ANÁLISE DA RELAÇÃO ENTRE A DOENÇA PERIODONTAL E AS CONDIÇÕES SISTÊMICAS: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

ANALYSIS OF THE RELATIONSHIP BETWEEN PERIODONTAL DISEASE AND SYSTEMIC CONDITIONS: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511091126


Raíssa Silva Borges1
Joane Oliveira Rocha1
Rute Pereira Costa Lopes1
Larissa Alves Ferreira da Silva1
Karina Sarno Paes Alves Dias2


RESUMO

Objetivo: Realizar uma revisão integrativa da literatura visando compreender a associação entre a doença periodontal com as comorbidades sistêmicas e suas implicações para a saúde geral. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, seguindo as diretrizes do PRISMA, sobre a relação entre doença periodontal e doenças sistêmicas. Foram selecionados artigos dos últimos dez anos, em inglês e português, incluindo estudos de caso e ensaios clínicos, excluindo duplicatas e publicações sem acesso completo. A análise envolveu triagem de títulos, resumos e textos completos, destacando trechos relevantes. Os dados foram organizados em tabelas para síntese crítica. Resultados: O trabalho revisou 11 artigos sobre a relação entre a doença periodontal e comorbidades sistêmicas, como doenças renais, cardiovasculares, diabetes e artrite. Os principais resultados indicam que o tratamento periodontal pode retardar a progressão de condições como a doença renal crônica e reduzir a pressão arterial. Aliado a isso, melhorou os parâmetros de saúde bucal e a qualidade de vida de pacientes com diabetes tipo 2 e artrite. Contudo, os estudos ainda carecem de mais evidências longitudinais para confirmar os benefícios a longo prazo. Considerações finais: Observou-se que o tratamento periodontal pode contribuir para a melhoria da saúde sistêmica, ao reduzir a progressão de doenças como a diabetes, a hipertensão e a artrite. Esta associação entre a periodontite e as condições inflamatórias sistêmicas reforça a relevância do cuidado e da manutenção da saúde oral.

Palavras-chave: Condições Sistêmicas. Doença Periodontal. Saúde Bucal.

ABSTRACT

Objective: To conduct an integrative literature review aiming to understand the association between periodontal disease and systemic comorbidities and their implications for overall health. Methodology: This is an integrative literature review, following the PRISMA guidelines, on the relationship between periodontal disease and systemic diseases. Articles from the last ten years, in English and Portuguese, were selected, including case studies and clinical trials, excluding duplicates and publications without full access. The analysis involved screening titles, abstracts, and full texts, highlighting relevant excerpts. The data were organized into tables for critical synthesis. Results: The study reviewed 11 articles on the relationship between periodontal disease and systemic comorbidities, such as kidney diseases, cardiovascular diseases, diabetes, and arthritis. The main results indicate that periodontal treatment can slow the progression of conditions such as chronic kidney disease and reduce blood pressure. Additionally, it improved oral health parameters and quality of life for patients with type 2 diabetes and arthritis. However, the studies still lack more longitudinal evidence to confirm long-term benefits. Final considerations: It was observed that periodontal treatment may contribute to the improvement of systemic health by reducing the progression of diseases such as diabetes, hypertension, and arthritis. This association between periodontitis and systemic inflammatory conditions reinforces the importance of oral health care and maintenance.

Key words: Systemic Conditions. Periodontal Disease. Oral Health.

1 INTRODUÇÃO

A Periodontite é uma doença inflamatória crônica causada por microrganismos que persistem, em indivíduos suscetíveis, em parte devido a interações reciprocamente reforçadas entre o microbioma disbiótico e a resposta inflamatória do hospedeiro (Lamont et al., 2018; Williams et al., 2021). Sua forma grave é a sexta condição mais prevalente no mundo e afeta cerca de 10% da população adulta (Frencken et al., 2017; Kassebaum et al., 2014). Se não tratada, leva à destruição progressiva do aparelho de fixação dos dentes (gengiva, cemento, ligamento periodontal e osso alveolar) e eventual perda dentária, ao mesmo tempo em que compromete a mastigação, a estética e afeta a qualidade de vida (A Peres et al., 2019; GBD, 2018).

