ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA DA SÍFILIS EM GESTANTES E CONGÊNITA EM UM ESTADO DA AMAZÔNIA LEGAL DO BRASIL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202601212331


André Luiz Viana de Carvalho1
Carlos Costa Lima Filho2


RESUMO

A sífilis é uma infecção sistêmica de caráter sexualmente transmissível, causada pela espiroqueta Treponema pallidum. No ciclo gravídico-puerperal, a infecção materna pode acarretar a transmissão vertical, resultando na sífilis congênita, condição associada a graves desfechos perinatais. O presente estudo objetivou analisar o perfil epidemiológico da sífilis gestacional e congênita no estado do Amapá entre os anos de 2019 e 2023. Para tanto, delineou-se um estudo epidemiológico descritivo, retrospectivo e de abordagem quantitativa, fundamentado em dados secundários obtidos via Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (SINASC). Os resultados revelaram a notificação de 2.044 casos de sífilis gestacional, com predominância de mulheres autodeclaradas pretas ou pardas, na faixa etária de 20 a 39 anos e com escolaridade de nível médio completo, sendo a sífilis primária o estágio clínico prevalente no diagnóstico. No mesmo período, registraram-se 853 casos de sífilis congênita, incidindo majoritariamente em neonatos negros, do sexo masculino, identificados nos primeiros seis dias de vida (sífilis congênita recente). Evidenciou-se, ainda, a persistência de campos ignorados nas bases de dados do DATASUS, o que aponta para a necessidade de melhorar a completude das notificações para viabilizar análises de maior acurácia e o fortalecimento das políticas públicas locais.

Palavras-chave: Sífilis; Gestantes; Sífilis Congênita; Epidemiologia; Saúde Pública.

INTRODUÇÃO 

A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum, pertencente à família Spirochaetaceae, de caráter endêmico e com maior prevalência em áreas urbanas (Aquino, 2021; Sobrero et al., 2023). Quando adquirida durante a gestação, a transmissão vertical pode ocorrer, resultando em sífilis congênita (Silva et al., 2024). Diversos fatores estão associados à aquisição da sífilis pelas mulheres, incluindo: idade jovem, pertencimento a raça/cor não branca, baixo nível de escolaridade, histórico prévio de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), múltiplos parceiros sexuais, início tardio e baixa qualidade do pré-natal, entre outros (Neta et al., 2024). 

Nos casos em que as mulheres infectadas não recebem tratamento adequado, ou quando este é realizado de forma incorreta, há cerca de 50% de risco de transmissão da infecção ao concepto durante a gestação (Amorim et al., 2021). Ademais, a sífilis gestacional constitui-se como a segunda principal causa de natimortalidade em âmbito mundial (Pires et al., 2024), sendo responsável por aproximadamente 40% dos desfechos adversos, como natimorto, aborto espontâneo, morte fetal precoce, prematuridade, baixo peso ao nascer e distúrbios neurológicos de longo prazo (Rocha et al., 2024; Paixão et al., 2023). 

Quando não tratada, a progressão da doença pode culminar em complicações graves e irreversíveis, como alterações cardiovasculares e neurológicas (Silva et al., 2024). Desde 1986, a sífilis congênita é classificada como agravo de notificação compulsória, enquanto a sífilis gestacional passou a ter notificação obrigatória a partir de 2005 (Soares; Aquino, 2021). As taxas de detecção da sífilis em gestantes, por mil nascidos vivos, apresentaram crescimento expressivo entre 2010 e 2017, passando de 3,5 para 17,2 casos, o que evidencia a elevação da prevalência da infecção no Brasil (Figueiredo et al., 2020). Nesse sentido, a sífilis permanece como um desafio para as políticas públicas de saúde, sobretudo em razão das formas gestacional e congênita, que representam parcela significativa dos casos notificados no país (Oliveira, G. et al., 2024). Acrescentam- se ainda as fragilidades no sistema de notificação e as falhas na qualidade e oferta do pré-natal, fatores que configuram barreiras relevantes para o controle da doença (Oliveira, I. et al., 2024). 

