ASSOCIATION BETWEEN PARTIAL HELLP SYNDROME, FETAL CENTRALIZATION, AND INFECTION IN A DICHORIONIC-DIAMNIOTIC TWIN PREGNANCY: A CASE REPORT.
ASOCIACIÓN ENTRE HELLP PARCIAL, CENTRALIZACIÓN FETAL E INFECCIÓN EN UN EMBARAZO GEMELAR DICORIÓNICO-DIAMNIÓTICO: UN REPORTE DE CASO
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202508132203
José Oriel Murilo Lezzi da Silva¹; Joao Vítor Miranda Balbinot²; Iury Braun Klipel³; Anny Sibelly Dias Cury⁴; Vitor Tessari Rossoni⁵; Giovanna Mayumi Kamiya Viotto⁶; Orientador: Antonio Cícero Santana⁷; Coorientadora: Dayane Santos Silva⁸; Coorientadora: Ana Claudia Barros da Silva Vieira⁹; Coorientadora: Gleice Rodrigues Eller Gonzaga¹⁰.
ABSTRACT
This study describes a clinical case of a dichorionic-diamniotic twin pregnancy, with progression marked by maternal-fetal complications including urinary tract infection, partial HELLP syndrome, and fetal brain-sparing effect, based on clinical, laboratory, and ultrasound findings. Twin pregnancy represents an obstetric challenge due to the higher incidence of complications such as preeclampsia, selective fetal growth restriction, and infections, demanding intensive monitoring. The objective of this study is to report and analyze the case in light of recent scientific literature in order to discuss clinical implications, outcomes, and therapeutic strategies used. The case involves a 31-year-old multiparous woman pregnant, admitted at 30 weeks of gestation with lumbar pain, proteinuria, anemia, leukocytosis, and exams compatible with pyelonephritis and hepatic impairment. Ultrasound revealed a fetus with brain-sparing and biometric parameters consistent with growth restriction. The clinical management included antibiotic therapy, serial Doppler fetal monitoring, and delivery at 32 weeks, resulting in the birth of live preterm neonates. The discussion compares the case with recent studies that associate urinary tract infection with increased risk of pyelonephritis and preterm birth, and partial HELLP syndrome as a possible hypertensive outcome even in the absence of overt preeclampsia. The fetal brain-sparing effect was interpreted as an adaptive mechanism to restriction, according to specialized literature. It is concluded that early and integrated surveillance of twin pregnancies with multiple complications is essential to reduce maternal and fetal morbidity and mortality, requiring a multidisciplinary approach and adequate neonatal support.
KEYWORDS: Twin pregnancy; Urinary tract infection; HELLP syndrome; Brain-sparing effects; Prematurity.
RESUMO
Este estudo descreve um caso clínico de gestação gemelar dicoriônica-diamniótica, com evolução marcada por complicações materno-fetais, incluindo infecção urinária, síndrome HELLP parcial e centralização fetal, com base em achados clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos. Gestação gemelar representa um desafio obstétrico, devido à maior incidência de intercorrências como pré-eclâmpsia, restrição de crescimento fetal seletiva e infecções, exigindo vigilância intensiva. O objetivo deste trabalho é relatar e analisar o caso sob a perspectiva da literatura científica recente, a fim de discutir as implicações clínicas, os desfechos e as estratégias terapêuticas utilizadas. O caso refere-se a gestante de 31 anos, multípara, admitida na 30ª semana de gestação com dor lombar, proteinúria, anemia, leucocitose e exames compatíveis com pielonefrite e comprometimento hepático. A ultrassonografia evidenciou feto com centralização e biometria compatível com restrição de crescimento. A conduta clínica incluiu antibioticoterapia, monitoramento fetal com Doppler seriado e interrupção gestacional na 32ª semana, com nascimento de recém-nascidos prematuros vivos. A discussão confronta o caso com estudos recentes que associam infecção urinária a maior risco de pielonefrite e parto prematuro, e a síndrome HELLP parcial como desfecho hipertensivo possível mesmo sem pré-eclâmpsia definida. A centralização fetal foi interpretada como mecanismo adaptativo à restrição, conforme literatura especializada. Conclui-se que a vigilância precoce e integrada de casos gemelares com múltiplas complicações é essencial para reduzir a morbimortalidade materna e fetal, exigindo abordagem multidisciplinar e suporte neonatal adequado.
