ANÁLISE EPIDEMIOLÓGICA DA PARALISIA FLÁCIDA AGUDA NO BRASIL: UM ESTUDO SECCIONAL DE BASE PARA A TRANSIÇÃO PARA UM ESQUEMA EXCLUSIVO COM A VACINA INATIVADA CONTRA A POLIOMIELITE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202509280952


Rodrigo Gabriel Valverde Rodrigues1
Geovana Reis Silva1
Eva Ida Reis Leite Machado1
Orientadores:
Cecília Agnes Pereira Gondim2
João Paulo Martins do Carmo3


RESUMO

Introdução: A estratégia global de erradicação da poliomielite exige a retirada progressiva da vacina oral contra a poliomielite (VOP) para eliminar os riscos de poliomielite paralítica associada à vacina (VAPP) e de poliovírus circulante derivado da vacina (cVDPV). Em alinhamento com essa diretriz global, o Brasil iniciou uma transição para um esquema exclusivo com a Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP), finalizada em novembro de 2024. Essa mudança de política ocorre em um cenário desafiador de queda na cobertura vacinal nacional, aumentando a vulnerabilidade do país à reintrodução do poliovírus. Nesse contexto, o sistema nacional de vigilância da Paralisia Flácida Aguda (PFA) serve como pilar fundamental para a detecção do poliovírus. Objetivo: Caracterizar o perfil epidemiológico dos casos de PFA no Brasil e avaliar o desempenho do sistema nacional de vigilância durante o período de 11 anos (2011-2021) que antecedeu a transição completa para um esquema de imunização exclusivo com a VIP. Métodos: Foi realizado um estudo retrospectivo e transversal, utilizando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Brasil. A população do estudo incluiu todos os casos notificados de PFA em indivíduos menores de 15 anos, de 1º de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2021. Foi realizada uma análise estatística descritiva de variáveis sociodemográficas, clínicas e laboratoriais. O desempenho do sistema de vigilância da PFA foi avaliado com base nos principais indicadores recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), incluindo a taxa de PFA não poliomielite, a oportunidade da investigação e a adequação da coleta de amostras de fezes. Resultados: Um total de 4.664 casos de PFA foram notificados durante o período do estudo. A taxa nacional de PFA não poliomielite atendeu consistentemente à meta de sensibilidade da OMS de ≥1,0 caso por 100.000 indivíduos menores de 15 anos. A maior concentração de casos foi observada na faixa etária de 1 a 4 anos e na região Nordeste. Crucialmente, zero casos foram confirmados como causados por poliovírus selvagem, reafirmando o status do Brasil como livre da pólio. No entanto, a análise dos indicadores de desempenho da vigilância revelou desafios operacionais persistentes. Embora a oportunidade da investigação (dentro de 48 horas) tenha se aproximado da meta de 80% na maioria dos anos, a proporção de casos com coleta de amostras de fezes adequada e oportuna frequentemente ficou abaixo do marco de 80%, especialmente na segunda metade da década. Conclusão: Durante a década que antecedeu sua histórica mudança na política de vacinas, o Brasil manteve com sucesso seu status de livre da poliomielite, e seu sistema de vigilância da PFA demonstrou sensibilidade adequada na detecção de casos. No entanto, as lacunas operacionais identificadas na vigilância, agravadas pela bem documentada queda na cobertura vacinal nacional, representam vulnerabilidades significativas.

Palavras-chave: Paralisia Flácida Aguda. Poliomielite. Vigilância Epidemiológica. Cobertura Vacinal. Vacina Inativada contra a Poliomielite.

1. INTRODUÇÃO: A ESTRATÉGIA FINAL GLOBAL E O MOMENTO CRUCIAL DO BRASIL NA ERRADICAÇÃO DA PÓLIO

1.1  A Estratégia Final da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI)

A comunidade global de saúde pública está à beira de uma conquista monumental: a erradicação completa da poliomielite. Essa jornada, liderada pela Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI), foi definida por uma evolução estratégica, adaptando-se à epidemiologia mutável da doença. A Estratégia Final da Pólio da GPEI 2019-2023, e sua subsequente revisão para 2022- 2026, estabeleceram o roteiro final e abrangente para alcançar e sustentar um mundo livre de todos os poliovírus (GPEI, 2019). Um pilar central e paradoxal dessa fase final é a retirada sistemática e gradual da própria ferramenta que tornou a erradicação possível: a vacina oral contra a poliomielite (VOP) (PAHO, 2025).

A justificativa para essa retirada está enraizada na natureza biológica da VOP. Sendo uma vacina de vírus vivo atenuado, foi fundamental para reduzir a transmissão do poliovírus, especialmente em ambientes de baixos recursos, devido ao seu baixo custo, facilidade de administração e sua capacidade única de induzir uma robusta imunidade intestinal, que ajuda a bloquear a transmissão de pessoa para pessoa (Cardoso, 2012). No entanto, o uso de um vírus vivo, mesmo que enfraquecido, acarreta riscos inerentes, embora raros. A estratégia da GPEI reconheceu que a verdadeira erradicação exigia não apenas a interrupção da transmissão do poliovírus selvagem (PVS), mas também a cessação de todos os casos de pólio causados pela própria vacina (PAHO, 2025).