O acompanhamento pré-natal constitui a principal oportunidade para identificação e mitigação de riscos, por meio da realização da triagem sorológica e do tratamento adequado da gestante e de seus parceiros (Macêdo et al., 2020). Questões programáticas, como o início tardio do acompanhamento, a realização de menos de seis consultas e falhas na triagem durante a gestação, estão diretamente relacionadas ao aumento da incidência da sífilis gestacional e congênita (Oliveira, G. et al., 2024). Destaca-se que a sífilis congênita é reconhecida como um indicador da qualidade da assistência pré-natal, visto que sua transmissão vertical pode ser totalmente evitada mediante diagnóstico precoce e tratamento oportuno da gestante (Vicente et al., 2023). Diante desse cenário, considerando a elevada morbimortalidade e as repercussões clínicas para a mãe e o concepto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu estratégias direcionadas ao diagnóstico e ao tratamento das gestantes infectadas (Paula et al., 2022). 

Tais estratégias incluem a implementação de metas inseridas nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que estipulam como parâmetro aceitável uma taxa de incidência de até 0,5 caso por mil nascidos vivos (Maschio-Lima et al., 2019). Assim, em virtude da relevância do tema para a saúde pública, o presente estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico dos casos de sífilis em gestantes e de sífilis congênita no estado do Amapá, situado na Amazônia Legal, no período de 2019 a 2023.

MATERIAIS E MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado a partir de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), disponibilizados pelo TABNET do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Foram considerados os registros de sífilis em gestantes e sífilis congênita no estado do Amapá, no período de 2019 a 2023. O estado do Amapá integra a Amazônia Legal, apresentando área territorial de 142.470,762 km², população estimada em 733.759 habitantes, densidade demográfica de 5,15 habitantes/km² e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,688, ocupando a 25ª posição nacional. Sua capital, Macapá, possui área territorial de 6.563,849 km², população estimada em 442.933 habitantes e densidade demográfica de 67,48 habitantes/km² (IBGE, 2023). 

Foram incluídos no estudo todos os casos de sífilis gestacional e congênita notificados no SINAN no período delimitado. As variáveis analisadas, de acordo com as fichas de notificação, compreenderam:

a) Sífilis gestacional: número de casos por macrorregião de saúde, distribuídos segundo idade materna (10 a 14, 15 a 19, 20 a 39 e 40 a 59 anos), raça/cor (branca, preta, amarela, parda, indígena, ignorada/em branco), classificação clínica (primária, secundária, terciária, latente, ignorada/em branco), teste treponêmico (reativo, não reativo, não realizado, ignorado/em branco) e teste não treponêmico (reativo, não reativo, não realizado).

b) Sífilis congênita: número de casos por macrorregião de saúde, segundo faixa etária da criança (ignorado/em branco; até 6 dias; 7 a 27 dias; 28 dias a <1 ano; 1 ano; 2 a 4 anos; 5 a 12 anos), raça/cor (ignorado/em branco; branca; preta; amarela; parda; indígena), sexo (masculino; feminino; ignorado/em branco), faixa etária materna (ignorado/em branco; <9 anos; 10-14; 15-19; 20-24; 25-29;  30-34;  35-39;  40-44;  45-49;  50-54;  55-59  anos), escolaridade materna (ignorado/em branco; analfabeta; ensino fundamental completo/incompleto; ensino médio completo/incompleto; ensino superior completo/incompleto; não se aplica), realização de pré-natal (sim; não; ignorado/em branco), momento do diagnóstico da sífilis materna (durante o pré-natal; no parto/curetagem; após o parto; não realizado; ignorado/em branco), tratamento do parceiro (sim; não; ignorado/em branco), classificação final (sífilis congênita recente; sífilis congênita tardia; natimorto/aborto por sífilis; descartado; ignorado/em branco) e evolução da criança (vivo; óbito pelo agravo notificado; óbito por outra causa; ignorado/em branco).

c) Nascidos vivos: quantitativo registrado no estado do Amapá e em suas macrorregiões, obtido do SINASC. A taxa foi calculada pela razão entre o número total de casos notificados no período e o número de nascidos vivos, multiplicada por 1.000. Os dados foram organizados no software Microsoft Excel 2021, contemplando variáveis sociodemográficas e clínicas para análise. A interpretação foi conduzida por meio de estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e relativas. O estudo utilizou exclusivamente dados secundários, oriundos de bases oficiais de domínio público, sem possibilidade de identificação dos indivíduos. Dessa forma, não foram observadas implicações éticas relacionadas à pesquisa com seres humanos. Ainda assim, respeitaram-se integralmente os princípios de confidencialidade e anonimato das informações, conforme preconizado pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

