APLICAÇÃO DE CERÂMICAS NA ÁREA DE DESIGN DE JOIAS: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA

CERAMIC APPLICATION IN JEWELRY DESIGN: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202601071344


Marissol Machado da Silveira1
Bárbara Tatiele Santos2
Clariana Fischer Brendler3
Pedro Luiz Juchem4


Resumo 

A cerâmica tem se consolidado como um material de interesse no design contemporâneo de joias, unindo inovação estética e propriedades técnicas superiores. Este estudo tem como objetivo explorar o uso da cerâmica no design de joias, com ênfase na identificação dos materiais e técnicas mais adequados para a fabricação de brincos ergonômicos, seguros e confortáveis. Para isso, foi realizada uma revisão sistemática da literatura, seguindo o protocolo PRISMA e a estratégia PICO, a fim de selecionar e analisar estudos relevantes. Os resultados revelaram uma lacuna significativa na literatura, evidenciando a carência de abordagens que integrem simultaneamente aspectos cerâmicos, estruturais e ergonômicos. A análise aponta a necessidade de maior atenção aos requisitos ergonômicos para assegurar conforto e segurança no uso de adornos cerâmicos. Esta pesquisa constitui parte de uma dissertação de mestrado e busca contribuir para a consolidação da cerâmica como material de alta expressão artística e funcional no campo da joalheria, articulando tradição, inovação e conhecimento técnico de maneira crítica e integrada. 

Palavras-chave: design de joias; cerâmica; ergonomia 

Abstract  

Ceramics have become increasingly consolidated as a material of interest in contemporary jewelry design, combining aesthetic innovation with superior technical properties. This study aims to explore the use of ceramics in jewelry design, with an emphasis on identifying the most suitable materials and techniques for the production of ergonomic, safe, and comfortable earrings. A systematic literature review was conducted, following the PRISMA protocol and the PICO strategy to guide the selection and analysis of relevant studies. The results revealed a significant gap in the literature, highlighting the lack of approaches that simultaneously integrate ceramic, structural, and ergonomic aspects. The analysis underscores the need for greater attention to ergonomic requirements to ensure comfort and safety in the use of ceramic adornments. This research constitutes part of a master’s dissertation and seeks to contribute to the consolidation of ceramics as a material of high artistic and functional expression in the jewelry field, articulating tradition, innovation, and technical knowledge in a critical and integrated manner. 

Keywords: jewelry design; ceramics; ergonomics 

1. Introdução 

A cerâmica, caracterizada como um material inorgânico, não metálico e resultante de processos térmicos em altas temperaturas, representa um dos campos materiais mais antigos e versáteis da humanidade. Sua ampla gama de aplicações decorre não apenas das propriedades físico-químicas, mas também das variáveis associadas às matérias-primas utilizadas e aos métodos de processamento empregados (ABCERAM, 2023). Embora tradicionalmente associada à construção civil, à produção de utensílios domésticos e a elementos artísticos, a cerâmica possui igualmente uma trajetória expressiva no campo da joalheria, demonstrando sua adaptabilidade estética e simbólica em diversas culturas e períodos históricos. 

O uso da cerâmica como ornamento remonta a períodos muito antigos, especialmente no Egito, por volta do final do quinto milênio a.C., com a manufatura da esteatita vidrada. Este material, derivado de uma rocha metamórfica rica em talco, de baixa dureza, ao receber um revestimento de esmalte vítreo, adquire aparência semelhante a gemas preciosas, como a turquesa e a esmeralda (RICCARDELLI, 2017). A superfície esverdeada e opaca dos objetos, frequentemente moldados em formas zoomórficas carregadas de simbolismo, indicava não apenas o domínio técnico dos egípcios, mas também a atribuição de significados místicos às peças cerâmicas. Contudo, a esteatita logo foi superada pela chamada faiança egípcia — ou pasta egípcia — material que, ao refletir a luz de maneira mais intensa, ampliou as possibilidades visuais e simbólicas no uso da cerâmica para ornamentos. 

A pasta egípcia, composta essencialmente por sílica e agentes fundentes, possuía características singulares: não apresentava a plasticidade típica do barro, mas sua textura gelatinosa permitia o emprego em moldes, possibilitando a criação de peças com alto grau de detalhamento (RICCARDELLI, 2017). Sua aplicação estendia-se da produção de ladrilhos decorativos a relevos funerários, além de uma vasta gama de amuletos e contas, que desempenhavam funções protetoras e estéticas. Desde a Antiguidade, a cerâmica demonstrava seu potencial para substituir materiais nobres, como metais e gemas, através da criação de superfícies vitrificadas, translúcidas e ricas em efeitos de cor e luz. 

Com a evolução das tecnologias, sobretudo a partir do século XX, a cerâmica ultrapassou as fronteiras tradicionais, dando origem às chamadas cerâmicas avançadas ou de alta tecnologia. Desenvolvidas para atender a demandas específicas dos setores eletroeletrônico, térmico, mecânico e biomédico, essas cerâmicas caracterizam-se por atributos como elevada resistência mecânica, durabilidade, biocompatibilidade e hipoalergenicidade (SILVA, 2019). Tais propriedades ampliaram o interesse pela aplicação da cerâmica na joalheria contemporânea, uma vez que, além de oferecerem uma alternativa estética inovadora, proporcionam vantagens funcionais em relação a materiais convencionais, como o ouro e a prata. Em termos de custo de produção, peças cerâmicas podem ser significativamente mais acessíveis, sem prejuízo à qualidade ou sofisticação formal, configurando uma oportunidade de democratização do acesso a adornos de alto valor agregado. 

Apesar das qualidades evidentes, o uso da cerâmica na joalheria demanda uma abordagem crítica e interdisciplinar, sobretudo quanto às questões ergonômicas, estruturais e de resistência. Como apontam Silva (2019) e Rabenschlag et al. (2019), a criação de joias requer a conjugação dos princípios de design com fundamentos de ergonomia, uma vez que, diferentemente de esculturas ou objetos decorativos, as joias estabelecem contato direto e contínuo com o corpo humano. Assim, aspectos como peso, textura, temperatura, tipo de fixação e adaptabilidade às diversas partes do corpo tornam-se determinantes para a aceitação e o sucesso da peça enquanto produto de uso cotidiano. 

Em especial no caso dos brincos, que representam cerca de 53% do mercado joalheiro mundial (BATISTA, 2014), os riscos associados ao peso excessivo e à má distribuição de carga podem comprometer seriamente o conforto e a saúde do usuário. Tendências contemporâneas, como os maxi brincos, ilustram essa problemática, pois, embora estéticamente marcantes, muitas vezes resultam em lesões no lóbulo da orelha ou desconforto prolongado (RABENSCHLAG et al., 2019). Estudos recentes enfatizam que, embora o design de joias não adote formalmente os mesmos critérios ergonômicos de produtos industriais, considerações como peso máximo (entre 7 g e 10 g por orelha), posicionamento e dimensões dos pinos (9,5 mm a 13,0mm de comprimento e 0,51 mm a 1,0 mm de diâmetro) são fundamentais para assegurar conforto e segurança (BATISTA; STROEBEL, 2014). 

A segurança estrutural das peças também merece destaque: fechos, elos e cravações mal projetadas podem resultar em enroscos, rupturas ou ferimentos (BATISTA, 2014). Além disso, o comportamento dos materiais ao longo do tempo — como a possibilidade de degradação, oxidação ou alteração sensorial — interfere diretamente na longevidade percebida da jóia e, por conseguinte, na experiência do usuário (SILVA, 2019). Neste contexto, o estudo atento das propriedades da cerâmica, bem como a adoção de técnicas de processamento que respeitem os limites de resistência mecânica e conforto, torna-se imprescindível. 

Dessa maneira, esta pesquisa objetiva explorar o uso da cerâmica no design de joias, com especial ênfase nas suas aplicações práticas, estruturais e ergonômicas. Através de uma revisão sistemática da literatura, busca-se identificar os materiais e as técnicas mais adequadas para a fabricação de adornos cerâmicos seguros e confortáveis, abordando lacunas existentes no campo da joalheria contemporânea. Almeja-se, assim, contribuir para a consolidação da cerâmica como um material de alta expressão artística e funcional, articulando tradição, inovação e conhecimento técnico de maneira integrada e crítica. 

2. Metodologia 

Com o intuito de desenvolver o objetivo da pesquisa, foi realizada uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL). Para isso, adotou-se a metodologia proposta por Galvão, Pansani e Harrad (2015), baseada no protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), um conjunto de diretrizes que orienta a condução de revisões sistemáticas com clareza, rigor e padronização. Esse protocolo estrutura a RSL em quatro etapas principais: (i) Planejamento da revisão, com a definição do problema, objetivo e critérios de inclusão/exclusão; (ii) Condução da revisão, com a busca e seleção dos estudos nas bases de dados; (iii) Análise e interpretação dos resultados, organizando e sintetizando os achados; e (iv) Apresentação da revisão, com a elaboração do relatório final e discussão dos resultados. A aplicação desse protocolo garantiu maior confiabilidade e transparência ao processo de levantamento e análise dos dados.  