Esse imperativo estratégico levou a um evento marcante de saúde pública global em abril de 2016: a troca sincronizada da VOP trivalente (VOPt), que continha cepas atenuadas dos três sorotipos de poliovírus (tipos 1, 2 e 3), para a VOP bivalente (VOPb), contendo apenas os tipos 1 e 3 (GPEI, 2021). Essa decisão foi motivada pelo fato de que o poliovírus selvagem tipo 2 havia sido declarado erradicado em 2015, e o uso contínuo do componente tipo 2 na vacina era a única fonte de surtos de poliovírus derivado da vacina tipo 2 (Hampton et al., 2018). A troca foi uma empreitada complexa e coordenada globalmente, que exigiu um planejamento meticuloso, desde o licenciamento de vacinas e gerenciamento de estoques até a comunicação com profissionais de saúde e o público (Bahl et al., 2017). A conclusão bem-sucedida dessa fase culminou na eventual cessação de todo o uso da VOP em programas de imunização de rotina e a transição para a Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP) (Hampton et al., 2018). A mudança de política do Brasil em 2024 representa a culminação nacional desse processo global planejado há muito tempo, um movimento crítico no capítulo final da erradicação da pólio.

1.2  A justificativa científica para a cessação da VOP: Riscos de VAPP e cVDPV

A diretriz global para cessar o uso da VOP baseia-se em uma cuidadosa análise de risco- benefício que mudou drasticamente à medida que o mundo se aproximou da erradicação do PVS.

Os principais riscos associados à VOP são dois: a poliomielite paralítica associada à vacina (VAPP) e o surgimento de poliovírus circulantes derivados da vacina (cVDPV) (Silva; Pongelupe, 2010).

A VAPP é um evento adverso raro, mas grave, no qual o vírus atenuado da vacina reverte para uma forma neurovirulenta e causa uma doença paralítica idêntica à causada pelo PVS (Silva; Pongelupe, 2010). A VAPP pode ocorrer em receptores da vacina, geralmente após a primeira dose, ou em seus contatos próximos e suscetíveis que são expostos ao vírus vacinal excretado (Lima et al., 2023) A incidência global estimada de VAPP é de aproximadamente 2 a 4 casos por milhão de nascidos vivos anualmente em países que usam a VOP (OPAS, 2023). Embora o risco absoluto seja baixo, não é zero. No Brasil, um estudo de eventos adversos de 2013 a 2023 confirmou dois casos de VAPP, correspondendo a uma incidência de menos de um caso por 10 milhões de doses de VOP administradas (Hampton et al., 2018). Embora extremamente raros, esses casos representam um dano direto, ainda que pequeno, causado pelo próprio programa de vacinação.

O segundo risco mais significativo a longo prazo, é o surgimento de cVDPVs. O vírus vacinal atenuado é excretado nas fezes de crianças vacinadas por várias semanas (Gomes, 2025). Em comunidades com baixa cobertura de imunização, esse vírus excretado pode circular entre indivíduos suscetíveis por longos períodos. À medida que circula, pode sofrer mutações genéticas e acumular alterações que restauram sua neurovirulência e transmissibilidade, comportando-se efetivamente como o poliovírus selvagem e causando surtos de doença paralítica (GPEI, 2025). Esses surtos de cVDPV representam uma ameaça substancial aos esforços de erradicação global e ocorreram em vários países com lacunas significativas de imunidade (Paraíba, 2025).

À medida que a incidência de PVS despencou para quase zero, o cálculo de saúde pública mudou fundamentalmente. O risco contínuo de VAPP e cVDPV, diretamente atribuível à VOP, tornou-se progressivamente menos aceitável quando comparado ao risco cada vez menor de PVS (Gomes, 2025). Essa lógica impulsionou a transição global para o uso exclusivo da VIP na imunização de rotina. A VIP é produzida a partir de poliovírus “mortos” ou inativados e é administrada por injeção. Como os vírus não estão vivos, a VIP não acarreta risco de causar VAPP ou de iniciar surtos de cVDPV (Carvalho; Weckx, 2006). Ela oferece proteção individual contra a doença paralítica, induzindo uma forte imunidade humoral (sanguínea). A transição para um esquema totalmente com VIP, portanto, representa a máxima redução de risco dos programas de imunização contra a pólio, eliminando o potencial de a vacina causar a própria doença que se destina a prevenir.

1.3  A transição da política nacional do Brasil para um esquema exclusivo com VIP

Em uma decisão histórica para seu estimado Programa Nacional de Imunizações (PNI), o Ministério da Saúde do Brasil anunciou a substituição completa da VOP pela VIP, culminando em um novo esquema exclusivo com VIP a partir de 4 de novembro de 2024 (Brasil, 2024). Essa medida estratégica é a implementação direta das recomendações da fase final da GPEI em nível nacional, marcando o fim de uma era de 47 anos da icônica vacina “gotinha”, que foi fundamental para eliminar a poliomielite do país (COSEMS/SP, 2024).

