ANALYSIS OF THE ROLE OF NURSING IN PROMOTING REPRODUCTIVE HEALTH IN LOW-INCOME POPULATIONS: A LITERATURE REVIEW.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511181329
Liandra Nunes da Conceição¹; Solyane Evelin Nunes Costa¹; Karoline Patriocinio Coelho¹; Larissa da Silva Povoas¹; Maria dos Milagres Almeida dos Santos¹; Adenniz Silva Lima¹; Orientador: Pedro Henrique Rodrigues Alencar2
RESUMO
A saúde reprodutiva constitui um componente essencial da saúde integral do indivíduo e está diretamente relacionada à cidadania, à autonomia corporal e à qualidade de vida. No entanto, em populações de baixa renda, fatores como pobreza, desigualdade de gênero, baixa escolaridade e acesso precário aos serviços de saúde comprometem o exercício pleno desse direito. Nesse cenário, a enfermagem assume papel central, uma vez que esses profissionais, especialmente na atenção primária, são responsáveis por ações educativas, de prevenção e de cuidado humanizado. O estudo propõe analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura, o papel da enfermagem na promoção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda, identificando práticas, estratégias de cuidado e desafios enfrentados. A pesquisa foi realizada segundo os princípios do PRISMA e Kitchenham, com busca em bases de dados SciELO, LILACS, PubMed e BVS, considerando publicações de 2020 a 2024, em português, disponíveis na íntegra e que abordassem a atuação da enfermagem nesse campo. A análise qualitativa, orientada pela técnica de Bardin, permitiu organizar os resultados em categorias temáticas. Os achados indicaram que a limitação de acesso aos serviços de saúde, a escassez de recursos, a falta de informação e a baixa adesão a métodos contraceptivos estão entre os principais obstáculos à saúde reprodutiva. Ao mesmo tempo, destacou-se o potencial transformador da enfermagem por meio de práticas educativas, orientação individual e coletiva. O acolhimento e apoio contínuo, que contribuem para reduzir vulnerabilidades e ampliar a autonomia das mulheres.
Palavras-chave: Enfermagem. Saúde Reprodutiva. Populações de Baixa Renda. Atenção Primária. Políticas Públicas.
ABSTRACT
Reproductive health is an essential component of overall health, directly related to citizenship, bodily autonomy, and quality of life. However, in low-income populations, factors such as poverty, gender inequality, low educational levels, and limited access to health services compromise the full exercise of this right. In this context, nursing plays a central role, as these professionals, especially in primary care, are responsible for educational actions, prevention, and humanized care. The objective of this study was to analyze, through a systematic literature review, the role of nursing in promoting reproductive health in low-income populations, identifying practices, care strategies, and challenges faced. The research followed the PRISMA and Kitchenham guidelines, with searches conducted in SciELO, LILACS, PubMed, and BVS databases, considering publications from 2020 to 2024, in Portuguese, available in full text, and addressing nursing practices in this field. The qualitative analysis, guided by Bardin’s content analysis technique, allowed the results to be organized into thematic categories. Findings indicated that limited access to health services, scarcity of resources, lack of information, and low adherence to contraceptive methods are among the main barriers to reproductive health. At the same time, the transformative potential of nursing was highlighted through educational practices, individual and collective guidance, reception, and continuous support. It is log that nursing practice is indispensable for the promotion of reproductive health in vulnerable populations, not only because of direct care provision but also due to its ability to foster equity, strengthen primary health care, and support more effective public policies.
Keywords: Nursing. Reproductive Health. Low-Income Populations. Primary Care. Public Policies.
1. INTRODUÇÃO
A saúde reprodutiva constitui um componente essencial da saúde integral do indivíduo, sendo determinante para o exercício pleno da cidadania, da autonomia corporal e da qualidade de vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde reprodutiva como um estado de completo bem-estar físico, mental e social em todos os aspectos relacionados ao sistema reprodutivo (MOZZAQUATRO E ARPINI 2021).
Isso inclui a capacidade de ter uma vida sexual segura e satisfatória, de se reproduzir e de decidir se, quando e com que frequência fazê-lo. No entanto, esse direito ainda é negado a milhões de pessoas, sobretudo àquelas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. ( VICTORIA et al., 2020).
Nas populações de baixa renda, fatores como pobreza, baixa escolaridade, desigualdade de gênero e limitações de acesso aos serviços públicos de saúde contribuem significativamente para a precarização da saúde reprodutiva. Mulheres, principalmente jovens e negras, estão entre as mais afetadas, enfrentando riscos ampliados de gravidez não planejada, infecções sexualmente transmissíveis, violência obstétrica e exclusão dos processos decisórios sobre seu próprio corpo (FRAZÃO et al., 2022).
Nesse cenário, a precarização do atendimento à saúde sexual e reprodutiva nesses contextos reflete desigualdades históricas e estruturais que exigem respostas integradas e sensíveis às especificidades socioculturais de cada território. (COSTA; CASTRO E PAZ., 2022).
Nesse cenário, o profissional de enfermagem assume papel central na mediação entre os serviços de saúde e a população, sendo muitas vezes o primeiro e único contato das pessoas com o sistema público (MEMON et al., 2022).