Para o designer, qual o método mais eficiente em termos produtivos para o uso de cerâmica na joalheria de brincos ergonômicos? 

Para a definição da pergunta de pesquisa aplicou-se a estratégia PICO– onde define-se o Público (P), a Intervenção (I), uma Comparação (C) e um desfecho (O de “outcomes”). Na presente pesquisa foi adotado: (P – Público) designers ; (I-intervenção) produção de brincos; (C – comparação) utilização da cerâmica na joalheria; e o (O- desfecho) qual o método mais eficiente de se produzir um brinco de cerâmica ergonômico. 

2.1 Critérios da Revisão Sistemática 

Após identificar a pergunta de pesquisa, foi feito o planejamento das delimitações dos parâmetros de busca para estabelecer os critérios do protocolo. Este processo visou garantir uma abordagem sistemática e abrangente na seleção dos estudos relevantes, incorporando uma ampla variedade de fontes de informação. 

Os critérios de busca foram construídos para incluir trabalhos publicados até 2025, pois a pesquisa pretende abranger a evolução histórica do processo, abrangendo bases de dados como Springer Nature, Science Direct e Google Acadêmico. Estas bases foram selecionadas por sua capacidade de fornecer conexão a uma diversidade de periódicos de acesso livre, conferências e outros documentos acadêmicos que abordam o tema de interesse.   

Os critérios de inclusão especificaram que os estudos deveriam estar disponíveis em português ou inglês. Além disso, os trabalhos foram selecionados de acordo com os parâmetros detalhados no Quadro 1. 

Quadro 1 – Protocolo da Revisão Sistemática

Na sequência, elaborou-se a string de busca,  os termos de busca estão relacionados à “cerâmica”, “joalheria”, “ergonomia” e “design de joia”. Além disso, serão adicionados trabalhos potencialmente relevantes que sejam do conhecimento dos pesquisadores. A string final foi (“ceramica” not “cerâmica odontológica”) AND (“ergonomia”) AND (“joalheria” or “design de joias”). 

Figura 1 – Diagrama de fluxo PRISMA (2015) apresentando os critérios e etapas de seleção.

Fonte: adaptado de PRISMA (2015).

Para a apuração e organização dos registros obtidos, utilizou-se a plataforma Parsifal em sua versão online. Esta ferramenta foi essencial para importar os artigos selecionados e prepará-los para análise detalhada. Todos os procedimentos descritos no processo da Revisão Sistemática da Literatura (RSL) foram registrados dentro do diagrama de fluxo PRISMA-2015. Este diagrama, exemplificado na Figura-1, foi crucial para guiar a pesquisa de acordo com a sequência e critérios estabelecidos, assegurando transparência e rigor metodológico em cada etapa da revisão.

3. Desenvolvimento

Seguindo o protocolo PRISMA, foi possível realizar uma triagem sistemática e criteriosa dos estudos inicialmente identificados. Durante o processo de seleção, aplicaram-se de forma rigorosa os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, de modo a garantir a relevância e a qualidade dos trabalhos analisados em relação à pergunta de pesquisa proposta.

Dando continuidade ao processo metodológico, a Figura 2 apresenta o diagrama de fluxo PRISMA, que sintetiza todas as etapas de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos analisados. O diagrama evidencia o rigor da triagem realizada, desde a busca inicial de 957 registros até a seleção final de apenas 1 (um) artigo considerado pertinente à temática da pesquisa. Como se observa, a maioria dos estudos foi excluída por não atender aos critérios definidos, seja por não focar no design de joias, seja por não priorizar a aplicação da cerâmica. Este panorama reforça a escassez de literatura que integre de maneira simultânea as dimensões cerâmicas, estruturais e ergonômicas no contexto do design de brincos.

Inicialmente, foram identificados 957 relatos em três bases de dados: Google Acadêmico (949 registros), Science Direct (7 registros) e Springer Nature (1 registro). Após a eliminação de duplicatas, restaram 952 registros únicos.