É proposto que a inflamação sistêmica associada à periodontite seja desencadeada pela translocação hematogênica de microrganismos periodontopatogênicos ou pelo extravasamento de citocinas pró-inflamatórias e outros mediadores do periodonto para a circulação (Schenkein et al., 2020). Ela está epidemiologicamente ligada a outros distúrbios, incluindo doença cardiovascular, diabetes tipo 2, obesidade, artrite reumatoide, osteoporose, infecções respiratórias, doença inflamatória intestinal, doença de Alzheimer, doença hepática gordurosa não alcoólica, doença renal crônica e certos tipos de câncer (Genco, Sanz, 2020; Potempa et al., 2017; Acharya et al., 2017; Schenkein et al., 2020).

Uma possível explicação da associação entre doença periodontal e comorbidades sistêmicas pode envolver a inflamação de baixo grau associada à periodontite, que é um denominador comum de muitas condições crônicas (Genco, Sanz, 2020; Potempa et al., 2017, 2017; Acharya et al., 2017; Schenkein et al., 2020; Hajishengallis G, Chavakis, 2021). Por outro lado, as doenças sistémicas influenciam a progressão da periodontite ao intensificarem a resposta inflamatória nos tecidos periodontais, o que repercute na modulação da composição do microbioma periodontal (Genco, Sanz, 2020; Xiao et al., 2017; Teles et al., 2021).

Não obstante, o cuidado com a saúde bucal vem sendo negligenciado pela sociedade, acarretando impactos não apenas odontológicos, mas também sistêmicos (Salvi et al., 2023). Entretanto, ainda há uma escassez de evidências científicas que discutam essa relação. A compreensão da relação da doença periodontal com as comorbidades sistêmicas será fundamental para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento mais eficazes para pacientes que sofrem com ambas as condições. 

A partir desse contexto, observando-se a complexidade do tema atrelado a necessidade de se debater sobre ele, o presente estudo teve como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura visando compreender a associação entre a doença periodontal com as comorbidades sistêmicas e suas implicações para a saúde geral.  A identificação precoce dessa relação pode levar a uma melhoria significativa na qualidade de vida dos pacientes e na redução dos custos de saúde associados.

2 METODOLOGIA 

Este trabalho trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter quantitativo descritivo, conduzida de acordo com o Preferred Reporting Items For Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). De acordo com Whittemore e Knafl (2005), a revisão integrativa é a mais ampla abordagem metodológica referente às revisões, permitindo a inclusão de estudos experimentais e não-experimentais para uma compreensão completa do fenômeno analisado. Promove assim, a análise de dados de pesquisas necessárias para o desenvolvimento do pensamento crítico.

Para a elaboração do trabalho foram percorridas as seguintes etapas (Figura 1): identificação do tema e formulação da pergunta de pesquisa; seleção de critérios para a inclusão e exclusão de estudos; definição das informações a serem extraídas das pesquisas selecionadas; categorização e análise dos estudos; interpretação dos resultados e síntese e exposição dos dados (Page et al., 2021). As questões norteadoras foram: Como é estabelecida a relação entre a doença periodontal e doenças sistêmicas? Como o sistema inflamatório pode estar relacionado ao desenvolvimento dessas patologias? Quais são as implicações da relação entre doença periodontal e doenças sistêmicas para a saúde geral do indivíduo?

Foram feitas buscas por literaturas científicas, na base de dados MEDLINE (PubMed), aplicando os termos-chave, isolados ou combinados através dos operadores booleanos “and” e “or”. Os descritores utilizados para a pesquisa foram: periodontite (“periodontics”); inflamação (“ïnflamation”); fatores de risco (“risk factors”). 

A amostra foi composta por artigos científicos que abordem a doença periodontal, com ênfase em estudos de caso e ensaios clínicos relacionados ao tema. Os critérios de inclusão estabelecidos contemplam artigos publicados em inglês e português que discutam a relação entre periodontite e condições sistêmicas; trabalhos com até 10 anos de publicação; artigos exploratórios, estudos de caso e ensaios clínicos voltados à temática; além de publicações que abordem diferentes faixas etárias. Em relação aos critérios de exclusão estabeleceu-se pela não utilização de duplicatas, teses e dissertações, artigos sem acesso gratuito e na íntegra, trabalhos que trataram a periodontite de forma isolada e artigos que não passaram pelo processo de avaliação em pares. 

