REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508081046
Micheli dos Santos Batista
Tainara Milene de Cristo
Orientadora: Prof. Dra. Raphaella Rosa Horst Massuqueto
RESUMO
O presente trabalho teve como objetivo analisar a abordagem do cuidado paliativo na assistência de enfermagem ao paciente oncológico. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, com análise de artigos publicados entre 2021 e 2024, e critérios PubMed (PubMed. gov), SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e BDENF (Base de Dados em Enfermagem). Estabelecidos a fim de garantir a relevância, atualidade e qualidade das publicações selecionadas. Evidenciou – se que a atuação da equipe multiprofissional, com destaque para o enfermeiro, é fundamental na condução de um cuidado holístico e humanizado. A comunicação eficaz, a escuta ativa e o respeito à individualidade do paciente são estratégias que fortalecem os vínculos e contribuem para a aceitação do processo de terminalidade. Observou-se ainda a importância do apoio espiritual, frequentemente negligenciado na prática clínica, mas essencial para o enfrentamento da morte de forma mais serena. Há, entretanto, limitações na formação acadêmica sobre o tema, bem como o despreparo emocional de alguns profissionais diante da terminalidade da vida. Também foram destacados desafios estruturais, como a escassez de políticas públicas e de suporte institucional voltado à implementação efetiva dos cuidados paliativos. Conclui-se que os cuidados paliativos representam uma dimensão imprescindível da assistência em saúde, que deve ser fortalecida por meio de capacitação profissional, inclusão do tema nos currículos de formação, e políticas públicas que garantam estrutura e suporte à prática. Cuidar até o fim da vida não significa desistir da cura, mas sim promover dignidade, conforto e respeito ao ser humano em sua totalidade.
Palavras-chave: Cuidados paliativos. Enfermagem. Humanização. Câncer. Qualidade de vida.
ABSTRACT
This study aimed to analyze the palliative care approach in nursing care for oncology patients. It is a narrative literature review based on articles published between 2021 and 2024, selected from databases such as PubMed, SciELO, LILACS, and BDENF to ensure relevance, timeliness, and quality. The study highlights the essential role of the multidisciplinary team—especially nurses—in providing holistic and humanized care. Effective communication, active listening, and respect for patient individuality are strategies that strengthen bonds and aid in accepting terminal conditions. Spiritual support, often neglected in clinical practice, proved to be essential in coping with death. However, gaps in academic training and emotional preparedness of professionals persist, along with structural challenges like lack of public policies and institutional support. The study concludes that palliative care is a vital dimension of healthcare, which must be strengthened through professional training, curriculum inclusion, and public policies that ensure proper structure and support. Caring until the end of life is not giving up on healing but promoting dignity, comfort, and respect for the human being in all dimensions.
Keywords: Palliative care. Nursing. Humanization. Cancer. Quality of life.
1. INTRODUÇÃO
Os Cuidados Paliativos consistem em uma abordagem interdisciplinar voltada para aliviar o sofrimento de pacientes em uma etapa avançada da doença, sem acelerar ou adiar a morte. Seu objetivo é melhorar a qualidade de vida, abordando aspectos físicos, psicológicos e espirituais, além de oferecer suporte à família. Esses cuidados tiveram origem nos hospitais antigos e foram aprimorados por Cicely Saunders, que enfatizou a importância do cuidado humanizado (Brandão; Góis, 2020).
No Brasil, os cuidados paliativos ganharam reconhecimento na década de 1980, impulsionados pelo movimento internacional liderado por Cicely Saunders e pela valorização crescente do alívio do sofrimento em doenças crônicas e estágios avançados Em 2005, foi fundada a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), marcando um avanço significativo na área (Saunders, 2001; Markus, 2017). Em estágios sem possibilidade de cura, os cuidados paliativos são essenciais para minimizar o sofrimento do paciente oncológico com a doença em um estágio avançado, proporcionando suporte físico, emocional, espiritual e social. A enfermagem desempenha um papel fundamental, acompanhando o paciente e sua família desde o diagnóstico até o paciente com a doença progressiva e sem possibilidade de cura (Brasil, 2018; Fernandes, 2013).
