REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311127
Gabriel Camacho Cantarelli
Bruna Arielli Cargnelutti Vilani
José Eduardo Aires Salbego
Maria Izabela De Giacometti Costa
Letícia Oliveira de Menezes
Gilda Maria de Carvalho
Abib El Halal
RESUMO
INTRODUÇÃO conceito de (HD) é o regime de assistência parcial que visa atender a demanda de pacientes que fica entre a internação e o regime ambulatorial, desde que seja por um período breve e que não necessite de internações prolongadas e aspirando a realização de procedimentos clínicos, exames, cirurgias oftalmológicas, diagnóstico e até mesmo a aplicação de alguns métodos terapêuticos. OBJETIVO é conhecer e analisar como ocorre o fluxo de acesso aos leitos de Hospital Dia na cidade de Pelotas/RS no ano de 2022. MÉTODOS pesquisa com um estudo exploratório qualitativo utilizando caso da cidade Pelotas/RS o qual se caracteriza por uma investigação empírica sobre o fenômeno contemporâneo complexo. RESULTADO desinformação de diferentes níveis que constituem o sistema. Estas deveriam informar corretamente a população sobre o acesso ao Hospital Dia ou onde conseguir informações precisas sobre esse constituinte tão importante na saúde contemporânea. CONCLUSÃO não há clareza sobre como acessar o fluxo de leitos dias na cidade de Pelotas/RS.
Palavras-chave: hospital dia, acesso aos serviços de saúde, procedimentos cirúrgicos eletivos, hospitalização, desinformação, gestão em saúde, Sistema Único de Saúde.
ABSTRACT
INTRODUCTION The concept of (HD) is the partial assistance regime that aims to meet the demand of patients who remain between hospitalization and outpatient treatment, as long as it is for a brief period and does not require prolonged hospitalizations and aspiring to carry out clinical procedures , exams, ophthalmological surgeries, diagnosis and even the application of some therapeutic methods. OBJECTIVE is to know and analyze how the flow of access to the beds of Hospital Dia in the city of Pelotas/RS occurs in the year 2022. METHODS research with a qualitative exploratory study using the case of the city Pelotas/RS which is characterized by an empirical investigation on the complex contemporary phenomenon. RESULT disinformation from different levels that constitute the system. These should correctly inform the population about access to the Day Hospital or where to get accurate information about this constituent that is so important in contemporary health. CONCLUSION There is no clarity on how to access the day bed flow in the city of Pelotas/RS.
Keywords: Access to health services; Elective surgical procedures; Hospitalization; Misinformation; Health management; Unified Health System (SUS).
INTRODUÇÃO
Em agosto de 1991 ocorreu a fundação do primeiro Hospital-Dia (HD) no Brasil, ideia mobilizada por um grupo composto por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, entre outros componentes. Tais profissionais uniram-se com o objetivo de ampliar a assistência fora dos hospitais e descentralizar o atendimento que era direto e superlotado em redes hospitalares, com auxílio de equipes multiprofissionais e com objetivo de tratar com maior qualidade e integralidade os pacientes internados em hospitais psiquiátricos1. Posteriormente diversos (HD) foram fundados, visando atuar não apenas na área da saúde mental, mas em diversos setores da medicina, assim ampliando suas áreas de atuação, atualmente o conceito de (HD) é o regime de assistência parcial que visa atender a demanda de pacientes que fica entre a internação e o regime ambulatorial, desde que seja por um período breve e que não necessite de internações prolongadas e aspirando a realização de procedimentos clínicos, exames, cirurgias oftalmológicas, diagnóstico e até mesmo a aplicação de alguns métodos terapêuticos.3