PALAVRAS-CHAVE: Gestação gemelar; Infecção urinária; Síndrome HELLP; Centralização fetal; Prematuridade.
INTRODUÇÃO
A gestação gemelar é uma condição obstétrica desafiadora, associada a um risco significativamente aumentado de complicações materno-fetais quando comparada à gestação única. O crescimento da incidência de gestações múltiplas nas últimas décadas está diretamente relacionado ao uso de técnicas de reprodução assistida e ao adiamento da maternidade, fatores que favorecem a ovulação múltipla e, consequentemente, a fecundação de mais de um óvulo (MORAIS; CARVALHO; VELA, 2020; DAI et al., 2022).
A gestação dicoriônica-diamniótica (DCDA), caracterizada pela presença de duas placentas e duas cavidades amnióticas, representa a forma mais comum de gemelaridade e é geralmente considerada a configuração mais segura entre os tipos possíveis (VON KAISENBERG et al., 2021). No entanto, mesmo nessa configuração, complicações como parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino seletiva (RCIU), pré-eclâmpsia, infecções e distúrbios placentários são frequentemente observadas (DAI et al., 2022; ELFITURI et al., 2021).
A prematuridade, em particular, destaca-se como fator crítico, sendo responsável por grande parte da morbidade e mortalidade perinatal (KIM et al., 2023). A presença de comorbidades maternas, como hipertensão crônica, doenças autoimunes ou insuficiência renal, pode agravar ainda mais esse cenário, exigindo cuidados especializados e decisões clínicas complexas (ELFITURI et al., 2021; FILHO et al., 2024). Em casos como o descrito por Filho et al. (2024), a presença de doenças crônicas como insuficiência renal, manejadas com hemodiálise, impõe desafios adicionais ao cuidado pré-natal.
Além disso, a literatura recente tem reportado síndromes específicas em gestações DCDA, como a sequência anemia-policitemia (TAPS), embora mais comum em gestações monocoriônicas. Relatos como o de Jeyaseelan et al. (2023) demonstram que, mesmo na ausência de estruturas placentárias compartilhadas, discrepâncias significativas entre os fetos devem motivar investigações diagnósticas aprofundadas.
Outro aspecto relevante diz respeito à associação entre gestações gemelares e infecções maternas, como pielonefrite e infecção urinária, que podem precipitar o trabalho de parto prematuro e agravar complicações já existentes (ALLEN, 2021; ANSALDI; DE TEJADA WEBER, 2023; GRETTE et al., 2020). A presença de infecção pode ainda intensificar quadros clínicos de síndromes como a HELLP parcial ou levar à redistribuição do fluxo sanguíneo fetal — a chamada centralização fetal — em resposta à hipóxia ou estresse (OCHSENBEIN- KÖLBLE, 2021; D’ANTONIO et al., 2024).
A RCIU, quando presente em gestação DCDA, deve ser considerada um marcador relevante de risco fetal. A meta-análise conduzida por D’Antonio et al. (2024) revelou que o feto acometido por restrição seletiva apresenta maior probabilidade de morte intrauterina, internação neonatal prolongada e complicações respiratórias. Nesse contexto, torna-se essencial a identificação precoce da assimetria de crescimento fetal, associada ao uso de Doppler e estratégias clínicas atualizadas (DIPAK et al., 2021; DELABAERE et al., 2023).
O manejo clínico da gestação gemelar DCDA requer, portanto, um modelo de cuidado baseado em evidências, com seguimento ultrassonográfico frequente, avaliação dos fluxos Doppler e vigilância laboratorial rigorosa (VON KAISENBERG et al., 2021). Protocolos bem estabelecidos para gestações gemelares são fundamentais para antecipar complicações e permitir decisões obstétricas individualizadas.
