REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511182330
Lucas Caseri Câmara1
Resumo
A rápida expansão de fármacos antiobesidade, como agonistas de GLP-1 e coagonistas GIP/GLP-1, deslocou o foco do manejo de obesidade para perdas ponderais expressivas. Em adultos mais velhos e indivíduos com baixa reserva de massa magra, porém, a perda de peso frequentemente inclui redução de massa livre de gordura, piora de força e desempenho, e possíveis custos ósseos, elementos centrais para autonomia e qualidade de vida. Este artigo organiza um racional clínico-fisiopatológico para complementar intervenções de emagrecimento com “anabolismo clínico” (uso terapêutico, protocolado e monitorizado de esteroides anabólicos), sempre em combinação com treinamento de força e nutrição proteico-energética adequada. A proposta se apoia em evidências indiretas robustas de estados hipercatabólicos e do fenótipo obesidade sarcopênica, nas quais agentes como oxandrolona e decanoato de nandrolona demonstraram ganhos de massa magra e melhora funcional em regimes de dose moderada e duração limitada. Especificam-se cenários potenciais (idosos em farmacoterapia antiobesidade, obesidade sarcopênica estabelecida, perda desproporcional de massa magra após intervenções mais agressivas), critérios de seleção, metas funcionais e precauções para diferenciar uso médico legítimo de abuso supra fisiológico. Reconhecem-se limitações (escassez de ECRs específicos em obesidade com farmacoterapia conjunta; riscos androgênicos, metabólicos e cardiovasculares dependentes de molécula/dose/tempo) e a necessidade de monitorização clínico laboratorial sistemática. Em síntese, proteger músculo, osso e função durante o emagrecimento pode exigir estratégias combinadas nas quais o anabolismo clínico, em subgrupos bem selecionados, seja considerado adjuvante para otimizar a “qualidade” da perda de peso.
Palavras-chave: Obesidade; Sarcopenia; Esteroides Anabólicos; Perda de Peso; Composição Corporal.
Abstract:
The rapid uptake of anti-obesity pharmacotherapies, such as GLP-1 receptor agonists and GIP/GLP-1 co-agonists, has shifted obesity care toward substantial weight reduction. In older adults and individuals with low lean-mass reserve, however, weight loss often entails fat-free mass decline, strength and performance deterioration, and potential skeletal costs, determinants of independence and quality of life. This article articulates a clinical and pathophysiological rationale to complement weight-loss interventions with “clinical anabolism” (therapeutic, protocolized, and monitored use of anabolic steroids) alongside resistance training and adequate protein-energy nutrition. The proposal builds on indirect yet consistent evidence from hypercatabolic states and sarcopenic obesity, where agents such as oxandrolone and nandrolone decanoate have increased lean mass and improved function when used at moderate doses for limited durations. We delineate potential scenarios (older adults on anti-obesity drugs, established sarcopenic obesity, disproportionate lean-mass loss after intensive interventions), selection criteria, functional targets, and safeguards that clearly differentiate legitimate medical use from supraphysiologic, unsupervised abuse. We acknowledge key limitations (paucity of randomized trials specifically testing this adjunct in modern obesity pharmacotherapy; androgenic, metabolic, hepatic, and cardiovascular risks varying by molecule/dose/time) and emphasize structured clinical-laboratory monitoring. In sum, protecting muscle, bone, and function during weight loss may require combined strategies in which clinical anabolism, for carefully selected subgroups, is considered as an adjuvant to optimize the “quality” of weight reduction.
Keywords: Obesity; Sarcopenia; Anabolic Agents; Weight Loss; Body Composition.
