MOST COMMON MUSCULOSKELETAL ALTERATIONS OBSERVED IN PHYSIOTHERAPEUTIC ASSESSMENTS OFSCHOOL-AGED CHILDREN AND ADOLESCENTS: A LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510311142
Adria Ramos Tavares¹
Jennyffer Mayara Rodrigues Gomes1
Lylian Silva De Souza1
Rosângela Martins Gama1
Thaiana Bezerra Duarte²
Resumo
Introdução: As alterações posturais em crianças e adolescentes em idade escolar são frequentemente observadas e podem resultar em disfunções musculoesqueléticas que comprometem o desenvolvimento físico e a qualidade de vida. A rotina escolar, marcada por longos períodos sentados, uso incorreto de mochilas e ausência de orientação postural, favorece o surgimento de desvios posturais e dores musculoesqueléticas. Objetivo: Analisar as alterações musculoesqueléticas mais comuns em escolares identificadas em avaliações fisioterapêuticas, destacando a importância da fisioterapia preventiva e educativa na promoção da saúde postural. Materiais e método: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura realizada nas bases de dados SciELO, PubMed, LILACS, REAS, incluindo publicações entre 2015 e 2025, em português e inglês. Resultados: Dos 33 artigos analisados, sete foram incluídos, apontando alta prevalência de assimetria de quadril, anteriorização da cabeça, hipercifose torácica e hiperlordose lombar. As principais causas identificadas foram o peso excessivo das mochilas, o tempo prolongado em postura sentada e a falta de orientações ergonômicas, com dor musculoesquelética relatada pela maioria dos estudantes. Conclusão: As alterações musculoesqueléticas em escolares apresentam origem multifatorial e reforçam a importância da atuação fisioterapêutica na prevenção e correção postural. A inclusão de programas educativos e avaliações periódicas em ambiente escolar é essencial para promover hábitos corporais saudáveis e reduzir os riscos de disfunções musculoesqueléticas na infância e adolescência.
Palavras-chave: Postura, Fisioterapia, Escolares, Prevenção, Educação postural.
Abstract
Background: Postural changes in children and adolescents of school age are frequently observed and may result in musculoskeletal dysfunctions that compromise physical development and quality of life. The school routine, marked by long periods of sitting, incorrect use of backpacks, and lack of postural guidance, favors the emergence of postural deviations and musculoskeletal pain. Pourpose:To analyze the most common musculoskeletal changes in schoolchildren identified in physiotherapeutic evaluations, highlighting the importance of preventive and educational physiotherapy in promoting postural health. Methods: This is an integrative literature review carried out in the SciELO, PubMed, LILACS, and REAS databases, including publications between 2015 and 2025, in Portuguese and English. Results: Of the 33 articles analyzed, seven were included, showing a high prevalence of hip asymmetry, forward head posture, thoracic hyperkyphosis, and lumbar hyperlordosis. The main causes identified were excessive backpack weight, prolonged sitting posture, and lack of ergonomic guidance, with musculoskeletal pain reported by most students. Conclusion:Musculoskeletal changes in schoolchildren have a multifactorial origin and reinforce the importance of physiotherapeutic intervention in posture prevention and correction. The inclusion of educational programs and periodic assessments in the school environment is essential to promote healthy body habits and reduce the risks of musculoskeletal dysfunctions in childhood and adolescence.
Keywords: Posture, Physiotherapy,Schoolchildren,Prevention,Postural education.
1. INTRODUÇÃO
A análise postural de estudantes do ensino fundamental representa uma importante ferramenta na prevenção de disfunções musculoesqueléticas, especialmente considerando que é durante a infância que se consolidam muitos dos hábitos posturais que podem perdurar ao longo da vida (Candotti, 2011). Nesse contexto, o ambiente escolar exerce papel fundamental, uma vez que os estudantes passam grande parte do dia sentados, realizando atividades como escrever, utilizar computadores e carregar mochilas, muitas vezes de forma inadequada (Zapater et al. 2004). Somada a isso a ausência de orientações posturais adequadas, e o tempo prolongado em posturas incorretas, pode favorecer o desenvolvimento de alterações que impactam negativamente a saúde, sobretudo na vida adulta.
