ASPECTOS EMOCIONAIS E PSIQUIÁTRICOS DA SÍNDROME DOS OVÁRIOS POLICÍSTICOS: EVIDÊNCIAS DA LITERATURA

EMOTIONAL AND PSYCHIATRIC ASPECTS OF POLYCYSTIC OVARY SYNDROME: EVIDENCE FROM THE LITERATURE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202602251357


Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2


RESUMO

A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma endocrinopatia comum que afeta de 8% a 13% das mulheres em idade reprodutiva, caracterizando-se por anovulação e alterações metabólicas. Esta revisão narrativa da literatura evidencia que a síndrome transcende os sintomas físicos, estando associada a uma prevalência significativamente maior de transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade, em comparação a mulheres sem a condição. Outras desordens, incluindo o transtorno bipolar e o transtorno obsessivo-compulsivo, também são relatadas com frequência elevada nessa população. Os mecanismos que sustentam essa associação são multifatoriais, envolvendo a interação complexa entre fatores biológicos — como inflamação crônica, resistência à insulina e disfunções hormonais — e fatores psicossociais, tais como estigma social, infertilidade e impactos negativos na imagem corporal. O sofrimento emocional resultante não apenas compromete a qualidade de vida, mas pode prejudicar a adesão ao tratamento e agravar os desfechos clínicos gerais. O estudo destaca que, embora as evidências sejam robustas, o rastreamento psiquiátrico sistemático ainda é incipiente na prática clínica rotineira. Conclui-se que é indispensável a adoção de uma abordagem multidisciplinar e integrada que incorpore a saúde mental no manejo da SOP, visando a melhoria do bem-estar global e dos resultados terapêuticos das pacientes.

Palavras-chave: Fibromialgia; Dor Crônica; Transtornos Psiquiátricos; Depressão; Ansiedade; Sensibilização Central; Saúde Mental.

1. INTRODUÇÃO

    A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) é uma das endocrinopatias mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva, afetando aproximadamente 8–13% dessa população globalmente e caracterizando-se por anovulação, hiperaromatismo e alterações metabólicas significativas (Soares et al., 2025).

    Além das manifestações somáticas tradicionalmente descritas na literatura ginecológica e endocrinológica, há um crescente reconhecimento de que a SOP está associada a múltiplos impactos emocionais e psiquiátricos que influenciam a qualidade de vida das mulheres acometidas (Wang et al., 2018; meta-análises recentes).

    A conexão entre SOP e saúde mental, embora relatada em estudos clínicos e revisões, ainda não é amplamente integrada nos protocolos de manejo clínico, especialmente no contexto brasileiro e latino-americano. Evidências epidemiológicas mostram que mulheres com SOP apresentam maior prevalência de sintomas e diagnósticos de depressão e ansiedade, em comparação com controles sem a condição (OR ≈ 2,7–2,8 para depressão e ansiedade).  Além disso, outras desordens, como transtorno bipolar e transtorno obsessivo compulsivo, também têm sido relatadas com maior frequência em pacientes com SOP. Os mecanismos subjacentes a essas associações são complexos e multifatoriais, envolvendo fatores biológicos — como inflamação crônica, resistência à insulina e alterações hormonais — e psicossociais, como impacto na imagem corporal, estigma social, infertilidade e desafios sexuais (Zhang, 2024; revisão sistemática).

    Ainda assim, a relação causal direta entre SOP e transtornos psiquiátricos permanece insuficientemente esclarecida, sendo tema de debate e pesquisa contínua. Os sintomas depressivos e ansiosos não apenas comprometem a saúde emocional, mas também podem agravar a adesão terapêutica e os desfechos clínicos gerais em mulheres com SOP, como constam em pesquisas clínicas e em meta-análises recentes sobre o tema Dokras et al. (2012) e Cooney & Dokras (2017).

    A alta prevalência de sofrimento psicológico e a sua associação com características clínicas da SOP exigem uma abordagem que transcenda a visão puramente endócrino-reprodutiva da síndrome. Diante desse cenário, a literatura científica contemporânea tem enfatizado a necessidade de um olhar mais integrado entre ginecologia/endocrinologia e saúde mental, favorecendo o rastreamento precoce e intervenções direcionadas para transtornos psiquiátricos em mulheres com SOP. (Wang et al.,2018)

    Pesquisas sugerem que serviços clínicos que incorporam avaliações psicossociais podem melhorar não só a saúde mental, mas também os aspectos metabólicos e de qualidade de vida das pacientes. Apesar de tais evidências, a incorporação rotineira de rastreamento psiquiátrico na assistência de mulheres com SOP ainda é incipiente, especialmente em serviços públicos de saúde, refletindo lacunas tanto na formação profissional quanto nos sistemas de cuidado integrado. Tais lacunas podem contribuir para atrasos diagnósticos, sofrimento prolongado e pior prognóstico global das pacientes (March et al., 2010).

