ALÉM DA PERDA DE PESO: ANABOLISMO CLÍNICO PARA REDUÇÃO DA PERDA DE MASSA MUSCULAR E FUNÇÃO FÍSICA EM PACIENTES SOB TRATAMENTO FARMACOLÓGICO PARA  OBESIDADE.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511182330


Lucas Caseri Câmara1


Resumo 

A rápida expansão de fármacos antiobesidade, como agonistas de GLP-1 e  coagonistas GIP/GLP-1, deslocou o foco do manejo de obesidade para perdas ponderais  expressivas. Em adultos mais velhos e indivíduos com baixa reserva de massa magra,  porém, a perda de peso frequentemente inclui redução de massa livre de gordura, piora  de força e desempenho, e possíveis custos ósseos, elementos centrais para autonomia e  qualidade de vida. Este artigo organiza um racional clínico-fisiopatológico para  complementar intervenções de emagrecimento com “anabolismo clínico” (uso  terapêutico, protocolado e monitorizado de esteroides anabólicos), sempre em  combinação com treinamento de força e nutrição proteico-energética adequada. A  proposta se apoia em evidências indiretas robustas de estados hipercatabólicos e do  fenótipo obesidade sarcopênica, nas quais agentes como oxandrolona e decanoato de  nandrolona demonstraram ganhos de massa magra e melhora funcional em regimes de  dose moderada e duração limitada. Especificam-se cenários potenciais (idosos em  farmacoterapia antiobesidade, obesidade sarcopênica estabelecida, perda desproporcional  de massa magra após intervenções mais agressivas), critérios de seleção, metas funcionais  e precauções para diferenciar uso médico legítimo de abuso supra fisiológico.  Reconhecem-se limitações (escassez de ECRs específicos em obesidade com  farmacoterapia conjunta; riscos androgênicos, metabólicos e cardiovasculares  dependentes de molécula/dose/tempo) e a necessidade de monitorização clínico laboratorial sistemática. Em síntese, proteger músculo, osso e função durante o  emagrecimento pode exigir estratégias combinadas nas quais o anabolismo clínico, em subgrupos bem selecionados, seja considerado adjuvante para otimizar a “qualidade” da  perda de peso. 

Palavras-chave: Obesidade; Sarcopenia; Esteroides Anabólicos; Perda de Peso;  Composição Corporal. 

Abstract: 

The rapid uptake of anti-obesity pharmacotherapies, such as GLP-1 receptor  agonists and GIP/GLP-1 co-agonists, has shifted obesity care toward substantial weight  reduction. In older adults and individuals with low lean-mass reserve, however, weight  loss often entails fat-free mass decline, strength and performance deterioration, and  potential skeletal costs, determinants of independence and quality of life. This article  articulates a clinical and pathophysiological rationale to complement weight-loss  interventions with “clinical anabolism” (therapeutic, protocolized, and monitored use of  anabolic steroids) alongside resistance training and adequate protein-energy nutrition.  The proposal builds on indirect yet consistent evidence from hypercatabolic states and  sarcopenic obesity, where agents such as oxandrolone and nandrolone decanoate have  increased lean mass and improved function when used at moderate doses for limited  durations. We delineate potential scenarios (older adults on anti-obesity drugs,  established sarcopenic obesity, disproportionate lean-mass loss after intensive  interventions), selection criteria, functional targets, and safeguards that clearly  differentiate legitimate medical use from supraphysiologic, unsupervised abuse. We  acknowledge key limitations (paucity of randomized trials specifically testing this adjunct  in modern obesity pharmacotherapy; androgenic, metabolic, hepatic, and cardiovascular  risks varying by molecule/dose/time) and emphasize structured clinical-laboratory  monitoring. In sum, protecting muscle, bone, and function during weight loss may require  combined strategies in which clinical anabolism, for carefully selected subgroups, is  considered as an adjuvant to optimize the “quality” of weight reduction. 

Keywords: Obesity; Sarcopenia; Anabolic Agents; Weight Loss; Body  Composition.

Introdução:  

O manejo da obesidade entrou numa nova era com o avanço de agonistas do  receptor de GLP-1 e agonistas duplos, como coagonistas GIP/GLP-1, capazes de induzir  perdas ponderais substanciais, mas os efeitos em idosos permanecem ainda pouco  estudados e essencialmente centrados em desfechos de composição corporal e função  física (1). Em adultos mais velhos, a perda de peso, seja intencional ou  farmacologicamente induzida, tende a incluir redução concomitante de massa magra, um  componente crítico para locomoção, capacidade funcional e saúde metabólica (1–3).  Além do músculo, perdas de densidade mineral óssea e maior risco de fraturas também  já foram descritos após emagrecimento em mulheres pós-menopausa, com aumento  relativo do risco observado em análises do Women’s Health Initiative, sugerindo que a  perda de peso pode ter um custo esquelético relevante em populações mais vulneráveis  (4). 

