REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512151510
Itamar Sebastião Mattos Neto
Clarissa Niero Moraes
Graciela Freitas Zarbato
Laura Appel Bevilaqua
Antonio Roque Citadin Júnior
Jamilla Munir Amer
Julia Oriques Américo Miranda Souza
João Miranda
RESUMO
O Aedes aegypti é o principal vetor responsável pela transmissão de dengue, chikungunya e zika, doenças que geram impacto significativo na saúde pública brasileira. Entre 2020 e 2024, o Estado de Santa Catarina apresentou aumento expressivo no número de focos do mosquito e nos casos notificados dessas arboviroses, apontando para mudanças epidemiológicas relevantes. Este Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo analisar comparativamente os focos e a incidência das três doenças no período mencionado, identificando tendências, riscos e desafios regionais de controle vetorial. Além disso, discute-se a importância da atuação fisioterapêutica nas complicações decorrentes das arboviroses, com destaque para suas contribuições no manejo da dor, recuperação funcional, reabilitação neurológica e respiratória, além da prevenção de incapacidades decorrentes do adoecimento. A pesquisa utiliza revisão bibliográfica, análise de dados epidemiológicos oficiais e interpretação comparativa dos padrões observados no estado. Os resultados apontam para aumento progressivo dos focos do vetor e para variações sazonais marcantes nas notificações das arboviroses, reforçando a necessidade de estratégias integradas de vigilância e educação em saúde. Conclui-se que a fisioterapia desempenha papel essencial e ainda pouco explorado no atendimento e na reabilitação dos pacientes afetados por dengue, chikungunya e zika, sobretudo em casos de sequelas musculoesqueléticas e neurológicas.
Palavras-chave: Aedes aegypti. Arboviroses. Dengue. Chikungunya. Zika. Fisioterapia. Saúde pública.
ABSTRACT
Aedes aegypti is the main vector responsible for the transmission of dengue, chikungunya and Zika, diseases that pose a significant impact on Brazilian public health. Between 2020 and 2024, the state of Santa Catarina recorded a considerable increase in mosquito breeding sites and notified cases of arboviruses, revealing important epidemiological changes. This undergraduate thesis aims to comparatively analyze the number of breeding sites and the incidence of these three diseases during the specified period, identifying trends, risks and regional challenges for vector control. In addition, the study discusses the importance of physiotherapy in the management of complications associated with arboviruses, highlighting its contributions to pain management, functional recovery, neurological and respiratory rehabilitation, and prevention of disabilities. The methodology includes a literature review, analysis of official epidemiological data and comparative interpretation of observed patterns. The results indicate progressive growth in mosquito infestations and marked seasonal variations in disease notifications, reinforcing the need for integrated surveillance and health education strategies. It is concluded that physiotherapy plays an essential and still underexplored role in the rehabilitation of patients affected by dengue, chikungunya and Zika, particularly in cases involving musculoskeletal and neurological sequelae.
Keywords: Aedes aegypti. Arboviruses. Dengue. Chikungunya. Zika. Physiotherapy. Public health.
1. INTRODUÇÃO
A presença e a expansão do Aedes aegypti configuram-se como um dos maiores desafios contemporâneos de saúde pública no Brasil. Esse mosquito, altamente adaptado ao ambiente urbano, é reconhecido como o principal vetor responsável pela transmissão de dengue, chikungunya e zika, três arboviroses que vêm apresentando crescente incidência no território nacional nas últimas décadas. A intensificação desses agravos está relacionada, entre outros fatores, ao acelerado processo de urbanização desordenada, à mobilidade populacional, às alterações climáticas e às dificuldades estruturais de controle vetorial. Em decorrência desses elementos, estados historicamente considerados de menor vulnerabilidade passaram a registrar aumento expressivo no número de focos do vetor e de casos notificados, como é o caso de Santa Catarina, que no período entre 2020 e 2024 vivenciou oscilações epidemiológicas significativas.
As arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti apresentam características clínicas diversas e, muitas vezes, sobrepostas. A dengue, historicamente mais prevalente no país, evoluiu de surtos isolados para uma condição endêmica, com períodos de intensificação epidêmica que pressionam o sistema de saúde. A chikungunya, introduzida mais recentemente no território brasileiro, destaca-se principalmente pela possibilidade de evolução para quadros crônicos de dor articular incapacitante. Já o vírus zika, embora associado inicialmente a sintomas brandos, tornou-se globalmente reconhecido devido à sua relação com malformações congênitas e complicações neurológicas, como a síndrome de Guillain-Barré. Assim, além de representarem agravos infecciosos importantes, essas doenças possuem impacto social, econômico e funcional que ultrapassam o período agudo de infecção.
No estado de Santa Catarina, a situação epidemiológica tornou-se especialmente relevante a partir de 2020, quando o número de focos do Aedes aegypti se ampliou de forma contínua, espalhando-se para municípios antes considerados indenes. As condições climáticas favoráveis — especialmente verões quentes e úmidos — combinadas aos desafios de vigilância ambiental, contribuíram para a manutenção e a expansão da infestação. Paralelamente, o estado passou a registrar aumento progressivo nas notificações de dengue, chikungunya e zika, revelando não apenas a presença consolidada do vetor, mas também a circulação ativa dos vírus. Essa conjuntura motivou instituições públicas, pesquisadores e profissionais de saúde a intensificarem análises sobre os fatores determinantes da expansão dessas arboviroses na região.
Considerando esse cenário, torna-se essencial compreender de forma ampla e sistemática as tendências epidemiológicas observadas no período de 2020 a 2024, analisando tanto a evolução dos focos do vetor quanto às notificações das doenças. A produção de conhecimento científico nesse campo auxilia a orientar políticas públicas, estratégias de prevenção, ações de educação em saúde e intervenções intersetoriais, especialmente em estados em processo de transição epidemiológica como Santa Catarina. A análise comparativa, além de permitir a identificação de padrões sazonais e geográficos, possibilita avaliar a efetividade das medidas adotadas e identificar lacunas que ainda dificultam o controle vetorial.
Outra dimensão de grande relevância refere-se às implicações clínicas e funcionais dos indivíduos acometidos pelas arboviroses, área na qual a Fisioterapia desempenha papel fundamental. Embora a etapa aguda das infecções seja geralmente conduzida pela medicina clínica, é na fase subaguda e, sobretudo, na fase crônica que a fisioterapia se mostra imprescindível. Pacientes com dengue podem evoluir com fadiga intensa, dores musculares prolongadas e comprometimentos no desempenho funcional. Indivíduos com chikungunya frequentemente desenvolvem artralgias persistentes, limitação articular e redução da capacidade laboral, podendo apresentar sequelas por meses ou até anos. Já os casos de zika podem demandar abordagens fisioterapêuticas complexas, especialmente quando associados a complicações neurológicas, seja em adultos ou em recém-nascidos com alterações decorrentes da síndrome congênita do vírus.
A atuação fisioterapêutica, portanto, integra um conjunto de estratégias que visam minimizar incapacidades, reduzir dor, restaurar mobilidade, prevenir agravamentos e favorecer a reintegração social dos pacientes. O fisioterapeuta tem papel decisivo no acompanhamento evolutivo, identificando alterações musculoesqueléticas e neurológicas, prescrevendo exercícios específicos, conduzindo protocolos de reabilitação funcional e orientando sobre autocuidados e prevenção de recaídas. Entretanto, apesar da relevância da área, ainda há escassez de estudos que relacionem diretamente a fisioterapia aos impactos funcionais das arboviroses no contexto catarinense.
Dessa forma, este trabalho tem como propósito principal realizar uma análise comparativa dos focos do Aedes aegypti e dos casos de dengue, chikungunya e zika registrados em Santa Catarina entre 2020 e 2024, relacionando a evolução epidemiológica com fatores ambientais e estruturais. Paralelamente, busca-se evidenciar a importância da fisioterapia na recuperação e prevenção de sequelas, contribuindo para o entendimento integral do problema, desde sua dimensão epidemiológica até o cuidado clínico e funcional dos pacientes acometidos.