A atuação da fisioterapia, nesse cenário, é essencial tanto no âmbito preventivo quanto terapêutico. Intervenções precoces, pautadas na educação postural, são determinantes para a obtenção de melhores prognósticos e para a promoção da saúde musculoesquelética dos escolares (Passabão; Abreu, 2021). Alterações posturais frequentemente surgem ainda na infância e, quando não diagnosticadas ou tratadas adequadamente, tendem a evoluir para quadros clínicos mais complexos ao longo dos anos. Dessa forma, embasado nos autores supracitados, estratégias fisioterapêuticas voltadas à conscientização e a correção postural tornam-se relevantes, contribuindo de forma significativa para a qualidade de vida a longo prazo.
Autores como Zapater et al. (2004) destacam que ações preventivas voltadas à postura são mais eficazes durante a fase de crescimento, e sugerem que sejam promovidas mais pesquisas e programas educacionais direcionados à postura adotada pelos estudantes em sala de aula. No entanto, observa-se uma escassez de estudos que investiguem a postura de crianças e adolescente em idade escolar.
Portanto, torna-se essencial a realização de estudos que avaliem a postura de estudantes, a fim de detectar precocemente possíveis alterações e subsidiar a implementação de estratégias preventivas eficazes, contribuindo para a saúde e o bem-estar dessa população em fase de crescimento.
Diante disso, a revisão de artigos serve como uma nova e atualizada base de dados para saber quais os materiais mais relevantes a serem estudados e quais as melhores técnicas a serem adotadas para prevenir de maneira célere e eficaz possíveis alterações musculoesqueléticas que são mais comuns em crianças e adolescentes.
2 MATERIAIS E MÉTODO
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, foi realizada nas bases de dados Scielo, PubMed, LILACS, Revista eletrônica de Acervo saúde (REAS) e buscas manuais nos periódicos Research society and developement. Foram utilizados os descritores ‘postura’ and ‘fisioterapia’ and ‘escolares’ and ‘prevenção’ and educação postural’, ‘posture’ and ‘physiotherapy’ and ‘schoolchildren’ and ‘prevention’ and ‘postural education’ combinados com o operador booleano AND, as palavras-chave foram pesquisadas em português e inglês. A busca foi limitada a publicações entre 2015 e 2025, em português e inglês. As buscas ocorreram no período de julho a setembro de 2025.
Os critérios de inclusão foram artigos publicados nos últimos 10 anos, estudos de caso e estudo transversal e os de exclusão foram os que englobavam tratamentos fisioterapêuticos, e, artigos duplicados, artigos publicados em outros idiomas que não em inglês e português e artigos incompletos. Os resultados obtidos foram expressos por meio de tabela.
3 RESULTADOS
Ao todo foram encontrados 33 artigos, desses 7 foram inclui conforme os critérios de inclusão para fazer parte desta revisão, como mostra-se o fluxograma a seguir (figura 1).
Figura 1: Fluxograma do estudo.

A seguir apresenta-se a tabela contendo o nome dos autores dos artigos e ano, tipo de estudo, objetivo do estudo, metodologia utilizado por cada um e os resultados obtidos.
Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão.
| AUTOR/ANO | TIPO DE ESTUDO | OBJETIVO | METODOLOGIA | RESULTADOS |
| Vieira et al. 2015 | Estudo transversal | Identificar sinais precoces de escoliose em crianças da educação pré-escolar da rede municipal de Londrina (PR). | A mostra de 360 crianças, calculada a partir do total de 3.666 pré-escolares da rede. Foram excluídas aquelas sem compreensão, incapazes de permanecer em ortostatismo ou com doenças crônicas/agudas. A coleta incluiu medidas antropométricas e avaliações posturais por meio do equilíbrio frontal pélvico e do teste de Adams. Quando havia resultado positivo neste último, a criança era submetida à fotogrametria para mensuração angular. Os exames foram conduzidos em ambiente padronizado, com uso de equipamentos adequados para marcação corporal, registro fotográfico e posterior análise digital das imagens. A análise dos ângulos torácicos e lombares foi realizada a partir de pontos anatômicos específicos, assegurando precisão e confiabilidade. | O estudo avaliou 377 crianças, sendo 44,8% meninas e 55,2% meninos, com idades entre cinco e seis anos. A média de altura foi de 1,17 m e o peso médio de 22,2 kg. O teste de Adams indicou positividade para escoliose em 26,3% das crianças, enquanto 37,9% apresentaram assimetria pélvica, com associação significativa entre esses dois achados. As curvaturas em “C” foram predominantes, especialmente na região tóracolombar, enquanto as em “S” foram menos frequentes. As angulações observadas variaram entre pequenas amplitudes, e parte das crianças com teste positivo não apresentou curvatura detectável na fotogrametria. Não foram verificadas diferenças estatisticamente significativas relacionadas à idade, sexo, peso ou altura, exceto por uma correlação inversa discreta entre estatura e angulação lombar, indicando que crianças mais baixas tenderam a apresentar maior grau de curvatura nessa região. |
| Cerdeira et al. 2018 | Estudo transversal | Investigar e quantificar a prevalência de alterações posturais na coluna vertebral em escolares de 11 a 15 anos, comparando alunos de uma instituição pública e de uma privada no município de Quixadá/CE. | Realizado em duas escolas de ensino fundamental de Quixadá/CE, uma pública e outra privada, com uma amostra de 40 alunos entre 11 e 15 anos, de ambos os sexos. Foram incluídos alunos sem deficiências físicas, sendo excluídos aqueles com déficit auditivo, cognitivo ou dependência funcional. Cada aluno foi fotografado em quatro posições (anterior, posterior, lateral direita e lateral esquerda) utilizando bolas de isopor como marcadores anatômicos e um simetrógrafo, permitindo a análise de ângulos e distâncias entre pontos anatômicos por um software. | O estudo mostrou em seus resultados alta prevalência de alterações posturais em diversos segmentos corporais. Observou-se maior incidência de anteriorização da cabeça (87,8%) e inclinação cervical (80%) em ambos os grupos, com diferenças entre lados e escolas. O desnivelamento de ombros afetou 95% da amostra, predominando o ombro esquerdo elevado. Quanto à pelve, 90% apresentaram alterações de elevação, e 50% manifestaram anteversão ou retroversão. A hipercifose esteve presente em 52,5% dos alunos, com maior ocorrência na rede pública, enquanto desvios lombares e alterações escapulares (45% normais e 55% com algum desvio) foram mais evidentes na rede municipal. De modo geral, os resultados indicam elevada frequência de alterações posturais em escolares, refletindo a necessidade de prevenção e correção precoce desses desvios. |
