ALTERAÇÃO DA TIPAGEM SANGUÍNEA ABO EM PACIENTES COM LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510162131


André Luís Braghini Sá1
Paulo César Naoum2


RESUMO 

A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica agressiva que se caracteriza pelo aumento de células mieloides na medula óssea, denominadas blastos, comprometendo a produção de células sanguíneas normais, o que pode resultar em insuficiência hematopoiética. O sistema ABO é um grupo classificador de tipos sanguíneos com base na presença de antígenos nas células eritrocitárias do sangue, sendo geralmente estável ao longo da vida. Entretanto, os pacientes com LMA podem sofrer alterações transitórias no tipo sanguíneo ABO, devido a mecanismos diversos, como alterações na expressão de enzimas glicosiltransferases, modificações epigenéticas ou pela interferência direta das células leucêmicas da linhagem eritroide. O presente trabalho aborda a relação entre a leucemia mieloide aguda e alterações no sistema ABO, incluindo os possíveis mecanismos biológicos e as implicações clínicas. Os resultados obtidos indicam que a alteração temporária do tipo sanguíneo em pacientes com LMA ocorre devido à inativação das glicosiltransferases A e B, resultando na perda desses antígenos e aumento do antígeno H. Essa modificação está associada a alterações no ambiente hematopoiético e pode ser reversível após remissão da doença. 

Palavras-chave: ABO; Leucemia. 

ABSTRACT 

Acute myeloid leukemia (AML) is an aggressive hematologic neoplasm characterized by an increase in myeloid cells in the bone marrow, called blasts, compromising the production of normal blood cells, which can result in hematopoietic failure. The ABO system is a blood type classification group based on the presence of antigens on red blood cells and is generally stable throughout life. However, patients with AML may experience transient changes in their ABO blood type due to various mechanisms, such as changes in the expression of glycosyltransferase enzymes, epigenetic modifications, or direct interference from leukemic cells of the erythroid lineage. This paper addresses the relationship between acute myeloid leukemia and changes in the ABO system, including possible biological mechanisms and clinical implications. The results indicate that the temporary blood type change in AML patients occurs due to the inactivation of glycosyltransferases A and B, resulting in the loss of these antigens and an increase in the H antigen. This change is associated with changes in the hematopoietic environment and may be reversible after disease remission. 

Keywords: ABO, Leukemia;. 

INTRODUÇÃO 

A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma neoplasia hematológica agressiva, caracterizada pelo aumento do número de células mieloides na medula óssea, denominadas blastos, o que pode resultar em insuficiência hematopoiética, causando assim, granulocitopenia, trombocitopenia ou anemia, com ou sem leucocitose (MOSTAFAVI, Ebrahim et al). 

O sistema ABO classifica os tipos sanguíneos com base na presença de antígenos específicos nas células eritrocitárias do sangue e geralmente se mantém estável ao longo da vida de um indivíduo (DE ARRUDA et al.,2015). O sistema ABO é fundamental para as transfusões sanguíneas, e seus antígenos estão presentes na superfície das hemácias e em outras células e fluidos, que influenciam a suscetibilidade a diversas doenças. Na leucemia mieloide aguda (LMA), o tipo sanguíneo ABO pode temporariamente mudar e retornar ao tipo original após a remissão, configurando uma alteração passageira (ELZEIN, 2024). 

A alteração de tipagem ABO na LMA pode ocorrer devido a diversos mecanismos, incluindo modificações epigenéticas, alterações na expressão de enzimas glicosiltransferases ou pela interferência direta das células leucêmicas da linhagem eritroide da medula óssea. Estudos apontam que essas alterações não são meramente acidentais, mas podem refletir adaptações complexas do sistema imunológico ou respostas da própria célula leucêmica ao ambiente tumoral (HARMENING, 2019). 

Diante disso, o presente trabalho busca explorar a relação entre a leucemia mieloide aguda e a mudança de tipagem ABO, revisando a literatura existente sobre o tema, investigando os possíveis mecanismos imunológicos envolvidos e analisando as implicações clínicas dessas alterações no contexto de cuidados e tratamentos de pacientes com LMA. 