Por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, este trabalho não necessita de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), uma vez que não apresenta riscos à vida humana, estando em conformidade com o Parecer nº 466/2012 e a Lei Federal nº 11.794/2008.

A metodologia de análise dos dados seguiu etapas sistematizadas para garantir rigor e clareza. Inicialmente, foram eliminados artigos duplicados e aqueles que não atenderem aos critérios de inclusão. Em seguida, procedeu à tabulação dos artigos elegíveis, organizando-os de acordo com critérios metodológicos previamente definidos. A análise ocorreu em diferentes níveis de leitura: inicialmente dos títulos, para verificar a pertinência em relação à temática; posteriormente dos resumos e palavras-chave, a fim de realizar uma avaliação preliminar; e, em seguida, das seções de desenvolvimento, com foco nos objetivos, métodos e fundamentação teórica. Por fim, foi realizada a leitura crítica dos resultados, discussões e conclusões. Após essa etapa, foi feita a leitura integral dos artigos selecionados, aprofundando a compreensão de cada estudo. Os trechos mais relevantes, alinhados com a temática, foram destacados e organizados em tabelas específicas, possibilitando a análise crítica e a síntese dos dados obtidos.

Figura 1. Fluxograma das etapas seguidas para a elaboração do artigo

Fonte: Borges RS, et al., 2025

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES 

Nesta seção, são apresentados os achados mais relevantes da revisão bibliográfica que investigou a interação entre a doença periodontal e condições sistêmicas, com ênfase no impacto clínico para o paciente. A análise dos estudos evidenciou conexões significativas entre os processos inflamatórios periodontais e comorbidades sistêmicas, como doenças renais, cardiovasculares, diabetes e artrite (Quadro I). 

Quadro 1 – Categorização dos artigos selecionados para a discussão.