Introdução:
O manejo da obesidade entrou numa nova era com o avanço de agonistas do receptor de GLP-1 e agonistas duplos, como coagonistas GIP/GLP-1, capazes de induzir perdas ponderais substanciais, mas os efeitos em idosos permanecem ainda pouco estudados e essencialmente centrados em desfechos de composição corporal e função física (1). Em adultos mais velhos, a perda de peso, seja intencional ou farmacologicamente induzida, tende a incluir redução concomitante de massa magra, um componente crítico para locomoção, capacidade funcional e saúde metabólica (1–3). Além do músculo, perdas de densidade mineral óssea e maior risco de fraturas também já foram descritos após emagrecimento em mulheres pós-menopausa, com aumento relativo do risco observado em análises do Women’s Health Initiative, sugerindo que a perda de peso pode ter um custo esquelético relevante em populações mais vulneráveis (4).
A noção de “qualidade” da perda de peso, entendida como reduzir gordura preservando massa magra e capacidade funcional, demanda estratégias combinadas que transcendam uma monoterapia farmacológica, integrando exercício estruturado, nutrição proteico-energética adequada e agentes que possam estimular o anabolismo ou reduzir o catabolismo muscular (1). O padrão assimétrico de reganho de peso, muito comum após intervenções mais agressivas de emagrecimento, como por exemplo a recuperação de massa magra inferior ao perdido e reganho desproporcional de massa de gordura, favorece trajetória para a obesidade sarcopênica e pode impor potenciais custos funcionais cumulativos, especialmente em uma população que envelhece (1,5,6). Em estudos de coorte com acompanhamento da capacidade funcional, as dinâmicas dos ciclos de perda e reganho de peso relacionaram-se à pior desempenho físico e maior vulnerabilidade, sustentando que intervenções multimodais devem considerar não apenas “quanto” se perde de peso, mas “como” se perde e se mantém o peso ao longo do tempo (5,6).
Considerando a importância dessa perda de massa livre de gordura que acompanha intervenções de emagrecimento, sobretudo quando a perda ponderal é mais acentuada, a necessidade de um enquadramento terapêutico que una estratégias antiobesidade com suporte anabólico parece logicamente consistente para proteger os alvos musculoesqueléticos sob risco (1–3,6,11). A literatura científica sobre esteroides anabólicos androgênicos (EAA) em estados catabólicos oferece provas de conceito robustas, como por exemplo a oxandrolona, que mostrou eficácia e perfil de segurança adequado em diversos contextos de depleção tecidual, com ganhos de massa magra e melhora funcional quando corretamente indicada e monitorizada (7,12,13). Compilados científicos e diversos ensaios clínicos em doenças crônicas catabólicas corroboram esse racional (14,15). Em doença pulmonar obstrutiva crônica, um estudo randomizado relatou melhora de composição corporal e qualidade de vida com esteroides anabólicos como adjuvantes, enquanto, em grandes queimados, a nandrolona decanoato, em regime controlado, atenuou o hipercatabolismo e favoreceu desfechos clínicos sem novos sinais relevantes de insegurança (8,9). Em conjunto, esses dados sugerem que, no contexto do emagrecimento, o anabolismo farmacológico terapêutico possa ser explorado como potencial estratégia auxiliar para preservar massa e função musculares em indivíduos com maior risco de sarcopenia, sem renunciar ao núcleo do tratamento da obesidade (1–3,7– 9,11).
A seleção de candidatos ao tratamento, fármacos e esquemas posológicos, contudo, devem priorizar perfis fisiopatológicos e metas funcionais claras, com preferência por agentes anabólicos que maximizem anabolismo e minimizem eventos adversos (7–11, 14,15). A experiência acumulada indica que EAA como a oxandrolona, oximetolona, decanoato de nandrolona estão mais alinhados com este perfil, dado a serem menos androgênicas e mais anabólicas comparativamente a testosterona (7,10,11,16), muito embora mantenham a necessidade de acompanhamento e controle clínico laboratorial de potenciais efeitos colaterais androgênicos e metabólicos. Em cenários de obesidade sarcopênica, a proposta de revisitar anabólicos como adjuvantes visa especificamente mitigar dinapenia e perda de desempenho, articulando ganhos de massa magra com resultados clinicamente significativos em função física, autonomia e qualidade de vida (2,6,11). Nesse contexto, a distinção conceitual entre reposição, uso terapêutico e abuso deve orientar tanto a elegibilidade quanto a comunicação científica, minimizando estigma e viés interpretativo e reforçando que se trata de uso médico legítimo, com objetivos e limites bem definidos, como dose e duração do processo terapêutico de anabolismo clínico (7,10,11).