    Considerando o exposto, este estudo visa explorar mais profundamente as interrelações entre a SOP e a saúde mental, com foco específico em transtornos psiquiátricos — incluindo depressão, ansiedade, transtornos do humor e sintomas associados — que acometem mulheres com essa síndrome.

    A pergunta de pesquisa formulada para este artigo é: Quais são os transtornos psiquiátricos mais prevalentes entre mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos e quais fatores clínicos e psicossociais mais fortemente se associam a essas condições? A hipótese deste estudo é que: mulheres com Síndrome dos Ovários Policísticos apresentam prevalência significativamente maior de transtornos psiquiátricos, especialmente depressão e ansiedade, em comparação com mulheres sem a síndrome, sendo tais associações mediadas tanto por fatores biológicos (disfunção hormonal, resistência à insulina) quanto por fatores psicossociais (imagem corporal e estigma social).

    Com base nessa hipótese, o presente artigo realizará uma revisão narrativa da literatura atual, com foco em evidências quantitativas e qualitativas que sustentem ou contrastem essa proposição, visando fornecer subsídios para práticas clínicas mais integradas e para futuras pesquisas interdisciplinares.

    2. MÉTODO

      Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de natureza descritivo-analítica, método amplamente utilizado em psiquiatria e saúde mental para a integração crítica de evidências heterogêneas e para a discussão aprofundada de construtos psicopatológicos complexos, nos quais revisões sistemáticas nem sempre são metodologicamente viáveis (ROTHER, 2007; GRANT; BOOTH, 2009).

      A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados PubMed/MEDLINE, PsycINFO, Scopus, Web of Science e SciELO, reconhecidas por sua relevância na indexação de estudos em psiquiatria, psicologia do desenvolvimento e saúde mental infantojuvenil (EVANS et al., 2020; FRICK; VILLODO, 2021). O período analisado compreendeu publicações entre janeiro de 2013 e dezembro de 2025, com o objetivo de contemplar estudos alinhados aos critérios diagnósticos do DSM-5 e do DSM-5-TR (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2013; 2022).

      Foram utilizados descritores controlados do MeSH e do DeCS, combinados a termos livres, utilizando operadores booleanos AND e OR. A estratégia principal incluiu os termos “Oppositional Defiant Disorder”, “Psychopathology”, “Emotional Dysregulation”, “Comorbidity”, “Parenting” e “Treatment”, conforme estratégias previamente adotadas em revisões narrativas sobre transtornos disruptivos do comportamento (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; STRINGARIS; TAYLOR, 2015).

      Foram incluídos artigos originais, revisões sistemáticas e meta-análises que abordassem crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno Opositor Desafiador segundo critérios do DSM-5 ou DSM-5-TR, e que discutissem aspectos psicopatológicos, comorbidades psiquiátricas, fatores familiares e implicações clínicas. Foram excluídos relatos de caso isolados, editoriais, estudos com amostras exclusivamente adultas e pesquisas cujo foco estivesse restrito a intervenções educacionais sem abordagem psicopatológica, conforme critérios utilizados em revisões anteriores na área (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; EVANS et al., 2020).

      A extração de dados contemplou informações sobre delineamento dos estudos, características das amostras, instrumentos diagnósticos, principais achados psicopatológicos, comorbidades e implicações clínicas, seguindo modelos de síntese qualitativa amplamente utilizados em revisões narrativas em psiquiatria (GRANT; BOOTH, 2009). A análise dos dados foi realizada por meio de análise temática qualitativa, permitindo a organização dos achados em eixos conceituais recorrentes (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014).

      3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

        A análise da literatura evidenciou que o Transtorno Opositor Desafiador apresenta uma estrutura psicopatológica mais ampla do que comportamentos opositores isolados, envolvendo predominantemente desregulação emocional persistente, elevada carga de comorbidades psiquiátricas e forte influência de fatores familiares e ambientais (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; FRICK; VILLODO, 2021).

        Características psicopatológicas centrais: Os estudos revisados demonstraram que a irritabilidade crônica constitui um dos sintomas mais estáveis e clinicamente relevantes do TOD, associando-se a maior gravidade dos sintomas e pior prognóstico funcional (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; WAKSCHLAG et al., 2015). Evidências longitudinais indicam que altos níveis de irritabilidade na infância predizem maior risco de desenvolvimento de transtornos do humor e de ansiedade na adolescência (ODGERS et al., 2018). Além disso, déficits na regulação emocional, impulsividade e baixa tolerância à frustração foram consistentemente identificados como elementos centrais da psicopatologia do transtorno, contribuindo para conflitos interpessoais persistentes e dificuldades de adaptação social (BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014; NIGG, 2017).

