequência é a manutenção de um microambiente que favorece hiperexcitabilidade e reforço sináptico nociceptivo, sustentando sensibilização central como estado estável. Assim, a cronificação se define como produto de circuitos moleculares autoperpetuantes que conferem estabilidade temporal à neuroinflamação.
No mesmo encadeamento de amplificação efetora, Chen (2023) descreve o inflamassoma NLRP3 como módulo crítico que transforma sinalização pró-inflamatória em maturação citocínica sustentada e dano inflamatório, elevando a estabilidade do estado crônico. O autor detalha que a ativação do NLRP3 promove recrutamento de componentes adaptadores e ativação de caspase-1, com processamento contínuo de IL-1β e IL-18, além de engajamento de mecanismos associados à piroptose e liberação de sinais de perigo. Esse conjunto amplia a inflamação não apenas por aumentar a carga citocínica, mas por gerar um ambiente que reforça a própria ativação microglial, consolidando ciclos de retroalimentação entre dano tecidual e resposta imune residente. Em termos de cronificação, isso significa que o sistema deixa de depender apenas de “sinal” e passa a produzir “substrato” inflamatório adicional, pois morte inflamatória e DAMPs sustentam a reatividade. A leitura integrada com os parágrafos anteriores é direta: as cascatas quinásicas e transcricionais que mantêm reatividade ganham aqui um braço efetor que perpetua inflamação por vias de processamento e dano. Assim, a persistência do fenótipo neurológico crônico passa a envolver manutenção molecular e também deterioração inflamatória do microambiente neural.
Finalmente, Oyamada (2025) acrescenta a dimensão imunometabólica como determinante de irreversibilidade funcional ao demonstrar que a sinalização crônica por IL-21 reprograma a microglia para um estado energeticamente reorganizado, associado a acúmulo lipídico e consolidação de perfis degenerativos. O autor detalha que a ativação de HIF-1α e o engajamento de eixos relacionados à captação/armazenamento lipídico sustentam uma microglia metabolicamente “fixada”, menos responsiva a mecanismos resolutivos e mais propensa a manter produção inflamatória. Essa reconfiguração implica que a persistência do estado reativo não depende apenas de cascatas de sinalização clássicas, mas de alterações duráveis na economia energética e na gestão de lipídios, com impacto sobre a função e a estabilidade do fenótipo. Em termos de amplificação citocínica, o efeito é estrutural: a microglia reprogramada mantém um microambiente pró-inflamatório por maior estabilidade do próprio estado celular, reforçando a continuidade temporal da inflamação. Integrando com o inflamassoma e as vias de sinalização, o estudo fundamenta que cronificação envolve não só ativação persistente, mas reconfiguração metabólica que sustenta a permanência do perfil pró inflamatório. Assim, a tese central se torna mecanisticamente sólida: a cronificação é estabilizada por acoplamento entre sinalização inflamatória e reprogramação metabólica microglial.
Em continuidade à reprogramação imunometabólica previamente estabelecida, Bartra (2025) demonstra que mediadores inflamatórios periféricos exercem influência direta sobre o estado microglial central, ao evidenciar que a proteína C-reativa monomérica é capaz de induzir simultaneamente a ativação de iNOS, COX-2 e do inflamassoma NLRP3. O autor descreve que esse estímulo sistêmico promove aumento sustentado da produção de óxido nítrico e prostanoides, ampliando o estresse oxidativo e reforçando a polarização pró-inflamatória da microglia. Tal mecanismo revela que a cronificação não se mantém exclusivamente por sinais intrínsecos ao sistema nervoso central, mas também por entradas periféricas contínuas que alimentam a reatividade glial. A consequência neurofisiológica é a consolidação de um eixo corpo–cérebro no qual inflamação sistêmica se traduz em amplificação citocínica central. Integrando-se aos achados anteriores, esse processo reforça a estabilidade do fenótipo microglial reprogramado e amplia o alcance da neuroinflamação para além do compartimento neural.