A complexidade da gestação DCDA se intensifica ainda mais na presença de múltiplas complicações, como a síndrome HELLP parcial, infecção e centralização fetal. A síndrome HELLP, uma forma grave de pré-eclâmpsia, pode apresentar-se de modo incompleto, dificultando o diagnóstico e aumentando o risco de desfechos negativos (FERNANDES et al., 2024; GARLA et al., 2025). Quando associada à centralização fetal, o feto experimenta redirecionamento do fluxo sanguíneo para órgãos nobres como cérebro e coração, comprometendo a oxigenação e o crescimento fetal (DAI et al., 2022).
Diante da escassez de relatos que abordem casos com múltiplas complicações associadas, torna-se relevante documentar e analisar situações clínicas complexas, como as que envolvem HELLP parcial, infecção e centralização fetal em gestações gemelares DCDA. A compreensão dos mecanismos fisiopatológicos envolvidos e das melhores práticas de manejo contribui para o avanço do cuidado obstétrico especializado.
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo geral relatar um caso de gestação gemelar dicoriônica-diamniótica com complicações materno-fetais associadas, com ênfase em HELLP parcial, centralização fetal e infecção. Os objetivos específicos são: (1) descrever o curso clínico da paciente e a evolução das complicações durante a gestação; (2) analisar os achados obstétricos e neonatais à luz da literatura recente; e (3) discutir as condutas adotadas e os desfechos materno-fetais observados.
METODOLOGIA
Este estudo trata-se de um relato de caso clínico com abordagem descritiva e retrospectiva, cujo objetivo é relatar a condução de uma gestação gemelar dicoriônica-diamniótica com complicações clínicas relevantes, confrontando o manejo adotado com as evidências científicas mais atuais disponíveis na literatura médica.
A coleta de dados clínicos foi realizada por meio da análise do prontuário eletrônico hospitalar da paciente, incluindo histórico obstétrico, evolução clínica, exames laboratoriais e de imagem (com ênfase na ultrassonografia obstétrica com Doppler), além dos registros das condutas terapêuticas adotadas pela equipe multiprofissional, desde o momento da admissão até o desfecho perinatal. Os critérios diagnósticos para síndrome HELLP parcial foram estabelecidos com base em alterações laboratoriais como elevação de enzimas hepáticas, sinais de hemólise e alterações hematológicas (como plaquetopenia), mesmo na ausência de hipertensão significativa. A centralização fetal foi diagnosticada a partir da alteração dos índices Doppler da artéria umbilical e da artéria cerebral média, de acordo com os valores de referência estabelecidos para a idade gestacional.
Paralelamente à descrição do caso, foi realizada uma revisão narrativa da literatura com o intuito de embasar a discussão clínica e comparar a condução adotada com as recomendações científicas atuais. A busca bibliográfica foi conduzida nas principais bases de dados internacionais da área médica: PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Embase, utilizando os seguintes descritores em português e inglês, combinados por operadores booleanos: “síndrome HELLP”, “HELLP syndrome”, “gestação gemelar”, “twin pregnancy”, “centralização fetal”, “fetal brain sparing”, “infecção urinária na gestação”, “urinary tract infection in pregnancy”, “prematuridade”, “prematurity”.
Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas, diretrizes clínicas e protocolos institucionais publicados nos últimos 10 anos (período de 2015 a 2025), com relevância científica comprovada, priorizando-se publicações de periódicos com fator de impacto reconhecido e recomendações de entidades de referência como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) e Organização Mundial da Saúde (OMS). Os critérios de inclusão contemplaram estudos com foco em gestação gemelar, complicações hipertensivas específicas como a síndrome HELLP, infecções urinárias na gestação e alterações Doppler indicativas de sofrimento fetal.