Sendo assim, o enfermeiro atua de maneira transversal em diversas frentes: da atenção primária à hospitalar, da prevenção ao cuidado, passando pela educação em saúde. Sua presença nos espaços comunitários é estratégica para fortalecer vínculos, promover o acesso a informações seguras e construir práticas de cuidado mais humanizadas e resolutivas. A atuação do enfermeiro, quando comprometida com a equidade, pode transformar realidades locais e contribuir para a promoção da saúde reprodutiva como direito universal. (CARDOSO et al., 2021).
A atenção primária à saúde, estruturada no Brasil principalmente por meio da Estratégia Saúde da Família (ESF), tem como um de seus principais objetivos a promoção da saúde reprodutiva com foco na prevenção, no acolhimento e na educação. Nesse modelo, o enfermeiro exerce funções que vão além dos procedimentos clínicos, englobando atividades de orientação, escuta ativa e articulação com a rede de proteção social. (MARQUES., et al. 2021).
A consulta de enfermagem em saúde sexual e reprodutiva, por exemplo, constitui um espaço privilegiado para abordar temas como planejamento familiar, métodos contraceptivos, prevenção de infecções e assistência pré-natal. (ANDRADE et al 2023). Nesse cenário, apesar da relevância da enfermagem nesse campo, ainda há desafios significativos que dificultam o pleno reconhecimento e valorização de seu papel. A sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos materiais, a limitação de autonomia e a insuficiente formação voltada para a abordagem das questões reprodutivas em contextos de vulnerabilidade são obstáculos recorrentes. Além disso, é necessário considerar os aspectos culturais e subjetivos que permeiam a relação entre o profissional de saúde e o usuário, exigindo uma escuta sensível, livre de preconceitos e julgamentos morais (CABRAL., et al (2022).
Compreender a dinâmica entre os determinantes sociais da saúde, a atuação da enfermagem e os resultados em saúde reprodutiva é fundamental para o aprimoramento das políticas públicas. Nesse contexto, a pesquisa científica cumpre papel essencial ao produzir evidências que possam subsidiar práticas mais efetivas, sustentáveis e alinhadas aos princípios da equidade, da integralidade e da participação social (GRIMALDI et al., (2021).
Sendo assim, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura científica que aborde o papel da enfermagem na produção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda (PINHEIRO et al.,2021). Além disso, identificar as principais estratégias adotadas por enfermeiros e enfermeiras nesse contexto, os desafios enfrentados na prática cotidiana e os impactos gerados sobre os indicadores de saúde reprodutiva. Além disso, pretende-se mapear experiências exitosas que possam servir como referência para a formulação de políticas públicas mais eficazes (CAMARGO et al., 2021).
A relevância deste estudo está no reconhecimento de que o cuidado em saúde reprodutiva é um direito humano fundamental, que deve ser garantido de forma universal e equitativa. A atuação da enfermagem, por sua capilaridade e proximidade com as comunidades, tem o potencial de transformar o cuidado em saúde em uma prática emancipadora, promovendo autonomia, dignidade e justiça social (CONCEIÇÃO et al., (2021).
Ao analisar criticamente o papel da enfermagem neste campo, espera-se contribuir com o fortalecimento de estratégias que ampliem o acesso, qualifiquem o atendimento e assegurem os direitos reprodutivos das populações mais vulneráveis. Portanto, este trabalho se propõe a ser uma contribuição teórica e prática para o campo da saúde coletiva, especialmente no que tange à valorização das práticas de enfermagem como instrumentos de transformação social (OLIVEIRA., et al 2021). Ao lançar luz sobre o papel desses profissionais na produção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda, pretende-se não apenas ampliar o conhecimento sobre o tema, mas também fomentar debates e reflexões que possam subsidiar melhorias nas políticas de saúde e nas práticas cotidianas dos serviços. (CONCEIÇÃO et al., (2021).
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 SAÚDE REPRODUTIVA: CONCEITO, POLÍTICAS PÚBLICAS E DESIGUALDADE SOCIAL
A saúde reprodutiva, enquanto dimensão essencial do bem-estar físico, mental e social, transcende a ausência de enfermidades, englobando o direito de homens e mulheres a uma vida sexual segura, satisfatória e livre de coerções (Giffin 2022). esse conceito compreende não apenas o controle da fertilidade, mas também o acesso equitativo à informação, métodos contraceptivos eficazes, assistência qualificada no pré-natal, parto e pós-parto, além do tratamento adequado das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
No Brasil, esse entendimento foi incorporado de forma significativa a partir da década de 1990, impulsionado por conferências internacionais, como a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, realizada no Cairo, em 1994. A partir desse marco histórico, as políticas públicas brasileiras passaram a incorporar o conceito ampliado de saúde reprodutiva nas diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), orientando ações intersetoriais que visam garantir o acesso universal aos serviços de planejamento familiar, acompanhamento ginecológico e atendimento humanizado às mulheres.
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNAISM), instituída em 2004, tornou-se um instrumento fundamental nesse processo, ao reconhecer a integralidade do cuidado e as especificidades femininas ao longo do ciclo de vida (Nunes & Mendes, 2024).