Avançando do domínio inflamatório para a reorganização estrutural das redes neurais, Ji (2025) caracteriza subpopulações microgliais funcionalmente especializadas, incluindo fenótipos CD11c⁺ e MMP-9, capazes de promover poda sináptica patológica de forma dependente do contexto inflamatório. O autor demonstra que essas células atuam seletivamente sobre sinapses excitatórias, alterando padrões de conectividade e favorecendo a consolidação de circuitos associados à sensibilização central. Essa heterogeneidade microglial confere capacidade de remodelação espacialmente dirigida, permitindo que a inflamação persistente se traduza em alterações anatômicas duráveis. O estudo evidencia que a cronificação envolve não apenas manutenção de mediadores solúveis, mas também reestruturação física das redes neurais, integrando inflamação e plasticidade sináptica em um mesmo processo patológico.
Aprofundando essa dimensão sináptica, Yang (2025) demonstra que a microglia atua como agente ativo de sinaptotoxicidade, regulando diretamente a perda de conectividade funcional em regiões centrais implicadas na dor crônica e em déficits cognitivos associados. O autor descreve que a microglia estabelece contato físico com elementos pré- e pós-sinápticos, modulando a liberação de neurotransmissores e interferindo na estabilidade das sinapses. Esse mecanismo amplia a compreensão da cronificação ao mostrar que a microglia não apenas remove conexões, mas participa ativamente da reorganização funcional dos circuitos. Ao integrar sinalização inflamatória e interação estrutural com neurônios, o estudo posiciona a microglia como arquiteta direta da disfunção circuital persistente.
Na interface glia–neurônio, Zhang (2023) evidencia a existência de um circuito fechado mediado por CX3CR1 e CXCR5, no qual sinais neuronais ativam microglia que, por sua vez, intensificam a excitabilidade neuronal, estabelecendo um loop excitatório autossustentado. O autor demonstra que essa retroalimentação mantém níveis elevados de atividade sináptica e reforça a liberação de mediadores pró-inflamatórios, perpetuando a hiperexcitabilidade central. Esse arranjo funcional conecta remodelação sináptica e inflamação em um único eixo dinâmico, explicando a persistência da sensibilização mesmo na ausência de estímulos periféricos adicionais. Assim, consolida-se um modelo no qual a comunicação bidirecional glia–neurônio sustenta a continuidade do estado patológico.
Quanto o colapso circuital descrito, McKenzie (2025) demonstra que a manutenção desse estado crônico depende também de falência metabólica glial, caracterizada por redução do suporte energético aos neurônios e aumento da vulnerabilidade estrutural das redes centrais. O autor descreve que a microglia reativa perde progressivamente sua capacidade de fornecer metabólitos essenciais, contribuindo para disfunção sináptica e instabilidade neuronal. Esse comprometimento bioenergético amplia o impacto da inflamação ao adicionar uma camada de insuficiência metabólica ao processo de cronificação. Integrando-se aos mecanismos previamente descritos, o estudo evidencia que a persistência da disfunção neural resulta da convergência entre inflamação, remodelação sináptica e colapso energético, consolidando um estado central de baixa resiliência funcional.
Expandindo o colapso energético central para a integração sistêmica, Young & Samuel (2025) demonstram que fatores dietéticos, hormonais e derivados do microbioma modulam diretamente a ativação microglial por meio de vias inflamatórias centrais, com destaque para a sinalização dependente de NF-κB. Os autores descrevem que alterações metabólicas periféricas são capazes de atravessar barreiras fisiológicas e influenciar o estado funcional da microglia, estabelecendo um eixo bidirecional corpo–cérebro que sustenta a inflamação central. Esse acoplamento sistêmico amplia o espectro causal da cronificação, indicando que a persistência do fenótipo neuroinflamatório resulta da convergência entre sinais centrais e extracerebrais. Do ponto de vista funcional, a microglia emerge como núcleo integrador dessas informações, traduzindo perturbações periféricas em manutenção de excitabilidade e instabilidade circuital no sistema nervoso central.