No Brasil, o câncer é a segunda principal causa de morte, com projeções de 704 mil novos casos em 2023. O aumento da expectativa de vida e o envelhecimento populacional contribuem para esse crescimento (Brasil, 2023). Dada a progressão da doença, torna-se imprescindível que os profissionais de saúde estejam preparados para oferecer cuidados paliativos de qualidade, incentivando práticas mais humanizadas diante dos desafios existentes na área.
Embora o câncer possa ser prevenido em muitos casos, ele está associado a fatores hereditários e de estilo de vida. Quando a descoberta da doença ocorre tardiamente e a cura não é mais possível, os cuidados paliativos tornam-se cruciais (Brasil, 2018). Esses cuidados ajudam a aliviar os sintomas, como dor e ansiedade, além de oferecer suporte físico, emocional, social e espiritual.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), saúde vai além da ausência de doenças, abrangendo bem-estar físico, mental e social. No Brasil, a saúde é um direito constitucional, e os cuidados paliativos buscam amenizar o sofrimento, preservando a autonomia do paciente, sem prolongar ou encurtar a vida (Brasil, 1988; Health, 2020).
A formação de profissionais capacitados para oferecer cuidados paliativos é essencial, especialmente no Brasil, onde a demanda cresce continuamente. O enfermeiro é um elo fundamental nesse processo, contribuindo para uma assistência humanizada e integral ao paciente paliativo e sua família (Markus, 2017; Brandão; Góis, 2020; Barbosa, 2019).
Além disso, pacientes com o estágio de doença avançado frequentemente enfrentam os cinco estágios emocionais, negação, raiva, barganha, depressão e aceitação descritos por Kübler-Ross, 1969. Nesse contexto, os enfermeiros interagem diretamente com os pacientes e suas famílias, oferecendo apoio emocional e técnico.
No cuidado paliativo, a comunicação interpessoal é uma das ferramentas mais importantes. Quando feita de forma respeitosa e empática, ela promove confiança e otimismo no paciente, tornando o processo menos angustiante (Santos, 2021). Finalmente, apesar dos avanços na área, muitos enfermeiros ainda carecem de apoio emocional e técnico, evidenciando a necessidade de capacitação contínua (Souza, 2022).
Esse estudo busca compreender o papel do enfermeiro no cuidado humanizado a pacientes oncológicos paliativos, destacando desafios, conquistas e a importância da assistência integral para o alívio do sofrimento e a promoção da qualidade de vida.
O objetivo do trabalho foi analisar a abordagem do cuidado paliativo na assistência de enfermagem ao paciente oncológico.
2. METODOLOGIA
Este trabalho consiste em uma revisão de literatura desenvolvida a partir da análise de artigos científicos publicados entre os anos de 2021 e 2024, nos idiomas português, inglês e espanhol.
Foram realizadas as pesquisas em quatro bases de dados selecionadas para analisar as diferentes informações, sendo elas PubMed (PubMed. gov), SciELO (Scientific Electronic Library Online), LILACS (Literatura Latino- Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e BDENF (Base de Dados em Enfermagem).
Na metodologia deste estudo, foi realizada pesquisa nas bases de dados utilizando os operadores booleanos AND e OR para estabelecer os principais termos pertinentes ao tema.
Foram utilizados também a associação dos termos que refere com “Enfermagem”, OR, “Humanização”, AND, associadas a “Cuidados Paliativo”, OR “Câncer”, AND, “Qualidade de vida”.
A apuração da análise literária foi desempenhada de três modos, sendo leitura de títulos, resumos e a coleta das informações que preenchiam os critérios de pesquisa e englobava o tema abordado. Estudos que não apresentaram relevância à pergunta norteadora foram excluídos ao longo da etapa.