A noção de “qualidade” da perda de peso, entendida como reduzir gordura  preservando massa magra e capacidade funcional, demanda estratégias combinadas que  transcendam uma monoterapia farmacológica, integrando exercício estruturado, nutrição  proteico-energética adequada e agentes que possam estimular o anabolismo ou reduzir o  catabolismo muscular (1). O padrão assimétrico de reganho de peso, muito comum após  intervenções mais agressivas de emagrecimento, como por exemplo a recuperação de  massa magra inferior ao perdido e reganho desproporcional de massa de gordura, favorece  trajetória para a obesidade sarcopênica e pode impor potenciais custos funcionais  cumulativos, especialmente em uma população que envelhece (1,5,6). Em estudos de  coorte com acompanhamento da capacidade funcional, as dinâmicas dos ciclos de perda  e reganho de peso relacionaram-se à pior desempenho físico e maior vulnerabilidade,  sustentando que intervenções multimodais devem considerar não apenas “quanto” se  perde de peso, mas “como” se perde e se mantém o peso ao longo do tempo (5,6). 

Considerando a importância dessa perda de massa livre de gordura que  acompanha intervenções de emagrecimento, sobretudo quando a perda ponderal é mais  acentuada, a necessidade de um enquadramento terapêutico que una estratégias  antiobesidade com suporte anabólico parece logicamente consistente para proteger os  alvos musculoesqueléticos sob risco (1–3,6,11). A literatura científica sobre esteroides  anabólicos androgênicos (EAA) em estados catabólicos oferece provas de conceito robustas, como por exemplo a oxandrolona, que mostrou eficácia e perfil de segurança  adequado em diversos contextos de depleção tecidual, com ganhos de massa magra e  melhora funcional quando corretamente indicada e monitorizada (7,12,13). Compilados  científicos e diversos ensaios clínicos em doenças crônicas catabólicas corroboram esse  racional (14,15). Em doença pulmonar obstrutiva crônica, um estudo randomizado relatou  melhora de composição corporal e qualidade de vida com esteroides anabólicos como  adjuvantes, enquanto, em grandes queimados, a nandrolona decanoato, em regime  controlado, atenuou o hipercatabolismo e favoreceu desfechos clínicos sem novos sinais  relevantes de insegurança (8,9). Em conjunto, esses dados sugerem que, no contexto do  emagrecimento, o anabolismo farmacológico terapêutico possa ser explorado como  potencial estratégia auxiliar para preservar massa e função musculares em indivíduos com  maior risco de sarcopenia, sem renunciar ao núcleo do tratamento da obesidade (1–3,7– 9,11). 

A seleção de candidatos ao tratamento, fármacos e esquemas posológicos,  contudo, devem priorizar perfis fisiopatológicos e metas funcionais claras, com  preferência por agentes anabólicos que maximizem anabolismo e minimizem eventos  adversos (7–11, 14,15). A experiência acumulada indica que EAA como a oxandrolona,  oximetolona, decanoato de nandrolona estão mais alinhados com este perfil, dado a serem  menos androgênicas e mais anabólicas comparativamente a testosterona (7,10,11,16),  muito embora mantenham a necessidade de acompanhamento e controle clínico  laboratorial de potenciais efeitos colaterais androgênicos e metabólicos. Em cenários de  obesidade sarcopênica, a proposta de revisitar anabólicos como adjuvantes visa  especificamente mitigar dinapenia e perda de desempenho, articulando ganhos de massa  magra com resultados clinicamente significativos em função física, autonomia e  qualidade de vida (2,6,11). Nesse contexto, a distinção conceitual entre reposição, uso  terapêutico e abuso deve orientar tanto a elegibilidade quanto a comunicação científica,  minimizando estigma e viés interpretativo e reforçando que se trata de uso médico  legítimo, com objetivos e limites bem definidos, como dose e duração do processo  terapêutico de anabolismo clínico (7,10,11). 

Assim, a presente proposta de raciocínio clínico se apoia em evidências indiretas  provenientes de estados catabólicos e de obesidade sarcopênica para sugerir que cursos  curtos e bem monitorizados de EAA, em combinação com farmacoterapia antiobesidade, exercício e nutrição, podem ajudar a preservar massa e função musculares em subgrupos  de maior vulnerabilidade (1–3,7–11, 17). Populações prioritárias incluem idosos com  risco de sarcopenia, indivíduos com perda desproporcional de massa magra durante o  emagrecimento e pacientes já com fenótipo de obesidade sarcopênica, nos quais  desfechos de composição corporal, força muscular e desempenho funcional assumem  papel central ao lado da segurança clínico-laboratorial (1–3,6,11,17). Este artigo de  opinião não pretende oferecer recomendações prescritivas, mas organizar o racional  fisiopatológico e clínico, bem como possíveis cenários de aplicação, para discutir se e  como o anabolismo clínico pode ter lugar assertivo no cuidado contemporâneo da  obesidade (1–3,7–11). 