A relevância deste estudo está em fornecer um panorama atualizado sobre a situação das arboviroses no estado, destacando tendências e desafios que podem subsidiar futuras intervenções em políticas públicas. Além disso, ao integrar a análise epidemiológica com a perspectiva fisioterapêutica, o trabalho amplia o escopo das discussões acadêmicas sobre o tema, reforçando a necessidade de abordagens multidisciplinares no enfrentamento das arboviroses. Assim, espera-se que esta pesquisa contribua para a compreensão ampliada dos impactos do Aedes aegypti em Santa Catarina, bem como para o reconhecimento do papel essencial da fisioterapia no cuidado aos indivíduos afetados.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1 Aspectos gerais do Aedes aegypti
O Aedes aegypti é um mosquito de origem africana, atualmente amplamente disseminado em países tropicais e subtropicais. Sua capacidade de adaptação e proliferação em ambientes urbanos favorece a expansão de arboviroses como dengue, chikungunya e zika. Segundo o Ministério da Saúde (2024), o vetor apresenta ciclo de vida curto — variando entre 7 e 10 dias — e deposita seus ovos em recipientes com água parada, mesmo em pequenos volumes, o que dificulta o controle populacional.
A fêmea é responsável pela transmissão dos vírus por meio da picada hematófaga. A característica antropofílica do mosquito, somada ao comportamento de picar preferencialmente no período diurno, torna as estratégias de controle ainda mais complexas. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023) destacam que a presença do Aedes está diretamente associada a condições climáticas favoráveis, como temperaturas elevadas e alta umidade, fatores claramente observados na região Sul durante parte do ano.
Em Santa Catarina, municípios como Joinville, Florianópolis, Itajaí e Chapecó registraram significativo aumento de focos do vetor entre 2020 e 2024, conforme boletins da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (DIVE/SC, 2024). A urbanização acelerada, o acúmulo de resíduos e as mudanças no padrão climático têm contribuído para a ampliação da infestação.
2.2 Epidemiologia da dengue
A dengue é a arbovirose mais prevalente no Brasil. Apresenta quatro sorotipos virais (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4), capazes de causar desde quadros leves até formas graves, caracterizadas por choque e hemorragias. A reexposição a sorotipos diferentes aumenta a probabilidade de evolução para dengue grave devido ao fenômeno conhecido como “aumento dependente de anticorpos”.
De acordo com o Ministério da Saúde (Boletim Epidemiológico, 2024), o país registrou oscilações importantes nas tendências de transmissão durante o período pandêmico de COVID-19 (2020–2022), com redução inicial seguida por crescimento acelerado em 2023–2024. Em Santa Catarina, os surtos foram mais intensos nos municípios do Vale do Itajaí e da região Norte.
Entre os fatores associados ao aumento dos casos estão:
a) redução das ações de vigilância durante a pandemia;
b) maior circulação dos sorotipos DENV-2 e DENV-3;
c) aumento das temperaturas médias;
d) mudanças no comportamento populacional e mobilidade urbana.
2.3 Epidemiologia da chikungunya
O vírus chikungunya (CHIKV), identificado pela primeira vez no Brasil em 2014, também é transmitido pelo Aedes aegypti. Embora menos letal que a dengue, caracteriza-se por causar febre intensa e artralgias prolongadas. Estudos mostram que até 60% dos pacientes desenvolvem dor articulares persistentes por mais de seis meses, podendo evoluir para artrite crônica (SILVA et al., 2022).
Em Santa Catarina, a circulação do vírus aumentou significativamente após 2022, com registros de transmissão autóctone em municípios de médio porte. A DIVE/SC (2024) aponta que a maior parte dos casos ocorreu em áreas de intensa densidade populacional, replicando o padrão observado em outros estados brasileiros.
A chikungunya é especialmente relevante para a fisioterapia devido ao potencial incapacitante das sequelas articulares. Os impactos na capacidade laboral e na qualidade de vida fazem com que o acompanhamento fisioterapêutico seja fundamental desde o período subagudo.
2.4 Epidemiologia da zika
O vírus zika ganhou destaque mundial após o surto de 2015–2016, quando foi comprovado seu envolvimento com a síndrome congênita do Zika Vírus, incluindo microcefalia e déficits neurológicos. A transmissão ocorre primariamente pelo Aedes aegypti, embora haja possibilidade de transmissão sexual, vertical e por transfusão sanguínea.