| Resende et al. 2023 | Estudo transversal | Investigar a prevalência de alterações posturais entre escolares e verificar se há correlação entre essas alterações e o peso corporal, assim como o peso das mochilas dos alunos, em uma escola do município de São João del-Rei, Minas Gerais. | Participaram da pesquisa 109 estudantes, com idades entre 11 e 15 anos (média de 13 anos), de ambos os sexos, que aceitaram voluntariamente participar do estudo. A observação foi feita nas vistas anterior, posterior e lateral, considerando diferentes regiões do corpo como cabeça, ombros, coluna, quadris, pés e abdômen. A avaliação durava cerca de dois minutos por aluno e utilizava um sistema com tela de fundo, fio de prumo e marcações no chão para manter o alinhamento corporal durante a análise. Além disso, foram feitas medições da altura e do peso corporal dos estudantes com equipamentos portáteis e calibrados. O peso das mochilas, contendo os materiais escolares, também foi registrado com balança eletrônica. | Revelou que todas as crianças avaliadas apresentaram algum tipo de alteração postural, com média geral de 68,7 pontos na escala utilizada. As regiões mais afetadas foram abdômen, tronco, cabeça, coluna e quadris, enquanto ombros, pés e pescoço apresentaram menores escores. Houve diferença estatisticamente significativa entre os segmentos corporais avaliados (p = 0,00018). A média de altura dos alunos foi de 1,61 m, peso corporal de 56,03 kg, peso das mochilas de 4,49 kg e IMC de 21,51 kg/m². Não foi encontrada correlação significativa entre as alterações posturais e o peso das mochilas ou o peso corporal, mas houve associação entre peso e altura (p = 0,00013; r = 0,47214). |
| Costa et al. 2015 | Estudo transversal | Avaliar a postura de estudantes do ensino fundamental, precisamente nas séries do 6º ao 9º ano. | Realizada com 62 estudantes de 10 a 14 anos de duas escolas públicas de Caxias (MA), foram coletados dados antropométricos, posturais e informações sobre o uso das mochilas escolares. A maioria dos estudantes usava mochilas com duas alças, mas frequentemente as carregavam de forma inadequada (em um ombro). | A amostra foi composta por 62 estudantes, com média de idade entre 10 e 14 anos, sendo a maioria do sexo feminino. A maior parte usava mochilas com duas alças (79%) e as carregava em ambos os ombros (58,1%). Apesar disso, 91,9% apresentaram assimetria de quadril, a alteração postural mais frequente. Além disso, 69,4% relataram dores musculoesqueléticas no último ano, principalmente nos ombros e parte superior das costas. Houve associação significativa entre o uso de mochila com duas alças e a presença de assimetria de quadril (p=0,025). Também foi identificada correlação entre maior peso da mochila e aumento de alterações posturais, principalmente a assimetria de quadril (r=0,301), além de maior incidência de dores nos ombros, costas e maior intensidade da dor (EVA). |
| Menezes et al. 2018 | Estudo transversal | Avaliação postural de escolares de Ensino Fundamental do município de Presidente Prudente. | Realizada com 42 estudantes dos 4º e 5º anos de uma escola pública de Presidente Prudente-SP, participantes do Programa Cidadescola. A avaliação foi feita individualmente, com coleta de dados pessoais, medidas antropométricas (peso, altura e peso da mochila), hábitos de atividade física, uso de tecnologias, queixas de dor nas costas e atitudes posturais no ambiente escolar. A postura foi analisada em três ângulos (frontal, lateral e posterior), observando possíveis desalinhamentos da cabeça, ombros, coluna, quadris, joelhos e pés. Também foram analisadas posturas adotadas para sentar, tipo de mochila utilizada e forma de transporte do material escolar. Os dados foram organizados e apresentados em valores médios, percentuais e totais, com auxílio do Excel. | O estudo avaliou 42 crianças do ensino fundamental (média de 9,8 anos) e identificou que a maioria praticava atividade física, usava mochilas de duas alças e as carregava corretamente. Cerca de 33% relataram dor nas costas, com impacto nas atividades diárias em alguns casos. Alterações posturais foram frequentes, como elevação dos ombros (52,4%), hiperlordose lombar (42,9%) e pé plano (33,3%). Apenas 33,3% apresentaram postura correta ao sentar na escola. Os resultados apontam para a necessidade de atenção à postura infantil desde cedo. |