O número de casos de sífilis gestacional registrados no estado do Amapá de 2019 a 2023 é de 2.044, sendo 2021 o ano com maior prevalência, com 582 notificações. Da mesma forma, no mesmo local e período, a sífilis congênita teve 853 notificações, sendo 2021 o ano com maior número, com 282 casos. Vale ressaltar que o gráfico apresenta um padrão de parábola invertida, com aumento progressivo no ano de maior prevalência, seguido de queda subsequente até o final do período. O aumento das notificações de sífilis em gestantes pode estar associado a diversos fatores, como diminuição da subnotificação, adesão das gestantes ao pré-natal e diagnóstico efetivo da doença (Maschio-Lima et al., 2019). 

No entanto, de forma geral, tanto a sífilis gestacional quanto a congênita permanecem altamente subnotificadas no país (Macêdo et al., 2020). Portanto, estratégias para melhorar a qualidade e a integridade dos registros podem beneficiar pesquisas futuras e a tomada de decisões baseadas em evidências (Oliveira, G. et al., 2024).

DISCUSSÃO

A Região Metropolitana de Macapá (RMM) concentra 88,48% dos casos notificados de sífilis gestacional, sendo que os municípios de Macapá, Santana e Mazagão registraram, respectivamente, 1.581, 198 e 28 notificações. Em relação à distribuição dos municípios, a RMM ocupa três das quatro primeiras posições, com o município de Vitória do Jari em terceiro lugar, registrando 30 casos, o que representa uma pequena parcela de 1,47% dos casos estaduais. Ressalta-se que todos os municípios apresentaram notificações no período analisado. No que se refere à sífilis congênita, o município de Macapá apresentou a maior prevalência, com 765 casos, seguido de Santana, com 64 notificações, e Laranjal do Jari, com 10 casos. As proporções em relação ao total correspondem, respectivamente, a 89,79%, 7,51% e 1,17%. Considerando a RMM, esta representa 98,3% do total de casos notificados de sífilis congênita em todo o estado do Amapá. O aumento das taxas de incidência de sífilis gestacional e congênita aponta para possíveis falhas na implementação de medidas de controle em saúde pública relacionadas a esses agravos (Soares; Aquino, 2021). 

Tal situação reforça a necessidade de os serviços de saúde realizarem a identificação precoce das gestantes, ofertando exames de triagem em tempo oportuno, possibilitando o acesso das mulheres às informações sobre prevenção da sífilis e garantindo o tratamento adequado e oportuno (Amorim et al., 2021).

No que se refere ao perfil das gestantes, observou-se o predomínio de mulheres na faixa etária de 20 a 39 anos (1.423), o que corresponde a 69,61% dos casos notificados. Destaca-se, ainda, o aumento expressivo do número de casos entre adolescentes de 15 a 19 anos, representando 26,76% das ocorrências. Diversos fatores podem estar relacionados a esse dado preocupante, tais como a falta de informações sobre o uso do preservativo e sua importância tanto na prevenção das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), quanto na prevenção de gestações não planejadas (Santos et al., 2024). A caracterização dos casos revelou maiores taxas de ocorrência da doença entre mulheres negras, que corresponderam a 84,05% das notificações. Alguns estudos têm apontado percentuais mais elevados de sífilis gestacional e congênita nesse grupo, como o estudo realizado no Brasil entre 2012 e 2017, que identificou que mulheres negras apresentam menor probabilidade de receber diagnóstico oportuno e tratamento adequado para sífilis, além de seus parceiros apresentarem menor frequência de tratamento (Paixão et al., 2023). 

Em relação à escolaridade, 31,3% das gestantes apresentavam até oito anos de estudo, enquanto 40,45% possuíam ensino médio incompleto ou completo. Diante disso, evidencia-se que ainda persistem barreiras para o acesso oportuno das gestantes aos serviços de saúde, destacando-se as dificuldades em superar as desigualdades sociais, sobretudo entre as populações mais vulneráveis: mulheres negras e aquelas com menor escolaridade (Macêdo et al., 2020). Nesse sentido, torna-se imprescindível a adoção de diferentes estratégias para alcançar tais populações e reduzir as desigualdades, de forma a ampliar o acesso aos serviços de saúde (Pires et al., 2024).

Tabela 1. Frequência absoluta e percentual das notificações de casos de sífilis gestacional, segundo raça/cor da pele, classificação clínica, faixa etária materna, nível de escolaridade, teste treponêmico e teste não treponêmico, no período de 2019 a 2023.

Raça/cor da pele
Negra (Preta + Parda)176884,05
Branca1637,97
Amarela (Asiática)251,22
Indígena60,29
Ignorado1326,45
Classificação clínica
Primária122960,12
Secundária1024,99
Terciária1105,38
Latente20710,12
Ignorado39619,37
Faixa etária materna (anos)
10–14341,66
15–1954726,76
20–39142369,61
40–59391,90
Em branco10,48
Nível de escolaridade
Analfabeta80,39
Ensino Fundamental incompleto47723,33
Ensino Fundamental completo1637,97
Ensino Médio incompleto37118,15
Ensino Médio completo45622,30
Ensino Superior incompleto673,22
Ensino Superior completo422,05
Ignorado46022,05
Teste treponêmico (teste rápido ou FTA-ABS)
Reagente182589,28
Não reagente703,42
Não realizado924,50
Ignorado572,78
Teste não treponêmico (VDRL)
Reagente140868,25
Não reagente331,59
Não realizado54826,56
Ignorado743,58

EF: Ensino Fundamental; EM: Ensino Médio; ES: Ensino Superior.
Fonte: Elaboração própria, 2025.

A análise dos dados também indicou menor taxa de incidência entre povos indígenas, tanto para sífilis gestacional quanto congênita, quando comparados a outros grupos raciais. Tal achado pode estar relacionado à subnotificação dos casos nesse segmento, decorrente, em parte, de barreiras históricas e contemporâneas, de natureza física e cultural, que dificultam o acesso aos sistemas de saúde (Paixão et al., 2023). 

No que diz respeito aos exames diagnósticos, os testes treponêmicos apresentaram positividade em 89,28% dos casos, enquanto os testes não treponêmicos foram positivos em 68,25%. O Ministério da Saúde recomenda que todas as gestantes realizem testagem para sífilis pelo menos em três momentos: na primeiraconsulta de pré-natal, no início do terceiro trimestre e durante a internação para o parto, uma vez que o diagnóstico é primordialmente sorológico (Oliveira, I. et al., 2024). 

Além disso, de acordo com Pires et al. (2024), títulos elevados nos testes podem indicar infecção recente, com maior risco de transmissão ao feto e, consequentemente, maior probabilidade de mortalidade associada à resposta inflamatória e à redução do fluxo sanguíneo placentário. Quanto à classificação clínica da doença em gestantes, a forma primária foi registrada em 60,12% dos casos, a secundária em 4,99%, a terciária em 5,38% e a latente em 10,12%. 

Essas classificações refletem o curso natural da infecção, que, quando não tratada ou tratada de forma inadequada, tende a evoluir entre as fases primária e secundária. As manifestações incluem, na primeira, a presença de cancro duro e linfonodomegalia regional, na segunda, lesões cutaneomucosas e linfadenopatia generalizada. O esquema terapêutico recomendado para ambas deve incluir penicilina benzatina na dose de 2.400.000 UI. Já na fase latente, a doença é assintomática e, caso haja alteração nos exames sorológicos, o tratamento deve ser realizado com penicilina, de forma semelhante às fases anteriores, porém com dose total de 7.200.000 UI (Caldeira et al., 2022). Ressalta-se, ainda, que o campo referente à classificação clínica foi ignorado em 19,37% dos registros, o que suscita questionamentos acerca da completude diagnóstica e da adequação do acompanhamento da sífilis gestacional (Batalha, 2024).

