AS CONCEPÇÕES DE FRAÇÃO ENTRE  LICENCIANDOS EM MATEMÁTICA: UMA ANÁLISE À LUZ DA TEORIA DOS  CAMPOS CONCEITUAIS  

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510042144


Bruno Pereira Pinheiro1


Resumo  

Este artigo apresenta uma análise das concepções de frações entre estudantes de um curso de  Licenciatura em Matemática de uma universidade pública da Bahia, com base na Teoria dos  Campos Conceituais de Vergnaud. A pesquisa foi desenvolvida com 59 estudantes  distribuídos em três grupos conforme o semestre de matrícula. Os instrumentos aplicados  buscaram identificar as representações, invariantes e situações que os licenciandos mobilizam  ao construir problemas envolvendo frações e ao conceituar números racionais. Os resultados  revelam que, apesar da formação avançar, muitos estudantes apresentam concepções  limitadas, com predominância da situação de operador multiplicativo, baixa exploração dos  invariantes e uso restrito das representações. Tais evidências indicam a necessidade de uma  formação mais aprofundada e integrada entre conteúdo matemático e didática específica.  

Palavras-chave: Frações. Formação de professores. Teoria dos Campos Conceituais.  Concepções. Educação Matemática.  

1. Introdução  

A formação inicial de professores de matemática tem sido alvo de discussões  acadêmicas e políticas nas últimas décadas, especialmente no que se refere à articulação entre  conhecimento matemático e conhecimento pedagógico. Neste contexto, a compreensão do  conceito de fração — historicamente considerado de difícil assimilação — torna-se essencial  para a atuação docente eficaz no ensino fundamental e médio.  

Este estudo nasceu da inquietação vivenciada pelo autor, enquanto professor em  formação e em exercício, sobre os limites do curso de licenciatura em fornecer subsídios para  o ensino de conteúdos matemáticos complexos, como os números racionais. O objetivo desta  pesquisa é investigar as concepções que licenciandos em Matemática possuem sobre frações,  analisando como essas concepções evoluem ao longo da formação.  

A investigação baseia-se na Teoria dos Campos Conceituais, que considera a  construção de conceitos como resultado da interação entre situações, invariantes operatórios e representações. Esta abordagem teórica é combinada com as contribuições de Kieren, Behr,  Shulman e Ponte, que abordam tanto o conteúdo matemático quanto o conhecimento  pedagógico necessário para seu ensino.  

2. Fundamentação Teórica  

A construção do conceito de fração é amplamente reconhecida na literatura como um  dos principais desafios da Educação Matemática, tanto no ensino básico quanto na formação  de professores. De acordo com Kieren (1988), os números racionais se organizam em  diferentes subconstrutos, como parte-todo, operador, quociente, razão, medida, entre outros,  que precisam ser compreendidos de forma integrada para uma apreensão plena do conceito.  

Complementando essa visão, Behr et al. (1992) propõem múltiplas interpretações das  frações, considerando-as como medidas, razões, taxas, quocientes, operadores e elementos da  reta numérica. Essa multiplicidade de sentidos exige do professor um domínio que ultrapassa  a definição formal e envolve a mobilização de diferentes representações e situações.  

Para compreender a construção de conceitos complexos como esse, adotamos a Teoria  dos Campos Conceituais de Vergnaud (1988, 2001), segundo a qual um conceito é  estruturado a partir de três elementos: o conjunto de situações que o mobilizam, os  invariantes operatórios (conceitos e teoremas em ação) e as representações utilizadas. O  domínio de um conceito ocorre quando o sujeito é capaz de aplicar esquemas adequados a  uma diversidade de situações.  

Além disso, considera-se o conhecimento pedagógico do conteúdo, conforme  definido por Shulman (1986), como a interseção entre o saber específico e a didática  necessária para seu ensino. Ponte (1992, 2000) e Serrazina (2001) também destacam a  importância da articulação entre saberes disciplinares, curriculares e pedagógicos para a  formação docente.  

Nesse sentido, investigar as concepções de frações dos licenciandos permite identificar  como se articulam os saberes envolvidos na formação, e se há indícios de um conhecimento  didático do conteúdo em construção ou ainda fragilidades conceituais significativas.  

3. Metodologia  

Esta pesquisa caracteriza-se como diagnóstica, descritiva e qualitativa, com o  objetivo de compreender as concepções de frações entre licenciandos em Matemática, em  diferentes etapas da formação inicial. O estudo foi realizado em uma universidade pública da  Bahia, no curso de Licenciatura em Matemática.  