| Sampaio et al. 2016 | Estudo transversal | O objetivo foi verificar as alterações posturais e dor no desempenho acadêmico de estudantes do ensino fundamental. | Realizado com 83 crianças e adolescentes de 8 a 12 anos, matriculados do 3º ao 5º ano do ensino fundamental na EMEIF Paulo Sarasate, em Fortaleza-CE. O objetivo foi avaliar alterações posturais e seu impacto no desempenho escolar. Foram excluídos alunos com distúrbios neurológicos, alterações congênitas não escolióticas, dificuldades de comunicação ou que não conseguiam ficar em pé. A avaliação postural seguiu o método Global Postural Reeducation (GPR), analisando a postura em diferentes posições para identificar desvios como cifose, lordose, retificação e escoliose. Os participantes foram divididos em dois grupos: Grupo A, com alterações posturais (48 alunos), e Grupo B, sem alterações (35 alunos). Além da avaliação postural, professores responderam a um questionário semiestruturado sobre o desempenho escolar dos alunos, abordando participação, frequência, comportamento e rendimento acadêmico. | No estudo, 57,8% dos alunos apresentaram alterações posturais, principalmente na cadeia anterior, distribuídas do 3º ao 5º ano. Mais da metade dos estudantes em todas as séries teve alterações posturais ou queixas de dor relacionadas ao desempenho escolar. A análise estatística não mostrou diferença significativa no desempenho acadêmico entre os alunos com e sem alterações posturais em geral e em cada série separadamente. No entanto, no 5º ano, os alunos com alterações posturais apresentaram melhor comportamento e desempenho escolar. A dor esteve significativamente associada às alterações posturais em todas as séries, sendo mais prevalente entre os alunos do 4º ano. |
| Martins-Costa et al. 2015 | Estudo transversal | O objetivo do presente estudo foi mensurar a flexibilidade de crianças e adolescentes de ambos os sexos (7 aos 15 anos de idade), utilizando o teste de Sentar-e-Alcançar (TSA) e outro teste (Banco para a Avaliação da Flexibilidade – BAFLEX) que possibilite controlar as influências das características antropométricas individuais. | Avaliou a flexibilidade de 250 estudantes (125 meninos e 125 meninas) do ensino fundamental de uma escola municipal da região metropolitana de Belo Horizonte. Os participantes foram divididos por sexo e faixa etária (7, 9, 11, 13 e 15 anos), com 25 alunos em cada subgrupo. Cada voluntário realizou dois testes de flexibilidade: o Teste de Sentar-e-Alcançar (TSA) e o BAFLEX. Foram feitas três tentativas em cada teste, sendo a primeira para familiarização e a média das duas últimas utilizadas na análise. Os testes foram aplicados por avaliadores treinados, com revezamento equilibrado entre as faixas etárias e sexos. | A Tabela 1 mostrou que, conforme a idade aumentava, houve crescimento progressivo da massa corporal e estatura nos dois sexos. A análise da flexibilidade pelo Teste de Sentar-e-Alcançar (TSA) revelou diferenças significativas relacionadas à idade, mas não ao sexo ou à interação entre ambos. Crianças de 7 anos apresentaram maior flexibilidade comparada às de 11, 13 e 15 anos. Aos 9 anos, o desempenho também foi superior ao dos participantes de 13 anos, indicando uma redução da flexibilidade com o avanço da idade nesse teste. No teste BAFLEX, os resultados foram diferentes: observaram-se efeitos significativos tanto para idade quanto para sexo, além da interação entre eles. Ao contrário do TSA, houve melhora da flexibilidade com o passar da idade, especialmente entre os adolescentes. Meninos de 15 anos tiveram melhor desempenho do que seus pares mais jovens (7, 11 e 13 anos). Entre as meninas, aquelas com 15 anos superaram as de 7, 9 e 11 anos, e as de 13 anos também tiveram melhor desempenho que as de 7 anos, sugerindo que a flexibilidade feminina tende a melhorar mais cedo que a masculina. Além disso, as meninas de 13 anos mostraram maior flexibilidade do que os meninos da mesma idade. Esses achados indicam que a evolução da flexibilidade depende do tipo de teste aplicado e apresenta diferenças marcantes entre faixas etárias e entre os sexos, especialmente na adolescência. |
A análise integrada dos estudos apresentados na Tabela 1 demonstra que, no conjunto das pesquisas revisadas, foram avaliados aproximadamente 1.154 crianças e adolescentes em idade escolar, abrangendo faixas etárias entre 5 e 15 anos, com média predominante entre 9 e 13 anos. As amostras contemplaram estudantes de instituições públicas e privadas de diferentes regiões do Brasil, o que reforça a abrangência nacional e a relevância científica da temática voltada às alterações musculoesqueléticas em escolares.