Apesar das diretrizes brasileiras para o manejo e controle da sífilis gestacional e congênita, que previam a redução da taxa de incidência da sífilis congênita para 0,5 casos por 1.000 nascidos vivos até 2015 (Pires et al., 2024), a incidência observada neste estudo foi aproximadamente 22 vezes maior que a meta estabelecida, alcançando 11,19 por 1.000 nascidos vivos em 2023. Quinhentas e noventa e duas (69,40%) mulheres realizaram pré-natal, sendo que apenas 36,57% foram diagnosticadas com sífilis durante o pré-natal, enquanto 46,18% receberam o diagnóstico no momento do parto/curetagem e 9,37% após o parto. Esse cenário representa a última oportunidade de diagnóstico da sífilis em gestantes e parturientes, ainda que o riso de infecção congênita permaneça (Macêdo et al., 2020). No que se refere aos parceiros das gestantes notificadas, 69,87% não realizaram tratamento, 13,59% receberam tratamento e 16,52% não apresentaram informação. 

Segundo Figueiredo et al. (2020), a dificuldade de abordagem dos parceiros pode ser um dos principais fatores para a baixa adesão e para o elevado número de falhas terapêuticas entre esses usuários. Portanto, o engajamento ativo e o tratamento dos parceiros constituem desafios cruciais no manejo da sífilis em gestantes, impactando diretamente a prevenção da sífilis congênita (Pires et al., 2024). Os dados mostraram que a sífilis congênita recente predominou nos registros (91,20%), seguida de quatro casos de natimorto/aborto por sífilis. Quanto à evolução clínica, a maioria dos casos evoluiu para cura (735; 86,16%), enquanto 2,93% evoluíram para óbito. De acordo com Santos et al. (2024), a progressão para cura representa elevada adesão e eficácia do tratamento da sífilis adquirida. Contudo, o diagnóstico tardio da doença, a ausência de tratamento ou seu manejo inadequado ainda são uma realidade no país, favorecendo a transmissão vertical e o aumento da incidência da sífilis gestacional e congênita (Silva et al., 2024). No que se refere à faixa etária das crianças com sífilis congênita, 811 (95,07%) casos foram registrados em menores de até seis dias de vida; no período subsequente, até 27 dias, houve 25 casos (2,93%). Dessa forma, observa-se que 98% das notificações de sífilis congênita concentram-se nos primeiros 27 dias de vida. Após o 28º dia, outros 17 casos foram registrados. Quanto à raça, a população negra (pretos e pardos) concentrou o maior número de casos (518; 60,78%), seguida pela população branca (52; 6,09%) e pela população indígena (2; 0,23%). Em relação ao sexo, o masculino foi o mais prevalente (401; 47,01%) em comparação ao feminino (379; 44,43%). Cabe destacar, contudo, o elevado número de registros com preenchimento inadequado nos campos referentes a raça/cor e sexo (Tabela 2), o que evidencia que os dados provenientes do DATASUS apresentam limitações quanto à sua qualidade e completude, dificultando análises mais aprofundadas (Vidal et al., 2024).

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Em suma, este estudo evidenciou que o incremento nas notificações de sífilis gestacional (SG) decorre de um cenário multifatorial, envolvendo desde a melhoria na vigilância epidemiológica e adesão ao pré-natal até a persistência de subnotificações que mascaram a real magnitude do problema. A incompletude dos dados ainda se configura como um obstáculo crítico para o planejamento de políticas públicas eficazes.

Os achados revelam um cenário epidemiológico alarmante quanto à sífilis congênita (SC), com uma incidência de 11,19 casos por 1.000 nascidos vivos em 2023  valor que excede em mais de 22 vezes a meta estabelecida pela Organização Mundial da Saúde. A concentração de casos na Região Metropolitana de Macapá (RMM) reforça a correlação entre densidade demográfica e disparidades no acesso aos serviços de saúde.

O perfil prevalente aponta para mulheres negras em idade reprodutiva e com escolaridade de nível médio, diagnosticadas majoritariamente com sífilis primária. O desfecho na criança reflete falhas assistenciais graves, visto que o diagnóstico materno tardio (no momento do parto ou curetagem) culmina em casos de sífilis congênita recente. Tais resultados reiteram a urgência de fortalecer a Atenção Primária à Saúde, garantindo não apenas o diagnóstico precoce e o tratamento oportuno das gestantes, mas também o manejo efetivo dos parceiros sexuais para interromper a cadeia de reinfecção. Conclui-se que o enfrentamento dessas condições exige a consolidação de políticas públicas que transcendam a assistência clínica, integrando vigilância rigorosa e educação em saúde.

REFERÊNCIAS 

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1 Médico – drandrecarvalho@icloud.com
2 Médico orientador – dr.carlosfilho@hotmail.com

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