Em continuidade a essa integração sistêmica, Adamu (2024) evidencia que a ativação microglial sustentada culmina em ruptura progressiva da barreira hematoencefálica, infiltração de células imunes periféricas e aumento da produção de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio. O autor descreve que essa perda de integridade vascular amplia o acesso de mediadores inflamatórios ao parênquima neural, reforçando ciclos adicionais de ativação glial e dano tecidual. Esse processo estabelece um circuito degenerativo no qual inflamação central e periférica passam a operar de forma sinérgica, intensificando a carga oxidativa e comprometendo a estabilidade estrutural do tecido nervoso. Assim, a cronificação adquire também um componente vascular-imunológico, ampliando a extensão do dano além dos limites iniciais do circuito glia–neurônio.
Na manutenção desse estado pró-inflamatório ampliado, Müller (2025) demonstra que a comunicação bidirecional persistente entre microglia e células imunes periféricas sustenta um crosstalk neuroimune capaz de manter níveis elevados de citocinas e quimiocinas no sistema nervoso central. O autor descreve que essa interação contínua reforça a polarização pró
inflamatória da microglia e perpetua a ativação de vias associadas à sensibilização central. Esse mecanismo consolida um sistema fechado de retroalimentação inflamatória, no qual entradas periféricas e respostas centrais se reforçam mutuamente. A consequência é a estabilização de um microambiente neural persistentemente reativo, resistente a mecanismos endógenos de resolução.
No plano transcricional, Socodato (2025) demonstra que a persistência da ativação microglial decorre de reprogramação profunda da expressão gênica, com redução da plasticidade adaptativa e fixação dessas células em um estado funcional irreversível. O autor descreve alterações duráveis em programas regulatórios associados à inflamação e ao metabolismo, que limitam a capacidade da microglia de retornar ao perfil homeostático. Essa reprogramação fornece base molecular para a resistência à resolução observada nos níveis sistêmico e circuital, integrando sinalização inflamatória, metabolismo e controle gênico em um mesmo eixo de estabilização do fenótipo crônico.
Integrando essas múltiplas camadas de disfunção, Muzio (2021) propõe a microglia como eixo fundador da neurodegeneração inflamatória, conectando vigilância imunológica inicial, amplificação citocínica, remodelação sináptica e deterioração estrutural em um contínuo fisiopatológico único. O autor descreve que, uma vez estabelecido o estado reativo persistente, a microglia passa a coordenar processos degenerativos progressivos, atuando como mediadora central entre inflamação e perda neuronal. Essa síntese conceitual consolida a cronificação como resultado de uma rede integrada de eventos neuroimunes, na qual a microglia ocupa posição hierárquica na organização da disfunção neural de longo prazo.
No plano da expressão clínica dessa rede neuroinflamatória consolidada, Rogan (2026) demonstra que a exposição precoce a estados inflamatórios centrais gera vulnerabilidade plástica duradoura, predispondo à sensibilização permanente e ao desenvolvimento de fenótipos crônicos ao longo do amadurecimento neural. O autor descreve que a microglia reativa interfere em períodos críticos de organização sináptica, alterando trajetórias de conectividade e estabelecendo bases estruturais para disfunção persistente. Esse efeito é particularmente relevante em cérebros em desenvolvimento, nos quais a inflamação prolongada compromete processos de refinamento circuital e consolidação funcional. Assim, a cronificação passa a ser compreendida também como resultado de interferência neuroimune em janelas temporais sensíveis, ampliando o impacto do eixo microglial para além da dor crônica adulta e incluindo vulnerabilidades de longa duração.
Do ponto de vista translacional, Cavalcanti (2025) evidencia que, embora a microglia represente alvo terapêutico central, a heterogeneidade fenotípica dessas células e a dependência temporal dos mecanismos inflamatórios impõem limites significativos à reversão tardia do estado crônico. O autor demonstra que intervenções eficazes requerem sincronização precisa com fases específicas da ativação microglial, uma vez que estados metabolicamente reprogramados exibem resistência à modulação farmacológica. Essa observação reforça que a cronificação não é facilmente reversível após estabilização do fenótipo reativo, implicando a necessidade de estratégias precoces e multifatoriais. A leitura integrada desses dados aponta que o fracasso terapêutico em quadros crônicos decorre, em parte, da subestimação da complexidade e da estabilidade do sistema neuroimune envolvido.
Expandindo novamente o eixo sistêmico, Young (2025) demonstra que sinais metabólicos periféricos, incluindo alterações nutricionais e hormonais, modulam continuamente a ativação microglial por meio de vias inflamatórias centrais, reforçando a persistência do estado reativo. O autor descreve que essas entradas extracerebrais mantêm a microglia em regime pró-inflamatório mesmo na ausência de novos insultos neurais, sustentando a hiperexcitabilidade central. Esse achado consolida a cronificação como fenômeno distribuído, dependente de integração constante entre sistemas corporais e circuitos neurais, ampliando a compreensão do papel da microglia como hub regulador entre homeostase sistêmica e estabilidade neurofuncional.
No nível da manutenção circuital final, Zhang (2023) evidencia que loops sinápticos excitatórios mediados por comunicação bidirecional glia–neurônio permanecem ativos durante fases tardias da cronificação, sustentando padrões de hiperatividade neuronal. O autor demonstra que essa retroalimentação mantém liberação de mediadores inflamatórios e excitabilidade sináptica elevada, mesmo após a estabilização das alterações estruturais. Esse mecanismo fecha o ciclo funcional iniciado na medula, integrando inflamação, remodelação sináptica e atividade elétrica em um sistema autoperpetuante, responsável pela persistência dos sintomas clínicos.
Finalmente, Pu (2026) sintetiza esses múltiplos níveis ao demonstrar que circuitos moleculares microgliais, loops sinápticos centrais e sinais sistêmicos convergem para formar um sistema neuroinflamatório autorregenerativo, no qual a remoção do insulto inicial não é suficiente para restaurar a homeostase. O autor descreve que essa convergência resulta em estabilidade dinâmica do estado crônico, sustentada por interação contínua entre vias
intracelulares, metabolismo glial e comunicação intercelular. Essa integração mecanística explica por que a cronificação se mantém apesar de intervenções isoladas e reforça a necessidade de abordagens terapêuticas que considerem simultaneamente os eixos molecular, celular, circuital e sistêmico.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ativação microglial sustentada estabelece um eixo integrador entre sinalização inflamatória, reprogramação metabólica e remodelação sináptica, configurando um estado neurofisiológico estável responsável pela cronificação de processos neurológicos. A amplificação citocínica não atua como fenômeno secundário, mas como componente estruturante de circuitos moleculares e funcionais autorregenerativos, nos quais a microglia assume papel central na manutenção da hiperexcitabilidade e da disfunção circuital.
Os objetivos propostos são atingidos ao demonstrar que a persistência clínica decorre da convergência entre vias intracelulares gliais, colapso bioenergético, comunicação bidirecional glia–neurônio e integração sistêmica corpo–cérebro, consolidando um microambiente neural resistente à resolução espontânea. A cronificação emerge, portanto, como resultado de reprogramação funcional profunda da microglia, e não como mera continuidade de estímulos nociceptivos periféricos.
Do ponto de vista teórico, o estudo contribui ao integrar dimensões molecular, celular, circuital e sistêmica em um modelo unificado de neuroinflamação crônica, redefinindo a microglia como eixo organizador da persistência patológica. Em termos práticos, os achados indicam que intervenções terapêuticas isoladas e tardias apresentam eficácia limitada, reforçando a necessidade de estratégias precoces e multimodais direcionadas simultaneamente à sinalização inflamatória, ao metabolismo glial e à plasticidade sináptica.
Como limitação, destaca-se a predominância de evidências pré-clínicas em parte dos mecanismos descritos, o que restringe a extrapolação direta para contextos humanos complexos. Estudos futuros devem priorizar abordagens translacionais que integrem biomarcadores imunometabólicos, dinâmica microglial in vivo e correlações clínicas longitudinais, visando validar alvos terapêuticos e refinar janelas de intervenção.
REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de Medicina da Faculdade Paraíso – Araripina, Campus Araripina.
2Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Zarns, Campus Salvador.
3Discente do Curso Superior de Medicina do Instituto Idomed, Campus Juazeiro da Bahia.
4Mestre em Epidemiologia em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Servidora da Secretaria Estadual da Saúde do Piauí (SESAPI).