Entre os principais instrumentos e métodos utilizados para avaliação postural, destacaram-se a fotogrametria digital, o uso de simetrógrafos, o fio de prumo e os testes clínicos Equilíbrio Pélvico Frontal (EFP) e Teste de Adams, além de balanças analógicas e digitais para aferição de peso corporal e das mochilas. Foram também empregados questionários estruturados sobre hábitos posturais e sintomas musculoesqueléticos, como o Questionário Nórdico de Sintomas Osteomusculares (QNSO) e a Escala Visual Analógica de Dor (EVA). Nos estudos que avaliaram a flexibilidade, destacaram-se o Teste de Sentar e Alcançar (TSA) e o Banco para Avaliação da Flexibilidade (BAFLEX), ambos aplicados de forma padronizada por avaliadores treinados.
Em relação às principais alterações posturais identificadas, observou-se alta prevalência de desvios nos diferentes segmentos corporais. A assimetria de quadril foi uma das alterações mais recorrentes, atingindo 91,9% dos escolares avaliados (Costa et al., 2015), seguida pela assimetria de ombros, com incidência de 83,9% (Cerdeira et al., 2018; Costa et al., 2015). A anteriorização da cabeça apresentou índices igualmente expressivos, variando entre 33,3% e 87,8% conforme o grupo estudado (Menezes et al., 2018; Cerdeira et al., 2018). Já o desequilíbrio pélvico, representado por anteroversão ou retroversão da pelve, foi identificado em 90% das crianças e adolescentes analisados (Cerdeira et al., 2018), indicando comprometimento acentuado da estabilidade corporal.
Além dessas alterações, a hiperlordose lombar esteve presente em 42,9% dos participantes (Menezes et al., 2018; Costa et al., 2015), enquanto a hipercifose torácica foi verificada em 52,5% da amostra total (Cerdeira et al., 2018). Sinais precoces de escoliose foram detectados em 26,3% das crianças pré-escolares (Vieira et al., 2015), com curvaturas em “C” predominantes na região tóraco-lombar. Outras observações relevantes incluíram alterações escapulares em 55% dos casos e elevação unilateral de ombro em 95% dos estudantes analisados em determinadas amostras (Cerdeira et al., 2018).
A presença de dor musculoesquelética foi outro achado recorrente, relatada por 69,4% dos escolares em diferentes estudos (Costa et al., 2015), com predominância de desconfortos nas regiões dos ombros, parte superior e inferior das costas. Em relação à flexibilidade, verificou-se uma tendência à redução dos níveis conforme o avanço da idade, especialmente entre os meninos, embora o teste BAFLEX tenha evidenciado melhora progressiva entre adolescentes de ambos os sexos (Martins-Costa et al., 2015).
A média de idade das amostras variou de acordo com o nível de ensino avaliado: entre 5 e 6 anos, as crianças já apresentavam sinais iniciais de escoliose e assimetrias pélvicas (Vieira et al., 2015); entre 8 e 12 anos, predominaram alterações como cifose, hiperlordose e queixas de dor (Sampaio et al., 2016); e, entre 11 e 15 anos, foram observadas maiores taxas de desequilíbrio pélvico, anteriorização da cabeça e hipercifose (Cerdeira et al., 2018; Resende et al., 2023).