Todos os artigos selecionados foram organizados, examinando as suas principais informações e selecionando-as para a apresentação dos resultados. Foram encontrados inicialmente 252 publicações, e após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão 16 artigos foram selecionados, entre estudos originais e revisões. A quantidade total de artigos, o número de trabalhos excluídos em cada busca e o total de artigos utilizados neste trabalho estão apresentados na figura 1.
Para facilitar a compreensão dos trabalhos que se apresentam na amostra final, extraíram-se as variáveis de identificação, sendo elas: título, autores, objetivos, método aplicado e conclusão do trabalho. Desta forma, o objetivo desta análise foi realizar um banco de dados, em que fosse possível analisar os pontos pertinentes, integrar dados e caracterizar a amostra revisada. No Quadro 1, foram organizadas as informações a respeito dos 16 artigos contidos nesta revisão.
Figura 1 – Fluxograma de seleção de artigos

(Fonte: os autores, 2025).
Quadro 1. Distribuição dos artigos de acordo com título, autor, objetivo, conclusão e ano de publicação.
| Título | Autor | Objetivo | Conclusão | Ano |
| O desafio do enfermeiro frente aos cuidados paliativos em pediatria | Botossi, D. C. | Analisar produções científicas sobre os desafios da enfermagem em cuidados paliativos pediátricos. | Ênfase na formação de profissionais especializados em cuidados paliativos pediátricos. Importância do papel do enfermeiro em cuidados paliativos destacada. Necessidade de educação continuada para equipes de enfermagem identificadas. Proposta de protocolo de cuidados institucionais para aprimorar cuidados paliativos | 2021 |
| A importância da temática cuidados paliativos na formação acadêmica do enfermeiro – revisão integrativa | De Holanda Pessoa et. al. | Descrever a importância dos cuidados paliativos na educação em enfermagem | Importância da abordagem dos cuidados paliativos durante a formação de profissionais de enfermagem, aprimorando os conhecimentos. | 2022 |
| Cuidados paliativos empregados pelo profissional de Enfermagem ao paciente | Albino et al. | Identificar papéis de enfermagem em cuidados paliativos | O estudo identifica papéis de enfermagem em cuidados paliativos. A comunicação eficaz é crucial para o sucesso dos cuidados paliativos. Equipes multidisciplinares melhoram o suporte ao paciente e à família. | 2023 |
| Equipe de enfermagem nos cuidados paliativos na terminalidade da vida prestados aos pacientes oncológicos pediátricos | De Oliveira Silva et al. | Explorar as contribuições da enfermagem em cuidados paliativos pediátricos. | Cuidados individualizados e humanizados são necessários à beira do leito. O envolvimento da família é essencial no processo de cuidado. A comunicação eficaz melhora o cuidado para pacientes oncológicos pediátricos. Os cuidados paliativos abordam as dimensões física, emocional e espiritual. | 2024 |
| Cuidados paliativos e a enfermagem ao paciente em unidade de terapia intensiva: Revisão integrativa | Dos Santos et al. | Relatar sobre o planejamento de cuidados para pacientes paliativos. | Os enfermeiros se concentram principalmente no cuidado físico, negligenciando as necessidades holísticas. Existem lacunas de comunicação entre equipes multidisciplinares e famílias. O respeito ético pela autonomia do paciente é essencial no cuidado. O cuidado humanizado é crucial em ambientes de terapia intensiva. | 2021 |
| Competências da equipe de enfermagem frente aos cuidados paliativos em pacientes com câncer de colo de útero | Marques et al. | Explorar competências de enfermagem em cuidados paliativos para pacientes com câncer cervical. | O apoio familiar é crucial durante os cuidados paliativos. Os profissionais de enfermagem enfrentam desafios na prestação de cuidados paliativos | 2021 |
| Gestão e assistência a pacientes oncológicos em cuidados paliativos | Marques, G. O. | Verificar a percepção da equipe de enfermagem sobre cuidados paliativos ao paciente oncológico. | Treinamento holístico e interdisciplinar é essencial para profissionais. Habilidades de comunicação são cruciais para o atendimento eficaz ao paciente. Cuidados paliativos devem ser obrigatórios na educação profissional de saúde. | 2024 |