Entretanto, apesar dos avanços institucionais, os indicadores sociais e de saúde revelam persistentes desigualdades que comprometem o efetivo exercício dos direitos sexuais e reprodutivos, especialmente entre mulheres de baixa renda, negras, indígenas e residentes em áreas periféricas. O acesso a serviços qualificados ainda encontra barreiras estruturais, como a escassez de profissionais capacitados, a precarização das unidades de saúde, a descontinuidade de políticas públicas e o preconceito institucionalizado.
A literatura científica tem apontado que a vulnerabilidade econômica está diretamente relacionada à maior exposição a riscos de saúde reprodutiva, como a gravidez não planejada, abortos inseguros e a maior incidência de ISTs (Gonçalves et al., 2020). Além das desigualdades econômicas e territoriais, as barreiras culturais desempenham papel determinante no acesso e na compreensão da saúde reprodutiva. Em muitas comunidades de baixa renda, o desconhecimento sobre os próprios direitos, somado a tabus e crenças religiosas, dificulta o diálogo aberto sobre sexualidade e métodos contraceptivos. Muitas mulheres ainda enfrentam resistência dentro do próprio núcleo familiar ou relutância em procurar os serviços de saúde por medo, vergonha ou experiências anteriores de julgamento e descaso. Esses fatores se entrelaçam, criando um ciclo de exclusão e silenciamento que perpetua padrões de invisibilidade e desassistência (Falcão, 2022).
A atuação da enfermagem nesse contexto tem se mostrado indispensável para reduzir as disparidades e promover o cuidado integral à saúde reprodutiva. Os profissionais de enfermagem estão frequentemente na linha de frente da atenção básica, atuando como agentes de escuta, acolhimento e orientação.
Por meio de práticas educativas, rodas de conversa, consultas e visitas domiciliares, contribuem diretamente para o empoderamento das mulheres e a promoção de escolhas conscientes sobre o próprio corpo e reprodução. (Miranda, 2021).
A construção de uma política de saúde reprodutiva equitativa requer o enfrentamento das desigualdades estruturais com base em uma perspectiva interseccional. Essa abordagem considera que fatores como raça, gênero, classe social e território se cruzam, produzindo formas distintas de opressão e exclusão. Assim, não se trata apenas de garantir acesso físico aos serviços, mas de assegurar que esse acesso seja qualificado, acolhedor e respeitoso às diversidades existentes. (Corrêa & Petchesky, 2020).
A literatura reforça a importância da educação em saúde como ferramenta de transformação social e promoção da cidadania. Iniciativas voltadas à formação de jovens, mulheres e homens sobre sexualidade, prevenção de doenças e planejamento familiar revelam impactos positivos, especialmente quando articuladas com escolas, unidades de saúde e organizações da sociedade civil. Para tanto, é imprescindível que os profissionais estejam capacitados para lidar com a complexidade desses temas de forma ética, sensível e culturalmente apropriada, rompendo com práticas estigmatizantes e hierarquizadas (Morawski et al., 2020).
No Brasil, programas como o Rede Cegonha e as estratégias da Atenção Primária à Saúde têm buscado integrar ações de cuidado materno-infantil e saúde sexual e reprodutiva, com foco no fortalecimento da atenção básica. No entanto, há consenso entre pesquisadores e profissionais de saúde sobre a necessidade de aperfeiçoamento das práticas, especialmente em relação à continuidade do cuidado, articulação intersetorial e participação comunitária (Marques, 2023).
Portanto, a discussão sobre saúde reprodutiva em populações de baixa renda exige uma abordagem sistêmica, sensível às múltiplas dimensões da vulnerabilidade social e à importância da humanização do cuidado. O compromisso com a justiça social e com os direitos humanos deve orientar todas as ações em saúde, sendo a enfermagem um dos pilares fundamentais para efetivar esse ideal nas práticas do cotidiano.
A superação das desigualdades só será possível por meio de políticas comprometidas com a equidade, de práticas baseadas em evidências e da valorização dos sujeitos como protagonistas de sua própria saúde (Nery et al., 2023).
2.2 O PAPEL DA ENFERMAGEM NA ATENÇÃO À SAÚDE REPRODUTIVA
A saúde reprodutiva, enquanto dimensão essencial do bem-estar físico, mental e social, transcende a ausência de enfermidades, englobando o direito de homens e mulheres a uma vida sexual segura, satisfatória e livre de coerções, Esse conceito compreende o controle da fertilidade, o acesso a métodos contraceptivos eficazes, assistência no pré natal, parto e pós-parto, além do tratamento adequado das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) (Barbosa (2021),
A partir desse marco histórico, as políticas públicas brasileiras passaram a incorporar o conceito ampliado de saúde reprodutiva nas diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), orientando ações intersetoriais que visam garantir o acesso universal aos serviços de planejamento familiar e atendimento humanizado, a PNAISM consolidou esse avanço ao promover um cuidado integral e sensível às especificidades femininas (Diniz (2023), Entretanto, apesar dos avanços institucionais, os indicadores sociais e de saúde revelam desigualdades persistentes. Essas desigualdades comprometem o acesso qualificado à saúde reprodutiva, principalmente entre mulheres de baixa renda, negras e indígenas, expostas a um sistema de saúde ainda precário e por vezes excludente (Corrêa 2020).