METODOLOGIA 

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa bibliográfica do tipo revisão de literatura. O problema central desta revisão consiste na alteração da tipagem sanguínea ABO em pacientes com leucemia mieloide aguda, incluindo os possíveis mecanismos biológicos e as implicações clínicas. Para localizar os estudos mais relevantes, foi realizada uma busca sistemática em plataformas científicas, tais como: PubMed, SciELO e Google Scholar. Para a seleção dos materiais a serem utilizados foi determinado um período de quatorze anos (2010 a 2024), considerando a relevância e atualidade do tema. 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 

1. LEUCEMIA 

A medula óssea é o local onde são produzidas as células do tecido sanguíneo, sendo elas os leucócitos, eritrócitos e as plaquetas. A leucemia é uma neoplasia hematológica e ocorre devido a alterações genéticas nas células-tronco hematopoiéticas da medula óssea. Quando essas células sofrem alterações fisiológicas, ocorre uma produção desordenada de blastos, que ocupa os espaços onde células saudáveis deveriam estar sendo produzidas. Com o aumento das células leucêmicas na corrente sanguínea, essas células anormais podem se acumular em diferentes órgãos, como o baço e os linfonodos, causando dor. Pelo fato das células anormais não desenvolverem suas funções específicas, o sistema imunológico do indivíduo fica comprometido, o que acarreta o aumento do risco de infecção (DAVIS, et al, 2014). 

De acordo com o Institute Nacional do Cancer (INCA, 2018), as classificações leucemias levam em consideração alguns aspectos celulares, sendo eles características imunofenotípicas, morfológicas, moleculares, citogenéticas e clínicas.  

A leucemia mieloide aguda (LMA) apresenta manifestações clínicas que baseiam-se no acúmulo de células mieloides anómalas na medula óssea, no sangue periférico e a depender do caso em alguns órgãos. Na maioria das vezes, os pacientes apresentam anemia e trombocitopenia, que são manifestações de insuficiência medular, muitas vezes associadas a leucocitose. As queixas mais comuns entre os pacientes leucêmicos são o cansaço e a perda de peso (ABDUL-HAY, 2016). 

Não existe uma causa definida para a LMA, mas considera-se fatores ambientais, sociais, tabagismo, radiação e quimioterapias anteriores. É uma doença que acomete predominantemente pacientes do gênero masculino, acima de 60 anos (ABREU, et al, 2021). A doença é diagnosticada por exames laboratoriais como o hemograma, no qual haverá leucocitose, plaquetopenia e eritropenia. Além desses, exames bioquímicos e o coagulograma também sofrem alterações. Entretanto, para confirmar o diagnóstico da doença, deve-se fazer o mielograma (ABREU, et al, 2021). 

2. TIPAGEM SANGUÍNEA 

A classificação sanguínea ABO convencional é representada por quatro grupos principais, sendo eles: A, B, AB e O. A classificação é baseada na ausência ou presença de antígenos específicos na superfície das hemácias. Esses antígenos são denominados Antígeno A e Antígeno B, e a classificação sanguínea ABO, sendo eles: tipo A, que possui antígeno A, o tipo B que possui antígeno B, tipo AB que possui ambos antígenos e o tipo O que não possui antígenos (DE ARRUDA, et al, 2015). Além dos antígenos para o sistema ABO, o indivíduo apresenta aglutininas, que são os anticorpos presentes no plasma sanguíneo. O tipo A apresenta aglutinina anti-B, o tipo B possui aglutinina anti-A, o AB não possui aglutininas, o tipo O apresenta aglutininas anti-A e anti-B (BARROSO; LIMA; PINHEIRO, 2020). 

O sistema de grupos sanguíneos ABO consiste em fenótipos que são determinados por genes localizados no locus ABO do cromossomo 9 (braço maior, região 34.2). Esse sistema é identificado pela presença de dois carboidratos que estão na membrana dos eritrócitos e em diversos outros tecidos, além de dois anticorpos plasmáticos (anti-A e anti-B) que surgem após o nascimento. A formação desses antígenos é regulada por glicosiltransferases específicas. Os genes A e B produzem glicosiltransferases ativas que transformam o precursor do antígeno H em antígenos A ou B. Por outro lado, o gene O resulta em uma glicosiltransferase anômala que não consegue modificar o antígeno H.  