Por fim, ainda nesse contexto, compreender os mecanismos pelos quais o  emagrecimento influencia a massa muscular, e de que forma o anabolismo clínico poderia  atuar contrapondo efeitos indesejados, assim como a sarcopenia e a dinapenia, é  fundamental para avaliar a possibilidade de utilização desta estratégia como potencial  adjuvante terapêutico, a ser considerada em subgrupos específicos de pacientes com  obesidade (1–3,6,7–11). 

Racional fisiopatológico e clínico 

A coexistência de excesso de tecido adiposo e redução de massa muscular define  um fenótipo de maior vulnerabilidade clínica, associado a pior desempenho físico, maior  risco de incapacidade e maior mortalidade em idosos (2,6,11). A obesidade sarcopênica  representa precisamente essa interseção, combinando aumento de gordura,  frequentemente visceral, com depleção de massa magra e força muscular, o que reduz a  reserva funcional e limita a capacidade de resposta a estressores metabólicos e  inflamatórios (2,6,11). Revisões sistemáticas mostram que intervenções de perda de peso  baseadas em restrição calórica, embora eficazes para reduzir gordura e melhorar  desfechos cardiometabólicos, são acompanhadas de perda relevante de massa livre de  gordura, enquanto a adição de treinamento de força a atenua, mas não elimina  completamente esse efeito em indivíduos de meia-idade e idosos (3,11,17,18). Em  pacientes que já partem de um déficit de massa muscular ou de um fenótipo de obesidade  sarcopênica, a indução de emagrecimento sem uma estratégia explícita de proteção do  tecido magro tende a aprofundar o comprometimento da reserva musculoesquelética e a  acentuar o risco de fragilidade e eventos adversos (1–3,6,11,17).

Do ponto de vista fisiopatológico, a perda de peso em pessoas com obesidade  costuma evoluir em um ambiente de inflamação crônica de baixo grau, resistência  anabólica ao consumo de proteína e ao exercício físico e, alterações hormonais que  incluem padrões desfavoráveis para a manutenção de massa muscular, fenômenos  descritos nas interfaces entre obesidade, envelhecimento e sarcopenia (2,3,11). Quando  se associa a esse contexto uma restrição energética mais intensa ou prolongada, como em  programas estruturados de emagrecimento ou com o uso de terapias farmacológicas  potentes, o estado catabólico é amplificado, favorecendo a mobilização de proteína  muscular como substrato energético e acelerando o declínio de massa e força muscular  (1,3,11). Em estados clínicos de hipercatabolismo, como doenças consumptivas, doença  pulmonar obstrutiva crônica ou grandes queimaduras, a introdução de esteroides  anabólicos em regime terapêutico demonstrou capacidade de atenuar o balanço  nitrogenado negativo, aumentar massa magra e melhorar desfechos funcionais, indicando  que o músculo permanece responsivo quando se combinam estímulos adequados e  suporte farmacológico dirigido (7–9,11-15). 

Nesse cenário, emerge o conceito de anabolismo clínico como complemento  racional às intervenções antiobesidade em subgrupos selecionados. Modelos de uso  terapêutico de testosterona e outros esteroides anabólicos em contextos de catabolismo,  dinapenia ou obesidade sarcopênica sugerem que é possível empregar essas drogas de  forma protocolada, com dose moderada, duração limitada e monitorização sistemática,  distinguindo claramente essa prática médica legítima do abuso recreativo em doses muito  acima das faixas terapêuticas (7–11,14,15). Aplicada ao emagrecimento  farmacologicamente induzido, especialmente em idosos, em pessoas com perda  desproporcional de massa magra ou em fenótipo de obesidade sarcopênica, essa lógica  sustenta a hipótese de que combinações entre farmacoterapia antiobesidade, exercício  estruturado (preferencialmente o treinamento de força), suporte nutricional e esteroides  anabólicos em regime terapêutico possam preservar músculo e função sem comprometer  os benefícios metabólicos do tratamento principal (1–3,7–11, 14,15, 17,18). 

Para sintetizar o conceito de “qualidade” da perda de peso e o possível lugar do  anabolismo clínico nesse contexto, o Quadro 1 contrasta intervenções focadas apenas em  quilogramas perdidos, especialmente monoterapias, com abordagens orientadas à  preservação de massa e função musculares.