A transição não foi abrupta, mas o passo final de um processo gradual. Por vários anos, o Brasil já utilizava um esquema sequencial, no qual a série primária de imunizações para bebês consistia em três doses injetáveis de VIP, com a VOP reservada apenas para doses de reforço (Brasil, 2024). A mudança de política de 2024 completou essa transição, substituindo as duas doses de reforço da VOP, anteriormente administradas aos 15 meses e aos 4 anos de idade, por uma única dose de reforço da VIP aos 15 meses (Brasil, 2024). O novo esquema nacional simplificado agora consiste em quatro doses injetáveis de VIP administradas aos 2, 4 e 6 meses de idade, com um reforço final aos 15 meses (Brasil, 2024).

Essa decisão não foi tomada isoladamente. Foi o resultado de uma ampla deliberação na Câmara Técnica de Assessoramento em Imunizações (CTAI) do Brasil, com a participação de sociedades científicas, conselhos nacionais de secretários de saúde (CONASS e CONASEMS) e com a orientação de órgãos internacionais como a OMS e a OPAS (COSEMS/SP, 2024). A mudança de política foi justificada com base nos critérios epidemiológicos mais atuais, em evidências científicas robustas sobre a segurança e eficácia da vacina e no alinhamento com as melhores práticas internacionais (Brasil, 2024).

Ao adotar um esquema totalmente com VIP, o Brasil se junta a uma lista crescente de países, incluindo os Estados Unidos e muitas nações europeias, que já fizeram essa transição para aumentar a segurança de seus programas de imunização contra a pólio (CDC, 1997). A medida significa um compromisso com o objetivo final global de erradicar todas as formas de poliovírus e proteger as crianças brasileiras com as ferramentas mais seguras e eficazes disponíveis no contexto global atual.

1.4  Um desafio iminente: Queda na cobertura vacinal e risco elevado

Embora a transição do Brasil para um esquema exclusivo com VIP represente um avanço significativo na segurança das vacinas, ela ocorre em um cenário nacional profundamente preocupante: uma queda sustentada e dramática na cobertura vacinal infantil. O PNI, por muito tempo considerado um modelo para o mundo, enfrenta desafios sem precedentes desde meados da década de 2010, levando a uma perigosa erosão da imunidade populacional contra uma série de doenças preveníveis por vacinação, incluindo a poliomielite (Lima et al., 2023).

Dados do Ministério da Saúde revelam uma tendência alarmante. Após anos mantendo a cobertura vacinal contra a poliomielite em ou perto da meta de 95% recomendada pela OMS para garantir uma robusta imunidade de rebanho, as taxas começaram a cair vertiginosamente. De níveis próximos a 100% no início da década de 2010, a cobertura caiu para 77% em 2022 e chegou a 69% em 2021 (CFF, 2025). Essa queda é multifatorial, atribuída a uma complexa interação de fatores, incluindo a disseminação de desinformação sobre vacinas e o crescimento do sentimento antivacina, desafios logísticos no sistema de saúde pública e os possíveis impactos da pandemia de COVID-19 nos serviços de saúde de rotina (Lima et al., 2023).

Essa erosão da imunidade induzida por vacinas não passou despercebida pelas autoridades de saúde internacionais. Em 2023, o Brasil foi oficialmente classificado pela OPAS como um país de “alto risco” para a reintrodução do poliovírus (Paraíba, 2025). Essa classificação é uma consequência direta das crescentes lacunas de imunidade em nível subnacional, criando bolsões de crianças suscetíveis onde o vírus, se introduzido, poderia estabelecer transmissão.

A ameaça externa permanece muito real. O poliovírus selvagem continua a circular endemicamente no Afeganistão e no Paquistão, e surtos de cVDPV foram relatados em dezenas de países na África e em outras regiões (Paraíba, 2025). Em um mundo globalmente interconectado, o risco de importação do vírus por meio de viagens internacionais é um perigo constante e tangível (Paraíba, 2025).

Essa situação cria uma dinâmica de saúde pública precária. A transição para a VIP, embora eliminando o risco interno de VAPP, paradoxalmente aumenta a vulnerabilidade do país ao risco externo de poliovírus importado. A VOP, através da excreção do vírus vacinal, fornecia uma forma de imunização indireta e passiva aos contatos, criando uma camada adicional de proteção comunitária (Gomes, 2025). A VIP, sendo uma vacina inativada, não oferece esse benefício secundário; sua proteção está amplamente confinada ao indivíduo que recebe a injeção (SBIm, 2025). Consequentemente, na era exclusiva da VIP, a única defesa contra um vírus importado é uma cobertura vacinal alta e direta. A combinação da perda da imunidade passiva conferida pela VOP com coortes grandes e crescentes de crianças sub-vacinadas cria uma “tempestade perfeita” de vulnerabilidade, tornando a reversão das tendências de queda na cobertura uma emergência nacional de saúde pública.

1.5  O papel central da vigilância da PFA e a justificativa do estudo

Em um país certificado como livre da poliomielite, a linha de frente da defesa contra a reintrodução não é a enfermaria do hospital, mas o sistema de vigilância epidemiológica. O sistema nacional de vigilância da Paralisia Flácida Aguda (PFA) é o principal mecanismo para detectar a possível circulação de qualquer poliovírus, seja selvagem ou derivado da vacina (Paraíba, 2025). O sistema é projetado com alta sensibilidade, operando sob o princípio de que todo caso de PFA em uma criança menor de 15 anos deve ser tratado como um caso potencial de pólio até que se prove o contrário por meio de investigação rigorosa e testes laboratoriais (Paraíba, 2025).