Além das desigualdades econômicas e territoriais, as barreiras culturais dificultam o acesso à saúde reprodutiva em comunidades vulneráveis, Aponta que tabus, desinformação e medo levam à negligência em buscar os serviços de saúde, tornando-se um ciclo de exclusão e silenciamento (Ferreira 2022).
A atuação da enfermagem tem sido essencial para enfrentar essas barreiras e promover a saúde reprodutiva em contextos de vulnerabilidade. O trabalho educativo da enfermagem, aliado à escuta qualificada, é crucial para empoderar mulheres e promover a Autonomia sobre seus corpos. A construção de políticas públicas eficazes exige o enfrentamento das desigualdades estruturais a partir de uma abordagem interseccional.
Compreender como classe, raça, gênero e território se entrecruzam é fundamental para garantir acesso equitativo aos serviços de saúde reprodutiva (Oliveira (2020). A educação em saúde é apontada como uma ferramenta poderosa para promover cidadania e reduzir as vulnerabilidades. Ações educativas que envolvem escolas, unidades de saúde e movimentos sociais contribuem para uma sociedade mais consciente e informada (MENDES., 2023).
No Brasil, programas como o Rede Cegonha representam avanços, mas ainda enfrentam desafios relacionados à continuidade do cuidado e participação comunitária, É preciso qualificar ainda mais as práticas e integrar diferentes setores para assegurar o impacto positivo dessas políticas (LIMA., 2021).
A discussão sobre saúde reprodutiva requer uma abordagem sensível às realidades sociais e à importância da humanização no atendimento. Apenas com práticas baseadas na escuta, no respeito e na equidade será possível promover o acesso digno à saúde. Por fim, a enfermagem desponta como protagonista na construção de um sistema de saúde mais justo e humano. Ao considerar a complexidade social e subjetiva dos sujeitos atendidos, a enfermagem se consolida como força transformadora no cuidado reprodutivo (NOGUEIRA., 2022).
2.3 BARREIRAS E ESTRATÉGIAS PARA A EFETIVAÇÃO DA SAÚDE REPRODUTIVA EM POPULAÇÕES DE BAIXA RENDA
A efetivação da saúde reprodutiva em populações de baixa renda enfrenta múltiplas barreiras que se entrelaçam e perpetuam um cenário de exclusão, vulnerabilidade e negação de direitos. Tais barreiras se manifestam em dimensões estruturais, institucionais, culturais e subjetivas, comprometendo não apenas o acesso, mas também a qualidade e a continuidade do cuidado.
A população pobre, em especial as mulheres, é constantemente afetada por dificuldades que limitam a autonomia sobre o próprio corpo, restringindo o exercício pleno da sexualidade e da reprodução como direitos humanos fundamentais (GÓES ET AL., 2021).
Entre os principais obstáculos identificados estão a precariedade dos serviços de saúde em regiões periféricas, a escassez de insumos e profissionais qualificados, a rotatividade de equipes e a desarticulação das políticas públicas.
Muitas unidades básicas de saúde funcionam com infraestrutura inadequada, o que compromete a realização de procedimentos básicos, como exames ginecológicos, coleta de Papanicolau, testes rápidos para ISTs e acesso a métodos contraceptivos. A ausência de um atendimento contínuo e resolutivo dificulta o acompanhamento dos casos e gera desconfiança na população, levando à evasão dos serviços (SANTOS ET AL., 2022).
Outro desafio relevante diz respeito à barreira sociocultural, que se manifesta por meio de tabus, crenças religiosas, estigmas e desinformação em torno da sexualidade e da reprodução. Em comunidades marcadas por baixa escolaridade e pobreza extrema, é comum encontrar resistência à utilização de métodos contraceptivos, sobretudo entre adolescentes e mulheres em relacionamentos afetivos abusivos.
A falta de diálogo sobre sexualidade no ambiente familiar, associada à moralização do corpo feminino, contribui para a naturalização de situações de violência, gravidez precoce e abandono do cuidado (PEREIRA ET AL., 2020).
A atuação de profissionais de saúde sem formação específica ou sensibilidade para lidar com questões de gênero, diversidade sexual e direitos reprodutivos também representa uma barreira significativa. Casos de julgamento moral, violação da confidencialidade e práticas autoritárias ainda são frequentes nos serviços de saúde. Isso gera um ambiente hostil, que afasta as mulheres do cuidado e compromete a relação de confiança entre usuárias e profissionais.
A saúde reprodutiva exige um atendimento acolhedor, centrado na escuta e no respeito às decisões individuais, o que nem sempre é garantido nos espaços de saúde pública (ALVES ET AL., 2023).
Em relação à dimensão econômica, a pobreza impõe limites concretos ao acesso aos serviços. O custo com transporte, ausência de creches para os filhos, falta de tempo devido ao trabalho informal e a dependência financeira de parceiros dificultam a ida aos atendimentos e o acompanhamento adequado do cuidado.