Na fase de triagem dos títulos, 892 registros foram excluídos por não atenderem aos temas de interesse da pesquisa. Com isso, 60 artigos foram selecionados para análise completa.

Durante a avaliação dos textos completos, aplicaram-se os critérios de exclusão definidos: (a) não tratar da área de design de joias, ou (b) não ter a cerâmica como foco principal. Nessa etapa, 59 artigos foram excluídos (54 pelo critério “a” e 5 pelo critério “b”). Após realizar essa seleção foi desenvolvida a análise descritiva e a síntese do conteúdo dos artigos obtidos. Desta forma, foram selecionados um total de 1 (um) trabalho – advindo da base de dados Google Acadêmico.

Esse artigo, proveniente do Google Acadêmico, passou pela avaliação final, mas não atendeu plenamente à integração dos três critérios centrais da pesquisa (cerâmica, ergonomia e design de joias), conforme detalhado nas seções de resultados e discussão.

A Figura 2, portanto, ilustra de forma visual todo o percurso de seleção dos estudos, evidenciando o rigor metodológico empregado e a significativa lacuna existente na literatura sobre o tema.

Figura 2: Diagrama de fluxo Prisma 2015 para novas revisões sistemáticas que incluíram pesquisas de bancos de dados e registros

Fonte: adaptado de PRISMA (2015). 

O Quadro 2 apresenta os dados do artigo que atendeu aos critérios de inclusão e exclusão da RSL. Observa-se que o trabalho foi desenvolvido para a conclusão de um curso de bacharelado, considerado recente por se encontrar no enquadramento dos últimos 10 anos, apesar da recente pesquisa não ter limitado a data de publicação. 

Quadro 2 – Artigos obtidos através da pesquisa RSL  

Fonte: Elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada 

4. Resultados 

Após leitura completa houve uma pontuação guiada por cinco critérios: (1) técnicas que beneficiam a produção de brincos em cerâmica, (2) processo de fabricação cerâmica, (3) ergonomia, cuidados e segurança, (4) cerâmicas avançadas e (5) aspectos da joalheria. Os artigos que atenderam a esses critérios estão apresentados no Quadro 3. 

Quadro 3 – Análise Qualitativa dos artigos decorrentes da RSL – Grupo 1 

Fonte: Elaborado pelos autores, com base na pesquisa realizada 

Essa constatação reforça a percepção da lacuna existente na literatura, indicando que ainda são escassos os estudos que propõem metodologias específicas para a produção ergonômica de brincos em cerâmica. Também evidencia que as práticas atuais, mesmo no campo acadêmico, ainda tendem a priorizar a dimensão estética e simbólica das peças em detrimento de parâmetros técnicos e funcionais essenciais para o conforto e segurança dos usuários. 

Além disso, a ausência de estudos mais completos sobre a combinação entre materiais cerâmicos avançados, técnicas de produção e critérios ergonômicos sugere uma oportunidade para o desenvolvimento de novos projetos de pesquisa e inovação no setor joalheiro. A necessidade de uma abordagem mais integrada e orientada à experiência do usuário final torna-se, portanto, uma recomendação evidente a partir dos resultados encontrados. 

5. Discussões 

A utilização da cerâmica no design de joias contemporâneo não se restringe mais à reprodução estética de gemas ou metais preciosos, mas também incorpora conceitos de inovação material, sustentabilidade e personalização. Grandes marcas de joalheria e novos ateliês de design têm explorado cerâmicas técnicas e híbridas, como a zirconia policristalina e a alumina translúcida, visando desenvolver produtos mais leves, resistentes e com estética diferenciada. Esse movimento revela uma tendência crescente de valorização da materialidade e do caráter artesanal das peças. 

No entanto, a escassez de estudos específicos sobre a integração entre propriedades cerâmicas e requisitos ergonômicos ainda representa um desafio substancial. A literatura revisada demonstra que, embora existam avanços significativos em processos como a manufatura aditiva (impressão 3D em cerâmica) e a prototipagem rápida, poucas pesquisas discutem os impactos dessas tecnologias sobre o conforto, o ajuste anatômico e a durabilidade dos adornos corporais. 

A ergonomia aplicada ao design de brincos cerâmicos emerge, nesse cenário, como um eixo fundamental de inovação. Estudos futuros devem explorar parâmetros como a densidade específica dos materiais, a espessura ideal para resistência sem excesso de peso, a interação térmica com a pele e o comportamento em diferentes condições de uso. Além disso, a possibilidade de customização por meio de impressão 3D em cerâmica abre perspectivas para o desenvolvimento de peças personalizadas, adaptadas às características biométricas dos usuários, ampliando o potencial de aceitação e fidelização no mercado. 