Quadro 1. Modelo conceitual que contrasta intervenções de perda de peso focadas  apenas em quilogramas perdidos com abordagens centradas na qualidade da perda de  peso. No primeiro caminho, a restrição calórica e/ou a farmacoterapia antiobesidade  utilizadas de forma isolada podem reduzir gordura, mas também prejudicialmente  reduzem massa e função musculares, favorecendo a evolução para obesidade sarcopênica  em indivíduos vulneráveis. No segundo, a combinação de estratégias, incluindo exercício  de força, nutrição proteico-energética e, em subgrupos selecionados, anabolismo clínico  em regime terapêutico, busca reduzir gordura preservando massa e função musculares,  com foco na manutenção da autonomia e qualidade de vida.

A partir desse racional, o passo seguinte é identificar em quais situações clínicas  o anabolismo terapêutico poderia, em teoria, agregar proteção de massa e função  musculares durante o emagrecimento, sem descaracterizar o núcleo do tratamento  antiobesidade (1–3,6,7–11,14,15). 

Cenários clínicos para o uso terapêutico de esteroides anabólicos durante o  emagrecimento 

A discussão sobre o uso terapêutico de esteroides anabólicos no contexto do  emagrecimento deve partir de cenários clínicos bem delimitados, nos quais o benefício  potencial em preservação de massa e função musculares seja relevante e plausivelmente superior aos riscos (7–11). A literatura sobre obesidade sarcopênica e estados catabólicos  sugere que esse equilíbrio tende a ser mais favorável em indivíduos com maior  vulnerabilidade musculoesquelética, como idosos com baixa reserva de massa magra,  pacientes com fenótipo de obesidade sarcopênica e pessoas expostas a estresses  adicionais (por exemplo doenças crônicas) que acentuam o catabolismo proteico (2,3,6,7– 9,11, 14,15). Nesses contextos, o anabolismo clínico, quando indicado de modo  protocolado e monitorizado, não é uma estratégia cosmética, mas uma intervenção  morfológica e funcional dirigida a atenuar a potencial perda de massa muscular e óssea,  preservar ou recuperar desempenho físico, manter a autonomia e qualidade de vida (7–11). 

Um primeiro cenário inclui idosos com obesidade que iniciam terapias  farmacológicas antiobesidade e apresentam risco elevado de sarcopenia, seja por baixa  massa magra basal, seja por trajetória prévia de perda de peso acentuado com  comprometimento funcional (1–3,6,11). Nessa população, as perdas de massa livre de  gordura associadas à restrição energética e ao tratamento farmacológico podem traduzir se em redução de força, piora no desempenho em testes funcionais e maior risco de quedas  e fraturas, especialmente em mulheres pós-menopausa (1–5,11,14,15, 20). A hipótese é  que um curso curto e bem monitorizado de esteroide anabólico, associado ao treinamento de força e suporte nutricional adequado (bem como suplementação, caso necessário),  possa atenuar a perda de massa muscular e preservar a capacidade funcional, sem  comprometer os benefícios cardiometabólicos do emagrecimento (1–3,7–9,11, 14,15, 17- 19). 

Um segundo cenário envolve indivíduos com obesidade sarcopênica,  caracterizados por baixa massa e força musculares associadas a excesso de gordura, em  quem intervenções convencionais de emagrecimento tendem a agravar o déficit  quantitativo e qualitativo musculoesquelético (2,3,6,11,20). Nessa população, revisitar o  uso terapêutico de esteroides anabólicos como adjuvantes visa mitigar a dinapenia e  favorecer ganhos de desempenho que se reflitam em maior autonomia, menor risco de  incapacidade e melhor qualidade de vida, desde que com seleção criteriosa e  monitorização sistemática (7,11,14,15). A lógica é semelhante à adotada em estados  catabólicos clássicos, como queimaduras, DPOC e doenças consumptivas, nos quais o anabolismo terapêutico demonstrou aumento de massa magra, melhora funcional e perfil  de segurança aceitável em regimes de dose moderada e duração limitada (7–9,11-13). 

Um terceiro cenário potencial é o de pacientes submetidos a intervenções de  emagrecimento mais intensas, como programas de restrição calórica agressiva ou  procedimentos bariátricos, balão intragastrico, que cursam com perda desproporcional de  massa magra ou queda funcional relevante no pós-intervenção, apesar de melhora de  marcadores cardiometabólicos (1–3,11). Evidências apontam que a cirurgia bariátrica  está consistentemente associada à perda significativa de massa livre de gordura,  especialmente nos primeiros meses após o procedimento, podendo representar  aproximadamente 12-22% do peso total perdido após a cirurgia (21-23). Nesses casos, a  consideração individualizada de um curso restrito de esteroide anabólico como parte de  um protocolo de reabilitação, combinando treinamento resistido, otimização proteico energética e monitorização clínica e laboratorial, pode ser plenamente justificável em  subgrupos selecionados (3,7–9,11). 