De modo geral, os resultados compilados indicam que as alterações musculoesqueléticas em escolares possuem natureza multifatorial, sendo influenciadas por hábitos inadequados de transporte de mochilas, tempo prolongado em postura sentada, fatores ambientais e comportamentais e características do desenvolvimento físico. Esses achados reforçam a importância de ações fisioterapêuticas precoces, da educação postural continuada e da inserção de programas de prevenção em ambiente escolar, com o objetivo de minimizar os impactos das disfunções musculoesqueléticas e promover uma melhor qualidade de vida durante o crescimento
4 DISCUSSÃO
Os estudos analisam a relação entre peso e uso das mochilas, alterações posturais (como assimetria de quadril e anteriorização da cabeça) e fatores de crescimento e hábitos posturais. Em conjunto, os artigos reforçam a necessidade de educação postural nas escolas, redução do peso das mochilas e orientações sobre o modo correto de transporte para prevenir desequilíbrios musculoesqueléticos.
Foram constatadas convergências entre diversos autores quanto à relação entre o peso das mochilas escolares e a ocorrência de alterações posturais em crianças e adolescentes. Rezende et al. (2023) apontam não haver associação significativa entre o peso da mochila e alterações posturais em escolares.
Em contrapartida, Menezes et al. (2018) destacam que a redução do peso das mochilas contribui para a prevenção de problemas na coluna vertebral e favorece a manutenção da simetria dos ombros. Corroborando essa perspectiva, Costa et al. (2015) observaram que o aumento do peso da mochila está associado a maior frequência de assimetrias no quadril, além de estar relacionado ao surgimento de alterações musculoesqueléticas.
Assim, enquanto Rezende et al. (2023) não encontrou relevância direta entre o peso da mochila e a ocorrência de alterações posturais, Menezes et al. (2018) e Costa et al. (2015) ressaltam a importância do controle desse peso e da forma de transporte como fatores de prevenção de desequilíbrios musculoesqueléticos.
Outro ponto amplamente relatado nos artigos analisados refere-se à assimetria de quadril, evidenciada em quatro dos dez trabalhos selecionados. Vieira et al. (2015) observaram que esse tipo de alteração se manifesta com maior prevalência durante fases de crescimento acelerado. Cerdeira et al. (2018) constataram que as principais alterações foram a anteroversão e a retroversão pélvica, representando 90% dos casos. Rezende et al. (2023) também enfatizam essas alterações, destacando ainda que modificações nos pés e no pescoço apresentaram escores médios abaixo de 7. Já Costa et al. (2015) relataram alta prevalência de assimetria no quadril (91,9%), sendo a hiperlordose lombar a alteração mais recorrente, com 41,9% dos casos.
Com relação ao modo de uso das mochilas, apenas três artigos trouxeram dados relevantes. Menezes et al. (2018) observaram que 88,1% de sua amostra-se utilizavam mochilas de duas alças, mas apenas 78,9% faziam o uso correto, apoiando-as simultaneamente nas costas. De forma semelhante, Costa et al. (2015) relataram que, embora a maioria dos estudantes carregasse a mochila de maneira bilateral, 41,9% ainda a transportavam em apenas um ombro. Esse achado indica que, mesmo quando a mochila é utilizada de forma bilateral, a maioria dos estudantes apresenta algum tipo de assimetria postural, principalmente no quadril e nos ombros.
A assimetria de ombros foi discutida apenas por Cerdeira et al. (2018), que não relacionaram a alteração ao uso unilateral da mochila, como fizeram Menezes et al. (2018) e Costa et al. (2015). Outra alteração frequentemente relatada foi a anteriorização da cabeça, citada em quatro dos oito artigos revisados. Sampaio et al. (2016) identificaram prevalência de 55% em estudantes do quarto ano, resultado superior ao de Menezes et al. (2018), que verificaram apenas 33,3%. Já Cerdeira et al. (2018) apontaram índices ainda mais elevados, com prevalência de 87,8% em sua amostra.