Outro aspecto crítico a ser considerado é a sustentabilidade. A cerâmica, por sua origem mineral e sua longa durabilidade, apresenta vantagens ambientais em comparação a materiais metálicos convencionais que dependem de mineração intensiva. A adoção de resíduos cerâmicos de outras indústrias e a otimização energética dos processos de queima também constituem estratégias promissoras para uma produção joalheira mais responsável. 

Dessa forma, a presente pesquisa destaca não apenas uma lacuna acadêmica a ser preenchida, mas também oportunidades concretas de inovação interdisciplinar que podem reposicionar a cerâmica como protagonista no futuro do design de joias. Para que isso se concretize, recomenda-se a criação de protocolos específicos de teste e desenvolvimento de produto, capazes de considerar simultaneamente atributos técnicos, ergonômicos e sustentáveis. 

6. Considerações finais 

A realização da revisão sistemática evidenciou a escassez de estudos que abordem de maneira integrada as áreas de cerâmica, design de joias e ergonomia. Embora a cerâmica apresente um potencial expressivo como material alternativo e inovador na joalheria, a ausência de abordagens que articulem simultaneamente os aspectos técnicos, estéticos e funcionais limita o pleno aproveitamento de suas propriedades no desenvolvimento de adornos corporais. 

A análise do único estudo selecionado aponta que, mesmo entre propostas contemporâneas, predomina uma exploração estética da cerâmica, com pouca ênfase em aspectos ergonômicos e em métodos produtivos otimizados para o uso cotidiano. Essa lacuna é particularmente relevante considerando que o conforto, a segurança e a usabilidade das peças são fatores decisivos para a aceitação do produto pelo público e para a preservação da saúde do usuário. 

A integração entre cerâmica, design de joias e ergonomia configura, portanto, um campo promissor para a inovação na joalheria. Incorporar critérios ergonômicos desde a concepção do projeto — como controle de peso, distribuição de carga, adequação ao corpo e resistência ao uso — é essencial para assegurar não apenas a funcionalidade das peças, mas também sua durabilidade e valor percebido. 

Assim, ressalta-se a importância de futuros estudos e práticas de projeto que promovam uma abordagem interdisciplinar efetiva, capaz de explorar todo o potencial tecnológico e simbólico da cerâmica na criação de adornos contemporâneos. Tal perspectiva pode contribuir para a consolidação de jóias cerâmicas que sejam simultaneamente inovadoras, confortáveis e sustentáveis, dialogando de maneira mais ampla com as necessidades e expectativas dos usuários contemporâneos. 

7. Trabalhos futuros 

Esta pesquisa corresponde a uma etapa parcial do desenvolvimento de uma dissertação de mestrado, que tem como objetivo final propor diretrizes práticas para a produção de brincos em cerâmica com ênfase em critérios ergonômicos e de conforto. 

  • Com base nos resultados da revisão sistemática, os próximos passos da investigação envolverão: 
  • A realização de estudos experimentais para a avaliação do desempenho de diferentes composições cerâmicas aplicadas à joalheria; 
  • O desenvolvimento e a prototipagem de modelos de brincos cerâmicos que incorporem critérios ergonômicos previamente estabelecidos; 
  • A condução de testes de usabilidade com usuários, para analisar aspectos como conforto, adaptação corporal e segurança estrutural; 
  • A sistematização dos resultados em diretrizes de design aplicáveis ao setor joalheiro, visando estimular a adoção consciente da cerâmica como material de alto valor agregado e usabilidade. 
  • Espera-se, assim, contribuir para a formação de uma base científica sólida que auxilie designers, artesãos e indústrias na criação de adornos cerâmicos mais eficientes, seguros e inovadores. 

8. Agradecimentos 

“O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES)”. 

9. Referências 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CERÂMICA. Definição e classificação. ABCERAM, 2023. Disponível em: https://abceram.org.br/definicao-e-classificacao/. Acesso em: 16/12/2023 

APARO, Ermanno; ABRANTES João Carlos. Os Materiais Cerâmicos como Agentes Inovadores da Joalharia. Cerâmica Industrial, v. 11, p. 18-20, Janeiro/Fevereiro, 2006. 