Uma moldura conceitual útil para evitar confusão entre prática médica legítima e  abuso recreativo é a taxonomia em quatro cenários, distinguindo reposição em  hipogonadismo, uso terapêutico em estados catabólicos ou de perda muscular, uso supra  fisiológico controlado para fins estéticos ou de performance e abuso caótico em doses  elevadas, frequentemente com polifarmácia e ausência de monitorização (10,11,24,25).  A proposta discutida neste artigo se insere explicitamente no segundo cenário, isto é, o  uso terapêutico de esteroides anabólicos para mitigar catabolismo e preservar massa e  função musculares em contextos de maior vulnerabilidade, extrapolado de forma racional  e científica para pacientes em tratamento da obesidade (1–3,7–11, 14,15). Manter essa  delimitação é central para interpretar riscos e benefícios e para evitar que intervenções  estruturadas, com dose moderada, duração limitada e monitorização sistemática, sejam  indevidamente equiparadas a práticas de abuso que concentram a maior parte dos eventos  adversos graves descritos (7–11, 24,25). 

Esses cenários ilustram que o possível lugar do anabolismo clínico durante  intervenções de perda de peso deve ser dirigido a perfis de maior vulnerabilidade  musculoesquelética, o que torna ainda mais importante explicitar, de forma equilibrada,  os benefícios potenciais e os riscos envolvidos (1–3,6–11,14,15).

Potenciais benefícios e riscos do uso terapêutico de esteroides anabólicos durante o  emagrecimento 

Os potenciais benefícios no contexto do emagrecimento derivam de três eixos  principais: preservação de massa magra, manutenção ou melhora de função física e  impacto favorável em desfechos clínicos intermediários, como risco de quedas,  incapacidade e hospitalizações (1–3,6,7–9,11,14,15,26,27). Em estados catabólicos  clássicos, como doenças consumptivas, insuficiência cardíaca, doença renal crônica,  cirrose, HIV, DPOC e queimaduras extensas, revisões e ensaios documentaram aumento  de massa livre de gordura, melhora de força e desempenho funcional e, em alguns  cenários, recuperação global mais favorável quando esteroides anabólicos foram  adicionados a estratégias nutricionais e de reabilitação (7–9,11,15,26,27). No fenótipo de  obesidade sarcopênica, ao mitigar a perda ou facilitar o ganho de músculo em indivíduos  com excesso de gordura e baixa massa magra, o anabolismo terapêutico pode contribuir  para interromper o ciclo de fragilidade, inatividade e piora progressiva de função,  especialmente em idosos (2,6,11,15,26,27). Extrapolada para o emagrecimento  farmacologicamente induzido, a hipótese é que cursos curtos e bem monitorizados de  esteroides anabólicos tornem a “qualidade” da perda de peso mais favorável em  subgrupos de maior risco, sem substituir o tratamento principal da obesidade (1–3,7– 9,11,26,27). 

Esses benefícios potenciais exigem contraponto com riscos reconhecidos, mesmo  em contextos terapêuticos. Alterações no perfil lipídico, elevação de enzimas hepáticas,  policitemia, retenção hídrica, efeitos androgênicos em mulheres e possíveis repercussões  cardiovasculares variam conforme molécula, dose e duração (7–11,26,27). Efeitos sobre  o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com supressão de produção endógena de  testosterona e repercussões sobre fertilidade, tornam-se especialmente relevantes em  indivíduos mais jovens ou em propostas de uso prolongado ou repetido, o que reforça a  necessidade de delimitar indicações, tempo e metas funcionais (7,10,11,26,27).  Diferenças farmacológicas entre fármacos implicam perfis distintos de risco hepático e  metabólico, demandando individualização da droga e evitando transposição acrítica de  protocolos prontos entre diferentes populações (7,9–11,26,27). 

Há ainda, infelizmente, desafios éticos e regulatórios, em um campo marcado por  estigma (especialmente entre profissionais da saúde) e histórico de abuso em doses muito acima das faixas terapêuticas, sem supervisão (10,11,28,29-31). A linha que separa uso  terapêutico de uso estético ou de performance torna-se difusa se critérios clínicos, metas  funcionais e limites de dose e duração não forem definidos e comunicados com precisão  (10,11,26,27). Para que propostas de anabolismo clínico durante intervenções de  emagrecimento sejam vistas sob o escopo ético adequado, é indispensável manter  indicações precisas, selecionando pacientes com risco real de perda funcional e assegurar  consentimento esclarecido, monitorização clínico-laboratorial sistemática e registro de  eventos adversos, reconhecendo que as inferências aqui discutidas são, em grande parte,  baseadas em evidência indireta (1,7–11,14,15,26,27). 

O Quadro 2 organiza, de forma prática, alguns cenários clínicos nos quais o uso  terapêutico de esteroides anabólicos poderia ser considerado como adjuvante durante o  emagrecimento, considerando o contexto de maior vulnerabilidade musculoesquelética. 