        Comorbidades psiquiátricas: A presença de comorbidades foi um achado recorrente nos estudos analisados. O TDAH foi identificado como a comorbidade mais frequente, ocorrendo em uma parcela significativa dos indivíduos com TOD, o que agrava a impulsividade, os prejuízos acadêmicos e o estresse familiar (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; FRICK; VILLODO, 2021). Também foram observadas associações relevantes com transtornos de ansiedade, transtornos depressivos e, em casos mais graves, com o Transtorno de Conduta, especialmente quando o TOD se manifesta precocemente e em contextos de adversidade psicossocial (EVANS et al., 2020; ODGERS et al., 2018).

        Fatores familiares e ambientais: Os estudos apontaram associação consistente entre o TOD e práticas parentais coercitivas, inconsistentes ou pouco responsivas, bem como altos níveis de conflito familiar, fatores que contribuem para a manutenção e agravamento dos comportamentos opositores (SHAW; BELL; GILLIOM, 2000; BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014). Adversidades precoces, como negligência emocional, exposição à violência e instabilidade socioeconômica, também foram associadas a maior gravidade clínica e pior evolução do transtorno (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; EVANS et al., 2020).

        Implicações clínicas: Os estudos indicaram que intervenções multimodais, incluindo treinamento parental, psicoterapia cognitivo-comportamental e tratamento farmacológico das comorbidades, apresentam melhores desfechos clínicos do que abordagens isoladas (FRICK; VILLODO, 2021; EVANS et al., 2020).

        4. DISCUSSÃO

          Os resultados desta revisão reforçam a concepção contemporânea de que o Transtorno Opositor Desafiador é um transtorno psicopatológico complexo, no qual a desregulação emocional desempenha papel central, especialmente por meio da irritabilidade persistente e da dificuldade de modulação de emoções negativas (STRINGARIS; TAYLOR, 2015; WAKSCHLAG et al., 2015).

          A associação consistente entre TOD e comorbidades psiquiátricas, particularmente o TDAH, corrobora achados prévios que apontam para maior gravidade clínica, pior funcionamento global e menor resposta a intervenções terapêuticas quando múltiplos transtornos estão presentes (LOEBER; BURKE; PARDINI, 2009; FRICK; VILLODO, 2021).

          Essa sobreposição sintomatológica dificulta o diagnóstico diferencial e pode atrasar intervenções específicas para a regulação emocional. Os fatores familiares identificados nos estudos analisados sustentam modelos transacionais do desenvolvimento psicopatológico, nos quais padrões disfuncionais de interação entre a criança e o ambiente reforçam comportamentos opositores ao longo do tempo (SHAW; BELL; GILLIOM, 2000; BURKE; ROWE; BOYLAN, 2014).

          Esses achados reforçam a necessidade de intervenções que incluam o contexto familiar como alvo terapêutico central. Além disso, a associação entre adversidades precoces e trajetórias psicopatológicas mais graves reforça a importância da identificação precoce do transtorno e da implementação de estratégias preventivas, capazes de modificar desfechos negativos a longo prazo (ODGERS et al., 2018; EVANS et al., 2020).

          5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A Síndrome dos Ovários Policísticos configura-se como uma condição crônica de impacto multidimensional, cujas repercussões ultrapassam os limites do sistema reprodutivo e metabólico, alcançando de forma significativa a saúde mental das mulheres acometidas. As evidências analisadas nesta revisão narrativa demonstram que mulheres com SOP apresentam maior prevalência de transtornos psiquiátricos, especialmente depressão e ansiedade, além de prejuízos substanciais na qualidade de vida e no bem-estar emocional.

            Os achados reforçam que o sofrimento psíquico associado à SOP resulta da interação complexa entre fatores biológicos — como alterações hormonais, resistência à insulina e inflamação crônica — e fatores psicossociais, incluindo estigmatização, alterações da imagem corporal e infertilidade. Essa combinação contribui para a vulnerabilidade emocional e para o subdiagnóstico de transtornos psiquiátricos nessa população.

            Diante desse cenário, torna-se imprescindível a adoção de uma abordagem clínica integrada e multidisciplinar, que incorpore o rastreamento sistemático da saúde mental no cuidado de mulheres com SOP. O reconhecimento precoce e o manejo adequado dos transtornos psiquiátricos associados podem melhorar significativamente os desfechos clínicos, a adesão terapêutica e a qualidade de vida dessas pacientes.

            Por fim, ressalta-se a necessidade de futuras pesquisas longitudinais e intervencionistas que aprofundem a compreensão dos mecanismos envolvidos e avaliem estratégias terapêuticas integradas, fortalecendo a interface entre endocrinologia, ginecologia e psiquiatria no cuidado à mulher com SOP.

            REFERÊNCIAS

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            1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina

            2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ).