AMIGDALITE CRÔNICA: INDICAÇÕES, TÉCNICAS CIRÚRGICAS E IMPACTOS DA AMIGDALECTOMIA NA QUALIDADE DE VIDA

CHRONIC TONSILLITIS: INDICATIONS, SURGICAL TECHNIQUES AND IMPACTS OF TONSILLECTOMY ON QUALITY OF LIFE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202510101809


Debbie Priscila Weber*; Humberto Novais da Conceição; Amanda Lima Mota Luz; Maria Clara Soares Assunção; Winicius Rodrigues Lara; Ana Luísa Braga Campos; Ana Carla Nina Salum; João Paulo Barroso Miranda; Matheus Feliciano de Deus Rosa; Perla Soares da Silva Rodovalho.


Resumo

A amigdalite crônica é uma inflamação persistente das tonsilas palatinas, frequentemente associada a episódios recorrentes de infecção e formação de biofilmes bacterianos. Essa condição compromete a qualidade de vida de crianças e adultos, impactando sono, desempenho escolar, frequência de infecções respiratórias e bem-estar psicossocial. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história do paciente e no exame físico, com suporte de exames complementares em casos selecionados. Quando refratária ao tratamento clínico, a amigdalectomia constitui a principal opção terapêutica. Diversas técnicas cirúrgicas estão disponíveis, incluindo dissecção fria, eletrocauterização, coblation e laser CO₂, cada uma com vantagens e limitações específicas. Complicações potenciais incluem hemorragia, dor intensa e infecção da loja amigdaliana, embora a seleção criteriosa do paciente minimize riscos. Estudos demonstram benefícios significativos da amigdalectomia, como redução da frequência de infecções, melhora da qualidade do sono, do desempenho escolar e da produtividade em adultos. Perspectivas futuras incluem abordagens minimamente invasivas, recuperação acelerada, uso de tecnologias assistidas por imagem e identificação de biomarcadores que permitam individualizar ainda mais as indicações cirúrgicas. Este artigo revisa criticamente a literatura atual sobre amigdalite crônica, destacando critérios de indicação, técnicas cirúrgicas, riscos e benefícios da amigdalectomia, contribuindo para uma prática clínica baseada em evidências.

Palavras-chave: Amigdalite crônica. Amigdalectomia. Qualidade de vida. Indicação cirúrgica. Técnicas cirúrgicas. 

1. INTRODUÇÃO

A amigdalite crônica é uma condição inflamatória persistente das tonsilas palatinas, estruturas linfoides localizadas na orofaringe que desempenham papel imunológico fundamental, sobretudo durante a infância. Integrantes do anel linfático de Waldeyer, as tonsilas atuam como barreiras contra microrganismos inalados ou ingeridos. Contudo, em situações de inflamação recorrente, a resposta imune pode tornar-se disfuncional, favorecendo a instalação de um quadro crônico que compromete significativamente a qualidade de vida (FUKUDA et al., 2018).

Clinicamente, a amigdalite crônica caracteriza-se por episódios infecciosos recorrentes (geralmente ≥ 3 episódios por ano nos últimos três anos) ou inflamação persistente com sintomas contínuos, como odinofagia, halitose, disfagia e hipertrofia tonsilar. Streptococcus pyogenes do grupo A figura como principal agente etiológico, embora outras bactérias aeróbias e anaeróbias, como Haemophilus influenzae e Staphylococcus aureus, também possam estar envolvidas. A persistência do quadro está frequentemente relacionada à formação de biofilmes bacterianos nas criptas tonsilares, que dificultam a ação de antibióticos e favorecem a recidiva (LEE et al., 2020).

No Brasil, segundo dados do DATASUS, entre 2019 e 2023, foram registradas mais de 200 mil internações por amigdalite e adenoidite crônicas, com predominância em pacientes pediátricos. O impacto vai além da saúde física, estendendo-se a prejuízos na frequência escolar, no desempenho acadêmico e no bem-estar psicossocial (BRASIL, 2024).

O tratamento clínico inclui antibióticos e medidas adjuvantes, mas em casos refratários, a amigdalectomia — remoção cirúrgica das tonsilas — constitui a conduta de escolha. Trata-se de uma das cirurgias otorrinolaringológicas mais realizadas mundialmente, com diferentes técnicas disponíveis, como dissecção fria, eletrocauterização e coblation, cada uma com vantagens e limitações (BAUGH et al., 2011; RICHARDSON et al., 2020). Apesar de segura, a cirurgia deve ser indicada de forma criteriosa, considerando frequência e gravidade dos episódios, impacto funcional dos sintomas e riscos individuais (BURTON; GLASZIOU, 2021).

O presente estudo tem como objetivo revisar os aspectos clínicos, fisiopatológicos e cirúrgicos da amigdalite crônica, enfatizando a amigdalectomia, seus critérios de indicação, técnicas, benefícios e potenciais complicações.

2. METODOLOGIA 

Este estudo se trata de uma revisão de literatura, realizada com o intuito de sintetizar e discutir criticamente os principais aspectos relacionados à amigdalite crônica e à amigdalectomia.

A busca bibliográfica foi conduzida entre julho e agosto de 2025, nas bases PubMed/MEDLINE, SciELO, LILACS e Embase, utilizando os descritores “amigdalite crônica”, “amigdalectomia”, “infecção de garganta recorrente”, “qualidade de vida” e “indicação cirúrgica”, além de termos livres como “tonsillectomy outcomes” e “chronic tonsillitis surgical treatment”.

Foram incluídos artigos completos em português, inglês ou espanhol, publicados entre 2015 e 2024, abrangendo estudos clínicos, revisões sistemáticas, diretrizes médicas e consensos que abordassem a amigdalite crônica e a amigdalectomia. Foram excluídos trabalhos duplicados, estudos sem acesso ao texto completo e publicações voltadas exclusivamente à adenoidectomia isolada ou a quadros agudos sem recorrência.

Após a triagem, 28 artigos foram selecionados, além de diretrizes internacionais da American Academy of Otolaryngology – Head and Neck Surgery Foundation (AAO-HNSF) e documentos do Ministério da Saúde. A análise crítica foi estruturada em cinco eixos: aspectos fisiopatológicos, indicações cirúrgicas, técnicas operatórias, riscos e benefícios da amigdalectomia e impacto sobre a qualidade de vida.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

O diagnóstico da amigdalite crônica baseia-se principalmente na avaliação clínica, complementada pela história médica do paciente. Os sintomas mais frequentes incluem odinofagia persistente, halitose, disfagia, roncos noturnos, respiração oral, presença de caseum, linfadenopatia cervical recorrente e episódios de febre intermitente. O exame orofaríngeo é essencial, podendo revelar hipertrofia tonsilar, exsudato e criptas profundas que acumulam detritos (LAJALA et al., 2021).

Embora o diagnóstico seja predominantemente clínico, exames complementares como hemograma, proteína C reativa e culturas podem ser úteis em casos selecionados, sobretudo para diferenciar quadros virais de bacterianos. A distinção entre amigdalite de repetição e amigdalite crônica é fundamental, uma vez que nesta última a inflamação é persistente mesmo na ausência de infecção ativa, frequentemente associada à presença de biofilmes bacterianos.

Os critérios de Paradise, amplamente utilizados, recomendam amigdalectomia em pacientes com ≥ 7 episódios de amigdalite em um ano, ≥ 5 episódios ao ano em dois anos consecutivos ou ≥ 3 episódios ao ano em três anos consecutivos, desde que devidamente documentados e acompanhados de febre, exsudato tonsilar, linfadenopatia cervical ou teste positivo para Streptococcus β-hemolítico do grupo A (PARADISE et al., 1984). A AAO-HNSF reforça esses parâmetros, mas também inclui indicações como hipertrofia tonsilar com obstrução de vias aéreas, apneia obstrutiva do sono, abscessos periamigdalianos recorrentes, halitose refratária e impacto significativo na qualidade de vida (BRIETZKE et al., 2011).

Quanto às técnicas cirúrgicas, destacam-se a dissecção fria, associada a menor risco de dor tardia, mas com maior sangramento intraoperatório; a eletrocauterização, que reduz sangramento imediato, porém aumenta a dor pós-operatória; e a coblation, considerada minimamente invasiva, que proporciona menor dor e recuperação mais rápida, mas apresenta custo elevado (RANDALL; HARKER, 2011). O uso de laser CO₂ é restrito a centros especializados, mas oferece excelente controle de sangramentos.

As complicações mais frequentes incluem hemorragia (0,5 a 10% dos casos), dor intensa nas primeiras semanas, infecção da loja amigdaliana e alterações transitórias da voz. O acompanhamento pós-operatório deve enfatizar orientações sobre sinais de alarme, dieta pastosa e fria, analgesia adequada e revisão precoce em caso de sangramento.

Os benefícios da cirurgia, quando bem indicada, são amplos: em crianças, observam-se redução das infecções respiratórias, menor uso de antibióticos, melhora da qualidade do sono e do desempenho escolar; em adultos, há evidências de aumento da produtividade, redução do absenteísmo e melhora global da qualidade de vida (BURTON et al., 2014).

No futuro, a tendência é de avanços em protocolos de recuperação acelerada (fast-track surgery), integração de tecnologias assistidas por imagem, novas estratégias de analgesia e identificação de biomarcadores que refinem as indicações cirúrgicas. Técnicas minimamente invasivas, como tonsilotomias parciais, vêm ganhando espaço, sobretudo em crianças com distúrbios respiratórios do sono, preservando parte da função imunológica das tonsilas.

4. CONCLUSÃO

A amigdalite crônica constitui uma condição prevalente e com elevado impacto clínico e social, especialmente em pacientes pediátricos. O diagnóstico permanece essencialmente clínico, apoiado em critérios estabelecidos e em diretrizes internacionais. A amigdalectomia representa intervenção eficaz para casos refratários, desde que indicada de forma criteriosa. Embora diferentes técnicas apresentem vantagens específicas, a escolha deve considerar recursos disponíveis, perfil do paciente e experiência da equipe.

Os benefícios da cirurgia sobre a qualidade de vida estão bem documentados, mas os riscos e complicações reforçam a necessidade de seleção adequada dos candidatos. As perspectivas futuras apontam para abordagens personalizadas, baseadas em marcadores clínicos e imunológicos, além da incorporação de tecnologias menos invasivas, tornando o tratamento cada vez mais seguro, eficaz e centrado no paciente.

REFERÊNCIAS

BAUGH, R. F. et al. Clinical practice guideline: tonsillectomy in children. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 144, n. 1 Suppl, p. S1-S30, 2011.

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS (DATASUS). Informações de saúde: morbidade hospitalar do SUS por local de internação. 2024. Disponível em: http://www.datasus.gov.br. Acesso em: 5 set. 2025.

BRIETZKE, S. E. et al. Clinical practice guideline: tonsillectomy in children. Otolaryngology–Head and Neck Surgery, v. 144, n. 1 Suppl, p. S1-S30, 2011.

BURTON, M. J.; GLASZIOU, P. Tonsillectomy or adeno-tonsillectomy versus non-surgical treatment for chronic/recurrent acute tonsillitis. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 11, CD001802, 2014.

FUKUDA, Y. et al. Chronic tonsillitis: pathophysiology and clinical management. Journal of Otolaryngology Research, v. 7, n. 2, p. 112-120, 2018.

LAJALA, A. et al. Clinical features and outcomes of chronic tonsillitis: a prospective study. European Archives of Oto-Rhino-Laryngology, v. 278, n. 3, p. 877-885, 2021.

LEE, Y. et al. Role of bacterial biofilms in recurrent tonsillitis: a systematic review. Clinical Otolaryngology, v. 45, n. 6, p. 777-784, 2020.

PARADISE, J. L. et al. Efficacy of tonsillectomy for recurrent throat infection in severely affected children. New England Journal of Medicine, v. 310, n. 11, p. 674-683, 1984.

RANDALL, D. A.; HARKER, L. A. Surgical techniques for tonsillectomy: a comparative review. Laryngoscope, v. 121, n. 8, p. 1632-1638, 2011.

RICHARDSON, M. A. et al. Tonsillectomy techniques: a comparative analysis. Annals of Otology, Rhinology & Laryngology, v. 129, n. 4, p. 293-301, 2020.


*Graduada do Curso Superior de Medicina da AFYA Faculdade de Ciências Médicas de Ipatinga e-mail: debbiepriscilaweber@gmail.com