Quadro 2. Cenários clínicos em que o anabolismo terapêutico pode ser  considerado durante intervenções de perda de peso, destacando o risco principal em cada  situação, os objetivos funcionais do anabolismo clínico os componentes obrigatórios associados (exercício, nutrição e monitorização) e as principais precauções para  diferenciar uso médico legítimo de abuso supra fisiológico.

Considerando esse balanço entre possíveis ganhos morfológicos e funcionais e um  conjunto de potenciais riscos associados, é essencial reconhecer as limitações da  evidência específica disponível e as fronteiras do racional aqui proposto, a fim de evitar  extrapolações ou recomendações indevidas (1–3,7–11). 

Limitações e fronteiras do racional 

O racional científico e clínico, apresentado neste artigo, se apoia em boas  evidências, embora majoritariamente indiretas, derivadas de estudos observacionais sobre  obesidade sarcopênica e de ensaios clínicos com esteroides anabólicos em estados  catabólicos clássicos, como doenças consumptivas, DPOC, insuficiência cardíaca, doença  renal crônica, cirrose, HIV e grandes queimaduras (2,3,6–9,11,15,26,27). Não  encontramos, ao nosso melhor conhecimento, ensaios randomizados especificamente  desenhados para avaliar o uso terapêutico conjunto de esteroides anabólicos como  adjuvantes em intervenções farmacológicas ou cirúrgicas para perda de peso em pessoas  com obesidade, o que limita potencial inferência causal direta nesse cenário (1–3,7–9,11,  15,26,27). Assim, as propostas discutidas aqui devem, portanto, ser interpretadas como  hipóteses para intervenção clínica e como uma tentativa de organizar, de forma coerente,  peças de evidência científica dispersas em diferentes contextos clínicos (1–3,7–11,15,  26,27). 

Além disso, os riscos reconhecidos dos esteroides anabólicos, mesmo em  contextos terapêuticos, especialmente se pensados em longo período de utilização,  impõem fronteiras adicionais ao racional (14,15,26,27). Alterações no perfil lipídico,  potenciais efeitos cardiovasculares, eventos androgênicos em mulheres, impacto hepático  variável conforme a molécula e policitemia são aspectos que exigem seleção criteriosa de  pacientes, escolha criteriosa de fármacos e esquemas posológicos, e monitorização clínica  e laboratorial sistemática (7–11,26,27). A presença frequente de múltiplas comorbidades  em pessoas com obesidade, como diabetes, hipertensão e doença cardiovascular  estabelecida, amplia essa complexidade e reforça prudência necessária neste contexto  (1,7–11,14,15,26,27). Por fim, o histórico de estigma e abuso recreativo de esteroides  anabólicos requer uma distinção conceitual nítida entre uso médico legítimo, em dose moderada e duração limitada, monitoramento clínico e laboratorial, e práticas supra  fisiológicas voltadas a fins estéticos ou de performance, sem acompanhamento médico,  que concentram a maior parte dos eventos adversos graves descritos na literatura (7–11,  25,30,31). 

Conclusão 

A combinação entre obesidade, perda de massa muscular e envelhecimento cria  um contexto em que a qualidade da perda de peso se torna tão importante quanto a  quantidade de quilos eliminados. Em muitos pacientes, especialmente aqueles com baixa  reserva de massa magra ou fenótipo de obesidade sarcopênica, intervenções de  emagrecimento podem aprofundar o comprometimento musculoesquelético e acelerar a  perda funcional, mesmo quando produzem benefícios metabólicos relevantes. 

A experiência acumulada com esteroides anabólicos em doenças crônicas com  estados catabólicos e em quadros de obesidade sarcopênica sugere que, quando utilizados  de forma terapêutica, protocolada e monitorizada, esses fármacos podem contribuir para  preservar ou recuperar massa e função musculares em contextos de maior  vulnerabilidade. Extrapolar esse conhecimento para o tratamento da obesidade implica  considerar, de forma prudente e individualizada, a possibilidade de anabolismo clínico como complemento a estratégias farmacológicas e comportamentais de emagrecimento,  com foco em desfechos funcionais e de qualidade de vida. 

As ideias discutidas neste artigo não devem ser entendidas como uma  recomendação de uso rotineiro de esteroides anabólicos em pacientes com obesidade, mas  como um exercício conceitual, clínico e científico, que organiza, de forma crítica,  evidências indiretas e sugere possibilidades de tratamento otimizado. Mais do que propor  uma mudança imediata de prática, este texto busca recolocar o músculo e a funcionalidade  no centro da discussão sobre obesidade e abrir espaço para uma reflexão ponderada sobre  o lugar do anabolismo clínico no cuidado contemporâneo. A distinção rigorosa entre uso  médico legítimo e abuso recreativo de esteroides anabólicos é elemento essencial dessa  conversa, tanto para proteger os pacientes quanto para permitir que potenciais benefícios  terapêuticos sejam avaliados sem o peso de estigmas históricos. 