Assim, a presente proposta de raciocínio clínico se apoia em evidências indiretas provenientes de estados catabólicos e de obesidade sarcopênica para sugerir que cursos curtos e bem monitorizados de EAA, em combinação com farmacoterapia antiobesidade, exercício e nutrição, podem ajudar a preservar massa e função musculares em subgrupos de maior vulnerabilidade (1–3,7–11, 17). Populações prioritárias incluem idosos com risco de sarcopenia, indivíduos com perda desproporcional de massa magra durante o emagrecimento e pacientes já com fenótipo de obesidade sarcopênica, nos quais desfechos de composição corporal, força muscular e desempenho funcional assumem papel central ao lado da segurança clínico-laboratorial (1–3,6,11,17). Este artigo de opinião não pretende oferecer recomendações prescritivas, mas organizar o racional fisiopatológico e clínico, bem como possíveis cenários de aplicação, para discutir se e como o anabolismo clínico pode ter lugar assertivo no cuidado contemporâneo da obesidade (1–3,7–11).
Por fim, ainda nesse contexto, compreender os mecanismos pelos quais o emagrecimento influencia a massa muscular, e de que forma o anabolismo clínico poderia atuar contrapondo efeitos indesejados, assim como a sarcopenia e a dinapenia, é fundamental para avaliar a possibilidade de utilização desta estratégia como potencial adjuvante terapêutico, a ser considerada em subgrupos específicos de pacientes com obesidade (1–3,6,7–11).
Racional fisiopatológico e clínico
A coexistência de excesso de tecido adiposo e redução de massa muscular define um fenótipo de maior vulnerabilidade clínica, associado a pior desempenho físico, maior risco de incapacidade e maior mortalidade em idosos (2,6,11). A obesidade sarcopênica representa precisamente essa interseção, combinando aumento de gordura, frequentemente visceral, com depleção de massa magra e força muscular, o que reduz a reserva funcional e limita a capacidade de resposta a estressores metabólicos e inflamatórios (2,6,11). Revisões sistemáticas mostram que intervenções de perda de peso baseadas em restrição calórica, embora eficazes para reduzir gordura e melhorar desfechos cardiometabólicos, são acompanhadas de perda relevante de massa livre de gordura, enquanto a adição de treinamento de força a atenua, mas não elimina completamente esse efeito em indivíduos de meia-idade e idosos (3,11,17,18). Em pacientes que já partem de um déficit de massa muscular ou de um fenótipo de obesidade sarcopênica, a indução de emagrecimento sem uma estratégia explícita de proteção do tecido magro tende a aprofundar o comprometimento da reserva musculoesquelética e a acentuar o risco de fragilidade e eventos adversos (1–3,6,11,17).
Do ponto de vista fisiopatológico, a perda de peso em pessoas com obesidade costuma evoluir em um ambiente de inflamação crônica de baixo grau, resistência anabólica ao consumo de proteína e ao exercício físico e, alterações hormonais que incluem padrões desfavoráveis para a manutenção de massa muscular, fenômenos descritos nas interfaces entre obesidade, envelhecimento e sarcopenia (2,3,11). Quando se associa a esse contexto uma restrição energética mais intensa ou prolongada, como em programas estruturados de emagrecimento ou com o uso de terapias farmacológicas potentes, o estado catabólico é amplificado, favorecendo a mobilização de proteína muscular como substrato energético e acelerando o declínio de massa e força muscular (1,3,11). Em estados clínicos de hipercatabolismo, como doenças consumptivas, doença pulmonar obstrutiva crônica ou grandes queimaduras, a introdução de esteroides anabólicos em regime terapêutico demonstrou capacidade de atenuar o balanço nitrogenado negativo, aumentar massa magra e melhorar desfechos funcionais, indicando que o músculo permanece responsivo quando se combinam estímulos adequados e suporte farmacológico dirigido (7–9,11-15).