| Atuação da Enfermagem com Cuidados Paliativos em Crianças Oncológicas | Do Carmo, et al. | Analisar a atuação da enfermagem em cuidados paliativos pediátricos | Gestos afetuosos proporcionam conforto às crianças e às famílias. O atendimento individualizado e o aumento do moral são cruciais no tratamento. A capacitação dos profissionais de enfermagem é necessária para uma melhor assistência. | 2022 |
| Cuidados paliativos de enfermagem voltados para a criança com câncer: uma revisão integrativa | De Oliveira, D. M.; Rodrigues, L. C.; De França, M. E. D. | Identificar as discussões sobre cuidados paliativos pediátricos por profissionais de enfermagem | Cuidados paliativos são cruciais para pacientes oncológicos pediátricos. Cuidados de enfermagem requerem suporte emocional para profissionais de saúde. O envolvimento da família melhora o processo de cuidados paliativos. | 2023 |
| Dor total nos pacientes em cuidados paliativos oncológicos: Percepção fenomenológica dos residentes de enfermagem | Pereira, et al. | Para compreender a percepção dos residentes de enfermagem sobre a dor total | A dor abrange dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais. Entender a dor total é crucial para um atendimento de qualidade ao paciente. | 2023 |
| Desafios do enfermeiro no cuidado paliativo em oncologia pediátrica. | Lima, et al. | Investigar os desafios enfrentados pelos enfermeiros em cuidados paliativos oncológicos pediátricos | Existem grandes barreiras para a prestação de cuidados paliativos de qualidade. O apoio emocional para famílias e profissionais é essencial. A introdução precoce de cuidados paliativos melhora a qualidade de vida do paciente. | 2021 |
| Criança com diagnóstico de câncer sob cuidados paliativos e seu familiar: contribuições para o cuidado de enfermagem | Da Conceição Dias, et al. | Revisar a produção científica sobre ações de enfermagem em cuidados paliativos pediátricos | Cuidados holísticos e apoio emocional são cruciais para crianças com câncer. A sensibilidade no cuidado continua sendo um desafio significativo para profissionais de enfermagem. | 2022 |
| Habilidades e percepções do enfermeiro frente aos cuidados paliativos | Gomes, et al. | Analisar as competências dos enfermeiros em cuidados paliativos. | Enfermeiros desempenham um papel fundamental no cuidado ao paciente. A comunicação com as famílias é crucial em cuidados paliativos. | 2021 |
| Assistência de Enfermagem à criança com câncer em cuidados paliativos: Scoping review | Dias, et al. | Identificar estratégias em cuidados paliativos para pacientes pediátricos. | As estratégias necessárias incluem controle da dor e apoio familiar. O treinamento para profissionais de enfermagem é essencial para um cuidado eficaz. | 2022 |
| O Papel da Enfermagem em Cuidados Paliativos com Pacientes Oncológico em Estado Terminal: Revisão de Literatura | De Araújo, et al. | Identificar o papel da enfermagem nos cuidados paliativos para pacientes com câncer terminal | A educação em Cuidados Paliativos deve começar nos programas de graduação. Os profissionais enfrentam sobrecarga de trabalho e desafios psicológicos. Os sentimentos da equipe de enfermagem e das famílias são significativos | 2023 |
| Assistência de Enfermagem ao Paciente Oncológico em Cuidado Paliativo | De Sousa et al. | Analisar a assistência de enfermagem em cuidados paliativos oncológicos | Necessário a comunicação eficaz para melhorar a assistência de enfermagem e assim garantir maior conforto e qualidade de vida ao paciente. | 2021 |
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Assistência humanizada e cuidado holístico
O início da atenção ao paciente que necessita desses cuidados, marca a transição do tratamento curativo para o controle dos sintomas e melhoria da qualidade de vida do paciente com doença avançada. Essa abordagem visa aliviar o sofrimento, atendendo às necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais. Este pode ser aplicado em conjunto com o tratamento ativo da doença, fornecendo suporte integral ao paciente e sua família (Albino et al., 2023; de Oliveira Silva et al., 2024).