APARO, Ermanno; POMBO, Fátima. A Cerâmica e a Joalharia: O design como agente de sobrevivência de duas culturas materiais. ResearchGate, 2006. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/277102829. Acesso em 10/05/2024. 

BARROS, Djalma; PERES, Giovanna Fusco. A cerâmica na joalheria: beleza e arte. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CERÂMICA, 54., 2010, Foz do Iguaçu, PR, p. 2650-2658. 

BATISTA, Claudia R. CONSIDERAÇÕES ERGONÔMICAS PARA O DESIGN DE BRINCOS. In: Congresso Internacional de Ergonomia Aplicada, 1, 2016, São Paulo. Blucher, 2016, p. 882-883 . 

BATISTA, M. C. Ergonomia e design de joias: aspectos funcionais e estéticos. São Paulo: Editora Design, 2014. 

BATISTA, M. C.; STROEBEL, G. Projeto de brincos: diretrizes ergonômicas para o design de joias. Revista Brasileira de Design, v. 7, n. 2, p. 54–70, 2014. 

DADKHAH, M., TULLIANI, J. M., SABOORI, A., & IULIANO, L. (2023). Additive manufacturing of ceramics: Advances, challenges, and outlook. In Journal of the European Ceramic Society, Vol. 43, n. 15, p. 6635–6664. Elsevier Ltda. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jeurceramsoc.2023.07.033. Acesso em 08/01/2024. 

FONSECA, M. H. de F.; BARBOSA, M. P. S.; VILAR, Z. T.; LUCENA JÚNIOR, U. P.; LOBO, C. J. de S. Estudo da influência da porosidade em materiais cerâmicos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 22., 2016, Natal, RN., 2016. p. 1341-1352. 

GONÇALVES, M. J.. ETAPAS DE FABRICAÇÃO DE UM COMPONENTE CERÂMICO AVANÇADO. In Desvendando a Engenharia: sua abrangência e multidisciplinaridade – Volume 4, 2022 (pp. 64– 78). Editora Científica Digital. Disponível em : https://doi.org/10.37885/220408539. Acesso em 16/10/2023. 

GALVÃO, Tais; PANSANI, Thais de S. A.. Principais itens para relatar revisões sistemáticas e meta-análises: a recomendação PRISMA. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 24, n. 2, p. 335– 342, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.5123/s1679-49742015000200017. 

GUILGEN, Carolina de A.; FERRO, Glaucia de S.. DESIGN DE JOIAS: cerâmica avançada e a prototipagem rápida na joalheria. E-Tech: Tecnologias para Competitividade Industrial, Florianópolis, n. Especial Design, 2015/1, p. 141-155. 

GUILGEN, Carolina de Araujo; KISTMANN, Virginia Borges; RONCALIO, Vanessa Weiss. Elementos característicos do design de joias com materiais cerâmicos ao longo do tempo. In: COLÓQUIO DE MODA, 10.; CONGRESSO BRASILEIRO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA EM DESIGN DE MODA, 1., 2014. 

RABENSCHLAG, D. R. et al. Joalheria e ergonomia: desafios e diretrizes para o design de adornos corporais. Journal of Contemporary Design, v. 5, n. 1, p. 112–130, 2019. 

RICCARDELLI, C. A joalheria no Antigo Egito: entre o sagrado e a estética. Revista de História da Arte e Arqueologia, n. 26, p. 47–62, 2017. 

SILVA, A. P. Cerâmica técnica e joalheria contemporânea: aplicações e perspectivas. Revista Matéria, v. 24, n. 1, p. 1–18, 2019. 

SILVA, Stephany de Souza. A influência da tarraxa no desconforto durante o uso de brincos. 2019. Dissertação (Mestrado em Design) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Programa de Pós-Graduação em Design, Florianópolis, 2019. Disponível em:https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o___Stephany_de_Souz a_Silva_15726251142562_1229.pdf 

SOARES, C. S.; SILVA, J. F.; OLIVEIRA, M. S.; CRUZ, R.; GIBO, R. M.; MOREIRA, F. Desenvolvimento de paper clay para cerâmica artística. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CERÂMICA, 55., 2011, Porto de Galinhas, PE. 2011. p. 3198-3209.


10009-0002-3952-8649; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UFRGS
20009-0007-4700-3144; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UFRGS
30000-0001-9309-2175; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UFRGS
40000-0002-1079-8138;  Universidade Federal do Rio Grande do Sul; UFRGS