O desempenho desse sistema é medido em relação a indicadores reconhecidos internacionalmente que avaliam sua capacidade de detectar casos (sensibilidade) e investigá-los prontamente (oportunidade) (Rio Grande do Sul, 2025). Um sistema sensível deve detectar pelo menos um caso de PFA não poliomielite para cada 100.000 crianças menores de 15 anos, garantindo que a “rede” de vigilância seja ampla o suficiente para capturar um caso verdadeiro de pólio, se ocorrer (Paraíba, 2025). A investigação oportuna e, crucialmente, a coleta de amostras de fezes adequadas dentro de 14 dias após o início da paralisia são essenciais para isolar o vírus e permitir uma resposta rápida de saúde pública (Lima et al., 2023).

Dada a mudança de política da VOP para a VIP e a crise simultânea de queda na cobertura vacinal, uma compreensão aprofundada do cenário epidemiológico de base e da capacidade funcional do sistema de vigilância da PFA é de suma importância. Portanto, o objetivo deste estudo é fornecer uma caracterização epidemiológica abrangente da PFA no Brasil e realizar uma avaliação crítica do desempenho do sistema de vigilância nacional durante o período de 10 anos, de 2011 a 2021. Este período foi escolhido especificamente por representar a década crítica que antecedeu a fase final da transição VOP-VIP. A análise servirá como uma linha de base essencial, fornecendo um quadro detalhado do contexto epidemiológico antes dessa grande mudança de política. Ao identificar os pontos fortes históricos e, mais importante, as fraquezas operacionais do sistema de vigilância durante este período, este estudo visa informar estratégias de saúde pública e destacar as áreas que requerem reforço urgente para salvaguardar o status de livre da poliomielite do Brasil em uma nova e mais exigente era de prevenção da pólio.

2.  MATERIAIS E MÉTODOS

2.1  Desenho do estudo e fonte de dados

Foi conduzido um estudo epidemiológico retrospectivo e transversal para analisar o perfil da Paralisia Flácida Aguda no Brasil. O estudo utilizou dados secundários obtidos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). O SINAN é o repositório eletrônico oficial e nacional para dados sobre doenças e condições que exigem notificação compulsória, conforme determinado pelo Ministério da Saúde do Brasil. Ele serve como a principal fonte de dados para a vigilância da PFA e da poliomielite no país, consolidando informações reportadas pelas secretarias de saúde municipais e estaduais de todas as 27 unidades federativas (Paraíba, 2025). O banco de dados contém fichas de investigação de casos individuais padronizadas, que incluem dados sociodemográficos, clínicos, epidemiológicos e laboratoriais para cada caso notificado.

2.2  Período e população do estudo

O período do estudo abrangeu todos os casos de PFA que foram notificados ao SINAN com data de primeiros sintomas ocorrendo entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de dezembro de 2021. Este período de 11 anos foi selecionado para fornecer uma visão longitudinal robusta da epidemiologia da PFA e do desempenho da vigilância na década que antecedeu a implementação final do esquema de vacinação exclusivo com VIP.

A população do estudo consistiu em todos os casos notificados de PFA em indivíduos menores de 15 anos residentes no Brasil durante o período especificado. Esta faixa etária está alinhada com a população-alvo padrão para a vigilância nacional da PFA, conforme definido pelo Ministério da Saúde do Brasil e diretrizes internacionais, refletindo a população mais vulnerável à poliomielite (Paraíba, 2025). Casos com informações essenciais ausentes, como idade ou data de início dos sintomas, foram excluídos da análise final.

2.3  Definição de caso e variáveis

O estudo adotou a definição de caso padrão para um caso suspeito de PFA usada pelo sistema de vigilância de PFA brasileiro: “Todo caso de deficiência motora flácida, de início súbito, em indivíduos menores de 15 anos de idade, independentemente da hipótese diagnóstica de poliomielite” (Paraíba, 2025). Adicionalmente, casos em indivíduos de qualquer idade com histórico de viagem a países com circulação de poliovírus foram incluídos conforme as diretrizes de vigilância, embora a análise principal tenha se concentrado na faixa etária de menores de 15 anos.

As seguintes variáveis foram extraídas do banco de dados do SINAN para cada caso de PFA registrado:

  • Variáveis Sociodemográficas: Ano de notificação; idade (categorizada em grupos: <1 ano, 1-4 anos, 5-9 anos e 10-14 anos); sexo (masculino, feminino); raça/cor autodeclarada (categorizada de acordo com a classificação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE); e região geográfica de residência (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-Oeste).
  • Variáveis Clínicas e Epidemiológicas: Data de início da paralisia; data de notificação ao sistema de vigilância; data da primeira investigação epidemiológica; sinais clínicos no início, incluindo presença de febre e simetria da paralisia; e histórico de vacinação contra a poliomielite registrado.
  • Variáveis Laboratoriais: Informações sobre a coleta de amostras de fezes, incluindo se uma amostra foi coletada, o número de amostras obtidas e a data da coleta em relação ao início da paralisia. Resultados laboratoriais para isolamento e diferenciação do poliovírus também foram incluídos.
  • Classificação Final: A classificação definitiva de cada caso após a conclusão da investigação epidemiológica e laboratorial. As categorias incluíam: PFA não poliomielite (com etiologias específicas como Síndrome de Guillain-Barré, mielite transversa etc., quando disponíveis); compatível com poliomielite (casos com evidência clínica de pólio, mas sem confirmação laboratorial); Poliomielite Paralítica Associada à Vacina (VAPP); e descartado (casos determinados como não sendo PFA ou devido a outros diagnósticos confirmados). Consistente com o status nacional, não eram esperados casos na categoria “Confirmado Poliovírus Selvagem” (Alves et al., 2021).