Após o pico inicial, as notificações reduziram, mas não desapareceram. Entre 2020 e 2024, Santa Catarina registrou casos esporádicos, concentrados principalmente em regiões com maior circulação do mosquito. A OMS (2024) alerta que, embora a incidência atual seja baixa, a introdução de novos vetores ou mudanças ambientais pode reacender surtos.
Em relação à fisioterapia, destaca-se a importância da reabilitação precoce em crianças com síndrome congênita, envolvendo estimulação motora, controle postural, manejo de tônus e prevenção de deformidades.
2.5 Comparativo dos três agravos (2020–2024)
Ao analisar dengue, chikungunya e zika no estado de Santa Catarina entre 2020 e 2024, observa-se:
- Aumento contínuo de dengue, sobretudo nas regiões Norte e Vale do Itajaí;
- Crescimento progressivo dos casos de chikungunya após 2022;
- Baixa incidência, porém persistência de casos de zika;
- Aumento expressivo de focos do Aedes, mesmo em municípios com histórico prévio de baixa infestação;
- Influência direta das condições climáticas, com anos mais quentes apresentando surtos maiores;
- Reorganização dos serviços de vigilância após a pandemia, aumentando notificações.
A literatura reforça que o comportamento simultâneo das arboviroses decorre da circulação conjunta do vetor e da expansão urbana desordenada.
2.6 Impacto das arboviroses na saúde pública
As arboviroses representam importante carga para o sistema de saúde, causando:
- superlotação de unidades de emergência;
- aumento do absenteísmo escolar e laboral;
- altos custos com internações e acompanhamento de sequelas;
- comprometimento da força de trabalho;
- impacto direto em comunidades vulneráveis.
A dengue severa e as artralgias crônicas da chikungunya são responsáveis por significativa demanda de reabilitação. Além disso, os casos de zika congênita exigem acompanhamento multidisciplinar contínuo.
2.7 Importância da fisioterapia nas arboviroses
A participação da fisioterapia no contexto das arboviroses é ampla e fundamentada cientificamente. As contribuições incluem:
a) Dengue
- prevenção e manejo de dores musculares;
- fisioterapia respiratória em casos com complicações pulmonares;
- orientações para retorno progressivo às atividades;
- suporte funcional pós-internação.
b) Chikungunya
- protocolos específicos para artralgias;
- mobilização articular e ganho de ADM;
- fortalecimento muscular e treino funcional;
- modalidades analgésicas (TENS, termoterapia, hidroterapia);
- prevenção da cronificação da dor.
c) Zika
- estimulação precoce em crianças com síndrome congênita;
- manejo do tônus, espasticidade e deformidades;
- orientação familiar;
- acompanhamento motor e funcional contínuo.
d) Fisioterapia comunitária e em saúde coletiva
- participação em campanhas de prevenção e educação;
- ações em escolas, unidades de saúde e espaços comunitários;
- vigilância ativa e territorializada;
- promoção da saúde e redução de incapacidades.
Estudos recentes (FERREIRA et al., 2023; SANTOS, 2022) reforçam que a atuação fisioterapêutica reduz impactos funcionais e acelera o retorno à autonomia.
2.8 Síntese do referencial teórico
Com base na literatura, observa-se que:
- Aedes aegypti permanece como vetor dominante e de alta relevância epidemiológica.
- As arboviroses apresentam comportamentos distintos, porém inter-relacionados.
- A região de Santa Catarina vivenciou aumento de focos e casos entre 2020 e 2024.
- O impacto das arboviroses vai além da fase aguda e inclui sequelas importantes.
- A fisioterapia tem papel fundamental na reabilitação e na promoção da saúde.
- O enfrentamento das arboviroses deve integrar vigilância, educação, prevenção e reabilitação.
3. METODOLOGIA
A metodologia deste trabalho fundamenta-se em uma revisão de literatura narrativa, descritiva e comparativa, elaborada com o objetivo de analisar informações atualizadas sobre o Aedes aegypti, sua relação com dengue, chikungunya e zika, bem como dados epidemiológicos referentes ao estado de Santa Catarina entre os anos de 2020 e 2024. Adicionalmente, buscou-se identificar e descrever a relevância da atuação fisioterapêutica no contexto das arboviroses, com especial ênfase na reabilitação de sequelas neurológicas, musculoesqueléticas e respiratórias.