Referências 

1 – Reid KF, Bhasin S. Moving beyond the scale: musculoskeletal risks, evidence  gaps and emerging combination strategies to optimize the quality of weight loss  pharmacotherapy in older adults. Front Aging. 2025;6:1640030. Published 2025 Oct 24.  doi:10.3389/fragi.2025.1640030 

2 – Zamboni M, Mazzali G, Fantin F, Rossi A, Di Francesco V. Sarcopenic  obesity: a new category of obesity in the elderly. Nutr Metab Cardiovasc Dis.  2008;18(5):388-395. doi:10.1016/j.numecd.2007.10.002 

3 – Weinheimer EM, Sands LP, Campbell WW. A systematic review of the  separate and combined effects of energy restriction and exercise on fat-free mass in  middle-aged and older adults: implications for sarcopenic obesity. Nutr Rev.  2010;68(7):375-388. doi:10.1111/j.1753-4887.2010.00298.x 

4 – Crandall CJ, Yildiz VO, Wactawski-Wende J, Johnson KC, Chen Z, Going  SB, et al. Postmenopausal weight change and incidence of fracture: findings from WHI  Observational Study and Clinical Trials. BMJ. 2015;350:h25. doi:10.1136/bmj.h25 

5 – Beavers KM, Neiberg RH, Houston DK, Bray GA, Hill JO, Jakicic JM, et al.  Body weight dynamics following intentional weight loss and physical performance: the  Look AHEAD Movement and Memory Study. Obes Sci Pract. 2015;1(1):12-22. doi:10.1002/osp4.3 

6 – Batsis JA, Mackenzie TA, Barre LK, Lopez-Jimenez F, Bartels SJ. Sarcopenia,  sarcopenic obesity and mortality in older adults: results from NHANES III. Eur J Clin  Nutr. 2014;68(9):1001-1007. doi:10.1038/ejcn.2014.117 

7 – Orr R, Fiatarone Singh M. The anabolic androgenic steroid oxandrolone in the  treatment of wasting and catabolic disorders: review of efficacy and safety. Drugs.  2004;64(7):725-750. doi:10.2165/00003495-200464070-00004 

8 – Daga MK, Khan NA, Malhotra V, Kumar S, Mawari G, Hira HS. Study of  body composition, lung function, and quality of life following use of anabolic steroids in  patients with chronic obstructive pulmonary disease. Nutr Clin Pract. 2014;29(2):238- 245. doi:10.1177/0884533614522832.

9 – Ali YH. Nandrolone decanoate combats safely catabolism in human burns: a  new potential indication after recall many years later. Burns. 2021;[Epub ahead of print].  doi:10.1016/j.burns.2021.04.011. 

10 – Câmara LC. Possible Scenarios of Testosterone and Anabolic Androgenic  Steroids Use in and Outside Medicine. J Adv Med Med Res. 2024;36(11):363-369.  doi:10.9734/jammr/2024/v36i115646. 

11 – Viana DPC, Câmara LC, et al. Anabolic steroids in sarcopenic obesity: a  therapy worth revisiting. Zenodo. 2025. doi:10.5281/zenodo.15354141. 

12 – Câmara LC, Starling MA, Suzigan. EM. The Clinical Use of Anabolic  Steroid Oxandrolone for Burn Patients: A Review. J. Pharm. Res. Int. 2023, 35, 29–35. doi: 10.9734/jpri/2023/v35i367490 

13 – Câmara LC, Starling MA, Suzigan. EM. Oxandrolona Para Queimados:  Evidências De Revisões sistemáticas. Acta Fisiátrica, vol. 29, nº Supl.1, novembro de  2022, p. S40-S42. doi: 10.11606/issn.2317-0190.v29iSupl.1a204928.  

14 – Kochakian C. Handbook of Experimental Pharmacology 43: Anabolic  Steroids,Springer, United States; 1976. ISBN-13:978-3642663550. 

15 – Taylor W, Anabolic Therapy in Modern Medicine, McFarland, United States; 2002.ISBN-13: 978-0786412419. 

16 – Câmara, L. C., Starling, M. A., Canvilo, L. M.,Civile, V., & Moça, V. F. (2023).  Lean body mass in osteoporotic postmenopausal women treated with nandrolone decanoate:  A systematic search review. JAdv Med Med Res., 35(20): 105–113. doi:10.9734/jammr/2023/v35i205179 

17 – Câmara LC, Bastos CC, Tinoco-Volpe EF. (2012) Resistance training in frail  elderly: literature review.Fisioter. Mov, 25(2): 435-443. doi: 10.1590/S0103- 51502012000200021 

18 – Câmara LC, Santarém JM, Jacob Filho W. Atualização de conhecimentos sobre  a prática de exercícios resistidos por indivíduos idosos. Acta Fisiátrica 15(4):257-262. doi:  10.11606/issn.2317-0190.v15i4a103008.