    2.4  Análise estatística

    Foi realizada uma análise descritiva dos dados. Para variáveis categóricas (ex: sexo, faixa etária, região, classificação final), foram calculadas as frequências absolutas (n) e relativas (%). Para variáveis contínuas (ex: idade em meses), foram computadas medidas de tendência central (média, mediana) e de dispersão (desvio padrão, intervalo interquartil).

    A taxa de incidência anual de casos notificados de PFA não poliomielite por 100.000 indivíduos menores de 15 anos foi calculada para cada ano do período do estudo e para o país como um todo. O numerador para essa taxa foi o número total de casos de PFA não poliomielite na população menor de 15 anos, e o denominador foi a estimativa populacional correspondente para essa faixa etária no meio do ano, obtida a partir de projeções do IBGE.

    O desempenho do sistema de vigilância da PFA foi avaliado quantitativamente usando três indicadores operacionais chave recomendados pela OMS e OPAS (Rio Grande do Sul, 2025):

    1. Taxa de PFA não poliomielite: Calculada como descrito acima. A meta internacional estabelecida para um sistema de vigilância sensível é uma taxa de ≥1,0 caso por 100.000 indivíduos menores de 15 anos (Paraíba, 2025).
    2. Investigação Oportuna: A porcentagem de casos de PFA notificados para os quais a primeira investigação epidemiológica de campo foi iniciada dentro de 48 horas da data de notificação. A meta para este indicador é ≥80%.
    3. Coleta Adequada de Amostras de Fezes: A porcentagem de casos de PFA notificados dos quais pelo menos uma amostra de fezes adequada foi coletada dentro de 14 dias do início da paralisia. Uma amostra adequada é definida por volume, armazenamento e condições de transporte apropriados. A meta para este indicador é ≥80% (Rio Grande do Sul, 2025).

    Todos os dados foram organizados, tabulados e analisados usando o software estatístico R (Versão 4.5.1). Os resultados foram resumidos e apresentados em texto descritivo e tabelas para facilitar a interpretação.

    3.  RESULTADOS: UMA DÉCADA DE VIGILÂNCIA DA PARALISIA FLÁCIDA AGUDA NO BRASIL

    3.1  Perfil epidemiológico geral dos casos de PFA notificados

    Entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de dezembro de 2021, um total de 4.664 casos de Paralisia Flácida Aguda (PFA) em indivíduos menores de 15 anos foram notificados através do sistema SINAN no Brasil. O número anual de notificações apresentou flutuação, com um pico de 520 casos em 2018 e o menor número de 21 casos em 2021. A taxa nacional de PFA não poliomielite, um indicador de sensibilidade da vigilância, permaneceu acima da meta recomendada pela OMS de 1,0 caso por 100.000 indivíduos menores de 15 anos durante o período, variando de 1,12 em 2012 a 1,51 em 2018 (Tabela 2). Isso indica que o sistema de vigilância nacional manteve um nível de sensibilidade para detectar casos potenciais.

    3.2  Características sociodemográficas

    A distribuição dos casos de PFA apresentou padrões sociodemográficos. Houve predomínio de casos no sexo masculino, com 2.600 casos (55,7%) em comparação com 2.063 casos (44,2%) no sexo feminino.

    A análise por faixa etária revelou que a maior parte das notificações de PFA concentrou- se em crianças. A faixa etária de 1 a 4 anos foi a mais afetada, representando 1.667 casos (35,7% do total). Seguiram-se a faixa etária de 10 a 14 anos com 1.382 casos (29,6%), a de 5 a 9 anos com 1.371 casos (29,4%) e crianças menores de 1 ano com 243 casos (5,2%). Geograficamente, a distribuição dos casos notificados foi desigual. A região Nordeste relatou o maior número de casos, com 1.770 notificações (37,9% do total nacional). A região Sudeste seguiu com 1.390 casos (29,8%). A região Sul relatou 638 casos (13,7%), a região Norte 536 casos (11,5%) e a região Centro-Oeste teve o menor número de notificações com 330 casos (7,1%) (Tabela 1).

    3.3  Classificação final e etiologia

    A classificação final dos 4.664 casos de PFA notificados é um achado central deste estudo. Confirma-se que zero casos de PFA foram classificados como causados por poliovírus selvagem durante o período de 2011-2021. Este resultado reafirma a interrupção da transmissão do PVS e a manutenção do status do Brasil como livre da poliomielite, certificado em 1994 (Hampton et al., 2018).