Martins Costa et al. (2015) acrescentam que o crescimento muscular mais lento em relação ao ósseo pode estar associado à diminuição da flexibilidade, contribuindo para modificações posturais. Por fim, Vieira et al. (2015) destacam a importância da conscientização sobre hábitos posturais, ressaltando que orientações precoces podem favorecer a prevenção ou retardar o aparecimento de problemas relacionados à postura, coluna vertebral e funções musculoesqueléticas.
As limitações deste estudo incluem a heterogeneidade das amostras e dos métodos utilizados, além da falta de longitudinalidade em muitos dos estudos, o que dificulta a compreensão da evolução das alterações posturais ao longo do tempo. No entanto, os resultados têm implicações importantes para a prática clínica de fisioterapia em escolares do ensino fundamental e médio, destacando a necessidade de avaliação postural regular, educação postural continuada e inserção de programas de prevenção em ambiente escolar para reduzir a incidência de alterações posturais, como assimetria de quadril, anteriorização da cabeça e hipercifose torácica. Portanto, é recomendável que os fisioterapeutas realizem avaliações posturais regulares, eduquem os escolares sobre hábitos posturais adequados, desenvolvam programas de prevenção e trabalhem em equipe com professores, pais e outros profissionais de saúde para promover a saúde e o bem-estar dos escolares, minimizando assim os impactos das disfunções musculoesqueléticas e promovendo uma melhor qualidade de vida durante o crescimento.
5 CONCLUSÃO
Apesar dos diversos estudos publicados ao longo dos anos, ainda não existem evidências científicas suficientes que comprovem de maneira definitiva que as alterações posturais em escolares são causadas exclusivamente pela relação entre o peso corporal e o peso das mochilas. Os resultados obtidos indicam que esse fator pode contribuir para o surgimento de assimetrias e desconfortos musculoesqueléticos; entretanto, não deve ser considerado isoladamente.
Outros aspectos também exercem influência significativa sobre a postura das crianças e adolescentes, entre eles fatores genéticos, ambientais, hábitos cotidianos e até mesmo as mudanças naturais decorrentes do crescimento e desenvolvimento físico, especialmente nas fases de estirão. Dessa forma, entende-se que o peso da mochila é apenas um dos diversos elementos que, em conjunto, podem impactar a saúde musculoesquelética.
Diante desse cenário, evidencia-se a relevância da fisioterapia como ciência e prática profissional indispensável na promoção da saúde postural. O fisioterapeuta desempenha papel fundamental tanto na prevenção quanto na identificação precoce de alterações musculoesqueléticas, por meio de avaliações posturais, orientações sobre ergonomia e incentivo ao uso adequado das mochilas escolares. Além disso, atua no desenvolvimento do conhecimento proprioceptivo e postural das crianças, auxiliando na adoção de práticas corretas desde a infância, o que pode reduzir significativamente o risco de sobrecargas na coluna vertebral e em outras estruturas corporais.
Nesse contexto, a fisioterapia também contribui para a elaboração de estratégias educativas em ambientes escolares e familiares, oferecendo suporte para a construção de hábitos saudáveis e para a conscientização sobre a importância do cuidado com o corpo. A orientação sistemática, aliada ao acompanhamento profissional quando necessário, apresentase como uma base sólida e essencial não apenas para a prevenção de dores e disfunções, mas também para a formação de indivíduos mais conscientes e responsáveis em relação à própria saúde.
Portanto, este estudo reforça a necessidade de integrar a fisioterapia como parte das ações de promoção da saúde no âmbito escolar, considerando-a não apenas uma área de reabilitação, mas sobretudo uma ciência preventiva e educativa, capaz de minimizar riscos e favorecer o bem-estar postural ao longo da vida.
REFERÊNCIAS
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¹Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE.
²Doutorado em Reabilitação e Desempenho Funcional, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara. Endereço: Av. Joaquim Nabuco, 1365, Centro | Manaus | AM | CEP: 69020-030 | (92) 3212-5000.