Nesse cenário, emerge o conceito de anabolismo clínico como complemento racional às intervenções antiobesidade em subgrupos selecionados. Modelos de uso terapêutico de testosterona e outros esteroides anabólicos em contextos de catabolismo, dinapenia ou obesidade sarcopênica sugerem que é possível empregar essas drogas de forma protocolada, com dose moderada, duração limitada e monitorização sistemática, distinguindo claramente essa prática médica legítima do abuso recreativo em doses muito acima das faixas terapêuticas (7–11,14,15). Aplicada ao emagrecimento farmacologicamente induzido, especialmente em idosos, em pessoas com perda desproporcional de massa magra ou em fenótipo de obesidade sarcopênica, essa lógica sustenta a hipótese de que combinações entre farmacoterapia antiobesidade, exercício estruturado (preferencialmente o treinamento de força), suporte nutricional e esteroides anabólicos em regime terapêutico possam preservar músculo e função sem comprometer os benefícios metabólicos do tratamento principal (1–3,7–11, 14,15, 17,18).
Para sintetizar o conceito de “qualidade” da perda de peso e o possível lugar do anabolismo clínico nesse contexto, o Quadro 1 contrasta intervenções focadas apenas em quilogramas perdidos, especialmente monoterapias, com abordagens orientadas à preservação de massa e função musculares.

Quadro 1. Modelo conceitual que contrasta intervenções de perda de peso focadas apenas em quilogramas perdidos com abordagens centradas na qualidade da perda de peso. No primeiro caminho, a restrição calórica e/ou a farmacoterapia antiobesidade utilizadas de forma isolada podem reduzir gordura, mas também prejudicialmente reduzem massa e função musculares, favorecendo a evolução para obesidade sarcopênica em indivíduos vulneráveis. No segundo, a combinação de estratégias, incluindo exercício de força, nutrição proteico-energética e, em subgrupos selecionados, anabolismo clínico em regime terapêutico, busca reduzir gordura preservando massa e função musculares, com foco na manutenção da autonomia e qualidade de vida.
A partir desse racional, o passo seguinte é identificar em quais situações clínicas o anabolismo terapêutico poderia, em teoria, agregar proteção de massa e função musculares durante o emagrecimento, sem descaracterizar o núcleo do tratamento antiobesidade (1–3,6,7–11,14,15).
Cenários clínicos para o uso terapêutico de esteroides anabólicos durante o emagrecimento
A discussão sobre o uso terapêutico de esteroides anabólicos no contexto do emagrecimento deve partir de cenários clínicos bem delimitados, nos quais o benefício potencial em preservação de massa e função musculares seja relevante e plausivelmente superior aos riscos (7–11). A literatura sobre obesidade sarcopênica e estados catabólicos sugere que esse equilíbrio tende a ser mais favorável em indivíduos com maior vulnerabilidade musculoesquelética, como idosos com baixa reserva de massa magra, pacientes com fenótipo de obesidade sarcopênica e pessoas expostas a estresses adicionais (por exemplo doenças crônicas) que acentuam o catabolismo proteico (2,3,6,7– 9,11, 14,15). Nesses contextos, o anabolismo clínico, quando indicado de modo protocolado e monitorizado, não é uma estratégia cosmética, mas uma intervenção morfológica e funcional dirigida a atenuar a potencial perda de massa muscular e óssea, preservar ou recuperar desempenho físico, manter a autonomia e qualidade de vida (7–11).