A síntese do antígeno H nos eritrócitos, por sua vez, é controlada por uma α-2-Lfucosiltransferase que é codificada pelo gene H (FUT-1), localizado no cromossomo 19 (19q, região 13.3), a partir do precursor oligossacarídico tipo 2 (Galb14GluNAc). Em pessoas que apresentam o fenótipo secretor, ou seja, indivíduos que têm a capacidade de secretar antígenos do sistema de grupos sanguíneos ABO em seus fluidos corporais, o gene (FUT-2) é um gene específico, e está envolvido na codificação de uma fucosiltransferase α2-L semelhante, que tem a habilidade de produzir o antígeno H a partir do precursor do oligossacarídeo tipo 1 (Galb13GluNAc) em diferentes tecidos (ORIO R, 1995) (KOMINATO, et al, 2020). 

A heterogeneidade dos antígenos se dá pelas diferenças dos genes responsáveis pela   produção das enzimas: glicosiltransferases, 1R3-N-acetil-galactosamina transferase e 1R3-N-galactosil transferase. Elas são responsáveis pela transferência dos açúcares ao substrato H e sua conversão em antígenos A e B (BATISSOCO, et al, 2003). 

As glicosiltransferases catalisam a ação de glicosilação do substrato H, enquanto as transferases A e B são parecidas estruturalmente e a diferença na formação dos antígenos a partir delas dependerá dos aminoácidos presentes no sítio ativo no momento da ligação com o açúcar (BATISSOCO, et al, 2003). 

3. ALTERAÇÃO DA TIPAGEM SANGUÍNEA ABO NA LEUCEMIA MIELÓIDE AGUDA 

Estudos científicos demonstraram que os antígenos celulares influenciam diretamente a suscetibilidade a diversas doenças. No caso da leucemia, os antígenos exercem uma função relevante na evolução e no prognóstico da enfermidade, mas ainda estão sendo investigadas as implicações e as relações entre a leucemia e a distribuição do sistema ABO, assim como as suas discrepâncias. Em situações excepcionais como na LMA, o grupo sanguíneo ABO pode se modificar para um outro tipo e ainda pode voltar ao seu grupo original depois que a doença entra em remissão, caracterizando-se como uma alteração passageira (ELZEIN, 2024). 

Os antígenos da superfície dos eritrócitos são produtos hereditários e por isso são constantes ao longo da vida. Porém na leucemia mieloide aguda, pode-se observar uma mutação que afeta suas células-tronco produtoras, resultando em perda temporária, em especial no sistema ABO, o que pode gerar inconsistências na fenotipagem.  

Na LMA, as alterações no tipo sanguíneo do sistema ABO podem ocorrer devido a dois principais mecanismos. O primeiro é a inativação das transferases A e B, diminuindo a expressão desses antígenos enquanto aumenta do antígeno H. lsso se deve a este último não ser convertido nos anteriores pelas enzimas, que são inativadas por meio de uma translocação cromossómica. O segundo é a inativação da H transferase, resultando na diminuição da substância H (NAMBIAR, et al, 2017). Uma justificativa coerente para esse fenômeno é a hipermetilação do DNA no promotor ABO, que leva à perda da expressão do alelo ABO em indivíduos com leucemia (BIANCO-MIOTTO T, 2009) (KROSTEIN – WIEDEMANN, 2020). Isso ocorre porque o gene ABO está situado na banda cromossômica 9q34; o gene H (FUT1), em contraste, está localizado na banda cromossômica 19q13. Na leucemia mieloide, há uma deleção recorrente da região 9q23-31, que em alguns casos pode se estender para 9q34 e causar diminuição da expressão, eventualmente seguida por uma alteração no grupo sanguíneo (ELZEIN, 2024). 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Em conclusão, a alteração da tipagem sanguínea em pacientes com leucemia mieloide aguda (LMA) é um fenômeno importante, refletindo as interações entre a doença e a expressão dos antígenos do sistema ABO. Em indivíduos com LMA, a modificação temporária do tipo sanguíneo ocorre principalmente devido a inativação das glicosiltransferases A e B, responsáveis pela síntese dos antígenos A e B nos eritrócitos. Esse processo resulta em uma diminuição ou perda desses antígenos, acompanhada por um aumento na expressão do antígeno H, devido a inatividade da H transferase, que impede a conversão deste antígeno nos antígenos A e B (ORIO R, 1995) (KOMINATO, et al, 2020). 