Além disso, muitas mulheres desconhecem os seus direitos ou não sabem que têm acesso gratuito a métodos contraceptivos e exames pelo SUS. A ausência de informação constitui, assim, uma forma silenciosa de exclusão, que perpetua ciclos de reprodução da pobreza e da desigualdade (COSTA ET AL., 2022).
Diante desse cenário, torna-se imprescindível o desenvolvimento de estratégias intersetoriais que articulem ações em saúde, educação, assistência social e direitos humanos. A atuação da enfermagem deve estar inserida em um contexto de cuidado integral, que reconheça as múltiplas determinações sociais da saúde e promova práticas baseadas na escuta qualificada e na construção de vínculos. A educação em saúde emerge como ferramenta central nesse processo, por meio de grupos educativos, rodas de conversa, visitas domiciliares e campanhas comunitárias (SILVA ET AL., 2021).
A inserção da enfermagem nas escolas, por exemplo, contribuir significativamente para a disseminação de informações sobre saúde sexual e reprodutiva entre adolescentes, promovendo o início de uma cultura de cuidado desde a juventude.
As atividades educativas devem abordar temas como prevenção de ISTs, métodos contraceptivos, consentimento, gravidez na adolescência e enfrentamento da violência de gênero, utilizando linguagem acessível e respeitosa. Tais ações têm o potencial de desconstruir estigmas e fomentar o protagonismo juvenil (LIMA ET AL., 2020).
Outra estratégia importante é a qualificação dos serviços de saúde por meio da educação permanente dos profissionais. A formação continuada em saúde sexual e reprodutiva, com enfoque em gênero, diversidade, direitos humanos e humanização, contribui para práticas mais éticas e resolutivas.
A sensibilização das equipes para a escuta ativa, a empatia e o acolhimento é essencial para transformar os serviços em espaços de cuidado e não de julgamento. É preciso romper com modelos biomédicos reducionistas e adotar abordagens mais integradas, voltadas à promoção da autonomia e da cidadania (MARTINS ET AL., 2022).
O fortalecimento das redes de apoio comunitárias também representa uma ferramenta potente para enfrentar as barreiras à saúde reprodutiva. Associações de moradores, coletivos de mulheres, movimentos sociais e agentes comunitários de saúde desempenham papel fundamental na mobilização, na disseminação de informações e na defesa dos direitos das populações vulneráveis.
A articulação entre esses atores e os profissionais de saúde pode gerar respostas mais eficazes às necessidades locais e ampliar o alcance das ações desenvolvidas nos territórios (PEREIRA ET AL., 2023).
Por fim, é necessário que o Estado assuma a responsabilidade de garantir a saúde reprodutiva como um direito universal, indivisível e inegociável. A efetivação desse direito requer investimento público, gestão eficiente, valorização profissional e participação social. A atuação da enfermagem, embora fundamental, não pode ser isolada.
Deve integrar um sistema de saúde comprometido com a equidade, a justiça social e o enfrentamento das desigualdades históricas que afetam as mulheres pobres no Brasil. Sem esse compromisso, a saúde reprodutiva continuará a ser privilégio de poucos e uma lacuna para muitos ser uma opção, desde que o sítio seja confiável. Evite publicações que não tenham relevância. (OLIVEIRA ET AL., 2022).
A revisão de literatura diz respeito à fundamentação teórica sobre a abordagem do tema e do problema de pesquisa, por meio da identificação de um quadro teórico referencial que dará sustentação ao trabalho.
A revisão de literatura consiste na identificação e análise do que já foi publicado sobre o tema e o problema da pesquisa e deve refletir o nível de envolvimento do autor com o tema. Procure incluir textos atualizados sobre o tema (estado da arte).
Não se trata de apenas revisar o que já foi publicado sobre o tema, mas demonstrar que o problema encontra sustentação na literatura e que a sua compreensão ainda requer estudos mais aprofundados ou metodologias alternativas para ser compreendido.
3. METODOLOGIA
O estudo em questão foi desenvolvido por meio de uma revisão sistemática da literatura, cuja finalidade consiste em identificar, selecionar, analisar e sintetizar publicações científicas relevantes sobre o papel da enfermagem na promoção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda. A escolha por essa abordagem justifica-se pela necessidade de reunir evidências teóricas consistentes e atualizadas que sustentem a discussão científica e promovam uma compreensão crítica sobre as práticas de cuidado voltadas às mulheres em situação de vulnerabilidade social.
A revisão sistemática adotou como base os princípios metodológicos recomendados por Kitchenham (2020) e orientações da Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). O processo de busca e seleção dos estudos foi realizado de forma estruturada, a fim de garantir rigor e transparência na construção do referencial empírico.
Dentre os métodos de pesquisa disponíveis, a revisão sistemática destaca- se por reunir, de forma rigorosa e criteriosa, os conhecimentos acumulados sobre determinado tema, possibilitando uma análise ampla e crítica das evidências existentes.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados SciELO, LILACS, BDENF e BVS, entre os meses de agosto e outubro de 2025, utilizando os descritores combinados “enfermagem”, “saúde reprodutiva”, “populações de baixa renda”, “atenção básica à saúde”, “cuidado de enfermagem” e “equidade em saúde”, conforme os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS).