Os cuidados paliativos são definidos como a assistência ativa total provida por uma equipe multiprofissional, com o objetivo de proporcionar conforto e qualidade de vida, promovendo autonomia, dignidade e respeito ao paciente no fim da vida. Os princípios fundamentais incluem o alívio da dor e de sintomas controláveis, o suporte emocional e espiritual, a comunicação eficaz e o cuidado centrado no paciente e em sua família (dos Santos et al., 2021; de Araújo et al., 2023).
A abordagem multidisciplinar nos cuidados paliativos é essencial para atender às diversas necessidades do paciente e sua família. A integração de profissionais de diferentes áreas, como enfermagem, medicina, psicologia, serviço social e fisioterapia, permite uma visão holística e abrangente do paciente, garantindo uma assistência completa e personalizada. Essa equipe pode colaborar na identificação e manejo de problemas, adaptando o plano de cuidados de acordo com as necessidades específicas de cada indivíduo (Albino et al., 2023).
Nesse contexto, esses cuidados são cruciais, especialmente no estágio avançado, destacando-se o trabalho em pacientes oncológicos, em que se deve garantir o conforto e dignidade do paciente. Por isso, a assistência de enfermagem deve prezar e trabalhar com proximidade com o paciente e atendendo às suas necessidades físicas, emocionais, sociais e espirituais, reafirmando a vida e reconhecendo a morte como um processo natural (de Oliveira Silva et al., 2024; de Holanda Pessoa et al., 2022).
Por mais que isto esteja claro na literatura, estudos convergem ao destacar que é necessário encontrar mais espaços para que este assunto seja discutido na formação dos enfermeiros. Para que assim seja compreendido que os cuidados paliativos tenham uma compreensão mais ampla e que os profissionais entendam e sejam preparados para os desafios psicológicos que lhe serão apresentados (Botossi, 2021; De Araújo, et al., 2023).
Visto que alguns autores destacam que atuação do enfermeiro em cuidados paliativos exige um preparo técnico e emocional, considerando as múltiplas dimensões do sofrimento do paciente oncológico. Pode-se elencar as dificuldades enfrentadas, destacando o manejo da dor, a comunicação com os familiares e o suporte psicológico necessário para lidar com o processo de terminalidade. Além disso, pode-se perceber entre os enfermeiros relatos que geram entre si sentimento de impotência e desgaste emocional, o que evidencia a necessidade de suporte e formação adequada (De Oliveira, D. M.; Rodrigues, L. C.; De França, M. E. D., 2023; Do Carmo, et al., 2022).
Envolvendo esse cenário de suporte aos pacientes e a família, este constitui um componente estruturante do processo de cuidado, em que o enfermeiro atua na mediação do trabalho entre a equipe de saúde e os familiares do paciente, para que possam compreender a possível perda iminente ou oferecer formas de garantir o cuidado em domicílio. Esse suporte oferecido pode contribuir para a redução do sofrimento familiar e aceitação do processo de terminalidade da vida do paciente (De Holanda Pessoa et. Al., 2022, Marques et al., 2021).
Diante disso, salienta-se que ao se trabalhar com cuidados paliativos o profissional deve fundamentar sua prática com princípios bioéticos, entre eles enumera-se o respeito pela autonomia do paciente, a beneficência e a não maleficência. Tendo sempre consigo uma abordagem humanística e integral que garanta respeito a diversidade de crenças, valores e desejos dos pacientes, voltando o cuidado centrado na pessoa e não na doença (Dos Santos et al., 2021).