NAutores (Ano)TítuloPrincipais achados
1CZESNIKIEW-G, et al. (2019)Associação causal entre periodontite e hipertensão: evidências da randomização mendeliana e de um ensaio clínico randomizado de terapia periodontal não cirúrgicaOs resultados mostraram que variantes genéticas ligadas à periodontite se associam a níveis mais altos de pressão arterial, sugerindo um vínculo causal. No ensaio clínico, o tratamento periodontal intensivo reduziu a pressão sistólica em cerca de 11 mmHg e melhorou marcadores inflamatórios e vasculares. Assim, a periodontite pode contribuir para a hipertensão, e seu tratamento auxilia no controle da pressão arterial e na prevenção cardiovascular.
2KAVERI A, et al. (2024)Efeito da terapia periodontal na atividade da doença reumática em pacientes em uso de medicamentos antirreumáticos: um estudo prospectivoOs resultados mostraram que o tratamento periodontal não cirúrgico reduziu significativamente a atividade da artrite, incluindo contagem de articulações dolorosas e inchadas, marcadores inflamatórios e escore DAS28, além de melhorar os parâmetros de saúde periodontal, em comparação ao grupo controle. Esses achados sugerem que o cuidado periodontal pode contribuir para a redução da inflamação sistêmica e auxiliar na manutenção da saúde bucal nesses pacientes.
3KAMATA Y, et al. (2022)Tratamento periodontal e cuidados habituais para doença hepática gordurosa não alcoólica: um ensaio clínico randomizado multicêntricoO estudo mostrou que o tratamento periodontal em pacientes com NAFLD reduziu significativamente os níveis de ALT e os títulos de anticorpos contra Porphyromonas gingivalis, indicando que a intervenção periodontal pode melhorar marcadores hepáticos e a inflamação sistêmica.
4KIM YJ, et al. (2017)Avaliação da condição periodontal e risco em pacientes com doença renal crônica em hemodiáliseOs resultados do estudo indicaram que 1 paciente (0,94%) não tinha doença periodontal, 55 (51,4%) apresentaram periodontite leve, 28 (26,2%) moderada e 23 (21,5%) avançada. Atrelado a isso, 34,6% dos pacientes estavam em risco periodontal baixo, 32,7% moderado e 32,7% alto. Os pacientes com doença periodontal avançada apresentaram 104,5 vezes mais chances de ter alto risco periodontal em comparação com os de baixo risco.
5LI LING, et al. (2021)A periodontite exacerba e promove a progressão da doença renal crônica por meio da flora oral, citocinas e estresse oxidativoA pesquisa analisou a relação entre periodontite e doença renal crônica (DRC), sugerindo que a periodontite pode agravar a DRC através de três mecanismos principais: a migração de bactérias orais patogênicas para os rins, a elevação de mediadores inflamatórios como TNF-α e IL-6, e o aumento do estresse oxidativo, que danifica células renais. Destacou-se que o tratamento da periodontite pode retardar a progressão da DRC, embora mais estudos sejam necessários para confirmar essa associação e desenvolver estratégias terapêuticas eficazes.
6MISHRA S, et al. (2024)Impacto da periodontite na qualidade de vida relacionada à saúde bucal de pacientes com artrite psoriáticaOs resultados mostraram que a combinação de PD e PsA (grupo PsA-PD) apresentou os escores mais elevados no questionário OHIP-14, indicando maior comprometimento da OHRQoL. A análise estatística revelou que a interação entre PD e PsA teve um efeito significativo na OHRQoL, sugerindo que a presença simultânea dessas condições exacerba os impactos negativos na saúde bucal dos pacientes.
7PABLO P, et al. (2023)Efeitos da terapia periodontal na artrite reumatoide: o ensaio clínico randomizado OPERAO estudo OPERA avaliou se a terapia periodontal intensiva poderia reduzir a atividade da artrite reumatoide (AR) em pacientes com AR ativa e periodontite. Sessenta pacientes foram randomizados para tratamento periodontal imediato ou adiado. A intervenção reduziu significativamente a inflamação periodontal e os escores de atividade da AR (DAS28 e ultrassonográficos), sem alterar a perda de inserção clínica. O protocolo mostrou-se viável e bem aceito, indicando potencial da terapia periodontal como abordagem complementar na AR.
8RØSLAND A, et al. (2025)Efeito da terapia periodontal na função pulmonar: um estudo de intervenção com acompanhamento de doze mesesApós a avaliação de avaliou 62 adultos não fumantes com periodontite leve, mostrou que a terapia periodontal melhorou a saúde bucal e reduziu significativamente a resistência das pequenas vias aéreas, indicando benefício na função pulmonar. Apesar disso, não houve alterações relevantes na espirometria nem nos níveis de óxido nítrico exalado. Os resultados sugerem que o tratamento periodontal pode favorecer a função respiratória periférica, possivelmente por reduzir a inflamação sistêmica.
9SANTOS N C, et al. (2025)Fatores que influenciam a resposta à terapia periodontal em pacientes com diabetes: análise post hoc de um ensaio clínico randomizado utilizando aprendizado de máquinaA pesquisa identificou que a combinação de nove fatores, como profundidade de sondagem (PD), nível de inserção clínica (CAL), índice de placa e HbA1c, pode prever a resposta ao tratamento periodontal em pacientes com periodontite e diabetes tipo 2. O modelo Random Forest teve a melhor performance, com 80% de acurácia.
10SEN S, et al. (2023)Tratamento da doença periodontal após acidente vascular cerebral ou ataque isquêmico transitório: o estudo PREMIERS, um ensaio clínico randomizadoO estudo PREMIERS avaliou se o tratamento periodontal intensivo poderia reduzir eventos cardiovasculares em pacientes com histórico de AVC ou AIT e doença periodontal moderada a grave. Após 12 meses, o grupo intensivo apresentou menos eventos (8%) que o grupo padrão (12%), mas a diferença não foi estatisticamente significativa. Ambos os grupos mostraram melhorias em fatores de risco, como pressão diastólica e HDL, e as taxas de eventos adversos foram semelhantes. Assim, o tratamento intensivo não se mostrou superior, embora tenha indicado possíveis benefícios cardiovasculares modestos.
11XIAO C, et al. (2025)Intervenção em saúde periodontal para desfechos relacionados à saúde bucal em pacientes idosos com diabetes tipo 2: um ensaio clínico randomizado em um hospital terciário chinêsO estudo avaliou que o programa baseado no Modelo de Pender melhorou significativamente a saúde periodontal de idosos com diabetes tipo 2, reduzindo índices de placa e cálculo e aumentando conhecimento, atitudes e comportamentos em saúde oral, sem efeito no GOHAI. O grupo controle apresentou poucas alterações. Limitações incluem estudo monocêntrico, curto seguimento e ausência de medidas clínicas completas de periodontite.