Na contemporaneidade, vivemos um dilema na implementação dos hospitais dias, onde a refutação da sua eficiência e também da sua real funcionalidade que é contestada ao analisar pacientes que antes eram obrigados a passar por internações prolongadas em hospitais convencionais.2 A modalidade de hospitalização parcial ganhou mais notoriedade em 1995 com a implementação pelo Ministério da Saúde em atendimentos envolvendo a saúde mental, mas ainda assim necessita de muito investimento, crescimento, divulgação, acesso e estudos. 3
Considerando as diversas possibilidades de atuação dos HD têm sido utilizados em diferentes modalidades: Schene et al classificaram-nos em quatro modalidades: (1) alternativos à hospitalização psiquiátrica; (2) continuidade à internação fechada; (3) extensão ao tratamento ambulatorial; e (4) reabilitação e apoio à crônicos. 3
A proposta dos HD abrange um dos caminhos para solucionar a superlotação que é frequente em tantos hospitais brasileiros que funcionam sob o regime convencional com tempos de hospitalizações, muitas vezes, maiores que o necessário.8 Devido aos períodos de internações que muitas vezes são prolongados de forma desnecessária, o custo para o Sistema Único de Saúde (SUS) entra em foco, juntamente com o risco dos pacientes de se contaminarem em ambientes hospitalares. Além disso, tem também como vantagem os custos reduzidos para o Sistema Único de Saúde (SUS) e de não privar o paciente do convívio familiar e de suas atividades habituais e rotina durante o tratamento.8 É de suma importância, destacar os aspectos positivos da cultura familiar em seu tratamento breve em um hospital dia e evidenciar a rede de apoio, nessa modalidade de assistência médica, que terá de se adaptar e vivenciar junto ao seu familiar doente o seu ir e vir e todo o tratamento nessa categoria, como forma de facilitar esse processo adaptativo de interação familiar, paciente e médico. 9
Além disso, o regime de tratamento Hospital Dia possui custo por tratamento menor quando comparado ao hospital convencional. Tem-se, por exemplo, o tratamento para esclerose múltipla que possui redução de 69,44% no custo de tratamento quando realizado por meio do sistema Hospital Dia.5
Para tal o objetivo deste estudo é conhecer e analisar como ocorre o fluxo de acesso aos leitos de Hospital Dia na cidade de Pelotas/RS no ano de 2022.
MÉTODOS
Optou-se como critério para a realização dessa pesquisa o estudo exploratório qualitativo, que tem como definição a realização de uma análise para a familiarização do pesquisador com o objeto que está sendo investigado durante a pesquisa, utilizando casos da cidade Pelotas/Rio Grande do Sul, o qual se caracteriza por uma investigação empírica sobre o fenômeno contemporâneo complexo dentro do seu contexto, principalmente quando existe uma linha tênue entre a definição dos limites em relação ao fenômeno e ao contexto (YIN, 2005).
Ponderando como objetivo deste estudo delimitou-se o campo de pesquisa o município de Pelotas/Rio Grande do Sul por ser referência para região, abrangendo uma série de localidades da redondeza, mais precisamente 21 cidades, contando com o próprio município de Pelotas, são eles: Amaral Ferrador, Arroio do Padre, Arroio Grande, Canguçu, Capão do Leão, Cerrito, Chuí, Herval, Jaguarão, Morro Redondo, Pedras Altas, Pedro Osório, Pinheiro Machado, Piratini, Rio Grande, Santa Vitória do Palmar, Santana da Boa Vista, São José do Norte, São Lourenço do Sul e Turuçu. Municípios estes que fazem parte da administração da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul Terceira Coordenadoria Regional. Tais municípios somados, juntamente com Pelotas possuem cerca de 845 mil habitantes.
O estudo abrangeu a gestão da Secretaria Municipal de Pelotas na análise do acesso ao fluxo de leitos do ano de 2022, sendo analisados o período entre janeiro a novembro, dispondo de fontes como protocolos de internações, diretrizes do ministério da saúde, gestores administrativos, gestores financeiros, secretarias municipais e estaduais e diretrizes políticas, com o intuito de compreender, analisar e comparar dados dessa localidade.