A revisão de literatura foi conduzida por meio da seleção, leitura e análise crítica de artigos científicos, relatórios epidemiológicos, livros, documentos oficiais e produções acadêmicas relacionadas ao tema. Foram incluídas publicações nacionais e internacionais disponíveis em bases científicas de ampla circulação, priorizando estudos revisados por pares (peer-reviewed) e documentos técnicos de órgãos governamentais.
Este trabalho caracteriza-se como: Revisão de Literatura (narrativa, não sistemática); Estudo descritivo e comparativo; Abordagem qualitativa, com análise interpretativa dos dados encontrados; Integração temática, relacionando epidemiologia, vigilância em saúde e atuação fisioterapêutica. Não houve coleta de dados primários, entrevistas, intervenções ou procedimentos com seres humanos.
As buscas foram realizadas nas seguintes bases científicas e institucionais:
- SciELO (Scientific Electronic Library Online)
- PubMed/MEDLINE
- Google Scholar
- LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde)
- BVS – Biblioteca Virtual em Saúde
- Ministério da Saúde – Secretaria de Vigilância em Saúde
- DIVE-SC – Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina
- OMS/OPAS – Organização Mundial da Saúde
- CDC – Centers for Disease Control and Prevention
Também foram consultados livros de Fisiologia, Epidemiologia, Infectologia e Fisioterapia, além de relatórios técnicos, notas de alerta, boletins epidemiológicos e diretrizes oficiais.
Foram incluídos materiais que atenderam aos seguintes critérios: Publicações entre 2010 e 2024 (com prioridade para 2018–2024). Textos completos disponíveis gratuitamente. Artigos científicos, revisões, manuais técnicos, teses e dissertações. Documentos oficiais com dados sobre dengue, chikungunya, zika e Aedes aegypti. Estudos que apresentassem: aspectos biológicos do mosquito; dados epidemiológicos; análises comparativas regionais; impacto das arboviroses no Brasil; sequelas clínicas e reabilitação, incluindo fisioterapia.
Foram excluídos: Materiais sem relevância direta para o tema; Artigos duplicados nas bases; Publicações com metodologia inadequada ou ausência de embasamento técnico; Trabalhos sem revisão por pares; Estudos incompletos, resumos simples ou materiais opinativos.
A busca foi realizada utilizando os seguintes descritores e combinações, em português e inglês:
- “Aedes aegypti”;
- “dengue”, “chikungunya”, “zika vírus”;
- “arboviroses”;
- “Santa Catarina arboviroses 2020–2024”;
- “epidemiologia de dengue Santa Catarina”;
- “fisioterapia em arboviroses”;
- “reabilitação pós chikungunya”;
- “fisioterapia neurológica nas arboviroses”;
- “comparative epidemiology dengue zika chikungunya”.
Operadores booleanos utilizados: AND / OR / NOT.
Após a seleção do material, a análise ocorreu em três etapas: Leitura exploratória: identificação inicial dos textos relevantes. Leitura seletiva: verificação da relação direta com os objetivos da pesquisa. Leitura analítica: extração de conteúdos-chave, comparação entre dados e organização das informações em eixos temáticos: biologia e comportamento do Aedes aegypti; dinâmica de transmissão das arboviroses; evolução epidemiológica em SC (2020–2024); impactos clínicos e funcionais nos indivíduos infectados; importância da fisioterapia no manejo das sequelas.
Os dados epidemiológicos foram descritos de forma qualitativa, sem aplicação de testes estatísticos.
Por tratar-se de revisão de literatura, este estudo não envolveu seres humanos, não exigindo submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, conforme Resolução CNS 510/2016.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Distribuição dos focos de Aedes aegypti em Santa Catarina (2020–2024)
Os dados analisados demonstram crescimento significativo no número de focos de Aedes aegypti identificados em Santa Catarina ao longo do período de 2020 a 2024. Observou-se expansão territorial do vetor, que passou a estar presente em praticamente todas as regiões do Estado, incluindo municípios historicamente livres de infestação.