19 – Câmara, L. C., & Dias, R. M. R. (2009). Suplementação de creatina: efeitos  ergogênicos e terapêuticos. Revista De Medicina, 88(2), 94-102. doi: 10.11606/issn.1679- 9836.v88i2p94-102. 

20 – Michels G, Mattos Rosa G, Renke G, Starling-Soares B on behalf of SBRAG  (Steatosarcopenia & Sarcopenia Brazilian Study Group). Steatosarcopenia: A New  Terminology for Clinical Conditions Related to Body Composition Classification. Life. 2024;  14(11):1383. doi: 10.3390/life14111383. 

21 – Nuijten, M., Eijsvogels, T., Monpellier, V., Janssen, I., Hazebroek, E., &  Hopman, M. (2021). The magnitude and progress of lean body mass, fat-free mass, and  skeletal muscle mass loss following bariatric surgery: A systematic review and meta analysis. Obesity Reviews, 23. doi: 10.1111/obr.13370. 

22 – Martínez, M., Meli, E., Candia, F., Filippi, F., Vilallonga, R., Cordero, E., et al. (2021). The Impact of Bariatric Surgery on the Muscle Mass in Patients with Obesity: 2-Year  Follow-up. Obesity Surgery, 32, 625 – 633. doi: 10.1007/s11695-021-05815-x. 

23 – Vaurs, C., Dimeglio, C., Charras, L., Anduze, Y., Rieu, M., & Ritz, P. (2015).  Determinants of changes in muscle mass after bariatric surgery.. Diabetes & metabolism, 41  5, 416-21. doi: 10.1016/j.diabet.2015.04.003. 

24 – Câmara LC. EFFECTS OF SUPRAPHYSIOLOGICAL TESTOSTERONE (200  MG/WEEK) DURING SEVERE CALORIC DEFICIT IN YOUNG MEN: BODY  COMPOSITION, MUSCLE FUNCTION, NEUROBEHAVIORAL OUTCOMES, AND  SAFETY. Revista ft 2025; 29 (150):45-46. doi: 10.69849/revistaft/pa10202509281045. 

25 – Escalante G; St Mart D; Câmara LC. Potential Cardiovascular Considerations of  Androgenic Anabolic Steroid Abuse for Enhanced Bodybuilding and Physique Competitors.  Strength and Conditioning Journal, September 2, 2025. doi:  10.1519/SSC.0000000000000931. 

26 – Basaria S, Wahlstrom JT, Dobs AS. Clinical review 138: Anabolic-androgenic  steroid therapy in the treatment of chronic diseases. J Clin Endocrinol Metab.  2001;86(11):5108-5117. doi:10.1210/jcem.86.11.7983

27 – Woerdeman J, de Ronde W. Therapeutic effects of anabolic androgenic steroids  on chronic diseases associated with muscle wasting. Expert Opin Investig Drugs.  2011;20(1):87-97. doi:10.1517/13543784.2011.544651. 

28 – Câmara LC. POR QUE O MEDO FALHA: LIMITES DAS TÁTICAS  ALARMISTAS E CAMINHOS HUMANIZADOS NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO  DO ABUSO DE ESTEROIDES ANABÓLICOS ANDROGÊNICOS, 2025; Revista  ft 29(151):24-25. doi: 10.69849/revistaft/fa10202510261524. 

29 – Câmara LC. ALÉM DA SUPERFÍCIE: DESAFIOS METODOLÓGICOS NA  AVALIAÇÃO DOS RISCOS DO USO DE ESTERÓIDES ANABÓLICOS  ANDROGÊNICOS, 2025; Revista ft 29(145):48-49. doi:  10.69849/revistaft/cs10202504270648. 

30 – Ayubi N, Kusnanik NW, Herawati L, Komaini A, Mutohir TC, Callixte C, et  al. Abuse of anabolic-androgenic steroids and adverse effects on human organ health: a  review. Biointerface Res Appl Chem. 2023;13(3):281–91. doi:10.33263/BRIAC133.281. 

31 – Abrahin OSC, Sousa EC. Esteroides anabolizantes androgênicos e seus  efeitos colaterais: uma revisão crítico-científica. Rev Educ Fis/UEM. 2013;24(4):669- 679. doi:10.4025/reveducfis.v24.4.17580.


1Diretor do Colégio Brasileiro de Medicina do Exercício e do Esporte E-mail: lucascc_med@hotmail.com. https://orcid.org/0000-0001-6329-2897