Este trabalho respeita os princípios éticos de confidencialidade e privacidade, conforme previsto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Por tratar-se de relato de caso único, sem identificação de dados pessoais da paciente, não foi necessária a submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foi anexado ao caso.
RELATO DE CASO
Gestante de 36 anos multigesta, com uma história obstétrica que inclui 4 gestações anteriores (G4), das quais 2 resultaram em partos normais (PN2), 1 foi cesariana (C1) e 1 terminou com aborto (A1). Essa classificação revela que, apesar de ser uma gestante de múltiplas gestações, a paciente possui um histórico obstétrico com diferentes tipos de desfechos, o que exige um acompanhamento cuidadoso durante toda a gestação.
A paridade (G4) refere-se ao número total de gestações que a paciente teve até o momento, enquanto as gravidezes anteriores (PN2) indicam que ela já passou por dois partos normais, um desfecho obstétrico considerado de baixo risco, embora sempre sujeito à avaliação clínica da evolução da gestação e de possíveis intercorrências. A paciente também apresenta uma cesariana prévia (C1), que pode ser um fator relevante na avaliação do tipo de parto mais seguro a ser escolhido para o atual quadro gestacional, especialmente considerando as complicações associadas à gestação gemelar. A presença de um aborto espontâneo anterior (A1) também deve ser observada, pois este desfecho pode influenciar a conduta obstétrica, principalmente em termos de monitoramento rigoroso das gestações subsequentes, em busca de sinais precoces de complicações.
O seguimento pré-natal foi iniciado com 14 semanas, incluindo exames laboratoriais e de imagem periódicos, conforme protocolo para gestações de alto risco. A paciente apresentava antecedente de hipertensão gestacional em gestação anterior, sem progressão para pré- eclâmpsia. Nas consultas iniciais, os níveis pressóricos estavam dentro da normalidade, alterando-se apenas no terceiro trimestre, com registros entre 135×85 mmHg e 140×90 mmHg, associados a episódios esporádicos de cefaleia e escotomas visuais.
Entre 26 e 28 semanas, realizou-se investigação laboratorial ampla (hemograma, coagulograma, função hepática e renal, proteinúria de 24h, sorologias e urocultura). O exame de urina revelou leucocitúria acentuada, e a urocultura isolou Klebsiella pneumoniae, sensível a cefalosporinas de terceira geração. Iniciou-se tratamento ambulatorial com ceftriaxona por cinco dias, com remissão clínica inicial.
Duas semanas após o tratamento, houve recidiva do quadro com disúria, dor suprapúbica e febre baixa. Nova urocultura confirmou a mesma cepa de K. pneumoniae, com sensibilidade preservada. Optou-se por internação hospitalar para antibioticoterapia endovenosa com ceftriaxona, considerando o risco de pielonefrite gestacional e a complexidade da gestação gemelar.
Durante a internação, exames laboratoriais evidenciaram elevação progressiva de transaminases hepáticas (TGO: 112 U/L; TGP: 98 U/L), discreto aumento de bilirrubinas totais (1,8 mg/dL), plaquetopenia leve (117.000/mm³), elevação de LDH (587 U/L) e queda do hematócrito. A proteinúria de 24 horas foi de 650 mg/dL. O conjunto de achados apontou para síndrome HELLP parcial, exigindo vigilância multidisciplinar intensiva.
Ultrassonografia obstétrica seriada demonstrou restrição de crescimento intrauterino (RCIU) em um dos fetos (peso estimado abaixo do percentil 10 para a idade gestacional). A dopplervelocimetria evidenciou sinais de centralização fetal, com índice de pulsatilidade da artéria umbilical aumentado (1,8), índice cerebroplacentário (ICP) reduzido (<1,0) e aumento da resistência na artéria uterina direita. O feto A mantinha crescimento e vitalidade adequados, enquanto o feto B apresentava crescimento assimétrico e menor reatividade nos movimentos, gerando preocupação com a vitalidade fetal. A cardiotocografia revelou reatividade variável, com desacelerações ocasionais, exigindo monitoramento contínuo.