3.2 Comunicação Interpessoal
Para atingir este objetivo, a comunicação é um fator preponderante. Ao se valer da comunicação assertiva, a relação entre o enfermeiro, o paciente e a família pode ser fortalecida, gerando confiança com a equipe envolvida. Identificam-se estratégias relevantes para se chegar ao paciente e à família, tais como as reuniões familiares, consultas individuais e a utilização de linguagem clara e objetiva (Albino et al , 2023; Marques, 2024).
Além de uma comunicação eficiente entre equipe, paciente e família, as práticas de enfermagem em cuidados paliativos incluem alívio de sintomas, como dor e náuseas, e promoção do conforto através de intervenções farmacológicas e não farmacológicas (Gomes, et al., 2021; Pereira, et al, 2023).
Como estas intervenções são realizadas tanto para adultos quanto crianças, além do alívio da dor causada pela doença, podem ser realizadas atividades lúdicas, escuta ativa e suporte espiritual como estratégias que contribuem para a humanização do cuidado e para a construção de vínculos entre o paciente, a família e a equipe de saúde. Sempre salientando que sempre ouvir o paciente é essencial, para que se permita que estes se expressem conforme suas necessidades e preferências (Da Conceição Dias, et al., 2022; Pereira, et al, 2023).
Além disso, a dimensão espiritual, que frequentemente é desvalorizada na clínica, pode desempenhar um papel essencial no que envolve o cuidado. Visto que o apoio às crenças religiosas e espirituais dos pacientes pode promover conforto emocional e ajudar no enfrentamento da terminalidade (De Oliveira Silva et al., 2024; Lima, et al., 2021).
É recorrente na literatura a necessidade de se investir em expansão de políticas públicas e integração de equipes multiprofissionais para o desenvolvimento desse trabalho, além da já citada formação dos enfermeiros. Além destes, salienta-se a necessidade de pesquisa e desenvolvimento de novas abordagens para o enfrentamento dos desafios relacionados ao tema.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na análise dos estudos apresentados, constatou-se que os cuidados paliativos são fundamentais para promover uma assistência voltada à dignidade, ao conforto e à qualidade de vida dos pacientes em etapa avançada da doença. A centralidade do cuidado humanizado e da abordagem holística reafirma a importância de um olhar ampliado para além da doença, reconhecendo o ser humano em todas as suas dimensões: física, emocional, social e espiritual.
A atuação da equipe multiprofissional, especialmente da enfermagem, revela-se essencial na construção de um cuidado individualizado e compassivo. No entanto, persistem desafios relevantes, como a fragilidade da formação acadêmica sobre o tema, o despreparo emocional dos profissionais e a escassez de políticas públicas eficazes voltadas a essa assistência.
Diante desse cenário, evidencia-se a urgência de ampliar a inserção dos cuidados paliativos nos currículos da área da saúde, assim como de investir em capacitação contínua e no suporte institucional necessário aos profissionais envolvidos nesse processo. Promover o cuidado paliativo de forma ética, empática e centrada na pessoa constitui um compromisso que ultrapassa o âmbito técnico, exigindo sensibilidade, preparo e articulação entre ensino, prática e gestão.
Por fim, reafirma-se que cuidar do paciente até o fim da vida não se trata de desistir da cura, mas sim de garantir o direito de viver com dignidade até o seu último instante. Desta forma, afirma-se que o profissional de enfermagem deve estar atento a todas essas dimensões do cuidado, sendo-lhe assegurada uma formação teórica e prática sólida no que se refere aos cuidados oncológicos e paliativos. Essa formação deve ir além da graduação, com investimentos contínuos em capacitação e suporte institucional, a fim de evitar a sobrecarga do profissional e garantir que a assistência prestada seja ética, eficaz e humanizada. Só assim será possível proporcionar ao paciente qualidade de vida em todas as fases do tratamento e assegurar que sua trajetória até o fim da vida seja conduzida com respeito, empatia e dignidade.
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