Inicialmente, foram identificados 698 artigos, dos quais apenas sete atenderam aos critérios de elegibilidade e foram incluídos para análise final. Entre os autores recorrentes nas publicações selecionadas, destacam-se Diniz et al. (2020), Pereira et al. (2024) e Martins et al. (2022), que contribuíram significativamente para o entendimento do tema. Foram utilizados os seguintes descritores controlados, em diferentes combinações: “enfermagem”, “saúde reprodutiva”, “populações de baixa renda”, “atenção básica à saúde”, “cuidado de enfermagem” e “equidade em saúde”.
Os critérios de inclusão definidos para a seleção dos artigos foram: publicações entre os anos de 2020 e 2024; artigos disponíveis na íntegra e gratuitamente; estudos em português.
Pesquisas que abordassem diretamente o papel da enfermagem na promoção da saúde reprodutiva em contextos de vulnerabilidade socioeconômica. Foram excluídos os trabalhos duplicados, resumos de eventos científicos, dissertações e teses, bem como artigos que tratassem da saúde reprodutiva em contextos exclusivamente hospitalares ou que não abordassem diretamente a prática profissional da enfermagem.
Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, os títulos e resumos dos artigos encontrados foram lidos para triagem inicial. Em seguida, os textos completos dos artigos selecionados foram analisados, com ênfase na identificação de aspectos como: estratégias de cuidado utilizadas pela enfermagem, barreiras enfrentadas no contexto de populações de baixa renda, ações de educação em saúde, intersetorialidade e resultados obtidos com as intervenções. A análise dos dados foi realizada de forma qualitativa, por meio da técnica de análise temática de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2020).
Essa técnica permitiu organizar e categorizar os dados em núcleos de sentido, favorecendo a identificação de padrões, recorrências e lacunas nos estudos revisados. As categorias foram definidas, de forma indutiva, a partir da leitura crítica do conteúdo dos artigos.
Vale ressaltar que, por se tratar de uma revisão sistemática de literatura, esta pesquisa não envolveu experimentação direta com seres humanos, dispensando, portanto, aprovação por comitê de ética, conforme Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
O método adotado visa oferecer uma base teórica robusta para a compreensão da atuação da enfermagem na saúde reprodutiva em populações vulneráveis, fornecendo subsídios para a formulação de práticas e políticas públicas mais equitativas e eficazes..
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A busca bibliográfica realizada nas bases de dados SciELO, LILACS, BDENF e BVS, com os descritores “enfermagem”, “saúde reprodutiva”, “populações de baixa renda”, “atenção básica à saúde”, “cuidado de enfermagem” e “equidade em saúde”, resultou inicialmente em 698 artigos. Após a aplicação dos critérios de exclusão — 359 como duplicidade, idioma diferente do português, incompletude ou ausência de relação direta com a prática profissional da enfermagem —, 182 artigos foram selecionados para leitura dos títulos e resumos. Desses, 182 foram analisados na íntegra e, ao final do processo, 7 artigos atenderam a todos os critérios de elegibilidade, compondo a amostra final desta revisão sistemática.
O processo de busca e seleção dos estudos seguiu rigorosamente as recomendações do protocolo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta Analyses), conforme Page et al. (2021), assegurando transparência, reprodutibilidade e confiabilidade na identificação das evidências científicas. O Fluxograma 1 apresenta, de forma resumida, o percurso metodológico de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos que fundamentam a presente pesquisa.
A análise dos estudos incluídos evidenciou que a enfermagem desempenha papel essencial na promoção da saúde reprodutiva em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, atuando na educação em saúde, prevenção de agravos e fortalecimento da autonomia feminina. Identificaram-se ainda desafios relacionados à limitação de recursos, desigualdades de acesso e carência de capacitação profissional contínua, fatores que impactam diretamente a qualidade do cuidado prestado.
Em síntese, os resultados obtidos reforçam a necessidade de fortalecimento das ações intersetoriais e políticas públicas voltadas à equidade em saúde, reconhecendo o protagonismo da enfermagem como agente transformador na promoção da saúde reprodutiva entre mulheres em situação de baixa renda.
Quadro 1. Quadro sinóptico com a distribuição e organização dos artigos selecionados considerando ano, autor(es), país, nível de evidência, população e/ou amostra, objetivo e principais achados.