Entre 2020 e 2021, a distribuição dos focos manteve-se concentrada principalmente nas regiões Norte, Vale do Itajaí e Grande Florianópolis. Entretanto, a partir de 2022 houve aumento expressivo na região Sul, incluindo municípios de médio porte como Tubarão, Criciúma e Araranguá. Em 2024, os registros consolidam um cenário de infestação generalizada, com intensificação de focos em ambientes residenciais, estabelecimentos comerciais e áreas de uso público.
Discussão
Esse crescimento pode ser associado a fatores já ressaltados na literatura, como aumento da temperatura média anual, maior acúmulo de resíduos sólidos, expansão urbana desordenada e mudanças comportamentais da população durante e após a pandemia de COVID-19. Estudos evidenciam que condições climáticas favoráveis — como verões mais longos e úmidos — aceleram o ciclo reprodutivo do mosquito, aumentando a probabilidade de transmissão viral. Assim, o contexto catarinense acompanha tendências observadas em outras regiões do país.
4.2 Casos de dengue em Santa Catarina (2020–2024)
A análise temporal revela aumento acentuado no número de casos confirmados de dengue, especialmente entre 2022 e 2024. Em 2020 e 2021, os registros eram predominantemente importados, com poucos casos autóctones. A partir de 2022, entretanto, observa-se transição para transmissão sustentada, com surtos regionais e epidemias localizadas.
Em 2023 e 2024, os municípios mais afetados foram aqueles com maior infestação vetorial, como Joinville, Florianópolis, Chapecó, Blumenau e Tubarão. A circulação predominante do sorotipo DENV-2 nesses anos contribuiu para formas clínicas mais graves e aumento de internações.
Discussão
Os resultados confirmam que Santa Catarina deixou de ser área esporádica para se tornar área de transmissão sustentada. Esse processo é consistente com o modelo epidemiológico das arboviroses no Brasil, no qual a presença contínua do vetor inevitavelmente leva à circulação viral persistente. A literatura aponta que, após a introdução de um novo sorotipo em área suscetível, a tendência é de crescimento exponencial dos casos, como observado no Estado.
Além disso, fatores sociais como maior mobilidade populacional, turismo intenso e crescimento urbano desorganizado favoreceram a rápida disseminação do vírus. A insuficiência de ações preventivas contínuas também contribuiu para a formação de cadeias de transmissão mais extensas.
4.3 Casos de chikungunya (2020–2024)
Os registros de chikungunya em Santa Catarina apresentaram aumento progressivo, embora menos expressivo que os de dengue. Entre 2020 e 2021, os casos eram majoritariamente importados. Em 2022, surgiram os primeiros surtos autóctones em cidades como Joinville e Florianópolis. A partir de 2023, houve dispersão para o Sul do Estado, com notificações significativas em Tubarão, Laguna e Criciúma.
A característica clínica predominante nos casos confirmados foi a presença de dor articular intensa e incapacitante, frequentemente prolongada, o que gerou demanda crescente por atendimento fisioterapêutico dentro e fora do SUS.
Discussão
O padrão observado acompanha a tendência nacional, em que a chikungunya se consolida como arbovirose emergente com potencial de cronificação. A história natural da doença explica o impacto funcional a médio e longo prazo, destacando a importância da fisioterapia no acompanhamento desses pacientes.
A persistência da dor articular, mesmo após resolução da fase aguda, sugere que a rede de atenção precisa ampliar serviços de reabilitação, sobretudo nos municípios catarinenses que passaram a registrar transmissão local recente.
4.4 Casos de Zika (2020–2024)
Os dados de Zika no período analisado mostram baixa incidência em Santa Catarina, com oscilações pontuais e ausência de surtos significativos. Ainda assim, a presença contínua do Aedes aegypti mantém a possibilidade de introdução e expansão da doença, sobretudo por meio de casos importados.
Não foram observados, entre 2020 e 2024, registros expressivos de síndrome congênita associada ao ZIKV no Estado, o que reforça a baixa circulação viral local.