Um primeiro cenário inclui idosos com obesidade que iniciam terapias farmacológicas antiobesidade e apresentam risco elevado de sarcopenia, seja por baixa massa magra basal, seja por trajetória prévia de perda de peso acentuado com comprometimento funcional (1–3,6,11). Nessa população, as perdas de massa livre de gordura associadas à restrição energética e ao tratamento farmacológico podem traduzir se em redução de força, piora no desempenho em testes funcionais e maior risco de quedas e fraturas, especialmente em mulheres pós-menopausa (1–5,11,14,15, 20). A hipótese é que um curso curto e bem monitorizado de esteroide anabólico, associado ao treinamento de força e suporte nutricional adequado (bem como suplementação, caso necessário), possa atenuar a perda de massa muscular e preservar a capacidade funcional, sem comprometer os benefícios cardiometabólicos do emagrecimento (1–3,7–9,11, 14,15, 17- 19).
Um segundo cenário envolve indivíduos com obesidade sarcopênica, caracterizados por baixa massa e força musculares associadas a excesso de gordura, em quem intervenções convencionais de emagrecimento tendem a agravar o déficit quantitativo e qualitativo musculoesquelético (2,3,6,11,20). Nessa população, revisitar o uso terapêutico de esteroides anabólicos como adjuvantes visa mitigar a dinapenia e favorecer ganhos de desempenho que se reflitam em maior autonomia, menor risco de incapacidade e melhor qualidade de vida, desde que com seleção criteriosa e monitorização sistemática (7,11,14,15). A lógica é semelhante à adotada em estados catabólicos clássicos, como queimaduras, DPOC e doenças consumptivas, nos quais o anabolismo terapêutico demonstrou aumento de massa magra, melhora funcional e perfil de segurança aceitável em regimes de dose moderada e duração limitada (7–9,11-13).
Um terceiro cenário potencial é o de pacientes submetidos a intervenções de emagrecimento mais intensas, como programas de restrição calórica agressiva ou procedimentos bariátricos, balão intragastrico, que cursam com perda desproporcional de massa magra ou queda funcional relevante no pós-intervenção, apesar de melhora de marcadores cardiometabólicos (1–3,11). Evidências apontam que a cirurgia bariátrica está consistentemente associada à perda significativa de massa livre de gordura, especialmente nos primeiros meses após o procedimento, podendo representar aproximadamente 12-22% do peso total perdido após a cirurgia (21-23). Nesses casos, a consideração individualizada de um curso restrito de esteroide anabólico como parte de um protocolo de reabilitação, combinando treinamento resistido, otimização proteico energética e monitorização clínica e laboratorial, pode ser plenamente justificável em subgrupos selecionados (3,7–9,11).
Uma moldura conceitual útil para evitar confusão entre prática médica legítima e abuso recreativo é a taxonomia em quatro cenários, distinguindo reposição em hipogonadismo, uso terapêutico em estados catabólicos ou de perda muscular, uso supra fisiológico controlado para fins estéticos ou de performance e abuso caótico em doses elevadas, frequentemente com polifarmácia e ausência de monitorização (10,11,24,25). A proposta discutida neste artigo se insere explicitamente no segundo cenário, isto é, o uso terapêutico de esteroides anabólicos para mitigar catabolismo e preservar massa e função musculares em contextos de maior vulnerabilidade, extrapolado de forma racional e científica para pacientes em tratamento da obesidade (1–3,7–11, 14,15). Manter essa delimitação é central para interpretar riscos e benefícios e para evitar que intervenções estruturadas, com dose moderada, duração limitada e monitorização sistemática, sejam indevidamente equiparadas a práticas de abuso que concentram a maior parte dos eventos adversos graves descritos (7–11, 24,25).
Esses cenários ilustram que o possível lugar do anabolismo clínico durante intervenções de perda de peso deve ser dirigido a perfis de maior vulnerabilidade musculoesquelética, o que torna ainda mais importante explicitar, de forma equilibrada, os benefícios potenciais e os riscos envolvidos (1–3,6–11,14,15).