Quadro 2. clarifica tal distribuição e apresenta o nível de evidência, o autor(es), o ano de publicação, assim como o objetivo dos estudos e os principais achados.
| Autor(es)/ano /país | Nível de evidência | População e/ou Amostra | Objetivo | Principais achados |
| Diniz, 2020;. | qualitativo/ observacional | escola (amostra não probabilística; descrição no texto) | sobre planejamentofamiliar e saúde reprodutiva. | apontam necessidade de ações educativas no serviço e maior participação do enfermeiro nas estratégias de promoção da saúde reprodutiva. |
| Santos, A. N. S.; Nascimento, E. R. 2019/2020 . | Estudo qualitativo — etnoenfermage (evidência qualitativa) | 25 mulheres quilombolas rurais que vivenciaram gestação/parto. | Descrever proposições de cuidado cultural para enfermagem frente à saúde reprodutiva de mulheres quilombolas | Identificou práticas alimentares, uso de terapias complementares, saberes sobre o corpo e relações comunitárias que podem proteger ou aumentar vulnerabilidades; propõe cuidados culturalmente sensíveis para empoderar mulheres quilombolas. |
| A. C. dos Reis 2020. | Estudo descritivo exploratório | Mulheres atendidas em ambulatório de hospital | Analisar o conhecimento de mulheres atendidas no SUS | As autoras/autores identificaram lacunas no conhecimento sobre planejamento familiar; |
| Elislandia G. Santos et al. 2023. | Revisão integrativa (síntese de evidências) | Artigos publicados (2018–2023) sobre consulta de enfermagem com ênfase em saúde sexual/ reprodutiva (critérios no texto). | Mapear o acesso de mulheres à consulta de enfermagem com foco em saúde reprodutiva | Síntese aponta barreiras ao acesso (organização do serviço, oferta de consultas, conhecimento sobre a consulta de enfermagem) e destaca a importância da consulta de enfermagem para ampliar prevenção, acolhimento e planejamento reprodutivo. Recomenda maior capacitação e organização dos serviços |
| Silva et al. 2021 | Estudo qualitativo /descritivo (artigo sobre práticas educativas) | Profissionais/ enfermeiras e intervenções educativas em grupos na atenção básica (detalhes no texto original). | Descrever a ação da educação em saúde grupal na promoção dos direitos sexuais e reprodutivos na atenção básica segundo a visão de enfermeiras. | Enfatiza que a educação grupal fortalece direitos sexuais e reprodutivos, promove empoderamento e atuação preventiva; aponta desafios de rotina e de estrutura para implementação. |
| SANTOS, J. A. et al. — 2022 | Estudo qualitativo/ descritivo. | Profissionais de enfermagem atuantes em unidades básicas de saúde situadas em áreas periféricas urbanas. | Analisar os desafios relacionados à infraestrutura e seus impactos sobre a promoção da saúde reprodutiva em comunidades de baixa renda. | O estudo evidenciou que a precariedade da infraestrutura — caracterizada por insuficiência de equipamentos, limitação de insumos e espaços físicos inadequados — compromete a qualidade das ações de enfermagem voltadas à saúde reprodutiva. Os autores ressaltam que tais limitações afetam a efetividade das práticas educativas e preventivas, reforçando a necessidade de investimentos estruturais e de políticas públicas que assegurem condições adequadas para a atuação dos profissionais e para o atendimento integral das mulheres em situação de vulnerabilidade social. |
| CORRÊA, S. — 2020 | Estudo teórico reflexivo com abordagem analítica e descritiva. | Discussão centrada no contexto brasileiro contemporâneo, abordando políticas públicas, movimentos sociais e práticas de saúde voltadas à sexualidade e reprodução. | Analisar os desafios e perspectivas da saúde sexual e reprodutiva no Brasil, considerando avanços, retrocessos e tensões políticas que impactam os direitos sexuais e reprodutivos. | O estudo destaca que, embora o Brasil tenha registrado avanços institucionais e normativos na promoção da saúde sexual e reprodutiva, persistem desigualdades significativas relacionadas a gênero, classe e território. A autora enfatiza que o enfraquecimento das políticas públicas e as restrições orçamentárias recentes comprometem a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos, especialmente entre populações vulneráveis. Ressalta-se, ainda, a importância do fortalecimento da atuação multiprofissional e da enfermagem como agentes de transformação social na defesa da equidade e da autonomia reprodutiva. |
5. DISCUSSÃO
A análise dos artigos do Bloco 1 evidencia que a atuação da enfermagem é fundamental na promoção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda. Estudos como Diniz (2020) apontam que ações educativas no serviço e maior participação do enfermeiro são essenciais para o planejamento familiar e a promoção da saúde reprodutiva, reforçando a necessidade de intervenção ativa da enfermagem nesse contexto. De forma complementar, Silva et al. (2021) destacam que a educação grupal realizada pelos profissionais de enfermagem fortalece os direitos sexuais e reprodutivos, promove empoderamento feminino e atua de forma preventiva, embora desafios de rotina e estrutura ainda limitem a implementação dessas práticas.
A análise cultural também se mostra central para a eficácia das ações de enfermagem. Santos & Nascimento (2019/2020) identificaram que saberes tradicionais, práticas alimentares e terapias complementares entre mulheres quilombolas influenciam diretamente a saúde reprodutiva, e que cuidados culturalmente sensíveis podem empoderar essas mulheres e reduzir as vulnerabilidades. Esse enfoque ressalta a importância de estratégias de cuidado adaptadas ao contexto sociocultural das populações atendidas.