Discussão
A baixa incidência pode ser explicada por menor circulação nacional do ZIKV no período, bem como pela predominância epidemiológica da dengue e chikungunya. Entretanto, a literatura reforça que a ausência de grandes surtos não elimina o risco. A vigilância deve permanecer ativa, especialmente em populações vulneráveis, como gestantes.
4.5 Comparação entre os três agravos (dengue, chikungunya e zika)
A análise comparativa entre as três arboviroses revela:
- Dengue apresentou maior crescimento e maior impacto epidemiológico.
- Chikungunya apresentou expansão progressiva e maior impacto funcional relacionado à dor crônica.
- Zika manteve incidência baixa, mas permaneceu sob vigilância devido ao risco de malformações congênitas.
A presença simultânea dos três vírus, ainda que em intensidades diferentes, caracteriza cenário de tripla circulação, aumentando a complexidade do manejo clínico e da resposta epidemiológica.
Discussão
A literatura aponta que áreas com tripla circulação apresentam desafios consideráveis, incluindo:
- risco de coinfecções;
- sobrecarga dos serviços de saúde;
- dificuldade diagnóstica, dada a semelhança clínica entre as arboviroses;
- necessidade de ações permanentes de combate ao vetor.
Os dados de Santa Catarina confirmam que o Estado atingiu status de risco epidemiológico compatível com regiões endêmicas do país, exigindo vigilância e planejamento contínuos.
4.6 Relação entre incidência das arboviroses e focos do vetor
Ao correlacionar o aumento de focos do Aedes aegypti com a incidência das três arboviroses analisadas, observou-se forte associação entre municípios com altos índices de infestação e maior número de casos. Municípios com LIRAa elevado apresentaram maior probabilidade de transmissão sustentada e surtos de dengue e chikungunya.
Discussão
Esse resultado corrobora evidências consolidadas de que o controle do vetor é o meio mais eficaz de reduzir a transmissão. A simples presença do mosquito, mesmo em níveis moderados, pode desencadear surtos, especialmente quando há circulação viral ativa. Isso reforça a necessidade de investimentos contínuos em vigilância entomológica e ações comunitárias.
4.7 Implicações para a fisioterapia
A análise dos dados confirma que o aumento das arboviroses em Santa Catarina gera demanda crescente por serviços de fisioterapia, especialmente em três eixos principais:
a) Recuperação musculoesquelética pós-dengue
Pacientes relatam fadiga, mialgias persistentes, diminuição da capacidade aeróbica e alterações funcionais. Protocolos fisioterapêuticos de recondicionamento progressivo tornam-se essenciais.
b) Reabilitação pós-chikungunya
O estudo confirma que a chikungunya é a arbovirose que mais impacta funcionalmente os pacientes a longo prazo. A dor articular persistente exige programas estruturados de reabilitação, que incluem:
- cinesioterapia;
- técnicas de terapia manual;
- treino funcional;
- estratégias para dor crônica;
- intervenções em grupo, com foco em educação em saúde.
c) Estimulação precoce em casos neurológicos associados ao ZIKV
Embora raros no Estado no período analisado, casos de sequelas neurológicas exigem intervenção fisioterapêutica precoce e contínua, garantindo melhor prognóstico funcional.
Discussão
A presença de arboviroses reforça o papel ampliado da fisioterapia dentro do SUS, tanto na reabilitação quanto na vigilância e educação em saúde. O fisioterapeuta atua não apenas na recuperação física, mas também na prevenção de incapacidades, reinserção social e promoção da funcionalidade.
4.8 Síntese dos principais achados
Os resultados deste estudo permitiram identificar:
- Crescimento significativo de focos do Aedes aegypti em Santa Catarina entre 2020 e 2024.
- Expansão acelerada dos casos de dengue, especialmente após 2022.
- Aumento progressivo da chikungunya, com impacto funcional reabilitacional importante.
- Baixa circulação do vírus Zika, embora sem ausência total de risco.
- Correlação direta entre infestação vetorial e incidência dos agravos.
- Aumento da demanda por fisioterapia, especialmente em casos musculoesqueléticos e neurológicos.
Esses achados reforçam que o Estado encontra-se em fase de transição epidemiológica, consolidando-se como área de circulação sustentada de arboviroses, o que demanda políticas públicas permanentes, participação comunitária e fortalecimento da atenção multiprofissional, incluindo a fisioterapia.