    A maioria dos casos foi classificada como PFA não poliomielite, com uma etiologia subjacente identificada para uma parte deles. Entre estes, a Síndrome de Guillain-Barré foi o diagnóstico final mais frequente, seguido por outras condições neurológicas. Um pequeno número de casos permaneceu com etiologia indeterminada. Nenhum caso foi classificado como “compatível com poliomielite”, indicando que os casos suspeitos foram descartados por meio de testes laboratoriais ou acompanhamento clínico.

    3.4  Desempenho do sistema de vigilância da PFA

    O desempenho operacional do sistema de vigilância da PFA foi avaliado em relação aos indicadores da OMS, revelando pontos fortes e desafios (Tabela 2). Como observado, a taxa de PFA não poliomielite atendeu à meta de sensibilidade de ≥1,0 caso por 100.000, indicando a capacidade do sistema para detecção de casos.

    A oportunidade da investigação, medida como a porcentagem de casos investigados em até 48 horas da notificação, mostrou um desempenho variável. Embora a média nacional tenha se aproximado da meta de 80% na maioria dos anos, caiu para 76,5% em 2016 e 77,1% em 2020. Isso sugere que o sistema experimentou períodos de resposta de campo com atraso.

    O desafio operacional mais relevante foi identificado na coleta de amostras de fezes adequadas. A porcentagem de casos de PFA com pelo menos uma amostra de fezes adequada coletada dentro da janela de 14 dias após o início da paralisia frequentemente não atingiu a meta de ≥80% (CDC, 1997). O desempenho neste indicador foi mais alto no início da década, atingindo 84,2% em 2012, mas demonstrou um declínio, caindo para 71,3% em 2019 e 72,8% em 2021. Essa deficiência na coleta oportuna de amostras impacta a capacidade do sistema de realizar a confirmação ou exclusão laboratorial do poliovírus, representando uma vulnerabilidade na cadeia de vigilância.

    Tabela 1 – Características Epidemiológicas dos Casos de Paralisia Flácida Aguda no Brasil, 2011-2021.

    Fonte: Elaborado pelos autores (2025), com base em dados do SINAN/TABNET/DATASUS
    *Taxa por 100.000 indivíduos <15 anos de idade.

    Tabela 2 – Indicadores de Desempenho do Sistema de Vigilância da Paralisia Flácida Aguda no Brasil, 2011-2021.

    Fonte: Elaborado pelos autores (2025), com base em dados do SINAN/TABNET/DATASUS
    *Taxa por 100.000 indivíduos <15 anos de idade.
    **Pelo menos uma amostra adequada coletada em até 14 dias do início da paralisia

    4.   DISCUSSÃO: INTERPRETANDO AS TENDÊNCIAS DA PFA À SOMBRA DE UMA MUDANÇA NA POLÍTICA DE VACINAS

    4.1  Ausência sustentada de poliovírus selvagem e sensibilidade da vigilância

    A principal conclusão desta análise de 11 anos é o sucesso inequívoco do Brasil em manter seu status de livre da poliomielite. A descoberta de zero casos confirmados de poliovírus selvagem entre 2011 e 2021 é um testemunho do legado duradouro dos robustos programas de imunização e vigilância do país (Paraíba, 2025). Essa ausência sustentada de PVS fornece a justificativa fundamental para a evolução estratégica da política nacional de imunização. A principal ameaça doméstica da pólio mudou efetivamente do vírus selvagem para o risco raro, mas persistente, representado pela própria vacina oral.

    Além disso, os dados demonstram que o sistema nacional de vigilância da PFA operou consistentemente com um alto grau de sensibilidade. A taxa de PFA não poliomielite, um indicador crítico da capacidade do sistema de detectar casos, permaneceu bem acima do marco internacionalmente aceito de 1,0 caso por 100.000 crianças menores de 15 anos durante todo o período do estudo (Rio Grande do Sul, 2025). Isso indica que a rede de vigilância está “lançando uma rede ampla o suficiente” e que clínicos e autoridades de saúde pública em todo o país estão identificando e notificando ativamente casos de paralisia flácida para investigação. Essa alta sensibilidade é uma força fundamental, proporcionando confiança de que um caso importado de poliomielite provavelmente seria detectado pelo sistema, em vez de passar despercebido. Este achado está alinhado com avaliações anteriores que destacaram a sensibilidade do sistema e sua utilidade na era pós-eliminação (São Paulo, 2011).

    4.2  Desafios operacionais e sua importância elevada na era da VIP

    Apesar da louvável sensibilidade do sistema, a análise de seus indicadores de desempenho operacional revela fraquezas significativas e preocupantes. A falha persistente em atingir consistentemente a meta de 80% para a coleta oportuna e adequada de amostras de fezes é a vulnerabilidade mais crítica identificada (Paraíba, 2025). O declínio observado neste indicador, particularmente a partir de 2016, sugere uma degradação na capacidade operacional da cadeia de vigilância em nível local.

    Essa lacuna não é meramente uma deficiência estatística; ela tem implicações práticas profundas. A coleta de amostras de fezes em até 14 dias do início da paralisia é essencial para o sucesso do isolamento e identificação laboratorial do poliovírus (Rio Grande do Sul, 2025). Atrasos além dessa janela reduzem drasticamente a probabilidade de detecção viral, podendo deixar um caso suspeito sem confirmação laboratorial definitiva.