3.1 Participantes  

Participaram da pesquisa 59 estudantes, distribuídos em três grupos conforme o  semestre cursado: 

  • G1 – Estudantes do 1º ao 3º semestre.  
  • G2 – Estudantes do 4º ao 6º semestre.  
  • G3 – Estudantes do 7º ao 9º semestre.  

3.2 Instrumentos de Coleta  

Foram utilizados dois instrumentos principais:  

  • 1. Criação de problemas: cada participante foi convidado a elaborar seis problemas que  envolvessem o conceito de fração.  
  • 2. Definição conceitual: foi solicitada a resposta à pergunta: “O que é um número  racional?” 

3.3 Análise dos Dados  

A análise seguiu a proposta da Teoria dos Campos Conceituais de Vergnaud, sendo os  problemas categorizados com base em três dimensões:  

  • Situações: Parte-todo, Quociente, Operador, Quantidade Intensiva e Razão. 
  • Invariantes: Ordem e Equivalência.  
  • Representações: forma a/b, linguagem natural, decimal, porcentagem e pictórica.  

4. Análise dos Resultados  

A análise dos problemas elaborados revelou que os três grupos apresentaram tendência  majoritária à situação operador multiplicativo, com destaque para o G1, que concentrou a  maior quantidade de ocorrências. Situações como razão e quantidade intensiva foram pouco  exploradas.  

Em relação aos invariantes operatórios, observou-se baixa incidência do uso  consciente de ordem e equivalência. Mesmo os estudantes de semestres mais avançados  demonstraram dificuldades em mobilizar esses elementos na criação dos problemas.  

Quanto às representações, a forma a/b foi amplamente predominante, enquanto  outras formas, como porcentagem, decimal ou pictórica, tiveram ocorrência reduzida, o que  indica um uso restrito dos registros simbólicos da fração.  

Na questão sobre número racional, muitos estudantes apresentaram definições  incompletas ou conceitualmente frágeis, reduzindo o conceito à “fração” ou “parte de um  todo”, sem considerar o conjunto mais amplo e suas propriedades.  

Esses dados revelam que as concepções dos licenciandos são próximas de uma  imagem parcial do conceito, e não de uma construção integrada com base na terna proposta  por Vergnaud (situação, invariante, representação). 

5. Considerações Finais  

A pesquisa evidenciou que, embora os estudantes avancem nos semestres do curso, as  concepções de fração permanecem, em sua maioria, limitadas. A predominância de situações  do tipo operador multiplicativo e o uso reduzido de invariantes e representações variadas  sugerem que os futuros professores ainda não dominam plenamente o conceito de fração.  

Essa realidade levanta preocupações sobre a formação inicial oferecida, especialmente  quanto à articulação entre o conhecimento matemático e o conhecimento didático do  conteúdo. A compreensão da fração deve ultrapassar a dimensão formal e se aproximar da  diversidade de significados que o conceito assume na matemática e no cotidiano.  

Sugere-se que os cursos de licenciatura incluam experiências formativas que  incentivem os licenciandos a refletirem sobre suas concepções, elaborem situações didáticas  contextualizadas e aprofundem o estudo das teorias que sustentam o ensino dos números  racionais.  

Como desdobramento, pesquisas futuras podem explorar intervenções didáticas  específicas para promover o desenvolvimento das concepções de frações entre licenciandos,  contribuindo para uma formação docente mais crítica e fundamentada.  

Referências

BEHR, M. et al. Rational number concepts. In: Grouws, D.A. (Ed.). Handbook of research  on mathematics teaching and learning. New York: Macmillan, 1992.  

KIEREN, T. E. On the mathematical, cognitive and instructional foundations of rational  numbers. In: LESH, R. (Ed.). Number and measurement: papers from a research workshop.  Columbus: ERIC/SMEAC, 1980.  

PONTE, J. P. As concepções dos professores de Matemática e processos de formação. In: GT  de Educação Matemática da SBPC. Educação Matemática: questões, tendências e  implicações para a prática pedagógica. São Paulo: SBPC, 1992.  

SHULMAN, L. S. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational  Researcher, v. 15, n. 2, p. 4–14, 1986.  

VERGNAUD, G. A concepção de número na perspectiva dos campos conceituais. In:  NUNES, T.; BRYANT, P. Aprender a ensinar matemática. São Paulo: Artmed, 2009.


1Mestre em Educação Matemática pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). E-mail:  bruno_simpsom@hotmail.com

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