Fonte: Borges RS, et al., 2025.

Tratando inicialmente da diabetes e a sua relação com a doença periodontal, os estudos conduzidos por Santos et al. (2025) e Xiao et al. (2025) investigam a relação entre saúde periodontal e diabetes tipo 2, utilizando abordagens distintas para avaliar intervenções e fatores preditivos.

O estudo de Santos et al. (2025) aplicou técnicas de aprendizado de máquina em dados de um ensaio clínico randomizado para identificar fatores que influenciam a resposta à terapia periodontal em pacientes com periodontite e diabetes tipo 2. Sua análise revelou que níveis mais baixos de profundidade de sondagem (PS), perda de inserção clínica (NIC), índice de biofilme assim como Hemoglobina glicada (HbA1c) no início do tratamento estavam associados a melhores resultados clínicos após seis meses.

Por outro lado, Xiao et al. (2025) realizou um ensaio clínico randomizado com 108 pacientes idosos com diabetes tipo 2 em um hospital terciário chinês. O programa de intervenção baseado no Modelo de Saúde Periodontal de Pender (Pender HPM) promoveu melhorias significativas na saúde periodontal de idosos com diabetes tipo 2, com redução de índices de placa e cálculo dental, além de aumento em conhecimento, atitudes e comportamentos relacionados à saúde oral.

No entanto, não houve efeito significativo no Índice de Avaliação da Saúde Bucal Geriátrica (GOHAI), indicando que mudanças perceptíveis nesse aspecto podem exigir acompanhamento mais longo. O grupo controle apresentou poucas alterações, reforçando que os efeitos observados foram atribuíveis à intervenção. Limitações incluem caráter monocêntrico, curto período de seguimento e ausência de medidas clínicas completas de periodontite.

Ainda no trabalho do Santos et al. (2025), foi enfatizado a utilidade de modelos preditivos baseados em aprendizado de máquina para identificar fatores clínicos e metabólicos associados à resposta ao tratamento periodontal, enquanto Xiao et al. (2025) demonstra que intervenções educativas e comportamentais podem melhorar os hábitos de higiene bucal e o conhecimento dos pacientes. Ambos os estudos sugerem que a personalização do tratamento e a educação contínua são fundamentais para otimizar os resultados em pacientes com diabetes tipo 2. No entanto, a combinação de abordagens tecnológicas e educativas poderia potencializar os efeitos benéficos na saúde periodontal e no controle glicêmico desses pacientes.

Já nos estudos conduzidos por Mishra et al. (2024), Kaveri et al.  (2024) e Pablo et al. (2023) investigam a interseção entre doenças periodontais e doenças reumáticas, com foco na artrite psoriática e na artrite reumatoide. Mishra et al. (2024) observaram que a presença concomitante de periodontite e artrite psoriática (PsA-PD) resultou nos piores escores de qualidade de vida relacionada à saúde bucal (OHRQoL), conforme medido pelo questionário OHIP-14. Os pacientes com PsA-PD apresentaram escores significativamente mais altos em todas as dimensões do OHIP-14, incluindo dor oral, função oral, aparência orofacial e impacto psicológico, em comparação com os grupos de periodontite isolada e saudáveis. Atrelado a isso, fatores como idade, frequência de visitas odontológicas e uso de auxiliares de higiene bucal influenciaram moderadamente os escores de OHRQoL.