Potenciais benefícios e riscos do uso terapêutico de esteroides anabólicos durante o emagrecimento
Os potenciais benefícios no contexto do emagrecimento derivam de três eixos principais: preservação de massa magra, manutenção ou melhora de função física e impacto favorável em desfechos clínicos intermediários, como risco de quedas, incapacidade e hospitalizações (1–3,6,7–9,11,14,15,26,27). Em estados catabólicos clássicos, como doenças consumptivas, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, cirrose, HIV, DPOC e queimaduras extensas, revisões e ensaios documentaram aumento de massa livre de gordura, melhora de força e desempenho funcional e, em alguns cenários, recuperação global mais favorável quando esteroides anabólicos foram adicionados a estratégias nutricionais e de reabilitação (7–9,11,15,26,27). No fenótipo de obesidade sarcopênica, ao mitigar a perda ou facilitar o ganho de músculo em indivíduos com excesso de gordura e baixa massa magra, o anabolismo terapêutico pode contribuir para interromper o ciclo de fragilidade, inatividade e piora progressiva de função, especialmente em idosos (2,6,11,15,26,27). Extrapolada para o emagrecimento farmacologicamente induzido, a hipótese é que cursos curtos e bem monitorizados de esteroides anabólicos tornem a “qualidade” da perda de peso mais favorável em subgrupos de maior risco, sem substituir o tratamento principal da obesidade (1–3,7– 9,11,26,27).
Esses benefícios potenciais exigem contraponto com riscos reconhecidos, mesmo em contextos terapêuticos. Alterações no perfil lipídico, elevação de enzimas hepáticas, policitemia, retenção hídrica, efeitos androgênicos em mulheres e possíveis repercussões cardiovasculares variam conforme molécula, dose e duração (7–11,26,27). Efeitos sobre o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, com supressão de produção endógena de testosterona e repercussões sobre fertilidade, tornam-se especialmente relevantes em indivíduos mais jovens ou em propostas de uso prolongado ou repetido, o que reforça a necessidade de delimitar indicações, tempo e metas funcionais (7,10,11,26,27). Diferenças farmacológicas entre fármacos implicam perfis distintos de risco hepático e metabólico, demandando individualização da droga e evitando transposição acrítica de protocolos prontos entre diferentes populações (7,9–11,26,27).
Há ainda, infelizmente, desafios éticos e regulatórios, em um campo marcado por estigma (especialmente entre profissionais da saúde) e histórico de abuso em doses muito acima das faixas terapêuticas, sem supervisão (10,11,28,29-31). A linha que separa uso terapêutico de uso estético ou de performance torna-se difusa se critérios clínicos, metas funcionais e limites de dose e duração não forem definidos e comunicados com precisão (10,11,26,27). Para que propostas de anabolismo clínico durante intervenções de emagrecimento sejam vistas sob o escopo ético adequado, é indispensável manter indicações precisas, selecionando pacientes com risco real de perda funcional e assegurar consentimento esclarecido, monitorização clínico-laboratorial sistemática e registro de eventos adversos, reconhecendo que as inferências aqui discutidas são, em grande parte, baseadas em evidência indireta (1,7–11,14,15,26,27).
O Quadro 2 organiza, de forma prática, alguns cenários clínicos nos quais o uso terapêutico de esteroides anabólicos poderia ser considerado como adjuvante durante o emagrecimento, considerando o contexto de maior vulnerabilidade musculoesquelética.

Quadro 2. Cenários clínicos em que o anabolismo terapêutico pode ser considerado durante intervenções de perda de peso, destacando o risco principal em cada situação, os objetivos funcionais do anabolismo clínico os componentes obrigatórios associados (exercício, nutrição e monitorização) e as principais precauções para diferenciar uso médico legítimo de abuso supra fisiológico.
Considerando esse balanço entre possíveis ganhos morfológicos e funcionais e um conjunto de potenciais riscos associados, é essencial reconhecer as limitações da evidência específica disponível e as fronteiras do racional aqui proposto, a fim de evitar extrapolações ou recomendações indevidas (1–3,7–11).