Foram realizadas diversas entrevistas não estruturadas apoiadas em um roteiro básico a fim de compreender com mais exatidão as diversas peças desse fluxo e estabelecer uma ordem lógica que vai desde o acesso a protocolos até chegar ao leito dia.
RESULTADOS
De acordo com informações coletadas de um gestor do setor financeiro de um hospital de Pelotas, existem três modalidades de internação, entre elas: ambulatorial, Hospital Dia e internação propriamente dita. O acesso ao serviço de HD é feito por meio do médico especialista, o qual analisa se o procedimento a ser realizado possui potencial para internação parcial ou se precisará de acompanhamento de longa permanência.
Algumas intervenções cirúrgicas efetuadas nesse setor e consideradas de menor complexidade possuem o prazo mínimo de 12 horas de internação a ser cumprido, recebendo em seguida uma alta breve e segura. Assim como há o número máximo de 24 horas de permanência em leito dia. Do mesmo modo, quando há complicações no procedimento, o paciente automaticamente é transferido para a área de internação prolongada, substituindo o método de regime anterior.
Foi informado que, ao implementar o hospital dia em um hospital da região de Pelotas, o quinto andar do prédio foi projetado para ser destinado a essa modalidade, no total eram doze leitos destinados à recuperação. Ao contrário da internação prolongada que possui camas para a reabilitação e estadia dos pacientes, no Hospital Dia, havia apenas poltronas disponíveis para o paciente recuperar-se enquanto esperava a alta, atualmente, essas são utilizadas para diálise.
O encaminhamento pode ser feito pelo ambulatório, Unidade Básica de Saúde e pelo Pronto Socorro. Neste último, em caso de urgência, avalia-se se o procedimento pode ser feito como internação parcial. Também, não é obrigatório a realização de exames para completar os procedimentos realizados no HD, somente via solicitação do profissional.
Ao analisar como ocorre o fluxo de acesso ao leito dia, questionando dentro de hospitais na cidade, despertou curiosidade e estranhamento o desconhecimento por parte dos profissionais e trabalhadores da saúde, de quais leitos são considerados hospital dia e porque, assim como da forma de acessar estes.
Ainda, para a investigação sobre o funcionamento e atendimentos do HD, a Secretaria Municipal de Saúde orientou que a Secretaria Estadual da Saúde teria mais informações sobre a modalidade. Todavia, como Pelotas possui gestão plena, esta última sequer trabalha com este setor.
Nota-se, portanto, a desinformação de diferentes níveis que constituem o sistema. Estas deveriam, pelo menos, informar corretamente a população sobre o acesso ao Hospital Dia ou onde conseguir informações precisas. Por exemplo na procura por dados em um hospital de referência da região de Pelotas – RS que consta como um dos hospitais que possuem leitos dias foi constatado que na realidade esses leitos são utilizados por outras demandas e nem se quer é de conhecimento da administração que há leitos de Hospital Dia no mesmo serviço de saúde.
Na tabela abaixo exemplificamos a quantidade de leitos que consta no cadastro nacional de estabelecimento em saúde, leitos esses que não são encontrados na prática dos serviços de assistência médica no município de Pelotas – RS.
Quadro 1 – Leitos de Hospital Dia
| Código | Descrição | Existente | Sus |
| 7 | Cirurgico/Diagnostico/Terapeutico | 19 | 14 |
| 69 | AIDS | 4 | 4 |
| Total Hospital Dia | 23 | 18 |
Fonte: CADASTRO NACIONAL DE ESTABELECIMENTOS EM SAÚDE. Disponível em: http://www.cnes.datasus.gov.br
DISCUSSÃO
Tal estudo tem como objetivo evidenciar que o acesso ao Hospital Dia, o qual não é considerado leito de recuperação, não é regulamentado como leito. Portanto ocorrendo através da ocupação natural, por meio do acesso ao leito dia conforme a demanda do hospital em si. No entanto, isso pode ocasionar opção de novos leitos ao próprio hospital, não havendo controle da Secretaria sobre o uso desses. Dessa forma, a dinâmica e evidente internação parcial não é encontrada no hospital em Pelotas/RS, uma vez que o fluxo de acesso não é compreendido, nem trabalhado de forma separada.