Kaveri et al. (2024), por sua vez, realizaram um estudo prospectivo com 60 pacientes com artrite reumatoide (AR) e periodontite crônica, randomizados para receber terapia periodontal não cirúrgica ou não receber tratamento durante três meses. Os resultados mostraram uma redução significativa nos parâmetros da AR, como contagem de articulações dolorosas e inchadas, e taxa de sedimentação de eritrócitos no grupo que recebeu o tratamento periodontal. Os parâmetros periodontais também melhoraram significativamente nesse grupo, sugerindo que o tratamento periodontal pode reduzir a carga de marcadores inflamatórios sistêmicos e melhorar a gravidade da AR.

Já no estudo realizado por Pablo et al. (2023), foi feito um ensaio clínico randomizado que investigou os efeitos da terapia periodontal intensiva na atividade da doença em pacientes com AR e periodontite. Os resultados indicaram que a terapia periodontal levou a melhorias significativas nos parâmetros periodontais e na atividade geral da doença reumática, conforme medido pelos escores do DAS28 e ultrassonografia musculoesquelética. No entanto, a resolução completa da inflamação periodontal foi difícil de alcançar em alguns casos. Foi observado algumas limitações no estudo, no qual futuras pesquisas poderiam explorar intervenções terapêuticas combinadas, estratégias de prevenção e a implementação de terapias periodontais em larga escala para avaliar seu impacto na saúde sistêmica de pacientes com doenças reumáticas.

Nos demais artigos apresentados foi possível verificar uma variação nos temas estudados. Como nos estudos de Li et al. (2021), Kim et al.  (2017) e Czesnikiewicz-Guzik et al. (2019) que abordam temas distintos, mas todos contribuem significativamente para a compreensão das interações entre saúde bucal, doenças sistêmicas e fatores psicossociais. No estudo de Li et al. (2021) realizaram uma análise sobre os mecanismos pelos quais a periodontite pode agravar a doença renal crônica (DRC), focando no impacto da flora oral, mediadores inflamatórios e estresse oxidativo. Foram descobertos que a periodontite contribui para a progressão da DRC através de alterações na microbiota oral e aumento da inflamação sistêmica, com mediadores como IL-1, IL-6, TNF-α e TGF-β desempenhando um papel crucial nesse processo. Dessa forma, o aumento do estresse oxidativo e os radicais livres gerados pela inflamação bucal afetam a função renal, exacerbando a progressão da doença. No entanto, como estudo, Li et al. (2021) destacam que a falta de dados experimentais diretos impede a confirmação dos mecanismos sugeridos, o que torna necessária a realização de estudos longitudinais para validar essas observações.

Uma outra associação interessante observada nesta análise da literatura, foi a investigação de Kim et al. (2017) sobre as condições periodontais em pacientes com doença renal crônica em hemodiálise onde foi observado uma alta prevalência de doença periodontal nesses pacientes, com 51,4% apresentando periodontite leve, 26,2% moderada e 21,5% severa. O estudo também mostrou que o risco periodontal estava significativamente associado à gravidade da doença periodontal, com 32,7% dos pacientes classificados com alto risco periodontal. Dessa forma, foi indicado que a periodontite severa estava diretamente ligada a um risco muito maior de complicações associadas à DRC. Entretanto, este estudo apontou algumas limitações como o seu desenho transversal, o que impediu a determinação de causalidade entre a periodontite e a progressão da DRC.

Czesnikiewicz-Guzik et al. (2019) investigaram a relação entre periodontite e hipertensão, utilizando a randomização mendeliana para estabelecer uma associação causal. Foi-se descoberto que a periodontite tem uma relação significativa com a hipertensão, e o tratamento periodontal intensivo foi capaz de reduzir a pressão arterial sistólica em média 11,1 mmHg. No qual, a melhoria da função endotelial e a redução dos marcadores inflamatórios foram observadas após o tratamento, sugerindo que a periodontite pode influenciar a pressão arterial através de mecanismos inflamatórios e endoteliais. No entanto, a amostra foi limitada a pacientes hipertensos com periodontite moderada/severa, o que levanta a necessidade de validação desses resultados em outras populações.