Limitações e fronteiras do racional
O racional científico e clínico, apresentado neste artigo, se apoia em boas evidências, embora majoritariamente indiretas, derivadas de estudos observacionais sobre obesidade sarcopênica e de ensaios clínicos com esteroides anabólicos em estados catabólicos clássicos, como doenças consumptivas, DPOC, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, cirrose, HIV e grandes queimaduras (2,3,6–9,11,15,26,27). Não encontramos, ao nosso melhor conhecimento, ensaios randomizados especificamente desenhados para avaliar o uso terapêutico conjunto de esteroides anabólicos como adjuvantes em intervenções farmacológicas ou cirúrgicas para perda de peso em pessoas com obesidade, o que limita potencial inferência causal direta nesse cenário (1–3,7–9,11, 15,26,27). Assim, as propostas discutidas aqui devem, portanto, ser interpretadas como hipóteses para intervenção clínica e como uma tentativa de organizar, de forma coerente, peças de evidência científica dispersas em diferentes contextos clínicos (1–3,7–11,15, 26,27).
Além disso, os riscos reconhecidos dos esteroides anabólicos, mesmo em contextos terapêuticos, especialmente se pensados em longo período de utilização, impõem fronteiras adicionais ao racional (14,15,26,27). Alterações no perfil lipídico, potenciais efeitos cardiovasculares, eventos androgênicos em mulheres, impacto hepático variável conforme a molécula e policitemia são aspectos que exigem seleção criteriosa de pacientes, escolha criteriosa de fármacos e esquemas posológicos, e monitorização clínica e laboratorial sistemática (7–11,26,27). A presença frequente de múltiplas comorbidades em pessoas com obesidade, como diabetes, hipertensão e doença cardiovascular estabelecida, amplia essa complexidade e reforça prudência necessária neste contexto (1,7–11,14,15,26,27). Por fim, o histórico de estigma e abuso recreativo de esteroides anabólicos requer uma distinção conceitual nítida entre uso médico legítimo, em dose moderada e duração limitada, monitoramento clínico e laboratorial, e práticas supra fisiológicas voltadas a fins estéticos ou de performance, sem acompanhamento médico, que concentram a maior parte dos eventos adversos graves descritos na literatura (7–11, 25,30,31).
Conclusão
A combinação entre obesidade, perda de massa muscular e envelhecimento cria um contexto em que a qualidade da perda de peso se torna tão importante quanto a quantidade de quilos eliminados. Em muitos pacientes, especialmente aqueles com baixa reserva de massa magra ou fenótipo de obesidade sarcopênica, intervenções de emagrecimento podem aprofundar o comprometimento musculoesquelético e acelerar a perda funcional, mesmo quando produzem benefícios metabólicos relevantes.
A experiência acumulada com esteroides anabólicos em doenças crônicas com estados catabólicos e em quadros de obesidade sarcopênica sugere que, quando utilizados de forma terapêutica, protocolada e monitorizada, esses fármacos podem contribuir para preservar ou recuperar massa e função musculares em contextos de maior vulnerabilidade. Extrapolar esse conhecimento para o tratamento da obesidade implica considerar, de forma prudente e individualizada, a possibilidade de anabolismo clínico como complemento a estratégias farmacológicas e comportamentais de emagrecimento, com foco em desfechos funcionais e de qualidade de vida.
As ideias discutidas neste artigo não devem ser entendidas como uma recomendação de uso rotineiro de esteroides anabólicos em pacientes com obesidade, mas como um exercício conceitual, clínico e científico, que organiza, de forma crítica, evidências indiretas e sugere possibilidades de tratamento otimizado. Mais do que propor uma mudança imediata de prática, este texto busca recolocar o músculo e a funcionalidade no centro da discussão sobre obesidade e abrir espaço para uma reflexão ponderada sobre o lugar do anabolismo clínico no cuidado contemporâneo. A distinção rigorosa entre uso médico legítimo e abuso recreativo de esteroides anabólicos é elemento essencial dessa conversa, tanto para proteger os pacientes quanto para permitir que potenciais benefícios terapêuticos sejam avaliados sem o peso de estigmas históricos.
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1Diretor do Colégio Brasileiro de Medicina do Exercício e do Esporte E-mail: lucascc_med@hotmail.com. https://orcid.org/0000-0001-6329-2897