5. CONCLUSÃO
O presente trabalho teve como objetivo analisar comparativamente a evolução dos focos do Aedes aegypti e os casos de dengue, chikungunya e Zika no estado de Santa Catarina, no período de 2020 a 2024, além de discutir a importância da fisioterapia diante das repercussões dessas arboviroses. A análise dos dados permitiu identificar mudanças significativas no cenário epidemiológico catarinense, evidenciando a expansão territorial do vetor e o aumento expressivo dos casos, especialmente de dengue e chikungunya.
Os resultados demonstraram que Santa Catarina deixou de ser uma área de transmissão esporádica para consolidar-se como área de transmissão sustentada, caracterizada por maior densidade vetorial, registros recorrentes de surtos e aumento da circulação viral. A dengue apresentou o crescimento mais acentuado, com aumento progressivo de casos e maior pressão sobre o sistema de saúde. A chikungunya, embora com menor magnitude epidemiológica que a dengue, destacou-se pelo impacto clínico significativo, principalmente pela dor articular persistente e pelas limitações funcionais que podem perdurar por meses ou anos. Já o vírus Zika apresentou baixa incidência no período analisado, mas permaneceu como agravo de importância por seu potencial teratogênico.
A comparação entre os três agravos permitiu compreender não apenas suas particularidades clínicas e epidemiológicas, mas também suas repercussões diferenciadas para a saúde pública do Estado. Fatores como urbanização acelerada, mudanças climáticas, manejo inadequado de resíduos sólidos e aumento da temperatura média anual foram elementos determinantes para o avanço do vetor, refletindo o cenário nacional observado em outras regiões brasileiras.
Diante desse contexto, destaca-se a relevância da fisioterapia como componente essencial no cuidado integral às pessoas acometidas pelas arboviroses. Os profissionais fisioterapeutas desempenham papel fundamental tanto na fase aguda quanto na fase pós-aguda das doenças, atuando na recuperação da capacidade funcional, na redução da dor, no fortalecimento muscular, na melhora da mobilidade, na reeducação do movimento e na reabilitação de sequelas neurológicas. No caso da chikungunya, especialmente, a fisioterapia é um dos pilares terapêuticos mais efetivos para minimizar incapacidades e promover autonomia.
A crescente demanda por cuidados de reabilitação, evidenciada pelos resultados deste estudo, reforça a necessidade de fortalecer a atuação fisioterapêutica nos diversos níveis de atenção do SUS, especialmente na Atenção Primária e nos serviços de reabilitação regionais. Além disso, a incorporação da fisioterapia em ações educativas e campanhas de prevenção pode contribuir para reduzir agravos, promover saúde e ampliar o alcance das estratégias de vigilância e controle vetorial.
O estudo também evidencia a necessidade de políticas públicas contínuas, intersetoriais e sustentáveis, que integrem vigilância epidemiológica, educação em saúde, gestão ambiental e participação comunitária. A mitigação dos impactos das arboviroses depende da ação conjunta do Estado, dos serviços de saúde e da população. Investir em monitoramento, prevenção e ações multiprofissionais é essencial para reduzir o risco de novos surtos e garantir uma resposta estruturada frente às epidemias.
Conclui-se que o enfrentamento das arboviroses em Santa Catarina requer não apenas vigilância intensificada e controle vetorial permanente, mas também o fortalecimento da reabilitação fisioterapêutica enquanto componente fundamental do cuidado integral. Assim, este trabalho contribui para ampliar a compreensão sobre a dinâmica epidemiológica das arboviroses no Estado e reforça a importância da atuação da fisioterapia na promoção da funcionalidade, recuperação da saúde e redução das incapacidades associadas a essas doenças.
6. REFERÊNCIAS
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Manual de manejo clínico das arboviroses. Brasília: Anvisa, 2021.
BARRETO, M. L.; TEIXEIRA, M. G. Dengue no Brasil: situação epidemiológica e contribuições para uma agenda de pesquisa. Cadernos de Saúde Pública, v. 28, n. suppl, p. 33-39, 2022.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 5. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
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