A origem dessa alteração está ligada a alterações no ambiente hematopoiético, com destaque para a translocação cromossômica que afeta as enzimas glicosiltransferases e processos epigenéticos. Essas mudanças fenotípicas são frequentemente reversíveis, podendo o tipo sanguíneo retornar ao seu padrão original após a remissão da doença, configurando uma alteração passageira. O estudo dessas modificações fenotípicas na LMA deve receber atenção especial, pois elas têm impacto direto em processos críticos do tratamento, como as transfusões sanguíneas, que dependem da compatibilidade sanguínea. Alterações no tipo sanguíneo podem aumentar o risco de reações imunológicas adversas e complicar o manejo do paciente (BIANCOMIOTTO, 2009) (KROSTEIN – WIEDEMANN, 2020).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ABDUL-HAY, M. Acute myeloid leukemia: a comprehensive review and 2016 update. Blood cancer journal, v. 6, n. 7, p. e441-e441, 2016. 

ABREU, G. M.; DE SOUSA, S. C.; GOMES, E. V. Lymphoid and Myeloid Leukemia: A brief narrative review. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 8, p. 80666-80681, 13 ago. 2021. 

BARROSO, H. H.; LIMA, E. D.; PINHEIRO, M. L. P. Grupo sanguíneo e fator RH. PROEXC, 2020 p. 19. 

BIANCO-MIOTTO, T.; HUSSEY, D.J., DAY, T.K., O’KEEFE, O.S., DOBROVIC A. DNA methylation of the ABO promoter underlies loss of ABO allelic expression in a significant proportion of leukemic patients. PLoS One. 2009;4(3):e4788. 

DAVIS, A. S.; VIERA, A. J.; MEAD, M. D. Leucemia: uma visão geral para cuidados primários. American family physician, v. 89, n. 9, p. 731-738, 2014. 

DE ARRUDA, E. H. P. Compreensão sobre tipagem sanguínea entre os acadêmicos de farmácia de uma universidade de Tangara da Serra/MT. Revista Destaques Acadêmicos, v. 7, n. 3, 2015. 

ELZEIN, H. O. Association of Leukemia with ABO Blood Group Distribution and Discrepancy: A Review Article. Cureus, 24 mar. 2024. 

HARMENING, D. E. Modern Blood Banking & Transfusion Practices. Seventh ed. Philadelphia: F. A. Davis Company; 2019. 

INCA (INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER). Leucemia – versão para Profissionais de Saúde. Tipos de Leucemia. Ministério da Saúde, 2018. Disponível em: https://www.gov.br/inca/ptbr/assuntos/cancer/tipos/leucemia/versao-para-profissionais-de-saude. Acesso em 24 set. 2025. 

KOMINATO, Y. et al. Human ABO gene transcriptional regulation. Transfusion, v. 60, n. 4, p. 860, 2020. 

KRONSTEIN-WIEDEMANN, R., NOWAKOWSKA, P., MILANOV, P., GUBBE, K., SEIFRIED, E, BUGERT P. Regulation of ABO blood group antigen expression by miR331-3p and miR-1908-5p during hematopoietic stem cell differentiation. Stem Cells. 2020;38(10):1348-62. 

MOSTAFAVI, E.; ZAREPOUR, A.; BARABADI, H.; ZARRABI, A.; TRUONG, L. B.; MEDINA-CRUZ, D. Antineoplastic activity of biogenic silver and gold nanoparticles to combat leukemia: beginning a new era in cancer theragnostic. Biotechnology Reports, v. 34, p. e00714, 2022.


1Faculdade Una Pouso Alegre – Biomédico.
2Academia de Ciência e Tecnologia.