Já os estudos de Røsland et al. (2025), Sen et al. (2023) e Kamata et al. (2022) investigam a relação entre a saúde periodontal evidenciando a importância da saúde bucal na prevenção e manejo de doenças respiratórias, cerebrovasculares e hepáticas. Røsland et al. (2025), realizaram um estudo clínico randomizado com 62 adultos jovens e não fumantes, com periodontite leve, observando que a terapia periodontal resultou em redução significativa da resistência das vias aéreas pequenas, medida por oscilometria, após seis semanas, com manutenção dos efeitos ao longo de 12 meses. Contudo, não foram observadas alterações significativas em parâmetros espirométricos ou nos níveis de óxido nítrico exalado. Tal estudo destaca a importância do controle da infecção bucal para a saúde respiratória, sugerindo que intervenções precoces podem prevenir o desenvolvimento de doenças respiratórias crônicas.

Sen et al. (2023) conduziram um ensaio clínico randomizado com 481 pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) ou ataque isquêmico transitório, associando-os a tratamento periodontal intensivo ou padrão. Os resultados mostraram que, após 12 meses, não houve diferença significativa na ocorrência de eventos adversos graves entre os grupos, embora o grupo de tratamento intensivo tenha apresentado uma taxa ligeiramente menor de eventos. Ambos os grupos apresentaram melhorias nos fatores de risco cardiovascular, como pressão arterial diastólica e níveis de colesterol HDL.

Já Kamata et al. (2022), realizaram um estudo randomizado com 40 pacientes com doença hepática gordurosa não alcoólica e periodontite, comparando o tratamento periodontal com cuidados habituais. Os resultados indicaram que o tratamento periodontal resultou em uma redução significativa nos níveis de alanina aminotransferase e nos títulos de anticorpos contra Porphyromonas gingivalis, sugerindo uma melhora na inflamação sistêmica associada à doença hepática. Em comparação, os três estudos evidenciam que a saúde periodontal desempenha um papel crucial na modulação de condições sistêmicas inflamatórias. Enquanto Røsland et al. (2025) focam na função pulmonar, Sen et al. (2023) abordam eventos cerebrovasculares e Kamata et al. (2022) investigam doenças hepáticas. As limitações incluem a necessidade de amostras maiores para fortalecer a generalização dos resultados e a exploração de mecanismos biológicos subjacentes.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base nos artigos apresentados sobre a relação entre a doença periodontal e as condições sistêmicas, este estudo reforça a importância do cuidado com a saúde bucal não apenas para a prevenção de doenças periodontais, mas também para o controle de várias comorbidades, como doenças cardiovasculares, diabetes, doenças renais, reumáticas e outras condições inflamatórias crônicas. As evidências apresentadas indicam que a periodontite pode contribuir significativamente para o agravamento dessas condições sistêmicas, principalmente por meio de mecanismos inflamatórios, como o aumento da translocação de bactérias orais e a liberação de mediadores inflamatórios para a circulação sistêmica.

Atrelado a tais fatores, o tratamento periodontal tem mostrado resultados promissores na melhora dos parâmetros clínicos dessas doenças sistêmicas, sugerindo que a intervenção na saúde bucal pode beneficiar a saúde geral do paciente. No entanto, a literatura ainda apresenta lacunas importantes, principalmente em relação à causalidade e à eficácia dos tratamentos periodontais em diferentes condições sistêmicas. Futuras pesquisas, especialmente estudos longitudinais e ensaios clínicos randomizados, são essenciais para validar esses achados e fornecer orientações mais robustas sobre como a saúde periodontal pode ser integrada aos protocolos de tratamento de doenças sistêmicas.

Portanto, a adoção de uma abordagem multidisciplinar, que inclua cuidados com a saúde bucal, surge como uma estratégia promissora para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e otimizar o manejo das comorbidades associadas.

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1 Discente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Independente do Nordeste.
e-mail: raissasilvaborges@hotmail.com. joanerocha302@gmail.com. rute.pocoes@gmail.com. larissaalves881@gmail.com.
2 Docente do Curso Superior de Odontologia da Faculdade Independente do Nordeste. Mestre em Periodontia (SLM). e-mail: karinasarno@fainor.com.br.