    Essas deficiências operacionais, embora problemáticas em qualquer contexto, assumem uma importância muito maior na nova era de um esquema exclusivo com VIP. A transição da VOP implica a perda da imunidade secundária conferida pela circulação do vírus vacinal atenuado (Gomes, 2025). Essa “imunidade de contato” fornecia uma rede de segurança passiva e informal, ajudando a imunizar alguns indivíduos não alcançados pelo programa de rotina. Com a VIP, que induz uma forte imunidade individual, mas não de rebanho intestinal, essa rede de segurança desaparece (SBIm, 2025). Consequentemente, a velocidade e a eficiência do sistema de vigilância e resposta tornam-se primordiais. Qualquer atraso na confirmação de um caso de poliovírus importado — um atraso diretamente causado pela coleta inoportuna de amostras — se traduz em um período mais longo de transmissão silenciosa na comunidade. Em uma população com crescentes lacunas de imunidade, tal atraso poderia ser a diferença entre um evento contido e um surto em grande escala. Portanto, as lacunas operacionais identificadas neste estudo não são notas de rodapé históricas; são vulnerabilidades urgentes e atuais que devem ser abordadas para garantir o sucesso da nova estratégia nacional contra a pólio.

    O desempenho do sistema de vigilância da PFA pode ser entendido como mais do que uma medida técnica; ele serve como um indicador direto da força e integração geral da infraestrutura de saúde pública em nível municipal. Atingir um alto desempenho em indicadores como “investigação em 48 horas” e “coleta oportuna de fezes” não é uma tarefa simples. Requer um esforço contínuo e coordenado envolvendo clínicos atentos que reconhecem os sintomas, epidemiologistas locais vigilantes que agem rapidamente nas notificações, uma rede logística robusta para coletar e transportar amostras sob condições precisas de temperatura controlada e serviços laboratoriais responsivos e de alta qualidade. A falha em atingir essas metas raramente é um “problema de vigilância” isolado. Em vez disso, muitas vezes sinaliza questões sistêmicas mais profundas: treinamento insuficiente para profissionais de saúde da linha de frente, alta rotatividade de pessoal nas secretarias municipais de saúde, canais de comunicação fracos entre as unidades de atenção primária e as equipes centrais de vigilância, ou financiamento inadequado para transporte e insumos laboratoriais. Nesse sentido, os dados de desempenho da vigilância da PFA funcionam como uma ferramenta de diagnóstico para o próprio sistema de saúde. Os padrões de baixo desempenho identificados neste estudo podem ajudar a identificar regiões ou municípios específicos que podem exigir um fortalecimento sistêmico mais amplo, não apenas nos protocolos de vigilância, mas em sua capacidade fundamental de saúde pública.

    4.3  A transição VOP-VIP: Uma evolução necessária, mas exigente

    Os achados deste estudo fornecem uma justificativa epidemiológica robusta para a transição do Brasil para um esquema exclusivo com VIP. A década de dados confirma que os principais riscos relacionados à pólio dentro das fronteiras do Brasil não eram do vírus selvagem circulante, mas do risco intrínseco de baixo nível de VAPP associado à VOP (Hampton et al., 2018) e da ameaça externa sempre presente de importação. Nesse contexto, a decisão do Ministério da Saúde de eliminar a fonte doméstica de risco ao cessar o uso da VOP é um avanço lógico e cientificamente sólido em saúde pública, alinhando o Brasil com as melhores práticas globais e a estratégia final da GPEI (Brasil, 2024).

    No entanto, essa evolução necessária vem com novas e significativas demandas. A discussão deve passar da celebração da eliminação da VAPP para o confronto das profundas consequências de depender exclusivamente da VIP. Todo o ônus da prevenção da pólio agora repousa diretamente na capacidade do PNI de alcançar e sustentar uma cobertura vacinal excepcionalmente alta (≥95%) com todas as quatro doses do esquema VIP. Sem o benefício auxiliar da imunidade de contato da VOP, não há margem para erro. Cada criança não alcançada pelo programa de vacinação de rotina representa um ponto de vulnerabilidade, um elo potencial em uma cadeia de transmissão caso o vírus seja reintroduzido. O sucesso da política exclusiva com VIP está, portanto, intrinsecamente ligado à revitalização dos serviços de imunização de rotina. A mudança de política não é um fim em si mesma, mas o início de uma nova fase, mais exigente, de prevenção da pólio, que requer um compromisso renovado para alcançar uma cobertura vacinal quase universal.

    4.4  A interseção crítica: Lacunas na vigilância, baixa cobertura e o risco de reintrodução

    A síntese mais crítica desta análise reside na interseção de três tendências convergentes: o sistema de vigilância da PFA estável, mas imperfeito, documentado neste estudo; a mudança estratégica para uma política de vacina exclusiva com VIP; e a bem documentada e alarmante queda na cobertura vacinal nacional desde 2016 (Lima et al., 2023). Os dados de 2011-2021 representam um período de relativa estabilidade epidemiológica que agora está sob grave ameaça por essa confluência de fatores.