O acesso aos serviços de saúde é outro fator crítico. Elislândia G. Santos et al. (2023), em revisão integrativa, evidenciam barreiras relacionadas à organização dos serviços, oferta de consultas e conhecimento limitado sobre a consulta de enfermagem, indicando que a ampliação do acesso e a capacitação profissional são determinantes para promover prevenção, acolhimento e planejamento reprodutivo efetivos. Além disso, a precariedade da infraestrutura, descrita por Santos et al. (2022), compromete a qualidade das ações de enfermagem, tornando evidente que limitações estruturais afetam diretamente a efetividade das práticas educativas e preventivas.
O panorama teórico-reflexivo apresentado por Corrêa (2020) reforça que, embora haja avanços institucionais e normativos na promoção da saúde sexual e reprodutiva no Brasil, persistem desigualdades de gênero, classe e território. A autora enfatiza que políticas públicas enfraquecidas e restrições orçamentárias impactam negativamente a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos, especialmente em populações vulneráveis, destacando a atuação da enfermagem como agente transformador social.
Em síntese, os achados confirmam que a enfermagem desempenha papel essencial na saúde reprodutiva, mas sua efetividade depende da combinação de capacitação profissional, sensibilidade cultural, infraestrutura adequada e políticas públicas consistentes. A interpretação desses resultados amplia o entendimento sobre a necessidade de estratégias educativas integradas, fortalecimento do acesso e empoderamento das mulheres, reforçando a importância da enfermagem como agente de transformação social na promoção da saúde reprodutiva em contextos de vulnerabilidade.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão sistemática realizada permitiu identificar a relevância da atuação da enfermagem na promoção da saúde reprodutiva em populações de baixa renda, confirmando que esses profissionais exercem papel central no acesso, na orientação e na educação em saúde. Os objetivos propostos foram plenamente alcançados, uma vez que foi possível analisar as estratégias de cuidado implementadas, reconhecer os desafios enfrentados no contexto da atenção primária e mapear experiências exitosas que contribuem para o fortalecimento e a qualificação das práticas assistenciais.
Os resultados evidenciaram que a formação contínua dos profissionais de enfermagem, associada à implementação de ações educativas voltadas à população, à escuta sensível e ao acolhimento humanizado, constitui-se como um dos pilares para a efetividade das práticas de cuidado em saúde reprodutiva. O enfermeiro, ao atuar de forma próxima e acessível à comunidade, desempenha papel essencial na identificação de vulnerabilidades, na orientação sobre planejamento familiar, contracepção e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, bem como na promoção do empoderamento feminino e do exercício consciente dos direitos sexuais e reprodutivos.
Além disso, a análise dos estudos revelou que fatores socioeconômicos, culturais e estruturais exercem influência direta sobre o acesso das mulheres aos serviços de saúde e sobre a qualidade do atendimento recebido. A precariedade da infraestrutura, a falta de recursos materiais, a sobrecarga de trabalho e a insuficiência de capacitações específicas ainda configuram barreiras significativas à prática integral e resolutiva da enfermagem. Da mesma forma, a presença de preconceitos culturais, desigualdades de gênero e limitações educacionais contribuem para o distanciamento das mulheres dos serviços de saúde, especialmente em áreas rurais e comunidades periféricas.
Tais achados reforçam a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas à saúde da mulher, com enfoque na equidade, na humanização e na integralidade da atenção. É imprescindível que gestores e formuladores de políticas reconheçam a importância estratégica da enfermagem no âmbito da atenção primária, garantindo condições de trabalho adequadas, oportunidades de educação permanente e espaços de participação nos processos decisórios.
A valorização do conhecimento técnico e científico do enfermeiro deve caminhar lado a lado com o reconhecimento de sua dimensão social e educativa. A prática cotidiana revela que o cuidado em saúde reprodutiva não se limita à execução de procedimentos clínicos, mas envolve a construção de vínculos, o respeito às particularidades culturais e a promoção de autonomia das mulheres sobre seus corpos e decisões. Nesse sentido, o fortalecimento de práticas baseadas em evidências, associadas ao diálogo intercultural e à abordagem comunitária, emerge como caminho promissor para reduzir desigualdades e ampliar o acesso a serviços de qualidade.
Portanto, que a atuação da enfermagem na promoção da saúde reprodutiva ultrapassa os limites da assistência biomédica e assume um papel transformador na vida das mulheres, famílias e comunidades. Investir em formação, infraestrutura, pesquisa e valorização profissional significa investir na construção de uma sociedade mais justa, equitativa e consciente de seus direitos reprodutivos. Assim, a enfermagem se consolida como protagonista na defesa da saúde integral da mulher, contribuindo efetivamente para o avanço das políticas públicas e para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde enquanto instrumento de cidadania, inclusão e justiça social.
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1Acadêmico(s) do 8º período do curso de Enfermagem da Faculdade de Imperatriz – UNIP, Email: liandranunes959@gmail.com; solyaneevi@gmail.com; limaadenniz334@gmail.com; laryssapovoas84@gmail.com; mila.jhenyfer@gmail.com; karolinepatrocinio@hotmail.com; enfpedro.alencar@gmail.com
²Orientador, Especialista e Professor do curso de Enfermagem da Faculdade de Imperatriz – UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP, Email: Enfpedro.alencar@gmail.com