Por consequência, a implantação dos leitos dia aos demais hospitais teriam uma considerável economia nos recursos financeiros em relação aos gastos com internação prolongada e permanência de pacientes em leitos hospitalares, auxiliando na diminuição da superlotação no ambiente da saúde. Além disso, há a redução da taxa de infecção devido à ligeira estadia dos pacientes por curtos períodos. É imprescindível ressaltar também a importância da rede de apoio durante o processo de ir e vir do Hospital Dia.
CONCLUSÃO
Tendo em vista o estudo exploratório do acesso à internação ao Hospital Dia pôde-se constatar, a falta de clareza, concomitantemente, com a desinformação em relação ao acesso aos leitos do Hospital Dia e a enorme dificuldade de coletar informações referente ao mesmo.
Concluímos que os leitos de Hospital Dia da cidade de Pelotas/RS provavelmente são utilizados como leitos clínicos, mas na verdade eles são leitos que deveriam ser utilizados como meio intermediário entre hospitalização em serviço de saúde e regime ambulatorial com períodos de no mínimo de 12 horas e máximo de 24 horas, que busca evitar hospitalizações prolongadas e infecções durante a estadia hospitalar, reduzindo os custos para o Sistema Único de Saúde que sofre com gastos desnecessários que poderiam ser extramamentes reduzidos.
Além disso, é de suma importância destacar os malefícios que afetam os pacientes em não vivenciarem o atendimento via Hospital Dia pelo seus aspectos positivos da cultura familiar em seu tratamento breve e com ótimos resultados pelas redes de apoio estabelecidas, nesta modalidade de assistência médica, que irá combinar o tratamento dia com o vínculo familiar.
Ademais, foi observado que no município de Pelotas e nas demais cidades da redondeza é notória a dificuldade de descentralizar o atendimento hospitalar. A implementação de Hospitais Dia seria uma solução para a superlotação em redes hospitalares, tendo em vista a redução do período de internação, soma-se a isso o atendimento conjunto de equipes multiprofissionais, tornando o atendimento mais eficiente e efetivo.
Desse modo, o desconhecimento geral sobre a temática apresentada nesta análise é preocupante. Grande parte dos estudantes da área médica pouco entendem sobre o tema, assim como profissionais, por exemplo, médicos, enfermeiros, técnicos e demais profissionais atuantes em hospitais da cidade de Pelotas/RS. Mesmo em hospitais os quais em teoria possuem Hospital Dia, os funcionários de diversos setores pouco entendem sobre o tema ou até mesmo desconhecem a existência do mesmo, fato esse que necessita ser alterado, tendo em vista a série de benefícios já citados previamente que a instauração adequada dos leitos dia garantiria.
Pode-se afirmar que a gestão do Sistema Único de Saúde no município de Pelotas/RS pouco se esforça para entender e protocolizar o fluxo de acesso no sentido de aliviar os gastos e superlotações e de incorporar uma hospitalização com mais universalidade e integralidade. E, ao que parece, o tema levantado no estudo não foi assumido como prioridade da gestão municipal do período vigente.
Nesse sentido, julgamos que o enfrentamento desse problema exige grande disponibilidade e planejamento por parte dos gestores do Sistema Único de Saúde, incluindo a secretaria municipal de saúde. Para tanto, devem-se implementar ações articuladas, no âmbito da macropolítica, orientadas pelas necessidades de saúde dos cidadãos-usuários na implementação de leitos dias na cidade de Pelotas/RS.
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