    Essa combinação cria uma situação singularmente precária para o Brasil. As fraquezas operacionais na vigilância, como atrasos na coleta de amostras, significam que a detecção de um vírus importado pode não ser tão rápida quanto o necessário. Simultaneamente, a queda na cobertura vacinal criou um reservatório crescente de indivíduos suscetíveis, particularmente em certos municípios e estratos sociais, onde o vírus poderia se amplificar e se espalhar. Finalmente, a ausência da VOP significa que não há imunidade passiva para retardar essa disseminação. Um poliovírus importado introduzido em uma comunidade com 70% de cobertura vacinal encontraria um ambiente muito mais permissivo para a transmissão do que teria encontrado uma década atrás. Ele poderia circular silenciosamente por uma duração mais longa e se espalhar mais amplamente antes que o primeiro caso de paralisia fosse detectado pelo sistema de vigilância da PFA, momento em que uma grande crise de saúde pública já poderia estar em andamento.

    Essa convergência de fatores força uma necessária mudança de paradigma na comunicação em saúde pública. Por décadas, a VOP, administrada como a familiar “gotinha”, foi um ícone do sucesso da saúde pública brasileira, um símbolo tangível de proteção profundamente enraizado na consciência pública (Brasil, 2024). Sua remoção, se não gerenciada com cuidado, poderia criar confusão ou até mesmo alimentar a hesitação vacinal. A narrativa de saúde pública deve evoluir da celebração do sucesso passado da gotinha para explicar urgentemente a ameaça invisível, mas potente, de doenças importadas em uma população sub-vacinada. A mensagem não pode mais ser um simples apelo para vacinar; deve se tornar um diálogo mais sofisticado que explique por que a vacina mudou e por que, por causa dessa mudança, a cobertura universal é mais crítica do que nunca. Requer uma estratégia que confronte diretamente a desinformação, explique o conceito abstrato de risco de importação em um mundo globalizado e transmita um senso de responsabilidade compartilhada e urgência sem induzir pânico. Em última análise, o sucesso a longo prazo da nova política exclusiva com VIP do Brasil dependerá tanto da reconstrução da confiança e compreensão do público quanto da logística de entrega de vacinas e dos aspectos técnicos da vigilância.

    4.5  Limitações do estudo

    Várias limitações inerentes ao desenho do estudo e à fonte de dados devem ser reconhecidas. Primeiro, o uso de dados secundários de um sistema de vigilância nacional como o SINAN está sujeito a possíveis problemas de qualidade dos dados, incluindo subnotificação de casos de PFA de certas regiões ou unidades de saúde, e preenchimento incompleto ou impreciso de algumas variáveis nas fichas de investigação. A qualidade da vigilância e do relato pode variar significativamente entre diferentes municípios e estados, o que pode afetar a uniformidade dos dados.

    Segundo o desenho seccional do estudo, permite-se a descrição de tendências e associações, mas impede o estabelecimento de relações causais. Terceiro, esta análise está limitada a casos de PFA clinicamente aparentes e notificados. Não captura infecções assintomáticas por poliovírus, que constituem a grande maioria das transmissões de poliovírus. Um quadro completo da circulação viral exigiria métodos de vigilância complementares, como a vigilância ambiental (o teste de amostras de esgoto para poliovírus), que é uma estratégia que pode detectar o vírus mesmo na ausência de casos paralíticos (Rio Grande do Sul, 2025). Finalmente, o período do estudo termina em 2021 e não captura os dados mais recentes sobre o desempenho da vigilância ou a cobertura vacinal que levaram à mudança final de política em 2024.

    5.  CONCLUSÃO

    Este estudo fornece uma linha de base epidemiológica definitiva e abrangente da Paralisia Flácida Aguda no Brasil durante o período crítico de 11 anos que antecedeu a transição histórica da nação para um esquema exclusivo com a Vacina Inativada contra a Poliomielite. Os achados demonstram conclusivamente que, embora o Brasil tenha mantido com sucesso seu status de livre da poliomielite, duramente conquistado, essa importante mudança de política está sendo implementada em um contexto de desafios significativos e crescentes. O sistema nacional de vigilância da PFA, embora sensível em sua capacidade de detectar casos potenciais, exibe fraquezas operacionais persistentes, particularmente na coleta oportuna de espécimes diagnósticos. Isso ocorre em um cenário profundamente preocupante de declínio sustentado e plurianual na cobertura vacinal infantil nacional.

    A eliminação do risco de poliomielite paralítica associada à vacina através da cessação da VOP é uma conquista marcante de saúde pública para o Brasil. No entanto, o benefício total dessa estratégia de vacinação mais segura depende inteiramente da capacidade do Programa Nacional de Imunizações de reverter as tendências recentes de queda nas taxas de imunização e de reconstruir e sustentar altos níveis de imunidade populacional. Sem alcançar uma cobertura quase universal com o esquema VIP, a mudança de política, embora removendo um pequeno risco interno, poderia inadvertidamente ampliar a vulnerabilidade da nação à ameaça muito maior de um surto em grande escala alimentado por um poliovírus importado.

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    1Acadêmicos do Curso de Medicina, Universidade Estadual de Goiás, Itumbiara, Goiás, Brasil. Email: rodrigogv.rodrigues@gmail.com
    2Médica, Graduada em Medicina pela Universidade Estadual de Goiás, Itumbiara, Goiás, Brasil.
    3Doutor em Imunologia, Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Professor dos Cursos de Medicina, Farmácia e Enfermagem, Universidade Estadual de Goiás, Itumbiara, Goiás, Brasil.