Diante da recorrência infecciosa, dos sinais laboratoriais de HELLP parcial e das alterações dopplervelocimétricas compatíveis com centralização fetal, a paciente foi internada para conduta expectante em hospital de referência. Iniciou-se betametasona (12 mg IM a cada 24h por dois dias) para maturação pulmonar fetal, além de sulfato de magnésio profilático devido ao risco de eclâmpsia, mesmo na ausência de sinais clínicos. A pressão arterial foi manejada com metildopa 500 mg a cada 8h, com resposta parcial. As transaminases mantiveram-se elevadas sem piora, e as plaquetas variaram entre 105.000 e 125.000/mm³.
Com 32 semanas e 3 dias de gestação, observou-se piora dopplervelocimétrica do feto B (ausência de fluxo diastólico final na artéria umbilical) e perda de variabilidade na cardiotocografia. Optou-se, então, por cesariana de emergência. Os recém-nascidos foram encaminhados à Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN). O feto A nasceu com 1.820 g, Apgar 7/8, evoluindo bem com suporte respiratório mínimo e dieta por sonda. O feto B nasceu com 1.420 g, Apgar 5/6, sendo entubado precocemente por desconforto respiratório grave. Ambos evoluíram com sepse neonatal precoce; no feto B, isolou-se K. pneumoniae multirresistente em hemocultura, sugerindo transmissão vertical.
A paciente evoluiu bem no pós-operatório, com normalização das enzimas hepáticas e recuperação das plaquetas (145.000/mm³ no 4º dia), sem intercorrências adicionais. Recebeu alta no 5º dia pós-parto, com seguimento em puerpério de alto risco e suporte psicológico devido à fragilidade emocional frente ao quadro dos recém-nascidos.
O feto A recebeu alta após 22 dias de internação, com desenvolvimento neurológico dentro da normalidade e ganho ponderal satisfatório. O feto B permaneceu internado por 38 dias, apresentando apneias, icterícia grave e infecções nosocomiais. Obteve alta com plano de seguimento multiprofissional (pediatria, neurologia, fisioterapia e fonoaudiologia), considerando o risco de prejuízo no desenvolvimento neuropsicomotor.
DISCUSSÃO
A análise do presente caso clínico, envolvendo uma gestação gemelar dicoriônica- diamniótica com evolução para síndrome HELLP parcial, infecção do trato urinário (ITU) com progressão para pielonefrite aguda e evidências de centralização fetal bilateral ao Doppler, permite um exame comparativo com a literatura especializada sobre as complexidades obstétricas em gestações múltiplas. A discussão será estruturada em três eixos interdependentes: infecções urinárias na gestação gemelar, síndrome HELLP e seus critérios diagnósticos parciais, e alterações no fluxo fetal como marcador de centralização e restrição de crescimento.
Inicialmente, observa-se que as infecções urinárias em gestantes representam uma das intercorrências clínicas mais comuns e potencialmente graves, especialmente quando não tratadas adequadamente. Em gestações gemelares, os riscos são ainda mais acentuados devido à sobrecarga fisiológica renal e imunológica. Madane, Kulkarni e Memane (2024) destacam que a fisiologia da gestação favorece a estase urinária e a ascensão bacteriana, facilitando o desenvolvimento de pielonefrite. No caso em tela, a paciente apresentou sinais clínicos e laboratoriais sugestivos de pielonefrite à esquerda, associada à bacteriúria e leucocitose com desvio à esquerda, em consonância com os achados de Grette et al. (2020), que identificam a pielonefrite como fator de risco significativo para parto prematuro e sofrimento fetal.
Além disso, Ansaldi e De Tejada Weber (2023) apontam que a presença de ITU em gestantes gemelares, particularmente em contextos de assistência pública limitada, pode evoluir de maneira silenciosa até alcançar quadros sépticos e desencadear disfunções multissistêmicas. Esse aspecto é corroborado por Allen (2021), que ressalta a importância do monitoramento rigoroso e da antibióticoterapia precoce, com esquemas ajustados ao perfil microbiológico local. A evolução clínica da paciente, com febre persistente, dor lombar e falha terapêutica ambulatorial, justificou a internação, conforme preconizado para pielonefrite gestacional agravada.
A correlação entre infecção urinária e desenvolvimento da síndrome HELLP, embora ainda pouco discutida na literatura, pode estar associada à ativação sistêmica do endotélio e à resposta inflamatória exacerbada. Fernandes et al. (2024) apontam que tais mecanismos são capazes de precipitar formas atípicas da síndrome. No estudo de Garla et al. (2025), destaca-se a dificuldade diagnóstica das formas parciais de HELLP, especialmente em cenários onde alterações isoladas, como a elevação de transaminases, são subestimadas. No caso apresentado, os achados laboratoriais (elevação de AST e ALT, plaquetopenia discreta e ausência de hemólise evidente) preenchem os critérios de Tennessee para HELLP parcial, mesmo sem hipertensão significativa.
A ausência de hipertensão grave associada à HELLP parcial é relatada por Campos et al. (2022), que ressaltam a importância de reconhecer essa variante como marcador de alto risco materno-fetal, particularmente em gestações múltiplas. A paciente apresentava pressão arterial limítrofe, proteinúria e sintomas sistêmicos como epigastralgia e mal-estar, o que justifica a abordagem expectante intensiva. Garla et al. (2025) reforçam que a vigilância contínua é essencial mesmo nos quadros atípicos, sendo o diagnóstico precoce crucial para o desfecho favorável.
No contexto da gestação DCDA, a centralização fetal bilateral ao Doppler representa um importante marcador de sofrimento fetal iminente. Morais, Carvalho e Vela (2020) defendem o uso sistemático do Doppler a partir do segundo trimestre em gestantes com gemelaridade, para avaliação da vitalidade fetal. No presente caso, o aumento do índice de pulsatilidade na artéria umbilical, associado à razão cérebro-placentária reduzida, confirmou a centralização. Colmant et al. (2021) observam que, mesmo em gestações dicoriônicas, o Doppler alterado e a discrepância de crescimento entre os fetos podem refletir processos de insuficiência placentária, mesmo sem compartilhamento de estruturas fetoplacentárias.
Delabaere et al. (2023) demonstram que alterações precoces no Doppler, especialmente se bilaterais, associam-se a piores desfechos perinatais e requerem avaliação clínica contínua para indicar interrupção gestacional. A conduta obstétrica adotada — cesárea de urgência — foi apropriada à deterioração progressiva dos parâmetros fetais e maternos, em consonância com as diretrizes de manejo em gestações gemelares complicadas (D’ANTONIO et al., 2024). A presença simultânea de infecção urinária, HELLP parcial e centralização fetal representa um cenário clínico de alta complexidade, exigindo abordagem multidisciplinar. Kim et al. (2023) sugerem que essa tríade aumenta o risco de morbidade neurológica neonatal e de óbito perinatal, mesmo com intervenção oportuna. Um dos recém-nascidos do caso necessitou de suporte intensivo e internação prolongada em UTI neonatal, em linha com os achados de Kim et al. (2023), que apontam maior vulnerabilidade em fetos com crescimento assimétrico e Doppler alterado.
Além disso, Singhal (2024) destaca que infecções gestacionais aumentam a predisposição a distúrbios hipertensivos e disfunções placentárias, especialmente quando há resposta inflamatória sistêmica e vulnerabilidade vascular. Essa sobreposição fisiopatológica também é reconhecida por Grette et al. (2020), que alertam para a possibilidade de pielonefrite agir como gatilho para quadros vasculares e inflamatórios graves.
A interpretação integrada dos achados maternos e fetais permitiu uma decisão obstétrica resolutiva. Dipak et al. (2021) reforçam que a avaliação dopplervelocimétrica fetal, combinada ao estado clínico materno, deve nortear a decisão pela interrupção gestacional. No presente caso, a presença de ICP <1,0 e aumento da resistência umbilical bilateral justificou o parto imediato.
Quanto aos desfechos neonatais, os achados são compatíveis com a literatura sobre prematuridade iatrogênica. Elfituri et al. (2021) apontam que, em gestações dicoriônicas, a antecipação do parto por comprometimento materno-fetal é causa frequente de morbidade neonatal, como sepse, desconforto respiratório e icterícia grave, como visto no feto B.
Por fim, destaca-se que a paciente realizou o início do pré-natal em unidade de risco habitual, sendo referenciada tardiamente ao alto risco. Von Kaisenberg et al. (2021) e D’Antonio et al. (2024) defendem o rastreamento precoce e a estratificação de risco para evitar desfechos adversos. A centralização fetal bilateral, quando associada a HELLP e infecção ativa, demanda ações clínicas rápidas e integradas.
A literatura convergente reforça que a tríade observada neste caso — infecção urinária grave, HELLP parcial e centralização fetal — configura uma síndrome obstétrica emergente de alto risco, exigindo vigilância contínua, capacidade diagnóstica sensível e articulação entre obstetrícia, medicina fetal e neonatologia.
CONCLUSÃO
O presente estudo de caso evidenciou a complexidade clínica e os desafios diagnósticos e terapêuticos envolvidos na condução de uma gestação gemelar dicoriônica-diamniótica acometida por infecção urinária grave, síndrome HELLP parcial e centralização fetal bilateral. A análise integrada dos dados clínicos, laboratoriais e ultrassonográficos demonstrou que a interação entre essas condições pode desencadear desfechos materno-fetais adversos significativos, especialmente quando o diagnóstico e a intervenção são retardados. A literatura científica revisada corrobora a observação de que a infecção urinária, frequentemente negligenciada em seu potencial sistêmico, pode atuar como precipitante de quadros hipertensivos e disfunções endoteliais graves durante a gestação, inclusive na forma atípica e parcial da síndrome HELLP. Simultaneamente, a centralização fetal identificada por dopplervelocimetria reforça seu valor como marcador precoce de sofrimento fetal e instrumento essencial para tomada de decisão obstétrica.
A comparação com estudos recentes também revelou que, embora gestantes com gestações múltiplas dicoriônicas apresentem risco relativamente menor de complicações típicas de monocoriônicas, o acúmulo de fatores clínicos adversos pode elevar exponencialmente o risco perinatal, exigindo vigilância especializada desde os primeiros trimestres. A interrupção da gestação em momento oportuno, mesmo diante da prematuridade, demonstrou-se fundamental para preservar a vida materna e otimizar os desfechos neonatais, em consonância com os protocolos internacionais de cuidado em alto risco obstétrico.
Portanto, o manejo de gestantes com gestações gemelares exige abordagem multidisciplinar contínua, com atenção redobrada a sinais laboratoriais atípicos, infecções persistentes e alterações de fluxo fetal, mesmo em cenários que inicialmente se mostrem estáveis. O caso analisado reafirma a importância da personalização do cuidado pré-natal e do uso de ferramentas diagnósticas complementares como o doppler, visando detectar precocemente alterações que possam culminar em desfechos graves. A sistematização do acompanhamento dessas gestantes, aliada à capacitação das equipes de saúde para reconhecer variantes clínicas incomuns, constitui estratégia essencial para a prevenção de complicações e redução da morbimortalidade materno-infantil associada a gestação gemelar de alto risco.
REFERÊNCIAS
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¹Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
²Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
³Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
⁴Graduanda em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
⁵Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
⁶Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO.
⁷Médico preceptor e orientador. CRM/RO 6804. MFC, Ginecologia e Obstetrícia.
⁸Médica preceptora e coorientadora. CRM/RO 8405. Clínica geral.
⁹Médica coorientadora. Ginecologia e Obstetrícia. CRM/RJ 52 760048.
¹⁰Enfermeira coorientadora. Coren 389-734.
